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História de: Cícero Bueno Brandão Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/02/2005

Sinopse

Nascimento em São Paulo e infância em Santos. Criação militar. Curso de Engenharia Química e especialização em Saneamento. Primeiro trabalho em São Paulo. Transferência para a Empresa de Saneamento de Santos, onde realiza obra de emissário, redes de esgoto. O desenvolvimento da cidade. Os clubes de Santos. Ida aos EUA e estágio em empresa importadora de café. Trabalho com exportadora de café. Com a morte do sogro, assume a Armazéns Gerais Tamoyo.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome completo é Cícero Bueno Brandão Júnior. Eu nasci em São Paulo, no Hospital da Cruz Azul, pertence à Força Pública naquele tempo, do Estado de São Paulo, hoje Polícia Militar, no dia oito de abril de 1939.



FAMÍLIA
Nome dos pais e atividade profissional Meu pai era Cícero Bueno Brandão e mamãe Maria Andayra de Paula Bueno Brandão. Papai nasceu em Casa Branca e mamãe nasceu em Goiás Velho, foi por muito tempo capital de Goiás. Papai começou como vendedor de arroz, de feijão, de batata e, ao assistir um desfile da Polícia Militar em São Paulo, em frente ao Quartel Coronel Tobias de Aguiar, na Avenida Tiradentes, ele se apaixonou. E de lá para cá ele cursou a Escola de Oficiais da Força Pública, e fez uma bela de uma carreira, deixando um nome até hoje lembrado por todos os oficiais da antiga guarda. Mamãe nasceu em Goiás velho, estudou por lá e, quando veio para Goiás, naquela fase de transição, de mudança de capital, papai, que havia feito a Escola Militar de Guerra, que hoje nada mais é do ADESG, naquele tempo era feito também pelo exército e era chamado Curso do Realengo, ele foi indicado pelo governo de São Paulo, até porque ele brilhantemente acabou o curso em primeiro lugar, para planejar a Polícia Militar do Estado de Goiás. E que, para alegria de toda a família, o Clube de Oficiais da Polícia Militar de Goiás hoje tem o nome de Coronel Cícero Bueno Brandão. Lá ele conheceu mamãe, com 16 anos de idade, e veio a casar mamãe com 17 anos de idade com o naquela época capitão Cícero Bueno Brandão.



FAMÍLIA
Descrição da avó Ana Minha avó, muito querida, me acompanhou a minha meninice todinha, em Itaquaquecetuba. Todas as férias... O papai tinha um sítio em Itaquaquecetuba, naquele tempo ia-se de trem, gastava-se quatro, cinco horas, hoje você sai do Parque Dom Pedro em São Paulo, coisa de meia hora, 40 minutos, você está em Itaquaquecetuba. Então, era a vovó Ana, muito querida, foi a única avó que eu tive relacionamento, os outros infelizmente eu não vim a conhecer.



MIGRAÇÃO
Mudança para Sorocaba, São Paulo e Santos Papai, com vida de militar, volta e meia era transferido. Eu me lembro que eu morei algum tempo em Sorocaba, grande parte em São Paulo, e depois papai veio, eu na época tinha seis anos de idade, veio comandar a Força Pública aqui em Santos, e o quartel era no antigo Cassino Miramar, onde eu passei também toda a minha infância. Porque do lado existia o Cine Miramar, e lá, com o ordenança, que tomava conta de mim, é que eu assistia as minhas séries, Zorro, Fantasma, tudo que passava para a garotada naquela época. Depois, com o correr do tempo, papai solicitou a mudança da área desse quartel, foi autorizado, e o quartel que hoje existe no Canal Seis, na Avenida Joaquim Montenegro, foi o papai que realmente construiu.


MORADIA
Descrição da casa de São Paulo e Santos Minha memória é muito boa. Eu, quando vim de São Paulo com a família, nós fomos residir ali na rua Maranhão, 29, e ali eu cresci e, depois de algum tempo, papai resolveu comprar uma casa na rua Ceará, onde realmente foi a maior parte da minha vida em Santos, eu residi ali na rua Ceará. Olha, era uma casa não muito grande, era uma casa com três quartos. E um jardinzinho bem aprazível e no fundo tinha um quintal bom, e um apartamento, onde minha avó, Sinhá Ana, residia, porque mamãe... eram nove irmãos, entre mulheres e filho, mas mamãe é que... a mais jovem foi que assumiu vovó. Então, onde nós íamos vovó Sinhá Ana ia junto, mãe de mamãe.


ADOLESCÊNCIA
Amizade com Pelé E ali na Pompéia, que é o bairro, a minha vida foi no famoso bairro Olímpia. Por que famoso? Ali existia time de futebol de adulto, até pequenos, e concentração muito boa de jogadores de bola, de praia, famosos naquela época. E, com o correr do tempo, é até uma grande satisfação fazer esse relato, chegou para morar do lado de casa, na famosa casa da dona Georgina, um garoto chamado Edson Arantes do Nascimento, Pelé. E eu tive o prazer, eu, um compadre meu, João Carlos Coelho, e um outro colega meu, que hoje é diretor de uma firma exportadora de café, uma das maiores do Brasil, nós crescemos com esse jovem. Com 15 anos de idade, ele chegou ali para morar, nós que saíamos para cinema, nós que saíamos para comer pastel no Gonzaga, nós que saíamos para jogar bola, nós que saíamos para passeios, enfim. Ali era o João Carlos, o Ivampa, o Pelé, e vários outros ali, eles não faziam lelê, que a gente costuma dizer que é equilibrar a bola, fazia com limão siciliano. Então, é um negócio que parece que é fácil, mas não é não. E o crioulo, com aquele pezão dele, e a garotada acompanhava, fazia um número infindável de lelês com limão siciliano, que era passatempo da gente na praia. Sentado, começava a conversar: "Vamos fazer lelê? Começava a fazer lelê. E foi no Olímpia realmente que eu cresci, fiz grandes amigos, desde o time dos adultos, e eu disse anteriormente que era famoso, foi o primeiro clube que instalou na praia trave de futebol para se jogar. Existiam mais jogadores bons de bola, posso até citar, Paçaroca, Lula Carvalho, o Luís Carlos, grande goleiro, Arnaldo Ferreira dos Santos jogou lá também, o Carioca. Enfim, um número infindável.


LAZER
Futebol na praia Era um time de praia. O que vinha ali no sábado à tarde, primeiro e segundo time saía com as costas quentes de tanto tomar gol, porque realmente era uma nata muito boa de jogadores. Joguei muito tempo na praia, e nós tínhamos ali no bairro o famoso time do saci. Era um time de jovens em que o saci, que era o mais velho, tomava conta. E nesse time, que também era um time irrepreensível, por duas vezes eu fiquei campeão no torneio de praia do Sesi, que era disputado ali em frente ao Colégio Escolástica Rosa, na Ponta da Praia. Depois fui para São Paulo terminar os meus estudos...


EDUCAÇÃO
Estudos em vários colégios de Santos Ah, eu aqui em Santos, a minha primeira escola foi a Escola Olavo Bilac, aqui no Canal Um. De lá eu passei para o Marquês de São Vicente, que era mais perto de casa. Do Marquês de São Vicente... a quinta série, que existia naquela época, que era um preparatório para você prestar o exame, para você entrar para o secundário, eu fiz no Cesário Bastos. De lá eu passei para o Colégio Santista. Foi uma fase muito boa também, uma época muito boa, futebol eu tive ali, com viagens, com os irmãos maristas, tudo. Depois, quando eu acabei, eu acabei o meu curso científico no Colégio Monte Serrat. Ali eu encerrei. Se bem que quando encerrou, meu negócio... Eu gostava de jogar bola. Mas filho de militar, sempre repreendido, papai chegou à seguinte conclusão: "Bom, já que você não quer estudar, pelo menos você vai passar um ano com sua irmã nos Estados Unidos".


FAMÍLIA
Descrição das atividades dos irmãos Nós éramos em quatro irmãos. Tinha o meu irmão mais velho, Murilo, que se formou em Medicina, foi para Goiás e lá radicou, fez família, tem um Hospital Maternidade que é um dos maiores de Goiânia, e se aposentou. Hoje cuida de fazenda, tem um filho que está no Hospital, tem um que é agrônomo, que o acompanha na fazenda, e tem mais duas meninas também. Então, todos casados, com vários netos. E tenho uma irmã que foi estudar nos Estados Unidos, conheceu o marido, o Max e ela, infelizmente, há coisa de três ou quatro anos veio a falecer. E tenho lá sobrinhos, sobrinhos netos, e tenho... Minha irmã era Miriam. E o mais novo, que é o Zé Luís, que está radicado aqui na família, na cidade também, casado, pai de três meninos, dois meninos e duas meninas.


LAZER
Possibilidade de jogar FUTEBOL nos Estados Unidos É, minha irmã já residia lá, e para lá eu fui. Ela morava em Montclair, é do lado de lá de Nova York. Você, para atravessar para cá, tem que atravessar o rio tem túnel, você vem de ônibus. E eu tenho uma passagem muito interessante lá, com essa lembrança, eu até, quando encontrei o Pelé no Caiçara, e naquela época eu me lembro muito bem que ele me apresentou, a Xuxa, ela era jovem, eu não o via há muito tempo, eu brinquei, falei: "Olha, você pode ir para os Estados Unidos, que eu já abri o campo de negócios para você lá." Por que? O meu cunhado, quando veio para cá passar a lua de mel com a minha irmã, me viu jogar futebol, e quando eu fui para lá ele falou: "Não, aqui você vai ter que jogar em algum time." E realmente, eu sei que ele era alemão, e ele me colocou em um time lá deles, e eu disputei naquela época partidas lá. E, por incrível que pareça, tinha um brasileiro lá, Danilo Ferreira dos Santos, filho do seu Alberto Ferreira, com quem eu trabalhei, e ele viu a minha partida, só que nevava uma barbaridade, e eu estava completamente congelado. Perdemos de quatro a um, mas, para a minha felicidade, o gol quem fez fui eu. Eu era meia esquerda. E pelo menos deixei um pedaço de fama, porque no dia seguinte à partida o meu nome saiu na primeira página do New York Times: "Brandão score the first but lost for one." Pelo menos eu deixei essa marca lá. E foi quando eu disse ao Pelé: "Olha, pode ir para lá, que..." Ele deu muita risada, porque naquela época ele já estava começando a preparar a ida dele para lá, do Júlio Mazei e do depois Carlos Alberto, esse pessoal profissional que foi para lá e que ficou radicado no Cosmos de Nova York. Eu fiquei nos Estados Unidos um ano e dois meses aproximadamente.


SERVIÇOS
Corretagem de café nos Estados Unidos Seu Alberto Ferreira, muito amigo de meus pais, exportador de café, e dos grandes, naquela época, tinha os agentes dele na Wall Street, em Nova York. Então, uma dessas falas de telefone comigo papai me passou a seguinte mensagem: "Cícero, o Alberto pediu para que você não ficasse parado em Nova York, procurasse os agentes dele aí, e visse se haveria possibilidade de você começar a trabalhar, pelo menos é uma carreira que você pode fazer, ele acha que é muito proveitosa, classificador de café, trabalhar numa firma exportadora." E assim eu fiz, e o agente do seu Alberto era o Gregory Martini. Fui lá, o Gregory eu já o conhecia, porque ele vinha, como agente, quase que constantemente ao Brasil, então fui recebido de braços abertos e fiquei oito meses com ele lá. E foi quando então eu pude manipular e ver toda aquela gama de café do mundo inteiro, porque eles, como agentes, não lidavam só com o Brasil, lidavam com Ásia, Europa, América do Sul, enfim, todos os produtores de café, porque eles é que vendiam. Então, vinham as amostras de café. Ali que eu fui conhecer o café arábica, que eu não sabia o que era. Não, arábica não, o conillon. O arábica era o nosso, nós temos aqui também o conillon. Mas naquela época para mim era uma novidade, eu não sabia o que era. Então, fiquei lá...


EDUCAÇÃO
Ingresso na Faculdade Isso foi em 1958, 59. Porque aí eu comecei a trabalhar. Quando eu voltei, eu já estava com emprego aberto para mim com o senhor Alberto. Lá eu trabalhei três anos e meio e quatro anos, quando eu conheci a minha esposa. E naquele tempo o café estava muito em baixa, tudo, eu dei uma revisada na minha vida, tive uma conversa bem séria com meu pai, e eu mostrei a ele o meu interesse de voltar aos estudos. Então, eu fiz seis meses de cursinho em São Paulo, e prestei a Getúlio Vargas. Fui até a última prova. Acontece que a Getúlio Vargas, naquela época, estava iniciando o prédio dela, que é hoje, vai estar ao lado dela hoje a nossa Federação do Comércio, ali na Nove de Julho, e só tinha capacidade para receber 40 alunos. E eu fui prestar o meu último exame, História Geral, isso eu vou levar para o resto da minha vida. Tinha uma redação, e foi aí que eu e a maioria caímos, que realmente só entraram 40. Quando o professor começou a escrever lá, eu comecei a ler o que é que era. O tema eu me lembro. O tema era o Tratado de Potsdam, Alemanha atual à luz do Tratado de Potsdam. E infelizmente, não me veio na cabeça o que é que era o Tratado de Potsdam. Claro que, chegando em casa, fui folhear, nada mais era que a divisão da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial. Mas ali quem tinha que cair caiu, porque valia seis pontos, fora a parte gramatical. E eu ali caí. Aí dei uma repensada também, falei. Eu parei para analisar vida de meu pai, militar, eu falei: "Meu jeito é também tentar dar uma poupada." E meu pai tinha aquele soldo dele de militar, tinha ainda sob sua tutela eu e o Zé Luís menor, minha irmã já estava emancipada, trabalhava, meu irmão Murilo já estava na carreira de Medicina, eu resolvi ir para Curitiba. E lá eu fiz vestibular para Engenharia Química, fui muito bem sucedido, passei em segundo lugar. Me ajudou muito o exame que eu tinha feito em São Paulo porque, por incrível que pareça, coisas que aqui nos exames... lá, para não dizer que eu não sofri um pouco, eu sofri no exame de desenho, o resto foi tudo muito fácil, porque eu já estava atualizado. Então, comecei na antiga faculdade, que era lá no Cabral, em Curitiba, e no segundo ano nós passamos para a Federal, que hoje está na beira ali da Rodovia que vai para o Sul. E ali, então, fiz o meu curso, encerrei o meu curso em Curitiba, em 1966, fui paraninfo da turma. Tive na época o prazer de receber o ministro Mário Andreaza, que foi nosso paraninfo, em nome do governador Paulo Pimentel. E de lá para cá vim para São Paulo, me casei no segundo ano de faculdade, com a benevolência do meu sogro, o senhor Lupércio, e meu pai, que ambos patrocinaram meio a meio aquela união. E lá fiz um círculo de amizades muito grande em Curitiba, deixei grandes amigos. Acho que por ser o mais velho da turma e por ser, assim, muito extrovertido, praticamente, da época que nós nos formamos, ano sim, ano não, ou senão ano sim e ano sim, eu faço a turma se encontrar. Já nos encontramos, aqui em Santos, e Blumenau, em Curitiba, enfim, pessoal vai, leva as esposas, leva os filhos, é muito gratificante você ver aqueles amigos crescerem. E, olha, na minha turma, a nata que você possa imaginar em cargos.


TRABALHO
Primeiro emprego como engenheiro químico sanitarista Eu tive amigo meu que formou-se comigo, veio para São Paulo, o nosso primeiro emprego era doutor Otacílo, eu, o Ben Hur e o Mário Kato. Podemos dizer que nós começamos numa casinha na Av. Frederico Hermann Jr, hoje que nada mais, nada menos que é, que é o Cetesb, que é o Centro de Tecnologia e Saneamento do Estado de São Paulo. E que eu comecei lá, viajei muito para o interior todo, fazendo levantamento de destilarias e de usinas, por causa da contaminação com o restilo dos rios, mortandade de peixe. E o Cetesb hoje é isso que é. Meu primeiro emprego foi como engenheiro químico sanitarista. Porque eu fui me especializar na parte sanitária e havia feito estágio na Cosipa, na Carbocloro, aqui em Cubatão, e eu senti que, como engenheiro químico, aquele problema de indústria não ia bater com o meu temperamento, com tudo. Então, qual foi a saída? Pega a Engenharia Química Sanitária, que naquela época estava em crescimento, e começando. E assim eu fiz. Mas era uma casinha pequena, onde o doutor Otacílio, que era o gerente, vamos dizer assim, o diretor responsável, e os laboratórios que eram minúsculos. Hoje não, hoje é uma monstruosidade, quiçá o maior da América Latina nessa área ambiental. Então, foi ali que realmente eu comecei a minha vida. Depois, eu fui sentindo com o tempo... também, minha esposa, filha única, tinha um irmão, Rubens, faleceu muito jovem, deixou família constituída, tudo... E eu tive uma conversa muito franca com o doutor Otacílio e mostrei a ele a minha intenção de vir gerenciar o Cetesb aqui em Santos, que naquela época e até hoje faz toda a parte bacteriológica de água e controles de praia, tudo, para, naquele tempo, a SBS, hoje Sabesp.


BAIXADA SANTISTA
Serviço de saneamento SBS quer dizer Saneamento da Baixada Santista. Hoje não, hoje é Sabesp. Mudou a sigla e mudou os padrões. E depois de dois, três meses mostrando o doutor Otacílio, tudo, e como em Santos tinha um rapaz que veio começar, e era de São Paulo, e ele também estava com vontade de voltar para São Paulo, e eu com vontade de vir para cá. Então, o doutor Otacílio um dia chamou e falou: "Olha, Cícero, agora eu vou te dar uma boa notícia, dentro daquilo que a gente já vinha conversando, você vai continuar o trabalho no Cetesb em Santos." Ou seja, me ampliaram o laboratório, seu pai é militar, você, com uma gama muito grande de influência, e você vai para lá. Então, foi com muita alegria que eu vim para Santos e organizei a Cetesb. Dentro da área da SBS, tinha o laboratório, e tinha a parte de mecânica, logo na entrada da cidade, onde tinha o cemitério do Saboó. Ali, então, iniciei minhas atividades, um grupo de rapazes de primeira linhagem. E eu, como eu costumo dizer, como bom ariano, eu imponho, mas deixo a pessoa fazer, sabendo que eu vou cobrar. Então, eu tive um relacionamento muito bom com esses rapazes, o laboratório se desenvolveu maravilhosamente bem, e lá fiquei por três anos e meio. BAIXADA SANTISTA Questões de saneamento da Baixada Santista O Cetesb, ele faz tudo na parte de coleta de água de toda a Baixada Santista. Tanto assim que hoje tem Cetesb em Santos, tem Cetesb no Cubatão, que é onde está realmente hoje, por causa das indústrias do Cubatão, porque a Cetesb faz controle de poluição, de água e de ar. E naquela época não existia Cubatão, era só aqui, eu fazia de São Sebastião até Peruíbe coleta de água de mar, para ver a poluição, e internamente a água domiciliar. E na época da temporada eu tinha que cuidar dos canais, até porque Saturnino de Brito, o maior sanitarista, eu costumo dizer, não muito bem lembrado pela cidade, que existe uma rua no Marapé com o nome dele, eu que estudei toda essa parte sanitária, para mim o maior sanitarista que esse país já teve, vide canais de Santos, esgoto, Costão do Itaipu, tudo bolado e feito por Saturnino de Brito. O que é que ele tem hoje? Uma rua com o nome dele no Marapé. Muita lembrança para quem estudou, se aprofundou na vida dele, e eu fui um dos que procurei a SBS, como acho que todo órgão nessa área, tinha uma biblioteca muito vasta. Então, vi muito a respeito dele. Então, trabalhei, quando da confecção do emissário submarino, inclusive ganhou-se no Paraguai medalha de ouro, o maior prêmio do Congresso Sanitário. Olha, isso faz tempo. A data, assim, eu não me recordo, não me recordo. Mas, Santos hoje é uma cidade no nível do mar, foi toda ela drenada, foi preparada pelo Saturnino de Brito, para que as águas do mar não invadissem, e tudo. Eu, no meu modo de ver, eu acho que é muito pouco o que a cidade oferece para ele, uma rua ali no Marapé, perto da onde eu nasci. Aqui existia o Departamento de Água, o Departamento de Esgoto, um separado do outro. Então, por exemplo, vamos dizer assim, Macuco. Macuco era tudo valeta. Você, para entrar na casa, tinha valeta, você passava por cima de uma tábua e entrava naqueles chalés. Então, um dia, o prefeito resolvia: "Bom, essa rua aqui nós vamos asfaltar." A prefeitura ia lá e asfaltava. Mas eu acredito que não existia um entrosamento entre os diversos órgãos. O cara fala: "Pô, o senhor vem aqui asfaltar a rua e não tem rede de esgoto?" "Não." Mais tarde vem aí, quebra e faz. E assim era feito. Então continuava esgotos, aí para o canal, tudo. Às vezes até fazia drenagem, e em vez de ir para a coleta de esgoto ia para a rede pluvial, de estilo, canal, contaminação, praia. E assim era esse círculo. Naquela época não existia um planejamento porque eram órgãos separados. Hoje não, já existe um entrosamento bem mais forte, naquela época não existia, realmente não existia.


SANTOS
Descrição da cidade Quanto ao processo de pavimentação, esse Marapé, o fundo do Marapé todinho, os bairros, assim, fora daquela linha Ana Costa - Conselheiro Nébias. A Ponta da Praia, como eu disse para vocês no início, o prédio que o papai veio comandar era o antigo Cassino Miramar. Depois o papai pediu autorização e construiu lá na Ponta da Praia, que na frente só tinha o campo do Jabaquara, para trás era só rede de pescador. Eu era garotinho, me lembro disso. Acho que foi o primeiro prédio naquela região. Hoje aquilo lá é lotado. Ali, pescador japonês, era naquele canto. Você ia naquele fundo ali atrás do campo do antigo Jabaquara, o famoso Leão do Macuco, era só rede esticada. Bom, você ia de asfalto, eu me lembro, até porque o bonde virava, até o Aquário. Dali para a Ponta da Praia, ali era só areia, ali não tinha nada. Carro, para pegar a balsa, sempre foi lá no fundão, o carro entrava na areia e ia na areia, que hoje é o calçadão... Mas a gente ia para o Guarujá, ia-se muito para a Praia Grande. Ah, Praia Grande era só pescador, de cabo a rabo, só pescador. E pessoas da sociedade de Santos que, para sair do burburinho aqui, porque, como praia, toda excursão, viesse como viesse, e naquela época era mais o trem, era Santos. Então, o pessoal, vamos dizer assim, de sociedade, queria um descanso, sair desse burburinho, tinha as casas, muito esparsas, na Praia Grande. E a gente ia lá para ver o arrastão, puxar as redes de pescador. Ali era só pescador. LAZER Atividades de pesca Olha, eu não sou pescador, acho que o cara, para ser pescador, ele tem que ter muita paciência. Eu sou hoje o que nós chamamos de jubilado, aquela pessoa que depois de 30 anos pagando mensalidade regularmente se jubila. Eu sou sócio já jubilado há 18 ou 19 anos do Clube de Pesca de Santos. Então, eu ia muito para lá, meus pais, passar dia, tudo o mais, e mesmo lá, naquela convivência. Sou ariano, sou meio agitado, sabe, então eu gosto de estar sempre... Não tem aquela paciência que a gente costuma, de japonês, que senta ali, fica sete, oito horas esperando um peixe chegar. Eu prefiro já pegar o peixe fritinho, com limão, com uma caipirinha do lado, e aí vamos.


SERVIÇOS
Classificador de café Nos Estados Unidos, para mim foi tipo de uma universidade. Porque eu quis me especializar na parte de classificação de café, ou seja, a manipulação de grão e a degustação, para você saber os diversos paladares, sabendo o que o comprador do lado de lá quer, aquele blend, para dar aquele paladar, você tem que fazer a prova do café para classificá-lo. Café-rio, café-riado, café-duro, café-mole, tem essa classificação todinha. E lá, para mim, foi muito bom, porque foi um aprendizado muito bom. O Gregory era agente do mundo inteiro que lidava com café. Então, eu recebia café, que eles mandavam para venda, a famosa sample (amostra) para eles, amostra para nós, para eles verem, e para oferecer, depois de testar, porque eles tinham classificação de café lá. E foi aí que eu comecei. Eu comecei com um aventalzinho na barriga, como trabalha todo pessoal de classificação de café, torrava o café, porque existe uma torração, que não é a torração do café que você toma no dia a dia. É uma torração para provar, para você pegar os diferentes paladares do café, você classificar o grão por impureza, tem toda essa... É uma arte, quem trabalha em café, hoje existem cursos, aqui a própria Associação Comercial de Santos faz curso, vocês não imaginam o que vem gente, japonês, do mundo todo fazer curso. E são cursos regulares, de três em três meses, ou quatro em quatro meses. Então, eu fiquei lá, foi um aprendizado muito bom, porque além de fazer a torração dos cafés, depois que os degustadores provavam, claro que eu ia lá, fazia também a minha aprovação, depois na minha mente eu falava: "Esse café deve ser tanto". Pegava a fichinha, o classificador prova, e na ficha ele punha a marcação, se é duro, se é rio, se é riado, se é mole, se é estritamente mole. Então, e para mim lá foi muito bom, porque eu peguei toda essa gama de café do mundo.


CAFÉ
Descrição dos diferentes tipos Hoje o Vietnã é o maior exportador de café do mundo. Porque plantaram lá. E problema de preço, problema de mercado internacional, tudo isso afeta. Eu vou disser assim: quando eu dei a minha parada no café, há uns dez anos atrás, eu me lembro de ver saco de café vendido por grandes exportadores aqui do Brasil, e no comércio ser vendido a 380 naquela época cruzeiros, hoje no caso seriam reais, hoje um saco de café está valendo de 100 a 110 reais. Caiu muito, porque a produção se alastrou muito, Vietnã, os países da América Central. Colômbia nem tanto, que tiveram uma porção de problemas, e ainda tem problema de guerra lá interna deles. Nós, com uma produção muito grande, enfim, fez com que todo esse mercado viesse para baixo por causa da oferta. Mas o Brasil ainda, em exportação, em qualidade, e tudo, ainda é o top. Os cafés mineiros, eu tenho a impressão que são imbatíveis em qualidade, em tudo, até porque o pessoal lá fora é mais o café africano, que é o robusta, aquele que é uma bolinha. O nosso não, é o arábica, é outro departamento para a exportação do café. Então, trabalhei, vindo dos Estados Unidos, estavam as portas abertas, trabalhei com o Alberto Ferreira, e foi quando eu, depois de muito tempo lá, o café foi parando.


TRABALHO
Primeiro emprego Aí eu vim para cá, meu primeiro emprego foi no Cetesb, em São Paulo, na Av. Frederico Hermann Júnior, ali na beira do Pinheiros. Depois eu vim para o laboratório do Cetesb, para cuidar de toda a Baixada Santista, água e esgoto. Aí recebi uma oferta naquela época, muita amigo, saudoso, engenheiro de primeira qualidade, engenheiro Renato Tanaka, já falecido, era o presidente aqui em Santos, da SBS, se eu tinha interesse em vir chefiar o departamento de esgoto de toda a Baixada Santista. Era um salto a mais na minha vida, financeiramente, carreira, tudo, não deixei escapar. Fui a São Paulo, expliquei os motivos ao doutor Otacílio, ele os aceitou. Então, eu me transferi para a SBS. Fiquei lá durante quatro anos e meio, como chefe de todo departamento de esgoto da Baixada Santista. Tinha cinco departamentos na minha mão, mais de 400 homens nesses departamentos, eram departamentos variados. Fiquei lá por quatro anos e meio.


SERVIÇOS
Exportação de café Quando meu sogro veio a falecer, um homem voltado para o café, exportador de café, depois empresário, com armazéns gerais. Então, ele faleceu. O filho, irmão de minha, já havia falecido. Então, a família me convidou e eu, aqui, aceitei ao pedido e voltei para o café, já com conhecimento de causa, era um outro ramo, a Companhia Tamoyo de Aramazéns Gerais?. A família detém a sociedade, 85% do capital, são dois armazéns, um de 5.600 metros quadrados e outro de 10.000 metros quadrados. Dito, pelo Instituto Brasileiro do Café, armazém modelo para guarda de café. Meu sogro era exportador de café, muito meticuloso, e implantou uma técnica moderna, naquela época, que até hoje permanece, para a guarda de café. Ele me contava o seguinte: ele já tinha o armazém, o menor, de 5.600 metros quadrados, e aqui em Santos tinha um problema muito grande. E o café. O café é um material hidroscópico. Ele ganha peso, perde peso, e perde cor, dependendo do ambiente em que ele estiver. E aqui muita humildade, clima muito variado, calor, frio. E ele estava em um consultório dentário, pegou uma revista para ler, começou a manipular, quando ele viu um projeto de um galinheiro, com telhado duplo, para que as galinhas tivessem uma sobrevida maior, e um outro, um clima mais temperado. Aí ele não teve dúvida: arriou o telhado do menor e fez. E, quando construiu o segundo, ele já fez com essa técnica. Ou seja, existe um espaçamento entre um telhado e outro, em que a caloria sai toda pelo lado. Então, você pode ir nos armazéns da Companhia Tamoyo, 38 graus, 48 graus, até porque também é muito bem ventilado, temperatura normal, o café não perde cor. E é a grande fama que a Companhia tinha perante o Instituto Brasileiro de Café e essa gama imensa de exportadores de café que trabalharam conosco, na época em que eu entrei na empresa. Eram mais de 16 exportadores de café, e nós tínhamos capacidade entre os dois armazéns para armazenar 350 mil sacas de café. Mudou muito... Naquele tempo o café vinha... Eu, quando entrei no café, eu falei: "Bom, vou gerenciar uma empresa...", junto com um primo meu, o saudoso Chico, com quem eu aprendi muito, e faleceu precocemente e infelizmente. Por onde? Pelo cigarro. Mas a vida é assim mesmo. Eu fumava. Operei com 34 anos, aprendi, com a trombada que eu levei, nunca mais fumei. Hoje o cigarro me faz mal. Então, eu fui para o interior. Então, era uma imensidão, aquela zona de Araraquarense, Sorocabana, era só. Mudou. O café foi caindo, hoje muito cana, hoje é mar de cana. Se bem que em várias regiões de Araraquarense, da Sorocabana, estão voltando a todo vapor com o café. Queira ou não queira é preço por preço. Um saco de açúcar custa 15, 16 reais, um saco de café com tudo ainda está 110, já chegou a 300 e pouco. Então, eu rodei o interior todinho. Então, naquele tempo, o fazendeiro colhia o café, beneficiava, e punha na estrada de ferro. E assim vinha para cá. Porque no interior não existia armazéns. Ou eles deixavam na estrada de ferro, se quisesse guardar, para não vender, ou punha no vagão e descia a serra. Aqui em Santos existiam 36 armazéns gerais de café. Não sei como, não me pergunte porque, porque isso é política de governo, mas conseguiram liquidar com a praça de Santos. Então, é um movimento monstruoso, vide que no porto existiam empresas de armazéns gerais como a minha, que na minha empresa não tinha mais capacidade, alugava armazém no porto.


COMÉRCIO E SERVIÇOS PORTUÁRIOS
Descrição dos armazéns No porto existiam 17 empresas de armazéns gerais. Todas de café. Dá para citar alguns que eu ainda me lembro: Araraquarense de Armazéns Gerais, Fidelidade de Armazéns Gerais, que era dessa Anderson Clayton, Cafeeira de Armazéns Gerais, Araraquara de Armazéns Gerais, Aliança de Armazéns Gerais, enfim, várias empresas. Isso aqui era um campo de trabalho do Sindicato dos Ensacadores e Arrumadores de Café, que é o Sindicato que eu hoje negocio, até porque hoje, além de vice-presidente da Federação do Comércio, eu sou presidente do Sindicato dos Armazéns Gerais no Estado de São Paulo. Então eu faço convenções coletivas de trabalho no Estado todo, mas em particular aqui em Santos eu faço com os ensacadores, porque em São Paulo existe outro sindicato, e eu negocio com eles dentro da Federação do Comércio, para todo o Estado de São Paulo. Aqui não, aqui é da Baixada Santista, lá é São Sebastião, enfim, todo este litoral aqui, eles é que pegam a parte de sacaria. Ah, naquela época que eu estou lhe falando, que eu vim para cá, o Sindicato dos Ensacadores era um dos sindicatos mais forte da Baixada Santista, tirando o da Estiva. Era um número muito grande de associados de carregadores de café. Porque tudo saía por aqui.


COMÉRCIO E SERVIÇOS PORTUÁRIOS
Porto Seco de Varginha Hoje a Meca do café é Varginha, que existe lá em Porto Seco. Lá não tem mar, não tem nada, e você embarca café lá como se estivesse aqui em Santos. Jogaram tudo para lá. Política, negócios de política governamental, grande parte de produtor mineiro, e governadores que na época eram cafeicultores, tinha toda aquela política, jogaram tudo para Varginha. Hoje Varginha... eu nem sei dizer a quantidade de armazéns e de firmas que atuam. Mas aqui em Santos armazéns gerais só existe três empresas, que é a Companhia Produtores de Armazéns Gerais, a Companhia Cafeeira de Armazéns Gerais e a Dínamo de Armazéns Gerais, para café. Mas é coisa, assim, naquela época, como lhe falei, existiam 4 milhões de sacas disponíveis para você comprar aqui, hoje, pelos relatórios que eu recebo da Associação Comercial, é coisa de 20, quando tem 30 mil sacas está estourando. Então, ou seja, é remanescente que vem para cá, para alguma manipulação, para comércio interno, e alguma liga que tenha que fazer com o café que já tem aqui, até para exportar. Mas existem só três companhias de armazéns gerais aqui em Santos, para café.


SERVIÇOS
Corretagem de café Ah, sim, o forte é Minas Gerais hoje. Minas Gerais, e armazéns que existem no Estado de São Paulo. Mas os cafés são todos eles selecionados por peneira, que a gente costuma chamar, de peneira nove, dez, até 18, às vezes 19, e o moca. O moca é aquela bolinha. É o café, porque... se não me engano foi Juarez Távora, candidato a presidente da República, eu era garoto ainda, mas o pessoal do café conta essa história, que ele, num dia de palanque, falou: "Olha, gente, o Brasil é o maior exportador de café. Nós temos que plantar bastante pé de café moca." E, para quem entende de café, falou: "Pô, o cara pisou na bola." Porque você tem o caule e tem o ramo. Então, para toda pessoa, o que está perto do caule vai aumentar o grão, ou seja, vai abrir o grão mais. Então, é o seguinte: dependendo do pé, você tem peneira 19, peneira 18, peneira 17, 16, 15, 14, nove, dez, e o da ponta, que não tem força para abrir, é a bolinha, que é o moca. Como que você vai plantar pé de café moca? Existe hoje o pé de café moca, que é tudo bolinha, que é o café conillon, que é o da África, e que é largamente plantado no Espírito Santo, que é o maior produtor brasileiro de café robusta, porque o nosso café é o arábica.


LAZER
Clubes em Santos Como conheci minha esposa? Tempo de jovem, os clubes da Ponta da Praia, naquela época na vitalidade de uma força incontestável, no Internacional, Regata Santista, Vasco da Gama e o Saldanha da Gama. Então, aqui em Santos, a garotada, era baile, clubinho, freqüentei muito o Yate Clube, ali hoje estou vendo um prédio monstruoso ali levantando no Canal Dois, uma quadra para dentro da praia. E era a gente freqüentar clubes, carnaval, tudo. E época de São João, papai militar, eu tinha o privilégio de não precisar ser sócio de clube nenhum, porque como militar papai é que dava a guarda, policiamento. Então, a gente tinha permanente de todos os clubes. O primeiro clube que papai entrou, porque esse também não dava para patrulhar, que era no meio do mar, o Clube de Pesca de Santos. E eu lá entrei com 13 anos de idade, com 15. Aspirante, 30 anos, então, pela minha idade já estou com 18 ou 19 anos, que eles lá chamam de jubilado. É aquele que pagou 30 anos, não paga mais, e vai usufruir todos os direitos.


JUVENTUDE
Como conheceu a esposa Então, época de São João, estavam ali os amigos de noitada, Ivampa, Adilson, Vitinho, Coelho: "Gente, olha, hoje tem a festa do Internacional, baile de São João, coisa e tal. Acho que temos que ir para lá." E lá fui. Nessa época, o colégio que eu falei... Eu agora estou meio confuso se... era antes Colégio Marçal até porque a filha do dono, por esse destino (riso) que eu vou explicar aonde eu estou, é minha prima hoje, que é prima-irmã da minha esposa. Era Marçal, depois passou para Monte Serrat. Então, eu na época já estava no terceiro ano do Monte Serrat, e o professor de Educação Física... tinha já os colegiais, pediu que eu desse força a ele. Até porque eu também, na época ali de praia, no Olímpia, ou era futebol ou era voleibol, que a gente tinha barraca de praia, tudo, que eu desse uma mão a ele para formar um clube para disputar o campeonato colegial. E eram as meninas maiores, tudo, e no meio delas estava a Regina Helena Marçal, que o pai foi dono. E ela era miudinha, brincava muito com ela, mexia com ela, coisa e tal. Bom, aí nós fomos aquela noite ao Internacional, para a festa, coisa e tal. E você, como quer dar sua paquerada, tem que dar a primeira rodada no salão, para ver como é que é o negócio, onde você vai poder se encostar, se você conhece alguma menina para você começar a dançar, coisa e tal, e nessa rodada eu vi a Regina Helena, minha prima, sentada na mesa com a minha hoje atual esposa e uma senhora, minha sogra, que onde a filha fosse estava no pé. Eu vi, falei: "Bom, eu vou tirar a Regina Helena para dançar, para começar a dançar." Só que quando eu falei: "Bom, agora eu vou", que eu cheguei perto da mesa, a Regina Helena já tinha saído para dançar. Falei: "Bom, agora não vou perder a viagem." Cheguei lá, falei: "Senhorita, gostaria de dançar?" "Pois não." Fomos dançar, começamos a bater papo: "Mas eu vi a Regina..." "Ah, a Regina Helena é minha prima-irmã, coisa e tal, vim aqui para desanuviar um pouco a minha cabeça." "Desanuviar a sua cabeça?" "É, namorei um rapaz muito tempo e briguei, não tem volta." Acabei de dançar, deixei ela lá, coisa e tal. Dancei, dancei, dancei, falei: "Vou voltar a dançar com aquela moça de novo." Fui lá: "Vamos dançar?" "Vamos dançar." E estava tudo bem. Acabou ali tudo e, nessas idas e vindas de praia, no dia seguinte dei de cara com ela na praia: "Ué, você aqui na praia?" A Regina Helena não estava. Ela estava com outras amigas, tudo. E batemos papo, caminhamos, coisa e tal, ela perguntou para mim assim: "Você não é sócio do Clube XV?" "Não, não sou. Mas de vez em quando vou lá, até porque o porteiro, Gilberto, embaixo..." O Clube XV, tradicional, felizmente depois de quando saiu, a história de Santos aí, teve a oportunidade de se fundir com outro grande clube, que é o Caiçara, não deu certo. Ela perguntou para mim: "Ah, você não é sócio?" "Não, não sou sócio." "Porque eu sou sócia de lá, e eu costumo de noite ir às domingueiras lá, coisa e tal." E eu falei: "Bom, é por aqui que eu vou." Entro no Gilberto, jogo as minhas partidas de sinuca, o XV tinha umas mesas para sinuca, primeira linha. Então, naquele dia: "Gilberto, ... jogar uma sinuca aí, dois, três amigos?" "Ah, tudo bem." A gente não era sócio, mas sabia que eu era filho do coronel Cícero, tudo bem. Permanente. Não era sócio, era permanente, tanto assim que pulei muito carnaval no Clube XV. Entrei, joguei duas partidas, vi que começou a bagunça lá em cima, falei: "Olha, fiquem jogando aí, a hora que não quiserem mais saiam, que eu vou lá em cima ver uns amigos, coisa e tal." Fui, rodei, encontrei ela. "Oi, Ilse, tudo bem? Você por aqui?" "Ué, mas você não é sócio?" "Não sou sócio, mas papai, como militar, eu tenho permanente, eu freqüento muito." Até porque... como é que eu vou poder explicar isso para você? Papai não era muito afeito, assim, festeiro de primeira linha. Pouca gente deu festas como meu pai aqui em Santos. Ainda outro dia estava relembrando, com um diretor hoje da Colúmbia Armazéns Gerais e sobrinho do dono do Hotel Martini, que era o Gustavo Martini, que foi vereador e que foi deputado, papai dava festas homéricas junto com o Martini, nos clubes aí. Papai era festeiro de primeira ordem. Então, coisa e tal: "Vamos dançar?" E eu me lembro como se fosse hoje, porque depois ela me contou isso, diz ela que, de noite, ela sonhou, não sei se comigo, mas no sonho era um rapaz de blusa verde, e estava na moda naquela época aquelas jaquetas americanas, que tinha duas, três listinhas aqui assim. E eu, palmeirense, pedi para a tia Janete, que era a mãe do Coelho, meu compadre hoje: "Tia Janete, faz uma jaqueta para mim? Que eu quero com lista verde." E na época eu até fiquei com remorso, mas foi a dona Janete que fez. Minha mãe, dona Dari, vi em toda essa minha existência poucas pessoas tricotarem como a minha mãe. Minha mãe ia para o cinema, levava o tricô dela, ela começava a frente de um tricô, ela terminava no fim do filme. Se ela cismasse, ela fazia, e tricô trabalhado, aquela malha inglesa, aquilo minha mãe fazia que você não acredita. Eu cansava, garotinho, de por a lã aqui para a minha mãe fazer a bolinha. E eu só aqui, fazendo, para ela embolar. Minha mãe era tricoteira, deixou mil alunas aí para tricotar. Depois eu vou voltar a falar uma coisa da minha mãe. Então, ela me contou que ela teve um sonho naquela noite e que foi com a blusa que eu cheguei no Clube XV. Eu falei: "Meu Deus do Céu, será que isso não é alguma coisa para me pegar não?" Ela até hoje jura que ela teve esse sonho que viu, e eu estava com aquela blusa verde com aquelas listinhas brancas, eu tinha pedido para a tia Janete me fazer.


LAZER
Clube XV em Santos E ali comecei a freqüentar o Clube XV, que não era o meu métier, o meu métier era mais os clubes da Ponta da Praia, vamos dizer assim, os clubes mais populares. O Clube 15 era o clube de elite de Santos, sociedade, e eu não era muito afeito. Filho de militar, se bem que nada quer dizer... É que meu temperamento... até hoje eu não freqüento sociedade. É difícil você me ver, assim, numa foto, num filme. Você me ver hoje? Quando eu estou disponível, e o meu amigo Porto, que é o gerente do Sesc sabe. Eu colaboro em tudo. Aí você me vê no jornal, numa atividade do Sesc, em um filme. Mas sociedade, isso não. Então, lá fui, e lhe disse que eu havia feito vestibular em Curitiba, nessa época eu já estava na faculdade.


CASAMENTO
Então, quando eu vinha de lá, fim de semana, aqui pelo Itariri, terra, viagem dura, peguei aquilo ali dureza, eu ia ao Clube XV, e comecei a namorar. Aí foi e, depois de dois anos e pouco, três anos e pouco, eu já com idade avançada, 27 anos, nós resolvemos casar. Foi quando, então... Eu já estava na faculdade em Curitiba. Moramos ali... A minha esposa tem um ano e pouco mais do que eu. Já éramos bem maduros, para aquela época já éramos bem maduros.


FAMÍLIA
Descrição de Goiás Velho, cidade de origem da mãe Eu, quando cheguei aqui, eu lhe disse no começo, o papai veio comandar o quartel que era o Cassino Miramar. Já tinha acabado. Mas, pegando essa deixa de voltar para trás, mamãe é de Goiás Velho, como lhe falei, amiga de Cora Coralina, de Goiás Velho, em que eu tendo chance eu vou lá, porque até hoje eu tenho família lá, tem primos meus que têm pousada, uma porção de coisa. Minha esposa diz porque diz que é Goiana, minha esposa gosta muito de antiguidade. E ela em Goiás Velho, aquilo é o mais sublime do mundo. A primeira vez que ela foi lá ela disse que aquilo para ela era... ela não podia descrever a alegria dela de estar em Goiás Velho e, realmente, cidade histórica, tombada. E mamãe não teve muito estudo. Fez aquele básico, e veio filho, esposa de militar. Minha mãe, com 54 anos, resolveu fazer e entrou entre as primeiras no curso do Filosofia da Universidade Católica. Levou praticamente nas costas a classe inteira, fazendo trabalhos, se reunindo. Mamãe falava, ela dizia: "Tudo que eu não fiz na minha meninice eu vou fazer agora." Minha irmã não foi para os Estados Unidos? E ela falou: "Gente, eu vou para lá. Vou encontrar amigos, tudo. Primeira coisa, eu vou aprender inglês." Minha mãe, em coisa, assim, de meses, fechando um ano, minha mãe já falava inglês correntemente. Minha mãe falava inglês, francês, alemão, italiano, dava aula em casa, depois de feita a faculdade, de latim, de português. Minha mãe era mestre em português. Falei japonês? Então, eu vou dizer o porque que ela ia... ela aprendeu japonês, o básico, vamos dizer assim. Depois ela foi para os Estados Unidos, adoeceu e veio a falecer. Como todo casal recém-casado, chega uma hora que você: "Bom, agora vamos arrumar o herdeiro." E minha esposa tinha complicações. Fez lá exames, tudo e, naquela época, estava surgindo em São Paulo uma fama muito grande, amigo de meu irmão, meu irmão é ginecologista e obstetra, livre-docente da faculdade, professor, tudo, na Universidade de Goiás. Hoje já é afastado. Em um dos telefonemas falou assim: "Você procura o Milton Nakamura." Procurei em meu nome, do meu irmão, coisa e tal, e o Milton estava na crista da onda. O doutor (Milton Nakamura em São Paulo, fora o professor do Campos da Paz, o cara que fez o primeiro bebê de proveta. Fiz uma grande amizade com o Milton. Para a minha esposa até hoje é Deus no Céu, e na terra o Milton Nakamura. Infelizmente, e muito cedo, ele teve um acidente e veio a falecer. Depois de oito anos e meio de casado é que eu vim a ter o Guilherme. Mamãe estudou japonês para assistir o parto e agradecer ele pelo nascimento do neto. Então, mamãe era de uma versatilidade para línguas, coisa que você... ela dava aula de alemão, dava aula de francês, latim, não queria saber. E era o que ela realmente gostava. Me lembro como se fosse hoje, ela, no trote dela, trepando no bonde de anágua, jogaram ela de anágua no mar, uma senhora, 50 e poucos anos, ela topava tudo. Que ela era uma mulher, que ela ia para Goiás Velho comigo, tirava a roupa, ficava de anágua, entrava no bacalhau, entrava no rio quente, ela... visse água, lembrasse a meninice dela, aquela era a mamãe. Então, era uma alegria muito grande, uma mulher muito especial.


LAZER
Clubes da Ponta da Praia e a prática de esportes É, os clubes da Ponta da Praia, eu inclusive nadei por muito tempo na mão do professor Iony, está aí ainda hoje, um grande treinador, eu tive o prazer de nadar com uma menina que era minha vizinha, fantástica como nadadora. Aliás, naquela época, era a Marion Meyer; era minha amiga, eu morava na rua Ceará, ela morava no fundo, que é a Rio Grande do Norte. E nós íamos juntos treinar, porque o pai dela era cronometrista, jogava ela na piscina, tudo. E eu nadei muito tempo também no Saldanha. Nunca fui grande nadador, o meu negócio era bola. Se bem que, gozado, se você me pergunta assim: "O senhor jogou bola e nadou?" "Olha, eu fiz de tudo." E meu filho, hoje advogado, com 27 anos, foi igualzinho. Só que meu filho teve um negócio que eu não fiz, porque eu não era, vamos dizer assim, como costuma-se falar, filho de pai rico. Meu filho fez até hipismo. Eu podia ter feito hipismo na Polícia Militar com os cavalos do meu pai. Meu filho também, exímio. Meu filho jogou na seleção de tênis de mesa, com dez anos disputou o master de tênis de campo, jogou futebol de salão, nadou eximiamente, tanto assim que o Internacional, acabando uma competição de garotos de dez, 12 anos, o professor João, que hoje ainda é técnico do Internacional, veio, falou: "Doutor, eu quero esse menino na minha mão, que eu vou fazer esse menino campeão." Mas o Guilherme é o mesmo temperamento que eu. Jogava, fazia um negócio um tempo, já queria outro. Então, eu fiz de tudo. Eu joguei vôlei, eu joguei basquete, eu nadei, eu joguei futebol, eu joguei futebol nos Estados Unidos, um outro esporte também que não dava, e também não levava jeito era o tênis, esse eu não pratiquei. Não, os clubes de lá eram a maioria natação e o remo, que era muito forte. Eu nunca fiz. E tinha, então, o vôlei e o basquete. Eu me lembro em Santos naquela época, papai é que administrava toda a parte de policiamento, jogos abertos no interior que tinham aqui em Santos, era uma coisa fantástica. Hoje são, mas eu não sei se, com aquela paixão, que aquela época tinha. E meu pai também era muito chegado ao esporte, tanto assim que ele fez... o papai foi o primeiro presidente do Círculo Militar de Santos, que ele fez questão de fundar, que é ali na Conselheiro Nébias e aonde tinha o Gemac. E hoje ali eu acho que é a sede do Comando do Exército, ali na Conselheiro Nébias. Pulei carnaval organizado pelo meu pai no Forte em frente aos clubes da Ponta da Praia, que o papai recuperou aquilo lá tudinho. Hoje aquele prédio, se não me engano, pertence à Soamar. Mas eu pulei carnaval lá. Papai chegou a fazer para os associados do Círculo Militar baile de carnaval do lado de lá.


COMÉRCIO E SERVIÇOS PORTUÁRIOS
Descrição do Porto e dos armazéns Bom, Santos, para mim, mudou tudo. Eu cheguei a falar para vocês que aqui em Santos existiam 36 empresas. Vamos situar nessa área, que eu depois de 71 eu voltei para o café. Na época existiam 36 armazéns gerais para manipular café. Sindicato dos Ensacadores tinha mais de 3 ou 4 mil associados. O estoque do Porto de Santos variava de 3, 4, às vezes 5 milhões, tanto assim que não havia mais vaga nos armazéns privados fora da área, alugava-se armazéns das docas para guardar café. Porque não existia armazém no interior. Existia Banco Central. Existia uma montoeira de banco que só lidava com o conhecimento de depósito, que hoje acho que gerente de banco nem sabe o que é isso. E é a coisa mais forte que existe, na lei dos armazéns gerais, que é de 1902, imutável e intocável. Porque o conhecimento de depósito é um papel que você vai no banco, assinado pelo diretor da empresa, que recebeu a mercadoria, que dá dinheiro. Claro que na hora que você for mexer na mercadoria você tem que devolver o dinheiro para ele te devolver o conhecimento, para você entregar para a armazenadora para te entregar a mercadoria. E o fiel depositário. São duas coisas aqui no Brasil que dá prisão em 24 horas, pensão alimentícia e fiel depositário. Então, só essa mexida, veja, de 36 armazéns gerais de café, hoje tem três. E 4 a 5 mil associados do Sindicato dos Ensacadores, mão de obra, trabalho. Hoje não sei se tem mil. Banco, milhares de bancos aqui foram embora. O Banco Central sumiu daqui. Então, eu acho que nessa área, para a cidade, foi a rede armazenadora de café de Santos era a maior recolhedora de impostos, no caso ISS, para a Prefeitura Municipal da cidade, que hoje é ridícula. Três empresas de armazém, um estoque de 30, 20 mil sacas de café, naquele tempo tinham três, quatro. E um giro muito grande. Eu, por exemplo, na minha empresa, eu manipulava ao mês 250 a 300 mil sacas, para sair umas 100 ou 150, que era o que a empresa, com os exportadores, tiravam para exportação. Porque você põe o café tudo misturado. E você tem que fazer a manipulação com as máquinas para chegar naquela venda que você fez, ou seja, tirar as impurezas, sabe? Então, daquele montante de café que vai na liga, sai o bom, e sobra o resto. Porque o resto o que que é? Comércio interno, torrefação de café. Então, eu acho que esta área, para mim, aqui em Santos, foi a que eu estive mais envolvido.


ENTIDADES
Atuação do Sindicato dos Armazéns Olha, deixa eu falar uma coisa para você. Pelo cargo que eu exerço na Federação do Comércio, pela presidência que eu exerço como presidente do Sindicato dos Armazéns Gerais, e nesse campo conselheiro do Sesc, eu venho atuando, até por um chamamento que eu tive do presidente Abram Szajman. Ele falou: "Cícero, o Sindicato dos Armazéns tem 52 anos. Eu nunca vi um juiz classista lá para defender os interesses da categoria." Eu falei: "É, presidente, por ter a minha atividade do dia-a-dia como empresário, eu nunca me ative a isso, mas..." "Não, eu acho que você é para defender essa categoria, uma categoria forte, de serviço, você tinha que ser..." Eu falei: "Bom, tenho a impressão que o cargo não é meu, o cargo é da Federação do Comércio. Se o senhor acha, eu posso providenciar, o senhor toma as providências..." E assim foi feito. E eu entrei, a minha primeira gestão foi como suplente, hoje eu sou efetivo. Mas, com a reforma do judiciário, essa categoria foi extinta, o meu mandato vai até março de 92.


SERVIÇOS
Corretagem de Café Então, eu sou, além de engenheiro químico sanitarista, que até hoje eu procuro ler, vejo matéria, eu sou apaixonado pela empresa do café, a empresa da família é de armazéns gerais de café, eu estou em um projeto aí, até porque tenho certeza que eu vou ter o amparo de milhares de amigos que eu tenho como exportadores, como classificadores de café, um projeto aí que eu estou nele, é assim meio segredo, não dá para contar mas, se Deus quiser, se eu tiver o amparo que eu espero ter, eu ainda ano que vem eu estou voltando para o café. Eu levo ainda muita fé que a plantação é muito grande. É, assim, internacional, não vai ter jeito de falar: "De hoje em diante ninguém mais toma café." Sempre vai ter ou mais ou menos, com as turbulências de mercado, e eu acho que ainda tem um cantinho aqui para mim, e eu pretendo voltar nessa área de café.


SERVIÇOS
Principais lições Olha, a principal lição de comércio, delas todas, perseverança em cima daquilo que você acha que é válido, você está gastando as suas 24 horas do dia para aquele prazer seu. Porque você, para fazer alguma coisa, você tem que ter prazer. Por exemplo, essa minha volta ao café. Claro que eu vou sair da minha atuação como juiz classista, e eu me considero... até agora não declamei a minha idade, mas também não é para esconder, porque eu já falei que sou nascido em 8 de abril de 39, é só fazer as contas, bem, só tem 62 anos de idade. Me considero moço, até porque tenho uma atividade ativa no esporte, não sei ficar parado, caminho demais da conta, já passei por um problema circulatório. Então, eu sei as minhas três categorias de médico, que eu tenho que ir duas vezes por ano, e assim eu faço religiosamente, ou seja, me cuido. Então, é o motivo que eu estou fazendo força em cima de força para mim voltar para a minha atividade. Honestidade nos seus propósitos, retidão nas suas atitudes, isso eu acho que para mim, como ariano ou com uma formação familiar que eu tive, são coisas primordiais, que eu acho que se a pessoa não tiver retidão, não tiver perseverança, não for honesto com os outros e consigo mesmo, não vai atingir. Na primeira ele vai trombar com um muro na frente que ele não está esperando. E é desse modo que eu procuro agir, transmitir isto para os que estão em meu lado e, porque não dizer, primordialmente, o meu patrimônio, que é o filho.


FILHOS
Descrição das atividades do filho Meu filho... Bom, qual é o pai que não vai puxar sardinha para o lado do filho? Eu tenho que puxar, o meu patrimônio, meu e de minha esposa, eu sozinho não faria nada sem minha esposa. E acho que hoje muito mais até minha esposa, pelo acompanhamento do dia a dia, do que eu. Eu mostrei a ele minha retidão, enfim, meu modo de ser, para que ele se espelhasse em mim. Tinha a quem puxar, puxou o pai. Meu filho fez uma carreira brilhante, desde o maternalzinho até o final, fez Direito. Garoto extremamente leitor, despesa que o meu filho me dá. Se você for na minha casa, você não entra no quarto, - hoje ele está residindo em São Paulo - , mas na época de estudo você não entrava. Era a despesa que meu filho dava: livraria. Por que? Aos quatro anos de idade, quando começou, minha esposa, leitora de primeira linha, isso puxado já do pai, transmitiu isso para o filho. Então, meu filho já manipulava os livros de Monteiro Lobato, ele é um exímio leitor. Eu tive uma grande felicidade, ele no quarto ano de faculdade, ele foi bater um papo, ele me pediu, falou: "Pai, meu negócio é societário, e eu gosto disso, daquilo, outra coisa também que me apaixona é o Itamarati..." "Bom, Guilherme..." "Será que o senhor não conseguia que eu tivesse uma fala, uma entrevista... minha paixão é o doutor Modesto Carvalhosa." O doutor Modesto Carvalhosa hoje é um dos maiores societários desse país. Para encurtar a história, falei com Abram Szajman: "Abram , eu sei que você é amigo do Carvalhosa, inclusive volta e meia ele está dando pareceres, ainda agora há pouco tempo foi elogiadíssimo pelo Sesc, por um parecer que ele deu para esse problema de quererem acabar com o Sesc, eu acho que na tese dele ele ganha de todo mundo. O Guilherme foi bater um papo com ele e, depois de um papo de duas, três horas, ele falou assim: "Olha, Guilherme, volta aqui quarta feira." O Guilherme voltou lá na quarta-feira, em hora aprazada, bateu um papo com ele. O doutor Pedro, que é outra paixão do meu filho também, que trabalha no escritório lá, falou: "Guilherme, vamos descer." Aí, ele chegou lá embaixo, abriu a porta, falou: "Guilherme, a partir da semana que vem, essa sala é sua." Então, o Guilherme acordava todo dia 4:45 da manhã, pegava o executivo, com outros amigos da Federação do Comércio e gente que trabalha em São Paulo, ali em frente à casa do saudoso deputado Athiê Jorge Coury, no Canal 3, chegava em São Paulo sete e pouco, oito horas já estava no Modesto Carvalhosa, descia às 6:10, já na faculdade, e assim ele fez dois anos. Então, veja a bagagem que esse garoto adquiriu sendo, vamos dizer assim, adotado pelo doutor Modesto Carvalhosa. Já fui pessoalmente agradecer a ele, adora o Guilherme. Bom, quando acabou o curso, ele falou: "Pai, eu vou tentar o Itamarati." Também para encurtar a história, o Guilherme ficou por três pontos e não... aí ele falou: "Bom, agora eu vou traçar a minha carreira societária." O Guilherme hoje está em São Paulo, está residindo lá na Aclimação, que foi aonde eu nasci, na Lins de Vasconcelos mas morei o tempo todo na Aclimação, na rua Espírito Santo. O Guilherme está lá em cima, na Aclimação. E ele é advogado societário, numa grande empresa de advogados societários na Líbero Badaró, que é a Tozzini Freire Ferreira e Silva. Ele atua nessa área de advogado societário.


AVALIAÇÃO
Auto-retrato Super realista. Olha, fizeram macumba... eu acho que isso é tudo normal, não tenho a menor superstição. Olha, para dizer uma coisa para você. Não sei se isso é até bom. Tem gente que fala: "Pô, você é muito pé no chão." Eu sou muito pé no chão. Eu não dou um passo se eu não souber porque que eu estou dando esse passo, sem antes analisar, porque você dar um passo e tombar com o muro, aí para você se refazer dessa trombada... Então, eu sou muito realista, eu não acredito. "Ah, o cara disse que vai fazer reza contra você." Pode fazer, meu Deus está lá em cima, eu sou católico, hoje praticante à minha moda, fui muito atuante, atuante mesmo. Acho que é até um prazer citar isso, como católico que eu sou, com o círio de cristandade, encontro de casais com Cristo. Trabalhei demais, tive que sair. Que eu fazia um quadro que o pessoal achava que era cineasta, quando não era. Então achei por bem treinar, fiz em várias igrejas de Santos, minha esposa também adorava o quadro. Era um quadro cômico, que numa hora que você vai num encontro desses você toma tanta pancada, tem que ter uma hora que você tem que dar risada, e aquele quadro, para dar risada, era o meu. E fiz o encontro do diálogo em São Paulo, no Embu, também, que é o encontro que eu considero que, para casais... porque o encontro do diálogo é você e a sua esposa praticamente, três dias, claro que tem palestra, mas você olhando no olho e a tua esposa olhando no olho também. E ali muita coisa você consegue, claro que se houver boa vontade dos dois lados, encaixar. Então, eu acho que foi muito gratificante esses três cursos, se é que eu possa dizer que eu pratiquei. Até porque eu tenho uma formação, assim, como eu falei, em Itaquaquecetuba, eu era o coroinha da Igreja. Então, muito católico, minha família muito católica, meu pai, minha mãe, meus avós. Mas as minhas orações, minhas passagens na Igreja, não com tanta freqüência que eu ia, mas não sou capaz de me desligar, faz parte do meu ser.


AVALIAÇÃO
Entrevista Olha, eu acho que como um depoimento, assim, ao vivo, para um museu, eu acho que é de interesse do museu, e para o entrevistado é altamente gratificante. Vocês me deram chance aqui de voltar um pouco à minha meninice, falar das minhas amizades, enfim, é muito gratificante. Eu é que agradeço.

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