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Toninho Trevenzolli e sua participação no "Rage e seu Conjunto"

História de: Toninho Trevenzolli
Autor: Centro de Memória de Cosmópolis
Publicado em: 22/01/2016

Sinopse

No início dos anos sessenta fi z parte de um grupo de músicos que acabou entrando para a história cultural da cidade de Cosmópolis. Era “Rage e seu conjunto”. Na época em que ingressei, a banda já era um sucesso na região e choviam convites para apresentações em bailes das cidades mais próximas e foi nesse sucesso que embarquei com muita alegria. Fazia aquilo que gostava de fazer: cantar. O grupo já tinha um “crooner”, como se chamavam os vocalistas na época, mas tinham necessidade de outro que pudesse cantar em idiomas estrangeiros. A moda da época eram os “rock-baladas”, os “standards” da música americana, as canções francesas, italianas e os boleros em espanhol. Eu tinha, como tenho até hoje, certa facilidade com essa coisa de falar idiomas. Recomendado pela irmã do Rage, a Senhora Jacintha Baracat, mais conhecida como “Raia” e que morava na casa vizinha à minha, tendo que me ouvir cantar o tempo todo, fui fazer um teste. E, aprovado, entrei para o grupo. Hoje, ficaram apenas as lembranças na memória de cada um, algumas fotografias e raramente um encontro com os antigos companheiros de “noitadas dançantes”, como o apresentador do grupo chamava o evento no início dos bailes. Quando chega a hora de contar essa história, porém, eu particularmente, sinto falta da inclusão de um dos músicos que deram início ao projeto. Todos se lembram de citar o Rage Baracat, o Rubens Bichara, o Ítalo Fernandes, o Alcides Carão, mas frequentemente se esquecem de uma pessoa que fez parte do grupo inicial: o saxofonista Antônio Trevenzolli. Talvez por ele ter deixado o grupo poucos anos depois do começo do conjunto, antes da gravação do primeiro disco, sua figura não se fixou na memória coletiva. Foi essa a razão de eu ter escolhido esse moço para minha participação no “Baú de Memórias – oficina de História Oral”, o projeto da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Cosmópolis e do “Centro Cultural de Preservação da Memória Histórica de Cosmópolis” que, para minha felicidade, leva o nome de meu pai Alcides e que tem como intuito registrar com os recursos de que dispomos hoje, o acervo iconográfico das famílias cosmopolenses que se dispuserem a isso. Depois de acertado com a oficineira Carina Bentlin, que deu as instruções, comecei a fazer contato com o Toninho. Primeiramente falei com sua esposa Dona Soeli e expliquei minhas razões e minha intenção. Não tinha certeza de que ele gostaria de falar sobre o assunto e precisei do auxílio dela. Ela prometeu-me que explicaria todo o projeto a ele e que entraria em contato comigo logo que pudesse. Minha ansiedade, entretanto, não conseguiu impedir-me de telefonar de novo e procurar saber o resultado. Foi positivo. Ele concordou em falar comigo e, assim, marcamos um dia para essa conversa. Foi em sua casa que ele nos recebeu. Carina apareceu munida de todos os equipamentos e apetrechos de que dispunha: câmera de vídeo, gravador, câmera fotográfica, enfim, a parafernália toda e eu, claro, indo atrás. Era uma tarde e ele, gentilmente, abriu os portões de sua garagem para que não tivéssemos nem o trabalho de encontrar uma vaga na Rua Expedicionários, que tem um trânsito bem intenso e onde as vagas são exíguas. A conversa transcorreu de uma maneira leve e foi tudo muito agradável. Toninho se dispôs a mostrar orgulhosamente o saxofone que usou nas apresentações, as partituras de música e até o método pelo qual aprendeu música, o famosíssimo “Bona”1 (não tenho certeza, mas acredito que esse seja o único método de solfejo existente). Nunca vi ninguém aprender música sem passar pelo “Bona”. Entre as raridades que ele possui, estão várias fotografias do conjunto e até o cartaz de propaganda do baile em que fizeram a estreia do conjunto. O Cosmopolitano Futebol Clube deu adequadamente o nome de “Prata da Casa” a esse evento. Terminamos nossa conversa com refrescos oferecidos pela Dona Soeli e ficou me a impressão de que tudo havia sido ensaiado minuciosamente. Não houve falha, não houve esquecimentos, não houve nenhum assunto que ele não tenha querido abordar. Enfim, na minha cabeça, tenho aquela sensação de que o trabalho feito foi concluído com sucesso. Agora quanto às anotações, as gravações e todo o material que ficou desse trabalho, são públicas. Esperamos que isso tudo tenha trazido às pessoas que participaram o mesmo prazer que deu a mim, e que tenhamos conseguido passar aos que vierem a conhecer o resultado, esse sentimento de satisfação. E que o registro dessa nossa experiência fique à disposição de quem quiser ver e ouvir a história contada por quem dela participou.

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História completa

A minha família mora em Cosmópolis desde 1946. Meu pai se instalou com a família na Rua Campinas, 350, na esquina em frente de onde tinha perto um posto de gasolina. Nós crescemos e meu pai formou o comércio dele e todos os filhos trabalhavam juntos. O meu interesse por música surgiu quando comecei a frequentar o Cosmopolitano Futebol Clube (CFC). Eu frequento o Clube desde os 12 anos e fiquei sócio aos 13 anos. Gostava de ver as orquestras, os conjuntos e comecei a comprar discos. Com 14 anos comprei o primeiro LP! Gostava de ouvir os conjuntos tocarem e então surgiu o interesse, um gosto bom pela música. Eu realmente me encantei pelo saxofone. Naquela época brincava, tocava no meu quarto de solteiro e o vizinho do meu lado era o Benjamin Simões de Almeida e a Jacira (filha do Sr. Benjamin), que era professora de acordeão. Então eu fazia barulho aqui com o meu sax e ela fazia barulho de lá com o acordeão. Por volta dos 15 anos já frequentava Campinas. Passava em frente à Loja Santa Cecília, conhecida por muitos naquela época, hoje nem sei se existe mais, e comprei um disco, ouvia as músicas e comecei a me interessar cada vez mais. Aí apareceu um colega que tinha um saxofone Mi Bemol Menor e eu comprei o saxofone. Eu ia para Campinas com um professor que era músico de uma orquestra, se não me engano a Orquestra Colúmbia, que vinha tocar em Cosmópolis. Era um senhor negro, mas ele já tinha idade e então ele estava parando de tocar. Eu ia à casa dele, perto da Avenida Aquidaban com a rua General Câmara. A viagem era feita de ônibus ou trem. O ônibus era um pouquinho mais rápido. Como a estrada era de terra e fazia muita poeira, usávamos um guarda-pó amarelo com mangas compridas para proteger a roupa. Comecei a aprender a tocar com o método “Bona”1. Depois comecei a tocar o saxofone e de vez em quando fazia uns ensaios. Minha família apoiava, não tinha nada contra. Eu trabalhava no armazém de meu pai e tinha uma folga para isso, geralmente durante a noite. Quando meu pai mudou o comércio dali da esquina, sobrou um salão vazio. O Beni (Beni Benito Nallin) tocava “piston” na casa dele, ali na alfaiataria, meia quadra para cima de casa, e um dia nós resolvemos tocar juntos e falamos “vamos lá soprar juntos, fazer barulho, pra nós mesmos”. Começamos a tocar os dois juntos, mas só para ensaio, para ver o que dava. O tempo foi passando e comecei a estudar em Campinas com um professor que era músico de uma das orquestras que vinha fazer baile em Cosmópolis, o Seu Américo. Eu ia uma vez por semana a Campinas só para aprender. Só que ele falou “eu não vou ensinar saxofone. Você tem que aprender clarinete”. Tive que comprar um clarinete para aprender. Tocava o clarinente com ele em Campinas e o saxofone em casa. A ideia foi vingando até que um dia o Rage Baracat conversando com uns amigos pelos bares teve a ideia de juntar o grupo. Nessa época eu trabalhava no armazém como encarregado. Jogava basquete no Cosmopolitano e arrumava um tempinho para a música também. E no fim resolvemos formar o conjunto! Na primeira formação do conjunto eram quatro componentes, o Rage Baracat, Luiz Gallani, Beni Benito Nallin e eu, Antônio Trevenzolli, os quatro que demos o arranque, mas, faltava cantor e ritmista. Para fazer isso tinha o Rubens Bichara, Ismael, Alcides Carão e o Ítalo Fernandes. Aí o grupo ficou com sete. A ideia foi crescendo, o Rage comprou uma bateria, eu já tinha o sax, mas meu sax era pequeno. Precisei ir a São Paulo comprar um novo que é este que está aqui ainda. Para estrear o conjunto precisei comprar esse sax novo para fazer os duetos certinhos, sabe? E assim começamos ensaiar. Não tínhamos lugar para ensaiar, ensaiava na casa do Rage ou no depósito de pinga, conforme era possível. O Rage já tinha quatro ou cinco filhos, ficavam todos juntos, em volta, era até bonito de ver. A coisa foi crescendo e no começo de 1961 preparamos uma estréia do conjunto. Até então a gente só fazia brincadeiras. Mas aí o negócio ficou oficial, fizemos o uniforme e marcamos o baile de estréia, e o Carnaval veio logo em seguida. Tivemos dois conjuntos de roupas. O primeiro, para ficar barato, era uma camisa de bolinha, bordô e uma calça branca. Então todo mundo gastava pouco e conseguia fazer. O segundo já era um paletó com gola de outra cor,já era mais a rigor, mas nesta ocasião já estávamos ganhando algum dinheiro. O Rage era o empresário, eu era o contador, o Beni e o Galani eram os arranjadores. Cada um tinha uma função. Eu fazia a contabilidade, pagava as contas e o que sobrava dividia um pouquinho para cada um. Nós pagávamos os contratados que seria o violão, o cantor e o restante a gente rachava. O grupo ganhou o nome de “Rage e seu conjunto” por ter sido o Rage o idealizador e também porque ele era uma beleza de pessoa. Ele era o baterista, tinha a caminhonete para transportar os instrumentos e girava tudo em torno dele. Acho que ninguém impôs nada que não fosse bom. Não foi uma decisão autoritária, foi de muita boa vontade de todos. Era tudo muito gostoso. Até, depois de algum tempo, eu já tinha montado uma vitrola em casa com o dinheiro da música. Comprei uma picape (toca disco), mandei fazer um móvel e foi com dinheiro da música daquela época. Era muito bom! Eu fazia o repertório dos bailes, fazia a lista certinha, passava para o Beni e o Galani (os responsáveis pela música), e eu tocava junto. A estreia do conjunto foi no Cosmopolitano Futebol Clube, tenho o folheto de propaganda. O conjunto continuou firme. Eu trabalhava bastante e tinha poucas horas para ensaiar. Toda vez que ensaiávamos até tarde chegávamos à meia-noite. Nessa época eu era solteiro e não tinha problema nenhum. Quando casei a coisa complicou! A Soeli tinha dezoito anos e quando ia ensaiar eu a levava para a casa da mãe dela e tirava ela à meia-noite da casa da mãe. Depois fazia um baile que terminava quatro horas da manhã e sobrava uma hora e pouco para dormir. Dormia e às oito horas da manhã tinha que trabalhar. Então, não tinha como continuar. Eu trabalhava o dia inteiro no armazém, era o responsável pelas contas do armazém, da tecelagem, da telefônica (empresa do meu pai), não podia deixar de fazer o serviço. Então o meu principal trabalho era o armazém. A música era secundária e, quando eu casei, a música ficou em terceiro lugar. Não tinha como continuar e minha mãe ficou muito triste: “Ah, mas agora que o pessoal se juntou...”. Eu falava “Ah, mãe! Não dá, não tem outro jeito”. Na época eu tinha 21 anos. A responsabilidade estava em minhas mãos. O meu pai tinha três estabelecimentos comerciais em Cosmópolis. A Telefônica, administrada pelo meu cunhado Hermínio de Campos, a tecelagem administrada por outro cunhado, o José Giuzio (Zico), a engomadeira gerida pelo meu cunhado Álvaro Decreci e o armazém que eram os três filhos: eu, o Alcides e o Valdemar (Tito). Somos sete irmãos. Seis colocados e sobrava o José Carlos, o mais novo que nasceu aqui em Cosmópolis, pois nós somos todos de Paulínia. Então meu pai montou um comércio que era a Construtex que ficou para o José Carlos. Cada um tinha a sua função. No armazém eu era o encarregado e cuidava das contas e contabilidade interna, o Alcides era do transporte, o Tito (Valdemar), era da mercadoria e das entregas. O trabalho era de segunda a sábado, eu não podia tirar um dia para dormir depois de um baile. Tocava na Sexta, Sábado e Domingo. Senti muito quando deixei o grupo em julho de 1962. Nós estreamos no começo de 61. Quando saí eles contrataram um saxofonista de Piracicaba, o Pompêo, depois ele saiu e entrou o Gomes que trouxe também o guitarrista Café, de Campinas. Foi nessa época que eles gravaram um disco, em 1962, chamado “Nós e o Mar”, com 45 rotações. Até hoje ele existe. Foi reproduzido em fita, depois em CD. Eu participava de muitos bailes. Quando tocava no Cosmopolitano, a Soeli ia e ficava sentada ali na frente. Eu tinha que parar e ir dançar em algum momento, né? A gente sempre gostou de dançar! A dificuldade de fazer baile naquela época é que só havia um microfone. Quando o cantor cantava, os outros ficavam na garganta. E olha que fazer Carnaval na garganta não era fácil. Eu fiz dois carnavais aqui no Cosmopolitano. Mas tinha reforço, a gente contratou o José Bordim, de Cosmópolis, e o Euzébio Tagliari de Artur Nogueira, mas era tudo no sopro mesmo. Não era como hoje que cada um tem seu microfone. O do saxofone fica penduradinho na boca. Eram tempos difíceis, era o que tínhamos. Então era daquele modo mesmo! Toquei em dois carnavais, o de 1961 e 1962, o conjunto tocou em outros. O baile de Carnaval era animado igual a um baile comum. Tinha que tocar das dez até as quatro da manhã e o pistonista ficava com os lábios vermelhos, o saxofonista morde o lábio por dentro porque tem que segurar a boquilha, o cantor fica rouco... Depois de quatro dias, imagine! Além de duas matinês, rapaz, é difícil! Mas era muito gostoso porque era animado. O pessoal era animado, brincava e dançava bastante, mas era difícil tocar no Carnaval na-quele tempo. Sofria mesmo, mas dividíamos um pouco. Parava um pouquinho, o outro tocava enquanto o pistonista passava gelo na boca. O Carnaval era bom no Cosmopolitano. Enfraqueceu depois de 64, 65, que começou a crescer o Carnaval da Usina. O Rage era um amigão e lembro ainda que o conjunto comprou uma marimba2 e era o Rubens (Bichara Jemael) que tocava. Tinham aquelas varetinhas com a bolinha na ponta, ele era um grande baterista, mas a bateria era do Rage. O lugar dele (Rubens) era o violoncelo ou ritmo, depois ele ficou na marimba. Quando o conjunto acabou por conta do falecimento do Rage em um acidente, o Rubens ficou como saxofonista. No violão a gente contratava um rapaz do Saltinho, o Osvaldo e depois o Leone lá de Limeira. E quando você (Walter Frungilo) cantou, eu também gostava muito. Era diferente do Carão. O Carão era um cantor romântico muito bom, já você cantava umas músicas estrangeiras. Lembro de uma passagem, uma vez nós fomos tocar em Campinas e eu ia com o carro do meu pai. Ele tinha um Chevrolet 51 e o Rage uma caminhonete 54. Então, quando acabava o baile a gente tinha que encaixotar tudo, amarrar bem. Vínhamos por Paulínia e aí caiu a roda da caminhonete, ali na fazenda Santa Genebra, antes de chegar em Paulínia. A gente indo de carro e caminhonete fazendo um risco de fogo com a roda. Já pensou isso às cinco horas da manhã? Era um sofrimento, mas era gostoso. Era divertido porque o grupo se dava muito bem. Não tinha nenhuma rusga um com o outro. Era amizade mesmo. Assim nós fomos tocando e hoje eu estou aqui, relembrando meus 50 anos junto com a minha mulher, a Soeli. Nós temos os três filhos, o Antônio Júnior, Fábio e Renato, todos casados, já não temos nenhum em casa faz mais de dez anos. Aí a gente se cuida. Depois que parei de tocar o instrumento dentro da banda, deixei de tocar definitivamente. Uma vez ou outra eu abria, dava uma sopradinha, mas não era a mesma coisa. Perdi aquele interesse, aquele entusiasmo. Eu o acho muito bonito. O som, o estilo... É uma beleza o saxofone. Deixei todas as partituras com o conjunto (Ouve-se o som de um relógio carrilhão pendurado na parede da sala, marcando ¾ de hora). Agora a gente está ouvindo um relógio que veio do tempo do meu pai!

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