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História

Torcedor n°1

História de: Claudio Ribeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/08/2003

Sinopse

Claúdio Ribeiro, o torcedor número 1 da Seleção Brasileira, fala sobre seu trabalho como vendedor de cartão telefônico no centro de São Paulo, capital, e como começou a acompanhar diversas Copas do Mundo de perto, viajando o mundo todo. Ele destaca sua adoração pela clientela e transeuntes da região e algumas situações inusitadas que vivenciou onde trabalha.

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História completa

P/1: Vou fazer aqui primeiro sua identificação. O senhor, por favor, diga o seu nome completo, data e local de nascimento.

R: Meu nome é Cláudio Ribeiro. Nasci em 28 de dezembro de 1945.

P/1: E você nasceu aqui em São Paulo mesmo?

R: Em São Paulo.

P/1: E há quanto tempo você mora no centro.

R: Desde que me conheço por Ribeiro, acho que eu tenho 25 anos só aqui no centro. Morei no Brás. Do Brás pra cá. Nunca morei em vila.

P/1: Em que rua o senhor já morou aqui?

R: Aqui eu já morei na Av. Ipiranga, moro na Cásper Líbero, já morei na Av. São João, já morei aqui no Paissandú.

P/1: Qual o melhor lugar de se morar aqui no centro, que você acha?

R: Que eu acho, é no lugar que eu estou agora. Eu moro na Cásper Líbero.

P/1: Porque aí é o melhor?

R: Porque tem segurança, é limpinho, o prédio é prédio de família, não é qualquer um que entra lá. Então, eu estou num prédio bom.

P/1: E, desde quando você acompanha futebol?

R: Eu acompanho futebol desde a idade de oito anos. Meu pai entregava arroz aqui em São Paulo, e então eu fiquei por aqui. E daí eu comecei. Eu me lembro que ele me levou no jogo Corínthians e São Paulo no Parque São Jorge, há muitos anos e o Corínthians perdeu do São Paulo de 1 a 0. Acabei gostando do Corínthians, e estou até hoje.

P/1: Qual é sua profissão?

R: Ah. minha profissão? Veja bem, eu vou falar bem de claro, porque tem gente... Eu sou conhecido, já fui no Jô Soares e eu sei. Tem gente que tem vergonha de falar que é camelô. Eu sou camelô. Sou ambulante.

P/1: E você vende cartão telefônico?

R: Cartão telefônico, vende boné, camisa. Tem gente, que se você for entrevistar ele, ele anda bem arrumadinho, então ele fala que ele trabalha em banco, num sei o que. Eu não. Eu sou camelô. Não tenho vergonha de falar não. Oh.

P/1: Ribeiro, como é que você teve essa idéia de começar a ser o torcedor número 1 da seleção brasileira?

R: Olha, essa idéia ela começou quando eu trabalhava na rua José Bonifácio. O dono da Loja da China que pagou pra mim, nessa primeira copa do mundo, que foi na Argentina. E aí eu comecei. E agora, como eu sou um cara diferente, todas Copas do mundo eu apareço. Pelo meu cabelo, da cara de pau que eu sou, não tenho dente. É assim. Então eu apareço muito em copa do mundo.

P/1: Como é que você consegue esse patrocínio?

R: Olha. Os patrocínios agora são mais fáceis porque tem Internet e eu já estou mandando meu hobby lá pela.... Então, eu faço contato com um, contato com outro. Cada um dá um pouquinho, eu arrecado e vou embora.

P/1: Como pela Internet? Você tem um site?

R: Eu não tenho site, mas tem um amigo que tem. Site, sei lá. Ele tem o computador. Então ele faz isso pra mim. E eu na copa do mundo eu levo ele. Inclusive eu recebi um dos Estados Unidos.

P/1: Voltando, você podia contar alguns casos de futebol, de gente do futebol aqui do centro da cidade que você já viu ou presenciou?

R: Olha, eu ví nascer no futebol o Viola, o Marcos Roberto, o Paulo Sérgio... Todo dia, quem passa aqui é o ... Aquele que era goleiro do Coríntians, o... Oh minha Nossa Senhora, o..... Tobias. Ele passa direto aqui. O Solite também passa. Passa vários jogadores aí que tira foto comigo aí. Vem bater papo? Só que, de vocês eu não vou cobrar, mas todo mundo aí quer tirar foto de mim, e então eu estou cobrando. Porque está havendo muita sacanagem sobre a minha...Sei lá...Sobre o Ribeiro. Então, eu cobro. Fizera, uma matéria minha numa revista aí. Eu pus ela no pau. Porque ela não pediu licença pra mim. Ela fez uma matéria sobre os desdentados. Aí, pôs eu na capa. E o Viola estava do lado. O Viola até saiu correndo. Então é por isso.

P/1: E as comemorações de jogos e outras coisas de futebol aqui no centro?

R: Olha, quando o Corinthians ganha, eu solto caramurú, mas no momento eu não estou soltando mais porque...

P/1: O que?

R: Caramurú, fogos. Mas no momento eu não estou soltando porque está havendo muita briga entre torcidas...

P/1: Quando você soltava, onde é que você soltava?

R: Aqui mesmo.

P/1: No meio da rua?

R: No meio da rua. Saia pulando, bandeira. Diziam: “esse cara é louco.”

P/1: E você assiste esses jogos pela Coríntians, de decisão, onde?

R: Aqui em bar, aqui... Não. Eu vou lá.

P/1: Aí depois, quando você volta...

R: Quando eu volto aí começa a confusão mais... Muita loja, quando vê que eu estou chegando já fecha logo, porque começa a juntar muita gente, então eles...

P/1: Você vende cartões de telefone? Certo? Você vende cartões de telefone que tem imagem do centro? Você lembra de algum deles?

R: Tem alguns que tem imagem do centro como do Teatro Municipal, da Av. Paulista. É o que tem aqui.

P/1: E você acha...Quais são os lugares mais bacanas do centro pra quem não conhece?

R: Olha, eu acho que o povo tem que ir mais pra aqueles lados dos jardins, do Ibirapuera. Alí é bonito.

P/1: E aqui no centro?

R: Aqui o centro ele foi bonito. Hoje não é mais. Quantos artistas eu vi aqui. Eu já cheguei a conversar com o Roberto Carlos, com o Erasmo Carlos, com o Wanderley Cardoso, com aquele que morreu, o Paulo Sérgio... Todos vinha tomar sopa no antigo bar do Zé. Hoje não tem mais nada. Hoje, as dez horas da noite fecha tudo. Só fica aberto um aqui do lado. Acabou aqui. Os artistas estão todos do lado dos jardins. Isso aqui morreu. A única coisa que está sobrevivendo ainda é esse banco aí.

P/1: O Citybank?

R: E a Brahma que montou agora.

P/1: Você tem alguma história passada aqui no Brahma que você se lembra?

R: O Brahma, eu fui convidado pra uma festa de inauguração aí. Não deixaram eu entrar porque eu estava de bermuda. Que aí só entra bacana.

P/1: Agora é assim?

R: Ih. Pobre não entra aí não.

P/1: Qual foi uma grande alegria que você teve aqui no centro?

R: A grande alegria foi o dia que eu salvei uma mulher que caiu aqui, e ela estava de barriga. No mesmo dia ela teve nenê. Como eu socorri ela, ela pôs o nome no filho dela, o meu nome: Cláudio Ribeiro. Até hoje. De vez em quando ela vem aqui.

P/1: Mas o que foi? Ela caiu?

R: Ela caiu ali, ali, naquele negócio ali.

P/1: Ela tropeçou e caiu?

R: Tropeçou e caiu. Começou a passar mal e...aí nós chamamos a viatura e...De noite ela teve o nenê. E em minha homenagem, o filho ia tirar foto de mim. E ela era ... Brasileira. E aí, como ela soube e conseguiu saber seu nome, ou contaram no hospital? Não, ela passava direto. Ela trabalhava na loja Babuch. Ela vinha comprar cartão aqui direto. E aí foi quando ela...

P/1: A aí o filho dela chama Cláudio Ribeiro?

R: Cláudio Ribeiro.

P/1: E o menino só tem o sobrenome Ribeiro?

R: Quem? O menino? O menino tem o nome dele completo. É Cláudio Ribeiro.

P/1:Ela já era Ribeiro?

R: Ë. Por incrível que pareça, ela já era Ribeiro. Eh.

P/1: Que bacana. Você é amigo do menino? Você já conheceu ele?

R: Já. Carrego ele no colo. Tem uns três anos. Conheço a mãe. Ela passava direto aqui. Conta aqui, como é que é essa venda de cartão.

P/1: Quanto custa, quem compra?

R: Olha, comprar todo mundo compra. Eu gosto de trabalhar com o povão. Não adianta você chagar e...: Eu só compro cartão de 30 que é poder vender mais barato. Se você comprar cartão de 50, 60, o povão não vai quer pagar oito pau. Então eu vendo o cartão de 30 a 2,70.

P/1: Beleza. Já vou comprar o meu aqui.

R: É um dinheiro a mais que entra no meu bolso. É bom.

P/1: Ribeiro, eu agradecer a tua gravação. Ribeiro chegou aqui em 28 de fevereiro de 72. Ribeiro, você podia dizer como é que você toma conta deste orelhão aqui? Como é que foi a essa idéia?

R: A idéia foi que eu comecei a vender cartão e o pessoal, como gosta de mim, começou a comprar cartão para telefonar. Aí eu falei: “Tem coisa errada. Vamos fazer o seguinte, se eles querem telefonar, então a minha obrigação é ceder um banquinho pra eles, porque lá na telefônica tem banco. Então eu vou fazer o seguinte: eu vou por banco, um guarda chuva, placa indicando tudo sobre o orelhão.

P/1: E você que comprou o banco?

R: Tudo. Foi eu que comprei, Não pedi dinheiro pra ninguém não. Saiu do meu bolso. Só aquele guarda chuva, é 300 reais O banquinho é 40 reais. 40 eu paguei os três. Mas eu fico contente. O problema que esse orelhão sempre vive cheio. Tá ai.. Cuido dele.

P/1: Você diz que cuida dele inteiro e cuida da área?

R: Eu tenho minha vassoura. Eu cuido desse pedaço aqui. Eu acho que todo mundo tinha que fazer isso. Pra deixar São Paulo mais bonito. Há 25 anos atrás, São Paulo era bonito. Era limpo. Hoje está uma sujeira.

P/1: Como é que é? As pessoas achavam que você trabalhava na Prefeitura? Como é que é esse negócio?

R: Quando eu começo a varrer eles falam: Nossa esse negão parece que está na Prefeitura agora. Toda vez que eu passo aqui, ele está varrendo.” Então eu falo: “Não. É que eu gosto mesmo de varrer o meu pedaço. Eu sou camelô, então eu tenho que manter o meu pedaço limpo. Muitos não fazem acho que de vergonha. Eu não tenho vergonha, eu limpo mesmo.

P/1: Então tá Ribeiro...

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