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História

Trabalhando com crianças de rua

História de: Rui Fernandes de Freitas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/04/2015

Sinopse

No depoimento que concedeu ao Museu da Pessoa, Rui Fernandes de Freitas falou sobre sua infância, sua adolescência e sua participação politica no ensino médio, no grêmio estudantil.  Falou sobre sua vocação para trabalhar com o meio ambiente, e sobre suas experiências profissionais na Prefeitura de São Paulo, seu estágio no Abrigo e de suas atividades dentro do Instituto Monsenhor, nos projetos “Andrezinho Cidadão” e o “Lar São Francisco”.  Ele fala sobre como obteve apoio do Criança  Esperança em um projeto para o “Andrezinho Cidadão” produzindo documentários com as crianças, e como isso contribui na vida de muitas crianças. 

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História completa

Meu nome completo é Rui Fernandes de Freitas. Nasci em Santo André, em 4 de novembro de 1979. Meus pais são Manoel Batista de Freitas e Francisca Fernandes de Freitas. Eles são aposentados. Minha mãe sempre foi dona de casa. Meu pai trabalhou em metalúrgica, trabalhou em vários lugares. Eles são do Ceará, Região do Juazeiro do Norte, Crato, aquela região ali. Eles estão aqui há quase 40 anos. No Nordeste, eles sempre trabalharam na roça. Meu pai mudou quando ele veio pra... Ele veio primeiro, minha mãe veio depois. Ele trouxe o pai dele depois, o meu avô, que morreu recentemente, veio todo mundo, vieram os irmãos dele, veio a mãe dele, a minha avó, que também faleceu recentemente. Eles vieram para o bairro de São Mateus. Eles tiveram sete filhos, sou o sétimo.

A família inteira estudou na mesma escola, desde a minha irmã mais velha, até eu que sou o mais novo até o ensino médio. Na época ainda era tudo numa escola só. Hoje em dia não é mais, mas todo mundo lá em casa da primeira até o ensino médio na mesma escola. Era um bairro vizinho, não era exatamente no mesmo bairro que a gente estudava. Na quinta série eu desandei, tanto que eu reprovei a quinta série. Eu me rebelei de tudo. Depois, mais pra frente, já no ensino médio, eu ajudei a organizar o grêmio da escola, mas foi uma experiência bacana, porque a gente consegui ser, da 11º Delegacia de Ensino, a gente foi considerado o melhor grêmio escolar na época. Isso em 1998, eu tinha 17 pra 18 anos. E a gente conseguiu mobilizar a escola, conseguiu fazer festas, conseguiu fazer uma mobilização interessante na época. Coisa que até então eu estava naquela escola desde a primeira série, ninguém nunca tinha feito. Eu não estava sozinho, tinha um grupo que colaborou bastante pra poder fazer isso. Cobrar melhorias na escola, fazer com que a população participasse mais da gestão da escola, procurar melhorias da escola. A gente chegou a fazer uma festa de mês inteiro, uma quermesse na rua de quatro finais de semana pra arrecadar fundos pra escola. Foi que começou o meu envolvimento com as questões sociais etc.

Até 12 anos eu morei na mesma casa. A gente tem casa própria, mas foi um pouco depois que a gente morou na casa da minha avó, antes, junto com a minha avó. Eu moro na mesma até hoje. É que só moravam minha avó e meu avô. Minha primeira namorada começou no ensino médio. Ela era do grêmio também. Ela era presidente do grêmio, eu era secretário. A gente se conheceu antes, na verdade, mas a gente começou a namorar depois. Entre idas e voltas foram sete anos.

O primeiro emprego, primeiro de tudo, eu era pequeno ainda. Acho que foi na oficina que meu cunhado tinha na época, de pintura de carro, eu tinha uns 11 anos. Em 1995 eu trabalhei de office boy. Era um escritório. Um dos maiores escritórios de advocacia de São Paulo na época. Depois, acabaram demitindo vários, foi quando começou essa questão de internet, até os próprios motoboys, acabei saindo. Acho que eu só trabalhei depois que eu terminei o ensino médio.

Eu fiz Biologia. É que eu sempre gostei de animais, sempre criei gato, principalmente gato. Cachorro também, mas sempre foi mais gato. Então desde pequeno eu sempre tive interesse por essa área. Cogitei em outros períodos em fazer outras coisas, mas nunca me empolguei muito, não. Eu trabalhei um tempo na Secretaria do Meio Ambiente, da Prefeitura de São Paulo. Trabalhei no Parque do Carmo com educação ambiental. Surgiu essa oportunidade através dessa pessoa que a gente já conhecia, ele era secretário do Meio Ambiente na época. Eu tinha trabalhado pouco tempo num projeto da Prefeitura também, que era o Recreio nas Férias, que eram atividades nas férias. Era trabalho como monitor. Eram passeios, atividades recreativas, jogos. E a gente monitorava passeios, festas, zoológico. E tinha um dia que eram atividades só internas. A gente fazia jogos, brincadeiras, depende dos recursos que você tinha na escola também. Mas a maioria do tempo era passeio, acho que só um dia que era interno. Teve uma mudança de gestão na prefeitura e depois eu fui trabalhar no abrigo em São Mateus. Hoje chama acolhimento para crianças e adolescentes. Nesses casos, a família perdeu o poder familiar, o poder judiciário encaminha pra um serviço de acolhimento. O primeiro pensamento foi: “O que eu estou fazendo aqui?”. Apesar de que eu trabalhava à noite, é mais tranquilo. Mas eu tive sorte de ter uma equipe muito boa na época, muito boa mesmo. A gente teve várias intercorrências durante o trabalho que a gente a gente conseguiu manejar ali. Porque um serviço de acolhimento tem em média 20 crianças e não é fácil. Eu fiquei quase dois anos como educador.

Cursei universidade particular. Aqui no ABC mesmo. Na verdade, na época, eu falei pra minha mãe, ou ia tentar um ensino técnico ou uma faculdade. Eu prestei a ETE, eles me chamaram na segunda chamada, depois que eu já tinha feito inscrição na faculdade, eu falei: “Ah, agora eu vou fazer a faculdade”. Acho que a Biologia te ensina a ver as coisas de uma forma mais sistêmica, não só uma coisa pontual. Na área social também. Na área ambiental e na área social, acho que cabe também. Eles não têm que julgar a foto, não só aquela cena que você vê ali no momento, tem muita história antes ali, e pra frente também com certeza vai ter. Até já arrumei algumas discussões. Discussões, troca de ideias, não de brigas, com isso. Não é pra julgar só o que você está vendo ali no momento, então você tem que ter uma visão mais ampla da coisa. No outro projeto que eu estava, principalmente, eu acho que isso cabe. No Andrezinho Cidadão. Eu saí do abrigo, uma amiga minha que eu já tinha trabalhado num outro projeto com ela mandou um e-mail: “O Andrezinho Cidadão vai selecionar, tá?”. Eu só conhecia de nome, por causa do outro abrigo que eu trabalhava. Conhecia o Andrezinho só de nome, mas também não tinha muita noção de como funcionava. Ela mandou esse e-mail, eu mandei o currículo, participei do processo seletivo, que foi gigantesco, foram várias etapas. Eram seis por dois, seis horas por dia. Eram 36 horas. Trabalhava das sete a uma na época. E a gente saiu, o primeiro menino que eu atendi foi um menino que estava panfletando numa praça aqui embaixo. Porque esse trabalho, eu trabalhava com crianças e adolescentes em situação de rua, trabalho infantil. Antes eu tinha trabalhado na cooperativa de catadores. Tinha catadores que eram moradores de rua, mas eram adultos. Lá eram só adultos.

O Instituto Monsenhor em Santo André tem o Casa Mais Vida, que trabalha com moradores de rua, principalmente idosos com problemas mentais, serviço de adolescente em conflito com a lei, liberdade assistida e prestação de serviço à comunidade, e o Andrezinho Cidadão, que é abordagem de rua, e três casas de acolhimentos, que é essa, a do lado e uma que tem um pouco mais pra cima. É feita com criança e adolescente e família. Família também atende. Fiquei sete anos lá. Agora eu estou aqui no acolhimento. Eu entrei como educador no Andrezinho, fiquei dois anos, passei pra coordenação, fiquei cinco anos. Éramos os educadores mais chatos que tinham.

No Lar São Francisco 2, que é um serviço de acolhimento, meu trabalho é coordenar todo o serviço da casa, todos educadores, que é um serviço 24 horas, não para nunca. Cuidar junto com a técnica das questões jurídicas dos acolhidos, que é uma demanda bem grande do fórum etc. Das demandas que os educadores trazem do dia-a-dia deles, das crianças, fazer toda a articulação com a rede de saúde, educação, serviço de convivência, dos que foram acolhidos também, que a gente tem que fazer um acompanhamento. Sai daqui, volta pra casa, seja pra onde for, providenciar tudo que seja menos traumático possível, porque geralmente muda de escola, muda de tudo. Então tudo isso a gente tem que fazer, a gestão de toda essa articulação. São três casas que chamam Lar São Francisco: 1, 2 e 3. Aqui tem psicólogo, tem educadores, tem educadores com ensino médio e com superior, tem cozinheira, auxiliar de serviços gerais, e um motorista que trabalha para as três casas.

O Criança Esperança, meu primeiro contato foi pela televisão. Dentro do Instituto, na verdade, um educador nosso trouxe uma ideia de um projeto quando abriu a inscrição do Criança Esperança. Tinha o Andrezinho e o Espaço Adolescente, que trabalha com adolescente em conflito com a lei. Eu falei: “Vamos, cada um escreve um projeto e a gente tenta encaminhar”. Como esse educador já tinha trazido essa ideia desse projeto, a gente meio que o adequou e enviamos pra ver o que dava. E pra nossa surpresa foi aprovado, a gente não esperava. Acho que foi em 2012, por aí. Esse educador voltou a trabalhar com a gente agora no abrigo. O projeto consistia em produzir curta-metragem com os meninos atendidos. O Criança Esperança apoiou na questão dos equipamentos que a gente ia utilizar, financiando os equipamentos. Porque era cine debate e produção de curta-metragem. E o Criança Esperança apoiou na questão dos equipamentos que iam ser utilizados pra fazer tanto o cine debate, quanto pra fazer as filmagens. No Andrezinho, acho que eles estão com o material até hoje lá. Eles faziam mais porque os deixavam mais à vontade pra discutir o tema. Eu lembro que tinha um que eles criticavam muito a questão da escola, de como a escola funcionava. Esse eu achei interessante, porque eles fizeram um paralelo, eles filmaram como a escola é hoje e como eles gostariam que fosse, eu achei legal, eu achei interessante. Os oficineiros iam, faziam as oficinas... Eles gravavam as imagens, editavam no Andrezinho mesmo, e depois levavam de volta pra eles o resultado. Era tudo feito lá.  Ganhamos um computador. O curta já vinha de uma discussão prévia, de que tema trabalhar, como captar as imagens, tudo isso. Começou sendo feito por três educadores do próprio Andrezinho, três ou quatro na época, não lembro, depois vieram outros dois educadores que concluíram esse projeto. E como já tinha um conhecimento bastante grande de produção desse tipo de material, facilitou muito de como captar as imagens, como dar tal efeito. Tudo isso era passado para os meninos que participavam. Como você consegue dar o efeito, como aquele efeito que você vê na televisão é feito, como eles conseguiriam reproduzir. Durou um ano e pouco. Ele passou por quatro comunidades, se eu não me engano. Entre crianças e adolescentes, creio eu que deve ter girado em torno de umas 80, por aí. Pegando desde o comecinho, acho que por aí.

O Criança Esperança facilitou a nossa vida não só nesse projeto, como em todos os outros porque o Andrezinho depois realizou várias atividades utilizando esse material. Nós pudemos fazer outros cines debates e tudo mais. Até pelo que os oficineiros traziam, eu acho que ajudou a desenvolver muito o senso crítico neles, de entender o contexto que eles estão inseridos. Acho que esse foi o grande ganho assim do programa. Entender o contexto daquela comunidade ali que eles estão, aquela realidade que eles estão inseridos ali. E ter uma ideia de como funciona essa questão social. O que faz o menino sair daquela comunidade a ir pra rua, ou por que a escola daquela comunidade está naquela situação. Acho que esse foi o grande ganho. Até pelos resultados dos vídeos, acho que isso é perceptível.

Eu acho que apesar desse tempo que eu já estou na área, acho que falta muito a aprender. Eu acho que a bagagem que eu tenho ainda pode ser agregada muito mais coisas ainda. Acho que é isso, acho que ainda vai ter uma caminhada boa pela frente.

O projeto tinha início, meio e fim. Veio meio de surpresa, porque a gente não esperava ser aprovado pelo Criança Esperança. Como eu disse, a gente mandou assim aos 45 do segundo tempo, sem maiores pretensões. E querendo ou não, ter um projeto aprovado pelo Criança Esperança dá um up em qualquer organização, você falar “A gente teve apoio do Criança Esperança”. Querendo ou não, isso traz uma bagagem.  Traz uma credibilidade. Vocês já tiveram um parceiro como esse, então é uma organização que minimamente faz um trabalho sério.

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