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História

Trabalho com permacultura

História de: Amanda Frug
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/12/2014

Sinopse

A empreendedora social e permacultora Amanda Frug gravou sua história de vida no Museu da Pessoa em 09 de dezembro de 2014. Ela relembrou fatos de sua infância vivida parte no bairro do Itaim e parte na Vila Madalena. Falou sobre as escolas em que estudou e como se interessou na adolescência pelo xamanismo. Lembra como o pai largou uma promissora carreira de engenheiro para se dedicar à astrologia. Fala sobre a escolha do curso de graduação, Ecologia, do período de estudos em Rio Claro e do estágio que desenvolveu no fim do curso. Aos poucos nos conta o envolvimento com a permacultura e seu percurso profissional até a criação da ONG Humanaterra. Fala do primeiro casamento onde teve um filho e do atual relacionamento do qual nasceu o segundo filho. Por fim, descreve a parceria com a ONG Quintal Mágico, de Osasco, onde desenvolve projeto de permacultura com o apoio do Criança Esperança.

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História completa

Meu nome é Amanda Frug, nasci em 10 de dezembro de 1979, em São Paulo, capital. Meu pai é Sérgio Frug, nasceu no Rio de Janeiro. Minha mãe é Alejandra Conci, nasceu em Buenos Aires. Meu pai é astrólogo e terapeuta, minha mãe é artista plástica ceramista durante muitos anos, mas hoje em dia, de uns anos pra cá ela se dedica a fazer joias de prata e alumínio. Eles se conheceram na Contrap, que é uma empresa que meu pai trabalhava como engenheiro, e minha mãe deve ter feito um bico, porque eu não consigo imaginar a minha mãe trabalhando de secretária, nada a ver com ela, mas a história é que ela trabalhou de secretária um tempo e eles se conheceram nessa empresa. Minha mãe saiu logo, meu pai ficou bastante tempo lá. Ele só saiu de fato quando ele resolveu largar a engenharia. Eu sou filha única. Meus pais se separaram muito rápido, acho que eu tinha uns dois anos.  A minha infância, até uns dois anos e meio, até esse momento em que eles se separaram, eu morei em casa mesmo.

É uma época da minha vida dos três aos nove anos, que eu me divertia horrores na escola, amava a escola que eu estudava, que se chamava Novo Horizonte, era uma escola construtivista ali em Pinheiros, que não existe mais, mas estudei dez anos lá e foi maravilhoso. Quando eu mudei pra Vila Madalena, com nove anos, minha vida se transformou completamente. Mudei com a minha mãe, continuei num apartamento, mas era perto da escola, que eu amava a escola, então muitos amigos meus moravam naquele bairro. A Vila Madalena, aquele espírito totalmente diferente do Itaim, o Itaim já era trânsito, tal, que agora a Vila Madalena também, mas naquela época ainda dava pra jogar vôlei, andar de skate, brincar de taco ali na rua, então curti muito a rua mesmo. Fiz amigos do quarteirão e ficava na praça, fiz amigo com a rua inteira.

Eu fui pra Humanas, porque eu me considero uma pessoa de humanas total. Se tiver que compartimentar, me considero bem mais Humanas do que qualquer outra coisa. Mas essa ligação com a natureza me fez querer estudar mais a natureza cientificamente, entender mais como funciona. A Ecologia apareceu assim por acaso. Nada é por acaso, mas assim, conheci um cara que fazia Ecologia, eu decidi: “Então é isso que eu vou fazer”. Eu passei, eu fui fazer. Essa mudança foi muito legal. Mudei pra Rio Claro, cortei total relações com a galera de São Paulo. Quanto ao estágio, eu não conseguia encontrar um estágio que fosse do meu interesse. O pessoal da capoeira começou a levar as crianças pra capoeira. Eram umas crianças que meio assim, mãe está trabalhando, não pode ficar, então eles ficavam ali brincando. O pessoal da capoeira: “Pô, vamos incluir, vamos fazer um trabalho com essa moçadinha, vamos levar lá pra jogar capoeira”. E eu juntei tudo isso na minha cabeça, falei: “Meu, quer saber? Eu vou tentar fazer um estágio aqui”. Porque eu já queria trabalhar com criança. Na verdade, no meu primeiro ano de Rio Claro, eu já fui ser voluntária num orfanato, que foi legal por um lado, por outro lado foi punk, saí de lá porque não aguentei emocionalmente. Nunca tinha chegado tão perto dessa realidade de criança abandonada. Eu cresci classe média, burguesinha, né? Meu marido me zoa, porque ele é “perifa” total, e eu burguesinha total. Nunca fui rica, mas cresci assim. Então nunca tinha chegado tão perto dessa realidade.

Eu fiz uma manobra, eu fui conversar com uma mulher da Educação Física, que dava uma disciplina na pós-graduação, que era de atividades lúdicas. Esse nome eu adorei. Falei: “Nossa, atividades lúdicas, acho que isso tem a ver comigo”. Eu fui lá fazer a disciplina. A mulher mais faltava do que ia. Bom, tudo bem, só de ela assinar que eu vim está bom pra mim, que eu estou precisando disso. Como eu estava me formando em Ecologia, mas eu já sabia que eu queria trabalhar com criança e com educação, eu precisava de currículo. Precisava de alguma coisa no meu currículo que não fosse só Ecologia. Precisava de alguma experiência iniciática nesse campo da educação. E eu conversei com ela, falei que eu queria fazer um estágio assim, assado. Eu inventei meu estágio: “Olha, eu quero ir duas vezes por semana nessa comunidade, nesse espaço, desenvolver atividades de educação ambiental e brincadeiras. Como? Eu vou plantar, vou brincar, vou fazer um boizinho com eles”. Eu já estava no Boi, então minhas amigas do Boi toparam me ajudar a montar um boi com as crianças, tal

Quando eu saí de Rio Claro, eu já estava com o Rodrigo, que foi o meu segundo companheiro. Então eu fui com ele pra Botucatu sem nenhuma perspectiva assim, fui porque ele arrumou um trampo. E em Botucatu, eu não lembro se eu consegui trabalhar, eu lembro que a gente montou um Boi também lá, mas assim, não era remunerado. Fiz um trabalho ali, fui dar aula na Escola Waldorf em Botucatu, eu fiz dois trabalhos de montar dança com as crianças na escola, mas assim, freela, coisa de montar dança pra festa junina. Produzi acho que meu primeiro curso de permacultura que eu produzi profissionalmente, assim, ganhando pra produzir. Porque eu já tinha produzido alguns em semana de estudos da ecologia dentro da faculdade, eu não pensava em cobrar, fazia ali dentro da faculdade. Foi também nesse ano, 2004. Então eu tive umas pequenas experiências profissionais e engravidei. E deu uma pausa assim de trabalho, porque mudou muito. Ele tinha entrado no mestrado da USP, queria ir fazer mestrado, sem nenhuma perspectiva de bolsa, então assim, a gente vai viver do quê? Resumindo, voltei pra casa da minha mãe, de barriga, com o marido.

Quando eu terminei com o Rodrigo, ele voltou pra Piracicaba. Meu pai tinha um apartamento que a gente estava tentando vender, e finalmente conseguimos vender, então a gente comprou uma casinha ali perto da minha mãe. E eu: “Ai, não acredito”. Bom, quando o Miguel tinha um ano e meio, dois anos, comecei na Toca da Raposa, que era um lugar que recebia escolas pra fazer projetos de educação ambiental também. Era freela, mas eu ia toda semana. Então eu comecei a respirar e falar: “Cara, eu acho que eu vou conseguir trabalhar”. Vagou uma vaga de professor para o período integral, então assim, não precisava ter Pedagogia, que eu não tenho, e era um esquema de ficar com as crianças. As crianças que ficavam período integral tinha um professor que ficava com elas à tarde. E era perfeito pra mim, porque não tinha compromisso de alfabetizar de nada, podia fazer o que eu quisesse assim. Então foi ótimo. Fui pra lá, o Miguel teve bolsa de estudo lá, porque fui contratada no Grupo Oficina. Tive o segundo filho sete anos depois. Minha vida mudou bastante, eu separei do Rodrigo, e na Toca da Raposa eu conheci o Bruno, meu atual marido, e a gente se deu muito bem trabalhando, eu sempre o admirei muito.  A gente casou faz três anos agora. Então eu falava: “Pô, vai ser legal ter um casal”. Veio um menino, o Vicente.

Como já tinha me formado, era mais velha, não sei que, fui ser coordenadora. O meu perfil é mais de coordenação, e o dele não é de coordenação. Mas, imagina, marido e mulher, por mais que a gente seja nova era, não existe, é difícil. É difícil ser coordenado pela esposa, é difícil coordenar marido. E a gente estava acomodado, porque era um salário, era perto de casa. Era um projeto maravilhoso, a gente ganhou prêmio do Itaú, virou livro, eu escrevi um livro a respeito desse projeto, tem um vídeo muito bacana, que até hoje dá retorno pra gente, que está no YouTube, vira e mexe alguém vê e comenta, virou muito trabalho pra gente também depois do vídeo. O nome era Programa Fonte Escola. E foi quando a gente começou a trabalhar com horta escolar de fato, com formação de educadores. Então para o meu desenvolvimento profissional, o Fonte Escola deu um super up assim. Porque eu entrei como educadora, um ano depois eu virei coordenadora. A gente era patrocinado, então a gente oferecia o serviço de graça. Foi fantástico, foi lindo. A equipe que a gente tinha era uma equipe muito bacana, de educadores também superafim de mudar o mundo, essa ideologia toda. Depois veio o Hortas Escolares, que é a formação de educadores, dentro do mesmo programa a gente começou a trabalhar com os educadores e começou a acompanhar iniciativas de horta nas escolas que queriam, com assistência técnica, com apoio pedagógico. Cresci muito profissionalmente nesse período, foram quatro anos. E nisso, a Humanaterra, que é a ONG que eu sou fundadora hoje, que foi fundada em 2014, esse ano, ela já existia desde que eu comecei a fazer alguns trabalhos com o Bruno lá no Grupo Oficina, ainda em 2006.

Eu fui usando a permacultura cada vez mais na minha vida profissional, no desenvolvimento do Horta Escolar, lá dentro do programa Fonte Escola, plantando nas escolas, revitalizando espaços. O Pete sempre ajudando, sempre contribuindo. Bom, depois que já tinha terminado, o projeto acho que foi 2012, eu acho, que a Ju mandou um e-mail pra mim por conta de outra história, que é a escola que o Miguel estuda. Ela queria conhecer a escola e é uma coisa Waldorf, chama Escola Aguaí, que foi fundada pelos pais. Aí comecei a desenvolver projeto com a Quintal Mágico. Em 2013 ainda, alguns apoios menores, e pra 2014, a gente conseguiu o Criança Esperança. O projeto chama Uma floresta em nosso quintal. Por que uma floresta em nosso quintal? Justamente porque era isso que a escola estava querendo, era isso que a gente estava precisando, a gente tinha um quintal árido, com um solo empobrecido, muito sol, não tinha sombra, crescia uma grama, grama esmeralda que a gente chama, que é uma grama resistente, mas ela não é muito agradável ao tato, assim, pra você sentar na grama, pisar. Não é aquela graminha gostosa. E muito entulho ainda, muito pedregulho e tal. E a gente sonhava em ter uma floresta pra ter árvores que deem sombra, que possa brincar embaixo delas e também pra ter uma produção de alimentos. Então assim, a gente chamou de floresta, mas na verdade é uma mistura de floresta, com jardim, com horta, com pomar e tal. E floresta também porque o sonho era vê-lo todo povoado de plantas e ambientes gostosos criados pelas plantas para as crianças poderem usar bastante, ficar bastante fora. Eu precisava de uma ação no quintal, de revitalização do espaço mesmo, cuidar do solo, trazer plantas, trazer sombra, tirar entulho, tirar lixo, permanentemente. E precisava de uma ação com as educadoras, que estavam com medo de levar as crianças lá fora, porque era um ambiente muito hostil. Então eu desenhei o projeto com esses dois eixos acontecendo em paralelo e eles se encontram.

O projeto existiu em 2014 por conta do Criança Esperança. Se não fosse o Criança Esperança, talvez tivesse tido alguma outra fonte, talvez ele não tivesse existido, ou não com esse peso que ele pôde ter, com essa equipe, que sou eu, o Pedro, o Pete, com as saídas que as meninas fizeram de formação, de visitar outros espaços, as alimentações que a gente pôde ter nos encontros de formação, que foram riquíssimas, todos os insumos, planta, adubo, ferramenta... Então toda essa parte pra revitalizar o quintal mesmo, todas as ferramentas, os materiais necessários, muitos materiais pedagógicos também, que nem pazinhas, baldes, enfim, diversidade de coisas que a gente tem. Quando saiu a resposta do Criança Esperança, a gente também parou de procurar, falamos: “Não, agora vamos focar no projeto”. Como a equipe é a mesma, tipo, eu estou fazendo projeto, mas ao mesmo tempo eu estou captando recurso, então nesse começo de projeto eu esqueci um pouco a captação, mergulhei no projeto pra fazê-lo engrenar. E engrenou super bem, graças a Deus. Então foi importantíssimo nesse sentido. Em 2013, que a gente não tinha o recurso, o projeto já tinha começado, mas eram verbas menores, então a gente conseguia pagar os profissionais, mas os recursos como ferramenta, insumo, tal, eram bem difíceis, a gente conseguiu de pouquinho em pouquinho, tal. Com o Criança Esperança, a gente conseguiu pegar bastante muda, fazer uma revitalização do solo bem forte mesmo, plantar bem, tal, então deu muita diferença, então foi fundamental.

Eu vejo muito os benefícios, muitas áreas de importância. Primeiro, nessa parte de educação mesmo, a criança tem um vínculo com a natureza natural. E você vê o Quintal. Você tira uma foto, é um contraste absurdo aquele quintal verde naquele morro cinza, todo mundo superapertado ali. Então é um exemplo pra essa região de que dá pra ser assim, de que não depende de tanto dinheiro. A gente fez uma parceria com a Secretaria de Meio Ambiente e ela doou muita muda. E a gente descobriu que é fácil eles doarem muda. E a gente começou a falar para os pais: “Gente, não precisa gastar dinheiro, não. Terra e adubo tem aqui, vocês podem pegar um pouco daqui. Arruma um caixote, um galão, vai ali no viveiro municipal, pede uma doação, troca pelo seu lixo reciclável”. Não está tão difícil a gente melhorar nossa qualidade de vida, depende de a gente querer um pouco, as soluções estão aí.

 

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