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História

Trabalhamos para que a criança possa ser só criança

História de: Samuel Henrique Mandelbaum
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/10/2021

Sinopse

Samuel Mandelbaum criou o Dermacamp buscando realizar um sonho: ver crianças podendo ser apenas crianças. O acampamento dermatológico, que busca atender crianças com doenças de pele, já recebeu muitas pessoas nos seus poucos anos de existência. Samuel se orgulha das crianças que chegam acanhadas e saem autênticas, felizes consigo mesmas, independente dos problemas. Nesses momentos, ele se lembra do seu sonho e sorri, porque enxerga crianças sendo só crianças.

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História completa

Meu filho tem dermatite atópica discreta e tinha bronquite, rinite e tinha que fazer natação para melhorar a capacidade pulmonar. Quando pequeno, ele passou a pertencer a um grupo de intercâmbio no mundo inteiro, que fazia convivência entre crianças de várias nacionalidades; crianças que não falavam a mesma língua, mas que viajavam para um país juntas e se entendiam, mesmo com todas as diferenças. A gente viu que se a criança entendia as diferenças, ela podia assimilar muito mais as semelhanças e podia ter uma convivência normal.

 

Começamos a pensar se isso não poderia ser trazido para a dermatologia e tivemos a ideia de fazer um acampamento igual ao que nosso filho ia, mas com crianças que tivessem doenças de pele, a fim de se conhecerem. A ideia era fazer alguma coisa para unir essas crianças.

 

A ideia era levar as crianças sozinhas, sem as suas famílias, para que elas estivessem juntas com outras crianças, que pudessem conhecer pessoas com problemas semelhantes em graus variados, e que, por meio disso, pudessem perceber que, com cuidados, é possível melhorar a vida. A gente chamou isso de Dermacamp, o acampamento dermatológico. Começou em 2001 e veio se repetindo desde então, todos os anos. Começou com crianças de oito a 12 anos.

 

O acampamento não é necessariamente com barracas, mas acontece em uma fazenda, onde a gente tem lago, piscina, quadra de esportes, pedalinho, bicicleta, cavalo, lago para pesca. Onde a criança pode ser apenas criança, pode esquecer do problema dela.

 

Vão junto pessoas que ajudam a cuidar, ajudam a fazer com que a criança esteja disponível na hora que vai ter uma brincadeira, existem os monitores que fazem essas atividades. As atividades que a gente faz são brincadeiras, atividades lúdicas, sempre voltadas à autoestima, ao autoconhecimento e para aprender a lidar com as diversidades.

 

Isso começou pequenininho, mas agora nós já estamos no décimo oitavo ano, atingindo a maioridade. Tivemos no ano passado o acampamento com 60 pessoas, lotado. Como a gente leva crianças de oito a 12 anos, hoje todo mundo que vai ajudar é “ex-criança” que já foi acampante. Nada melhor que uma pessoa que começou como criança para sentir o que ela sentiu.

 

Nós começamos só com o acampamento, mas vimos que isso não era suficiente. Começamos a pesquisar, trabalhar com as famílias e vimos que somente o carinho, o acolhimento que essas crianças recebem, faz com que elas mudem o seu enfoque com a vida. Elas eram crianças que não estudavam, e quando viram que tinha uma outra criança, mais velha que ela, com a mesma doença e que já estava quase entrando na faculdade, então resolveram estudar.

 

O Museu da Pessoa tem histórias de participantes do Dermacamp. Uma criança que vai a um acampamento, com medo de todo mundo, que chega lá vestida de moletom, puxado até em cima da mão, com o gorro na cabeça, e no segundo dia já está mais solta. No terceiro dia tira o moletom. Aí, depois de dois meses, quando a gente tem outro encontro, chega uma criança que alguém olha e fala: “Poxa vida, parece o fulano”, e não é que parece, é ele!

 

A mesma menina chega de blusinha regata e bermuda, toda cheia de lesão, mas não está nem aí, ela aprendeu que ela não é a dermatite, que ela é a fulana de tal, que eventualmente tem a dermatite, assim como outros tem outras coisas, que podem ser piores, que ninguém está enxergando, e elas passam a ter uma vida diferente.

 

Temos crianças que já são formadas, crianças que não estudavam, crianças que já estão em faculdade de direito, em administração. Nós temos uma criança que não saía de casa e hoje é campeã brasileira de caratê. Imagina, uma criança com uma doença altamente desfigurante, campeã brasileira de caratê! Nesses 18 anos, a recompensa que a gente tem é enorme.


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