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História

Trabalho árduo

História de: Regina Fleider
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Infância na Rússia. Migração da família para a Polônia e depois para São Paulo. Trabalho com os pais em vendas de tecidos e confecções em domicílio. Lembranças da escola e conciliação entre os estudos e o trabalho. Casamento e trabalho na loja de capas e guarda-chuvas de propriedade do marido. Perfil do consumidor e formas de embalagem. Desenvolvimento da indústria de guarda-chuvas. Prazer no atendimento ao público. Avaliação da imagem do comerciante e do registro de seu depoimento. Sonhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Regina Fleider, eu nasci em 4 de fevereiro de 1949, num lugar chamado Usolje, que é uma região perto dos Montes Urais, na Rússia. Meu pai se chamava Hersz Rosenfeld e ele nasceu na Rússia, não sei bem a cidade. Minha mãe se chama Dora Rosenfeld, nasceu na Polônia. FAMÍLIA Nós somos em três irmãos. Eu, um irmão e uma irmã. INFÂNCIA Depois da cidade que eu nasci, nós fomos morar numa outra chamada Djankoy, que é na parte da Crimeia e, como todo mundo na Rússia, estudávamos em escola estadual. Meu pai era zootécnico veterinário do governo e as lembranças que eu tenho, talvez por ser a caçula da família, são muito boas. A gente morava num tipo de um sítio. Então tinha casa, tinha horta, tinha pomar, tinha vaca, galinha, ganso, porco, tudo o que você queira tinha lá. Então foi uma infância bem saudável. A gente estudava e eu, como era pequena, brincava. À tarde, eu ia buscar vaca no pasto com o meu irmão e era bem, bem gostoso. INFÂNCIA Eu, particularmente, não lembro de ter um amiguinho de infância. Eu era muito ligada ao meu irmão, onde ele ia, eu ia atrás. A gente ia ao cinema de domingo, esporadicamente, e eu estava sempre grudada no meu irmão. As brincadeiras da gente acho que não tinha muita, porque no fim você passa a ter os afazeres da casa, ajudar a mãe com as vacas, ela tirava o leite, o meu irmão ia entregar e eu ia junto, dar comida pros patos, pros gansos. A brincadeira mais gostosa era no inverno que era patinar, o que eu nunca consegui. CASA DE INFÂNCIA Era uma casa, no meio de um terreno grande que na frente tinha um pessegueiro, tinha rosas, aí tinha a casa e no meio tinha todos os bichinhos e mais pro fundo que era a horta, então a gente plantava cenoura, tomate, pepino, batata, tudo que era pra uso da casa mesmo. A única coisa que a minha mãe comercializava era o leite, porque a vaca produzia muito, então ela deixava o que era necessário para casa e o que sobrava a gente ia vender. Vendia para os vizinhos que por acaso não tivessem as suas próprias vacas. Era um sistema da fonte pro pote, do pote pro freguês, não tinha aquela pasteurização, tanto é que eu fui criada com leite puro de vaca, da fonte pra boca. IMIGRAÇÃO PARA A POLÔNIA Nós moramos nessa casa até 1957 e foi quando nós imigramos pra Polônia, porque minha mãe era polonesa e meu pai era russo e em 1957 a Polônia e a Rússia fizeram um convênio para que os poloneses que estavam na Rússia pudessem voltar pra Polônia e vice-versa. Minha mãe era polonesa, teve essa abertura e ela sabia que da Polônia seria mais fácil imigrar pro Brasil. IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL Na Polônia, meu pai foi trabalhar numa fábrica de sapato durante um ano. Depois disso as minhas tias [que moravam no Brasil] mandaram o chamado pra Polônia, pedindo a nossa vinda pra cá, porque tinha que ter uma carta solicitando. Meus pais entraram com a documentação e nós embarcamos pro Brasil. Nós viemos de terceira classe, foi terrível, todo mundo passando mal porque a terceira classe fica embaixo. Todo o chacoalho do navio fica lá, então você não consegue ficar em pé, dá muita tontura, ânsia de vômito. Só sei que a gente ficou mais tempo na enfermaria do que no navio. Mas eu tinha um amiguinho no navio, a gente brincava, como criança é muito curiosa, ia na primeira classe, segunda classe, tudo escondido, porque se você é da terceira classe não podia ir pras classes superiores. Eu tinha nove anos e me marcou muito o cheiro de azeite de oliva, porque o navio era italiano, nós [embarcamos] em Nápoles. O cheiro de azeite era muito forte, então isso me dava mais mal estar. Acho que depois de dois meses de chacoalho nós chegamos. Chegamos em Santos, toda a família estava esperando a gente. Passamos o dia em Santos, porque minha mãe tinha primos lá, aí viemos pra São Paulo. Fomos pra casa da minha tia e ficamos durante um mês até se acostumar, se ajeitar. PRIMEIRAS IMPRESSÕES A cidadezinha que a gente morava era uma cidadezinha de interior e você chega numa cidade grande e você estranha. Tudo era muito grandioso, tudo que eu olhava por menor que fosse era imenso. Era tudo muito impressionante pra gente que vinha praticamente de uma província. Mas eu era muito criança, logo fiz amizade com os vizinhos, comecei a brincar, a falar com as mãos. Quando você vê, você já está enturmada. PRIMEIRA CASA EM SÃO PAULO Um mês nós moramos na casa da minha tia, que era em Pinheiros, depois alugamos uma casa em Pinheiros também e moramos lá até 1964. Era um sobrado com uma sala, dois dormitórios, quintal. Era muito linda em relação ao que a gente tinha lá na Rússia e meus pais logo foram trabalhar para melhorar o nível de vida. Tanto é que em 1964 minha mãe e meu pai compraram a loja. TRABALHO DOS PAIS Eles tiveram trabalho de mascate, porque meu pai, devido à profissão que tinha, ele se sentia muito inibido a trabalhar como comerciante. Ele tinha vergonha porque ele tinha uma graduação. Mas aí minha mãe viu que a única opção era fazer o que os outros imigrantes faziam, que era sair carregando sacola de corte e batendo de porta em porta sem saber falar uma palavra em português e vendendo. Por outro lado, foi uma boa maneira dela aprender a falar rápido o português, porque o meu pai se dedicou a aperfeiçoar a escrita, enquanto a minha mãe aperfeiçoou a fala. Eles foram batalhando e de porta em porta foram vendendo. Começaram a vir pro Bom Retiro pra comprar mercadoria, mas sem dinheiro, com a cara e a coragem. Como era uma época diferente, as pessoas tinham mais palavra, confiavam mais umas nas outras. Eles conseguiram crédito assim, na palavra, e foram comprando aos poucos, vendendo, pagando, comprando, vendo a necessidade dos clientes. E assim eles começaram. Trabalhavam mais em Pinheiros, Vila Madalena, depois começaram a expandir, tomar mais coragem e ir pro Caxingui, Vila Sônia, Butantã, sempre aquela região mais próxima de Pinheiros. Fui crescendo nesse meio e chegava final de semana já tinha que ajudar a minha mãe, porque naquela época se vendia a crédito em dez suaves prestações mensais, sem acréscimo de nada porque não tinha realmente inflação nenhuma. Tinha um tipo de caderneta em que o freguês marcava o dia que ele ia pagar. Todo dia cinco do mês a gente ia lá e recebia. Era muito raro [não receber], naquela época não tinha tudo isso que tem hoje, não tinha cheque, não tinha cartão de crédito e as pessoas tinham palavra. O que as pessoas ganhavam naquela época dava pra elas se programarem. Era bem diferente. EDUCAÇÃO Estudei no Grupo Escolar Alfredo Bresser, na Rua Sumidoro, em Pinheiros. Entrei no terceiro ano primário porque como eu havia feito os dois anos na Rússia, fiz um tipo de exame de admissão e entrei no terceiro ano. Terminei o quarto ano nesse grupo escolar, fiz o cursinho de admissão e fui pro ginásio. Fiz o ginásio no bairro Previdência, é entre o Butantã e o Educandário. Terminei o ginásio lá e eu fiz o colegial, que naquela época eu fiz o clássico, perto de casa, no Instituto de Educação Fernão Dias Paes, na Pedroso de Moraes, até hoje existe. De lá eu fui fazer um curso de Análises Clínicas. Terminei, depois me casei. No primário foi o seguinte: como nós chegamos em julho, em setembro eu fui pra terminar esse ano em uma escola israelita que tem até hoje lá em Pinheiros, que é o Bialik. Só pra fazer setembro, outubro, novembro, mais pra me aperfeiçoar com a língua. Na época eles ofereceram bolsas de estudo pra mim e meu irmão continuarmos lá. Mas meus pais eram muito orgulhosos, eles não queriam caridade. Foi aí que eu passei para o grupo escolar. Foi uma época muito difícil pra gente. Não é que os meus pais chegaram, já foram vender e já foram ganhando rios de dinheiro. Era uma época muito apertada, a gente vivia com o dinheiro contadinho. Levava lanche de casa, era pão com qualquer coisa que tivesse. Mas, tudo bem. Lógico que você sempre tem vontade, mesmo quando eu fiz o ginásio, ainda era a época das vacas magras. O pessoal levava o dinheirinho pra comprar na cantina da escola e não era sempre que eu dispunha do dinheirinho. Lembro que toda vez que me sobrava dinheirinho, eu gostava de comprar cerejinha. Quando eu estava na sétima série foi que a minha mãe abriu a loja, aí as coisas começaram a melhorar. A gente sempre trabalhou muito com os meus pais, nessa época de mascate a gente ajudava a fazer a cobrança dos clientes, depois ajudou na montagem da loja. Quando eu fui pro colegial, passei a estudar à noite e trabalhar durante o dia com minha mãe. PRIMEIRO EMPREGO Quando eu tinha 12 anos, minha mãe ainda não tinha loja, e o pai de uma amiga minha tinha loja de artigos pra homens, era maravilhosa, na Teodoro Sampaio. Eu sempre tive muita vontade de trabalhar para ter o meu dinheirinho. E ele veio falando: "Ah, porque agora é final de ano, você não quer vir dar uma mão?" Uma mão eu dei, só que eu trabalhava das 8 horas da manhã às 10 da noite, com 12 anos, pra ganhar um salário ridículo, porque ele não pagava nem extra nem nada. Trabalhei muito, muito porque era época de Natal, as lojas ficavam superabarrotadas de gente, você não sabia quem atender primeiro, e sem prática. O homem queria que a gente embrulhasse as caixas, como saía muita camisa, pijama, tinha que embrulhar as caixas com papel de presente direitinho. Tinha dias que eu ficava só forrando caixas, mas eu tenho que agradecer a ele porque eu aprendi a forrar caixa. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – MODAS DORA O nome da loja era, é até hoje, Modas Dora, na Teodoro Sampaio. Era uma loja de modas e onde a clientela que ela já tinha de mascate veio pra ser atendida lá mesmo. Ela continuou vendendo em dez suaves prestações mensais porque ainda não tinha inflação. Aos poucos ela também foi se modernizando, a moda foi mudando. Você vai adquirindo prática, vai vendo a necessidade do cliente. Fizeram uma loja bonitinha pra época. Eu trabalhava durante o dia todo com ela e de sábado saía pra fazer cobranças. Vou contar um fato pitoresco, até pros jovens verem como nem tudo cai do céu. Logo que a minha mãe abriu a loja, ela me pediu um dia pra ir cobrar uma freguesa na Consolação. Tinha o ônibus da Teodoro que ia pra Consolação e vice-versa. Mas como a gente foi criado com o dinheirinho contado, aquilo fica incutido em você. Eu fui, mas peguei exatamente o dinheiro da ida e volta de ônibus. Tinha chovido, eu nunca vou me esquecer, estava com aquelas galochas de borracha e o ônibus me quebra na ida, em frente do Hospital das Clínicas. A senhora que eu deveria cobrar tinha um horário pra estar em casa. Eu pensei o seguinte: “Pego um outro ônibus, chego lá e peço pra ela, porque naquela época já começava a ter cheques, vou pedir a ela que me empreste o dinheiro da volta.” Só que ela me pagou em cheque. Eu fiquei muito sem graça de pedir, só sei que eu vim a pé, praticamente lá do começo da Consolação até o meio da Teodoro Sampaio. Quando cheguei, porque tinha parado de chover, estava aquele sol ardido e eu com aquelas botas de borracha, fez bolha no meu pé. Mas eu não pedi porque você tinha um pouco de acanhamento, outro tipo de educação. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – COTIDIANO NA LOJA O cotidiano era normal. Eu tinha que estar às 8 horas, não importava que era loja da minha mãe, e ficava até 6 e meia. O dia inteiro trabalhando, atendendo cliente. Quando não tinha cliente, eu ficava estudando dentro da loja. A não ser quando tinha trabalho em grupo pra fazer pra escola. Trabalhei até 1969, que foi o ano em que eu me casei. Transferi o trabalho de lá pro Bom Retiro. NAMORO E CASAMENTO Meu marido também é imigrante, ele chegou um ano após a gente. Ele também começou uma vida aqui que não foi fácil. Primeiro foi aprender a língua, porque ele já chegou mais adulto. O primeiro trabalho dele foi na Olivetti, as máquinas de escrever. Ele ficou lá durante um ou dois anos e percebeu que como empregado ele sempre ia ficar naquela. O pai dele já estava estabelecido e tinha sociedade com o cunhado. Meu marido pediu dinheiro emprestado ao pai, pra abrir uma coisa dele e abriu uma loja de confecção na Maria Marcolina, no Brás. Começou sozinho a cortar as peças, a produzir, a pegar clientela e a se desenvolver. Ele frequentava muito a minha casa, porque naquela época todos os imigrantes que chegavam formavam aquelas rodinhas. Um sábado era na casa de um, um domingo na casa do outro, o pessoal se encontrava pra ver o que estava fazendo, o que estava produzindo, o quanto estava progredindo. Então, eu já o conhecia há bastante tempo. E a gente começou a namorar. Quer dizer, não tinha muito que se conhecer porque a gente já se conhecia. Em nove meses namoramos, noivamos e casamos. Foi tchum, rapidinho. Depois o cunhado do meu sogro saiu dessa sociedade, que ele já estava cansado, e o meu marido entrou na firma que existe até hoje, Confecções Fleider, fundada em 1966. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – CONFECÇÕES FLEIDER Era uma loja só de guarda-chuvas e sombrinhas, mas aos poucos o meu marido começou a renovar. Ele foi vendo que o guarda-chuva ou sombrinha requer uma capa, porque naquela época chovia mais, tinha muita garoa, São Paulo tinha um outro clima. Então, ele foi aprimorando as coisas que foram sendo necessárias pra época. A gente vendeu muitos, muitos anos só capa, guarda-chuva e sombrinha. Hoje a gente tem blusão de náilon, tem jaqueta de scott, mas sempre voltado pro frio e pra chuva. CLIENTES Minha loja é, vamos dizer assim, clássica. A gente procura modernizar, a gente tenta incrementar o modelo, mas não adianta, o freguês que procura capa vai na Fleider porque nós ficamos praticamente os únicos nesse ramo. E eles dizem: “Eu quero aquela capa tradicional, que meu pai tinha, que meu avô usava.” Não adianta você incrementar muito, a gente já tentou, mas não adianta. Tem que ser aquela linha clássica. O cliente também mudou devido a toda essa transformação política e econômica que o país atravessou. Antigamente, como era na loja da minha mãe, você vendia na palavra. Hoje em dia você trabalha com duplicata e leva cano. Quer dizer, a mentalidade das pessoas mudou, as pessoas em si mudaram, acho que se perdeu muito aquela pureza, aquela honestidade que as pessoas tinham. O cliente de atacado, que compra em grande escala, você tem que ir atrás. [Além disso,] passou a se vender muito no varejo, e o freguês do varejo não é fácil. É um freguês que chega, te empata meia hora pra escolher uma peça e ainda sai achando que você não o atendeu direito. É a classe média. O pobre é muito mais fácil de atender, é um cara mais humilde, entra na loja contando com aquele dinheirinho, sabendo o que pode comprar e até quanto. O chamado classe média não sabe o quanto pode gastar, gasta mais do que pode. E exige, ele quer grife. Às vezes, você é até malcriado: "Você quer grife? Vai no shopping." A classe A costuma comprar em shoppings, só que ela não sabe o seguinte: que muita mercadoria do shopping que é produzida no Bom Retiro e no Brás só muda a etiqueta. Ela vem pro Bom Retiro, ela vem pro Brás, mas pra comprar pros criados, porque ela jamais irá colocar uma coisa que ela comprou na José Paulino. Não fica bem. Mas vai achar a mesma coisa no shopping, só que com outra etiqueta, então ela acha que está exclusiva. PRODUTOS O pessoal mais jovem procura os guarda-chuvas pequeninhos que cabem na bolsa pra não esquecer e existem os fregueses tradicionais que querem aquele longo com cabo de madeira ou um cabo de chifre, que hoje não existe, era um cabo tipo de osso, muito bonito. Nós ainda vendemos. Vendemos inclusive cabo de bambu trabalhado, que era lindo. A gente fabrica esses mesmos guarda-chuvas, que eram antigos, em cores. Tem bege, marrom, marinho. Lá fora, os homens usam guarda-chuva de duas cores, vermelho com branco, amarelo com azulão e a mentalidade do brasileiro ainda não chegou lá. Na mentalidade do brasileiro machista, menino ou homem só pode usar guarda-chuva preto, nada de duas cores, imagine um bege pra um homem, que horror. Os mais jovens já estão aceitando, estão ficando mais moderninhos. Também vendo as capas, as jaquetas, tudo depende da estação. Quando chove, saem mais capas, saem mais jaquetas impermeáveis, quando é frio sai mais blusão acolchoado. PICOS DE VENDAS Antigamente, quando inverno era inverno, você sabia que março, abril e maio a loja vendia bastante, era o outono. Vendíamos muita capa, guarda-chuva, blusão. Hoje você se programa pra vender, quando chega o inverno já tem que estar vendido. Você se prepara em março, abril e, às vezes, não consegue porque a temperatura mudou. Este ano nós tivemos duas semanas de frio e o pessoal vai levando como aquilo que já tem. Já com o guarda-chuva é psicológico. Choveu, vendeu. Não choveu, não vende, não adianta. Capas também. Tem que chover muito pra vender capa. E capa de gabardine o brasileiro ainda não sabe usar. Só vendo para o pessoal que vai pra Europa. CONCORRÊNCIA COM IMPORTADOS Guarda-chuva está muito concorrido com esses importados que estão chegando da Tailândia. Tem muitos camelôs vendendo na rua, eles vão buscar no Paraguai, porque mesmo entre esses importados existem os melhores e os piores. A concorrência está muito grande, porque eles vão buscar a mercadoria sem nota, montam a barraquinha e vendem. Isso te atinge, porque o preço é inferior ao seu. O cliente chega: "Lá na esquina o fulano está vendendo mais barato!" Mas ele esquece que a gente tem imposto pra pagar e a gente está estabelecido, qualquer defeito que tiver estamos ali pra dar a assistência necessária. Então, o ramo de guarda-chuva está muito difícil, têm muitas fábricas que fecharam e tem outro detalhe importante: a nossa tecnologia não evoluiu nada. Muito pelo contrário, ela decaiu. Na época do meu sogro, quando você comprava um guarda-chuva niquelado era aquele que não enferrujava. Hoje em dia o banho de níquel passou de longe. As armações estão de uma qualidade péssima, muito pesadas, mesmo os próprios fabricantes de tecidos, eu já conversei com vários e já pedi pra inovar a estamparia, porque é sempre a mesma coisa, são as mesmas flores. Enquanto que os importados têm armações mais leves, o náilon deles é fininho e eu não sei onde eles vão buscar tanta criatividade, cada guarda-chuva é uma estampa diferente. ALEGRIAS DO TRABALHO NO COMÉRCIO O que me empolga é lidar com o público. Adoro aqueles dias que eu não sei se eu almocei, se eu tomei café, aquele dia que quando você vai ver, eram 9 horas da manhã agora já são 6 horas da tarde, o dia passou e você não sentiu. Eu gosto muito de atender, de mostrar as novidades, coisas que, às vezes, um funcionário teu não tem essa experiência toda. E também você precisa gostar. Não é só o fato de que eu sou a dona, faço porque eu gosto de lidar com o público, fui criada nesse meio. VALORIZAÇÃO DO COMERCIANTE A sociedade vê [o comerciante] como qualquer profissional liberal. Acabou aquela discriminação que existia antigamente, a maioria dos judeus imigrantes achava que o filho tinha que ser médico, advogado ou engenheiro, tinha que ser um profissional liberal. Hoje em dia a mentalidade já mudou, porque às vezes você como profissional liberal não atinge aquilo que um comerciante atinge. Mesmo que você tenha seu consultório, sua construtora, que você seja o seu patrão. Estamos de igual pra igual com eles. FILHOS Tenho uma filha, o nome dela é Evelyn, ela tem 25 anos, é arquiteta. Não nasceu pro comércio. O comércio é uma coisa que está no sangue, você pode ter aprendido com seus pais, batalhado ali, mas se não está nas tuas veias, por mais que você se esforce, não vai. E a minha filha realmente não tem esse sangue nas veias, ela gosta muito daquilo que ela faz. Hoje ela está falando que não descarta a possibilidade de talvez trabalhar na loja, mas é uma coisa muito remota. E meu filho, Fernando, ele tem 23 anos, faz Engenharia de Produção e estuda em Israel. Ele tem jeito pro comércio, mas ele também gosta daquilo que faz. A intenção dele é seguir a carreira de engenheiro, só o tempo dirá. SONHOS O ser humano sempre busca a mais do que ele é. Todos nós temos um potencial muito grande. Quando meus filhos eram pequenos eu dizia, aliás, o pediatra deles dizia: “Você pode sugar, porque quanto mais você sugar, mais eles vão produzir.” Nenhum ser humano pode dizer: “Cheguei na minha fase final.” Não sei quanto tempo eu ainda vou levando, eu e meu marido, na nossa loja. Chega uma hora que você está realmente cansado. Mas eu nunca gostaria de deixar de trabalhar com o público em geral. Se um dia eu vier a fechar a loja, eu não gostaria de parar, eu gostaria de continuar no ramo de hotelaria, qualquer coisa que se relaciona com gente, eu gosto de gente, odeio solidão. Gosto de ficar no meio de gente, fico com os meus filhos, no meio dos amigos deles, não importa a faixa etária, importa que sejam pessoas. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA É uma divulgação válida, pra ver como surgiu o comércio. Tudo isso tem muito suor, muito trabalho. A minha história é muito pequeninha, tem gente muito mais velha que está no ramo há muito mais tempo. Acho que todo mundo deveria ver, pra mostrar que nem tudo cai do céu.

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