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História

Torcedora de estádio

História de: Elvira Nardi Polli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/09/2013

Sinopse

Euvira Nardi Polli começou a trabalhar ainda muito cedo, perdendo boa parte do que chama de "memória de brincadeira de criança". Conta de suas travessuras, como era diferente o namorar da sua época, relembrando o casamento de sua irmã e sua mudança para São Paulo, depois de casada, quando começou a frequentar o Pacaembu.

Relembra de antigos jogadores e também comenta sobre os atuais do São Paulo Futebol Clube.

Fala sobre fidelidade no relacionamento e sobre como ela interpreta a situação política do país. 

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História completa

P - Dona Elvira, onde que a senhora nasceu, que ano, como é que era a cidade onde a senhora nasceu, como é que foi a sua infância?

R - Eu nasci no interior da cidade de Itatiba, trabalhava na roça lá, cuidava de café... Mas desde criança.

P - O nome da senhora completo, como é que é?

R - Elvira Nardi Polli.

P - Como é que era na roça? Como é que era a vivência? Quem morava com a senhora? Seu pai, sua mãe?

R - Toda minha família. Meus pais, meus...

P - Como é que se chama seu pai?

R - Antonio Nardi.

P - E a sua mãe?

R - Cecília Nardi. Esqueci o sobrenome dela.

P - E a senhora teve mais irmãos?

R - Tenho três irmãos.

P - Como eles se chamam?

R - Um chama Ângelo, outro José, e outro Luiz.

P - A senhora é a mais velha?

R - Não, eu sou do meio, mais ou menos.

P - Todos vocês nasceram lá em Itatiba?

R – Tudo. Tudo no interior de Itatiba.

P - E o que que o seu pai fazia? Qual que era... Ele vivia de quê?

R - Fazia cuidar de plantação, plantação pro gasto nosso aí, e café, só. Trabalhei no monte de fazendão de café lá, na meia.

P - E a senhora...

R - Na meia.

P - Na meia, né? Como é que é trabalhar “Na meia”?

R - Fica uma... É... Metade pro patrão e metade é da gente... Do café... E deixava a gente fazer as nossas plantaçõezinhas, pro nosso gasto...

P - Plantação do que vocês tinham?

R - Tinha milho, arroz e feijão só. A terra muito ruim não dava outra coisa, só café. Era uma pirambeira de pedra pra trabalhar que nossa senhora.

P - E a senhora trabalhava desde pequenininha? Desde que idade a senhora trabalhava?

R - Desde sete anos já cuidava ali... Não podia nem com a enxada ainda, mas ia... Quando era mais nova tinha o café do terreno pra secar.

P - Antes de sete anos, a senhora já...

R - Já trabalhava. Era só isso. Tomar conta do café terreno pra secar.

P - E como que era na época? Tinha floresta, tinha muito rio? Como que era o local?

R - Ah, lá tinha um riacho, assim, depois quando vinha esses temporais desbarrancava tudo. Estava tudo desbarrancado lá, depois tiraram uma casas bonitas.

P - Como que era a casa?

R - Era um casão daqueles antigos, mas muito bonita a casa, era um das melhores que tinha lá. Depois de lá o meu pai comprou uma chacrinha em Tapera Grande, porque nós já estávamos perdendo tempo, lá não dava mais nada, já estávamos perdendo até a roupa do corpo, porque não dava mais. Aí nós saímos, compramos uma chacrinha e vivemos até quando, em Tapera Grande, me casei, de lá vim embora pra São Paulo.

P - Mas quando a senhora não estava trabalhando no terreiro de café ou lá na plantação, o que que a senhora fazia? Brincava?

R - Ah, minha mãe tinha um monte de criança, então tinha que tomar conta, carregar criança pra lá e pra cá, depois levar almoço pros outros que trabalhavam.

P - Mas antes disso, a senhora se lembra quando tinha uns três, quatro anos, do que a senhora brincava? Brincadeira de criança?

R - Não dava pra brincar, tinha que tomar conta das crianças, já desde “piquitico” mesmo lá.

P - E a senhora tinha amigas, amigos, crianças como a senhora?

R - Não, porque nós morávamos sozinhos nesse... Nessa casa. Era uma casa no meio do campo, assim...

P - Como é que era essa casa?

R - Uma casa grande... Tinha aquelas portas, “janelonas” grandes que... E quando eles iam pra cidade lá, nós ficávamos os três, quatro, tudo pequeno lá, nós encostávamos a porta com uma cadeira, que hoje Deus me livre, a gente tem medo até de ficar com chave e tudo isso aí, encostava a cadeira até quando eles chegavam de noite, que eles iam para a procissão de noite, nós ficávamos com as crianças em casa: eu com os menores, e a outra mais velha do que eu.

P - Procissão do que que os adultos iam?

R - Procissão da igreja. Tinha tudo, cada mês tinha procissão do santo lá.

P - E seu pai, sua mãe, eles iam?

R - Eles iam. E as minhas irmãs mais velhas iam também. Nós ficávamos, os mais moços novos.

P - E ficava fazendo o quê dentro de casa? A senhora lembra?

R - Fechava, encostava com a cadeira e ia dormir, e um medo que escutava... Tinha um mato grande lá e tinha... Acho que era assombrado, não sei, saia sempre perto da casa, porque a casa era não campo, só tinha... E nesse mato aí saia um fogo lá que ia até o céu, do meio do mato lá. Mas tinha um medo que só vendo.

P - E a senhora chegou a ver esse fogo?

R - Ah, via, passava sempre de noite de... Assim... Saia esse fogo do meio do mato, diz que era assombrado, não sei era verdade ou o que...

P - E a senhora achava que era o que naquela época, esse fogo?

R - Não sei, achava esse fogo, tinha medo... O que que era não sei.

P - Que que vocês faziam pra fugir do medo?

R - Ah, nós nos fechávamos, ficávamos quietinhos, dentro de casa e depois tinha aquele passarinho que chama urutau e ele geme que nem gente. Num sei se o senhor já viu. Que ele grita que nem gente, ele geme que nem gente mesmo.

P - E a senhora ouvia o passarinho?

R - Ah, que no mato escuro de noite aquele passarinho gritava lá.

P - E a senhora chegou a ver o passarinho algum dia?

R - Não, nunca vi. Só via esses outros bichos aí: macaco, esse daí, como que chama? Iça, aqueles amarelo lá? Iça, aqueles que nem macaco.

P - E que bicho mais tinha que a senhora lembra assim?

R - Ah, meus Deus, tinha cada bicho lá, mas eu não via: cobra.

P - Tinha onça?

R - Ouriço, tatu, agora os outros bicho, aí a gente tem medo de andar lá.

P - Tinha onça, por exemplo?

R - Ah, não tinha onça não. Nem se via falar de onça. Onça eu estou vendo falar agora.

P - A senhora depois foi estudar, não foi? Como é que foi quando a senhora começou a crescer?

R - Estudar não. Nenhum de nós estudou, porque era tudo filha mulher. Esses três homens, era tudo filha mulher, esses três homens eram os últimos. Eu sou a mais velha. Não pedia, tinha que tocar a roça, trabalhar na roça. Não podia estudar, depois não tinha mesmo escola pra aquela época lá.

P - Dai então não tinha escola...

R - A cidade era muito longe pra ir. Tinha que trabalhar, não adiantava, tinha que trabalhar.

P - E como é era o trabalho na roça?

R - Como é que era? Cada um... Tudo queria enxada nova, ninguém queria a velha, enxada grandona, tudo boa, aquele mato grande lá, tacar a enxada e puxar. Não podia jogar, tinha que tacar a enxada lá e puxar assim pra vir o mato junto com a terra. Senão corta o mato lá e torna a brota tudo então tinha que...

P - Fazer força.

R - Fazer força pra arrancar mesmo. E queria a enxada nova, ninguém queria a velha, porque a velha era ruim para trabalhar.

P - Dava briga?

R - Meu pai ia para a cidade, comprava tudo. Sete enxadas que... Dos filhos dele e ele encabava tudo lá. E cada um ia lá, queria escolher a que tinha cabo melhor, a que era cabo ruim ninguém queria saber.

P - Era cabo de que? De que madeira? A senhora lembra?

R - É... de “arixicu”, de maminha de porca, e... O “rataburo” era muito pesado, é pesado pra “coisar”. É, o melhor que tinha, mais era muito pesado. Era mais esse daí. E tinha meu irmão mais velho. Ele era mais danado em tudo e ele brigava muito com a minha irmã mais velha, que é essa outra única que eu tenho falecida e... Ele que ia lá e escolhia aquela de cabo mais comprido que tinha um nó na ponta para morder, bater na minha irmã. Mas eles brigavam, era só na base de enxada que saía os dois.

P - E que que seu pai fazia quando vocês brigavam?

R - É... Brigava... Nós trabalhávamos junto com meu avô... Meu pai sempre atrás de negócio pra lá e pra cá, ia pra cidade, quem cuidava das coisas aí era meu avô. Meu avô ia separar a briga dos dois.

P - E batia também ou não?

R - Ah, ele mandava “cabada” de enxada lá. (Risos)

P - E a senhora apanhava quando era criança?

R - Apanhava da minha mãe. Minha mãe dava com chicote, vinha correndo atrás de nós... Tinha um paiol lá, a gente subia em cima. Minha mãe não subia no paiol. A gente se salvava lá. E tinha uma das minhas tias mais velhas, que era solteira lá, ela dava comida pela janela. Ela tinha pena de nós e dava, depois ela aprontava...

P - Por que vocês ficavam escondidas no paiol?

R - Ah, por sinal, ela batia em nós com a cinta, então, nós íamos lá, fazíamos arte, nos mandava nós algum lugar, nós não queríamos ir, aí ela vinha com o chicote dar chicotada na gente.

P - Aí depois a tia ia salvar? Levar comida?

R - Aí minha tia aprontava lá a cesta com a comida e ia levar lá na roça.

P - O que que vocês costumavam comer?

R - Aí meu Deus do céu. Feijão, arroz e... Polenta, e... Aí meu Deus, quantas coisas... Linguiça, leite que tirava da vaca de lá.

P - Vocês tinham criação de gado lá, galinha?

R - Galinha, porco, nós criávamos para o gasto lá.

P - E o seu pai vendia alguma coisa dessa produção na cidade, ou era só pra vocês?

R - Era só pro nosso gasto, porque não havia nenhuma das coisas lá, naquela época.

P - A senhora se lembra de se seu pai, seu avô, sua mãe, contar alguma história pra vocês?

R - Meu pai é fala brasileiro, meu avô é falar tudo italiano, a nós penávamos pra conversar com ele porque ele não nos entendia e nós não o entendíamos.

P - E o seu pai contava alguma história... Sua mãe, assim, pra vocês irem dormir?

R - Meu pai nem, coitado, não dava muita coisa pra nós, porque tinha de tomar conta de uma coisa, outra lá, não dava muito pros filhos...

R - E a sua mãe?

P - Ah, minha mãe também... Sei lá... Trabalhou muito coitada, cuidar de tudo isso aí, tinha minha tia, duas tias que estavam lá, meu avô, e ela costurava muito pra fora, lavava, costurava, não dava...

R - E essa costura, ela vendia onde?

R - Ela fazia pros vizinhos.

P - Pros vizinhos mesmo?

R - É, pros vizinhos. Ela costurava terno, tudo. Ela costurava muito bem.

P - Que tecido que ela usava mais, a senhora se lembra?

R - Brim, brim caqui, né.

P - E vocês se vestiam de que maneira, a senhora se lembra?

R - Meu Jesus! Era brim caqui também. Brim e outras roupas grossas que não pegava picão lá na roça. Eu tinha um vestido só, e às vezes eu queria passear, os mais velhos não nos levavam. E pegava, escondiam nosso vestido e cadê, toca ficar em casa lá. Uma vez fizemos uma... Pode falar uma

travessura lá?

P - Pode.

R - Nós queríamos passear numa reza que tinha lá, reza assim na casa de uma vizinhança. Nós queríamos ir a reza, eu com outra, e a minha irmã não nos deixou ir, prometeu que levava e tudo, nos mandou limpar aquele monte de terreno lá que batia café, nós fizemos tudo direitinho, quando chegou de noite, não deixou a gente ir, aí nós começamos chorar as duas, era criança pequena, que tivesse juízo não ia fazer isso. Pegamos, fomos no fundo do quintal, tinham uns bananais lá, deitamos as duas, dormimos de noite. E o pessoal quando vieram da reza procuraram por tudo quanto foi mato, procurando nós duas e nós dormindo lá. Aí, quando foi uma hora, e eles procurando, não sabiam que nós estávamos lá. Aí quando foi uma hora acordei e vi que tava lá no fundo do quintal, na beira do pomar lá, passei perto da outra, tava dormindo, eu deixei ela lá, fui embora pra casa, que tinha minha tia lá, aí coitado sair pro mato, o cafezal, falar lá que já tinha... Que nós tínhamos aparecido em casa e tava lá. Aí, veio em casa, mandou deitar as duas, no outro dia cedo meu pai faz levantar e sentar lá no batente da porta, que tínhamos tudo aqueles batentes altos, contar toda essa besteira, né. Aí, sentamos as duas lá e ele deu café para nós, daí a mais velha levou uma surra, mandou sentar lá, aí pegou a outra, deu outra surra na outra, mandou sentar lá, deu outra surra em mim, aí mandou eu sentar lá, pegou a outra, ele diz que a semana inteira parecia que tinha deslocado tudo de tanto que ele bateu em nós.

P - Bateu com que?

R - Com a mão.

P - Com a mão?

R - É, e nunca mais meu pai fez isso. Nunca ele bateu em ninguém, mas... Tudo o pessoal, a vizinhança longe, procurando por nós.

P - Vocês tinham sumido?

R - Nós dormimos lá, que sumido... Era lá em casa mesmo.

P - Mas pra eles tinham sumido, né?

R - E, eles pensam que a gente tinha sumido.

P - Essa foi a maior travessura da senhora ou a senhora fez alguma outra?

R - Ah, nunca mais, foi essa a maior da minha vida.

P - E teus irmãos, fizeram alguma travessura parecida com essa assim? A senhora se lembra?

R - É, acho que não também, não tinha depois travessura nenhuma. Era um lugar sozinho... Que tinha casa, mais era tudo longe, tudo que tinha... Esses sitiantes, tudo longe, cafezal, só esses coisa aí, pasto...

P - Já tinha rádio? A senhora ouvia rádio nessa época?

R - Não tinha.

P - Não tinha rádio?

R - Aí fiz um a pilha, quando nós viemos nessa Tapera Grande, aí, aí é que compramos um aqui, a pilha....

P - Como foi a primeira vez que a senhora se lembra que foi em Tapera Grande ou na cidade... Itatiba, né? A primeira vez que a senhora foi à cidade assim, viu uma cidade.

R - Ah, isso não me recordo, isso ai não.

P - E quando é que a senhora viu um carro pela primeira vez? A senhora se lembra? Um automóvel?

R - Lembro que... Lembro.

P - Que tipo de automóvel?

R - Aqueles que eram cobertos, assim aberto, como é que era? Aqueles carro parece que é um pé de bode, como é que fala? Como é que é?

P – Pé de bode?

R - Esse o primeiro que eu vi.

P - E a primeira vez que a senhora andou? A senhora se lembra?

R – Hum...

P - Mas tá muito bom dona Elvira, é o espírito é esse mesmo. Contando essas histórias, a senhora falou, a senhora chamou de... De... Essas porcarias não... Não é porcaria não, qualquer detalhe é importante, sabe por quê? Isso é importante, a gente não viveu essa época da senhora, entendeu? Eu vivi depois. A Cláudia... E depois vem... Sua filha está aí e sua neta que tá ali, e vão querer saber como é que era, né?

R - Mas, eles pensam que nem é verdade isso aí, né?

P - Não, mas lógico que é verdade, a senhora tá contando e verdade, então, vai ficar registrado. Daqui a 20 anos vai saber como é que a senhora vivia. Como é que que foi a primeira vez que senhora andou no pé de bode, não automóvel?

R - É... Um meu cunhado já falecido... Ele... Comprou um carro e ele nos levou pra cidade nesse carro aí. Nunca tinha andado de carro.

P - E como é que a senhora se sentiu? Que tipo de emoção foi?

R - Parece que tava indo de avião. Eu nunca fui.

P - E a primeira viagem assim que a senhora andou de trem, de ônibus, a senhora se lembra? Pra onde foi?

R - De trem que nós vínhamos pra cidade lá. Tinha procissão de noite. Nós vínhamos nesse trenzinho. Trenzinho tocado a fogo... A lenha, lá, sei lá como é que é.

P - Maria-fumaça, né?

R - Vinham aquelas faíscas, queimava toda a roupa da gente.

P - E a procissão? Que procissão que a senhora se lembra que vocês iam? Que tipo... Pra que santo era? Que tipo de comemoração?

R - Procissão do corpo de Deus... Procissão de... Do corpo de Deus, não...

P - Corpus Christi.

R - É, semana santa, é corpo... Semana santa...

P - A senhora rezava quando era pequena? Rezava muito?

R - Eu rezava. Meu pai fazia eu ir na cidade e assistir a missa todo domingo. Ele era muito bom meu pai...

P - O que que a senhora se lembra da missa?

R - Mas... Gostava que andasse muito direita...

P - Como que era a missa, as pessoas que... A senhora tem uma lembrança da...

R - Ia na igreja, tinha os padres já e não queriam que... Manga curta... Então a gente fazia manguinha pra pôr aqui pra entrar na igreja, senão ele punha a gente pra fora da igreja.

P - É? E saia?

R - Ah, saia normal mesmo de agora, assim. Não curta como usa agora, mas normal assim.

P - Os padres não implicavam com a altura da saia?

R - Agora de calça... Não queriam que... De calça comprida assim não queriam que entrasse. Agora tá tudo normal, né?

P - E a senhora se lembra qual foi o primeiro namorado da senhora? Quando a senhora começou a conhecer os rapazes? Lembra disso?

R - Virgem Maria... Isso nem me lembro. Sei que tem bastante, mas não me lembro disso.

P - O primeiro namorado a senhora não se lembra dele?

R - Não, não recordo disso aí não. De repente eu falo um e... Foi outro, não lembro. (Risos)

P - E de seus irmãos e irmãs, a senhora lembra de algum deles? Que que eles faziam, namorados?

R - Desse que tinha o carro me lembro. Só namorou esse que tinha o carro, se casou com ele.

P - A sua irmã casou com ele?

R - Com ele.

P - Como é que ele se chamava?

R - Emílio Massareto.

P - Ele levava vocês passear de carro?

R - É, nos levava... Na cidade assim. Ia com a minha irmã e nos levava.

P - E como é que era o namoro?

R - O namoro tinha que sentar quietinho, um longe do outro. Hoje gente... Mas Deus que me perdoe se o namorado vai pegar na mão da... Namorada, não podia. Tinha que andar um longe do outro.

P - E dentro de casa?

R - Dentro de casa, sentado longe e os pais ficavam...

P - Do lado?

R - É.

P - E falavam sobre o que, dona Elvira?

R - Ah, nem dá pra falar nada, sabe? Vinham lá os pais, começavam a falar de criação, não sei do que lá, a gente nem conversava com o namorado.

P - Os pais é que comandavam a conversa?

R - É, aí eles que conversavam. (Risos)

P - E pra casar, como é que faziam? Enfim, algum pedido?

R - Ah, tinha que... Primeiro tinha que pedir pra namorar em casa, depois pedir pra marcar o casamento.

P - A senhora se lembra do casamento dessa sua irmã?

R - Ah, eu me não recordo disso ainda. Do casamento me recordo que foram tudo pra cidade lá.

P - Como é que era a cerimônia? Como é que foi?

R - Ah, era que nem agora mesmo. Só que o vestiário, tudo essas coisas era mais diferente, do resto acho que era tudo igual mesmo.

P - Diferente de que maneira? A senhora fala assim, o vestido...

R - Ah, tem tudo esse vestido comprido, tudo essas coisa. De primeiro era tudo simples, vestido simples.

P - E tinha festa?

R - Tinha.

P - Como é que foi a festa? Lembra?

R - Tinha jantar. Era jantar naquele tempo. Não era que nem agora que tem doce. Era jantar.

P - E teve o baile, a senhora falou?

R - Depois o baile tirava a mesa, lá era o baile.

P - Onde é que foi o baile? Foi na roça mesmo, assim?

R - Não, não, no terreiro, fazia o barracão lá, cobria com encerado e...

P - E a música, como é que era? Era sanfona?

R - Ah, sim, sanfoneiro... Sanfoneiro ia tocar.

P - A senhora se lembra de uma música que era famosa? Que vocês gostavam de dançar naquela época?

R - Num sei.

P - E o casamento da senhora?

R - Meu casamento teve um almoço em casa e... Depois fomos a pé lá aonde tinha o trenzinho. Tomemos o trenzinho e fomos até a cidade. Casamos, depois de lá tomamos o trenzinho e fomos até Louveiro. De Louveiro viemos até São Paulo. Aí viemos, na Rua Catão...

P - E como que a senhora conheceu seu marido?

R - É... Era vizinho, vizinho não, tinha um sítio também perto lá e a gente se conhecia lá.

P - Como é que foi o namoro da senhora?

R - Ih, namorei tanto. Tantas vezes e larguei dele, namorei tantas vezes, ele e larguei. Depois, no fim das contas, deu com ele mesmo. (Risos)

P - Por que que a senhora namorava e largava?

R - Ah, sei lá... Ele me atormentava. Eu não queria mais ele, e ele me atormentava. Ia ao baile e me tocava esconder, que queria só comigo e eu não queria saber dele... Ele tocava... Pedia até... Me esconder pra algum quarto lá, não dava as cara mais no salão.

P - E ele insistia?

R - Ah, ele vinha procurar, porque que só queria... Ele já tirava, já... Que eu que era a dama dele. Que tinha que dançar comigo e, Virgem Maria, eu fugia. Aí me tocava, saia da sala pra não dançar mais com ele.

P - E como que foi que a senhora decidiu casar com ele? Como que ele chama?

R - Ele chama Otávio. Ele veio morar aqui pra São Paulo, não, já antes nós namorava já. Depois ele veio morar pra cá e me esqueceu. Não voltou outra vez lá e...

P - E o que que ele veio fazer aqui em São Paulo?

R - E não sei... Veio em todo o serviço, veio junto com... Com a irmã dele e o cunhado. Trabalhou em tanto serviço que Nossa Senhora.

P - Que serviço que ele fazia?

R - Ah, eu nem sei, fazia tanto que depois ele... De lavação de carro... Depois, quando casei com ele, já, eu prendi mais, ele aí começou a lavação de carro, depois ele entrou aí na CMTC, ficou aí até aposentar. A gente ficou muitos anos aí.

P - E quando a senhora veio pra São Paulo, o que que mudou na vida da senhora?

R - Ah, aqui quase tudo mudou. Tudo porque aqui é tudo mais difícil né?

P - Que que a senhora acha difícil aqui?

R - Eu sei lá. Num é que nem lá, que a gente... Já solteira é uma coisa, aqui já não era mais aquilo...

P - O que que a senhora lembra da cidade de São Paulo quando a senhora chegou aqui?

R - Ah, não sei, a mesma coisa de agora. A mesma coisa de agora não, porque agora está mais... Tudo mais... Mais perigoso, nossa. E depois eu saia, eu ia pra cidade. Agora já não saio, não sei mais sair. Ia pra cidade tudo, aí, andava... Mas agora não, saí. Eu me saí, me perdoo ali, não saio mais.

P - Pra onde a senhora ia, nessa época que a senhora ia pra cidade? Ia fazer o que?

R - Mais que eu ia aí... Martim Fontes que tinha nosso... “Coiso” lá... Convênio...

P - Médico?

R - É.

P - E pra se divertir, a senhora ia onde nessa época?

R - Ah, aqui já acabou divertimento, agora, de solteiro sim. Meu pai levava todo sábado nós em baile.

P - Mas a senhora não saia com seu marido aqui em São Paulo, logo que chegaram...

R - Passei na casa da minha irmã na Vila Prudente, do resto não saía, ficava aí.

P - Vocês iam de quê? De ônibus, de bonde? Como que era?

R - Ia de bonde elétrico, tinha bonde.

P - É de onde que saía o bonde?

R - Saía da Lapa, aí na... Cincinato parece que é... É Cincinato mesmo, que ele virava, fazia o retorno, aí pegava a Cincinato e ia embora pra Rua Guaicuru. É, Guaicuru, acho que é.

P - Guaicurus. Depois, passa no centro?

R - Até a cidade na... Correio aí pra virava.

P - Pra ir para Vila Prudente iam de quê?

R - Pegava o... Tinha o... Uma vez tinha o ônibus atrás da Catedral, não me lembro, tinha o... O... Bonde... É Praça João Mendes, né?

P - Praça João Mendes. E como que era o bonde? A senhora se lembra, as pessoas, o...

R - É, tinha o Camarão e tinha o outro lá, que é tudo pelas portas que entrava.

P - Como que era o Camarão?

R - O camarão é fechado, né.

P - E pagava mais pra andar no Camarão do que no...

R - Ah, acho que era tudo igual.

P - E o nome do outro que era aberto, como que era?

R - Ele pegava, ele chegava ao lugar, ele virava, colocava... Era tudo porta aberta nos banco assim... Ele... Quando chegava a virar a tábua do outro lado, a gente não podia entrar, só entrava por esse lado aqui.

P - E quem que cobrava o ingresso?

R - A gente... Não sei... Ah, o cobrador vinha, batia, puxava, fazia... E a gente pagava.

P - E tinha gente que se escondia, que não pagava, descia?

R - Ô, aqueles que tava pendurado no... No... “Coiso”... Descia e ia embora quando parava. E que nem fazia com ônibus aí. Saiam pela porta de trás, aí, sem pagar.

P - Naquela época já tinha disso também?

R - Ah, tinha.

P - A senhora falou agora a pouco que agora é muito perigoso. Mas a senhora se lembra de algum assalto naquela época? Vocês tinham medo de assalto ou não tinha disso? Algum crime violento...

R - Naquela época não tinha. Só uma vez que nós íamos, não me recordo aonde que eu ia... O meu pai tava carregando uma criança, ele veio aqui pra ir ver uma irmã minha que tinha... Que tava com tifo... Ele tinha vindo ver, ele veio à minha casa e eu fui junto com ele pra Vila Prudente, aí, ele vinha no bonde com a criança no colo e o roubaram... O assaltante tirou o dinheiro dele e não tinha mais dinheiro pra ir embora.

P - E ele tava armado, o assaltante ou não?

R - Ah, aquele tempo acho que nem arma existia por aí, acho que existia mais no... No nosso modo pessoal assim.

P - E a senhora se lembra de futebol nessa época? Já tinha alguma notícia do futebol? Gostava de futebol? Ouvia ou não?

R - Ah, quando eu morava aí na Rua Catão tinha o da... Um campo aí, ia sempre assistir. Era da... Como é que fala agora? Melhoramento. Tinha um campo lá, ia assistir ao jogo aí. Eu com ele... E a minha cunhada ia também.

P - Como é que chamava os times de várzea? A senhora se lembra? Que jogavam lá? Algum jogador daquela época?

R - Ah, isso não, isso eu me recordo. Depois tinha... Depois tinha o São Paulo, vinha jogar, fazer esses... Não sei... Esses amistosos, o que era, vinha sempre pra Pirituba. Eles vinham sempre fazer esses jogos, o São Paulo.

P - O São Paulo?

R - É, o São Paulo. Depois tinha um campo aí pra baixo da onde eu moro... Do Piqueri, e o campo, uma vez veio titular do São Paulo mesmo, veio aí, até passou de ônibus lá na casa... Na minha rua aí, eles vieram jogar aí, no... No Piqueri.

P - E quando que a senhora virou são paulina?

R - Ah, toda vida. Desde criança que... Naquele tempo nem se via falar de... Não tinha nem jogo nessa época, né? Mas depois começou a sair os Guaira, viraram são paulino.

P - A senhora ouvia no rádio os jogos?

R - Eu ia ao Pacaembu, ia sempre com ele assistir lá.

P - É.

R - Ia assistir lá.

P - A senhora lembra o primeiro jogo que a senhora viu do São Paulo?

R - Ah, não recordo isso aí não. Foi tanto que nem sei. Uma vez fui assistir um... O jogo da Portuguesa e o São Paulo, meu Deus do céu, quanta garrafa que vinha de lá de trás em cima da gente. E tinha um português perto de nós, e ele sentou perto de nós lá, e ele tava com um monte de apito no bolso, então ele falava para a gente: “quando é que o São Paulo vai empatar que eu apito aqui e o São Paulo parar”, ele falou. Aí começou... e vinha sempre garrafada por cima. Daí um pouco o São Paulo marca um gol e ele ficou quietinho lá. Quando o São Paulo marcou outro gol ele sumiu ali com apito dele. (Risos)

P - E quanto é que foi esse jogo? A senhora se lembra?

R - Ah, não recordo isso não.

P - Nem os gols quem fez?

R - Que até eu fui ao hospital lá no... Como é que chama? E da... Paulista, é...

P - Oswaldo Cruz.

R - Não, outro. Aquele outro hospital que fechou aí agora, como é que chama? O Matarazzo. Fui ver um que tinha sido operado. Depois meu marido também foi lá, que tinha marcado uma operação com mesmo médico que me operou, e depois nós viemos a pé ao Pacaembu. Fomos assistir ao jogo aí.

P - Do hospital Matarazzo até o Pacaembu vocês foram a pé?

R - Senhor? Ah, viemos a pé, e viemos a pé. É pertinho, era aí. Vinha pela Paulista e descia.

P - A senhora se lembra quem jogava nesse dia? Algum jogador que...

R - Ai minha Nossa Senhora, não recordo, é muito antigo isso aí, não me recordo não.

P - E o primeiro jogo que a senhora se recorda assim?

R - Tudo... O... O... Como é que chama? O Mauro lá que... Que... Que era Marta Rocha, que tinha nome Marta Rocha, Teixeirinha...

P - Porque ele se chamava Marta Rocha? A senhora sabe?

R - Porque era bonito, né? E, Maurinho. E qual é aquele que quebrou a perna? Me esqueci o nome dele lá, quebrou a perna que virou pra trás lá?

P - Num me lembro agora. A senhora tá falando nessa época que jogava o Mauro?

R - É. Teixerinha... O Teixerinha diz que morava aí na... Na via Pojuca, diz que morava. Não sei se mora ainda não, sei lá.

P - A senhora conheceu algum deles, assim, pessoalmente.

R - Ah, eles sim. O Gino. O Gino, lembra aquele dia lá, eu não tava no jogo, tava em Itatiba aquele dia que o Gino levou a tijolada na cabeça lá do... Foi “o coiso” lá... Como que chama? Do Corinthians lá. Como é que é? O Luizinho, né? Ele... Era danado, ele pegava a bola e... Driblava e sentava na bola, parece que o... Não sei se foi o Gino mesmo que deu um chute na bola. (Risos) Eu não sei, e quando foi fora parece que ele pegou... Fora do jogo foi que ele deu a tijolada nele. Tijolo, pedra, não sei. Eu não tava aí. Eu tava assistindo... Esse tempo eu já tava assistindo na televisão lá.

P - E a senhora sempre vai ao estádio? Sempre foi ao estádio?

R - Eu sempre ia ao jogo do São Paulo, mas agora que a Cecília não vai mais não vou mais. Foi só esse dia que ela resolveu nos levar.

P - E que que a senhora gosta de ver quando a senhora vai ao estádio?

R - De ver o jogador? Gosto de ver o Muller. Eu gosto de ver o... Agora o... “O coisa” tirou ele agora, gostava tanto do Heriberto, né? O Tilico. Adora os pontas aí, mas não, o seu Telê não cai com essa ponta, não sei....

P - A senhora concorda com o Jô Soares então, que o Telê não bota ponta?

R - É, não sei porque... Mas também pras pontas ele não... Não... Foi tudo embora pro meio aí.

P - Porque que a senhora gosta tanto do Mário Tilica?

R - Ah, porque ele era... Pegava uma bola, ninguém o pegava não. E o Telê, não sei. Não foi com a cara dele. Nem de Tilico nem de Zé Teodoro, quem outro mais? O Zé Teodoro era bom também, era bom também, cismou... Ele quando cisma com o jogador, meu caro, pode pegar o caminho.

P - Alguma vez a senhora brigou na arquibancada?

R - Não.

P - Nem de xingar assim?

R - Ah, xingar... O pessoal de perto não... Só o... Juiz.

P - Do que que a senhora xinga o juiz no campo?

R - Oh, meu Deus do céu, começo falar que está engavetado, começo xingar de novo e falo que está engavetado (risos).

P - E a mãe do juiz, a senhora xingou também?

R - Quem?

P - A mãe do juiz?

R - Não, ah, o nome sai lá pra mãe mesmo (risos), o primeiro lugar.

P - Já viu alguém jogar alguma coisa no juiz no estádio?

R - Nossa senhora, copo de água, vai. Quando vou ao Pacaembu, no bandeirinha. Eu não, uma vez eu vi gente tacar em cima da gente também, jogam água. Ah, meu Deus do céu, quanto copo da água que vem por cima da gente. Copo de água, não sei se é água ou o que que é. (Risos) Aí que tá.

P - A senhora já viu alguma briga grande assim no estádio?

R - Ah, vejo mais meio de longe, que a gente... Nós não vamos ao jogo mais não, fica muito perto da torcida, só da torcida lá, mais fico meio longe dela... Também, a gente ia a pé até... Não era assim muito... Que nem agora que... Começam gritar, pular lá. Quando a gente ia, ele falava: “viu vó não fica muito, vá embora pra lá, porque aqui fica tudo de pé, a senhora vai nos xingar, vai mais prá lá um pouco, mais longe”. Eles já mandavam a gente ir mais retirado um pouco. E agora a gente vai mais longe porque tem medo, eles começam brincar lá com as brincadeiras deles, eles vêm por cima da gente.

P - E a violência da torcida? A senhora acha que hoje o futebol está muito violento?

R - Tá. Não é no estádio, mas por fora. Já viu outro dia aí? O Palmeiras, São Paulo e Corinthians eu não vou assistir mais não. Aquele último que foi lá nós fomos, e ficou tudo bem, só que coitada, ela aí arrancaram a camisa dela, do outro lá.

P - De quem? Do...

R - Da minha neta aí. Eu com a minha filha vínhamos vindo de carro e... O da Mancha, a Mancha que era mais danado e... Daqui um pouco ele... Porque o trânsito tava parado e ele descia da porta de trás e vinha com um pau, vinha olhando alguém que tinha a camisa dentro do carro. A minha filha falou: “Meu Deus do céu, eu estou com o chaveiro aqui “do coiso”...” e ela: “me cobre mãe, me cobre que eu estou com o chaveiro que tem a chavinha feito a camisa do tricolor”. Ele vinha na porta do vidro e olhava, quando via assim, ele pegava fazia arrancar a camisa, depois eles penduravam no pau da bandeira, vinham em cima do ônibus com a camisa que eles tiravam tudo, e de cada pouco eles desciam do ônibus e vinham com pau por cima. Bom, nós não mexíamos porque nós vínhamos quietos. Nós vínhamos com um medo miserável, mas deu pra sair fora.

P - E na sua rua, como que é a relação com os vizinhos que torcem pra outro time?

R - Eles começam chatear a gente. Um dia a gente vinha vindo, já tava com a cabeça quente que o Corinthians tinha ganhado, o São Paulo perdeu. E era tudo são paulino ainda, aí eles mexeram, né? Pensou que ia fazer bem. O médico e médica tudo de homem, eu mandei naquele lugar e entrei pra dentro de casa. Estava meu filho junto lá, aí o pai dele, ah deixe, deixe, pro meu filho, deixei, é cabeça quente, e eu o xinguei. Os médicos todos juntos e entrei pra dentro.

P - A senhora quer um copo de água, dona Elvira?

R - Não, não. Eu sofro de sinusite, estou com o negócio correndo aqui na cabeça.

P - Quer um lenço?

R - Eu tenho, eu tenho lenço.

P - É só pra não esquentar muito aí pra senhora.

R - Eu quero sim.

P - Dona Elvira, a senhora vai uniformizada, seus filhos, seus netos vão uniformizados hoje para o campo?

R - A minha filha ia de camisa sim. Só que depois, quando eu ia, punha uma blusa por cima, depois punha pra sair, colocava a blusa por cima.

P - Por que as pessoas fazem isso hoje? De ir com duas camisas, botar a blusa por cima, por quê?

R - Por causa... Não sei, pros outros não pegarem a gente fora.

P - E eles batem, tiram a camisa? Como é isso?

R - Faz, faz, eles batem. Os palmeirenses principalmente. Eles vêm no ônibus, vêm tudo... Não sei onde que eles... Tudo fora, no capô “do coiso” com um pau em cima. Um dia nós íamos ao jogo, era o... Como chama aquele do Rio que tem a... O Vasco.

P - O Vasco da Gama.

R - E nós íamos indo ao jogo e chegaram lá, não sei como que chama aquela entrada lá em cima, quando a gente vê o jogo lá em cima, acho...

P - Arquibancada, fala rampa?

R - Não, não na entrada, lá em cima, lá na avenida.

P - Giovani Gronchi?

R - Acho que é sim, é essa mesmo. E nós vínhamos descendo com carro e... E... Vinha... Nós passamos a torcida... Duas vezes para o caminho, nós passamos por ela e eles atravessaram a rua assim, nós passamos pra frente. Depois quando vínhamos vindo, nós vimos o Vasco, ele tava embaixo, antes de entrar na travessa que vai pro Morumbi. Aí no posto nós vimos todos eles parados e saí fora, eles estavam com arma tudo, eles estavam. A minha filha pegou, quando viu, e a nossa torcida vinha vindo pra trás aí, quando apontou numa descida aí... A minha filha atravessou sinal fechado tudo, entrou naquela igreja que tem de crente, não sei, ela entrou dentro lá, porta aberta, entrou lá. Nós nos escondemos com o carro lá. Aí meu Deus do céu. Eles vieram por cima, bateu, quebrou todo o ônibus da torcida. Tinha mulher, tudo machucada, ficaram fora. Aí eles deram tiros. Chamaram a polícia, pegaram todos eles lá, daí um pedaço que... Sossegou tudo, nós saímos fora, viemos embora.

P - E antigamente, quando a senhora começou a ir ao estádio, tinha muito esse tipo de confronto, de briga entre as torcidas? Como que era isso?

R - Tinha nada não, tinha nada, tudo misturado. Hoje não tá mais misturado. Só tinha a torcida do São Paulo que era do... Como é que chama aquele lá? O... Meu Deus do céu. Agora esqueci o nome. Que era vice-prefeito...

P - Manoel Raymundo? Pedra Verde?

R - Não, não... Ele era da torcida lá, não sei a qual torcida era. Tudo de branco lá... Que ficava lá... Só ele que tinha mais nada, não era assim como agora. Ai meu Deus do céu, agora é tudo misturado junto. Hoje vai misturar tudo, que jeito? Eu sei, eu sei que...

P - E na sua família? As pessoas gostam de futebol também? Torcem pra que time?

R - É tudo, tudo são paulino. Só o meu filho aí, mais velho, acho que ele era corintiano, mas quando o Corinthians começou perder, perder, nós... O São Paulo ganhava, então a gente ficava contente, ele chorava. Depois saiu fora também. Aí virou São Paulo também. E é assim.

P - E a senhora hoje se diverte, sai de casa, vai passear aonde?

R - Eu só gosto de jogo, mais nada. Mas ir ao campo, em casa também não gosto de assistir.

P - A senhora não vê na televisão o jogo?

R - Eu não go... Não sei... Dá muito nervoso, eu não fico lá, dá muito nervoso em mim. Não é que nem no campo. É diferente no campo do que a gente vê na televisão.

P - Na tevê a senhora fica mais nervosa?

R - Ah, fico, em casa fico, no campo não. A gente parece que vê uma bola, parece que ela já vai indo lá, mas não é assim não, eles tiram, né?

P - O que que é diferente?

R - Sei lá, parece que... A gente vê, parece que tá correndo mais perigo na meta lá do que vê no campo.

P - E o coração como é que fica?

R - Ai nossa senhora. Lá no campo nós sempre grita, xinga, passa... Um dia eu quase desmaiei lá no campo...

P - Como é que foi isso?

R - Aquele jogo que fui com a Márcia, nem sei, tava junto com ela, cai. Eu fiquei ajoelhada lá de emoção que o São Paulo tinha ganhado.

P - Corinthians?

R - Era o Corinthians? Nem sei.

P - O São Paulo foi campeão.

R - Foi.

P - E o que que aconteceu com a senhora?

R - Ah, eu de alegria amontoei lá, os outros vieram socorrer. (Risos) Aí voltei outra vez, mandava sentar lá, ficar um pouco lá, depois eu melhorei.

P - Tomou uma água?

R - Pra pegar água nem dava, tava muito difícil.

P - Difícil.

P - E a senhora tava no jogo aquele dia lá?

R - Não.

P - Ah, não tava aquele dia de noite não?

P - Esse último, tava?

R - Porque não dava pra gente descer, ainda tava esperando o... O... Meu filho que tinha... Eu entro, não pago porque... A coisa lá da... Como e que chama lá...

P - Da Independente?

R - Num é da Independente. O Independente eu tiro mais barato, mais eu tenho outra que não pago que é da... Da federação. Federação.

P - Federação Paulista?

R - É, aposentado e... Então eu... Ele foi vender o ingresso o meu lá fora, que estava... Chegou na porta, já pularam em cima e ele vendeu. E aí tinha medo. Tinha muita gente... Tinha medo de... Aí fui eu com outro moço que... Que me leva sempre lá. Ele me levou para sentar lá e aí fomos procurar... Ele com a minha filha foi procura o irmão dela, pra achar ele, depois, subimos lá, mais estava duro pra subir.

P - Em casa a senhora diz que não vê tevê. E o rádio a senhora escuta?

R - O rádio sim... Ah, aquele não perdoo. Quando eu estou em casa não perdoo aquele não.

P - Que programa que a senhora vê?

R - O resto aí... Não sou chegada nessas coisas aí, gente do interior já é... Já não vai mais.

P - Digo, mas programa de esporte, a senhora ouve que programa?

R - O da... Da Jovem Pan. Aí... Agora meu filho gosta da... Da Globo lá, esporte né? Eu nem sei, porque não pego esse daí.

P - E da Jovem Pan?

R - É pra falar outra vez. Eu assisto ao rádio da Jovem Pan e o meu filho da Globo.

P - E da Jovem Pan, a senhora gosta de algum locutor em especial?

R - Ah, gosto de todos eles de lá, todos eles. Como é que chama lá o...

P - Milton Neves?

R - Ah, aquele... Tem dia que fala bem, tem dia que começa atacar também. O que eu gosto também... Como é que chama lá? Mas ele também... Como é que chama lá? Mas ele também é são paulino, mas ele também começa... Outro dia ele deu uma bronca lá... O... Como é? Flavinho?

P - Flávio Prado?

R - É, ele deu bronca outro dia no juiz lá. Ele abriu a boca aquele dia, esse outro jogo ele... Eu escutei.

P - Palmeiras e São Paulo, o último jogo que a senhora fala?

R - É do juiz... Nossa senhora como é que ele tava desesperado.

P - E a senhora o que que achou do juiz?

R - Ah, juiz tudo... Não tem nenhum que preste aí. O Marcílio é corintiano. O Resende é o melhor aí.

P - E a expulsão do Palhinha? O que que a senhora achou no jogo contra o Palmeiras?

R - A expulsão dele foi certa, mas ele... Não sei o que ele pegou a bola, mas acho que o cartão que ele não devia ter dado, diz que não merecia o cartão, falei: merecia ter dado muitos cartões aí.

P - E o que que a senhora acha do Telê Santana, dona Elvira?

R - Acho muito exigente ele. Ele é bom treinador, mas quando cisma com alguma coisa, ele vê que o jogador às vezes não está bem não substitui jogador aí, custa... No fim do jogo ele tira.

P - Ele é muito teimoso?

R - Num sei, acho que a teimosia dele está aí ainda, não muito, mais tá ainda.

P - Qual que é o melhor jogador do São Paulo pra senhora hoje?

R - Pra mim é o Muller e o... Eu sinto de um que era tão bom, era o, como é que chama? O Pintado. Esse tá fazendo uma falta tremenda no São Paulo aí. O Raí também. Mais o Raí tinha que passar muitas vezes, formar mais... O Pintado eu acho que está fazendo mais falta aí. Agora dos pontas aí é o Muller, nem é ponta, ele não era ponta, como é que agora é ponta ele?

P - O Muller?

R - É.

P - É porque o São Paulo não tem ponta, né? Joga com dois só na frente, né? Joga com a camisa sete e...

R - É, agora é misturado pro meio. O Cafu era de... De coisa... Como é que é? Defesa aí, tá pro meio também. E tá fazendo falta aquele moreninho também que está... É emprestado, foi. Eu esqueci o nome dele.

P - O Victor?

R - É o Victor.

P - Ele foi emprestado pra Espanha. A senhora gostava dele?

R - Ele está fazendo falta. No começo aí que ele queria ir embora estava... Não estava muito bom, ele estava jogando... Prejudicando. Mas ele... No começo ele era bom. Que acho que ele queria ir embora e... Aí já começava...

P - E dos jogadores mais antigos, qual foi que a senhora achou que foi o melhor? Aquele que a senhora mais gostava? Que era o mais craque?

R - O bom mesmo era aquele... Como que chama ele... O gringo lá... Esqueci o  nome dele lá...

P - O Pedro Rocha.

R - É.

P - A senhora gostava dele.

R - Ah, ele era bom. Canhoteiro que morreu...

P - A senhora viu o Canhoteiro jogar.

R - Ô.

P - Que que a senhora achava?

R - Ah, ele era bom. Ele era danado.

P - É? Que que ele fazia no campo que a senhora gostava?

R - Driblava, fazia tudo ele.

P - Que que a torcida falava do Canhoteiro? Parece que ele gostava de se divertir bastante...

R - Gostava.

P - E a torcida implicava com o jogador que... Que não se cuidava muito, que gostava de dançar, de beber? Ou a torcida não se importava muito com isso?

R - A torcida acho que não “coisava”... Não é do tempo dele... Acho que... Não é que nem agora que... Mais alvoroçada a torcida. Quando vê que o jogador não tá bom, começa a gritar lá, xingar o Telê, xingar tudo.

P - E a senhora também xinga o jogador na arquibancada?

R - Ah, quando eles perdem a bola. (Risos) Dá errado lá, nossa senhora. Eu acho aquele jogadorzinho lá, o... Como que chama lá, o...

P - Juninho?

R - Como que chama?

P - Juninho?

R - Juninho é, ele... Meio tempo ele joga bem, mais o tempo inteiro ele não joga nem isso daí... O Telê falou isso aí, mais é verdade isso aí.

P - Por que que a senhora acha que acontece isso?

R - Sei lá. O Telê outro dia deu bronca lá, porque disse que a torcida falou que ele não punha. Ele falou assim que... Falou se a torcida vai assistir o treino. Ele deu bronca.

P - E a senhora vai assistir treino do São Paulo?

R - De primeiro eu ia, mas agora não, não vou mais. De primeiro eu ia sempre assistir de sábado.

P - A senhora conversava com os jogadores?

R - Conversava, todos eles vinha da... Todos eles, no fim, vinham conversar com a gente na beirada, na beira da grade lá.

P - E a sua família também tem amizade com os jogadores ou não? Sua neta, sua...

R - Ah, sim, isso sim, neto tudo, mas meu filho não, nem meu marido. Ele nem vai ao jogo. Ele gosta do jogo, mas ele disse que se ele vai lá bate no juiz. Diz que vai bater coisa nenhuma, ele fala.

P - E por que que a senhora acha que o brasileiro gosta tanto de futebol, dona Elvira?

R - Pra mim não tem outra coisa melhor mesmo, outra diversão melhor. Pra mim eu acho que se eu for assistir jogo, eu vivo um ano a mais.

P - A senhora pensa em voltar pro estádio?

R - Ah sim, outro dia foi até um vizinho lá, muito amigo, ele me levou ao Pacaembu, ele me levou.

P - Que jogo que era?

R - Era o Bragantino. Acho que Bragantino e São Paulo. Ele me levou.

P - Algum dia a senhora chorou no campo porque o São Paulo perdeu? Ou alguma coisa de... Com a derrota?

R - Não, eu só fico desanimada, mas nunca chorei não.

P - Nem em casa?

R - Nem. A gente fica chocada, mas chorar não. De alegria sim, ah de alegria você chora, faz tudo.

P - Qual foi o dia que a senhora ficou mais alegre por causa do São Paulo?

R - O dia que... A vitória do Corinthians com São Paulo e o Palmeiras. Aqueles dois que foi finalista os dois. Eu não sei o qual é que foi o finalista, se é o Palmeiras ou o... Acho que foi o Corinthians o finalista.

P - Que o São Paulo ganhou?

R - É, que saiu expulso lá o... O maioral, o... Esqueci o nome dele lá, o... Aquele que vai voltar no Corinthians outra vez, o...

P - O Neto?

R - É, Neto.

P - O que a senhora achava do Neto como jogador?

R - Não gosto dele, ele foi do São Paulo também, foi expulso no segundo jogo que o São Paulo tinha, ele já foi expulso. Não gosto dele não.

P - A senhora não gosta dele como pessoa ou como jogador, dona Elvira?

R - Acho que em tudo, viu? Não gosto dele.

P - Por quê?

R - Ele fala muito...

P - Ele fala demais e joga pouco?

R - É, outro que fala demais também, do Corinthians, é o goleiro. Não vou falar o nome senão capaz de passarem e me pegar. (Risos)

P - A senhora não acha ele bom goleiro?

R - Ele é bom, ele é bom.

P - E o Zetti?

R - Pra mim é o melhor. O São Paulo sempre teve goleiro bom, né?

P - De quem que a senhora gostava mais de goleiro do São Paulo?

R - Ah, todos eles eram bons. Eu gostava da... Disse que o Palmeiras comprou ele, o Gilmar, eu gostava do Gilmar também. O Palmeiras comprou ele, né.

P - O Gilmar que tá no Flamengo agora?

R - É.

P - Comprou?

R - Diz que comprou, não sei. Falou ontem que tá no jornal.

P - A senhora acha que ele é melhor que o Zetti ou não?

R - Pra mim o Zetti é o melhor.

P - E quando o Zetti dá um frango, o que que a senhora...

R - Ah, isso dá raiva, mas quando isso acontece, né?

P - A senhora xinga ou não?

R - Ah, às vezes a gente acha ruim. (Risos) O chama de frangueiro. Coitado do Zetti. Ele faz miséria, o cara lá, que a defesa tá meio... Não é a defesa, é o meio de campo que tá ruim aí.

P - Por que saiu o Pintado ou porque é mais...

R - Ah, porque saiu o Pintado aí. Saiu aquele outro que foi lá pro Guarani lá. Também era meio de campo, também era aquele...

P - O Adilson?

R - É.

P - É zagueiro central, joga um pouco mais atrás.

R - Mas é meio de campo, né?

P - Ajuda né, mas é mais na defesa.

R - Mas que fez falta o Pintado, fez. Até escutei uma conversa lá no ponto do ônibus que ia pra cidade, e escutei lá o corintiano, tava falando, que o Corinthians precisa comprar... Buscar o Pintado, pego o Palhinha e o Muller, aí eles ficam bom.

P - E a senhora ficou contente com isso?

R - (Risos) Ah, eu falei, eles vão pegar isso aí, pode se aprontar.

P - E a senhora tem algum contato com os dirigentes do São Paulo, diretores, ou não?

R - Sempre que, sempre vem conversar comigo é o Caboclo.

P - Carlos Caboclo?

R - É, Carlos Caboclo. Tem mais um outro lá, mas não sei o nome, não lembro mais.

P - Que que a senhora conversa com eles? A senhora sugere jogador, critica o São Paulo?

R - Ah, ele vem conversar com nós lá.

P - O que que a senhora fala pra ele.

R - Estava falando do jogo, se acha bom o jogo, não sei o que lá, se gostou.

P - E o Martilico? A senhora pede pra trazer de novo ou não?

R - Tá no Fla... é verdade que ele tá no Flamengo?

P - No Vasco.

R - Ah, no Vasco? Eles falaram que tá no Flamengo. O Flamengo não paga ninguém também. (Risos) Fazer o quê? Quem vai lá? Diz que o “coiso” vai lá, o... o Adriano diz que vai voltar no São Paulo outra vez (risos), ó lá Márcia.

P - Porque que a senhora está falando com a Márcia?

R - O Adriano vai voltar no São Paulo. (Risos)

P - O que que a Márcia tem com o Marcos Adriano?

R - Era namorado dela.

P - Era namorado dela? Quanto tempo que eles namoraram?

R - Um tempão. Acho que ele vinha só pegar as refeições. (Risos)

P - Na sua casa? E a senhora gostava do namoro da Márcia com o Marcos Adriano?

R - Era legal ele.

P - E outros jogadores frequentavam a sua casa? Tinha amizades com vocês ou não?

R - Nelsinho, ah, aquele crespinho, como que chama? O preto lá que foi embora, o...

P - O Erivelton ?

R - Não, é um que foi embora, irmão do Toninho que taí debaixo, como que chama ele?

P - Sidnei?

R - Sidnei. Ele vinha lá... Sidnei, tinha mais um outro que chamava, debaixo também, que chamava Cabrita, não sei o nome dele, e tinha mais outro que vinha lá, ah, o... O Proveta, o goleiro. Pra onde foi o Proveta será?

P - Num sei, Dona Elvira.

R - Aquele vinha sempre e a namorada dele também. Essa aí catou um monte de... Jogador. (Risos)

P - Era namoradinho da Márcia. E a senhora é a favor ou contra?

R - A favor, né? Fazer o quê? Tem que divertir um pouco também, enganar os jogadores também. (Risos)

P - A mulher também engana o namorado?

R - Num sei. (Risos) Estou falando aqui, não sei. (Risos)

P - Porque dizem muito que homem é que engana a mulher. Ou a mulher também engana o homem?

R - Mais parte os homens, mais parte os homens. (Risos)

P - Mas a mulher engana também ou não?

R - Acho que sim, que alguma vez também engana. (Risos)

P - Que que a senhora acha da fidelidade, assim? As pessoas que se gostam têm que ser fiéis ou elas podem ter outros namorados? Ou gostar de outras pessoas? Como é que a senhora vê essa questão.

R - Acho que tem que ser fiel, fiel, tem que ser.

P - Por que, dona Elvira?

R - Ah, porque... Hoje tá meio difícil isso hoje não?

P - De ser fiel?

R - É.

P - Por quê?

R - Ah, sei lá. O mundo está meio virado. (Risos)

P - E a senhora vai à missa hoje ou não?

R - Hoje não. Vou a alguma missa vá, no 18.

P – Dia 18 de cada mês?

R - É.

P - Por que, dona Elvira?

R - Porque é dia de Santo Antonio de Catejeró. É, tenho muita devoção a esse santo.

P - É. Por quê?

R - Sei lá.

P - Como surgiu? A senhora se lembra?

R - Desde que veio da Itália, apareceu essa Santa lá na Freguesia do Ó e eu... Sou devota a ele. Gosto... Sou devota também a Santo Expedito. Venho sempre aí, e assisto a missa tudo aí.

P - Na igreja aqui?

R - É.

P - Do Bom Retiro?

R - É.

P - Santo Expedito protege o quê? A senhora sabe?

R - É do, do, dos quartéis, né? É dos... Sei lá, dos escravos, acho que ele. Num sei, digo eu porque vê lá na oração parece que ele era dos escravos, não sei.

P - E a senhora faz promessa?

R - Faço. Faço pedido.

P - O que que a senhora pede mais pra Deus e pros Santos?

R - Ah, pedi alguma graça, né?

P - E tem recebido ou não, dona Elvira?

R - Ah, às vezes eu tenho sim, tenho.

P - O que que a senhora acha do Brasil hoje? Entendeu? Está melhorando, está piorando? As pessoas...

R - Ah, está piorando, ai Nossa Senhora. Está muito ruim a coisa, Nossa Senhora.

P - Está ruim em que sentido, dona Elvira, assim?

R - Ah, sei lá, de tudo isso que comandam aí, não estão comandado direito mais.

P - O que que a senhora acha que eles estão fazendo de mais errado?

R - Tudo errado eles tão fazendo aí. Está prejudicando todos nós, acho que é nós, porque o que eles estão fazendo, estão tirando de nós aqui.

P - E no seu bairro, como é que é o dia-a-dia? Como é que é o clima?

R - É tudo bom lá. Só sai sempre algum bandido que eles já matam lá.

P - Quem que mata, dona Elvira?

R - A polícia. Como é que chama lá aqueles “coiso”? Como é que é? A Rota, Rota. Num tem medo, ela manda fogo.

P - A senhora acha que bandido tem que morrer ou tem que ficar preso? O que que a senhora acha de bandido?

R - Eu acho que o que mata devia de matar também. Devia de pinchar “umas par” de bombas no quartel, no... Na cadeia, no quartel não, na cadeia lá, que nem outro dia fizeram lá, acharam, reclamaram muito, mas devia de pinchar mais, aí pinchar bomba, matar, matar tudo. Eles mataram também, pra que tratar aí de... Gastar tanto dinheiro pra tratar deles lá. Eu estou falando essas besteiras aqui, a polícia vai me prender, não?

P - Não, não prende não. A senhora acha, por exemplo, que a pessoa que comete um crime, ela não tem condição de se recuperar? A senhora acha que o ser humano ele pode se modificar?

R - Às vezes pode recuperar, mas se prende ele sai outro, sai... Está acostumado é na cadeia e aí não trabalha, come, bebe e sai outro.

P - Será que a pessoa ela nasce ruim assim ou ela se torna ruim depois, dona Elvira?

R - Eu sei lá. A que a coisa está... Agora que está se tornando tudo assim, alvoroçar aí. É o clima agora que tá muito...

P - E agora a pouco a senhora estava falando das pessoas que comandam, né? Que desviam, que tiram aquilo que é do povo. O que senhora acha que deve acontecer com essas pessoas?

R - Num sei. O que vai acontecer... Acontece nada, fica tudo por isso mesmo, só falam, falam, não acontece nada.

P - Mas eles são ladrões como os outros que estão na cadeia ou não?

R - Eles são muito mais. Bom... Na cadeia eles matam, né? Mas esses daí também não sei, o... Eles também chegar matar porque eu escutei que matou. (Risos) Ah, não sei não.

P - Dona Elvira, e hoje o que que a senhora mais gosta de fazer?

R - Hoje?

P - É.

R - O que eu gosto de fazer? Eu não gostaria de fazer nada, mais eu tenho que fazer meu almoço. Num gostaria de fazer nada, mas isso eu tenho que fazer.

P - Mas que que a senhora mais gosta de fazer?

R - Ih, meu Deus, eu acho que não gosto de nada, não gosto de nada, mas a gente faz tudo obrigado.

P - Por que que a senhora é obrigada a fazer, dona Elvira?

R - Ah, não tem ninguém que faça pra gente. Eu já falei que é onze horas e tem que fazer almoço, às cinco tem que fazer o jantar. (Risos) Tem que correr.

P - Algum dia a senhora falou assim pro marido: “Hoje não vou fazer almoço?”

R - Ah, Nossa Senhora, eu falo sempre que eu não vou fazer... Eu falei pra ele, eu vou lá, vamos lanchar, vai lanchar você... Eu quero comida... Eu falo pra ver o que ele fala.

P - Ele não gosta de comer lanche?

R - Não, e lanche o quê? Lanche ele come de manhã cedo quando levanta.

P - Mas no almoço tem que ser comida?

R - Ah, comida.

P - Que comida que a senhora gosta de fazer? Que a senhora é especialista, assim, que é seu prato?

R - Num tive muita coisa não de cozinhar, sou meio grosseira de cozinha: feijão, arroz, bife, batata, frango assado, passado na...

P - E de vez em quando a senhora come fora, assim, no restaurante ou não?

R - Não, não gosto de ir fora. A minha filha convida sempre, não gosto de ir fora.

P - Por que dona Elvira?

R - Sei lá. Num sei, ih, ela quer levar sempre eu e...

P - E onde a senhora mora hoje? Fala um pouco da casa que a senhora mora hoje. A senhora mora com a nora?

R - Moro com a nora. Moro na casa com ela, mas ela tem a casa dela e eu tenho a minha separada, né? Uma casinha pequena. Um quarto e cozinha só. Muito amontoado aí, nossa senhora.

P - Tem problema de relacionamento de ser muito amontoado ou não?

R - Num tem porque, nós somos só eu e... A menina e ele só. E uma vez deu... Quebrou um, cortar lá da casa, quebrou um cano mestre da água da rua, Virgem Maria do céu, vi que a nossa casa ia embora, aquilo entrou para o esgoto lá, achou o caminho do esgoto, levava tudo pra baixo, e a casa agora ficou tudo meio trincada, mas não tem jeito, está tudo meio trincado pra lá e pra cá, mais não tem jeito, tá lá.

P - O que que a senhora pretende fazer na vida ainda, dona Elvira.

R - Ah, não sei fazer mais nada, já estou velha, fazer o que mais, esperar só...

P - Num tem nenhum sonho assim pra realizar, alguma coisa.

R - Gostava... O meu sonho era ir morar pro interior.

P - Voltar para o interior?

R - Voltar pra uma chacrinha lá que o... O meu irmão tem lá, mas mora um inquilino, ele não quer sair, não paga e ele gasta tudo, luz... Meu irmão paga tudo e ele não quer sair de lá. Aí eu ia morar lá.

P - Que cidade que é?

R - Itatiba mesmo. Uma vila lá, mais está cheio de casa essa vila.

P - A senhora então, de certa forma, quer voltar pra sua infância?

R - É, ficar nessa chacrinha lá. É isso que eu sonhava. Tenho toda minha família aí, sobrinho, irmão, tudo por alí, e eu gostava de... Pegar aí o... Esse era o meu sonho... Mas não dá.

P - A senhora acha que não vai conseguir?

R - Não. Ele não quer sair e... Aí ele começa falar que ele não tem outro lugar pra ir, não sei o que, sou pobre, ele fala. Eu falo: se você não ajuda meu irmão. Se devia... Aí eu não pago, não posso, eu não tenho serviço mais.

P - A senhora tem medo de morrer, dona Elvira?

R - Não tenho medo de morrer não. Já estou esperando a morte... Um dia ela chega.

P - Mas chega pra gente que é mais jovem também?

R - (Risos) É duro, mais a gente tem que esperar ela, né. Aquele dia que a moça veio lá, não sei como ela chama, a moça que veio lá.

P - Marcia.

R - Nossa senhora, aquele dia fui subir no morro correndo lá, parece que ia morrer. Até o ar. Eu falei: é hoje. Eu tinha que levar almoço pra ela lá, subi o morro...

P - O que senhora acha da mulher, por exemplo, que tem que ficar a vida inteira na cozinha, cozinhando? A senhora acha que isso está mudando?

R - Ela devia ter umas férias também, não? Mais que jeito?

P - A senhora nunca teve férias, dona Elvira?

R - (Risos) Que férias o quê. Se eu vou sair em algum lugar algum dia fica tudo atrapalhado quando chega aí, ninguém mexe com nada.

P - Ninguém arruma nada na casa?

R - Eu... Quando eu saio eu deixo a comida para uns dois, três dias, que... Vai embora tudo, em dois dias vai embora tudo... Aí pronto.

P - O que a senhora acha dos dias de hoje, onde o marido tem que fazer comida também, tem que lavar os pratos? A senhora acha que está certo ou errado?

R - Eu acho que devia... Devia ter de ajudar um pouco também. Às vezes eu reclamo, ele vem lá enxugar a louça, quando eu lavo, mas de resto ele...

P - Dona Elvira, pra gente ir terminando, a senhora teria alguma coisa pra dizer para os mais jovens, alguma coisa que a senhora gostaria de dizer?

R – Hoje? De pensar tudo direitinho, não? Eles vão ver como é que é o dia de amanhã. Tem de pensar hoje pro dia de amanhã. Eles... sei lá.

P - Como a senhora acha que vai ser o futuro dos seus netos?

R - Como é vai ser?

P - É, vai ser um... Vai ter uma vida melhor ou não? Como a senhora imagina que vai ser o futuro deles?

R - Eu acho que hoje não tem muito vida melhor não, é tudo lutado mesmo aí.

P - A senhora não tem esperança no futuro do Brasil?

R - Ai não sei, do jeito que está não... Do jeito que está. E outra coisa que não vai pra frente esse negócio do aumento da gasolina, esse que acaba com tudo, esse... Devia de parar aí. Os ladrões já roubaram deixa ver que é mais, devia de parar a gasolina de aumentar né?

P - A senhora acha que o ser humano vai pra onde quando morre, dona Elvira?

R - Eu sei que vai pra baixo da terra, agora o resto não sei. Se vai algum ainda. Que fica pra fora ainda.

P - A senhora não acredita em vida no outro mundo?

R - Não, a vida da gente é aqui mesmo, é tudo piada esse negócio aí.

P - E inferno?

R - Aqui é tudo junto, não tem inferno não, tudo igual. O inferno é aqui. Eu acho que é aqui.

P - E o céu onde que é?

R - E o céu também... Não sei. O céu eu não sei dizer. O céu está lá, mas não sei como é que vai ser o céu. O inferno é aqui. O que a gente faz, paga aqui.

P - A senhora acha que foi importante, dona Elvira, a senhora ter feito esse depoimento aqui para o Museu da Pessoa, pra história do São Paulo, sobre sua vida, sobre sua história de vida?

R - Eu acho que foi muito... Nunca fiz isso... Foi muito importante.

P - Por que que a senhora acha que foi importante?

R - Porque é... Mas é... Caipira do interior, parece no lugar desse... Não... A gente não sabe falar, nem nada.

P - A senhora acha que pessoas humildes também têm importância, ou só os ricos?

R - Também, mas o rico é mais, o pobre um pouco mais pra trás.

P - E isso está certo ou está errado?

R - Aí não sei se está certo, viu? Acho que deve estar certo, né?

P - Por quê?

R - Fazer o quê? O pobre já é pobre, tem que ficar no lugar dele, o rico tem que subir.

P - Não tem vontade de mudar isso?

R - Que já estou velha, não dá pra mudar mais não, não quero mudar mais, viver o que está já está bom.

P - Está certo dona Elvira. Obrigado à senhora, está bom? 

R - Desculpe das besteiras que a gente falou aí.

P - Não falou besteira não. Foi muito boa a entrevista. Foi super legal.

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