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História

Trabalhando e aprendendo juntos

História de: José Leandro Miranda da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/02/2021

Sinopse

Contando sua história, Leandro fala sobre sua infância em São Benedito do Rio Preto, interior do Maranhão. Depois, fala sobre as brincadeiras com seus irmãos, o comércio de seu avô e sobre a roça de toco: a forma como se plantava na época. Emocionado, nos conta sobre suas dificuldades na adolescência e da relação com seu Antenor, que o levou para São Luis e o abriu algumas perspectivas na vida. Após a morte de seu Antenor, Leandro formou-se em Engenharia Ambiental e, dai, nos fala sobre seu início como consultor técnico do polo agricola HortCanaã. Por fim, nos diz como o polo o possibilitou conhecer sua esposa, criar sua familia e ver um futuro pela frente.

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História completa

P/1 – Conte qual é seu nome inteiro, onde você nasceu, e o dia em que foi.

 

R – Meu nome é José Leandro Miranda da Silva. Eu sou de São Benedito do Rio Preto, nasci no dia 28 de novembro de 1982.

 

P/1 – São Benedito fica onde no Maranhão? É no Maranhão?

 

R – É no estado do Maranhão, na região Sudeste.

 

P/1 – Quanto tempo leva de lá para cá, você sabe?

 

R – Duzentos e quarenta quilômetros de lá até São Luís.

 

P/1 – Quanto tempo de carro, de...

 

R – Cinco ou seis horas.

 

P/1 – Você nasceu em hospital ou em casa? Como foi?

 

R – Em casa, no regime de parteira, porque foi em um povoado longe da cidade, um pouco distante da cidade. Foi em casa, com parteira, sem enfermeira (risos). Nesses municípios pequenos, não tinha… Quando você mora no interior, não tem… Quando a mulher entra em trabalho de parto, não tem como chegar no hospital da cidade, então chamávamos as parteiras do interior de antigamente. Foi assim que a gente nasceu.

 

P/1 – Alguém te contou como foi seu parto, se foi difícil e complicado o dia?

 

R – Minha mãe fala que foi fácil. Foi em uma quinta-feira - nesse dia estava tendo uma festa no povoado - às três horas da manhã.

 

P/1 – Ah, foi de madrugada que você nasceu?

 

R – De madrugada, isso.

 

P/1 – Ela estava na festa ou estava descansando? Você sabe?

 

R – Ela estava em casa, porque já sabia… Já vinha sentindo, então não saía de casa.

 

P/1 – E aproveitando que você falou da sua mãe, qual o nome dela?

 

R – Maria Alice Miranda da Silva.

 

P/1 – Quais os nomes dos pais dela, seus avós?

 

R – Adelino Miranda e Amparo.

 

P/1 – Você conheceu seus avós?

 

R – Só o avô, a avó não. Quando eu nasci, a avó tinha falecido. Quando ela faleceu, minha mãe tinha quinze anos. De parto… Ela faleceu no parto da minha tia caçula.

 

P/1 – E o seu avô, você viveu um tempo com ele? Conheceu?

 

R – Conheci, morei com meu avô, trabalhei com ele. Ele era comerciante, e como a gente trabalhava no interior, o ensino era só até a quarta série. Após isso, você tinha que ir para a cidade, e como não tínhamos suporte, tipo os pais terem casa para colocar o filho para estudar, a gente ia para casa de terceiros. Eu fui para a casa do meu avô, tive a oportunidade de ir para a casa do meu avô. Fui estudar e fiquei acho que uns cinco anos morando com ele, no comércio e estudando.

 

P/1 – Como era… O seu avô está vivo ainda?

 

R – Não, já faleceu.

 

P/1 – E como era… Descreva ele para mim.

 

R – Ah, ele era um cara íntegro, trabalhador, evangélico… Ele era tudo.

 

P/1 – E o jeito, ele era bravo ou manso?

 

R – Era brabo quando tinha necessidade e carinhoso quando tinha necessidade. Não brabo direto, não carinhoso direto. Ele tinha os momentos, o que acho que se faz necessário em qualquer relação, com qualquer pessoa.

 

P/1 – Como era o comércio dele, você se lembra?

 

R – Gênero alimentício, frios e secos. Arroz, feijão, café, açúcar, carne, frango, temperos, verduras, legumes, peixes, carnes - era uma mistura.

 

P/1 – E como era? Você entrava lá e era como?

 

R – Ah, era como se fosse essa sala. Era um comércio pequeno, o espaço era pequeno. Era como se fosse essa sala aqui com um balcão no meio: peixe e carne na frente, os gêneros secos na parte de trás. Tinha uma dispensa ao lado, onde guardava os restos… Os restos não, os materiais que iriam ser colocados depois na prateleira.

 

P/1 – E qual era o nome? Tinha um nome esse mercado?

 

R – Comercial de Ouro. "De ouro" era o apelido dele, do meu avô.

 

P/1 – Ah, é? Por quê?

 

R – Eu não sei te falar, nunca tive a curiosidade de perguntar à minha mãe, mas ele era conhecido como De Ouro. O nome dele quase ninguém sabia, Adelino. Ninguém sabia, era o De Ouro.

 

P/1 – Como era ser neto de um cara que era dono de um mercado? Ele dava as coisas para você? As pessoas pediam coisas para você, seus amigos pediam? Como era?

 

R – Rapaz, pedir, eles pediam. A galera pedia sim, os amigos da rua, "pega um biscoito para gente" (risos), e às vezes a gente pegava, porque você ia por aquela coisa de criança, de ter um incentivo, "pega um biscoito". Eu pegava um biscoito para dar para a galera, às vezes isso acontecia sim. Isso era ruim, né?! (risos).

 

P/1 – Mas você ganhava muita coisa? Comia muita coisa lá?

 

R – Por parte do meu avô?

 

P/1 – É, ele te deixava comer lá?

 

R – A vontade? Sim, muito.

 

P/1 – Você pegava o quê? Do que você gostava?

 

R – Ah, biscoito… Era mais biscoito, suco, banana que tinha, a gente vendia… 

A história do meu avô - falando um pouco dele, antes dele ser comerciante fixo, ele foi comerciante ambulante. Ele sustentava a família vendendo nas costas de animal. No interior, antigamente, não tinha moto nem carro. Quem tinha uma bicicleta, um burro, ou um jumento, tinha tudo. 

A coisa foi crescendo devagar. Ele enchia o que a gente chama de jacá, que é como se fosse essa caixa aí, só que com uma estrutura feita de bambu, taboca… Ele fazia aquela estrutura para colocar nos animais. Quando tinha uma festa, ele enchia aquilo de bolo, salgado e saía vendendo nas costas do animal, saía para as festas e ia vender. Isso antes dele ter o comércio, então ele começou assim. A minha mãe tem… Minha mãe não é comerciante, mas tem espírito, tudo para ela é negócio (risos). Quer ficar fazendo uma troca, uma venda, um negócio. Acho que por conta disso, que vem da história do meu avô. 

 

P/1 – Como é o nome do seu pai?

 

R – Nonato Nunes da Silva.

 

P/1 – Você conheceu seus avós por parte de pai?

 

R – Os dois, maternos e paternos, minha avó e meu avô. 

 

P/1 – Qual é o nome dos seus avós por parte de pai?

 

R – Edith e Zuzu o nome do meu avô, só que meu pai não foi criado com ele, foi criado só...

 

P/1 – Então você só conheceu a sua avó?

 

R – Não, a gente tinha conhecimento dos dois, por morar perto. Com vovó, a gente tinha mais amizade por morar mais próximo e papai ser criado com ela, não ser criado pelo meu avô. A gente tinha um carinho diferente, um carinho não muito próximo por isso. Acho que por isso, de não ver os dois juntos, estarem sempre separados, e a parte de mãe ser mais carinhosa, ser mais de avó do que avô. 

 

P/1 – Ela era carinhosa, sua avó?

 

R – Ah, muito, muito!  Ela era muito carinhosa com os netos.

 

P/1 – Ela cuidava bem de vocês?

 

R – Bem, cuidava muito bem.

 

P/1 – Dava coisas também?

 

R – Dava, dava tudo que a gente queria e que estivesse ao alcance dela. Ela dava sim.

 

P/1 – Ela e ele, esses avós por parte de pai, faziam o que para viver?

 

R – Minha avó… Quando eu conheci e fui entender minha avó, não conheci trabalhando. Ela já tinha uma outra pessoa que trabalhava na roça - roça que a gente chama de subsistência, que é a roça no toco. Aquela roça que você faz para se alimentar o ano todo, planta arroz, feijão, mandioca… Então era isso, meus avós se sustentavam com isso. Tinha uma vaquinha para dar o leite, tinha o leitão, criava uma galinha para ir se sustentando, mas assim, emprego não, era trabalho na roça mesmo.

 

P/1 – Plantava-se o que lá na época?

 

R – O arroz, mandioca e milho, eram os principais gêneros que eles plantaram - até por falta de conhecimento de outras coisas, por estarem lá para dentro do interior, dentro do mato e não terem acesso a outras coisas.

 

P/1 – Essa roça no toco, como se faz isso?

 

R – É uma roça queimada. É onde a gente chega em uma floresta, derruba, demarca ela, toca fogo, cerca e planta. No ano seguinte… Isso todo ano você faz. Trabalhando com o meu pai, eu via isso. Em uma área dessa aqui, a gente começava como se fosse… Em um espaço desse, começava a fazer uma roça bem aqui. No ano que vem, você não iria fazer no mesmo local, você iria para o próximo ali e iria fazendo isso. Quando você chegasse bem aqui… Digamos que você fez dez roças. Com dez anos, essa área se regenerou e aí você começa tudo de novo por ali. Era assim.

 

P/1 – Taca fogo de novo?

 

R – Taca fogo de novo. A questão do conhecimento.

 

P/1 – A cinza faz alguma coisa na terra? Ajuda ou não?

 

R – Sim, sim, A cinza da queima é tudo para a cultura. Quer dizer, vai ser a única coisa que vai servir para… A terra de sustentação e a cinza de alimento que você plantou ali. Eu não entendia, vim a entender depois. Estou falando de agronomia, mas eu não sou agrônomo; eu sou técnico em agropecuária e engenheiro ambiental. Agronomia eu tinha vontade de fazer, por ser uma coisa que trago lá de baixo. Eu venho desse conhecimento de lavoura, de roça, então tinha muito interesse em fazer. Só que quando eu vim para cá, não tive condições de parar. Meus pais ficaram lá no interior... Parar e assim, "vou estudar agronomia por tempo integral", mas aí quem iria me sustentar? Então optei por fazer o técnico, começar a trabalhar e fazer Engenharia Ambiental. Cursei e terminei agora.

 

P/1 – Vamos retomar e passar lá pela sua infância, só para passar algumas coisas.

 

R – Tudo bem.

 

P/1 – Quando você nasceu, você já tinha irmãos ou veio a ter depois? Como é?

 

R – Na família nós somos seis irmãos, três mulheres e três homens. Eu sou o terceiro.

 

P/1 – Dos seis?

 

R – Homem, mulher, homem. (risos) Eu sou o terceiro. O primeiro é o Eduardo, tem a Ellen Érica, venho eu, José Leandro, tem a Antônia Maria, Conceição e Raimundo Nonato.

 

P/1 – Você se dava bem com os seus irmãos? Vocês brigavam? Como era?

 

R – A gente brincava, a gente não brigava, brincadeira de irmãos. Eu gosto de ir lá para o interior para a gente reunir a família, porque moro só aqui e eles moram lá no interior. A gente sempre vai fazer o almoço e começa a lembrar. Meu irmão fala que uma vez eu dei um "bogue" nele que ele caiu. Bateu nessa região, que a gente chama, leigamente falando, de fonte. Bateu nessa região e ele caiu. A gente, discutindo, um deu uma lapada em outro, mas era só brincadeira. 

Acho minha família muito unida, principalmente os irmãos, os homens. As mulheres ainda têm algumas resenhas, algumas intrigas de dias, de semanas, mas assim, entre irmãos… Com irmãos, eu falo não de… Eu, particularmente com todos... Eu, Leandro, Eduardo e o Nonato, não discutimos nunca, nem entre nós, e nem com as outras meninas. Eu acho a gente muito unido. A gente nunca brigou, nunca ficou mal um com o outro.

 

P/1 – Vocês brincavam de que na época?

 

R – "Rapá", na nossa infância tinha de tudo, tinha de esconde-esconde, de escorregador... Se você me perguntasse como era esse escorregador… A gente sempre ia para a beira de um lago, de um riacho, de um pequeno rio, pegava aquelas canaletas onde a água escorria e enchia de palha. Tirava umas palhas de babaçu, tirava umas… A gente chama de capemba. O babaçu bota um cacho, e fica aquela proteção dele. A gente cortava aquilo ali, sentava dentro daquilo e descia ladeira abaixo em cima das palhas, correndo o risco até de cair dentro do igarapé, correndo o risco de se cortar. Eu adorava quando a gente comia sardinha, abria uma sardinha. Faltava brigar por aquilo ali para fazer um carrinho. Pegava uma havaiana velha, que às vezes não estava nem tão velha, fazia rodelinhas, fazia os pneus, colocava uma latinha para sair puxando… 

Era uma infância saudável, sem muita tecnologia ou brinquedo de tecnologia. Eu lembro da minha primeira bola. Eu não queria colocar essa bola no chão de jeito nenhum. Era uma bolinha desse tamanho. Hoje eu vejo por aí e digo, "Jesus", não compro para o meu filho. Eu tive essa bolinha, juntei um dinheiro de venda de castanha de caju e comprei uma bolinha desse tamanho. Eu não queria dar essa bolinha para ninguém, andava com ela debaixo do braço, não colocava no chão; não cogitava, eu só queria guardar, porque sabia que ela não era resistente. Se eu colocasse, neguinho iria estourar e eu ficaria sem ela, então preferia estar com ela guardadinha aqui. Eram as únicas coisas que vinham de tecnologia da cidade para gente, mas bola de laranja, de meia e de saco eram o que existia. Tinha umas laranjas da terra, e elas não são comestíveis, são medicinais, e crescem muito. A gente pegava e era com aquilo que a gente jogava.

 

P/1 – Vocês torciam para algum time nessa época?

 

R – Eu tinha duas torcidas antes de entender um pouco de… Eu ficava naquilo: em São Paulo era Corinthians e no Rio era Flamengo. Era não, é Flamengo. Eu fui entendendo um pouco e larguei a torcida pelo time do São Paulo, e ficou só no Rio mesmo (risos), ficou Flamengo. 

Meu pai é… Acho que torcer não é muito… Tem gente que diz que filho segue instinto de pai e eu acho que não. Meu pai é botafoguense e eu sou flamenguista. Lá em casa são dois flamenguistas, dois homens flamenguistas, meu pai botafoguense, e meu irmão mais velho botafoguense. As meninas são meio… Uma é vascaína, a outra é flamenguista e uma é palmeirense, então ficou meio misturado.

 

P/1 – E aqui ninguém torce para o Corrêa, nem para outros...

 

R – Esporte aqui é muito fraco. Não sei se vocês acompanham, é muito fraco. Eu torço pelo Sampaio, mas me decepciono muito e termino brigando muito. Até que ele está crescendo no Brasileiro. Minha esposa é Moto e meu filho… Eu tenho um filho que vai fazer três anos e ele é muito flamenguista, não por incentivo do pai (risos), mas por a gente assistir. Até a mãe dele assiste, porque vascaíno é meio doido. Não sei por quem vocês torcem, mas vascaíno é meio doido. 

A minha esposa, acho que ela é muito do futebol. Se você me perguntar de futebol, como a gente está conversando aqui, eu sei bem pouco, mas se você perguntar para minha esposa onde está, ou quem é quem, é com ela. Então ela assiste mais jogos do Flamengo, sendo vascaína, do que do Vasco. Se na televisão for passar o jogo do Vasco e colocar ali… Se eu parar para assistir, ela não assiste. Se estiver o Flamengo, ela assiste, mas é vascaína roxa, não sei o que é isso. Ela sabe muito de futebol, e eu assisto mesmo para...

 

P/1 – Na época da sua infância ainda, vocês tinham o que de eletro doméstico? Vocês tinham rádio, por exemplo? TV...

 

R – Não, não. Lá no interior, a gente não tinha nem energia. A gente morava em um povoado a dezessete quilômetros de distância da cidade de São Benedito do Rio Preto. A gente não tinha esse acesso onde a gente estava, não tinha energia. Com o tempo foi chegando, mas antes era na lamparina. TV não tinha, rádio a gente não tinha… Mas tinha quem tivesse rádio lá. 

Todo povoado no interior tem o que a gente chama de "casa grande", que é onde tem a quitanda, que é o pequeno comércio. No interior, a gente chama de quitanda. Era onde a gente comprava os alimentos, sabão, açúcar, óleo… Isso em um mercado divisível, porque você não tinha condições de comprar uma barra de sabão, não tinha condições de comprar um litro de óleo - uma lata, vinha na lata de ferro - então você comprava tudo a retalho. A gente é dessa época do interior, em que o açúcar você comprava e vinha enrolado em um pedacinho de papel. Você comprava no mercado, eles colocavam em um pedacinho de papel, quebravam ele aqui, e você levava aquela porção, não comprava por quilo. Sabão era da mesma forma. 

Voltando para a sua pergunta de eletrodomésticos, não tinha. Na casa grande tinha uma geladeira a querosene, porque eles eram os donos da terra, então tinham mais recursos. Todo o trabalho que os moradores faziam, eram beneficiários do dono daquela quitanda, daquela casa grande, porque era o dono daquela terra. A gente chama de "foro". Aqui é outra história, é outra coisa. Lá no interior, era o que você pagava para o dono da terra. Por exemplo, se você fazia uma roça de… Na época, a gente não usava hectares, usava linha quadrada, "uma linha quadrada"... Se dessem dez sacas de arroz, duas você iria pagar para o foro, iria pagar para o dono do comércio, o dono da terra. 

O eletrodoméstico era a lamparina. Você tinha que jantar cinco horas da tarde. Nesse horário você já tinha que estar jantando para não deixar anoitecer, até por não ter lamparina com querosene para ficar a noite todinha. Como não tinha outra coisa, ia dormir.

 

P/1 – Seus pais contavam história para vocês?

 

R – Papai… Não, nossos pais nunca foram de contar história. Eu lembro muito dos meus irmãos mais velhos. A gente deitava na rede, na sala, na cozinha… Era difícil estar em quarto. No quarto, era o papai e a mamãe. Um ficava em uma rede, e outro contando história (risos). Umas histórias meio sem pé e nem cabeça, era isso.

 

P/1 – Vocês iam dormir com isso?

 

R – Íamos dormir com isso.

 

P/1 – Você se lembra de alguma história e pode contar para gente?

 

R – Rapaz, não, não me lembro, não tenho na minha memória uma...

 

P/1 – Eram histórias deles ou histórias de medo e de ‘visagem’?

 

R – Isso, de ‘visagem’, de medo. A gente até pedia para parar. Por dormirmos em rede, dormíamos separados, longe um do outro. Um em um canto e outro no outro. Apagava a luz da lamparina e ficava totalmente turvo, você não via nada. Era um desespero! A gente ficava gritando "mamãe, papai, manda o Eduardo parar, manda a Érica parar", porque a gente já ficava com medo.

 

P/1 – E seu pai e sua mãe, como eles são? Como eles educaram vocês?

 

R – Papai era muito trabalhador, graças a Deus, mas um trabalhador mesmo para sobreviver, nunca foi um trabalhador para ter recursos, e nem minha mãe. O que sustentou a gente foi meu pai trabalhando na roça, minha mãe quebrando coco babaçu, e quebrava muito bem, era rápida pela necessidade. A gente nunca teve recursos para sobrar, nunca teve recursos sobrando. Nosso recurso era sempre para se alimentar e nunca deixar faltar nada para os filhos, de comida. Questão de roupa, calçado, essas coisas, eram raríssimas. Eu vim ter uma calça jeans quando saí da quarta série e tive que vir para a casa do meu avô estudar. Mamãe deu o jeito dela com o papai e compraram uma calça e um tênis para mim. Eu nunca tinha colocado meu pé em um tênis. Quando vim para a cidade foi que eles deram o jeito deles de comprar, porque eu tinha que ir para a escola e não podia ir de calção.

 

P/1 – Na quinta série?

 

R – Isso. Aí que fui usar uma calça, um tênis. Quase não se acaba… Não se acabava por quê? Porque você tinha um zelo. Se você acabasse com ele, iria ficar descalço e sabia que sua mãe não iria te dar outro tão cedo. Quando a gente vê casa na cidade… Papai sempre trabalhou assim, o que ele fazia e a gente produzia na roça… A roça é de um ano a outro, não se faz uma roça todo mês, não faz uma roça todo dia, se faz uma roça por ano. Essa roça por ano, tem que ter o ano inteiro. Você produz e faz hoje para daqui a um ano fazer outra e essa que você fez alcançar a outra, ela tem que alcançar essa outra. O arroz que você produziu aqui, a farinha que você produziu aqui, o milho que você produziu aqui, o feijão que você produziu aqui, têm que alcançar a outra roça. É uma vez por ano, justamente se baseando no período chuvoso. E aí nunca sobrava recurso para nada, era só para comer mesmo. 

Meu irmão mais velho já tinha ido… Meus dois irmãos mais velhos já tinham ido para a cidade morar na casa dos outros, e depois fui eu, morei na casa do meu avô e morei na casa de outros caras lá, outras pessoas, até chegar aqui. Vou contar essa história depois, de como eu cheguei aqui. 

Mamãe conseguiu comprar uma casinha na cidade, em um bairro, e essa casinha era meio abandonada, casinha de adobe. Não sei se vocês conhecem, tem o tijolo e tem o adobe; o adobe é feito de barro. Parece um tijolo, só que não tem furo. E coberta de palha. Ela comprou essa casa escondida do meu pai. Ele quase largou minha mãe, porque onde ela teria recurso para pagar aquela casa? Era uma casa tão humilde, tão… (choro) Eu já sabia que eu iria chorar.

 

P/1 – Por quê? Porque iria se lembrar dessa casa, é isso?

 

R – Ah, da nossa história, cara. É ruim e bom, como te falei, a gente só cresce quando a gente lembra do que passa. Aí é que dá vontade de… Por isso trabalho sem parar, gosto de trabalhar por isso, porque acho que o trabalho é que te dá um conforto, uma coisa que você não teve, que seus pais não puderam te dar. 

Não sei da vida de vocês, mas todo mundo tem dificuldade na vida, cada um com a sua diferença. Vocês têm a diferença de vocês, eu tenho a minha, a sua família tem, a minha também tem. Não são iguais, têm diferença, todo mundo tem diferença. Papai, por não entender e achar que aquilo era um absurdo e que não iria poder pagar… Era tão barato, cara. Hoje em dia, se eu for me lembrar do preço que pagamos na casa… Mas era caríssima para a gente, caríssima para o meu pai.

Quando a gente veio embora do interior, foi uma briga maior de tirá-lo do povoado para a cidade. "Eu não vou para a cidade, eu não vou morrer de fome na cidade", porque nós já estávamos todos lá, só íamos aos finais de semana para casa. Íamos sábado para casa, e quando dava segunda-feira, tínhamos que voltar para as aulas. Trazia arroz, farinha, trazia galinha, trazia porco, feijão, o que tinha, a gente ia trazendo para passar a semana. Toda semana a gente voltava para o interior de novo. Trabalhar e trazer o que tinha para comer, para passar a semana. 

Quando a gente resolveu ir embora para a cidade, meu pai não vinha, dizia que não iria morrer de fome na cidade, mas com muita luta a gente veio, tirou ele da roça e trouxe ele para a cidade. Hoje ele está lá, se aposentou por idade e mamãe também. Acho que vive melhor do que a gente vivia no interior e está lá.

 

P/1 – Essa casinha era onde, em que região de São Luís?

 

R – Não, em São Benedito. Hoje eles moram lá. A gente veio do interior para a cidadezinha lá em 2001, e desde 2001 a gente mora nessa casinha. Já melhoramos muito ela, eu trabalhando aqui já mandei dinheiro para resolver algumas coisas dela lá… Pelo que era, a gente já melhorou muito. Hoje eles estão lá, meu pai e meus irmãos. Só eu que saí, tive a oportunidade de sair - oportunidade dada pelos outros, porque eles nunca tiveram e não têm condições de educar um filho após o ensino médio. Até lá, eles conseguiram. Por isso que meus irmãos, hoje, moram todos no interior. Um é pedreiro, outro é vendedor de medicamentos, cada um tem uma função, mas fora da questão de estudo, por não terem tido a oportunidade que eu tive de sair, morando na casa dos outros e de ter uma formação hoje. 

 

P/1 – Como você conseguiu não parar de estudar? Como foi isso?

 

R – Eu parei por um tempo. Terminei o ensino médio lá no interior e já trabalhava como servente de pedreiro, auxiliar de pedreiro. Sempre trabalhei limpando o quintal, nunca tive problema com trabalho. Um dia, um compadre meu… No interior, a gente tinha mania de ir a um festejo junino. Principalmente no interior, na época de São João, faziam fogueiras. Naquelas fogueiras, a gente ia brincar de ser compadre, de passar fogo. Pegava uma varinha de um lado da fogueira, o outro ficava lá, contava uma história para nós sermos compadres, porque não sei quem mandou, São Pedro, aquela coisa toda. Era uma diversão de menino que eu sempre respeitei, e eu e outro rapaz lá até hoje nos chamamos de compadre de fogueira.

Ele morava na casa de um… Toda cidade do interior sempre tem aquelas famílias ricas que dominam a cidade - tudo é deles, até na delegacia. "Ah, fulano foi preso", se ele conhecesse esse fulano, ele ia e tirava aquela pessoa, antigamente era assim. Esse cara já tinha sido prefeito, um dos primeiros prefeitos da cidade, e eu nem conhecia o cara. Esse meu compadre trabalhava para ele como gerente do sítio, e ele pediu para ele arrumar uns trabalhadores. Ele foi lá em casa, "ah, compadre, tem uma diária ali para você, vamos lá", "bora", e fui com ele trabalhar nessa diária. Era para trocar o local da cerca, a cerca do local era definitiva e tinha umas raízes, uns troncos do que a gente chama aqui de "sabiá'', que é uma árvore que chega a um porte de corte rápido, tem um crescimento rápido e durabilidade grande. 

A gente foi tirar esses tocos de onde estava a cerca. A gente estava lá trabalhando o dia todinho, deu meio dia e o dono foi lá, o dono do serviço. Ele chegou, a gente começou a conversar e ele perguntou para mim qual o estudo que eu tinha. Eu já tinha terminado o ensino médio. "Tenho o ensino médio completo" "É mesmo?" “Tu não pensa em fazer mais nadinha?" "Pensar eu penso, não tenho é a oportunidade de seguir", e ele disse: "No final desse serviço aqui, tu vai lá em casa, lá na cidade", e eu fui lá. 

Tomei banho depois e fui onde ele estava. Ele perguntou se eu queria morar com ele, e como era bem pertinho lá de casa para o centro da cidade - ele morava no centro - eu não pensei duas vezes, já fui falando para ele que sim, que queria. Ele falou: "Então vai buscar suas coisas". Também não pensei duas vezes. Fui em casa, cheguei e falei: "Mamãe, estou indo embora." "Tu está indo embora, filho?", "ô, depois da ponte ali, vou lá para a casa de fulano, seu Antenor Fernandes." "Meu filho, tu não pode trabalhar e ficar morando aqui em casa?" "Não, ele quer que eu vá morar lá e eu vou morar lá." E fui. 

Cheguei lá, ele me deu um quarto, cama, guarda-roupa e disse "agora tu vai ser o gerente do sítio", isso da noite para o dia. Aquele compadre que foi atrás de mim, depois eu ria dele na brincadeira. A gente estudou junto também, mas ele parou na quinta série, não passou, então ele foi ficando para trás. Eu passei a tomar conta do sítio e já era eu que estava mandando no meu compadre para fazer isso, fazer aquilo, indo atrás de trabalhador, tomando conta das coisas do rapaz lá, e morando na casa dele. Todo mundo… 

Ele era muito ruim, esse cara que me chamou para morar com ele. Era muito ruim para as pessoas. As pessoas me olhavam na rua e ficavam me perguntando: "Há quanto tempo você mora com o seu Antenor?" "Faz três meses." "Três meses, cara? Tá doido, tu já aguentou três meses com esse cara?" Eu dizia: "Já. Ele é ruim?" "É, ele é muito ruim." Eu dizia: "Ainda não enxerguei maldade nele. Ainda não tive nada com ele em questão de maldade, de ruindade." "Então tudo bem."

Passei seis meses. Ele tinha um carro e eu aprendi a dirigir lá. Ele tinha uma Hilux e me colocava como motorista dele para aprender a dirigir. Eu tive um pouco da base de motorista lá com ele, que me dava a oportunidade. Com seis meses, ele me chamou e disse para mim: "Leandro, tu quer ir embora daqui?" E eu: "Quero" - não pensei também. "Então arruma suas coisas." 

Acho que era no outro dia… Foi tudo rápido. No outro dia, cheguei em casa, falei com mamãe, e ela disse: "Está indo embora?" "É." "`Para onde?" "Para São Luís. Minha mãe falou a mesma coisa: "Meu filho, você vai?" "Mãe, eu preciso ir." 

Antes, ele disse: "Leandro, quero te levar porque aqui não tenho como te ajudar. Aqui tu vai ficar morando comigo sempre e talvez vá ser o cara que vai ficar cuidando das minhas coisas. Vai ser meu motorista, vai ser quem vai cuidar do meu sítio, quem vai cuidar do meu gado, quem vai gerenciar não sei o que, mas isso é pouco e eu não posso te dar mais. Tu precisa sair. Tu vai para a casa de um filho meu em São Luís.” E eu: "Tá bom, bora". Só que antes a gente deu uma volta; ele me colocou no carro, só nós dois, e pegamos a estrada. Ele começou a conversar comigo: "Olha, Leandro, morar ali tu só aguenta até tu ter… Porque eu já morei também na casa dos outros, e casa dos outros não é bom. Não foi bom para mim e tenho certeza que não vai ser bom para ti, e não vai ser bom para ninguém. Casa dos outros tu aguenta até tu ter. A partir desse momento… É para o meu filho que tu está indo, mas a partir do momento que adquirir suas coisas e seus objetivos, tu pode ir embora viver tua vida. E não vem para cá..." Porque quando você trabalha no interior, ou o cara te coloca logo para tirar carteira de motorista (risos) ou então te dá um curso de computação e só. 

Ele já é falecido. Veio falando comigo: "Não vem para cá com isso, pelo amor de Deus, fica lá. Não vem para essa cidade, não vem. Enquanto não tiver alguma coisa, não vem para cá.” 

No outro dia a gente veio para a cidade. Chegando aqui, não sei se vocês já passaram por lá para quem vai para Litorânea, tem um bairro chamado Barra Mar, próximo à descida da Litorânea, ali por trás. Eu cheguei lá, em uma casa toda murada. Era um muro acho que mais alto do que isso aqui, com cerca elétrica. Nós entramos, eu olhei para o lado e para o outro, só muro. Eu não era disso, era solto, tinha espaço, tinha com quem conversar, com quem brincar, jogar bola, e lá não tive nada. Cheguei, fiquei pertinho, e o cara me mandou sentar. Tinha um terraço grande, ele colocou uma mesa, duas cadeiras, eu sentei em uma e ele na outra, esse filho lá. Ele perguntou para mim o que eu queria, se eu queria ser caseiro, cuidar de uns cachorros, limpar o quintal e ter um salário na carteira, e eu falei para ele que não, não queria nada daquilo. (choro) 

 

P/1 – Você falou que queria o que para ele?

 

R – Estudar. Desculpa.

 

P/1 – Sem problema, Leandro, toma o tempo que for.

 

R – Eu falei para que queria estudar. "Estudar?" Eu disse que era e ele:  "Tá bom, eu vou dar o que você quiser. Tudo que eu comprar, de agora para frente, para os meus filhos, tu vai ter uma parte. Se eu comprar uma roupa, eu vou comprar uma para ti. Se eu comprar um perfume, eu vou comprar um para ti." "Tudo bem", e fiquei. Isso foi no final do ano de 2005.

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – Eu tenho 37 hoje, já era maduro.

 

P/1 – Tinha 22, mais ou menos...

 

R – Já era maduro, mas com pouca experiência. A gente envelheceu com poucas oportunidades. Quando elas vieram, não foi tarde, mas com um pouco… Eu falei para ele que queria estudar. 

Aqui em São Luís, ele era presidente da… Antigamente era Telemar. Foi gerente aqui em São Luís. Rico, muito rico. Assim foi, eles sempre me apoiaram, me mandando fazer curso e tal. Os filhos dele hoje me chamam de irmão. Com diferenças físicas, mas é "irmão" para cá, "irmão para lá", me ligam todo dia, querem saber como estou. Por conta da pandemia esse ritmo caiu, mas todo sábado a gente tinha o costume de almoçar lá. Se eu não fosse, eles iam me buscar, ficavam me ligando, eu tinha que estar lá todo sábado. Eu chamo ele de pai, ele me chama de filho, a esposa é mãe, é filho também… Gostam muito do meu filho, é um neto para eles, dão presente, fazem festa. É como se eu fosse um filho mesmo. 

Nesse tempo, ele me trouxe um papel de uma amiga dele que era professora na escola técnica, veio com esse papel para mim e perguntou se eu queria fazer. Era [curso de] técnico agrícola. Eu vim da roça, já conhecia um pouco de forma grosseira, sem estudo, gostei e falei: "Vou me inscrever". 

Ele me levou para fazer a inscrição. Fiz a inscrição, passei, me formei em dois anos e fizeram festa por isso. 

Às vezes eu lembro das palavras do pai dele: "Quando tu tiver as coisas, tu sai." "Eu já tenho minhas coisas, já tenho meu ensino, meus cursos, sobrevivo disso", eu já poderia sair de lá, mas nunca saí, nunca deixei. Sempre estou lá, agradeço muito e eu me formei com dificuldade - não financeiramente por conta do programa que eu fiz, que foi o FIES, ainda estou pagando, e eu pagava só uma porcentagem. Mas pela dificuldade de deslocamento, de acesso em outras coisas, e até para chegar na faculdade. Foi com muita luta, mas graças a Deus e com eles me apoiando, sempre me apoiando, consegui me formar.

 

P/1 – Você fez Gestão Ambiental, não é?

 

R – Engenharia Ambiental. Ele faleceu, o pai dele, e eu nunca voltei para o interior, como ele não queria que eu voltasse. Hoje tenho isso na minha cabeça também, de que eu não volto para morar sem algo físico para fazer, sem trabalho. Só para morar não vou, eu vou visitar. Agradeço muito a eles, foi assim que cheguei e estou aqui hoje, tendo dois ou três empregos como você falou ainda agora, mesmo que não todos com carteira assinada. É com muita luta, e o orgulho é grande por parte da minha família, por de seis irmãos só eu ter conseguido chegar onde estou, ter ido mais longe, estudando e trabalhando. 

Eu fiz um trabalho e um colega meu colocou… Um colega meu não, um rapaz para quem eu fiz um trabalho e ficou satisfeito falou: "Leandro, vou fazer um vídeo contigo. Eu tenho um canal no YouTube. Posso fazer contigo?"  "Pode." Eu estava lá na horta dele, dentro do Mato, tirando CAR [Cadastro Ambiental Rural], fazendo o passo a passo, ele foi gravando e depois colocou no YouTube e me mandou. Eu mandei no grupo da família e minha irmã estava chorando, assistindo com orgulho, se sentindo orgulhosa pelo irmão. Isso te dá muita alegria e satisfação de querer crescer muito mais ainda, porque eles não tiveram… Eles não tiveram assim, de um estranho chegar e falar: "Você quer estudar?" Papai e mamãe mesmo não têm essa condição. Eu tive essa oportunidade, aproveitei e estou aqui até hoje. 

Acho que tu vai me perguntar o que a Eneva significa em tudo isso. Tudo, cara, tudo! Eu me formei em técnico em Agropecuária e meu primeiro emprego foi em uma terceirizada da Eneva, lá no polo, no projeto do polo. Foi meu primeiro emprego. De lá para cá, eu acho que de 2009 para cá, as empresas iam entrando e eu entrava junto. As empresas saíam, entravam outras e eu entrava junto. Entraram umas quatro ou cinco empresas e eu fui ficando no mesmo serviço, pela Eneva. Antes se chamava MPX e foi mudando. 

Acho que eu ter entrado na faculdade devo muito também à Eneva, porque foi com o salário de lá que eu colocava gasolina na minha moto, comprava o que precisava para fazer trabalho da faculdade, foi dali. Minha família também, eu tirei dali. Minha sogra é agricultora, minha esposa também, e foi dentro desse trabalho que adquiri família. Todo mundo saiu e eu fiquei. Hoje sou agricultor, sou engenheiro, sou técnico, sou pai, e devo tudo isso à Eneva também. 

 

P/1 – Você foi parar no polo então, trabalhando em primeiro lugar lá?

 

R – É, continuei trabalhando. As empresas foram embora porque o propósito era que com o tempo o pessoal conseguisse andar com suas próprias pernas e que a empresa saísse. Não sair, como não saiu ainda, mas deixar de dar um suporte mais forte e te deixar andar. Isso não é só aqui, é em qualquer lugar, em qualquer empresa isso acontece. Se você ficar andando por eles a vida inteira, você vai ter que andar mesmo a vida inteira, porque na hora que sair… Você pega um pássaro no ninho, coloca ele na gaiola e começa a criá-lo lá dando alimento para ele. Ele vai aprender a cantar, a pular, mas não vai aprender a voar e nem a comer, se alimentar. Você pode soltar ele bem aqui, que ele vai voar mal, não vai saber procurar comida e vai retornar para aquela gaiola, porque sabe que é ali que ele tem tudo, apesar de não ter nada. Assim algumas empresas fazem. Tem que ir largando, tem que ir deixando um pouco. Eles vão achar ruim, vão chorar, vão tropeçar, vão cair. Você vem, dá uma levantadinha de novo e vai, até você largar de mão. Assim a Eneva está fazendo com o polo, você tem que soltar a mão deles e deixar eles viverem a vida deles. Eles vão sofrer, mas vão se acostumar. 

Eu aprendi muito nesse projeto, muito, muito. O que tenho, devo tudo ao polo. 

 

P/1 – Você entrou em que ano? Você lembra?

 

R – Em 2009.

 

P/1 – No comecinho, então?

 

R – Aquilo estava só… Você chegava bem ali no escritório, na entrada, e se olhasse lá para cima, lá para o seu Nonato, seu Zé Maria, iria ver eles lá em cima. Não tinha mato, não tinha nada, rasparam tudo e aquilo ali ficou só… Hoje está daquele jeito. Acho que algumas pessoas ali conseguem… Tem gente que reclama, que ainda acha que poderia ter mais, mas acho que está na hora realmente das pessoas começarem a crescer com seus conhecimentos, com seus entendimentos.

 

P/1 – Quando você chegou lá e era tudo pelado, qual era a sua missão? O que você tinha que fazer?

 

R – Eu tomava conta da frente de trabalho, porque logo no início havia mais de sessenta pessoas trabalhando. 

Eu não sei se vocês conhecem bem quando se fala de indenizar uma área. Quando você chega lá, digamos que tem vinte pessoas. Você chegou, analisou a área, vai olhar e tem vinte pessoas. "Vamos lá, dá para indenizar". Quando você der as costas e voltar, tem 80% a mais ali. O pessoal chega do nada. Foi muita gente assim para lá, sem vínculo de trabalho, sem saber de nada, só porque iria ganhar alguma coisa. Aquelas pessoas que viram e foram entrevistadas eram realmente as pessoas que eram sitiantes, as pessoas que tinham seu pedacinho de terra e zelavam por ele. Os outros vocês não viram, porque chegaram tarde e foram embora quando acabaram os benefícios. Eles foram embora, não ficaram. Ou voltaram para o mesmo lugar, ou foram para outra área. Ficaram ali as pessoas que realmente eram sitiantes e tinham gosto pela coisa. É isso.

 

P/1 – No começo, vocês estavam trabalhando como? Era agricultura convencional? O que tinha que fazer na terra?

 

R – O primeiro trabalho que foi feito ali foi meio que irregular. Chegaram e meteram máquina, não sei se por falta de conhecimento ou as empresas também…  Tem muita empresa com isso que quer se dar bem, faz um serviço mal feito e não estuda para fazer o trabalho. Rasparam tudo, e ficou tudo limpo. 

Quando tocava, assinando o ponto da galera… Teve a parte de limpeza, formação de canteiros. Foi um trabalho muito árduo, porque o solo ficou sem nada, então você tinha que fazer alguma coisa para reestruturar aquele solo, para começar um plantio. A gente sempre trabalhou ali um sistema agroecológico, um sistema que não agride muito o solo, não agride muito o meio ambiente. A gente sempre trabalhou dessa forma, até chegar uma parte de ter pessoas ali que trabalham com orgânico. Isso foi com muita luta, sem poder usar veneno, com algumas restrições. A gente foi sempre trabalhando a questão de conservação do solo, que não pode queimar… 

Eu lembro de mim e de meu pai quando a gente queimava. Por que a gente queimava? A gente queimava para aproveitar a cinza, para fortalecer o solo, para ativar as plantas, e você tinha certeza que não iria mais reutilizar aquela área durante dez anos. Você tinha uma outra mata para desmatar e fazer. Quando você trabalha dessa forma lá no polo, você tem isso aqui de terra e vai trabalhar com ela sempre, então tem que cuidar dela, não pode queimar. A diferença de uma roça queimada e de uma horta ali do polo… A roça queimada te dá no primeiro ano tudo que tu queres. Se você for repetir naquela terra, ela não vai te dar mais nada. Na agroecologia, nesse sistema que adotamos lá no polo, no primeiro ano talvez você não tenha nada, no segundo mais ou menos, e no terceiro você vai ter tudo, porque aquela mata, aquele resto de vegetal que deixou deixou ali, foi apodrecendo e se transformando em adubo para suas plantas. Daí não vai parar mais, vai sempre ter. A diferença da roça queimada é que só te dá em um ano o primeiro plantio, e depois não te dá nada. Por isso que hoje a gente adota lá no polo a cobertura de canteiros, a gente nunca recomenda que você tire o mato e jogue para ali. Não, enterra ele e coloca em um canto que você utiliza depois, cobre o seu solo. 

Tentar colocar isso na cabeça das pessoas é difícil, você tem que trabalhar junto. A gente aprende que nunca tem que bater de frente... A gente estudou, e aí eu chego para um agricultor: "Não faz dessa forma"... Não, convida para vocês trabalharem juntos, "faz a tua bem aqui que eu vou fazer a minha bem aqui", até você convencer a ele de que sua ideia é convincente, que é boa, que a dele é errônea. Você não pode bater de frente. 

Hoje o papai planta banana. Se eu for falar para ele que bananeira é só três, o que ele vai me dizer? "Rapaz, eu te criei, fui eu que te dei comida. A roça, era eu que fazia, tudo era eu que fazia. Agora tu vem me dizer que bananeira tem que ser três, avó, mãe e filho?" Claro que não, está lá a bananeira dele e eu não vou falar isso para ele. Eu posso pegar uma, plantar ao lado lá e conservar fazendo meus tratos culturais que aprendi, para mostrar para ele e para ele ver a diferença. Ele vai me perguntar porque está assim e eu vou falar para ele: "Está assim porque tu tem que fazer dessa forma, porque vai dar o cacho desse tamanho. Se deixar esse monte aqui, às vezes não vai dar nenhum cacho." E ele: "É mesmo, então vou fazer assim.  "Se está um monte aqui, espalha, divide que tu vai ter um resultado melhor." Bater de frente nunca, mas é estar sempre pegando os parâmetros de cada um para adequar, até chegar em um consenso correto.

 

P/1 – Quando começou, você teve algum curso com esses técnicos ou você sempre deu junto esses cursos para os agricultores lá?

 

 R – Tudo que tinha para os agricultores, tinha para mim, eu ia junto. A gente teve curso de associativismo… Hoje, se perguntar, "teve curso de associativismo?" “Teve.” "Ah, mas nem parece" (risos), porque a gente não conseguiu torcer a cabeça deles e virar para isso tão rápido. Mas todos os cursos… O Senai deu curso. A empresa sempre deixava que a gente participasse junto. Eu fiz dois anos de um curso técnico, mas se eu não saísse depois desses dois anos para campo, para trabalhar, como vim para cá, eu não iria aprender quase nada, não iria saber quase nada. Em qualquer… Sem prática não funciona, você tem que estudar a teoria, mas tem que cair na prática, se não a teoria não vai te dar muito retorno. Lá a gente teve tudo isso. 

Eu trabalhei com pessoas competentes, com engenheiros competentes, com técnicos competentes, que não visavam só o lado deles, mas sempre te orientavam, "faz dessa forma que vai dar certo". Eu sempre gostei de prestar atenção, de ouvir para ir aprendendo as coisas, para hoje estar na posição que estou. Eu me acho em uma posição privilegiada.

 

P/1 – Antes, você e o William não discutiam essa questão da agricultura ecológica familiar ou já tinha gente com isso na cabeça?

 

R – Na verdade, essas pessoas que vieram para o polo eram sitiantes. O que é sitiante? O cara tem um sítio e tem outros trabalhos. Ele tinha um sítio lá para o final de semana, tinha um sítio para a roça, para ter um caseiro e a pessoa plantar uma macaxeira, um milho, arroz… Mas não coisas das quais ele vá sobreviver. Outros eram pescadores. Por lá ser uma área de praia, uma área de manguezais, a maioria era isso. Eu acredito que a gente aprendeu tudo juntos, porque a maioria realmente não era agricultor. Eles foram transformados. Alguns deles tiveram que largar talvez uma coisa que eles tinham como hobby, que era a pesca, para ir para a agricultura. Teve essa mudança. Outros não, outros eram sitiantes e já trabalhavam com isso, então o trabalho foi só de melhorar a forma de trabalhar. 

Às vezes tinham pessoas que falavam "não dá". A maioria foi embora, porque experimentou as duas coisas e não deu, terminaram não tendo aptidão para nada e indo embora. Ali no polo já faleceram pessoas que vieram de lá, acho que umas três ou quatro pessoas, não sei, não lembro bem, que estavam ali com a gente. Tinham terra lá, trabalhavam e já foram embora, pessoas mais idosas.

 

P/1 – Conte um pouco como é essa relação e parceria que teve com o professor Altamiro. Ele chegou lá para ensinar, como foi isso?

 

R – No entra e sai de empresa… Não sei, acho que fiz um bom trabalho por estar lá até hoje. No início, eu falei para ti que a empresa entrava, eu ia junto, a empresa saía e eu permanecia. A do Altamiro foi uma dessas que entraram. Entrou por último, foi a última que trabalhou conosco lá, e aí eu comecei a trabalhar com ele. Acho que ele sempre me deu a autonomia de me passar os trabalhos e eu dar conta, assumir e tomar para mim. Acho que nossa parceria está dentro disso, porque hoje ele pega alguns trabalhos e alguns orçamentos sou eu que faço para ele. 

"Tem que fazer o orçamento de uma estufa, faz aí para mim e me manda"; eu faço e mando para ele. Ele me passa os trabalhos, só me explica, e não precisa… Ele não vai até a obra. Quando ele me entrega, eu executo o trabalho e já levo para ele pronto. Acho que isso é que firmou a parceria de estarmos trabalhando juntos. Agora mesmo ele está fechando um contrato aí, acho que com a Eneva mesmo. Hoje a gente almoçou junto e antes dele sair, na hora que fomos para o serviço, que ele me deixou lá, ele falou: "Leandro, tenho um contrato, ele é assim. Se tu quiseres, a gente vai pegar esse contrato." A gente já fechou e eu vou ter que largar meu emprego de prefeitura. É da prefeitura, então sabemos que agora, dia quinze,  tudo muda. Você pode continuar e pode não continuar, você não tem firmeza em trabalho de prefeitura se não for concursado - o que é o meu caso, não sou concursado. É um cargo comissionado, então acabou, acabou. 

A gente já fechou essa parceria, já prevendo isso. Vou tomar conta de uma obra lá em Santo Antônio, lá para o lado da… Mas também para trabalhar com agricultura familiar, da forma como estou trabalhando aqui, como trabalho no polo e trabalhamos na Raposa. O projeto é bom - bom financeiramente, bom pelo tempo, bom por continuar trabalhando com agricultura, que é o que gosto. Eu faço qualquer coisa para sobreviver, mas se mandarem eu escolher, nem que seja menos, eu vou para o lado da agricultura. É uma coisa que eu gosto, uma coisa que está no sangue, uma coisa que vem do seu pai, do seu avô, vem de lá. 

Nossa parceria é isso. Ela só cresce acho que por isso, por a gente trabalhar honestamente um com outro, ter honestidade e sinceridade naquilo que a gente faz. Estou aqui com o carro particular dele, esse carro é particular dele. Ele me deu para eu vir, e me dá qualquer coisa. Tudo que eu precisar, "Leandro, está aqui", então é isso, a parceria. É parceria para sempre. 

Eu faço esse trabalho de entrega para ele, entrega de produtos orgânicos. Eu trabalho até sexta-feira meio dia na Raposa, saio de lá, atravesso São Luís e vou para o sítio dele. Lá a gente vai formar os kits, as caixas e tal. Conversando com os meninos do sítio perguntaram, "Leandro, tu está ganhando quanto para fazer isso aqui? Tu vai até nove horas da noite sexta e vai sábado até meio-dia.” Eu digo: "Rapaz, eu ganho pouco aqui e ganho muito.” "Como assim?" "Não, estou ganhando pouco em salário, mas estou visando o futuro. Acho que vai sair coisa boa para mim, então preciso me segurar." 

Isso eu falo para minha esposa também, porque ela fala: "Tu está te sobrecarregando fazendo isso para o Altamiro", e eu falo, "não faço isso por necessidade. Eu não tenho necessidade de trabalhar sábado e nem sexta ao final do meu expediente." “Ah, mas por que tu vai?” Porque tu tem que analisar as coisas… Eu penso sempre no futuro. É um cara que me arruma serviço do nada, "tá aqui o serviço", "tá aqui o serviço", "tem isso aqui para tu fazer", e eu vou fazer. Eu ganho pouco nesse que estou, mas sempre na esperança do futuro. 

Olha, já surgiu esse trabalho lá. Se eu tivesse negado o primeiro trabalho por ser pouco, talvez ele não me contrataria para fazer um trabalho maior, por isso que eu não relaxo, não gosto de relaxar, por mais que esteja ganhando pouco. O tempo dá? Dá, então faz, porque vêm coisas boas por aí.

 

P/1 – Você vai viajar então e vai ficar um tempo lá, é isso?

 

R – É, o trabalho é assim, semanal… Por exemplo, passo uma semana lá e passo outra aqui. Não é… Se eu quiser ficar a semana toda e vir final de semana, posso vir todo final de semana, isso tudo por conta dele. Já conversei com a minha esposa, ela já aceitou tudo. É assim, as parcerias são assim, tem que cativar.

 

P/1 – Como você conheceu a sua esposa?

 

R – Rapaz, a minha esposa foi engraçada. Ela não era muito lá do polo no início do polo. A mãe dela falava muito das filhas. Dona Gelsa, minha sogra, tem três filhos. Ela tem problemas com um, por conta de drogas. O esposo dela faleceu agora faz oito meses, e acho que por isso sou tão presente. Ela gosta muito de mim, apesar da gente às vezes confundir o gostar um do outro e terminar até se ofendendo. Eu não sei se isso faz parte ou se é bom, mas para nós nunca foi ruim, porque sempre temos a parte do diálogo e sempre conversamos. Ela me acha o cara. Sem eu ser, mas ela me acha, tem muito orgulho de mim, muito orgulho. A gente é muito presente, eu mais ela. Às vezes nem minha esposa é tão presente quanto eu. Raramente eu não vou um dia lá. Quando não vou, ela liga querendo saber porque não fui. 

No início do polo, minha esposa não ia muito lá. Tinha eu e outro técnico, colega meu, o Aurélio. Hoje ele saiu do ramo e é polícia. Ele é bem alto, eu sou baixinho, e ela disse… O escritório era aqui, da empresa. "Eu vou levar vocês dois para verem minha filha. Vou lá no escritório e vou trazer minha filha para vocês olharem ela. Ela é linda." “Tá bom.” 

Ela realmente trouxe. Ela pensou que iria trazê-la para o rapaz altão e bonitão lá. Na hora que ela me olhou com um olhar diferente, eu disse: "Isso não vai dar certo." (risos). Foi coisa de primeiro olhar; ela não se engraçou pelo rapaz bonitão e altão, preferiu o baixinho. Ela é alta, minha esposa, mais alta do que eu. 

A gente começou a fazer curso aqui, em todo curso o técnico também estava dentro, e ela participando… Hoje estamos há sete anos juntos e temos um filho que vai fazer três. 

 

P/1 – Qual o nome dele?

 

R – José, meu nome; José Leandro Miranda da Silva Junior. Isso foi engraçado porque ela ficou picada comigo. Quando ela ganhou ele, eu fui no cartório mesmo na maternidade colocar o nome dele, mas já tinha dito para ela que iria colocar o meu nome. Ela pensou que não, eu fui e coloquei… A moça perguntou: "É uma homenagem a você?" E eu disse que sim. "Então tem que ser seu nome completo todinho, não tem que colocar nada dela." "Não pode colocar o sobrenome?" "Não, tem que colocar só o seu. Não é uma homenagem a você?" E colocou só o meu, José Leandro Miranda da Silva Junior. 

Ela entendeu, mas a família ficou picada.[Diziam pra ela:] "Tu não tem filho." Eu dizia: "Tem, registro está lá, ela é a mãe.” Mas ficou tudo bem, a gente já se acertou.

Foi assim que a gente se conheceu. 

Voltando para o polo, é por isso que estou até hoje lá, por conta deles, do nosso relacionamento, se não já teria saído de lá. Quando as empresas se desfizeram, eu iria ficar lá desempregado, fora. Além de não estar trabalhando, por ser agricultor, eu participo de programas, auxilio eles em muita coisa lá, irrigação… Em qualquer necessidade deles, eles me procuram e eu auxilio, estou sempre por perto; me ligam e se querem alguma coisa, estou lá para ajudar. 

No mês passado eu participei de uma associação. Teve uma troca de lideranças, eu entrei e sou o tesoureiro hoje da associação de lá, junto com o irmão Ivaldo - ele já até fez uma entrevista com vocês aqui. Um rapaz com muito cabelo, o irmão Ivaldo. Às vezes a gente tem… Todo mundo tem desavença, você não é obrigado a concordar com tudo que falei aqui, você não é obrigado a concordar com o que eu penso, assim como eu não sou. De vez em quando a gente tem uma discussão, uma conversa, depois está tudo bem, se abraça e pede perdão um para o outro. Isso existe e faz parte. Hoje ele é o presidente e eu sou o vice... Tem o outro, seu Nonato, que é o… Ele é o presidente, o Nonato é o vice. O Valentim, com quem vocês vão gravar, ficou como você tesoureiro e eu sou o vice tesoureiro. Sempre estando lá, sempre estando perto, estando com eles direto.

 

P/1 – Nessa associação, como vocês fazem as decisões das coisas? Todo mundo vota, vai discutir, como é?

 

R – Todo mundo vota. É discutido em assembleias. A gente procura sempre trabalhar… Tem um ou outro que às vezes coloca o pé na frente, se adianta, e surgem reclamações, mas a gente sempre trabalha em reuniões as nossas decisões, com todos. A maioria decide, porque às vezes nem todo mundo concorda se é bom ou ruim, isso fica a critério também, mas a maioria que decide lá.

 

P/1 – O que você espera para o futuro do polo? São duas coisas: o que você vê para o futuro e o que você espera?

 

R – O polo já foi tanta coisa, tantas coisas boas, tantas estruturas que às vezes não se seguraram por conta da gente mesmo. Eu penso muito no coletivo, mas no individual também. O coletivo lá no polo funciona meio que… Eu ainda acho que o coletivo deve funcionar após o seu feito. A associação tem muita terra… Primeiro faz o teu, e depois fazemos no coletivo, eu penso muito assim. 

 

Eu me vejo lá no polo e não me vejo; me vejo com quem quer, porque nem todos querem. Vejo um futuro ali. Eu penso em abrir um negócio de orgânico, e quando penso em abrir um negócio de orgânicos, uma empresa para… Além de já ter uma associação, abrir uma empresa para trabalhar com produtos orgânicos. Eu pretendo te trazer para o meu lado, porque não vou conseguir, preciso de parceiros, e os parceiros são quem está lá dentro, é seu Nonato, é dona Gelsa… Abrir um negócio e absorver a sua produção. Você não vai trabalhar para mim, mas vai ter o que eu quero, então eu vou comprar de ti, o meu pensamento é esse. "Ah, mas tu não falou agorinha que vai para um projeto aí?" Eu preciso ganhar mais, preciso de algo firme para poder voltar e querer colocar meus planos em prática. A gente não começa nada do zero, no sentido assim, "vou montar um negócio sem ter nada". Eu preciso sair e voltar com mais força para alavancar, porque a gente pensa sempre em estagnar em algo, mas algo que te dê retorno, que te dê lucro, se não tu vai ficar sempre trabalhando para o Altamiro, trabalhando para ti, trabalhando para outro, e não tem nada firme. 

O pensamento é sempre esse, de um dia deixar disso, mas ter isso. Eu penso assim lá no polo, eu penso em um polo que venda, que tenha retorno, um polo que traga algo e que você possa viver bem. Isso eu já tenho em mente e já venho trabalhando em pensamentos há muito tempo, há anos, por isso que estou construindo, porque pretendo ficar ali. Mas não é morar, trabalhar e sobreviver dali, hoje eu tenho essa experiência. Eu estou tendo essa experiência com o Altamiro, por exemplo, porque como falei, estou ganhando pouquinho fazendo isso, mas estou ganhando muito, meus pensamentos já são esses. 

Eu estou ganhando conhecimento. Esse mercado orgânico hoje em dia é meio fechado por falta de conhecimento, o foco são as pessoas de um patamar mais alto. Eu tiro pelas entregas que faço, são só lá na Península, na Renascença… Quando entrego na periferia, é para um cara que é rico e que mora em um sítio, que gosta de um sítio. Eu nunca entreguei nada para uma pessoa de baixo nível, porque acho que tem muita falta de conhecimento, porque o preço é a mesma coisa, cara. A mesma coisa de você comprar uma coisa com veneno, com agrotóxico, que vem do Ceará, da Bahia, não sei de onde; é quase o mesmo preço que você compra ali sem ter isso. 

Eu trabalho na feira também, no dia de domingo. Amanhã é dia de feira e eu não vou, vai só minha sogra, mas quando eu não estou indo para esse outro serviço, eu vou para feira. Na feira, a gente tem várias pessoas que… Por exemplo, a gente só vai com o que a gente tem, produzido ali, com carinho, sem agrotóxico, nem nada. Do teu lado, tem um cara que compra tudo no João Paulo, que vem do Ceará, as alfaces… A gente vende alface americana. A alface americana aqui não fica tipo repolho, não cria cabeça, fica sempre com umas folhinhas abertas, por conta da temperatura que é muito alta. O cara vai, dá uma olhada na banca e eu digo: "Olha, isso é daqui, é orgânico, a gente não usa agrotóxico. Essa alface americana é daqui." Explico porque não tem como ela fechar e dizem: "Ah, mas eu gosto é daquela ali", a que veio do Ceará cheio de agrotóxico, com adubo químico. O adubo químico não é tóxico? Ele é, se você consumir demais, vai se prejudicar. Não só o veneno que você usa para o controle de praga, mas o adubo também é. Mas ele prefere aquele bonitinho lá, porque ele é bonitinho. O problema está quando você abre, mas ele viu que está bonitinho e quer aquele. 

Acho que precisa ser mais divulgado, preciso colocar meu projeto em prática. Preciso que alguém bote, que outro bote, para a gente fechar um grupo maior, que chame mais atenção das pessoas e dos consumidores para consumir aquele produto. Às vezes você leva e não consegue, não tem venda, porque o cara não tem conhecimento. O conhecimento dele é de pegar aquele ali do João Paulo, que não sabe nem de onde vem. 

O que vejo no polo é isso, é futuro. É um futuro que talvez não esteja tão distante, isso vai depender das pessoas que realmente querem dominar aquilo ali. Acho que terra tem, água tem, e se depender de força, eu tenho força de trabalho, graças a Deus.

 

P/1 – Como é que foi contar um pouquinho da sua história hoje?

 

R – Foi massa, foi bom. Eu nunca imaginei, mas sempre quis. Meu pensamento era esse de contar minha história. Às vezes eu pensava: "Rapaz, se eu for contar minha história, acho que não vai ser tão ruim", porque eu ficava me lembrando do percurso. Eu pensei: "Se eu anotar isso em uma agenda e colocar como cheguei aqui escrito, se eu pudesse falar para alguém a minha história, que alguém soubesse de onde vim e como cheguei aqui..." Eu pensava nisso. 

Por isso estou falando, quando falo da minha dificuldade de chegar aqui hoje… Talvez, eu não sei vocês, talvez Patrícia, não sei… "Será que o Leandro não quer?"  Era o que eu mais queria, contar minha história, mas a dificuldade era grande. Eu não poderia largar lá para vir contar minha história. Eu precisaria terminar lá para vir contar minha história, porque a dificuldade que tive de chegar até aqui, faz parte da história também. Se você marcasse, "Leandro, tu vem domingo. Domingo, cara, tu não pode? Tu vai estar trabalhando domingo?" É, eu ia… Eu vou trabalhar domingo. Eu iria me atrasar da mesma forma, mas ela iria fazer parte da minha história. 

É isso. Estou grato, queria agradecer vocês pela paciência, por me ouvirem e colocar isso para outras pessoas me ouvirem também.

 

P/1 – Tem alguma coisa que você acha que queria falar ainda? Alguma história sobre alguém ou alguma coisa sobre você?

 

R – Não, só queria agradecer a minha família, minha esposa, meu filho, minha sogra, minha mãe, meu pai, meus irmãos, porque é por eles que estou aqui. Quando falo de família, falo de todos que citei aqui, todos são minha família, de sangue, sem sangue, de bênção, sem bênção, todos que falei aqui são minha família, e eu vivo por eles.

 

P/1 – Obrigado, viu José Leandro? Valeu pela conversa. Consegui finalmente conversar com o senhor.

 

R – Obrigado.


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