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História

Trabalhando em prol da saúde da comunidade

História de: Maria Inês Vasconcelos do Amaral
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Maria Inês Amaral relata momentos de sua infância e juventude em sua entrevista, também narra sua ascensão na carreira, contando como começou a atuar na melhoria da saúde básica como agente de saúde e como coordenou a implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde do Estado do Ceará.

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História completa

P/1 - Bom, então eu gostaria que você se identificasse com seu nome e data de nascimento... R - Bom, eu sou Inês, Inês Amaral, assim que todo mundo me conhece, é o nome do meu marido, não é o meu nome, mas ficou assim. Eu nasci no dia de 3 de Março de 1958. P/1 - E seu sobrenome? R - Maria Inês Vasconcelos do Amaral. P/1-Certo. E seus pais, o nome deles. R - Maria Teresinha Carvalho Vasconcelos e Francisco Daltra Vasconcelos. P/1 - E o que você sabe da origem dos seus pais? Ou dos seus avós também, dos dois lados? R - Ah, eu sei tudo, sei tudo. Adoro saber, (risos) Bom, o meu pai é natural de uma cidade do Norte do Ceará. O pai dele trabalhava na ferroviária, era alguém que cuidava daquela coisa da passagem de trens. Pessoas extremamente simples, a mãe dele morreu quando ele tinha mais ou menos 18 anos. Eles tinham uma vida comum, de pessoas que moram no interior, em uma cidade bastante pequena, com muitos filhos e meu pai era o mais novo da família. Quando ele perdeu a mãe com 18 anos, ele veio embora para Fortaleza, para a casa de seus irmãos, que já moravam em Fortaleza e que tinham situação financeira bastante difícil. Ele apenas tinha estudado sei lá, 4, 5 anos nessa cidade. Sabia ler escrever e contar. Daí veio para Fortaleza e trabalhou no comércio, em outros lugares e daí acabou em dado momento se encontrando com minha mãe, né? Meu pai é uma pessoa muito interessante, assim, porque é uma pessoa calada, muito... Era de certa forma muito severo num sentido de alguns princípios, muito difíceis de discutir, mas uma pessoa muito extremamente doce com as filhas e que, como todo homem na idade dele, ele vai fazer agora 70 anos, naquele tempo tinha essa coisa do machismo muito enraizado, e teve seis filhas mulheres. Então imagine como essa coisa era difícil. E era uma pessoa que tinha muito pouca instrução, mas que tinha muita sabedoria, que tem muita sabedoria. E minha mãe era uma pessoa que nasceu de uma família muito rica, no interior do Ceará também. Neta de portugueses, que não sei como conseguiram chegar ao centro do Ceará. Bom, a fazenda dos meus avós, hoje, é um distrito, imagine como a coisa não era grande. Meus avós diziam que eu tenho um pouco de querer dividir demais, porque é dessa época que lá eles dividiam (riso). A minha bisavó era uma mulher que hoje é uma cidade, Lavras da Mangabeira no Ceará era praticamente dela, uma coisa assim grande. Dizem que ela era uma pessoa, mas não é minha bisavó é minha tetravó, bom a terceira. É a mãe de minha bisavó. Bom, e ela era uma mulher muito diferente pra época dela. Ela tinha... Dizem que andava montada em um cavalo, tinha dois rifles, e que comandava toda a fazenda e as pessoas e tal. Diz que o marido era uma pessoa assim muito quieta e ela era muito de briga e tal. E a minha mãe nasceu, os pais, minha avó casou com uma pessoa que essa eu não sei muito a história dele, do meu avô, porque ele morreu quando minha mãe era muito jovem, e aí vieram pra... Ele era coletor, então naquela época viajava muito, de uma cidade para outra, moravam no Piauí em vários lugares. Meu avô era coletor e viajavam de cidade em cidade, e por isso, bom... Ele morreu muito cedo. Minha mãe tinha 14 anos e era a filha mais velha, tinha mais cinco filhos. E acho que eles deviam ter uma vida relativamente boa, só que, naquela época, quando o homem morria, morria também toda sua fonte de renda e tal. E aí minha avó veio para casa dos irmãos, tinham alguns políticos na época e tal. Ela ficou viúva com cinco filhos, eu conto sempre que foi incrível, porque ela era uma mulher muito forte. Fez todas as coisas para sobreviver com os filhos, e acabou que conseguiu chegar a Fortaleza. A minha mãe, como era filha mais velha, assumia muito a responsabilidade dos outros irmãos e ela então, com 18 anos conseguiu se formar já no Juazeiro, que é uma cidade maior do Ceará, que parte da família morava lá. Era professora. Com 18 anos ela veio para Fortaleza, fez o concurso, e foi então, passou para ser funcionária pública federal. Ela conta que nessa época lá, ela trabalhava no DNER, ela e outra eram as duas únicas mulheres do local onde trabalhavam. P/1 - Bom, então tem uma história meio de matriarcado forte nesta família. R - Sim. Pois é forte como eu estou dizendo. Bastante forte (risos). Bom, daí ela se encontrou com meu pai, era um desses movimentos de igreja, porque todos os dois eram católicos e ela diz que existia um movimento que chamava “Círculo Operário”. Não me lembro muito bem a história. E eles se encontravam nessa coisa de igreja. Minha mãe é cinco anos mais velha que meu pai. Encontraram-se e diz que casaram com muito pouco tempo de namoro. P/1 - Você diz que a origem do seu lado materno é portuguesa, e do seu lado, de seu pai, é Vasconcelos do Amaral? R- Não. Vasconcelos é meu pai. Amaral é meu marido. P/1 - Amaral. Está certo. Vasconcelos. Tem alguma ascendência de origem estrangeira que você saiba? R - Não, eu não sei. Há algum tempo a gente até pesquisou bastante isso. Mas na área onde ele mora, tem duas famílias desse lado Vasconcelos, que eu acredito acaba sendo a mesma, mas que eles que fizeram a divisão em algum momento da história, alguns deles... Fizeram essa divisão. P/1 - Houve alguma briga, assim? (Risos) R - Um deles conta que tem uma origem espanhola, mas eu acho muito pouco provável pela área que eles moram, pela origem deles lá. É muito pouco provável que tenha chegado um espanhol naquela época lá, lá nessa área. Mas pode ser que sim. P/1 - O seu tipo claro assim, mais da mãe ou do pai? R - É, acho que mais... Não, o meu pai é uma pessoa muito vermelha, branco muito é faz muito o meu tipo. Mas eu não sei muito bem, de que origem eles vieram, mesmo porque se fosse espanhol, também, já não era muito para ser esse estilo. Agora o meu avô materno era português. Não, meu avô não. O meu bisavô materno era português. P/1 - Você estava falando então do encontro dos dois? R - Então os dois se encontravam e diz que namoravam por muito pouco tempo. Eles dizem assim, que se encontravam numa época da vida dos dois, que estavam querendo casar. Ela tinha 30 anos e queria casar, ele tinha 25 e estava sozinho há seis anos em Fortaleza e estava louco para ter uma casa. Eles contam que era um pouco assim (riso). Diz que nunca tiveram muita história de paixão, todos os dois eram muito práticos e tal, mas forma um casal muito interessante hoje. Bom, e daí tiveram uma vida muito difícil, quer dizer, todos os dois tinham emprego e tal, mas só que foram filhos nascendo um atrás do outro, né? Foram seis filhas, a diferença da minha irmã mais velha para a mais nova é de oito anos, então... Seis filhos em oito anos, para uma mulher que já tinha 30 anos na época, imagine! Se casa mais nova é um desastre. E daí então, disse que eles tinham... Eu não me lembro muito de nenhuma dificuldade financeira grande na infância. Porque naquela época também, a gente vivia muito em função do que você via. Não era hoje, você vê na televisão mil coisas e aí... As informações não eram tão rápidas assim. E a gente teve infância normal. Quer dizer, um pouco mais de repressão eu penso que as outras pessoas, no sentido de se não era muita repressão com a gente, não sentia muito assim. Mas hoje por exemplo, olhando pra trás, acho que a gente era bem... Eu lembro que a gente andava no carro e ninguém podia falar porque meu pai estava dirigindo (riso). Ninguém podia falar. Ele viajava, eu me lembro nas férias viajava assim para cidades do interior, não se tinha muito dinheiro. Mas a gente tinha que andar assim três horas seguidas no carro, ninguém podia falar, porque ele estava dirigindo e dirigindo ninguém falava, porque ele bota na cabeça que era assim (risos). E minha mãe, por exemplo, não podia dirigir, porque mulher não sabia. Essas coisas todas assim. Mas eles dois sempre tiveram uma relação muito tranqüila e muito cúmplice, eram muito amigos e tal. Havia um clima de muita paz. Nós éramos seis mulheres, e então tinha toda aquela coisa assim, quando começou a namorar... Tinha certa dificuldade com meu pai. Mas não é que ele brigava, ele simplesmente não falava. Zangava, qualquer coisa ele se zangava passava uns dias sem poder olhar muito para a cara da gente. Mas a minha mãe tinha uma forma muito especial de tratar essas coisas, como ele não era agressivo, ele só ficava carrancudo acabava por ser enfrentado. Daí então, quer dizer foi muito tranquilo isso. Agora tinham algumas coisas assim, por exemplo, a gente tinha... Eles não eram, não tinham tanta facilidade financeira, mas eu me lembro, que eu vim a andar de ônibus eu tinha 15 anos de idade, porque não andava de ônibus, porque ele botou na cabeça que era muito difícil então... P/1 - Era carro? R - Não, era carro, ou ele ia pegar, ou tinha motorista que ia pegar. Mas ele não queria que a gente andasse de ônibus porque ele botava na cabeça que era muito perigoso, que era muito melhor. E eu me lembro que a gente ia ao cinema e cada cinco, seis meses. E cada vez que ia passava uma hora dizendo, sabe “Alguém pode botar a mão na sua perna, não sei o quê. Não pode aceitar pipoca”. Essa coisa, que a hoje gente diz por conta da droga, naquela época já me dizia tudo. Então era muito mais medo mesmo, todos os dois tinham muito medo da vida. Eu fico muito impressionada hoje me lembrando disso. Eles tinham uma coisa muito... Tanto que eu digo, a minha filha hoje tem 16 anos, o nível de informação dela é o do que eu tinha com 20 anos quando me casei porque eram outras preocupações. A gente estudava em colégio de freira, e tal essas coisas... P/1 - Era nível de padrão de classe média, de média para cima, porque com carro, com... R - É, sim. Era seguinte... P/1 - E qual era a profissão dele? R - Era comerciante. P/1 - Que tipo de comércio ele tinha? R - Quando nós éramos mais jovens, ele tinha tipo um supermercado, hoje o que a gente chama de supermercado, mas não era uma coisa da dimensão de um supermercado hoje. Digamos uma mercearia, com um pouco mais de sofisticação. P/1 - Mas já era no sistema de self-service? De supermercado? R - Não, era uma mercearia. E depois, logo depois, eu tinha uns 13 para 14 anos, quando ele tinha um depósito de material; de construção, já era uma coisa um pouco maior. Essa época realmente, a adolescência já era mais fácil, por exemplo, eu sempre estudei em colégio particular, tinha todos os livros. Agora tinha a questão dos valores. Eu me lembro, por exemplo, a questão do lazer era controlada, a questão de roupa era muito controlada. E eles diziam o tempo inteiro o quanto de sacrifício fizeram. Eles gostavam de dizer isso por muito tempo. É uma dessas coisas que eu peguei para minha lição de vida porque eu não gosto muito de dizer para os meus filhos assim, essa coisa: “Ah! É tão horrível!” Então eles diziam muito. Mas de qualquer forma tinha... Quer dizer, nós éramos seis mulheres, eu acho que... Na época a gente compreendia. Hoje me eu lembrando eu acho que era absurdo. Mas na época não tinha... Não causou nenhum trauma maior. Depois que eu abri os olhos para o mundo eu pensei “Meu Deus, que loucura que era aquilo”. P/1 - Que memória você tem da cidade, dos ambientes, da sua infância? R - Ah! Da infância... Bom, tinha umas coisas que a gente fazia muito. Por exemplo, nós íamos muito a parques de diversão, muito a parques assim, tinha um parque que até ainda hoje tem que é o parque da criança no centro da cidade, as crianças iam todas muito arrumadas, eu sempre tive cabelo assim muito complicado de desembaraçar, as empregadas arramavam umas fitas enormes, uma meias de crochê, e eu odiava aquilo tudo. E os vestidos espinhavam... Porque hoje os vestidos de laise mal feito. Eu tenho pavor de me lembrar... E era sempre assim, muito arrumado. Se a gente ia para um aniversário, todas as crianças tiravam os sapatos. Mas a gente não tirava o sapato. Era uma coisa meio... Porque papai não admitia. Você ia toda arrumada. Só almoçava quando ele chegava. Não queria nem saber. E ele senta sempre no mesmo lugar. Ainda hoje ele senta. E é tão interessante. Por exemplo, hoje eu estou na casa dele, qualquer um, meu marido, meus filhos, ele chega e se levanta todo mundo: “Senta vó!” (risos). E ele hoje fica “Não, pode ficar”. Mas ele não se senta em outro lugar na mesa, ele senta naquele ali. Mas apesar dessa coisa, era uma pessoa doce, de fácil comunicação. Mas assim... Tinha essa coisa bem enraizada. E a minha mãe gosta muito, ainda gosta muito. Ela é muito tradicional. Muito assim... Gosta dessa coisa bem arrumada e tal. Depois eles, depois que todo mundo casou e tal eles tem uma condição de vida muito melhor e acabaram transferindo muito a responsabilidade da vida da gente, o que não devia ser. Meu pai nunca se acostumou que as filhas casaram. Ele tem um sítio e então quando a gente está lá no sítio dele, com as crianças, ele chega com os chocolates dos netos e os chocolates das filhas. Primeiro ele dá para as filhas (risos). E o pior que a gente faz a maior briga mesmo, quando chega. A gente briga com os filhos a gente mesmo. “Esse chocolate era meu e tal” (risos). Porque ficou tão enraizada essa coisa. Tem um fato interessante, eu me lembro que quando eu me casei, a gente.... Ele chegou, ele sempre fazia assim, ele tinha horror que a gente casasse e todas casaram muito cedo, e tinha honra dessa coisa de casamento, ele ia visitar na casa, e abria a geladeira, para ver se estava tudo O.K. Aí ele veio me visitar, meu marido conviveu muito tempo com os italianos, comia esses pratos assim, a gente estava fazendo um prato de massa assim, uma macarronada e tal. E ele ficou impressionado que a gente ia comer só aquilo, não tinha arroz, feijão... No outro dia ele fez uma feira e me mandou (risos). Mas é engraçado que todos os genros se adaptaram bem a essas coisas assim, brincam e tal, não se incomodam não. P/1- Escuta Inês, você tem a memórias assim de doenças de problemas de saúde na sua família, ou de alguma epidemia na cidade ou no estado? R - Não. Eu lembro de alguma época que houve campanha, não lembro se para meningite, ou qualquer coisa assim. Talvez varíola. Também sim, eu fiz varíola, acho que ainda na escola. E que minha mãe supervalorizava essas coisas, por exemplo, essa coisa assim de escovar os dentes, não sei o que... Eu me lembro que era muito complicado, tudo tinha que fazer na hora, não sei o que, cinco horas tomava banho, não sei que horas se arrumava, era meio complicado... P/ 1- Precisava tomar vacina... R - É, tudo... vacina. Vai muito... E depois todo mundo usou óculos muito cedo. Também mamãe levava demais para médico. Tinha que descobrir qualquer coisa porque ela levava tudo... Porque todo mundo tinha que ir muito a médico, era uma confusão... Agora eu me lembro muito de momentos assim, quando teve sarampo, todas as seis com sarampo, não é? Eu me lembro daquela aflição dela, ela e minha avó cuidando daquele monte de gente doente. Eu me lembro quando a gente tinha conjuntivite. Todo mundo tinha conjuntivite, e aí eram aquelas seis, tudo pequena, essa coisa assim, eu me lembro dessas aflições. E me lembro também, muito forte outra coisa, é que a gente morava numa avenida que tinha um canal, e uma época houve uma enchente e esse canal transbordou para as casas, e eu me lembro que era uma madrugada, e que eu acordei, meu pai tirando a gente da cama e levando para outro lugar e tal. E a casa toda ficou na água. P/1- Toda alagada? R - Toda alagada. Eu me lembro muito bem dessa aflição, dessa confusão na rua, nas coisas assim. Eu me lembro também de ter ficado assim, largada num canto, porque eu sou a segunda das filhas, devia ter pelo menos mais uns quatro muito pequenos, não é? E que eu fiquei na casa da minha avó, e que não conseguia saber, e queria entender, e não conseguia entender o que estava acontecendo, porque era madrugada. Eu me lembro assim, dessa coisa que foi... P/1- Durante a enchente? R- Muita aflição... E que depois hoje eu vendo isso, também seguramente não foi tão complicado, quanto eles dois tratavam a situação (risos). Mas tudo porque eles dois eram muito assim... P/1- Muito dramáticos? R - Porque eles viviam muito em função dos filhos. Minha mãe trabalhava, sempre foi muito boa funcionária e tal. Mas, era aquela coisa de correr para casa na hora do almoço e os filhos e não sei o que... Por exemplo, todo o sábado, todo mundo cortava a unha, era uma confusão. Sempre assim... Todo mundo tinha que fazer. Porque hoje eu digo assim.... Não faço com os meus filhos e nem por isso eu acho tão grave. Mas lá em casa tudo era muito complicado. Eu me lembro, por exemplo, quando eu tive filhos, eu ficava pensando: “Meu Deus do céu como é que eu vou ter filho. É muito difícil esse negócio de ter filhos”. Porque era muito complicado lá em casa. E ainda hoje é, porque eles dois se desgastam com qualquer coisa pequena. Porque... Sei lá.... Se arrumavam dessa forma... P/1 - É o estilo de vida. R - É o estilo de vida. (risos) P/1 - E escuta, Inês, e depois então você começa a encaminhar sua vida, estuda e faz... Como é que você vai se dirigindo para a enfermagem? O que te atrai nessa área? Você já fez o técnico pelo que você diz? R - Isso. Mas o técnico também foi mera coincidência. Eu me lembro... Eu não me lembro muito bem porque eu decidi pela área da saúde. Me lembro que já de muito tempo eu dizia: “Vou fazer alguma coisa na área da saúde.” Mas eu me lembro que não gostava do fato de fazer medicina. Tinha uma coisa muito forte na minha casa, que era assim. Todo mundo tinha que passar no vestibular. Então, não existia a possibilidade de você não passar no vestibular. Então nós todas sabíamos que tínhamos que passar e por isso mesmo eu me lembro que queria fazer área da saúde, mas não queria fazer medicina. Porque eu pensava, “Eu não vou passar. É melhor não fazer Medicina.” E aí foi, eu fazia... Eu já estava em uma escola e foi na época onde houve aquele incentivo a fazer cursos profissionalizantes, que era... Passou uma fase obrigatória, e aí a escola então, porque era um colégio de freira e tal, colocou o curso técnico de enfermagem, e foi aí onde eu conheci alguns enfermeiros que foram... Eu nem conhecia essa profissão bem. Não sabia que existia, não conhecia bem. E daí, quando eu fui fazer vestibular eu digo: “Ah, vou fazer enfermagem”. Já conhecia um pouco melhor, aí já tinha estado muito no hospital e nessa época eu me identificava legal com isso. Por exemplo, eu era... E hoje ainda sou assim... Toda vida eu me lembro, desde quando eu tinha 13, 14 anos, que minha mãe me elegeu a pessoa mais equilibrada. Sabe aquele povo assim... Que você cobra mais, não sei que e tal... Parece que é mais forte, não sei quê, conversa mais. Porque um fato interessante, que acho que marcou muito ela foi o seguinte: O meu pai tem uma filha de um primeiro casa..., não é de um primeiro casamento, de um primeiro relacionamento, porque quando ela casou essa filha já existia. E eles dois guardavam isso num segredo, que eu nunca entendi porque era tanto segredo. Mas era assim, quando você fazia, não me lembro se era com 15 anos, tinha uma idade que eles delimitaram que contavam a história para filha (risos). Então, a minha irmã mais velha soube da história e ficou também calada. Eu não me lembro, ela nunca..., a gente nunca falou sobre qual foi a reação dela, mas me lembro que no dia que ela me disse essa história, achei normal e contei pra todo mundo. Todo mundo ficou sabendo dessa história (risos). Porque eu não conseguia ver a gravidade com que eles colocaram. Agora essa é uma característica muito minha assim, nunca consegui dar esse... Às vezes as pessoas me contam coisas e eu fico quase que me cobrando sofrer um pouco mais, porque eu não consigo achar tão grave assim, sabe? P/1 - Bom, para compensar também. (risos) R - Compensar... Pois é, acho até que por esse fato, ela ficou me tendo como a pessoa que ela podia contar as coisas. E daí cobrava muito disso então quando eu comecei a fazer o técnico, era pelo simples fato de estar fazendo o técnico de enfermagem, todo mundo que adoecia na família, ia ter um filho, não sei o que... Todas as coisas, eu ia. Aí, eu tinha que fazer qualquer coisa já estava na história, né? E por isso eu fiz enfermagem. Aí a história da enfermagem muda, direciona totalmente para outra área, que é a área propriamente da saúde dessa coisa, por conta dessa bolsa que eu contei né? Desse programa de saúde escolar, porque o destino quis, essa pessoa foi lá, falou, eu estava lá no dia e daí me inscrevi para essa bolsa, e passei. E daí foi onde eu comecei a conhecer as favelas de Fortaleza, as escolas... P/1 - Como é que é essa historinha? Porque na hora eu não estava muito atento. R - Eu... Era um programa de saúde escolar que se desenvolvia com os professores nas escolas de periferia de Fortaleza. Eu me lembro, por exemplo, que nessa época, eu não conhecia a periferia de Fortaleza foi a primeira vez que eu andava de ônibus, assim ia vendo... E eu me lembro que isso me assustava muito até foi a primeira vez que eu começava a observar com mais segurança, assim, as pessoas embaixo dos viadutos, não sei que, e aquela coisa começou a, até então eu não tinha muito... P/1 - Você estava meio permeado não via... R - Eu me lembro que já lia... Quer dizer, gostava um pouco... Na Universidade, me lembro que a gente já se envolvia um pouco com esse movimento. Eu era de universidade particular, então... Mas os alunos fizeram uma greve por conta de um aumento que houve lá. Mas eu gostava dessa coisa do movimento, mas nunca foi muito consciente. Aquela coisa de ouvir a pessoas falarem e tal... P/1 - No período militar ainda? R - É... No período militar... Isso mesmo, imagina, a gente não tinha nem a possibilidade de saber o que acontecia, porque também meu pai e minha mãe também não falavam absolutamente nada sobre isso dentro de casa. P/1- Mas eles não eram engajados politicamente? R - Não, nenhum dos dois. Ah, hoje quando a gente conversa sobre aquela época, quer dizer, eles emitem opinião daquela época, que realmente deixa uma revolta grande com algumas coisas, mas na verdade dentro de casa ninguém ouvia falar absolutamente nada disso. Mas, eu fazia coisas assim... Eu fumava escondido, que as minhas outras irmãs não faziam, porque... Simplesmente porque as freiras não gostavam. Eu gostava dessa coisa... As freiras não gostavam, aí eu fazia... Não sei que... Por exemplo, eu saia de aula. No começo tudo assim, todo mundo gostava... Eu gostava de fazer... (risos). Não era muito assim com qualquer tipo de consciência, era uma coisa de adolescente, de implicância... Tem outra coisa importante, que aí, eu já sofri... O meu marido foi o meu único e primeiro namorado, que eu casei com ele. Então a gente namora oito anos, a gente se conheceu quando eu tinha 13 anos e ele 17. Daí a gente namorou oito anos até casar. E casei virgem (risos). Essa é outra coisa interessante que ninguém acredita (risos) porque têm alguns princípios engraçados, eu digo assim. Era uma coisa muito... Que eu achava que era muito importante. Não se, achava que era importante. E aí eu já sofri a influência dele, um jogador profissional, que tinha morado no Rio e em São Paulo, não sei que... Nesse período que a gente namorava ele viajava, então ele tinha outras... Outras coisas... Outras ideias e tal. Então eu sofria muito a influência dele nesse tempo que eu fazia essas coisas assim com as freiras lá... Mas nunca chegou a ser nada muito assim que... Bom, nunca meus pais também souberam... Nunca foi nada muito grave... Mas sempre fazia parte desse grupo que era mais diferente, não era muito no esquema. E na universidade também, era muito assim. Mas uma coisa bem... Muito pouco de entendimento ainda... Até quando estava... Quando comecei a ir então para esse projeto de saúde escolar, essa coisa começou a virar mais de revolta, da desigualdade, do abuso, não sei que... Aí nesse tempo, eu realmente já criei mais, eu comecei a ler mais sobre essas coisas. Gostava da questão da sociologia e de algumas palestras que tinha... Eu já era casada nessa época. Quando terminei a universidade... Eu casei logo, um semestre antes de terminar... E já tinha nascido a minha primeira filha. Quando eu fiz 22 anos, já tinha casado, me formado e tido filho. Que era outra coisa engraçada no meu tempo de jovem. Eu botei na minha cabeça porque meus pais botavam, que com 18 anos a gente tinha que estar muito definido. Então botava na minha cabeça que quando tivesse 22 anos, eu tinha que ter casado, tinha que ter me formado, tinha que ter filho porque era assim. Aí eu achava que essas coisas eram as coisas. Aí quando eu fiz 22 anos tinha feito tudo: “E aí vou fazer o que?”. Eu me lembro tão bem, que quando eu me formei, foi a última das coisas... “E agora, já fiz tudo.”. Não tinha mais nada para fazer. (risos). E agora eu disse que quando eu terminar o livro, pronto, agora eu não tenho mais nada para fazer. Mas aí esse projeto teve realmente uma influência muito grande na decisão posterior de formação de trabalho. Porque depois eu fiz o curso de “Educação e Saúde” especialização por conta de estar nesse projeto. Daí a saber na divisão de educação, por conta de estar nesse projeto. P/1 - E o que consistia exatamente esse trabalho? R - Era o seguinte: Nós éramos bolsistas então tinha escolas e a gente trabalhava direto com os professores, na linha de orientar os professores a passar para o aluno essas questões de higiene e tal. Fazia acuidade visual, auditiva, orientação para bochecho com flúor para escovação de dente, não sei que. E influenciava muito no currículo dos professores para tratar questões de saúde. Era uma coisa muito legal que hoje eu acho ainda que tem uma necessidade muito grande. Mas que era um projeto pontual que acabou por acabar. Logo depois, ainda nesse período desse projeto, não, logo depois com a divisão de Educação e Saúde, eu tive a outra soma, que foi antes... Quer dizer, eu comecei as minha vida profissional fora do sistema de saúde, que foi nas escolas. E a gente tinha de fazer esse elo com a escola e a unidade de saúde. E a unidade de saúde era uma loucura de difícil da gente chegar. E aí quando eu comecei na Divisão de Educação e Saúde, eu tinha um monte de ideias de como dentro das unidades de saúde, as pessoas poderem trabalhar fora, extra muro com a questão da escola. E foi por isso que eu assumi esse serviço de educação e saúde lá. Eu me lembro que eu tinha mil coisas assim de ideias disso. E eu não sei por que eu conseguia... Por exemplo, ninguém conseguia naquela época reunir ninguém no centro de saúde. Porque as pessoas primeiro não trabalhavam, passavam lá alguns momentos. E aí era uma dificuldade. Mas eu me lembro, Não sei porque cargas d’água, eu conseguia reunir as pessoas e conversava e não sei que e tal. Dava certo. E algumas ações a gente conseguia fazer... Eu chegava a ter, um cúmulo de muito abusos, por exemplo, eu pregava nas mesas, na dos médicos e tal, todo material educativo que existia que para ele poder trabalhar, pensando no que ele ia fazer. Eu fazia coisas assim. Porque eu me lembro que eu fazia todas as coisas. Mas não adiantava nada, mas eu gostava de fazer, mesmo sem adiantar. Eu gostava, por exemplo, de tirar cartaz que ainda hoje eu faço isso, eu tenho aquele monte de cartaz que a gente não... Aqueles flanelógrafos que estão sempre cheios de cartaz, que eu nunca sei qual é o novo ou aquele que já faz três meses que está lá. Então, eu chegava ao andar e limpava tudo, que era só para deixar os cartazes daquele dia, sabe? Lógico que as pessoas mangavam um pouco... Mas naquela época achava tão certo assim... Era tão tranquilo para mim. Porque também tem uma coisa, à medida que a gente vai ficando mais temeroso de lançar ideias novas e aí é onde está o risco. Quando a gente é mais novo não se arrisca em qualquer coisa, não é? E eu era muito disso. Quando eu tinha uma ideia, não queria nem saber, fazia mesmo, eu era assim, sabe? E aí nessa época houve, a Pastoral da Criança chegou ao Ceará. E porque eu era envolvida com a Igreja e tal não sei... Também, porque acho que ninguém quis ir, eu fui para esse curso lá do... Esse encontro que eles chamaram Primeiro Encontro de Coordenadores e tal. Porque elas convidaram alguém da Secretaria para estar. Eu me lembro que foi uma semana e eu achei muito interessante, o trabalho e tal. E dali eu já comecei a entender a história de trabalhar com comunidade, essa história do agente pastoral que era líder na época da Pastoral... Fiz em alguns momentos, alguns tempos trabalhando com algumas áreas. Estava vivendo essa época quando houve a grande revolução do Ceará em 1987, no governo do Tasso fiz uma mudança muito grande e assumiu o Dr. Carlile que o grande idealizador dessa história do agente de saúde, que foi quem teve a coragem de institucionalizar essa experiência e aí começou uma discussão na Secretaria, ele quando assumiu começou a discutir com vários técnicos e tal. P/1 - Dr. Carlile? R - Dr. Carlile. P/1 - Ele era o Secretário de Estado? R - Era o Secretário de Estado. Carlile é uma pessoa surpreendente que... Pessoa completamente diferente de todas as pessoas que eu conheço. Ainda hoje ele, assim... Meu marido diz que eu não faço nada sem falar com ele (risos). Assim, meu conselheiro... Uma pessoa muito, muito interessante. E, apesar de ser... Eu acho que é a pessoa mais lúcida que eu conheço assim na área de saúde desse país. É uma pessoa extremamente simples, é uma pessoa muito importante, muito importante de ser conhecida. Carlile começou a discutir essas coisas com várias pessoas da Secretaria e tal... Isso começou a surgir daquele movimento de apoio e movimento contrário. E daí, eles definiram trabalhar com 30 profissionais que tinham ouvido falar na historia e que estavam querendo parar um pouco para pensar. P/1 - De onde ele tirou a inspiração para montar o projeto? R – Carlile foi professor, ele é de Jucás, um município pequeno do Ceará. Ele lá em Jucás, quando terminou medicina ele voltou para Jucás e com um ano que ele estava lá ele entendeu que não podia ajudar o povo com o que ele sabia. E aí resolveu, foi nessa época que surgiu Brasília, professor da universidade, ele veio, fez o concurso, passou, veio para cá. Ele viveu uma experiência parecida com essa em Planaltina porque ele fez parte da transferência de Planaltina e quando ele voltou oito anos depois para Jucás ele fez um trabalho semelhante com alunos de segundo grau na sede do município também assim. Na época do governo do Tasso, na elaboração do projeto do governo ele lançou para o governo o projeto do agente de saúde e o governo comprou. P/1 - Eu estou dizendo isso porque tem uma experiência cubana, chinesa, parece que esses países chegaram a implantar alguma coisa semelhante e já havia a experiência do Pernambuco. Era só naquele instituto, o Inip. R - Como tinha em Pernambuco, Fortaleza mesmo tinha projetos da universidade, e coisas parecidas e tinha um trabalho do Proare com parteiras leigas. Enfim, essa ideia de trabalhar com pessoas da comunidade, eu acho que a ideia não é nova. A grande ousadia do Ceará foi institucionalizar isso, essa é a coragem que outros lugares. Essas experiências todo mundo sabia, mas todo mundo acreditava que ela dava certo porque era pontual em algum local. Mas ter isso sob a gerência do estado era muito complicado. E aí nessa época a gente discutiu durante duas semanas e foi muito interessante como eles trabalharam, a Míriam, que é a esposa dele, que também viveu essa experiência, é uma assistente social, coordenou esse processo junto com mais três ou quatro profissionais que elaboraram com ela essa ideia. Eles reuniram esses 30 profissionais que eram da educação, da ação social, da Fundação Cesf na época, da Sucam, enfim saíram identificando gente assim. Carlile gosta muito de trabalhar com pessoas, quando ele tem ideia nova ele busca: “Vamos conversar com o fulano não sei aonde.” Antes da coisa virar grande ele conversa, ele é muito estratégico nessas questões. E aí eu fui para esse projeto por meio acaso, eu estava com uma amiga que é uma companheira grande aqui que também está comigo no agente de saúde. A gente estudou junto na universidade, saiu para trabalhar junto, a vida toda a gente trabalhou junto e agente da saúde a gente fez junto também. E essa vivência, quer dizer, esse momento dos 30 foi selecionada assim, por pessoas, e eu participei disso, eu e a Velane por conta de... Às vezes eu digo, essa história toda é porque eu passei no corredor na hora certa. Eu vinha descendo uma escada e já (Jarina?), que era uma enfermeira antiga na secretaria, conhecia porque eu já tinha um destaque de nome na secretaria por causa dessas coisas assim que eu fazia no centro de saúde, de vez em quando o povo, repercutia ruim, o médico ia lá brigar porque eu tinha feito qualquer coisa. E me chamou, me viu assim no corredor e chamou: “Vem cá, você está sabendo dessa idéeia do Dr. Carlile de colocar agente de saúde e tal não sei o quê. Vamos fazer um grupo de 30, vocês são educadoras, de repente não sei o quê”. Aí a gente botou um pouco de banca, aí sentou lá. “Deixa a gente ler o anteprojeto?” “Ah, vamos”. Aí fomos, aí, essas duas semanas foram maravilhosas. Eles dividiram assim: na primeira semana, eles discutiam a questão da antropologia e da sociologia. E eu fiquei encantada, nunca tinha participado de nada naquele estilo. Quer dizer, chegavam momentos que a gente tinha a fazer, com salário mínimo da época, para uma casa de cinco pessoas, um cardápio que tivesse todos os nutrientes, e era um desafio imenso e ninguém conseguia fazer o cardápio. E era para a gente sair para procurar os preços em vários lugares então a gente identificava a questão da inflação que ninguém sabia “E quanto custa uma caixa de fósforo?”. Isso tudo para mim foi uma novidade imensa. Eu não recebia... Que eu sabia tão pouco da vida... Isso foi muito legal. Então, uma semana só disso, “Vamos discutir a história do agente de saúde”. Discutia isso, a vida. Não sei bem, como eles chamavam, mas tinha um nome bem interessante. Eu tenho esse material guardado, me lembro agora. E a segunda semana então, era partir para essa experiência do agente de saúde, como é que ia fazer, quem era o perfil e tal e não sei o quê... P/1 - Esse grupo dos 30 pra disseminar esse trabalho? R - Era. Era para decidir se ideia ia para frente ou não. Porque já se tinha discutido com vários grupos, chamaram vários assistentes sociais, os enfermeiros... Porque naquela época se trabalhava muito por categoria ainda. E, aí começa aquela briga dos contra e dos a favor. E eles resolveram fazer esse grupo de pessoas para decidir se ia ou não. E aí, nesse grupo dos trinta, quatorze resolveram que sim, que a ideia era boa e que a gente podia avançar. E dezesseis criaram o grupo de resistência. Aí, esses quatorze, eu comecei a fazer parte desse grupo, começamos a então a lançar... Fazer o projeto em si e tal. E aí resolvemos que a gente deveria ter mais aliado, porque o grupo dos dezesseis estava muito forte. A gente resolveu reunir 120 pessoas, aí chamamos o pessoal do interior, não sabe o pessoal do interior, vai entender bem essa proposta. Trouxemos então os profissionais que trabalhavam no interior, e fizemos um grupo. Nessa época era muito fácil, porque a gente... Tudo o que queria a gente podia fazer porque o secretario estava querendo. Então foi fácil a gente conseguir dinheiro, para juntar 120 pessoas durante duas semanas num lugar para discutir isso. E aí juntamos essas 120 pessoas com o mesmo processo. Fizemos uma semana toda dessa discussão e depois entramos na história do agente da saúde. Ah! Só não saiu bala nesse encontro. Foi uma loucura, uma loucura... Tudo o que você pode imaginar de complicação deu. Mas foi incrível, porque quando a gente pensava que estava acabada a situação não. Foi impressionante para os 120 a adesão foi assim de uns 80. Foi impressionante assim, nos últimos momentos do curso... P/1 - Bom, tá bom. Vamos lá R - É aí essa história do grupo dos 120 resolveu que sim. Daí o estado disse sim, vai ser. Aí começou o outro grupo lá de resistência... Mas aí, foi ficando cada vez mais enfraquecido. Só que houve um problema grave. Foi... A estória era....Tinha que pagar os agentes de saúde e era uma salário mínimo. Mas foi quando o governo viu que muito bem, que ele tinha o dinheiro, mas ele não podia pagar. Porque como ele pagava? Qual era a forma legal de pagamento e tal? E aí, nós resolvemos, enquanto se decidia isso, fazer uma primeira experiência em Fortaleza mesmo, pegando assim os profissionais que já existiam dentro das unidades de saúde, que a gente acreditava estavam desmotivados, não sabiam muito bem como trabalhar e tal, que nos íamos sugerir a eles, trabalhar como agente de saúde. A gente ia treinar e tal, não se quê. E aí fizemos uma verdadeira loucura. Era todo mundo que queria... Foi a notícia para diversas áreas de Fortaleza, nos centros de saúde, naquela época ainda não era municipalizado... E todas as pessoas de nível médio ou elementar, que quisessem se inscrever, iam se inscrever e botavam a área de moradia dele, a gente o transferia para a unidade mais próxima da casa dele, e dava a ele uma gratificação para trabalhar oito horas. Houve um treinamento. Foi nesse momento que eu fui novamente para uma unidade de saúde, para ser supervisora desse processo. Selecionar esse povo e tal, treinar e tudo. Mas esse processo eu levei três meses, e aí já me chamaram para a coordenação. Eu vim para a coordenação. Porque nessa época do grupo dos 30, dos 120, eu era assim... Eu me envolvi de cabeça... Muito... Tinha assim... Não sei o que aconteceu, deu assim em estalo... Que eu era... Carlile disse que, uma das coisas mais importante das pessoas, não é ter grandes ideias, mas é saber reconhecer uma boa ideia (risos). Porque às vezes eu digo assim... “Eu não consigo ter uma ideia para fazer uma coisa dessas”. E ele, “Não se preocupe muito porque se você souber reconhecer uma boa ideia já é bastante bom.” (risos). A gente então começou através dessa experiência em Fortaleza, que durou um pouco mais de um ano, não avançou muito porque as pessoas eram funcionários não queriam... P/1 - Em 1988 por aí... R - Isso foi o ano de 1987. Nós começamos isso em maio de 87 e até final de 87 mais ou menos, ela ficou e depois foram voltando as pessoas aos seus lugares... Enfim acabaram... Mas aí, foi só até maio, junho porque em julho houve a história da emergência... A história da seca no Nordeste. E aí entra o recurso federal, entrando o recurso federal na emergência, você pode fazer tudo e mais qualquer coisa com esse dinheiro. Havia já um conselho de secretários, já nos anos anteriores, que a coisa era muita... Um clientelismo mesmo. Eles formaram um conselho de secretários que decidiam esse recurso da emergência. E Carlile então, nesse conselho de secretários, jogou a história: “Porque não fazemos a experiência com os agentes de Saúde?” E aí foi aí que à medida que os municípios iam entrando no processo de emergência, as mulheres que iam sendo selecionadas... Aí nós não podíamos selecionar... Eram as mulheres das famílias, por conta da emergência estavam entrando para isso. Então a gente treinava, quer dizer, os enfermeiros, os profissionais eram qualquer pessoa que tivesse lá, que morasse lá no município a trabalhasse por lá, treinava... Mas a clareza maior que se tinha naquela época era o seguinte. Nós tínhamos uma pesquisa que mostrava que a maior parte das nossas crianças, mais de 50% morriam com desidratação causada por diarréia. E tínhamos também uma cobertura de vacina muito baixa, o número de doenças evitadas por vacina muito alta. Então a gente só queria isso. Duas coisas importantes que eu achava do Ceará foi isso. Tinha muito concreto o que queria. Então a gente não se perdia muito. Porque a gente sabia o que queria. Então o agente de saúde era aquela pessoa. Ele tinha uma área determinada, ele visitava a família, buscava menino que não tinha sido vacinado, levava para vacinar e ensinando terapia de re-hidratação oral. Então era isso o que ele fazia, e nada mais. Não se ensinava nada, além disso. E essa experiência da emergência viveu até mais ou menos o meio do ano de 1988, isso começou em julho de 87, até mais ou menos o meio do ano de 88. Quando enfim acabou o dinheiro da emergência. Acabando o dinheiro da emergência, a confusão estava no mundo, porque nós tínhamos cinco mil agentes de saúde, na época nós tínhamos 157 municípios e eles estavam em 128. E aí? P/1 - Quer dizer, a situação estava armada, agora tinha quem pagar. R - A situação estava armada. E aí que aconteceu isso, nós resolvemos que o programa não podia acabar, o governo também... A gente tinha deputados que estavam aliados ao processo e tal, que não podia acabar e os próprios agentes estavam tudo aqui. Mas nós não tínhamos consciência, que a coisa era muito desarrumada, que não era aquilo que a gente tinha pensando antes... Porque não houve seleção, não houve mapeamento correto e então a gente resolveu fazer... Essa foi a ideia muito boa, que a Míriam teve, que era a mulher do Carlile, de fazer um grande seminário. Chamando diretor de hospital, deputados, não de que, e todo mundo para a gente discutir se era boa... O que é que tinha sido bom e que tinha sido ruim, para poder saber se a coisa ia continuar ou não. E aí nós fizemos um seminário que tinha uma coisa de 300 pessoas e pessoal do interior, deputado, os demais secretários, porque aí todo secretário de educação da época como o secretário de ação social tinham se envolvido muito no processo porque o processo de emergência também se ajuntava a essas áreas e aí já havia... O pessoal que trabalhava com imunização estava maluco, como é que acabou aquilo... Tinham avançado muito, então tinha um monte de gente já adepta a história. E foi esse seminário que o governo... Aí a gente fez uma coisa, que o governo, na hora, não entendeu muito bem que ele estava fazendo isso, mas o governador disse em alto e bom som lá que o programa ia continuar de qualquer maneira, que ele ia continuar... Ora 300 pessoas, um monte de liderança, jornal, televisão, tudo em cima, não dava mais para voltar, acabou. P/1 - Se comprometeu... R - Só que no outro dia todo mundo amanheceu louco. Porque saiu do seminário, foi uma cervejada. Estava todo mundo feliz demais. Foi farra grande. Mas no outro dia: “E agora? Faz como?” O próprio governador ficou louco e disse: “E agora? Como é que a gente faz? A gente tem dinheiro, mas paga como?” Voltamos ao problema anterior. Aí, foi na época, o governador resolveu... Nós tínhamos um recurso... Não... Começou uma história assim, o governador então pediu que a gente mapeasse todo Ceará para saber quantos agentes de verdade se queria, e o processo de seleção, com é que a gente queria fazer. A gente reescreveu o processo. E foi aí onde nós começamos a primeira experiência de seleção dizendo que como tudo que estava escrito nos livros daquela época, dizia que qualquer processo para você recrutar alguém da comunidade, o ideal era ser eleito pela comunidade. Então a gente começou a fazer isso. Mapeou... E em três meses, uma equipe de 25 pessoas, desceu a todos os municípios, sentou com o motorista da prefeitura, o padre, não sei quem. Era assim, chegava à cidade assim: “Quem que conhece o município? Vai buscar fulano...” com o mapa da Sucam, alguma coisa do IBGE, o que se tinha, foi distribuindo as vagas: “Aqui cabe um agente, aqui são dois, aqui são três. Aqui tem um rio, aqui tem não sei que...” Hoje que o pessoal faz isso, essa territorialização com muita facilidade, porque hoje a gente tem documento, mas há dez anos, nós não tínhamos. Então fizemos tudo isso, mapeamos e dissemos para o governador quem eram 7000 agentes que precisava. Ele fez os cálculos lá e disse tudo bem. Porque a ideia era assim, o Tasso trabalha com essa perspectiva assim: Se uma estratégia não dá para todos, então não vai. Ele só implanta quando dá para todos. Você pode até passar quatro anos implantando, mas vai dar para todos, se não der para todos, não vai. Assim é a ideia. E naquela época também, ainda outra coisa que a gente queria, era a questão da redistribuição de renda para o interior. O problema nosso era tirar esse salário mínimo do povo do interior. Porque a gente não queria mais tirar. E aí, esse... Nós fizemos então essa ideia do processo de seleção por área, as pessoas vinham, juntava todo mundo, explicava o processo e daí iam ser indicadas as pessoas... Mas isso foi uma loucura. Nós fizemos quatro áreas e desistimos. Porque as pessoas vinham assim... Caminhões inteiros vinham votar na filha do vereador, na filha do presidente da associação, era uma loucura. P/1 - Vocês faziam votação? R - Votação. P/1 - Para o agente? R - Isso. P/1 - Gente que loucura... (risos) P/1 - Isso. Mas não dava certo não. Era loucura, primeiro era loucura porque quando a gente ia pensar que ia trabalhar isso em oito mil áreas, por mais técnicos que se tivesse disponível para esse trabalho... Quanto tempo gastaria para cada um reunir povo, não sei o quê. P/1 - E outra coisa, o critério para chegar a esse número, sete mil você disse... Vocês levaram em consideração... R - População. P/1 - População. Já era um critério de população? R - Era um critério de população. Era... P/1 - E tinha uma média por agente? R - Tinha. A experiência da emergência mostrou tudo para a gente. Foi fantástico porque quando a gente saiu da experiência da emergência a gente sabia de tudo. Como se você tivesse tido um laboratório para aprender. Essa foi a grande sacada. Então a gente sabia de tudo. Sabia por exemplo, que nas áreas rurais, ia variar de 50 a 100, mas que em áreas de aglomerado ele podia 250 famílias para ele visitar bem. Foi daí que surgiram hoje os números que estão hoje em todos os papéis 50 a 100. Saiu daí. E aí, a gente saiu mapeando por área e definiu. Claro que depois teve alguns ajustes. Mas se definiu razoavelmente bem. Na verdade nós tínhamos oito hoje, uns sete mil que a gente previa. P/1 - Já era muito parecido com... R - Já era muito... P/1 - Com o mapa de hoje. R - Deu legal... O mapeamento foi bem feito. E foi bem feito por isso, a ajuda foi do povo de lá mesmo. O motorista da prefeitura era fantástico assim: “Aqui não dá não, aqui o rio corta não sei quando. Bota essa agente lá”. E assim era, tudo foi muito artesanalmente feito. Entendeu? Quer dizer... Eu fui... Eu me lembro eu fui a quase 30 desses municípios. Também a gente não dormia não. Esses municípios a equipe viajando há três meses. Todo mundo fazia isso com uma boa vontade... E até hoje não consigo entender muito bem, qual era a coisa porque era aquela coisa. Hoje eu não proporia mais fazer o trabalho que eu fiz, porque... Acho que eu não tinha mais idade (risos). Mas, era coisa de doido mesmo não ia comer, eu tive um problema muito sério de casamento, por conta dessa coisa, não é? Então foi muito complicado para cada um. Esse momento do mapeamento, depois então a gente foi para o processo seletivo, viu o que não dava certo e aí a gente redirecionou e resolveu fazer por inscrições abertas. Aí usamos muitas rádios locais e fazíamos um spot para as rádios e os cartazes, aí pregava. Aí chamava... Eu me lembro muito bem. Assim: “Alô mulheres do município tal”. A gente fazia sempre chamativo as mulheres. “Você pode ajudar, contribuir para a saúde de sua família, você pode aprender mais, você não sei o que... Se você tem mais de 18 anos, pode trabalhar de manhã e de tarde. Venha aqui, se inscreva. E não sei mais o que.” Aí do jeito que tinha áreas que tinha 10, 15 candidatos, tinha área que tinha um, que não tinha nenhum. Eu me lembro que teve uma área de um município nosso, que a enfermeira responsável pela área ficou aflita porque não vinha ninguém. Eu resolvi ir com ela, isso já foi no segundo ano do processo de seleção, e eu fui lá para ir na área com ela, porque eu não acreditei que não tivesse uma pessoa, numa área de quase 120 famílias, que não tivesse uma mulher que quisesse, um homem sei lá, qualquer pessoa, que não tinha ninguém. Eu pensei que não tivessem feito uma boa divulgação e eu fui lá. Quando eu cheguei lá a gente conseguiu assim a muito custo, quase puxando dentro de casa de um de outro, reunir uns dez ao redor de uma mangueira. E eu ia colocando, explicando, dizendo das vantagens. Aí eu me zanguei... Porque eu falava, falava... E elas ficavam assim: “Vai tu, vai tu”. Ninguém queria ir. Aí eu disse: “Mas não é possível como eu que eu vou dizer que a gente está oferecendo a oportunidade de vocês aprenderem, de ganharem dinheiro, vocês não querem não, vocês querem ficar aqui morrendo de fome, esperando pelo prefeito para pagar as coisas... Minguando”. Fiz uma confusão. Aí então eu disse: “Pois então, vai fulana, é tu que vai”. Aí ela veio. A pobre veio arrastada para fazer a seleção. E eu fiz a questão de fazer o processo seletivo com dela. Aí tinha que fazer uma entrevista. A gente fazia uma entrevista individual com cada um. Por exemplo, se uma área tinha cinco candidatos eu entrevistava os cinco. Depois juntavam os cinco, fazia uma dinâmica de grupo e era daí que saía o candidato. Eu fiz questão de fazer com ela. Olha, ela entrou muda e saiu calada da entrevista (risos). Fiz tudo e a mulher não abria a boca. O máximo que ela disse... Acho que duas vezes ela disse não. Mas não saia nada. Aí eu disse para a Mércia, que era a enfermeira: “Olha, foi assim, aí e que a gente faz? Deixa aí. É o jeito que tem que tentar. Eu vou treinar, de repente no treinamento dá alguma coisa”. Olha, ela sabia muito mal escrever o nome dela. Agora ela lia, engraçado, ela lia melhor, ou compreendia ou decorava, enfim... Mas foi incrível, eu me lembro, que menos de um ano depois, em uma das reuniões de agente de saúde, eu nesse município ela veio falar comigo e me disse: “Olha, eu estou em uma escola e estou aprendendo a escrever mais, agora eu ajudo o pessoal da minha área, quando elas dizem: “Eu não aprendo.” Eu digo: “Você aprende o que eu aprendi?” Ah, essa é uma das histórias que eu acho divina. Então essa coisa assim que a gente foi vivenciando no processo da seleção foi incrível. Passamos quatro anos para selecionar o estado inteiro. Nós temos agente de saúde em todos os lugares. Temos uma cobertura de 80% em todos os municípios. P/1 - Esse caso que você está contando, a razão disso era porque eles eram muito pobres, ignorantes mesmo. R - Eu acho que na verdade é o medo. Porque as pessoas tem medo uns dos outros porque a comunicação entre as pessoas instruídas ou não instruídas é muito difícil. A gente conta muito, por exemplo, eu agora com dezesseis meses em Jucás e atendendo a gestante, quando a gente pergunta assim, conversa com ela e: “E aí, está sentindo alguma coisa?” Ela: “Quem eu?” (risos). Um médico amigo meu, eu não sei se é verdade, ele conta uma vez disse para o paciente: “O que é que você tem?” Ele disse: “Eu tenho um kombi velha e seis meninos” (risos). Como quem diz se for para pagar eu tenho. E é verdade. Porque a comunicação se torna muito difícil. As pessoas tem medo uma das outras. Você vê que entre as pessoas de um mesmo nível de escolaridade, basta que você tenha um poder um pouco mais fácil de comunicar que o outro tem medo de falar. Você vê, algumas pessoas tem dificuldade imensa de expressar, que é uma coisa que... Porque a gente tem esse hábito de gerar medo nas outras pessoas, de se sentir superior, e as pessoas sentem assim. Essa é uma coisa muito legal na relação entre a gente, que, havia e há ainda muitos encontros periódicos com os supervisores, essa corrente que a gente chama de solidariedade. E é muito como a Cristina estava falando aqui, tanto entre a gente dos estados quando se encontra, brinca e não sei que e té, té, té, e faz a confusão. Mas tem muita solidariedade, dentro do estado é muito engraçada essa cadeia. Quer dizer, todo mundo sabe da vida de todo mundo, que é casado, que não sei que e como é isso, e isso é muito bom. Já foi melhor, ainda hoje, o número é muito grande, mas o número de pessoas que começou é muito junto mesmo. É uma equipe muito junta. P/1 - Inês, outra coisa, você me disse, por exemplo: o mapeamento foi uma coisa que vocês já tinham, testaram, criaram o modelo e tal. Na estrutura do funcionamento também, quer dizer, ter um instrutor, ter um coordenador municipal, ter o coordenador estadual, essa estrutura também já foi uma coisa assim... R - Gerada... P/1 - Gerada lá? R - Foi gerada lá. P/1 - E em que momento isso ficou bem desenhado na cabeça de vocês, ou essa estrutura do projeto? R - Eu estou te falando. Tudo era muito artesanal. Não sei muito bem como surgia, por exemplo. Tudo surgiu muito do natural, da necessidade de fazer. O mapeamento o governador disse: “Eu quero”. A gente disse: “Não, se é assim, se é mil famílias o município é tal, não sei o que... Então vamos para o município para dividir os pedaços”. Porque para a inscrição, nós determinamos que o pessoal tinha que morar na área. Então nós tínhamos que fazer inscrição da área, e por isso nós tínhamos que dividir os pedaços todos. P/1 - Porque tinham que morar dois anos lá não? R - Não. Naquela época a gente nem ligava para isso. Depois quando programa foi criando corpo, nós criamos essa coisa. Mas naquela época não tinha nenhum problema, porque as pessoas não acreditavam também que aquilo fosse dar um resultado maior então, o número de pessoas. P/1 - Podia testar. R - Era. P/1 - E o fato de ser mulher. Vocês pediam que fosse mulher? R - No Ceará era fechado sem mulher, quando a gente fez... P/1 - Isso muitos anos? R - Não. Foi fechado no primeiro momento, quando terminou a emergência, nós começamos o processo de discussão, nós fechamos para mulher. Mas deu uma confusão tão grande com os homens, assim, eles vinham, reclamavam, um deputado vinha a gente resolveu botar preferencialmente mulher. Mas na verdade os homens passam na seleção no Ceará se ele for muito bom. Se ele assim for líder comunitário, e se não tiver mulher igual a ele. Mas se ele é homem mesmo. Entre a gente, a gente sabe. É tanto que cada vez que a gente vai selecionar, alguém vai selecionar e aí seleciona um homem: “Por que seleciona ele? Não tinha não sei quem?” Então é uma cobrança tão grande em cima de quem seleciona homem que as pessoas evitam o máximo. P/1 - Por que esse preconceito contra o agente? R - (risos) Por uma razão muito simples. É que você vai lidar diretamente quase a totalidade das vezes com mulheres. Porque é a mulher que fica em casa, e ela que cuida do filho... E por isso é muito mais fácil a comunicação entre duas mulheres. A outra coisa, que o fato de ser mulher e ser mãe, ainda pesa, para a gente ser mãe, pesa diante do fato de ser só mulher. Por conta da própria experiência. E tem aquela coisa, por exemplo, aleitamento materno para a gente é uma coisa importantíssima, e uma mulher, um homem pegar no peito de uma mulher botar para mamar para a nossa cultura é complicado. Então a gente prefere, a maior parte das vezes evitar o fato do homem. Nós tínhamos bons agentes homens. Mas as experiências mostram, que não são... Não é bom. A maior parte das vezes não é bom. P/1 - Mas já houve casos de agentes homens? R - Sim, nós temos 3% dos nossos são homens. Mas não é muito bom. E agora ultimamente tem sido mais. Quando a gente vai fazer uma cobertura de área, em um município ou outro assim, aí aparecem muitos homens. Porque na verdade a coisa está brava. Outra coisa que a gente tinha também era a estória da distribuição de renda, porque assim o homem bem ou mal ele podia plantar, ele tinha outra oportunidade e a mulher não tinha outra. E além de tudo ainda tem outro detalhe: a capacidade de aprender da mulher é muito maior. No sentido de ter... (inaudível) do que a gente estava propondo capacitar. P/1 - Fácil? R - Muito mais fácil a mulher. Por exemplo, saber preparar um soro, limpar um ferimento ou discutir sobre vacina ou enfim, ou conversar ou ouvir outra mulher sobre violência que ela passa em casa do marido, enfim... P/1 - Quanto mais nas classes mais baixas... R - Claro, quanto mais... Não tem nem... P/1 - E agora com a ampliação para a saúde da família, você acha que esse quadro muda? R - Muda com a relação ao homem? P/1 - O perfil do agente? R - Não, eu acho que o perfil do agente, ele evolui, não é? O que evolui é a própria organização do sistema. Então hoje você tem, se você tem um profissional enfermeiro mais próximo ao agente de saúde, então o agente de saúde começa a desenvolver uma função, ou até então, em algumas áreas os agentes de saúde, acaba por ser muito mais carregador de doente ou tratar muito da doença, porque ele é único. Ele não tem muita referência, quando o serviço não está organizado. Ele faz, não o que ele deva fazer, o que tem jeito de fazer. Ele faz. Mas à medida que o serviço se organiza, então o agente de saúde passa a fazer esse papel, que é uma coisa mais importante de ele fazer, que é essa conversa, essa troca, essa educação, que é isso que está faltando. Ele veio para preencher essa lacuna, essa coisa da comunicação. Olha, é interessante essa coisa da comunicação que, quantas vezes eu estava entrevistando, eu devo ter entrevistado umas 20 mil pessoas durante todo esse processo. Mas teve municípios, que a gente estava entrevistando a pessoa, que a gente pedia licença e saia para perguntar para o enfermeiro lá da área, que morava na cidade ou a pessoa: “O que é que ele quer dizer com isso?” Porque eram frases inteiras que eu não conseguia. Não conseguia...: “O que isso que ele está dizendo?” P/1 - (risos). R - Era impossível. Aí hoje não, eu tenho um monte de coisas escritas, assim de coisas interessantes. Você vê, eu tenho uma história que eu gosto muito de contar que está no meu livro também, que eu digo assim, tem coisas que..., eu gosto muito de perceber como as pessoas se comportam, a história... Eu digo muito, tudo você tem que respeitar as pessoas a partir de sua lista de vida. Às vezes, você é muito complicado, mas tem que ver a história de vida como foi. Eu me lembro, que a gente..., que eu passei durante esse período de tempo, eu passei três meses em uma cidade, em Quixadá, sendo instrutora de agente de saúde. Um período que eu resolvi viver essa experiência, foi rápido. Depois voltei novamente para a coordenação. Mas, eu tinha lá uma agente de saúde, a D. Alice, ela tinha 50 e poucos anos e era extremamente difícil. Todos os supervisores: “Aí com é que pode, tem que tirar a D. Alice, não sei e tal.” Realmente D. Alice era um problema. Só que ela estava numa área super difícil, de um pouco mais de 50 famílias, e só tinha ela mesma. A gente resolveu ir deixando. A gente tinha antes de cada reunião, a gente fazia a reunião com eles a cada 15 dias, e era um dia inteiro. Então antes da reunião fazia algumas dinâmicas para aumentar essa coisa da criatividade, do poder de observação e tal. Uma das vezes, elas eram 16, eu em uma roda com elas e aí comecei uma estória dizendo assim: “Era uma vez um menino que nasceu no interior de Quixadá”. Aí apontava para outra que contava um trecho da história, aquela coisa, para ir vendo a criatividade, somando a história. Enfim... E aí elas foram dizendo que esses meninos, os pais morreram, depois ele foi criado por um padrinho e o menino foi advogado. E eu ficava observando, as que eram, as que botavam o menino lá no alto, que não podia, que não dava para a situação e as outras que botavam... Às vezes o menino ia bem, e não sei que... Morreu, quebrou uma perna, esse povo assim traumático (risos). Quando chegou a D. Alice, estava uma história que o menino era advogado, mas que tinha ido advogar lá por causa tinha perdido e agora estava abandonado, tinha mais nada, nem... Foi aquela onda assim pobre, acabou o menino lá, o rapaz... E aí chegou a D. Alice. E aí D. Alice fica pensando, pensando, aí virou e disse: “Aí ele arranjou um jumento, botou uma canola em cima e vai vender água.” Todo mundo riu e disse... Aí eu mesmo disse: “D. Alice, ele é um advogado.” Aí ela virou para mim e disse: “E a senhora pensa que vender água não é uma coisa boa? Vender água é uma coisa boa e dá muito dinheiro.” Aí eu me lembrei que D. Alice tinha 55 anos e morava no interior de Quixadá, uma das áreas mais secas do Ceará e que para ela, ela não fazia parte das mulheres que queriam derrubar o menino não. Ela estava buscando no otimismo que ela podia ver no mundo dela o máximo. E a coisa melhor na vida dela era a pessoa ter um jumento e vender água naquela cidade. Então, eu fiquei tão impressionada com a dimensão de um mundo dela e daí eu comecei a observar muito isso e passar muito para os supervisores: “Observa essa dimensão de mundo que as pessoas têm e tal”. E foi quando a gente descobriu que lá em Quixadá, eu descobri que uma parte muito grandes delas que nunca tinha vindo a Fortaleza, dica a 160 km de Fortaleza, e que nunca tinham visto o mar. Aí isso me deu uma ansiedade, não pode, eu adoro o mar, então eu fiquei impressionada, não pode não ver o mar, então aluguei um ônibus, botei 155 dentro e vamos para Fortaleza ver o mar. Oh, meu Deus! Foi uma loucura. O mar deu até certo. Mas o Iguatemi... Foi uma loucura, quase que eu fiquei louca, quando voltei às mulheres dentro do Iguatemi. Foi uma loucura para achar. P/1 - O que é que é o Iguatemi? R - O Iguatemi é um shopping imenso (risos). Quase que fiquei louca quando voltei elas dentro do Iguatemi. Claro que tinha, uma parte que era bem melhor. Mas então, nossas agentes de saúde diferem um pouco dos outros estados porque nós pegamos essa camada de agente de saúde. Que eram pessoas assim... Que a gente buscava essas pessoas que tinham liderança e tal... E que na verdade o nível era muito pequeno. E isso atrapalha um pouco no avanço. Por isso, é que nós estamos mudando mesmo assim. P/1 - Exigindo. R - Exigindo mais. Isso é uma mudança com a saúde da família, está exigindo um pouco mais. Você está vendo esse sistema que estão montando aí? Eu fico olhando e digo: “Meu Deus, como é que o agente de saúde vai fazer isso?”. Por um grupo grande de nossos agentes de saúde, quanto menos eu pedir, exigir dele que ele anote coisas mais verídicas vai ser aquilo que ele anotar. Se eu coloco muita coisa, vai dar uma complicação para ele. Então nós temos, nós criamos todo um sistema de informação, que o sistema que está sendo elaborado é dentro de uma lógica do nosso, mas a gente teve todos esses cuidados. Nós recebemos assim uma assessoria fantástica da Unicef, porque não é porque a Unicef, acho que a Unicef é uma boa instituição. Mas, ____ , é uma pessoa incrível, nós tivemos muita sorte no Ceará, porque a pessoa que foi Unicef no Ceará, é uma pessoa fantástica. P/1 - Quem é? R - ____ (Vitoni?). É um italiano que vai embora agora também. Ele está há dez anos, desde que chegou... Ele chegou junto com a história dos agentes de saúde. E deu assim uma contribuição imensa. Não só, quer dizer, aquela pessoa que tecnicamente é muito bom, é também muito amigo e viveu muito com a gente e viajou muito e tal. Tem um monte de histórias interessantes para contar de agente de saúde também. Nós tivemos muitas assessorias muito boas. E tivemos essa pessoa que foi o Dr. Carlili, que logo depois, antes mesmo, eu assumi a coordenação nesta confusão, da mudança da emergência para ______. Porque Carlili saiu para se candidatar em Jucás para prefeito e ele foi embora, com ele a mulher dele e aí... Eu assumi, aí... P/1 - _______ R - Eu assumi assim também. Nós já éramos sete pessoas e aquela história: “Não ___ quem é que fica? Fica você ____.” Tudo era muito assim. Fica aí você vai ficando. Aí nós assumimos a discussão com os deputados. Porque o Tasso fez isso. Quando foi o processo seletivo ele quis reunir as bancadas dos deputados e a gente ia explicar. Olha o que eu ouvi de deputado, foi a coisa mais horrível. Quando a gente falava do processo, claro que o Carlile vinha sempre pedir apoio mesmo não sendo mais secretário. Mas eles diziam para a gente, quando a gente acabava de falar da seleção, que aí íamos ver isso, que o critério era esse, que as pessoas iam se inscrever que quisesse, que a gente ia fazer uma seleção e tal. Eles ficavam loucos: “Quer dizer que a senhora está dizendo que vai arranjar emprego para o povo sem ser a custa da gente? O que a senhora está pensando?”. Eu ficava tão impressionada. Porque eu sabia até então que político... Que alguns políticos tinham mesmo esse lado muito porreta. Mas nunca pensei que eles externassem com a facilidade que eles externaram (risos). Eu ficava assim... Eu ficava horrorizada ___. “Porque que eu não tinha um gravador?”. E aí foi aí também, que foi muita outra lição minha aprendida nesse período é que eu comecei a ver que realmente eu tinha já assim, político não presta. Mas não era assim. Poucos não, nós identificamos. Pessoas muito interessantes. Tinham deputados que faziam depoimentos muito interessantes, apoiava e tal. E foi muito bom. Então foi outra coisa que eu aprendi. Esta coisa do respeito a esses cargos eletivos. Eu tinha horror a essa história de vereador, deputado, não queria conversa. Mas Carlile uma vez, me disse muito assim: “Olha, as pessoas estão representando o povo. E tem de ser assim. E com eles mesmo, eles têm que (apencar) vocês, tem que ser assim e tal.” E daí foi que eu passei, por exemplo, todas as discussões nossas câmera de vereador pode chamar vinte vezes, a gente vai discutir. Recebe vereadores, que eu tenho horror a essa estória de vereador e deputado já entrando na sua sala. A gente entendeu, respeita a questão deles serem representantes e tal. E que acho que é uma coisa que a gente precisa aprender que tem políticos bons, que dizer tem políticos ruins, mas tem alguns políticos bons. Talvez os ruins sejam um pouco mais, mas. P/1 - Bom e de repente, com essa história vocês acabaram sendo responsáveis pelo programa que ganhou repercussão nacional enorme e que é responsável até pela divulgação do governo do Tasso que naquela época virou uma estrela da administração dele a questão da saúde. E quem momento isso consolidou? Você tiveram números, ganhou esse estrelado? P/1 - Ah foi horrível, tomou consciência dessa coisa. R - Porque na verdade o trabalho foi tão exaustivo que a gente nem tomava consciência. Mas eu me lembro, que já assim, com um ano no final de 89, quando a gente conseguia ver resultados muito grandes a gente começou a brincar entre a equipe: “Já pensou quando a gente tiver implantado o agente de saúde no Brasil todinho?”. Brincava, disso. Mas não imaginava a dimensão. Mas quando a Unicef escreveu o estudo de caso em 91. Ah foi um momento tão emocionante para gente. Porque a gente nunca escreveu nada. Não havia tempo de escrever nada. E aí, a Unicef... Chamou mais dois consultores e escreveram o primeiro estudo de caso. Eu nunca vi alguma coisa escrita com tanta clareza e com tanta veracidade, porque geralmente quando as pessoas escrevem a história, já é um pouco. Mas eles escreveram... Assim tão era tão aquilo, eu fiquei tão impressionado com isso. Eu me lembro que quando eles começaram a escrever e iam passando para gente, que a gente lia junto e foi achando também que tinha feito uma coisa muito legal, que tinha dado certo o processo de seleção assim encantava e tal. E também, mas a gente ficou muito preocupado também por conta das histórias. A preocupação nossa, aí foi assim, esse documento foi o que foi... Virou prêmio internacional que a gente recebeu e tal. P/1 - Em que época vocês receberam o prêmio? R - Acho que início de 1992. P/1 - Da Unicef? R - Da Unicef. Aquele prêmio em Nova York. P/1 - Sei. R - Que nenhum de nós foi para o prêmio (risos). Mas foi um agente de saúde. Foi um representante do secretário. P/1 - Por quê? Qual o fato que... R - Nós já sabíamos por conta da redução de 32% na mortalidade infantil. E agente de saúde como contribuiu muito com isso. Porque a gente deu um estímulo dizer o seguinte a redução da mortalidade infantil no Ceará, todos os avanços não se deve exclusivamente ao agente de saúde. Se deve um contexto, eu dizia isso, eu dizia isso. Ah, eu disse isso tanto quando foi para implantar a nível nacional. Quando o ministro então resolveu essa implantação eu vim para casa durante três meses e todas as terças feiras eu ficava em Brasília, foi exaustivo isso. Eu me lembro que eu ficava assim exausta de falar: “Gente, não é o mundo todo assim, não é o Brasil todo, teve todo um contexto para o Ceará criar dessa forma, não é assim”. P/1 - Quais foram os fatores que contribuíram? R - Bom, a decisão política de fazer é uma coisa importante, a questão da definição clara de que você queria fazer a criança, a saúde da criança era muito importante, você tinha um grupo de pediatras muito envolvidos trabalhando o Viva Criança, que era o programa que fazia isso. Você tinha o contexto do secretário, o Secretário de Saúde nosso tinha uma importância imensa, ele era tecnicamente muito capaz de fazer isso, quer dizer, o secretário queria, desejava e sabia, era diferente das outras situações não era porque quatro técnicos de um estado resolveram fazer o agente de saúde que a coisa ia dar certo. Depois toda a história de apoio político que a gente teve, da discussão com os deputados, da organização, da municipalização da saúde porque paralelo ao agente de saúde a gente começou a municipalização. O envolvimento de prefeitos e secretários era uma coisa muito importante. Tinha todo um contexto favorável, nós tivemos tudo, o marketing em cima no próprio estado para discutir isso, tudo isso. P/1 - Você acha que a divulgação para a população foi um fator importante também? R - Foi um fator muito importante, houve uma divulgação. Agora não tão como nós desejávamos não porque nós não tivéssemos tido apoio ou recurso financeiro para fazer, mas porque nós não tivemos visão, a competência técnica. Eu digo muito que o que nós não conseguimos fazer foi por pura falta de competência técnica, mas não foi por visão, mas não foi por falta de apoio porque tudo que se pensava em fazer a gente tinha dinheiro para fazer. Nós tivemos dificuldades assim, por exemplo, o carro, o governador quando ele apoiou então o programa e fez o decreto institucionalizando o programa e dizendo que ele passaria recurso para uma entidade civil organizada do município para que ele pagasse. P/1 - A gente falou, falou e acabou não dizendo qual era a solução. R - Foi essa solução que ele deu. Só que nós fizemos em três meses. P/1 - Que entidade civil é essa? R - Qualquer uma, qualquer entidade civil organizada do município que sejam selecionadas para fazer. P/1 - Hoje já está ligado ao SUS, já está igual ao nível nacional? R - Não, o que vale é o estado. P/1 - Então o estado do Ceará continua diferenciado? R - Continua diferenciada, a forma de pagamento sim. Agora porque naquela época ele fez esse decreto e o que nós fizemos? Corremos durante três meses, a gente selecionou 1800 agentes em 44 municípios. E aí quando o governo tomou pé três meses depois nós já tínhamos feito isso então nesse período realmente nós fizemos loucura. Quer dizer, a gente tinha um carro, mas a gente pegava carona, andava de ônibus, quantas vezes o meu marido e o marido da Vânia iam com as caixas de material dentro da rodoviária. Eu não sei por que a gente fazia aquilo, mas fazia. Aí quando a gente fez isso, quando o governador tomou pé já tinham 1800 agentes, ele não podia imaginar agora voltar. Foi então quando se chamou essas tais instituições nos 44 municípios e ninguém quis assumir, porque quem queria assumir um negócio desse. Você ia ser o órgão empregador de um grupo de agentes, qual era a segurança que se tinha de que o governo depositaria na hora correta os encargos e não sei o quê. O governo não sabia explicar isso pelo menos não deixou muito claro ninguém quis, aí o estava problema estava no mundo. Só que aí já tinha 1800 agentes trabalhando há três meses, por enquanto estavam ganhando como bolsa, mas só que três meses depois não podia mais ser bolsa, mas na época tinha uma fundação estadual ainda e descobriram que lá e que essa fundação podia pagar por um ano e foi assim que foi por um ano. Só que aí nós aumentamos, nesse ano que a fundação pagou nós aumentamos mais o dobro passamos para quatro mil e tantos agentes. E aí não tinha mais volta, não tinha mais jeito, aí o governo resolveu depois pagar pelo FDC, que era o Fundo de Desenvolvimento do Estado. Bom, e assumiu que está errado, o governo paga com recurso do Tesouro do Estado via dotação orçamentária das diretorias dos departamentos regionais de saúde completamente irregular como um serviço prestado, mas o governo não se preocupa com isso. Agora nesse momento nós fizemos o ano passado os agentes fizeram uma espécie de cooperativa em cada município e já com 44 municípios nós repassamos através dessa cooperativa, eles mesmo são os seus empregadores, assinam as carteiras e tal. Está dando um rolo danado isso porque a gente não tem perna para acompanhar juridicamente e tem muitos problemas. Mas parece que é essa é vai ser a saída mesmo, aqui ou acolá um agente põe na justiça o governo paga a indenização sem problemas. Agora é aquela história o tribunal de conta vive dizendo que vai todo mundo preso, não sei o quê. Mas hoje, por exemplo, eu assinei quantos anos e assino ainda cada vez que alguém diz: “Não vai assinar.” Eu assino o pagamento deles então. Quer dizer, eu vou presa porque peço, é tanta gente para ser preso. P/1 - Mesmo o pagamento via SUS ainda é uma coisa complicada, não é? R - Sim, porque claro, é a forma empregatícia diferente. Agora no estado o tribunal de contas diz que cada um de nós é responsável por fazer uma coisa errada para o estado, nós somos funcionários, mas já passou por aí uns sete ou oito secretários, muita gente presa. A gente até brinca às vezes quando o tribunal faz uma confusão: “Vai ser muito bom vai todo mundo preso aí a gente escreve e tal.” Ninguém está preocupado com essa história. P/1 - Olha, vamos fazer um balancinho. Os ganhos obtidos, só para a gente fazer um resumo. Você falou da mortalidade infantil que naquele momento foi um marco, eu acho que havia objetivos definidos quando você disse que era a mortalidade infantil e a vacinação, parece que eram as metas prioritárias. R - Na verdade, a mortalidade infantil sempre foi a meta, agora dentro da mortalidade infantil existiam duas ações específicas na época que era a questão da imunização e a terapia da re-hidratação oral, depois se somou a isso a questão do aleitamento e ao acompanhamento do crescimento que hoje eles fazem. P/1 - E quais os benefícios assim? R - Eu acho que o ganho em termos de impacto de saúde realmente tem muita contribuição na mortalidade infantil é verdade, principalmente as realizações de impacto que realmente podiam ser feitas em curto prazo com menos tecnologia. Agora tem um ganho em termos de organização de serviços muito grande. Por exemplo, com muito mais facilidade do que os outros nós estamos montando a saúde da família porque você tem o sistema de saúde organizado, você tem os agentes já existentes, então muito mais rapidamente você organiza isso, então foi um ganho para a organização de serviço. E foi um ganho em termos de avanço social muito grande. P/1 - A consciência. R - A consciência das pessoas, você imagina o que são oito mil pessoas que antes eram pessoas que estavam lá acomodadas em suas casas e que hoje são pessoas treinadas, acompanhadas, que se reúnem e tal. Uma revista francesa fez uma matéria com essa abordagem, do ganho social para as mulheres no agente social do Ceará. E ela mostra com muita clareza essa coisa, muito legal, do quanto isso foi importante para essa discussão ganhar corpo. Você vê que os conselhos são mais atuantes, você tem mais, você tem uma soma muito maior de discussão, se você observar no estado do Ceará em termos de discussão de ideias é muito forte isso. Então você tem um ganho impressionante, você tem hoje mil trabalhos feitos pelo agente de saúde, por conta do agente de saúde você tem um sistema capilar para absorver as coisas que a camada de decisão é muito mais rápida dentro do município. Eu acho que o agente realmente foi esse marco importante no país para você pensar realmente na reorganização do sistema, eu acho que é essa coisa muito forte. Depois teve a outra coisa importante para cada um de nós. Quer dizer, cada um de nós que participou desse processo a riqueza eu tenho plena clareza de que dez anos atrás eu era uma pessoa completamente diferente do que eu sou hoje. De todas as pessoas que trabalham com agente de saúde, eu hoje fui para o departamento técnico, fui para o interior para ajudar lá o pessoal de compras não sei o quê. Porque eu tenho uma clareza, uma dimensão muito grande da responsabilidade que a gente tem na construção desse sistema. Toda vez que eu venho aqui para o ministério eu fico assim: “Meninas, vocês dormem toda noite tranquilas porque vocês prestaram atenção no que nós estamos fazendo? Nós estamos mexendo com a vida da população inteira, nós estamos dizendo que vamos construir um sistema novo, pelo amor de Deus! A gente tem que prestar muita atenção”. Eu gosto muito, todo vida eu falo de dar as minhas lições aprendidas: “Olha, a gente aprendeu isso, desse jeito não faça que dá errado.” O que eu faço geralmente é: “Não faça isso, isso dá errado.” Eu brinco que toda vida é assim: “O que foi que aprendeu de errado?”” Você pediu para não fazer.” P/1 - Você se lembra de umas duas coisas que você disse: “Não faz”, e que deu errado? R - Por exemplo, eu dizia para elas uma coisa assim importante: “Não faz essa coisa de fazer com que o agente de saúde seja... Que ele se sinta como se ele fosse a peça mais importante do mundo colocando para eles essa ideia de que eles são os donos da situação, que eles tem poder político, não faz isso, pelo amor de Deus, vai, trabalha ele como crescimento pessoal, que ele é agente, importante por isso para a população dele. Na hora que você der a ele o poder ele pode virar um político desses assim, vira vereador”. Eu dizia sempre essa história: “Agente de saúde autoriza ambulância”. “Não, vamos com calma.” P/1 - Distribuir leite no seu estado é o agente de saúde? R - Agora sim, porque agora as pessoas são muito mais tranquilas com relação a isso. No início, por exemplo, havia distribuição de feijão, mas nós nunca permitimos muito ou evitávamos o máximo que o agente de saúde fizesse isso. Porque uma das grandes preocupações era essa, que ele não virasse essa liderança má, nociva para a população que é o que acontece. Então esse é um grande risco que você tem que observar cada dia com cada um de nós, tem que se observar muito com relação isso. Você tem que ter a dimensão da sua liderança para quanto mais você vê que as pessoas escutam mais isso deve ser, mais reflexão você vai fazer sobre o que você diz. P/1 - Não usá-los. R - Não usar isso. Porque eu ponho muito medo, porque eu vejo assim: “O pessoal do Ceará fez isso?” “Calma, eu vou dizer calmamente o que eu fiz, é isso, e isso, eu não sei se está correto, mas vamos devagar”. Porque essa coisa do estrelismo, houve um momento que quiseram fazer isso comigo, eu achei muito ruim e o meu marido foi muito legal comigo nessa época, ele chamava muita atenção para isso, ele dizia: “Olha, cuidado, estão exagerando”. Teve um momento que eu não podia mais trabalhar, eu passava o dia dando entrevistas, era o rádio, era a televisão, era o New York Times, era não sei mais quem, o dia dando entrevistas. Chegou um momento que ele disse: “Olha, tu não trabalha mais, faz oito meses que tu não trabalha e como vai ser isso? Vamos devagar que essa história, as coisas estão ficando difíceis”. Ele me chamava a atenção muito para isso. Teve um momento que eu aparecia tanto na televisão que os meus filhos, todos os colégios, “Está igual a uma artista”. P/1 - E você não quis seguir carreira política? R - Não, um dia desses a gente comentava isso e ele disse: “Se eu fosse mulher do prefeito”. Ele disse: “Você nunca vai ser a mulher do prefeito. Você pode ser a prefeita porque mulher do prefeito”. Até penso às vezes, mas não está na hora, eu acho que as coisas todas têm o seu momento porque eu acho que tem muita coisa para aprender, agora mesmo com a saúde da família. “Você vai coordenar a saúde da família e não sei o quê”. Eu comecei a coordenar uns seis meses, a gente começou no final de 94: “Sabe de uma coisa eu não sei fazer esse negócio não! Deixa eu ir no município para aprender.” Eu passei uns seis meses estudando: “Deixa eu ver se eu sei.” Porque eu não gosto de falar daquilo que eu não sei, eu digo muito isso assim. Um dia desses me perguntavam sobre uma experiência que a gente viveu lá em Jucás dando galinha e galo para as mulheres e para mães com filhos desnutridos. Eles me foram perguntar e eu falava e falava: “E a cabra?” “A cabra eu não sei por que eu não fiz experiência com cabra eu não sei. Eu só falo do que eu sei, do que eu não sei, eu não falo.” P/1 - Como que era a experiência, dá o quê? R - Que foi o seguinte: chegou um dado momento lá que as crianças desnutridas além do leite e do óleo e o açúcar que a gente fazia não conseguia recuperar. Então teve um agente de saúde que teve uma ideia que a gente devia dar uma galinha, que chamava galinha poedeira e um galo. Porque aí a galinha ia colocar os ovos, não sei o quê, o menino ia comer o ovo, ia nascer o pinto, o agente de saúde quis isso. E o Carlile era o prefeito lá... E o Carlile é o seguinte: o agente de saúde acha uma coisa, ele bota. “Bota lá as galinhas.” Então pronto ele quis essa, então muitos agentes de saúde quiseram: “No meio tem um.” E foi dando lá isso, e dava muda de planta e dava não sei o quê. Foi uma confusão, cada criança que nascia aí dava muda de planta para ir plantando e a planta ir crescendo junto com a criança, as coisas lá eram assim. E aí, tudo ele fazia, por exemplo, eu me lembro, aleitamento materno, chegava o agente de saúde: “Sabe porque a fulana de tal”. Porque a gente se reunia assim na semana para saber as coisas do agente de saúde: “Sabe por que a mulher não está amamentando? É que ela não tem quem cuide do filho dela lá porque ela tem que lavar roupa, ela tem outro menino pequeno”. E ele: “Mas por que não tem ninguém para ajudar, não tem uma mãe, uma irmã?” “Tem uma sogra, mas mora noutra cidade, não tem dinheiro para a passagem”. “Quanto é essa passagem? Passa lá na prefeitura, busca essa mãe, manda buscar essa sogra” (risos). Eu achava fantástico porque ele resolvia assim, isso que é uma coisa boa do município porque você resolve as coisas, você tem que a coisa que eu achei fantástico porque eu vivo com um problema muito macro, mas cada uma das coisas precisa ser resolvidas, alguém tem que resolver o fio da coisa. Então eu acho que essa coisa assim do crescimento de cada um de nós, acho que tenho e isso a gente pode observar em cada um, na sua fala, acho que está muito mais calmo agora, parece que está mais tranquilo mais de primeiro se falasse uma coisa era uma confusão, uma briga. P/1 - Inês, em termos de índices daquela fase que o Ceará brilhou para cá houve mais ganhos? R - Houve em termos de organização se serviços, em termos de descentralização é muito grande hoje. Agora a redução mortalidade infantil vem se dando, a gente está com uma média um pouco mais de quarenta por mil em todo o estado, isso representando a área mais pobre que é dos agentes de saúde porque aqueles 20% mais ricos a gente não pega. E agora só que nós estamos vivendo um problema agora maior porque o impacto para ações menores é mais fácil, mas agora a gente tem que mexer com outros setores, o estado hoje está colocando água tratada em todas as sedes de todos os municípios até final de 98. E nós estamos com prioridade um a educação, a saúde não é mais prioridade no estado, é a quarta prioridade. A nossa primeira é a educação, a geração de renda, a outra não sei o que é, agricultura e depois é que é a saúde e os agentes de saúde, por exemplo, também estão fazendo o censo da educação gerenciar as crianças dentro e fora da escola que é o agente de saúde que faz. O agente de saúde está trabalhando muito nessa questão da educação porque agora é como a gente diz: “Agora é manter vivo quem a gente salvou. Porque se salvou agora tem que dar qualidade de vida.” P/1 - Quer dizer, a prioridade mudou porque esse setor já está controlado. O índice de mortalidade caiu para quanto? R - Hoje nós estamos com a média do estado de 44 por mil até dezembro de 96, com certeza deve estar menor porque essa é a média do interior do estado se junta com Fortaleza deve cair para 40, mas a meta é atingir menos de 40 em cada município, nós temos dois municípios com 100, estava com 101. Então nós já acompanhamos cada um dos municípios porque a ideia não é que o estado tenha uma média de 40 é cada município esteja abaixo de 40. P/1 - Para terminar, no final do governo do Tasso não estava em 32%? R - 32% foi o percentual de redução porque caiu de 107 para 60 e pouco. P/1 - Era 60 e pouco e agora está em 40? Então realmente caiu bastante. R - Caiu bastante. Eu venho acompanhando bem, agora nós temos ainda muitos problemas assim, em termos de discussão nós não temos mais problemas, está todo mundo pensando do mesmo jeito. Agora é a história de como faz. Como faz é que aquela discussão, então para a saúde da família nós temos uma série de atropelos. Por uma coincidência muito ruim nós perdemos a eleição em quase todos os municípios que tinham saúde da família, foi uma coincidência ruim. Mas a gente entende que uma coisa que eu já disse aqui de uma lição já aprendida é que a gente discutiu pouco com a população sobre essa história da mudança, chegou lá o médico e a enfermeira, mas nós não queríamos mais tanto dar tanto remédio, nem hospitalizar, nem liberar a ambulância para estar carregando gente. A população queria isso, queria um monte de remédio, monte de injeção e quer ter a ambulância para vir passear em Fortaleza. E isso para ser discutido com a população, então pode ser que ela tenha achado muito mesmo. P/1 - Faltou comunicação. R - Faltou comunicação. Eu digo muito que falta essa comunicação. Por exemplo, o governo federal. O governo federal se comunica mal com a população, muito mal porque o que chega, o outro governo Tasso a gente se comunicava muito bem, agora tem uma dificuldade muito grande, tem uma firma que eles contrataram que faz isso. E é uma briga porque eles querem criar a coisa muito no lado da comunicação, do marketing, não sei o quê, antes não a gente ia à linha da comunicação para o povo do Ceará, agora é marketing para o Brasil aí não dá, é muito complicado, aí perde. Perde a importância eu tenho disso isso a todo momento ao governo: “Está errado, tem que redirecionar essa questão.” Porque a gente trabalhava com o povo do Ceará, agora a gente trabalha com o mundo para o mundo escutar e ver. Então eu acho que tudo bem vem avançando. Eu acho uma coisa que não é muito legal que o governo vem fazendo hoje que a interiorização de indústrias é uma coisa muito grande no Ceará, é verdade. Mas eu não sei se isso vai ser bom para o povo do Ceará porque o nosso agricultor não sabe trabalhar na fábrica, eu acho que a gente devia investir mais na questão da agricultura mais do que na fábrica, investe muito pouco mesmo porque o Ceará... Mesmo porque dizer que o Ceará não é um estado viável para a agricultura é um erro porque tem milhares de lugares no mundo mais secos do que a gente e que investiram nisso. O nosso povo podia aprender a tecnologia como essa porque isso faz parte da vida dele. Mas o homem que está acostumado com a enxada tirar ele para dentro numa fábrica é complicado. Então nós estamos tendo essa dificuldade, é claro que agora tem até os centros de desenvolvimento vocacional no interior que vai tornar o nosso jovem mesmo no interior muito capaz, tão capaz quanto, capaz de acionar a Internet, vai ser muito bom. Mas isso é coisa para cinco, seis anos, mas o hoje estou achando muito desemprego, muito problema. Eu acho isso muito difícil e um lado do governo acha isso bom, o outro lado acha isso muito difícil. A mesma história é a comunicação, quer dizer, tem um lado que diz: “Olha, vamos comunicar melhor com o nosso povo.” Eu não sei por que nós estamos com algumas fábricas que só estão causando prejuízo para a gente, o índice de prostituição muito elevado, coisas ruins. Porque eu acho que o turismo ele é importante quando é um turismo responsável, mas quando é um turismo para acabar com a vida de quem mora lá do que ainda trazer dinheiro? São essas coisas aí que eu acho que a gente... Menos do que tu, terminou. P/1 - Eu acho que está bom de fato, já exploramos bastante, a gente pode encerrar eu acho que inclusive a gente estava fechando mesmo. Estava assim nas conclusões. E por você, você sabe, a sua história é tão antiga no PACS que dá mais duas horas para continuar. Muito obrigado. R - Vamos tomar uma cervejinha que a gente conversa.

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