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História

Trabalhar pros outros nunca foi minha praia

História de: Cristiano Gonçalves Cardoso
Autor:
Publicado em: 25/05/2021

Sinopse

Cristiano Gonçalves Cardoso e morador da favela de Vila Prudente, na Zona Leste de São Paulo. Aos 7 anos começou a trabalhar com o irmão em uma oficina mecânica, aos 12 anos começou vender limão no farol, depois saco de laranja, guaraná, água, trabalhar para os outros nunca foi sua praia. Aos 20 anos sofreu uma desilusão amorosa e foi convidada pela irmão para participar de um grupo de jovens na igreja. Em 2005 foi com esse jovens para um encontro na Alemanha. Quando voltou fez formação em liderança, cursou economia solidária na PUC. Juntou-se com outros jovens e com a ajuda da igreja São José Operário, formaram a cooperativa. Na Recifavela funciona também um centro cultural, com uma biblioteca. Usam metodologias industriais para processar o volume de material.


 

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História completa

Cristiano Gonçalves Cardoso, 15 de abril de 1985, Favela da Vila Prudente. Minha mãe é pernambucana e meu pai é mineiro. 

Meu tio era uma grande liderança aqui dentro da favela, o ‘seu’ Dalvino e aí saiu na revista Veja, há muito tempo, acho que 1970, meu tio, chamado Dalvino e o ‘seu’ Espíndola, os mafiosos da favela, mas era questão de política. Ele ia ser padre, aí acabou falando que não ia ser mais padre. Ele ficou exercendo essa função, mas não era médico. Ele dava injeção dentro da favela, dava remédio, aquela consulta básica, que é periférica. E o ‘seu’ Espíndola era uma grande liderança dentro da favela, eles saíram na revista. Meu pai comprou, naquele tempo, uma Veja e foi visitar minha mãe. Aí meu vô olhou e falou: “Esse aqui é meu irmão”. Ele falou: “Seu irmão?” Aí meu pai foi e trouxe todos os meus tios pra ficar na favela (risos), meus tios nem queriam contato com ele e, no final da conta, a família inteira da parte da minha mãe veio pra cá. 

Até os sete anos eu brincava de bola, pular corda, esconde-esconde, chuta pote, de tudo que você imaginar. Pipa era pouco. Pião, vilinha, jogo da velha, stop

Eu já comecei a trabalhar com sete anos de idade, trabalhava numa mecânica, com meu irmão. Aí trabalhava de manhã com ele e estudava à tarde. Eu comecei a ganhar um pouquinho de dinheiro, a primeira coisa que eu fiz foi dar o dinheiro pra minha mãe.

A única coisa que nós sabemos, quando somos periféricos. Com 12 anos você já é responsável pra compra roupa, pagar suas dívidas, comprar qualquer coisa dentro de casa, viajar, sair.

Com doze anos eu comecei a vender limão no farol, eu vendia dez reais quase todo dia, naquele tempo, dez reais era muito dinheiro.

Depois vendi saco de laranja, guaraná, água. Aí vi uns meninos vendendo caneta e eles não andavam suados, andavam bem arrumados, aí eu falei: “Mano, como vocês vendem essa caneta aí?” Eles eram de uma casa de recuperação, que vendia caneta, pra ajudar as pessoas dentro da casa de recuperação. “Mano, aqui é na conversa. Você não pode vir assim, todo sujo. Tem que andar bem arrumadinho”. Aí, um dia, nós fomos bem arrumados e ele foi explicando pra gente, a gente chegava num carro: “Licença, não precisa fechar o vidro” – se o vidro não estivesse fechado – “só quero um minuto da sua atenção: estou vendendo essa caneta pra ajudar em casa. Se for possível, custa um real”. A pessoa fala: “Não tenho” “Qualquer moeda serve”. Aí a pessoa ia lá e dava uma moeda. Nós pagávamos três reais na caixa, vinha 12 canetas. No farol eu fiquei dos meus 12 até os meus 16 anos. 

Trabalhar pros outros nunca foi minha praia. Nunca gostei disso. A treta, eu, meu irmão e meu pai, era que eles queriam que eu fosse peão de alguém e eu nunca achei isso legal. Tenho 35 anos, nunca trabalhei pra ninguém. 

2005, 2004, a rua estava passando dificuldade. Eu era camelô e vendia CD e DVD. E aí foi um tempo que estava muita pressão do rapa e da polícia civil e aí eu não estava conseguindo vender bem.

Em 2005 a gente foi para a Alemanha, encontro da juventude com o papa. Eu não fui para ver papa nenhum, particularmente, fui para curtir mesmo. “Quem quer ficar aqui?” “Eu!” Só eu levantei a mão. “Você me decepcionou.” “Eu?” “É! Você demostrou pra mim que você é um parasita”. “Eu, por que parasita?” Ele falou assim: porque você vai fazer como qualquer outra pessoa faz, se acomodar nos lugares que já estão perfeitos e não quer mudar sua realidade. Eu, botava tanta fé em você e no final das contas vi que você é igual todo mundo. Aí isso aí mexeu comigo, nunca ninguém tinha acreditado em mim, nem meu pai, nem meus irmãos, nem minha mãe, nem ninguém. Patrick, um padre, falar que acreditou em mim. Aí eu vim no avião pensando nisso. Quando voltei, eu falei: eu quero fazer alguns cursos. Aí foi quando eu comecei a me envolver com os projetos sociais, foi quando eu comecei a quere entender os problemas sociais, comecei a entender a questão política, comecei a querer entender...

Quando eu voltei da Alemanha eu fui vender bijuteria pras mulheres, batom, maquiagem. Depois parei de trabalhar com essa questão de batom, maquiagem, fiz um curso chamado Curso de Verão, na PUC, que era sobre questão de informação, aí montamos um jornalzinho dentro da favela, aí eu comecei a trabalhar numa gráfica, à noite, porque aí, quando eu voltei, comecei a namorar com a Lilian. Meu sonho era ser pai. Eu falei pra ela: “Meu, eu tenho vontade de ser pai, mas eu acho que eu sou estéril, porque convivi seis anos com a minha namorada e não tive filho”. Ela falou assim: “Eu também sou estéril, acho”. Aí eu falei assim: “Então para de tomar remédio”. Aí, parou de tomar remédio, aí eu falei pra ela: “Eu queria ter um filho, mas eu queria ter um filho chamado Pablo Escobar”. Aí ela falou assim: “Sério? Quem é Pablo Escobar?” Eu falei assim: “Vamos assistir o filme”. Aí nós começamos a namorar após esse filme, aí depois que passou três meses, ela estava grávida. Aí nasceu o Pablo Escobar. Aí foi quando surgiu a cooperativa. Em 2007. 

A Recifavela nasceu com uma junção de dois grupos. Eu já puxava carroça na madrugada, ao mesmo tempo que eu era camelô, eu puxava carroça à noite.

Como eu fui da igreja, nós tínhamos um grupo de dez jovens. Debaixo do viaduto já tinha os catadores avulsos. E aí, como era no tempo do Kassab, o Serra ganhou a eleição da Marta, ele bloqueou todas as entradas de box dos catadores, que eles não podiam trabalhar mais debaixo dos viadutos. Aí esses jovens, catadores debaixo dos viadutos, foram atrás do Patrick e o Patrick era o líder do Movimento em Defesa dos Favelados, que atua aqui na favela. Ele falou: Por que vocês, agora, não fazerm a integração dos dois grupos, jovens e catadores? Aí dos 15 jovens, ficaram dez. Aí nós fomos nos juntando, os dez jovens ficaram cinco. Dos cinco ficaram três: eu, a Lilian e a Josie. E dos catadores ficaram três: Fumaça, Manoel e seu Basílio. E aí nós juntamos a realidade dos jovens catadores e fundamos a Cooperativa Recifavela. Cooperativa de Catadores da Favela da Vila Prudente.


 

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