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História

Toninho Crespo

História de: Antonio Rodrigues Filho (Toninho Crespo)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/10/2012

Sinopse

Nesta entrevista, realizada no dia 23 de junho de 2007, Antonio Rodrigues Filho - ou Toninho Crespo, como é conhecido - relata a sua infância no bairro da Penha, na capital paulista, numa época em que a rua era um lugar um pouco mais seguro, e as pessoas do bairro confiavam umas nas outras. Quando jovem, lembra do “caldo cultural” em que a juventude estava mergulhada que o fez descobrir Jimi Hendrix – o ídolo que o aproximou do violão. Os poucos acordes que arranhava no começo já eram suficientes para impressionar as garotas. Mas ele preferiu ir fundo nos estudos, já que desistiu logo da carreira no Futebol. Na segunda parte da entrevista, Antônio conta das suas viagens pelo mundo, como conheceu a França, o Principado de Mônaco e Cuba, a maneira como ele planejava as suas viagens e da saudade que ficou de sua esposa, depois de seis meses morando fora do país. Por causa da perda do pai, aos sete anos, o menino amadureceu precocemente. No vídeo, ele conta como, sozinho, encontrou no cabelo Black Power sua identidade, firmando seu nome artístico como Toninho Crespo.

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História completa

P/1 – Eu queria que a gente começasse, é... Que você me dissesse o nome completo, o local e a data do seu nascimento.
R – Meu nome é António Rodrigues Filho, eu nasci na cidade de São Paulo, na zona leste da cidade, eu nasci no dia nove de junho de 1955.
P/2 – E qual é o nome de seus pais?
R – Meu pai, já falecido chamava-se António Rodrigues e minha mãe chama-se Eunice Barros Rodrigues.
P/2 – Você lembra também o nome de seus avôs? 
R – A minha vó Francisca por parte de pai, meu avô Brasilino e por parte de mãe, minha vó Maria e meu avô Inácio.
P/1 – O seu pai, ele fazia o que? Qual era a atividade do seu pai?
R – O meu pai, ele veio para São Paulo muito cedo, não tinha 18 anos ainda e aqui ele aprendeu a trabalhar com tudo o que se refere a carro, então ele era motorista particular e motorista de taxi, motorista de caminhão, ele era mecânico enfim, ele fazia vários trabalhos, sempre em torno de automóveis, né, carros, caminhonetes e caminhões.
P/2 – Ele era de que cidade? Nasceu onde? 
R – Meu pai nasceu no sul de Minas, na cidade de Itajubá, Minas Gerais.
P/2 – Tá, e sua mãe, ela fazia o que? 
R – A minha mãe, ela trabalhou mais de 30 anos numa tecelagem aqui em São Paulo, chamada Guilherme Jorge, que fica lá na Vila Formosa, ela é auxiliar de tecelagem, a vida inteira trabalhou nisso e cuidava da casa.
P/2 – Mas ela veio de onde? Onde ela nasceu?
R – A minha mãe nasceu na cidade de no Sertão de Pernambuco, chama lá, a cidade chama Bódoco, Pernambuco. 
P/1 – E quando que ela veio para São Paulo?
R – Ela veio para São Paulo no final dos anos 40, porque a situação em Pernambuco estava no campo, estava muito difícil, havia seca, então, ela e três, duas irmãs e um irmão vieram pra São Paulo, início para trabalhar na casa de uma tia dela, no bairro da Penha, que tinha uma pensão, aí, depois cada um foi como a maioria dos Nordestinos, chega, fica na casa dos familiares e depois vai arrumando emprego, aí vai arrumando sua vida, ou seja, minha mãe e meu pai também vieram pra São Paulo, porque lá em Minas não havia trabalho, e ele como tinha essa vontade de trabalhar acredito eu, ele antes de completar 18 anos, ele fugiu de casa, veio para São Paulo e ele era o caçula do primeiro casamento da minha vó. Eu queria deixar claro também, que meus avós não eram pessoas de um casamento só, tanto o meu avô lá em Pernambuco, quanto a minha avó aqui em Minas, eles tiveram dois casamentos, então eu tenho tios de casamentos diferentes, tios e tias.
P/1 – Isso para aquela época já não era muito comum, né?
R – Para aquela época já não era muito comum, mas o que eu estou percebendo é que no interior já era um pouco mais, melhor resolvido isso, entende? Mas eu sou, eu tenho tios e tias de dois casamentos.
P/2 – Mas o seu pai, você falou que ele veio para São Paulo? Como é que foi essa situação?
R – É porque lá em Minas não havia trabalho e eu também, eu acho que eu passei mais ou menos alguma coisa muito parecida com o que ele passou. Eu queria trabalhar também muito cedo, então, como ele queria trabalhar e não havia trabalho ele, era muito fácil conseguir carona, naquela época, não existia essa desconfiança tão grande que existe hoje, né, então ele consegui chegar até São Paulo, até onde eu sei, ele se virou sozinho.
P/2 – Qual a idade que ele tinha?
R – Quando ele veio para são Paulo? 16, 17 anos.
P/2 – Você falou parece que ele veio fugido? Foi isso?
R – É assim, em casa, lógico, uma mãe não vai aceitar que um filho saia de casa antes de 18 anos, não é muito normal, né, foi meio fugido sim, meio na rebeldia.
P/2 – Você lembra o que ele conta, de como é que foi essa chegada em são Paulo?
R – Olha, eu perdi o meu pai quando eu tinha sete anos, então eu era muito criança e o que eu sei, é mais falando com a minha mãe e com os irmãos, com um irmão e uma irmã dele, vou reconstruindo a história dos meus pais, dos meus avós, sempre perguntando, que eu ainda fico fazendo muitas perguntas, perguntas para a minha mãe, para os meus tios sobre o avós, sobre os parentes que já se foram, né?
P/1 – Você sabe como que eles se encontraram? A sua mãe e seu pai aqui em São Paulo?
R – É, o meu pai e minha mãe se encontraram no bairro da Penha, assim exatamente, exatamente, a minha é um pouco tímida, né, ela não conta e eu fico cutucando, mas um pouco o que deu para entender, os dois tinham uma necessidade muito parecida de ter que formar uma família, né, porque eu estava pensando, eu sou filho de pessoas que vieram de outros estados do Brasil, e eu nasci na cidade de São Paulo, e essa minha história se parece com a história de milhares, milhões de pessoas aqui em são Paulo. E os meus avós não estavam em são Paulo, é uma situação que foi se tornando uma situação nova no Brasil, de você nascer numa cidade onde seus avós estão distantes, ai você não conhece os seus avós, seus avós acabam morrendo lá nos estados de origem. Eu conheci só minha avó materna, porque ela estava no Vale do Paraíba e eu ia passar as férias lá na cidade de Piquete, que é do lado de Itajubá, no vale do Paraíba, mas eu, hoje eu já vejo que aqui em são Paulo as crianças já têm os avós, então já conhece os avós, você chama, você fala essa palavra avô, vó, né, eu não tive essa oportunidade. Quando eu fui conhecer minha avó eu já era garotinho e eu acho que meu pai e minha mãe se conheceram com a necessidade urgente que eles tinham de formar uma família, né, então a paquera foi rápida e eles casaram e minha mãe foi a segunda a se casar da família dos irmãos, né, e em 1955 nasceu eu que sou António Rodrigues Filho, mas todo mundo me chama e eu gosto que me chamem de Toninho.
P/1 – E vocês são quantos irmãos?
R – Olha, do meu pai e minha mãe eles tiveram três filhos, né, eu António, minha falecida irmã que também já faleceu, a Maria Aparecida Rodrigues e tivemos também um irmãozinho chamado Luís, que faleceu também bebê pequeno, né, eles tiveram só três filhos.
P/2 – Você era o mais velho de todos?
R – Eu sou o primeiro filho do casal.
P/2 – Então você nasceu no bairro da Penha? Vocês moravam na Penha, né? 
R – É eu nasci, como todo mundo naquela época, nós nascemos todos no bairro do Belém, é até meio bíblico a coisa, né? Que existiu a Maternidade Leonor Mendes de Barros, então eu tenho amigos que é da minha geração, todos nós nascemos ali, porque todas as crianças nasciam ali naquela maternidade, então, mas eu nasci no bairro da Penha, me criei no bairro da Penha e ainda sou frequentador. É bairro da Penha e toda aquela região do Aricanduva, que hoje é famoso mundialmente pelas enchentes, né, mas eu cheguei a ver o Aricanduva na sua fase original ainda.
P/1 – E você lembra quando você era criança, quando estavam na Penha, você se lembra de como que era sua, a rua onde você morava, a casa que você morava? Como que era?
R – Lembro muito bem, bom eu quero dizer que isso era outra cidade de São Paulo, as ruas eram de terra, as pessoas eram recém-chegadas muitas do interior de outros estados, então, nós as crianças, nós podíamos ficar boa parte do dia na rua, existia uma confiança, assim, dos nossos pais, não existia essa situação que tem hoje de ficar preocupado com as crianças ficarem na rua, então, a minha mãe trabalhava e os vizinhos cuidavam, assim, por ela, né, me olhavam e eu lembro que nós, as crianças tinham mais respeito pelos vizinhos. Quando eles, a gente chutava uma bola, assim que já estava incomodando, eles falavam, a gente parava, né, e “Aí criançada, presta atenção, hein?” Então e eu também percebia que muito diferente de hoje, que nem agora nós estamos no mês de junho, na minha rua tinha fogueira, a fogueira que todo mundo fazia duas, três fogueiras, cada sábado ou cada domingo tinha fogueira, os vizinhos faziam a fogueira juntos, né, não era assim, muito hoje, está muito assim individualista. A pessoa faz uma fogueira dela, da casa dela, se faz, né, hoje as ruas estão asfaltadas, não é muito normal fazer fogueira, mas eu lembro que a gente tinha uma vida mais em comunidade, eu gostaria de dizer, naquela época, nos anos que eu lembro á partir dos anos 60, então ruas de terra, muitas crianças na rua, não passava muitos carros na rua, não existia uma situação de violência e de perigo para as crianças e adolescentes como tem hoje, e o que é mais importante e que me faz lembrar muito dessa época que eu aprendi a tocar berimbau na rua, aprendi jogar capoeira na rua, joguei muito futebol na rua e aprendi tocar violão na calçada.
P/1 – Então, a rua era esse espaço de convívio?
R – A rua era cultura, é duro, hoje a rua é cultura pela cultura do Rap, do Hip-Hop, que eles conseguiram trazer uma influência mundial que eles organizam a rua para ela não ficar tão mal falada, mas a rua está queimada (risos), está, a rua hoje não é mais como eu cheguei a ver, eu gostaria muito que as autoridades, as instâncias governamentais, as entidades sociais, recuperassem, resgatassem isso que a gente tinha, não sei se vai ser possível mais, mas a rua era um ambiente de, para as crianças e adolescentes.
P/1 – Isso você se lembra, qual a idade que você tinha mais ou menos nessa época de brincadeira?
R – Olha, eu sou freqüentador da rua desde os oito, entende? Desde os oito anos e fui até os catorze que eu comecei a trabalhar, que naquele tempo todo menino começava a trabalhar de Oficie Boy, primeiro emprego, então, dos oito aos catorze eu fiquei muito na rua, fazendo todas essas coisas, aprendendo esporte no caso futebol, capoeira e fazendo música, tocando e brincando, brincando, todo mês ventava pipa, junho balão, pô, o dia que eu consegui fazer um balão meu subir, o primeiro que eu fiz subir, eu fiquei muito feliz da vida.
P/2 – Mas como é que foi esse dia? Como é que foi construir ele?
R – Aprender a fazer balão? Tinha um vizinho que fazia balão muito grande, e a gente ajudava a soltar, e eles os mais adultos ensinavam a gente. Existia muito essa relação, dos adolescentes mais velhos, 16, 17, 18 e nós os pequenos de dez, a gente vivia por imitação, não sei se eu posso dizer isso, a gente queria imitar, então a gente aprendia a fazer pipa, aprendia fazer balão, porque eles começavam antes, jogar taco, gude e todas essas brincadeiras. A gente primeiro passava, entrava como observador, depois eles iam passando para gente, e da minha rua eu agradeço muito essa boa sorte, todos os rapazes os mais velhos sempre foram muito bondosos com a gente e ensinaram tudo para a gente, a gente aprendia todas essas brincadeiras, no início eles faziam, depois a gente ia sozinhos, né, muito legal.
P/1 – E você se lembra de algum especial? Algum dessa época, algum amigo especial?
R – Dos mais velhos?
P/1 – Ou da sua idade.
R – Ah sim, bom dos mais velhos tinha o Sérgio, que era meu vizinho, que inclusive depois ele me levou para jogar no Esporte Clube Penha, foi com ele que eu fui fazer um teste, fui jogador amador, né, de futebol é verdade tem foto, vocês vão poder ver, mas tinha o Valdir, que era de uma família de italianos e o Vagner que era o menorzinho, que era meu amigo eles faziam instrumentos para a gente, sabe? Imitação porque era época, essa época queria dizer o seguinte: era a Jovem Guarda, era Roberto Carlos, Renato e seus blue Caps. e Golden Boys que eram os meus preferidos, todo aquele movimento da Jovem Guarda era justamente nessa época nos anos 60 e a gente foi totalmente influenciado por aquilo que estava acontecendo naquele momento, então eles faziam instrumentos pra gente e do outro lado mais assim da minha idade tem o Clóvis, que hoje é pianista, a gente passou a ser primo, porque o meu primo casou com a prima dele e a gente se considera primos, o Clóvis é um grande pianista aí, viaja pelo mundo e tem o Édson também, que era outro amigão que toca violão também, que a gente era parceiro, eu aprendi tocar violão no violão dele, porque eu não tinha violão, então a gente emprestava você viu? Ele chegava até emprestar o violão para mim treinar em casa, para mim dormir com o violão dele na minha casa, aí minha mãe vai dormir que você tem que ir para a escola amanhã e eu lá no violão tentando tocar uma música dos Beatles ou do Renato Russo que é para depois assim tocar para as meninas, para se aparecer para as meninas, né, então era a Jovem Guarda, era muito puro, era muito legal tudo isso que acontecia.
P/1 – Você no cotidiano de sua casa, até quando você era criança, sua mãe então criou você sozinha?
R – Sim, tem uma questão, foi importante a gente dar esse começo até chegar até esse ponto, assim como a minha esposa esteve aqui dando o depoimento dela e ela deve já deve ter dado o depoimento eu também fui vítima da violência policial, porque nós aqui em São Paulo nós da Comunidade Negra, da Comunidade Afro-Brasileira, da Comunidade da periferia em geral, boa parte nós temos um caso de morte violenta e comigo aconteceu um desastre fatal na minha vida quando eu tinha de sete para oito anos, meu pai foi assassinado pela policia, assim como o irmão da minha esposa, assim como pessoas de família de amigos, e eu não entendi nada na época, porque o meu pai era um herói para mim, entende? Ele me colocou numa escola particular no bairro da Penha e eu lembro que eu andava muito de carro, que o meu pai como eu falei trabalhava muito com carro e eu fiquei muito triste na época com isso que aconteceu porque, nos dias seguintes, né, isso a gente dependia muito dele, a gente passou a ter uma nova situação de vida, porque eu queria deixar claro aqui e eu queria, e eu sou, assim, eu sempre penso na frente e no que pode servir de exemplo para o futuro, a minha mãe ficou com dois filhos, sozinha sem amparo social, porque nós fomos punidos com essa situação que aconteceu dessa morte violenta, que a policia continua até hoje, criando esse tipo de problema social para os filhos dessas pessoas que são assassinadas, alguém foi na minha casa perguntar alguma coisa, se nós precisávamos de alguma coisa? A minha mãe não recebeu um centavo de pensão pela morte dele, coisa que teria que alguém ter ido lá e saber, como à senhora vai ficar com duas crianças? Então tem que ter alguma coisa, algum amparo social, não, não teve nada e isso fez que o meu amor pela minha mãe crescesse muito, porque ela sozinha além de ter que trabalhar essa tristeza que é obvio, ela conseguiu segurar e criou dois filhos, então eu também fui vítima dessa violência da cidade de São Paulo, isso foi fatal para mim. Eu tenho uma dificuldade muito grande de ter amizade com pessoas que são da policia, eu vou ser sincero, amigos meus de escola que se transformaram em policiais eu rompi relações, eu espero não precisar da policia, eu estou de mal da policia definitivamente, eu acho que a gente, o Brasil precisa discutir melhor o outro lado, o lado das vítimas, entende? Porque eu acho que isso foi injusto.
P/1 – Você lembra como é que foi também, não sei se você tinha consciência naquela época do que aconteceu, você ganhou uma consciência depois?
R – É. Eu depois, eu fui trabalhar anos depois eu fui trabalhar num jornal e eu procurei os jornais da época, porque houve uma publicação policial, uma publicação na página policial do jornal e foi outra decepção, porque o jornalismo ele é ele não é muito certo também, entendeu? Então eu fiquei decepcionado com o tratamento que fizeram com a coisa, em nenhum momento eles pensaram que tinha um menino de oito anos e uma menina de sete e uma viúva, que era auxiliar de tecelã e que além de trabalhar em uma fábrica, teve que começar a lavar roupa, fazer faxina, porque nós ficamos sem um pilar da nossa família. Por outro lado, esse fator me fez deixar de ser criança muito cedo, aos 10 anos, eu já queria trabalhar, mas como eu disse da rua e agora mudando um pouco de assunto, na minha rua começaram chegar rapazes do Nordeste, esses rapazes eles vieram para trabalhar na feira de São Paulo, porque na zona leste, não sei se todo mundo sabe, hoje a zona sul também tem muitos Nordestinos, mas naquele tempo a concentração era maior na zona leste, então bairros como São Miguel Paulista, Itaim, Vila Ré, Vila Curuçá, todos esses bairros tinham feiras e eles iam para as feiras, e como eles estavam me ensinando a tocar berimbau, a tocar violão eu começava perguntar: o que eles faziam? Aí fui descobrir que eles vendiam bala, vendiam renda, linha e eu comecei a sondar, sondar e pedi para eles, para pedirem para minha mãe para deixar trabalhar com eles, porque a minha mãe não tinha como me dar dinheiro para mim ir para a escola, para comprar lanche, eu queria comprar uma calça que nem a do Roberto Carlos, eu queria usar uma camisa que nem do Jorge Bem e eu não tinha dinheiro e eu queria trabalhar, mas eu já fazia algumas coisas, já ajudava as pessoas na feira, vendia sorvete, uns até sem minha mãe saber. Durante o dia fazia algumas coisas que moleques fazem, assim, na periferia, fazem, né, aí minha mãe deixou, eu acordava ás quatro horas da manhã, porque eu estudava á noite já, estava fazendo o ginásio e eu ia muito bem na escola, acabei naquele tempo o primário cedo, depois o ginásio, eu terminei o colegial com 18 anos de idade, então minha mãe deixou trabalhar na feira com eles.
P/ 1 – Com quantos anos?
R – Com 12 anos, aí comecei na feira, eu já ganhava dinheiro, já podia pagar coca-cola, guaraná, naquele tempo a gente tomava muita tubaína, já tinha dinheiro para ir aos bailes, a gente, tinha baile matinê, né, tinha matinê naquela época, então eu comecei já a muito cedo bem antes dos 14, já era rapazinho já, ajudava minha mãe a pagar aluguel, eu estava muito feliz já de ter dinheiro, já tinha poder aquisitivo naquela época, se tivesse poupança faria uma poupança, na época.
P/2 – Nesse período, antes de trabalhar, a sua mãe ia trabalhar e vocês ficavam no convívio da rua, assim, né?
R – É eu só queria dizer o seguinte: com esse acidente que aconteceu com o meu pai, a gente foi vítima dessa violência policial, que eu acabei de falar, a minha mãe precisou deixar a minha irmã com as minhas tias, a minha irmã foi morar com a minha tia, desorganizou a minha família e eu fiquei morando com a minha mãe, então minha mãe deixava comida, eu desde os nove anos eu já esquentava comida sozinho, eu ia para a escola sozinho, sempre tinha um vizinho me olhando, mas como naquela época eu disse: não existia essa situação de violência que existe hoje, então era possível, mas hoje já não seria possível eu ficar sozinho, hoje eu acredito que não, se bem que, eu sei de muitas mães que criam os filhos sozinhas e elas tem que ir, elas deixam ou trancados, aí você já sabe, os mil acidentes que acontecem, mas naquele tempo eu pude ficar sozinho, então eu ia para escola sozinho e não aprontava muito, brinquei muito na rua, mas não causava grandes problemas para minha mãe.
P/1 – E daí também a importância do convívio da rua, também foi muito importante até por causa disso, né?
R – Sim, porque eu sei que isso vem muito daquela época, da vida do interior, eu acho que no interior ainda existe isso, uma mãe olha o filho da outra, então naquela época na Penha, as mães desses meninos que eu brincava, dos moleques na rua, elas me olhavam para minha mãe, então, existia essa vida comunitária ainda que foi se perdendo. Eu fui assistindo isso em São Paulo, isso nos anos 60, né, então sobrou muito pouco, ainda existe, mas não como na época, o momento era outro.
P/1– E na escola, como é que era você se lembra da sua escola quando você estudou? 
R – Lembro.
P/1 – Que escola era? 
R – Bom, eu estudei como eu falei o meu pai ele queria que eu fosse advogado, eu me lembro disso, então ele colocou eu e minha irmã, matriculou a gente no Colégio São Vicente de Paula, aquele que fica atrás da igreja da Penha, eu estudei nesse colégio, aí, quando o meu pai faleceu, a minha mãe não podia pagar, nós fomos falar com as freiras e elas deixaram terminar o primário sem pagar, então eu era um aluno que estudava gratuitamente. A minha irmã ficou muito abalada com a morte do meu pai, ela parou de estudar um tempo, foi morar com a minha tia, já é outro bairro não dava para ir, então desestruturou a vida escolar da minha irmã, ela passou a estudar em um colégio público, então, mas eu não, como eu morava perto, eu podia ir à pé, eu estudei no Colégio São Vicente de Paula e lá era um colégio rígido, era um colégio católico e a gente tinha obrigações na época, a igreja influenciava muito a vida da gente, né, e na Penha um bairro tradicional, um bairro católico, tradicional tinha muitas festas cristãs, né, na época era muito mais festejado do que hoje, né, então eu era muito envolvido por muitos trabalhos, estudar bastante, então foi eu considero assim, uma boa fase, aí com 11 anos eu passei para o colégio público, muito pequenininho, não arrumou vaga de dia, eu fui estudar à noite e a primeira série do ginásio eu repeti, porque eu tinha medo, eu estudava com, eu não sei porque que aconteceu isso, mas na minha classe, eu lembro, eram adultos e eu era criança, aí eu ficava meio assustado e já com a morte do meu pai eu fiquei um pouco assustado com tudo que aconteceu, foi muito de repente e eu estava sob o reflexo desse susto que eu tinha tomado e eu estava na classe com pessoas muito adultas para mim, aí no ano seguinte com 12, eu voltei a fazer a primeira série e aí fui estudar à tarde, aí sim com adolescentes, porque acho que a escola não tinha vaga, a minha mãe também estava um pouco confusa com tudo, né, que aconteceu, e à noite eu era assim, o mascotinho da classe, eles brincavam comigo, tentavam me relaxar, mas eu não relaxava, eu tinha medo, eu estava muito inseguro, aí o ano seguinte com 12 anos, eu estudando com alunos da minha idade, aí começaram algumas coisas que eu queria deixar claro aqui, pelo fato de eu ter o cabelo crespo, eu não arrumava um penteado para mim na época, e na Jovem Guarda não tinha ninguém que tivesse o cabelo, só o Jorge Bem, né, não tinha muito do jeito com o cabelo crespo como o meu, então os meus apelidos na classe, eu só queria deixar claro, era Bombril, gozação e eu descontava tudo no futebol, eu jogava na Seleção de Futebol de Salão do Colégio, que eu era jogador já, e eu descontava, fazia gol, era a minha  forma de descontar, mas os meus apelidos eram Bombril, chapéu, eu ficava muito irritado porque que eles faziam isso né, e aí também punha apelido, aprendi a  por apelido, eu fiquei bom de colocar  apelido nas pessoas também.
P/1 – Você lembra de algum? 
R – Que eu coloquei? 
P/1 – É
R – Puxa vida cara, que ficou? É difícil de lembrar agora, agora vai ser difícil, assim de primeira, mas eu me desenvolvi sim colocar apelidos, então nesse curso ginasial, quando chegou na segunda série do ginásio, a terceira série, começaram a aparecer no bairro algumas pessoas negras com o cabelo grande, que se chamou de Black Power. O Soul,  o James Brow estava chegando no Brasil, e lá na zona leste, com o Guilherme Jorge,  o salão e alguns outros salões começaram a ter os bailes, na minha rua tinha baile, nos meus amigos do bairro começaram a no baile, porque eu transitava em todos os lados, uns eu jogava bola, outros era só na escola, então, aquela mistura brasileira, mas daí eu comecei  a ver que o meu cabelo podia ficar, arrumar um jeito de eu descontar também todos aqueles apelidos, Bombril, chapéu, aí eu arrumei um jeito para o meu cabelo, fui perguntando como que deixava, como que a gente fazia o pente, até que e consegui fazer o meu Black Power. Aí todos ficaram, assim tentando entender porque eu tinha e eles não tinham, porque na escola era assim, né, aí tinha, começaram também os roqueiros a aparecerem, aí a gente foi formando uma turma aqui dos cabeludos, foi quando a minha mãe parou de ter sossego, a partir daquele dia, eu passei a ser cabeludo, e só atualmente agora, que eu cortei o cabelo, mas durante toda a minha vida eu fui cabeludo e com Black, passei mais de dez anos usando Black Power, aí depois do Black Power eu descobri o Bob Marley, sempre com música, aí com o Bob Marley eu deixei as Drag Looks, a minha esposa também, nós deixamos os dois,  nós fomos uns dos primeiro casais aqui em São Paulo a usar Drag Looks, em 1900, no começo dos anos 80, o Bob Marley ainda era vivo, então essa coisa do cabelo, assim foi, quando a gente começou a deixar Drag Looks, a gente era apontado na rua, não, não é como hoje, estamos em 2007, hoje já foi mais aceito, já praticamente faz parte da vida aqui da cidade, né?
P/1 – Você se lembra como é que foi quando você chegou em casa, que a sua mãe viu seu cabelo Black Power?
R – Olha, vou falar para você, a minha mãe ela suportou tantas coisas na minha vida, é ela ficou espantada, ela nunca aceitou eu ser cabeludo, ela falou: “Não acredito que você vai deixar o cabelo desse jeito, que você vai trabalhar assim”, é e assim por diante, permanentemente ela não estava contente com aquele tipo de cabelo, mas antes do cabelo Black Power eu ficava procurando que tipo de cabelo eu ia usar porque existia a Jovem Guarda, os cabelos eram lisos, nós os meninos que tinham os cabelos crespos nós chegamos a passar pasta no cabelo, pô a gente podia ter perdido o couro cabeludo, porque a gente fazia loucura, porque a gente não ia em cabeleireiro que a gente tinha medo da mãe saber e a gente comprava, juntava dinheiro para comprar a pasta, a gente fazia loucura, então nós os meninos dos cabelos crespos pixaim, a gente tentou entrar na do cabelo liso, mas não deu certo porque não tinha técnica, hoje, os meninos podem ir no, mudou novos tempos, mas naquela época nós tínhamos que fazer escondidos, eu sei que era uma pasta azul, cara, você passava saia fumaça, queimava, doía, aí não dava certo, ai tinha que cortar porque ficava horrível, nós mesmos que passávamos, tinha essa meia fina de mulher, a gente punha para ele ficar assim assentado, aí você tirava a toca dormia com ela, não demorava meia hora e já se rebelava ( risos ), aí  até que conseguimos graças ao James Brow, a essa cultura maravilhosa da Black Music, chegou para a gente um formato, então nós na Vila, nós nos orgulhamos, era uma fase de orgulho, de a gente começar a se orgulhar, e eu como sou descendente de negro, cara, eu arrumei aí com esse primeiro penteado eu fui dando assim,  uma definição na minha personalidade, nas minhas raízes, no que eu sou, porque até então, o moreno, pardo... E não era nada, eu não sabia o que eu era, então foi muito positivo tudo isso que aconteceu e eu agradeço a música e eu vejo que hoje a música continua, e na música que eu faço eu sempre tentei passar isso para as pessoas também, fora a poesia, mas também passar essa experiência pessoal de usar o cabelo que quer, a calça que quer, a camisa que quer, a camiseta, fazer o que quer, e  quando a gente é jovem eu acho que a gente tem que realmente experimentar as coisas, então eu acho que foi muito importante o cabelo Black Power, foi um ponto muito importante na minha vida para definir o que eu era, de onde eu vinha, né, porque eu tinha perdido meu pai cedo, e eu acho que  o pai é que passa isso para o filho,  e o meu pai ele era negrão, era da ginga, do samba e eu perdi isso, e eu fiquei na mão, na vida as pessoas precisam do pai para ir moldando a sua personalidade, o que é, eu perdi essa referência fiquei só, eu fique com mãe-pai, minha mãe foi meu pai e minha mãe passava todo o tempo trabalhando ela não podia cuidar dessa parte masculina da coisa, por isso, que eu lamento muito, gostaria muito que os rapazes, os homens que tem filhos, que mesmo que não casassem, cuidassem disso, cuidassem de ficar juntos com os filhos, passear, passar esse lado masculino para os meninos, esse lado do gosto  pessoal, sabe, do que ele faz, das coisas que ele gosta... Para as crianças também receberem esse lado do pai que falta, e eu senti muito a falta disso, né?
P/2 – Então essa descoberta Black Power foi uma...
R – Foi um ponto, aos 13 anos de idade foi fundamental na minha vida, porque foi a partir dali que eu comecei a reconstruir a minha mistura porque eu sou descendente de índio, de negro, de branco, de nordestino, eu nasci na periferia, eu nasci filho de operários, nasci em São Paulo... E sempre andei com pessoas diferentes, mas eu não sabia quem eu era, o que eu sou? Qual é a minha raiz? É tudo muito misturado e você não é nada, nunca ninguém falou nada na escola, na televisão não passava, eu sou o que? Eu não sabia o que eu era. E graças à música, graças ao cabelo Black Power eu comecei a ver o meu lugar, os bailes, as pessoas, eu comecei a construir minha identidade cultural, é... Eu sei que em algum momento foi muito duro e complicado, porque nós somos uma sociedade misturada, mas é necessário a gente saber quem a gente é, qual é o nosso grupo e freqüentar outros grupos, mas saber da onde vem, então isso para mim foi muito importante, foi dali pra frente que eu comecei a definir minha vida até como músico, poeta, até como arte educador que eu sou e como militante ativista mesmo, de toda essa coisa que para mim foi difícil e que eu passei  a trabalhar para tentar ajudar o futuro, né, o futuro da nossa cidade, do nosso país, do mundo mesmo, que eu já fiz isso também fora do Brasil, de lidar com essas diferenças, sabe, acho que nós somos diferentes, nós temos que colocar isso para fora e conviver e se possível, sempre que possível, segundo Vinicius de Morais, a gente tem que se amar.
P/1 – E como é você falou bastante da música, eu queria saber assim, nesse contato como é que foi essa iniciação da música na sua vida?
R – Eu gostaria muito de saber também, porque é o seguinte: tinha eu 11, 12 anos, acho que 11, eu andava como eu falei, como eu cresci sem pai eu virei rapazinho logo, eu já podia sair, minha mãe trabalhava e eu era livre... Então, os outros meninos tinham sempre que pedir para o pai ou para a mãe, eu já podia, sempre era o primeiro que podia ir, então, como eu não tinha dinheiro para pegar ônibus, existia bonde ainda na Penha, eu cheguei a ver o bonde, eu não sou tão velho assim, mas eu vi bonde. Para você ir para o centro da Penha podia ir á pé, para você ir para o Tatuapé que é o bairro mais próximo também podia ir á pé, então eu podia ir á pé nos dois lugares, então, eu não parava, andava pra lá, para a direita a Penha, para a esquerda o Tatuapé, então quase todo dia eu ia para um lado pro outro e nessa que eu fui para o Tatuapé para o lado esquerdo, eu estou passando numa rua chamada rua Antônio de Barros, que era uma rua de muito comércio, na época de natal era muito enfeitada, muito lindo. Eu lembro como se fosse hoje, todos esses enfeites de natal era muito lindo. Eu estava passando na rua Antônio de Barros eu escutei assim, numa sobre loja que tinha uma escada, escutei um som vindo de lá, vi pessoas entrando, ah, entrei, entrei quando entrei, cheguei era um auditório tinha um palco e tinha crianças cantando, e ai alguém já me recebeu  me colocou para sentar, já me deram guaraná e eu fui gostando do negócio, aí fui ficando  e falei que legal, e aí descobri que ali, maravilhosas essas pessoas, olha só que coisa maravilhosa, os, é lógico que era os lojistas do bairro e tinha os apresentadores, eles faziam uma gincana, um pequeno programa de calouros com crianças, tudo que eu queria, aí eu tímido, com medo, sempre com medo, né, estava amedrontado, aí eu olhei não encarei, aí fui outro domingo olhei de novo, ganhava guaraná, bala, aí comecei a ir com o meu amigo Vagner da minha rua, vamos lá, cara,tem um programa de calouro, o Vagner também era meio líder, ele podia sair, filho de italianinho La na rua, aí fomos os dois, aí criei coragem para participar do, ganhei prêmio, podia ganhar brinquedo, tomar guaraná, comia bolo, doce e ainda ganhava, se você fosse bem, não fosse, era muito influenciado pelo Chacrinha, o Chacrinha  era um fenômeno, né, da comunicação no Brasil, então ele influenciou na época essa coisa da buzina, se você tentar cantar e se você desafinar, se você perdia, então essa acho que foi a minha primeira experiência com a música, participar dum programa de calouro. 
P/1 – Então você estava nos contando sobre o dia em que você ganhou o seu primeiro programa de calouros, assim ganhou um prêmio, né?
R – Sim, eu lembro que eu cantei uma música do Renato e seus Blue Caps, que eu falei que era o meu conjunto. Renato e seus Blue Caps e o Golden Boys na Jovem Guarda era os meus preferidos, porque era uma banda, eu sempre gostei de banda e paralelo a esse, foi tudo acontecendo, que eu acho que é uma coisa, acho que é destino mesmo, não tem muita explicação, né, não da para precisar, mas aí, começou esse programa de calouro e na rua da minha casa eu já estava arranhando, começando a arranhar violão com os meninos que vieram do Nordeste para morar na minha rua, e na minha rua tinha um guitarrista de uma banda da Jovem Guarda, chamada The Princess, que era o Gerson. O Gerson era confeiteiro de padaria, fazia  pão doce e tal, e guitarrista dessa banda e essa banda ensaiava na rua de casa, na casa dele de vez em quando, e adivinha quem era o molequinho que estava sempre ali de olho no portão querendo entrar e o portão fechado e eu querendo entrar. Eu, aí o Gerson deixou entrar, porque ele falou: “Porra, o que esse moleque está todo dia aqui cara” aí, deixou entrar, e não bastando isso eu ficava olhando o Gerson tocar cara, eu, eu gostei muito do, da coisa da guitarra, porque eu via na, na jovem guarda os caras, aí, estavam ali na minha frente, aí eu já querendo ser guitarrista ali, né, aí, o Gerson muito atencioso como te falei, da coisa da rua, do bairro, a época, anos 60, o Gerson me ensinou os primeiros acordes mesmo,  deixava de vez em quando tocar guitarra, aí, eu treinava no violão, eu não tinha guitarra nem violão eu só tinha vontade e aí, eu cheguei a tocar guitarra e acho que isso também foi fundamental, eu agradeço muito ao Gerson, assim uma pessoa maravilhosa, uma das pessoas maravilhosas na minha vida. Bom e aí eu comecei á partir disso, isso começou a me ajudar a tirar esse medo que ficou da morte do meu pai, esse trauma eu fiquei traumatizado, pô, uma criança ver seu pai... Nas condições em que eu vi, isso foi me ajudando a naturalmente diminuir esse trauma, não sei se hoje aos 52 anos de  idade, se eu consegui acabar com esse trauma, mas ali começou. Bom, aí, essa experiência lá no programa de calouros, o Gerson me ensinou na rua, aí, eu aprendi realmente a tocar violão, porque o Édson meu amigo, meu vizinho tinha, o Clóvis, meu primo também tinha violão e a gente ficava tocando na calçada para os vizinhos, aí viramos já um grupo de amigos que tocava violão na rua de casa.
P/2 – Você lembra qual foi á primeira música que você aprendeu a tocar?
R – A primeira música que eu aprendi tocar, rapaz? Exatamente... Era uma música... Olha, eu sei que existia uma dificuldade para a gente aprender o que a gente chama pestana, que vai o dedo indicador em todas as cordas, não saia som e eu ficava frustrado até que eu consegui, mas puxa, agora, o que precisar, porque a gente aprendia acordes e a gente  tocava tudo errado, a gente para se aparecer para as meninas,  a gente tocava tudo errado e como elas não sabiam música, ah! Ele canta bem, tudo mentira, a gente depois que foi aprender corretamente, né, mas não sei te precisar a primeira, a primeira, primeira, primeira.
P/2 – Esse foi o primeiro do início de você tocar, né, mas você já tinha um gosto musical apurado? Você lembra qual foi o primeiro vinil, por exemplo, que você comprou? 
R – Sim... Essa coisa da música, antes de tudo isso, eu já batia lata, parede, porta, minha mãe já falou, que às vezes de noite dormindo eu batia em berço, já tinha um negócio percussivo e eu brincava com os meninos até a mãe mandar: “Para com esse barulho”.  Aí, a gente parava, a gente obedecia a mãe, hein naquela época. Aí é... Eu fui com isso trabalhando na feira como eu falei com a rapaziada do Nordeste, indo para a escola, é... Aí aos 14 anos, o meu vizinho arrumou um trabalho para mim de office boy, registrado, com carteira profissional, nossa! Eu fiquei super orgulhoso porque a partir dos 14 anos, eu comecei a pagar o aluguel da casa e até hoje eu pago aluguel  e no primeiro final de ano desse trabalho, teve amigo secreto, que é  uma coisa que tem nos trabalhos e tem até hoje, e na televisão começou a passar, eu não tinha televisão, mas eu vi na televisão  dos vizinhos, não faça como  Jimi Hendrix e  Janis Joplin era o governo militar na época, né, aquela repressão, não faça como Jimi Hendrix e Janis Joplin, né,  não use drogas e tal e tocava aquele som de guitarra, cara, e eu lembrando do The Princess, do Gerson, falei, aí falei para o Edson: “Edson você viu aquele, pô_____”, a gente ia pequenininho já sacando  por trás da coisa, né, eu agradeço muito aos militares (risos), por esse favor que eles me fizeram de me apresentar ao Jimi Hendrix e a Janis Joplin cara, até hoje , aí apareceu a imagem  assim do Woodstock cara, aí tudo que eu falo, tudo uma coisa leva a outra, aí, vieram morar na rua de casa uns caras da Argentina, hippie , e eu e o Édson e o Clóvis, né, a gente já tocando assim, pá, aqueles caras passavam descalços, cabeludos, falava: “Quem é esses caras malucos”? Aí, eles estavam morando na esquina, a gente ficava sondando a casa, todo dia a gente ficava sondando querendo entrar, e eles com namoradas, faziam churrasco de noite, vinha aquele cheiro de carne, né, e a gente, “Cara, quem é esses caras?” né, e cabeludos, a gente falou: “Pô, a gente podia ser cabeludo também, né, cara”. Aí, o Édson ou alguém conseguiu revista, aquelas Contigo, Fatos e Fotos, eu sei lá o que, com as fotos do Woodstock, bastou. Nós vimos quem era o Jimi Hendrix, nós vimos quem era Janis Joplin e Cocker, nós vimos tudo, nós falamos: “Cara, que legal isso aqui, pô muito mais legal que a Jovem Guarda”, nós começamos já a virar roqueiro né cara, aí, no primeiro amigo secreto eu pedi um disco do Jimi Hendrix, aí me deram um disco Band of Gypsys, eu tenho esse disco até hoje cara, eu ganhei esse disco em 1970 um vinilzão, aí eu todo feliz voltei para casa, assim, quando eu coloquei esse disco ninguém entendeu nada cara, não tira esse disco (risos). Onde eu ia nas festinhas de escola, tudo , da rua, eu ia com o meu Jimi Hendrix, ninguém deixava eu escutar cara, porque era um som muito diferente de tudo que estavam ouvindo, e é um dos melhores disco que existe, para mim foi fundamental esse disco, é Jimi Hendrix, a banda era Band of Gypsys.
P/1 – Esse foi o primeiro vinil que você ganhou?
R – Primeiro vinil, que eu ganhei, que eu comprei uma vitrolinha, aquela que a tampa era, já tinha o falante e minha mãe aguentando _____ querendo ser cabeludo, querendo virar roqueiro e escutando Jimi Hendrix.
P/1 – E daí você tirava as músicas do disco?
R – Não, de jeito nenhum, eu não sabia como que eu ia tocar aquilo porque o Jimi Hendrix usava guitarra com pedais, mas aquilo foi sendo fundamental para mim, aquilo foi dando, assim, um gosto diferenciado porque era uma música diferente, eu escutava isso em 1970 cara, e eu já estava escutando James Brown,  mas achava mais louco do que o James Brow ainda, esse tipo de música do Jimi Hendrix, e aí? E aí, vem as aventuras, veio na Penha, chegou na Penha dois filmes, que era o Easy Rider - Sem Destino e esses adolescentes mais velhos, eles já tinham 18 anos, eles iam assistir, aí, eles ficavam na esquina, não você viu aquela hora, a moto, e a gente ficava ouvindo e falava: “Puta meu, os caras assiste e a gente não  pode entrar”. Ai, começou uma guerra, da Penha era maravilhoso, tinha o Penha Príncipe, tinha o Penha Arama, tinha o Cine Júpiter e tinha o Cine São Geraldo e tinha... na rua Caquito...  o Cine Caquito, olha só, a vida naquela época era cinema, não existia outro tipo de diversão, o mais popular era cinema, pipoca, eram umas filas e a gente ia para o cinema, e infelizmente esses cinemas da Penha não foram preservados, infelizmente, eu acho isso  é  um grave erro, viraram uns loja e outros Templos  Evangélicos, não sou nada contra loja e nem contra Templos Eva..., mais cinema é cinema, isso são prédios, arquitetura, não importa, acabaram tudo, a minha infância foi assim, com relação a cinema foi apagada lá na Penha e a gente ia para o Cine, para o Júpiter e tinha matinê, olha só como é que é moleque. E depois da matinê que ia passar esses filmes Wood & Stock e Easy Rider, A Primeira noite de um homem, eu lembro dessa... A gente era, não podia entrar para ver esses filmes e a gente queria assistir porque os mais velhos ficavam contando na esquina. Existiam reuniões na esquina da rua e a gente ficava pertinho sempre escutando os caras para depois a gente: “Pô, você viu onde eles foram? Vamos lá também” vamos tentar fazer igual, é imitação, né, lembra que eu falei? A gente ficava, acabava a matinê, a gente se escondia, se escondia dentro do cinema, ou no banheiro ou atrás das cadeiras, para tentar ficar para assistir o filme proibido para 18 anos. O lanterninha, sempre pegava a gente (risos) e punha a gente para fora, mas a gente não desistiu, um dia nós conseguimos (risos), a gente se escondeu atrás da cortina cara, foi muito engraçado, tinha a cortina do banheiro e quando ia começar a sessão ele fechava a cortina e a gente ficou nos cantos. A gente já tinha estudado que ele fechava a cortina e a cortina ela não ia, as partes das pontas não vinham, elas eram presas e a gente se escondeu ali (risos) e depois a gente, quando começou o filme nós esperamos, aí, a gente foi e conseguimos assistir Wood & Stock, bastou, nós conseguimos ver todos aqueles ídolos que depois se transformaram em nossos ídolos, né, Jimi Hendrix, Joe Cocker, Rick Evans, todos, Carlos  Santana, que puta, eu sou muito fã do Carlos Santana, a gente conseguiu assistir, aí, depois chegamos vitoriosos na esquina, na esquina da rua nós conseguimos contar que nós tínhamos feito esse feito aí, aí os mais adultos falaram: “Pô vocês conseguiram”, ganhamos até um pouco mais de moral ali , né, foi muito engraçado essa passagem.
P/1 – Então nessa época, assim que você falou os gostos musicais teus, mas antes indicavam isso, né, mesmo que seu primeiro vinil tenha sido Jimi Hendrix você já gostava da Jovem Guarda?

R – Sim.
P/1– Algo já tinha te despertado?


 R– Meu pai escutava muito Nelson Gonçalves, meu pai era musical, meu pai era do samba, da malandragem, então é... Já tinha o samba, assim que ele tinha vinil, meu pai tinha vinil, mas o preferido dele era o Nelson Gonçalves, que era um grande ídolo da época. Nelson Gonçalves é fantástico, entendeu? Aquela voz do Nelson Gonçalves, que é uma referência aí, eu queria que as pessoas prestassem mais atenção, muito legal, então já tinha de casa, minha mãe como nordestina já tinha aquela coisa do Luis Gonzaga também e depois foi indo, na rua e na escola, na escola nessa época, que eu estou falando do Wood & Stock também foi legal, porque eu cheguei na escola contando e aí, a gente formou uma panelinha de roqueiro já, tinha outros alunos que também gostavam de Lad Zeppelin, aí, a gente começou a tocar material, só que eu, o Toninho sempre gostava de música brasileira e rock, isso foi uma marca na  minha vida, eu sempre gostei das duas coisas, então, a gente trocava discos, tocava vinil, né, no fim de semana, emprestava vinil, era muito legal a escola também, eu acho que a escola pública nos anos 60, na época que eu estudei, no final dos anos 60 e começo dos anos 70, era bem diferente da escola pública de hoje, e... Eu lembro que em 1968, o professor de Geografia foi retirado da classe pelas forças de repressão, levaram nosso professor embora, na nossa cara, houve um silencio, não pudemos falar nada, já veio outro substituto, isso foi uma experiência que eu, a gente gostava muito dele, foi a minha primeira experiência com a Ditadura Militar, eu passei uma experiência viva, o meu professor foi retirado da sala de aula, não como violência, mas vieram duas pessoas e levaram o meu professor, ele não deu mais aula, sumiu e ninguém falou nada, não houve explicação, veio outro professor e isso foi um pouco marcante, porque tinha o rock, nós já éramos contra e roqueiro era roqueiro, roqueiro era cabeludo e se vestia diferente e era apontado. Roqueiro era diferente mesmo, então a gente gostava disso, e nós também nessa época, por isso que eu falo que a escola pública naquela época foi  muito legal, com essa coisa de gostar de rock, nós começamos a ler Carlos Castaneda, começamos  a ler Literatura Brasileira, a poesia Carlos Drummond, A morte e vida Severina, a gente curtia junto com o rock, tudo junto, e não era que o professor nos indicava, por nós mesmos, a gente tinha um caldo cultural entre nós.
P/2 – Que livro marcou você nessa época também?
R – O livro que marcou foi do... Era... Nessa época exatamente era o Carlos Castaneda, que era uma experiência de índios do México com ayahuasca, e tinha uma literatura, uma coisa sobrenatural, nós gostávamos de coisas assim, e também Lobsang Rampa, que era um livro oriental, que também tinha experiências extra-sensoriais, a gente gostava dessas coisas porque com a Ditadura Militar, no rock aqui em São Paulo, Rio de Janeiro, eu também ia muito para o Rio tinha muitos festivais de banda de rock, e a gente tinha jornais alternativos e era tudo assim muito alternativo, uma cultura alternativa que existia né, como é que chama? Tem um outro nome que dá, então eu recebia muitas influências de novos discos, livros e pessoas, a gente fazia alguma coisa a parte , porque a televisão estava tudo reprimido, na época, e as músicas que eu mais gostava aí, já ficando adolescente era Luis Gonzaga Júnior, Gonzaguinha, Chico Buarque, Geraldo Vandrez, só gostava de nervoso e acho que talvez isso que me levou a anos depois, a 20 anos depois disso, a começar a tocar com os rappers , talvez tenha sido aí essa, e sem contar que tem músicas do Luis Gonzaga como “A triste Partida”, são obras, assim de protestos fantásticos assim e também Jaques do Pandeiro, que tem coisa assim que eu, em casa a gente escutava, então o livro era mais esse , mas teve uma cena que foi um pouquinho depois dessa época, que foi muito interessante, não sei quem na escola começou a aparecer, era muito engraçado tudo, só comigo começaram a aparecer com livros de  Marx, Lenin e Trotsky, e um dia eu, a gente encapava os livros para não aparecer o título, lógico, porque já falava “Oh, não  pode, tá bom” e já tínhamos essa referência do professor de geografia na classe, então essas pessoas do rock, a gente era tudo chamado já de louco, e eu gostava de ser chamado de maluco porque era diferente e tal, e tome Black Power e eu andava com uns caras como o Kiko  por exemplo, era louro do olho azul com o cabelo aqui embaixo, então era malucada, malucada de um lado no recreio e os que não eram roqueiros do outro, era bem separados, então eu estava com o livro do Trotsky e a policia me parou na volta de um baile, era mochila, né, e revirou minha bolsa, e eu falei: “Dancei”, agora já era para mim, porque eu já tinha histórias, né, de invasão de PUC com a peça de Chico Buarque, eu já estava acompanhando, eu já estava como estudante já, aí já estou próximo de ter terminar o colegial para prestar vestibular, tentei prestar na USP né, eu já estava saindo do bairro para vir para o centro de São Paulo e já estava vendo um movimento estudantil e eu já entrando por causa desse caldo da escola pública, do rock, do James Brow, tudo isso somado foi me dando uma vida, mesmo morando na periferia, eu vinha para o centro, e eu era integrado, entendeu? Por intermédio da escola e o colegial que a gente fez ninguém fez cursinho, cara, foi todo mundo prestar o vestibular direto e alguns entraram, eu que não era muito inteligentinho, eu não consegui entrar na USP, mas eu tive uma boa experiência, entendeu? Que o exame era escrito, não era teste não, era escrito, mas de tudo isso me levou até o movimento estudantil, eu fui chegando e eu estou lá com esse livro, que não sei, já estava no terceiro colegial, já com 17, 18 anos eu estou com esse livro, a policia me para e mexendo na minha bolsa, eu falei: “Puta, dancei cara”, mas a... Intervenção policial foi muito mais me considerando um bandido do que um, uma pessoa militante, entendeu? Então, aquele livro na minha bolsa, eles não estavam procurando isso, eles estavam procurando outra coisa, aí, eu entendi nesse dia, que eu poderia até utilizar disso, aí passei a andar com mais livros porque eu nunca seria visto como um estudante e sim, sempre como um marginal, aí eu comecei a ver a minha real... Situação nessa sociedade, mesmo trabalhando, que eu já trabalhava, mesmo estudando a noite, terminando o colegial, eu era tratado como um bandido pela policia, era parado por causa do meu cabelo Black, aí comecei a entender, que até então não entendia, a gente vai entendendo as coisas talvez com a experiência, não porque alguém fala e aí eu comecei a ver e aí, eu comecei a moldar, qual vai ser a minha participação nisso aí, eu já estava ficando com 18 anos, aí que eu fui vendo quem eu era, né, que eu fui entendendo que pardos também são negros, e que não tem oportunidades na sociedade, aí  comecei a ir à aeroporto, comecei a ir no Citibank na Paulista, comecei a ver, pêra  aí meu, mas não tem cara que nem eu aqui também, pêra aí, tem alguma coisa errada aí e tome lendo e fui  conhecendo mais pessoas, aí fui fazer o cursinho no Equipe, quem era o programador dos eventos culturais do Equipe, o Serginho Groisman. Serginho Groisman é que organizava shows, muito legal, todo sábado tinha show, Hermeto Paschoal, Moraes Moreira, Luis Melodia, Gilberto Gil e foi nesse caldo cultural, aí eu já trabalhava de dia, ás vezes chegava a trabalhar de dia e de noite, que a gente arrumava trabalhos a noite, bico, e fazia o cursinho de fim de semana, aí comecei a conhecer mais pessoas, a estudar História, comecei a gostar mais da História e da Geografia e Literatura foi indo, foi indo e em 1978, eu fui levado por um dos alunos a conhecer o que já estava sendo organizado, um Movimento Negro, para dar um grito contra essa situação, das pessoas serem assassinadas, aí eu lembrei o que aconteceu na minha história de vida, eu falei : “Puta, eu tenho que fazer alguma coisa” é exatamente isso cara, o que aconteceu comigo, está acontecendo ainda, aconteceu quando eu tinha sete, doze anos depois ainda estava acontecendo, eu falei não, eu estou nessa, aí, quais eram os outros motivos, parar a gente na rua, eu era muito parado, sempre fui, toda minha vida eu fui parado por policia, para mostrar documento, naquele tempo, não como hoje, a gente tem que mostrar a carteira profissional e aí se você não tivesse registro cara, era uns negócios da Ditadura Militar mesmo da época, então, tudo foi sendo muito... É eu fui me identificando  com aquelas causas e no dia 7 de julho de 1978, os Blacks todos fomos para a escadaria do Municipal, teve gente de todo Brasil e ali foi dado um grito contra a violência policial, porque um parente de um dos militantes tinha sido assassinado em Itaquera, exatamente essas situações injustas, né, e fundamos, foi fundada ali, o Movimento Negro contra a descriminação racial e a partir dali, eu comecei a me dedicar um pouco á essa causa, que também foi me dando mais, assim, identidade e formação e isso foi me levando a outras questões maiores, que eu fui entrando nas coisas, na minha vida foi sempre assim, como eu falei, não foi pela direção familiar, foi pela minha experiência desde aquele menininho  que entrou na escada e que escutou e que viu um programa de calouros quando eu tinha dez anos, eu fui indo fazendo isso nas outras coisas, correndo perigo como esse da policia me parar e eu com o livro que era proibido na bolsa, então fui indo, fui indo, conhecendo novas pessoas e o que elas faziam e tudo isso também nessa época, junto com a música.
P/1 – Mas esse Movimento Negro, quantas pessoas eram, como é que foi esse processo de inclusive de estabelecerem um dia, se encontrarem na escadaria?
R – Sim, eu cheguei já na escadaria, mas eles já se organizavam, eram os estudantes e muitos da USP e alguns já de outros estados, ele foi diâmetro Nacional, mas ele era melhor organizado em São Paulo, Rio, Rio Grande do Sul e Minas e Bahia e vieram pessoa de todos esses estados e coincidentemente foi lançado aqui em São Paulo, mas quando ele foi lançado ele já estava organizado, eu que cheguei, quando eu cheguei na escadaria municipal que eu vi aquela multidão e muitos caras dos bailes que eu ia, que eu encontrava os caras nos bailes, eu fiquei muito contente de ver que a gente estava dando um grito contra uma situação que eu passava e que eu já tinha passado na infância, e que eu me identifiquei na hora, eu falei: “Puta, nós temos que fazer isso mesmo”, mas eu não parei aí, junto eu fui aprendendo sobre outras questões, sobre outras formas de luta, eu aprendi que nós adultos, e eu ficando adulto, nós tínhamos que conhecer as formas organizadas de exigir direitos, de exigir reparações, de trabalhar para um futuro melhor, então isso tudo eu devo primeiramente á rua, segundo á escola pública e as pessoas que eu fui conhecendo, que eu guardarei essas pessoas para sempre assim, pessoas que foram dando dica, sabe, vai ali, vai lá e tal e me ensinando, sabe? E essas pessoas não param de aparecer na minha vida, cada dia vão aparecendo novas pessoas e eu vou aprendendo, isso fez parte sempre da minha vida, né, essas pessoas.
P/ 1 – E como é, nesse período, então, deixa eu tentar um pouquinho o que você falou , você estava falando da adolescência, né, como é o próprio convívio com relação ao namoro nessa época, como é que era?
R – A adolescência? Olha, para uma menina sair de casa, quando você tinha 14 anos e dar uma volta com você? Não era nada fácil como é hoje, muito difícil, primeiro existia um controle, que eu falo assim, da igreja na vida das pessoas, as meninas boa parte delas casavam virgens mesmo, eu cheguei a ver isso na minha vida cara e as meninas não podiam sair assim, uma ou outra que conseguia, assim fugia na hora da escola, você marcava encontro, geralmente era na escola, como começaram a ter as matinês de baile, algumas iam no baile, mas não era assim como hoje, então... Você... Tinha namoro flashes assim, na escola você dava uns beijos nas meninas, assim na hora do recreio, mas não era como hoje, você poder ficar, hoje os meninos dormem nas casas das meninas, as meninas dormem nas casas dos meninos, mudou, melhorou muito a situação, mas a gente iniciava o sexo um pouco mais tarde, não tinha tanta menina grávida, por outro lado, como hoje, cedo, né, eu acho um pouco cedo, eu particularmente não tenho nada contra, mas eu acho cedo, a menina de 14, até 12 tem filho já, então era um pouco reprimido, confesso para vocês, mas como eu ia nos bailes, eu comecei a ver que nos bailes a gente conseguia encontrar namorada, ficar mais próximos das meninas desse lado de namoro, mas na rua, assim não era como hoje era muito reprimido.
P/1 – E você, qual foi a primeira banda que você tocou? A primeira vez que você apresentou ao vivo, que você tem a música, você começou a tocar violão, como é que foi a primeira vez que você se apresentou?
R – A primeira vez que eu me apresentei mesmo foi em festival de escola, como eu falei, escola pública, né, essa época dos roqueiros, a gente formou... Um grupo ali, entre alunos para defender uma música no festival da escola e foi a minha primeira vez, assim e dali em diante, a gente tentou, todo mundo trabalhava e nas horas no final de semana, como nós gostávamos todos, do mesmo tipo de música, a gente tentou, mas nós não tínhamos guitarras legais, a gente não tinha o material que hoje já se pode ter, mesmo comprando á prestação entende? A gente não tinha, mas foi na escola.
P/1 – E você falou que você compõe?
R – Componho desde os 14, essa época aí do rock, tal, 13, 14 anos que eu escrevo poesias assim.
P/1 – E você se lembra qual foi a primeira, desse período de início, qual foi a maior coisa marcante que você... 
R – Que eu escrevi? 
P/1 – Que você escreveu
R – Dessa época?
P/1 – Ou você escrevia muita poesia? Ou você escrevia música?
R – Não, eram mais versos assim, É... escrever versos, né, que eu chamo de poesia, poesia é a arte de escrever em verso, né, e... Mas isso era coisa de adolescente, depois eu fui ficando muito crítico, né, depois que eu fui conhecendo, aí fui deixando meio de lado, eu não sabia musicar. Eu escrevia, mas não... Eu nunca fui na escola de música na verdade, e se eu fui, eu fiz algum, eu fui depois, mas já adulto, né, nessa época eu não estudei música, então, eu aprendia de ouvido, né,  a gente era da rua, aprendia cultura de rua mesmo, né, então eu não sabia musicar, ás vezes eu tentava, mas eu não gostava porque não ficava legal, então, eu não tenho uma musicado ou depois dessa fase que eu comecei a trabalhar profissionalmente mesmo, eu não tenho, aí depois eu fui revendo tudo e redefinindo as coisas e tal, então, muita coisa ficou para trás.
P/1 – E você queria tocar alguma coisa, você gostaria de tocar alguma coisa dessa época que tem uma lembrança especial para você?
R – Dessa época?
P/1 – Dessa época de efervescência cultural, de início de você tocar?
R – Olha, uma coisa que foi muito legal foi um show do Gilberto Gil no Equipe, foi quando a primeira vez que eu escutei falar de uma pessoa que para mim foi fundamental entre todas as influências, né, foi o Bob Marley, foi a primeira vez que eu escutei No, no woman no cry , que o Gil depois, ele cantou em inglês nesse dia, mas depois ele cantou, ele gravou em português, então ele falou: “Olha eu vou cantar uma música”, o Colégio Equipe estava lotado, não tinha, não cabia mais ninguém, era ele e o violão e... Aí eu sai desse show com isso na cabeça, cara que legal aquela música, Bob Marley, Bob Marley, aí eu fui nas lojas procurar esse disco do Bob Marley, e os discos tinham sido recolhidos porque a capa, acharam, repressão da época, achou que a capa não podia, aí eu achei e eu tenho esse disco até hoje que é o Kaya , tem o Kaya  e comprei do Peter Tosh e Jimmy Cliff , comecei a comprar reggae ali, por causa do Bob Marley conheci o Peter Tosh, conheci o Jimmy Cliff, aí depois fui conhecendo mais, mas foi uma coisa marcante porque essa descoberta me fez sair do Movimento Negro, assim como militante de ir sempre em reunião, eu falei: “Ó gente, agora eu descobri uma outra coisa na minha vida”, cara, agora eu descobri  esse tipo de música, esse tipo de música também faz uma luta, mas com música, eu vou fazer isso aqui, ia muita reunião, eu vou continuar fazendo, mas eu não vou mais vir nas reuniões, eu vou continuar sozinho e já fui deixando o cabelo crescer, já fui mudando minha alimentação, porque o reggae, ele é uma cultura, é uma cultura de se alimentar de uma forma mais natural possível, e eu, o que foi chegando de informação, que eu tenho uma amiga em Londres, que mora até, desde aquela época, até hoje em Londres, ela me mandava as coisas, discos, fitas, informações, que o Bob Marley ainda era vivo, então, isso tudo foi me influenciando e foi quando eu conheci a minha esposa, aí eu apresentei o Bob Marley para ela, e a gente começou a também a curtir juntos essa cultura, aí nós fomos para Salvador conhecer novos amigos lá, eu sei que nós viramos, ficamos, começamos a ter uma alimentação vegetariana, isso já vem há 25 anos, mais ou menos.
P/2 – Você tinha que idade quando teve esse show no Equipe?
R – Eu tinha 22, 23 anos.
P/2 – E você já tinha feito faculdade?
R – Não, eu estava fazendo cursinho para prestar vestibular no Colégio Equipe, que era um, como eu não consegui sair do colegial, os meus amigos conseguiram entrar (Risos ), também os caras estudavam muito, eu não estudava muito, não era como eles, não era tão aplicado, eu tentei dois vestibulares da USP, aí não deu, aí era o que a gente fazia cursinho, então tinha, começaram a surgir esses cursinhos na época, e eu fui fazer no Equipe, aí eu escolhi um cursinho que me puxava mais para a música do que para estudar, então é... Não deu certo, eu fiz cursinho, fiz vestibular, não entrei também.
P/2 – Não deu certo...
R– Não deu, não deu certo por outro lado, que eu recebi muita informação, tenho muitas lembranças, eu tenho amigo que estudou comigo até hoje, ele é músico também, a gente é amigo até hoje, então é... Uma música, posso pegar o violão aqui?
P/1 – Pode, pega, por favor.
R - Uma música, vou ter que vir mais para frente aqui, (entrevistado toca violão e canta em espanhol) “Recurdo quando nos sentávamos en el pátio de gobierno em trenchtown ao observar políticos hipócritas, y o que hacen com nuestra buena gente, amigos tenemos, amigos perdimos por el caminho, neste imenso futuro no existe su passado seca sus lágrimas (já?), no woman no cry, no woman no cry, no little darling, don´t shed no tears? no woman no cry.”, só uma palinha, eu gosto muito dessa música. 
P/1 – Porque você cantou em espanhol?
R – Eu cantei em espanhol porque a versão em espanhol ela é mais fiel a versão em inglês, eu acho que por causa da Ditadura, o Gilberto Gil teve que dar uma driblada, porque ele sabe, sabe inglês, ele sabe o valor, ele que apresentou o Bob Marley para todos nós, ele é o pai da História, mas ele tinha que ser malandro com a Ditadura, né, ele sempre foi malandro com a ditadura, então, ele gravou de uma forma é... Que não é a tradução real da música e em espanhol ela passa mais que, ele critica os políticos hipócritas, que ele estava na frente do governo, e essa música é a música número um da Jamaica, ela foi eleita a música número um de lá.
P/2 – É, então, você de alguma forma, ele apresentou também a você a um outro  estilo de, um outro tipo de atitude, de resistência...
R – Sim, sim.
P/2 – E que, aí você estava falando que você deixou um pouco o Movimento Negro, de participação ativa...
R – É, esse mais convencional e que eu vi que tinha uma outra forma de fazer a mesma coisa com música, porque a minha vida é a música, então, eu passei a tocar reggae, mudei  já o black para  o dreadlocks na época é... Perdi o emprego, por causa do cabelo dreadlocks mandaram embora.  
P/2 – Você trabalhava no que?
R – Eu trabalhava  em um jornal grande se São Paulo, né, e por mais liberal que possa ser, me convidaram a não trabalhar mais lá, a minha mulher  também perdeu o emprego, ela trabalhava em um grande banco aqui em São Paulo, também, os cabelos começaram a ficar dreadlocks  também, nós dois fomos, mas a gente foi conseguindo sobreviver e aceitando o desafio, entendeu? Foi um desafio mesmo e foi muito legal, foi muito positivo tudo o que aconteceu.
P/1 – Você fazia o que no jornal? Que você começou como office boy trabalhando?
R – Comecei office boy, depois fui trabalhando em empresas, sempre no escritório, essas coisas, aí trabalhava no setor de cobrança, ficava batendo máquina, datilografando máquina, aí no jornal eu virei um especialista em, eu era muito rápido tic, tic, tic, tic, aí, eu até batucava com a máquina, você tem que ver, fazia ritmo cara, sempre musical tas, tas, tas, task , aí do meu lado nesse jornal trabalhava um grande sambista de escolas de sambas de São Paulo, ah bastou,  nós dois tocando, a gente batucava, cara, tem que ver que engraçado  e também não vou falar o nome do jornal então, eu posso falar algumas coisas, sempre na rebeldia, nós dois saíamos, as escolas de samba eram perto do jornal então, a gente saia para jantar e ia para as escolas de samba  e não voltava cara, aí a gente tinha que inventar desculpa, cheguei a ir para o hospital cara, pegar atestado, que eu dizia que a comida tinha feito mal, que nada eu estava na  final do samba enredo das escolas de samba e ele, que me ensinou a  tocar cavaquinho, arranho, né,  tocar cavaquinho só sambista mesmo, então, um outro grande amigo, que sabe apareceu na minha vida também, me ajudou muito, me deu muita dica, mas a pergunta saiu?
P/1 – Não, já respondeu.
P/2 – Então, só retomando certinho, você estava falando  daquele movimento que você estava no jornal e que daí você saia e via os movimentos, assim você ia para as escolas de samba, né, e ás vezes não voltava né?
R – Certo, eu sou apaixonado por puxador de samba enredo, eu acho muito difícil cantar e naquela época é... Tinha grandes puxadores, e também tem hoje também, mas para mim era muito novo, porque era um outro jeito de cantar e eu sempre gostei de coisas novas e eu estava descobrindo minhas raízes Afro Brasileira ali, ah, sempre que eu podia eu dava uma escapada.
P/1 – Mas olha só, com relação á música, você falou que a música tem um papel super importante na sua vida...
R – Totalmente... 
P/1 – Tem muito a ver com atitude também?
R – Também, porque eu entendo música como cultura em primeiro lugar e hoje, a música moderna, ela traz a atitude, ela traz informação, ela traz a história passada e presente e pode dar  pontuações para o futuro, eu acho que a música contemporânea, depois de toda essa revolução que aconteceu com a música negra dos Estados Unidos, depois o rock, aí vem o reggae, depois vem o rap, o hip rop, eu acho que hoje, nós temos uma grande possibilidade no planeta, da música dar uma grande contribuição para  o que a gente está sempre  sonhando aí, paz, um melhor relacionamento  entre os países e proporcionar as  soluções de vários flagelos que nós temos no planeta e... Eu acho que no meu caso a música foi fundamental, desde  os meus dez, 11 anos de idade e continua, é uma fonte inesgotável de descobertas, não pensa que agora, hoje com 52 anos já, não, todo tempo tem algo novo na música que me chama atenção, que me ensina e que me faz conhecer pessoas, que me faz viajar, enfim e que me leva a outras, a descobrir e a gostar de outras coisas que não são músicas, também a música me leva a gostar de outras coisa que não é música, então, eu trabalho com música  principalmente para proporcionar isso para as pessoas, eu não... Desde o início, eu nunca trabalhei com música pensando em ser um astro, um cara milionário, não, eu acho que por eu ter sido salvo, eu acho que  eu fui salvo pela música em muitos aspectos, eu acho que isso que me fez trabalhar com música dessa forma, que eu não procuro o sucesso, o estrelato, eu procuro é... Um outro trabalho com ela, que me faz acreditar que ela pode intervir na realidade, então,  anos depois eu comecei a fazer trabalho educacional com música.
P/1 – É, assim, existe uma, a música para você ela toma um outro contexto, que não apenas o musical, que você tem toda uma identificação do movimento em si, né?
R – Eu tenho.
P/1 – É, na construção até do teu gosto musical, não era só música, mas sim a estética do movimento, a mensagem que era levada, é nesse tipo de coisa que você acredita da música, que não seja só música, mas uma coisa mais ampla, e que isso reflete numa atitude tua?
R – Sim. Eu acho que, em primeiro lugar, a música me ensinou a respeitar os mais velhos, a música me ensinou porque as pessoas que sabem mais música são as pessoas mais velhas, a música me ensinou a, a pensar no futuro das crianças, então, é... A música me levou a fazer uma música, eu fiz uma música que eu tive a felicidade de gravar com o Oswaldinho do Acordeon, em que eu viajei para dentro da minha infância e... E que foi justamente um pouco disso que nós conversamos aqui. É, e... Eu sou assim muito fã de pessoas que criaram obras, entendeu, que mesmo que não fizeram sucesso, mas são obras fundamentais e eu particularmente hoje, eu gostaria que os governantes, as pessoas das instâncias da educação e da cultura, é... Criassem projetos para preservação do nosso patrimônio cultural, eu acho que as crianças precisam saber cantar, saber história, saber cantar, ter o gosto e o prazer de cantar músicas de Pixinguinha, de Valdir Azevedo, de Villa-Lobos, escutar obra de Villa-Lobos, até chegar no Zeca Pagodinho, entendeu, vir desde lá de trás e dentro do currículo escolar aprender a cantar Carinhoso, aprender a cantar O Brasileirinho, saber  cantar todos os nossos, Luiz Gonzaga, por favor, Jackson do Pandeiro, aprender tudo isso mesmo como matéria, porque quando eu vou para o exterior, e eu faço isso desde 1989, que eu vou principalmente para a França, já fui dez vezes tocar na França, o respeito que eles tem pela nossa música, não só lá, eu percebi que mundialmente a nossa música é uma das músicas mais admiradas, a Garota de Ipanema é a música mais executada do mundo, eles gravam a nossa música na língua deles, aí aqui parece que não é dado o valor e o respeito à essas obras, então, acho que, como eu tenho uma experiência de vida onde eu devo tudo à, muito à escola pública da minha época, os anos 60, então, é, e que tem gente que critica que naquela época a escola já estava decaindo e eu acho que se comparar os anos 60 com hoje, era um, era muito melhor do que hoje, né? Então, eu espero que esse patrimônio da nossa música, com relação a poetas, com relação a autores, com relação a bons instrumentistas, eu gostaria que fosse preservado. Eu trabalho para isso, depois de um certo tempo com, conhecendo o reggae é... Me aprofundando na cultura da música, eu fui vendo a necessidade de fazer workshops nos bairros, e com as pessoas que eu sempre trabalhei eu comecei a fazer workshops nos bairros com essas pessoas da cultura afro-brasileira e comecei depois sozinho, ia tocar de noite e tal e sempre fazia oficina nos bairros, escolas, casas de cultura, entidades, ONGs. Durante esses últimos 20 anos eu fiz vários tipos de workshops, mas vários, vários e... Teve um que eu gostaria de falar. Teve um que eu, é só comigo que acontece essas coisas. Estou eu lá, no bairro de Itaquera ensinando música, é... Na partitura, na lousa para os meninos pobres, que moram nos cortiços, barracos, favelas, enfim, estavam todos ali, eles adoravam cavaquinho, eu estava ensinando, eu estava tudo indo bem, só que eu não sei porque e eu não sei quem, nem para que, eu estou assim, eu era o Professor Boby (risos), porque estava com cabelão, mas era muito querido, eles me adoravam porque eu era a brincadeira, claro, lógico, com controle, então, estamos lá compondo notinhas musicais no pentagrama, dó, ré, que bonitinho, e a gente sofejava, eu falava “Não tô acreditando que isso tá acontecendo.”, Itaquera, bairro de uma situação de flagelo social e eu lá, com os meus amiguinhos, de repente eu tô de costas assim, quando eu viro três policiais da Rota sentados dentro da classe, “Não.” eu falei “Não, não, não.” Tudo bem, existia um problema lá, era um lugar chamado Clube da Turma, que fazia trabalho social e eu fui parar lá, para dar aula e eu precisando do trabalho, lógico que eu estava precisando, músico sofredor nessa terra, ainda eu, compositor, eu não acompanho os grandes músicos de sucesso, e nem quero, não me interessa. Eu só toco com quem eu gosto e me identifico, sempre foi assim, se eu não me identificar eu não toco, não tem problema, eu vou vender, vou dar aulinha, sei lá, vou fazer alguma coisa. E eu precisando do trabalho e me revoltei, eu não pude falar nada, eu esperei, terminou a aula e eu fui pedir minha demissão. A minha esposa queria me matar, porque eu precisava daquele trabalho, mas eu não tinha condições de continuar, é, um trabalho com aquela invasão. Primeiro eu não fui respeitado como um professor, tinha que bater, eu acho que todo professor tem que ser respeitado, ele é o dono da sala, ele é o administrador da sala de aula, não, acho que talvez porque eu era cabeludo, porque eu estava trabalhando com crianças que não são respeitadas, então isso tudo veio na minha cabeça e eu falei “Não, eu não vou conseguir mais trabalhar aqui.” Eu deveria ter conseguido porque (risos) eu precisava do emprego, mas eu às vezes, eu na minha vida eu tomei atitudes muito fortes assim, entendeu? Então, eu, esse dia me marcou porque houve uma invasão policial dentro da sala de aula e eu sempre gosto de falar dessas situações, porque eu acho que a polícia de São Paulo, acho não, eu tenho a experiência de vida, ela é muito violenta, não é assim que a gente vai, é... Chegar a uma situação, é, melhor nessa relação de polícia e população, principalmente nós, os homens da periferia, nós somos muito parados, eu chamo isso de um trabalho que não é necessário, porque que eu vou indo com o meu carro, eu tenho que sair do meu carro, eu gostaria de falar aqui, eu vou saindo, eu saio da minha casa com o carro que eu pago, que eu pago IPVA, que eu ponho gasolina, que eu pago imposto e alguém me para no meio do caminho e me faz sair do carro com o revólver apontado para a minha cara e isso sempre acontece. Porque isso não acontece em outros bairros? Porque que a forma é diferente “Por favor, pode mostrar seu documento?”, mas não é com o revólver apontado para a cara da pessoa. Isso tem que mudar, alguém tem que, é, resolver isso, porque eu vejo que não, não para, continua e isso agora já começou quando a pessoa tá com a esposa, até com filhos dentro do carro, isso, é, vai levando a uma situação, é,.. De perda de cidadania. Então, a cidadania, nesse aspecto, eu falo realmente da minha música e falo sempre que eu posso. A violência policial na cidade que eu nasci, que eu conheço bem, nos bairros de São Paulo é exagerada, é violenta e isso tem que acabar. Então, ficou meu registro e meu protesto nesse dia que eles... Aí pra mim, eu que já sou, é, já tenho uma história de vida onde eu fui vítima dessa violência desnecessária dessa sociedade, cai tudo sobre a minha cabeça porque eu tô dando aula, fazendo um trabalho que eu amo, eu gosto, tô trabalhando pra Nação, para gente ver se a gente modifica essa situação de desnível social que nós temos e a repressão entra dentro da sala de aula, ah, isso pra mim bastou, então, esse foi um dos aspectos que aconteceu, eu fiz uma maratona em todos os bairros de São Paulo praticamente, eu fui.
P/1 – Então, na verdade você está falando também que a música é totalmente uma peça de resistência tua?
R – Completa. Eu a partir daí, desse trabalho, depois eu fui fazer um outro trabalho com os meninos da Febem, que saem da Febem, que passam por um processo de, eles vão morar numa casa para poder se reintegrar à sociedade, então, eu fiz um pequeno trabalho e eu vi que, é, eles como frequentadores de baile estavam cantando música dos Racionais. E como eu não tinha equipamento a gente cantava a capela, batucava no peito (som de batuque), batucava na parede, eu não tinha equipamento para trabalhar a música porque nesse projeto que é chamado Pensionato, eu ia com esses meninos nas empresas para eles arrumarem trabalho, a gente conseguia alguns trabalhos para eles de meio-período.
P/1 – Eles eram adolescentes que tinham acabado de sair da Febem...
R – E estavam, e iam morar numa casa pra conviver junto, eles tinham que conservar a casa, fazer comida, arrumar os quartos, tudo, fazer a faxina da casa e a gente saia, eu e uma menina e um outro amigo, a gente saia para é...Procurar trabalho para eles, é, às vezes coloca-lo numa outra pensão mesmo paga, entende, a gente, ah... Uma vez eu fui com três no Clube do Tatuapé, eles ficaram receosos de entrar na piscina, eu tive que jogar esses meninos na piscina, porque eles estavam se sentindo, foi uma experiência que eu não esquecerei jamais, a sociedade não sabe os dramas psicológicos que são causados nas pessoas, eles não tinham coragem de entrar na piscina e se misturar com as outras pessoas, eles se auto-rejeitavam. Foi muito interessante esse dia, eu procurava, fui com eles em baile, eu arrisquei até minha vida em alguns momentos, mas eu me apaixonei pela experiência de sair com eles e tentar ter todas as formas de se reintegrar à sociedade, mas eu percebi que eles se auto-rejeitavam também, por causa de tantos nãos que eles receberam desde pequenos então, é, não seria fácil eles se reintegrarem assim como era planejado pela direção, na prática era muito mais difícil, eu percebi com essa experiência viva nesse dia no clube, eu joguei os três dentro da piscina e  pulei também, lógico, mergulhamos todos juntos e eu dizia “Você pode nadar, aqui é público, é seu também.” Mas eu percebia que não era tão claro pra eles, aí, eu comecei a ver que, ah... A estrutura do Estado não tem respostas ainda para solucionar a questão dos dramas psicológicos, dos efeitos desse trauma social que é você ser oprimido, da sua família se desfazer como a minha se desfez, mas graças a vizinhos, graças a meus tios, minhas tias,  a gente se segurou, entende? Mas, se eu não tenho os vizinhos que eu tive, se eu não tenho os tios e tias eu não sei o que teria sido da minha pequena família, porque ficou eu, minha mãe e minha irmã dentro de uma estrutura em que a gente tem que ter trabalho, tem que ganhar para poder consumir, comprar comida, pagar aluguel, não tinha casa própria e meu pai devido as condições em que tudo aconteceu não deixou uma pensão, não tinha seguro de vida, pobre não tem seguro de vida, então, eu nesse dia do clube eu tive uma outra conclusão: A Instituição Febem, a Instituição em geral, não está ainda com respostas para aquele ser humano, porque cada um de nós é um ser humano e cada um de nós tem sentimentos, tem sentimentos a partir do que acontece na vida da gente, e eu sempre, para mim foi muito claro que eu poderia ser um daqueles meninos. Isso pra mim também, nesse trabalho que eu sempre procuro fazer e continuo até hoje sempre tentando colaborar, eu fiz muitos trabalhos, dos mais variados bairros afastados de São Paulo, tentando desperta-los para música, mas não a música em ser um cara famoso, fazer a música por fazer a música, para ter isso dentro de você porque, quando você tem algo dentro de você, você talvez não vá partir pra violência, talvez você não vá partir pro lado do crime porque você tem ou futebol dentro de você, ou basquete, ou hip-hop, ou violão, ou a guitarra, ou berimbau,  alguma coisa que eu acho que a gente tem que ter porque foi tirado tudo deles e a sociedade, eu vi que a Instituição não tem respostas, cada caso é um caso e cada caso precisa de carinho, amor, respeito, é, com relação à idade que se tem ou criança ou adolescente. Eu vendo tudo isso, eu tive uma grande idéia assim histórica naquele momento, eu falei “Vou organizar uma oficina de rap, cara.” A casa de cultura Mazaroppi era do lado da onde eu trabalhava e eu já conhecia uma pessoa que eu já estava trabalhando que chamava-se Milton Salles, que é o grande produtor de rap aqui de São Paulo daquela época, ele foi uma pessoa importante no nascimento do rap aqui no Brasil, Milton Salles, e ele tinha produzido o primeiro disco que eu gravei, né, com uma outra pessoa que me fez conhecer muito de cultura afro-brasileira que é o Lu (Mumba?). Então, eu conheci o Milton, falei “Milton, eu consegui aprovar uma cultura de rap na casa de cultura e, pô, precisava da sua ajuda, cara, tem uns meninos aqui do sistema da Febem, que é fora da Febem, que eu vou levar, todo sábado eles vão lá comigo, porque eu ficava procurando coisas pra eles saírem, conhecerem, se integrarem e eles gostavam de rap, pô, foi tudo certo, que eles iam nos bailes, né? E a música do rap, dos Racionais, assim, estava fazendo sucesso. Eles ficavam cantando o dia inteiro, o Milton, as oficinas nessa casa de  cultura tinha no máximo 20 pessoas, foram quatro sábados. Cada sábado iam 200, 300 pessoas. Virou uma festa, cara. Eu tenho vídeo, guardei o vídeo de tudo isso e tem pessoas que hoje no rap tão fazendo sucesso e que participaram dessas oficinas como pessoas iniciantes, entendeu? Outros eu nunca mais vi, não sei e tem, foram quatro sábados de, muito legais assim, tinha toda a cultura hip hop, tudo, tudo que vocês pensam. O DJ, o brake, os Mcs, é, a gente ficava no camarim dando dicas profissionalizantes da coisa, como que se comporta, como que, é, como que artísticamente é legal, a concentração, eu chamei pessoas de teatro, pessoas que estudavam comigo, eu estava fazendo faculdade de Educação Artística aí já.
P/1 – Isso quantos anos você tinha? 
R – Aí foi 1990 e... no começo dos anos 90, eu já tinha uns 30 e poucos anos. E a partir daí, eu conheci todo, o Milton me falava, o Milton me falava “Cara, você precisa conhecer o rap, cara, é um negócio novo que tá acontecendo.” Foi quando eu vi exatamente o que era e essa oficina foi um, acho que deve ter sido uma das primeiras no Brasil e dali saíram outras, começamos a fazer outras oficinas, eu fiz muitas, muitas oficinas e vi que em toda periferia já estava, já tinha uma semente de tudo isso. Eu fui, assim, um dos primeiros músicos a gravar rap no Brasil, aí o Milton me levou, eu comecei a gravar com, tocar com o Racionais, com, todos, a maioria dos grupos e isso me influenciou e eu acho que eu aprendi muito, eu ensinei e aprendi muito também com eles.
P/1  – Esses adolescentes que você de alguma forma passou, quanto tempo você ficou nesse projeto da Febem?
R – Esse daí eu fiquei alguns meses, porque eu comecei, como falei para vocês, eu comecei a ver que a instituição não tinha respostas, e eu estava vendo que a questão era muito mais ampla, eles precisavam de  atendimento psicológico, uns psiquiátrico, eram traumas, eu não preciso detalhar agora aqui, mas eu sei a história de cada um e são traumas e assim, de destruição familiar, pais que brigam com mães, pais que bebem, enfim, uma situação de morar numa estrutura que não dá para criar uma criança entende, e isso vem e abala e deixa essas pessoas desestruturadas então, eu acho que deveria ter um atendimento um pouco amplo, não só aquilo que  a gente estava fazendo, mas devia ter um outro maior ainda.
P/1 – Mas você chegou a ter, algum desses adolescentes ficou em contato contigo?
R – Até hoje?
P/1 – É.
P/1 – Não, perdi contato. Até porque eu acho que foi até bom, eu não ter contato porque eu tenho certeza que coisas fatais aconteceram. E aconteceu um no bairro de São Mateus que eu estava fazendo um trabalho brilhante lá, e num fim de semana dois dos meus alunos foram assassinados por essa violência gratuita da cidade e, então quem se envolver com esse trabalho social tem que estar bem preparado, bem estruturado porque surpresas acontecem. Nós temos um problema grave de violência entre os nossos jovens e sempre, infelizmente, alguma coisa acontece.
P/1 – Voltando um pouquinho...
R: Voltando...
 P/1 – É, a gente, você tinha começado a falar ainda quando você tinha 20 e poucos anos...
R – Certo.
P/1 – Que você conheceu a sua esposa. 
R – Sim, conheci a minha esposa.
P/1 – Como que você a conheceu?
R – Bom, como eu te falei. Era uma época que eu estava indo muito num, a escola de samba estava numa fase muito legal e eu estava frequentando muito escola de samba, nas rodas de samba e eu já estava paquerando a minha atual esposa, estava de olho e coincidentemente uma pessoa que trabalhava comigo, é, a conhecia aí, eu implorei pra me apresentar (risos). Aí, a gente se conheceu na quadra da Nenê da Vila Matilde, não, não, eu frequentava várias quadras, tá, nessa época e os bailes também, mas eu estava já conhecendo um pouco mais as escolas de samba. Eram muito legais as rodas de samba então, eu estava numa fase de ir muito nas rodas de samba e também porque a música, eu estava conhecendo a música do samba, que eu não conhecia legal ainda, porque as pessoas sabem o que é samba, mas a escola de samba ela tem vários estilos musicais dentro de uma roda de samba e eu estava  com professor, eu estava conhecendo um grande sambista, conheci pessoalmente Geraldo Filme, eu conheci o Talismã, eu conheci grande sambista nessa época,  que eu tinha  amigos que iam me apresentando e eu, como eu falei, eu sempre curioso, entrando e tendo essa sorte de conhecer pessoas da cultura. E aprendi muito sobre samba, sobre samba-enredo, ia nos concursos, acompanhava a letra. Eu tinha uma frequência um pouco mais interessada no que estava acontecendo, eu não ia só pela festa, eu ia pela cultura. Aí comecei, eu ia na Avenida ver o carnaval, né, o desfile ainda era na Tiradentes, eu cheguei a pegar na São João quando era pequenininho, uma vez depois foi para a Tiradentes e aí depois que foi pro Sambódromo, né? Então, ia até o carnaval, acompanhava, então, eu vi a escola desde a construção, desde a escolha do samba-enredo até eu cheguei a ver alguns anos isso, como que ela ia para a avenida, eu gostei muito dessa fase. E foi quando eu conheci minha esposa, minha atual esposa, a gente começou a frequentar junto, aí  como eu falei, a gente começou a aproximar os gostos musicais, aí ela viu que eu era louco por música e ela também e passou  a ser uma pessoa um pouco mais musical também, porque não tinha como, até porque é a nossa cultura e você não pode pensar em cultura negra sem música, porque a base da cultura negra é música e dança, né, ela gosta muito de dançar, eu gosto muito de música, então, a gente foi, é, fazendo isso, essa reconstrução ela também precisava recuperar as raízes dela, né? Então, a gente, fui fazendo isso junto, foi conhecendo pessoas juntos, né, foi muito legal também por esse lado.
P/1 – E você começou ter um trabalho, uma carreira musical a partir de que idade, você tinha quantos anos?
R – Olha, eu considero que eu passei a ter uma atuação profissional com a música no dia dois de janeiro de 1986, foi quando eu abandonei o que até então, eu tinha que trabalhar e fazer música porque é muito difícil a vida de um músico e eu acho que isso não é problema nenhum, acho que toda pessoa que tá começando, qualquer tipo de trabalho artístico, seja teatro, música, dança, ela pode sim trabalhar como toda pessoa e fazer nas horas vagas a arte e ir levando isso até o momento que ela puder decidir se ela para com o trabalho normal e fica só com  a arte. E foi isso que eu fiz. Eu fui trabalhando e fazendo música, como eu te falei, eu fugia do trabalho, faltava às vezes para tocar, inventava que eu estava com dor de barriga para ir tocar, eu fui dando um jeito, cada um tem que arrumar o seu jeito de ir levando em harmonia isso, mas não pode parar de trabalhar porque a vida de artista no início é muito difícil então, é... Se a pessoa tem, é de uma classe social melhor e que os pais podem ajudar tranquilo, não tenho nada contra, não é playboy pra mim, é uma pessoa que teve sorte na vida, mas nós que somos da classe pobre assim a gente tem que trabalhar, então eu considero dois de janeiro de 1986 quando meu cabelo (risos) começou a ficar muito incomodante  aí me mandaram “Oh, vai tocar, vai.” Aí eu fui.
P/1 – Daí eles te mandaram embora e você também falou assim...
R – Também nunca mais, aí nunca mais trabalhei em empresa. Nas fases difíceis da música que tem, hoje pode ser que você tá numa situação aí daqui a pouco ela não é muito certa aqui, então, aí eu comecei a dar aulas, como eu falei que comecei a ir nos bairros dar aula e não só por sobrevivência e salário mas pelo prazer de ver que  a música ela tem uma função social, eu comecei a encontrar esse sentido, né? E isso é uma coisa que eu nunca vou deixar de fazer independente de, mesmo quando eu vou para, viajo e às vezes fico alguns meses fora, mas assim que eu volto eu já procuro me reconectar novamente com esses trabalhos porque, eu acho que a, eu entendo a música como uma cultura, que tem atuação na realidade social que a gente vive, seja no Brasil, seja na África, no Caribe, seja onde for.
P/1 – Então, você, depois que você efetivamente, enfim, transitou e passou para ter uma, viver apenas de música, né... 
R – Sim...
P/1 – ...Quais eram os medos que você tinha nessa época? 
R – Olha, o medo maior era ter que voltar atrás, no início, é... Não sei, cada pessoa é um caso, mas eu via a coisa assim um pouco incerta. Primeiro, eu não, meus pais não puderam me dar uma boa educação musical, eu não fui ao conservatório, eu sabia tocar, eu sei tocar primeiramente por intuição, depois eu fiz alguns estudos, mas nessa época eu ainda não tinha estudado nada de música, era intuição pura e eu estava na pegada mesmo de fazer, já aprendi, já tinha, já estava é... Tinha convivido com mestres da música, né, tinha convivido com Miguel de Deus, e que Deus o tenha, ele faleceu recentemente, que foi quem me ensinou a tocar é, violão mesmo legal, depois o (Lumumba?), que é um cara da cultura afro, que também me ensinou bastante. Aí conheci o produtor Milton Salles e aí, eu já estava quase indo tocar com o Luís Vagner que é um grande guitarrista também brasileiro, então, é, ainda não tinha certeza, mas aí, eu acreditei, é o que eu tenho a dizer, eu acreditei, eu acredito, assim, entende? Que vai dar certo...
P/1 – A tua (_____) apoiou você?
R – Sempre, sempre. Em todos os momentos, desde aquela época, em todos os momentos, quando estava indo bem e quando não estava indo bem, ela sempre deu força. E eu acho isso uma, minha mãe também, são duas pessoas que sempre estiveram comigo, assim.
P/1 – E depois, então, que você efetivamente chegou foi que você também fez seu primeiro trabalho de discos, o seu primeiro disco foi nessa época?
R – Nessa época, porque aí eu como larguei o trabalho aí, eu passei a ser o que chamam de vagabundo musical, né, aí eu tinha tempo o dia inteiro para ensaiar, aí eu aproveitei porque eu tinha recebido uma grana, né, “Pô”, foi legal, tinha dinheiro, não precisava me preocupar com nada aí fui me dedicando cada vez mais, ensaiando, convivendo, tocando em vários grupos ao mesmo tempo, aí em 1986, não foi o meu disco, eu gravei tocando para outras pessoas, eu gravei o primeiro vinil, na época, ainda era vinil... aí em 86.Aí em 1900...
P/1 – Qual era o vinil? 
R – O vinil é...
P/1 – O seu primeiro disco...
R –  O meu primeiro disco que eu gravei, que eu fui para estúdio que eu gravei foi do (Lumunba?), chama Consciência e Virilidade e foi produzido pelo Milton Salles, depois o Milton que foi o grande produtor que praticamente levou o Mano Brown para gravar o primeiro disco, que investiu em todos os grupos de rap  do início daquela fase foi o Milton Salles, ele me viu tocando James Brown cara, eu já tocava James Brown  na guitarra e ele falou “Rapaz, que legal, você toca James Brown. Porra, você tem que conhecer o rap.”. Ele falou rap e eu não entendi cara, “Do que esse cara tá falando? E eu estava só com o Bob Marley na cabeça, mas James Brown era minha cultura, James sempre foi, Jorge Ben, James Brown, Bob Marley, sempre essas coisas assim, e aí eu fui gravar o meu primeiro disco mesmo, aí gravei outros, né, o meu mesmo foi em 1992, meu primeiro disco, do meu grupo, meu grupo chama (Joalê?), (Joalê?) quer dizer na língua afro-brasileira –  o olhar é... Dos nossos, dos mais velhos, o olhar dos mais experientes, o olhar dos nossos ancestrais, essas coisas, e que esse nome, ele é a partir de um poema de um grande amigo, o Arnaldo Xavier, que também já faleceu e... Que eu também adotei. Aí um dia eu tô em casa e, é, quando o Brasil completou 500 anos do tal do chamado descobrimento, para mim não é descobrimento senhoras e senhores, é uma invasão, é, houve uma invasão nessa terra, onde os índios foram massacrados, mas a gente foi obrigado a aprender que é descobrimento, mas não é, um dia vai ser esclarecido essa história. E o Carlinhos Brown recitou o poema (Joalê?) durante, eu fiquei  muito emocionado, porque eu escolhi o nome do meu grupo antes dele declamar, mas ele declamou o poema durante um show de comemoração em Salvador dos 500 anos, né? 
P/1 – Você tem esse poema de cor?
R – Ah, não tenho. De cor não tenho, é muito sofisticado, porque o Arnaldo Xavier, ele é poeta concretista e... Ele em um determinado momento, como ele era da Paraíba e ele via toda a minha correria ele virou meu tutor aqui em São Paulo, e ele começou a me dar noções de literatura, me dava livros para mim ler, me dava dicas de como escrever poemas.
P/1 – Que livros que ele te dava para ler de literatura brasileira principalmente?
R – De literatura? Ah, deixa eu ver assim, ele me deu pra ler... Deixa eu lembrar aqui. Bom, primeiro ele me deu os livros de poemas dele, depois ele me passou o livro do Milton Santos, que é um grande geógrafo, ele falou “Você tem que saber, você tem que conhecer o Milton Santos.” eu não sabia quem era Milton Santos,  vergonha cara, não saber quem é Milton Santos, eu acho que a gente tem que saber quem é o Milton Santos, um grande pensador né, e assim, foi me dando dicas, assim, Augusto de Campos, eu achava muito sofisticado cara, tinha assim, eu tinha dificuldade de entender porque é uma poesia muito bem elaborada até que ele começou a me dar poemas para mim musicar e o grande primeiro poema que ele me deu é... Arnaldo era muito inteligente, ele andando em uma rua do bairro da Santa Cecília tem uma igreja no final da rua, eu esqueço o nome daquela rua e está escrito “Rogai por nós.” Bastou para o Arnaldo, como bom paraibano, poeta de Campina Grande, ele fez o poema “Regai por nós.”, ao invés de rogai, ele fez regai por nós e me deu. Eu tremi de medo, cara, muito sofisticado. Aí eu musiquei, demorei muito tempo para musicar, que eu aprendi a musicar um poema sem alterar o que você escreve. Você me dá o poema, eu acho que eu me tornei um pouco especialista nisso. Aí comecei a musicar outros poemas dele e como tributo eu pretendo daqui alguns poucos anos, é, fazer, gravar um CD só com poemas, eu musicando os poemas dele, como tributo que ele foi um grande poeta daqui, nosso.
P/1 – E qual foi a primeira vez que você, que você falou que foi algumas vezes para o exterior divulgar a música brasileira. Qual foi a primeira viagem que você fez?
R – Aí... Em 1986, que eu gravei meu primeiro disco, aí o Luís Vagner, que é um grande guitarrista, eu, sempre estava vendo o show deles, ele me via tocar já e ele falou: “Oh, eu gosto de ver você tocar. Vou te chamar para tocar comigo.” eu falei: “Orra cara.” tinha até medo dele me chamar. Aí finalmente ele me chamou, para ser o segundo guitarrista, porque ele era um grande guitarrista e ele precisava de um outro guitarrista base e eu sou guitarrista base, guitarrista que fica fazendo harmonia, segurando o ritmo, eu tenho uma facilidade muito grande com isso, que começou lá atrás com o Gerson do The Prince, que o Gerson era guitarrista base e eu sempre gostei de guitarra base e   por isso, que eu gosto de cavaquinho, que cavaquinho é base, então, ele me chamou para tocar com ele  em 1988, aí fui para o Sul do país, que ele é do Rio Grande do Sul, né, fizemos todo o Sul lá, foi a minha primeira viagem fora de São Paulo para tocar e foi muito rápido. No ano seguinte, eu comecei a tocar com ele, em 88, em 89 ele foi convidado para tocar no Festival de Jazz de Vienne, que é um grande festival da França, fica perto da cidade de Lyon. Quando eu me vi eu já estava na França vendo castelo cara, eu, foi  a minha, ah, eu tinha ido já para Asunción, no Paraguai de avião, essa foi minha grande viagem de avião. Eu nunca tinha andado de avião aqui dentro do país, fui vendo castelo, coisas que eu via só em filme estava ali já, é um teatro antigo, foi construído na época do Império Romano, foi muito legal, muito respeito, aí nós, é, tem outra história. Tem outra história aí nessa ida para  a França, nós fomos para tocar nesse festival aí, nós voltamos para Paris, aí nós quatro nos reunimos, ele e o Evaldo Correa, o baterista que toca comigo até hoje e o Lula Barreto, baixista, e eu, nós resolvemos não voltar para o Brasil. Rasgamos as quatro passagens, rasgamos e resolvemos ficar. Não tínhamos nada, nem onde morar, aí começou uma procura de trabalho, aí nós conseguimos trabalho no Hotel Meridien Montparnasse, que é um grande hotel, uma grande torre lá em Paris, foi a primeira vez que entrou latinos lá para tocar. É, só comigo acontece essas coisas, nós tocamos nesse hotel, a comunidade brasileira ia toda para lá, eles precisavam ir buscar cadeira nos outros andares, foi um sucesso muito legal, aí esse Hotel Meridian nos mandou, lembra que nós rasgamos as passagens para nós voltarmos para o Brasil, não tínhamos passagem de volta. Esse Hotel Meridian nos mandou para rede do Meridian do Marrocos, assim, e a minha esposa aqui me aguardando porque não tinha internet, era telefone com moeda, eu tinha que escrever carta, eu tenho as cartas até hoje, jurava, juro, juro, juro e a gente nesse sufoco. E a minha mãe aqui também sozinha e eu lá, batalhando, construindo uma possibilidade, que aqui estava muito difícil para nós que fazíamos trabalhos de músicas próprias, então, é, nós fomos paro Maarrocos, quando eu vi, eu estava no deserto do Saara cara, uns negócio absurdo. Aí voltamos para cá, depois de seis meses fora daqui e nessa experiência foi que eu primeiramente compreendi que a música brasileira é muito, ah... Admirada no exterior. A Bossa Nova, o Jazz Brasileiro, as músicas regionais comandadas pelo senhor Luís Gonzaga e nessa época, que eu estava morando lá, o Luís Gonzaga faleceu. Houve uma comemoração na Embaixada, nós fomos tocar em homenagem ao Luís Gonzaga lá, em Paris. Houve uma homenagem à morte dele. Hoje, era pra ter virado feriado, tem tanto feriado nessa terra, eu sei que acho que foi em agosto que ele faleceu e deveria haver um feriado, pelo menos no Estado de Pernambuco...
(Longo Silêncio)
P/1 – Estávamos falando de quando você foi para a França...
R – Certo...
 P/1 – E você rasgou a passagem, daí você foi para o Marrocos.
R – Eu não, o grupo inteiro. Quatro. 
P/1 – Você incluído.
R – Eu incluído.
P/1 – Você ficou quanto tempo no Marrocos tocando?
R – Marrocos foi uma viagem de 15 dias. A gente ficou passando por várias cidades, chegamos em Casablanca, na tão famosa Marrakesch, depois fomos entrando pelo interior, _________, Rodin, foi passando por várias cidades aí voltamos para Paris, Paris – São Paulo. Cheguei aqui.
P/1 – Ah, então logo que chegou em Paris voltou para São Paulo?
R – Voltamos para São Paulo. Aí ficamos, aí foi 89, passamos o reveillón no Marrocos, 90 voltamos pra cá. Ficamos dois meses, aí fomos de novo para lá, aí, já tinha ficado seis, voltei e fiquei dois e fui de novo para ficar mais seis, tudo assim na sequência, era pegar ou largar. A minha esposa foi radicalmente contra a minha volta, mas eu estava entendendo que era necessário investir, continuar para o que se conseguiu depois, era o momento, como eu falei, na arte, é, alguma coisa a gente tem que ter dentro da gente que faz a gente acreditar porque fora, para o lado de fora as coisas tão muito mais, olha, dá medo, insegurança, lógico ainda mais sair fora do país, eu não falava francês ainda, hoje, eu falo, mas na época eu estava aprendendo. Então eu fui, fomos de novo e novamente foi a minha constatação de que a música brasileira é muito, muito apreciada no exterior, me renovou essa convicção e... É... Fui, era para a minha esposa ir me encontrar, mas não deu certo, umas questões de dificuldade mesmo de dinheiro, de estadia, tudo, aí, foi uma frustração isso naquela época, em 1990. Aí voltei e continuei aqui a alimentar esse sonho de voltar para a França, de continuar aí essa minha francophonie né, francophonie e... Só foi possível nove anos depois. Ficamos aqui, as pessoas achavam que eu era maluco, porque eu achava que a França “O cara fica falando da França, qual que é?”. Aí fiquei alimentando, continuando a minha amizade com algumas pessoas de lá, principalmente um grande amigo chamado Ian, que é uma pessoa importante no que veio depois na minha relação com esse país, que eu admiro muito que é a França. Então, eu continuei através de carta, não existia internet, né, nessa época, durante tudo esses nove anos me comunicando com ele. Aí em 1999, eu e a Lurdes, a gente trabalhou bastante, fora o trabalho normal a gente fez outros trabalhos e aí a gente conseguiu uma grana, mas antes de 1999, voltar para a França, em 1994, eu e a Lurdes fomos para Cuba, surgiu aí, uma possibilidade de ir num congresso, que ela trabalhava com algumas pessoas que descobriram um Congresso em Solidariedade com Cuba e as passagens estavam bem mais a baixos, aí fomos eu e Lurdes para Cuba, num aviãozinho russo tudo apertado, eu morrendo de medo  cara daquele avião antigo. Aí chegamos em Cuba, muito legal cara, apesar de todas as consequências do embargo econômico, de todas as críticas justas que se pode fazer ao regime cubano, mas algumas coisas tem que bater palma, que mesmo nas dificuldades eles têm uns programas de educação, principalmente um, que é um que me interessa, legais. E lá, as pessoas podem estudar, não está como antes, devido às dificuldades não está tão legal como antes, mas deu para a gente ver, em 1994, os resultados de um programa de educação e que serviria de exemplo para nós, para nós o Brasil e em vários países do mundo, então voltamos de Cuba em 1996, aí eu fui com a banda para Cuba, fui tocar em Cuba. Eu voltei em 94, fui com a Lurdes para a gente conhecer, fiquei apaixonado, fiquei amigo de Cuba, solidário, acho que é injusto esse embargo econômico, enfim, fiz contatos que também é outra história, que nem sei se eu conto agora, mas tudo comigo é muito, acontece muito de improviso. Eu tentei apoio aqui, governamental, fui convidado para ir com a banda para Cuba, não consegui apoio do governo do Estado, do governo Federal, Municipal, não consegui nada. Aí tô andando, assim, na rua e vi uma agência de viagens, na Rua Sete de Abril. “Cuba, pô cara, vou entrar aqui mano, o que será?” (risos) Alguma coisa, sempre entrei nos lugares, subindo escada, elevador, fui entrando. Aí entrei e falei com um grande cara que me ajudou, cara, Roberto; o Roberto, proprietário da agência de viagem que fazia São Paulo – Havana, aí sentei com ele, falei para ele: “Olha, fui convidado pra ir para Cuba tocar lá num Festival de Guanabacoa, é uma cidadezinha do lado de Havana, cidade afro e ninguém arruma nada, como é que eu vou pra Cuba? Eles não podem pagar cache, não podem dar passagem.” Aí ele: “Interessante isso aí, hein, espera um pouquinho.” ele saiu, foi para lá, voltou e falou assim: “Nós vamos para Cuba.” (risos). Eu falei: “Não, o senhor não vai para Cuba.” ele falou: “Nós vamos para Cuba.”. Conclusão, o Roberto conseguiu um hotel em Cuba para gente tocar no hotel e se hospedar no hotel e conseguiu para a gente uma forma da gente, é... Como eu diria, da gente comprar, se é uma pessoa, é... Que trabalharia lá no Hotel, não receberia cachê e as passagens ele conseguiu um jeito lá, uma passagem, sei lá, promocional, eu sei que nós fomos parar em Cuba. Nós não ganhamos nada, mas nós fomos parar em Cuba com a banda, tocamos no hotel, eu tenho filme disso, era para ficar uma semana acabei ficando duas semanas, aí na outra semana eu fiquei hospedado no hotel, Copacabana o nome do Hotel, Miramar, em bairro de Miramar, tocamos, convivemos com os músicos, foi uma maravilha. Aí nessa outra semana eu saí do hotel e fui ficar com a família de Cubanos, ganhei a tia, Tia Alicia, ganhei primo, eu tenho família em Cuba já e convivi. Aí eu fui entender como que funciona aquele negócio da Revolução Cubana, como que aqueles produtores que chegam com as coisas para vender nas feiras, é, como que come nos restaurantes mais baratos, aquelas coisas todas, que aí fui entender um pouquinho porque que é assim e fala-se tão mal, né? Aí deu pra entender o sentido daquilo, mas muito difícil, para andar de carro, não tem ônibus, espera muito para ir daqui ali, tá o caos, tá difícil, mas eu convivi muito com os músicos, com a cultura afro-cubana, que é muito rica como a nossa aqui. Aí em 1999, fui para Paris para ficar na casa do Ian, esse grande amigo que já vivia com, fui eu e a minha esposa, eu e a Lurdes e fiquei três semanas em Paris e eu fui ficar uma semana em Londres, que eu fui convidado já que eu tinha feito um disco aqui, o segundo disco do meu grupo, agora eu mesmo, o primeiro foi o Milton Salles que produziu, aí eu fiz agora o “O moleque brasileiro”, que eu fiz uma viagem à minha infância, há um pouco dessas coisas que eu contei das ruas dos anos 60, no bairro da Penha, as ruas de terra e tive a felicidade do Oswaldinho do Acordeon colocar acordeon na música. Aí fui lá, três semanas em Paris, levei o disco, fiz divulgação, já do meu próprio disco, do meu grupo e fui tocar em Londres em um festival, que é um festival polêmico, que o marido da minha amiga, o Edi, que é advogado, ele é militante da descriminalização da Cannabis, e ele é advogado de vários artistas lá em Londres e eu fui parar nesse festival e eu conheci um outro negócio. Aconteceu um negócio que só comigo também lá, o Edi, como ele tem contato com os caras que nem o Gabeira aqui do Brasil, os caras dos partidos verdes, tem vários deputados lá em Londres que atuam a favor da descriminalização da Cannabis, não é liberação geral, não é isso, é não prender as pessoas, é... Com formas violentas. Até que em Londres as pessoas, é tolerado em alguns bairros lá, né, é outro mundo. E eu, a Lurdes, minha esposa, a Meire, que é a minha grande amiga também, me ajudou muito nessa minha história de vida musical, é... E o Ed, eu fui parar no Parlamento Inglês, não dentro, numa sala, aí nos reunimos com esses verdes e eu declamei um poema lá, eu falei da minha, do Brasil, do que eu penso sobre isso em forma de poema e a minha amiga Meire ia traduzindo, porque ela é poetisa, ela também me dá letras para mim musicar. Então, nós fizemos um showzinho lá no Parlamento, no Parlamento Inglês e já fui lá falar, representar o Brasil e todas as pessoas que pensam, porque eu também sou a favor da descriminalização, eu acho que existem coisas muito mais graves e eu acho que tem que ser repensado isso e eu sou uma das pessoas que acha que isso não é grave... Eu acho que, não é liberação geral, veja bem, mas eu acho que, é, até que mudou um pouco aqui a lei no Brasil, mas eu conheci pessoas que foram presas injustamente, que ficaram anos, porque não podia ter advogado, uns absurdos, as pessoas pobres, né? Bom, aí fiquei uma semana em Londres e o Edi, é, me levou na casa do percussionista do Jamiroquai e o percussionista do Jamiroquai joga capoeira e queria, ah, fazer uma classe de berimbau, queria fazer um workshop. Aí ele comprou meu berimbau, pagou bem e eu toquei berimbau com ele, é... E eu perdi o avião de volta, porque eu fiz confusão (risos), a minha esposa queria me matar, porque o feriado lá em Londres, quando cai sábado é comemorado na segunda, alguma coisa aconteceu e eu me atrapalhei com o dia, aí, eu, como não tinha muita experiência com vôo, né, pensei que eu tinha que comprar outra passagem. Aí fomos lá, a passagem tinha validade, aí conseguimos xavecar lá no balcão e não precisei pagar a taxa de embarque, não paguei nada, consegui consertar a situação.
P/1 – Ela foi com você para Londres?
R – A Lurdes também foi. Ela foi para Paris, foi a primeira vez que ela foi, porque era para ela ter ido em 1990, mas aí houve um problema lá, não deu para ela ir, ela ficou muito frustrada, aí em 1999, nove anos depois ela foi, aí já aproveitamos e fomos para Londres, então, ela conheceu Paris e Londres. 
P/1 – E daí de Londres vocês voltaram para o Brasil?
R – Aí nós voltamos para cá. Aí, fiquei aqui, foi quando  eu lancei, é, lancei esse disco lá, fiz divulgação desse meu disco, é... Que se chama “Moleque Brasileiro”, então, eu coloquei no disco as fotos de quando nós, os músicos, éramos crianças, então, tem a foto de nós, a gente adulto, aí foi quando nós conseguimos entrar no UOL, no portal da UOL. O pessoal da UOL me viu tocando com os Racionais e foi muito legal, foi em 1997, e... Aí me convidaram para colocar o site do meu grupo Jualê no UOL, aí nós entramos. Era o início do UOL, né, aí você clicava na minha foto e aparecia eu criança, aí você clicava no outro músico e aparecia; a gente fez uma interação, foi legal na época. Bom, aí fiquei aí, batalhando aqui, sempre pensando na França, aí meu francês já estava mais legal e tal, até que em 2002, um grande amigo também de novo, Luís Carlos de Paulo, um grande percussionista trabalhou muitos anos com grandes músicos daqui como Jorge Ben, ____________, Ivan Lins e tal, me convidou pra ir trabalhar em Mônaco, no principado de Mônaco, que ele, nós já tínhamos estado juntos lá nessa época de 89, 90, ele sempre ia para Europa com Jair Rodrigues, com vários músicos, aí ele passou lá, ficamos juntos e ele sempre também trabalhou por essa nossa ida para lá, então, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, todos esses anos nós fomos trabalhar a música brasileira em Mônaco e o destaque maior...
P/1 – Mas continuamente?
R – Todo ano, a gente ia no verão para lá, nessa temporada de junho, julho e agosto.
P/1 – Então, vocês passavam três meses...
R: Três...
 P/1 – Indo para o Principado de Mônaco...
R – Três. Principado de Mônaco, todos esses anos, 2002, três, quatro e cinco, só que 2005, foi o ano do Brasil na França, porque cada ano a França homenageia um país, então, acabei ficando oito meses, eles não deixavam a gente voltar, porque a gente estava com música brasileira e era o ano do Brasil e aí que aconteceu? Aí, a Lurdes foi para lá, a Lurdes foi para Mônaco aí, é... Aconteceu outra história. É... Ela foi para lá e eu tive que vir aqui para o Brasil, então, ela ficou com o Ian, esse meu amigo, lá, no bairro de Saint Denis, ótimo para ela, muitas lojas, muitas coisas da África, era o que ela queria. Ela ficou uma semana lá e eu vim até o Brasil, que eu tinha que fazer coisas aqui, aí eu marquei com ela, ela tinha que ir de Paris para Nice, que é no Sul da França, que Nice é a cidade da França mais próxima ali da cidade de Mônaco quando a gente chega de avião. Só que nós pegamos um vôo aqui, que eu não vou falar a companhia e era para a gente fazer escala em Frankfurt só colocaram a gente com escala em Madri porque houve uma confusão lá no embarque e ela foi para Nice sozinha e eu iria encontrar, eu tinha calculado que eu ia chegar até antes dela e como mudou eu tive que ligar para um menino lá de Mônaco, que gosta de reggae, (ragabundis?), sempre a música, ele é o Jay e eu pedi para ele ir ao aeroporto de Nice encontrar. Aí descrevi a Lurdes mais ou menos como que era e ela lá no aeroporto sem saber cara, esperando já uma hora e eu não chegava, ela estava desesperada, né, tudo novo para ela ali. Se bem que ela já estava uma semana lá, mas qualquer coisa ela saberia voltar para Paris. Aí o Jay chegou, se apresentou, ela ficou olhando aí, depois de umas quatro horas que eu fui chegar, aí ela ficou com a gente lá um mês, aí foi quando a gente, porque ali é tudo perto, né? Esse trabalho em Mônaco é um trabalho assim, é, foi uma surpresa para mim, o primeiro ano que eu fui em 2002, é... Eu não... Eu escutava falar de Mônaco, mas eu não imaginava, não imaginava ver o que eu vi de glamour, de riqueza e eu dizia pra mim mesmo: “É só a música, não tem outra explicação”, não tinha lógica, da onde... Aí que eu quero dizer, da onde eu nasci, eu cresci, a minha história de vida, e eu chegar a trabalhar em Mônaco, aí já falando francês, convivendo com pessoas do mundo todo e vendo que o que nós fazemos é agradável para as pessoas porque a nossa música é uma música universal, é uma música que agrada chinês, japonês, árabes, judeus, todo mundo adorando o que a gente faz lá, então, é... Isso foi uma conclusão muito gratificante pra mim, de fazer esse trabalho internacional e durante esses cinco anos que eu fui para Mônaco eu aproveitei para divulgar o meu trabalho próprio como músico, de compositor. Então, eu em 2003, eu fui para Londres novamente e comecei a fazer contatos com gravadoras para ver se eu conseguia lançar meu disco lá e o meu disco foi produzido aqui em São Paulo, por um grande produtor chamado DJ Cuca, que é da Black Music, que é da Cultura Gospel, é uma pessoa que já produziu grandes músicos aí, e ele fez um disco super legal, um disco de estúdio comigo, com bons músicos e a gravadora Map Music de Londres lançou esse disco lá, só saiu em Londres, não saiu aqui, e aí, em 2004, eu estava em Mônaco, aí eu comecei a me locomover lá na Europa, eu ia para Mônaco trabalhar e depois eu ia para outros lugares, aí eu já tinha aprendido como...
P/1 – Mas Mônaco você tocava em..
R –Hotel. P/1 – Em Hotel...
R – Mônaco a gente trabalha em hotel.
P/1 – E você tocava todos os dias?
R – Todos os dias, todos os dias, de segunda a segunda. É um trabalho muito disciplinado.
P/1 – À noite?
R – De dia e a noite. 
P/1 – Dia e noite?
R – São dois horários diferentes, trabalhos diferentes e... É um trabalho muito disciplinado, você tem que seguir todas as regras, é, é trabalho assim, chamado assim entre aspas, não gosto muito de usar esse termo, mas de Primeiro Mundo, como se chama assim, que eu acho que tem horas que nós somos primeiro mundo e eles são terceiro e tem horas que eles são primeiro e nós somos terceiro, então, para mim não funciona muito, mas é alto nível, é muita responsabilidade, tem que falar, tem que dominar a língua, ou inglês ou francês, é, tem que ser muito sério e competente, senão você não consegue trabalhar. Então, nas horas que acabava os trabalhos eu ia para outros países, foi quando eu comecei a ir para Londres em 2004, eu lancei o meu disco em Londres, com show lá, com show de música brasileira, chamei as meninas das escolas de samba, que eu adoro misturar tudo, chamei os capoeiristas; fiz vir à orquestra de berimbau; fiz jogo de capoeira; as meninas do samba; da escola de samba de Londres, que é escola de samba brasileira; toquei reggae; fiz uma festa brasileira; foi muito legal, não vou esquecer jamais. O (Andy?), o advogado da discriminalização da Cannabis foi quem produziu tudo junto com a Meire, que é minha amiga desde a época de estudante, ela é minha amiga e foi para Londres, à gente é amigo até hoje. Aí, depois eu fui para Paris e toquei em um grande Festival, que eu também não acreditei quando eu me vi, eu toquei no Fête de l'Humanité de l'humanité, que é o Festival do Jornal, é... Do Partido Comunista da França, que nesse ano de 2004, estava completando cem anos, então, eu toquei nesse Festival, não no palco principal, eu toquei no palco da música do mundo, então, toquei junto com latinos, grupos do Peru, Colômbia, Argentina, tudo, ali e eu fui o único brasileiro que toquei ali. E foi legal porque, ah, tenho outra história para contar, eu toquei com o  Rammstein, que é um baixista da Argélia e com o Frank Montgomery, que é baterista francês e... Nós, foi muito interessante, que a gente, nós não tivemos tempo para ensaiar e a gente ensaiou em uma mesa de bar (risos), “Vai ser assim, assim, assim. Tá legal? Tá, então tá, pum...”, aí, o Rammstein já é mais tranquilo porque ele é da Argélia e tal, mas o Frank foi surpresa, ele “Pô que legal, tô gostando disso aqui.”. Aí depois, que a gente fez o show que foi muito legal, cara, porque foi feeling puro, foi uma coisa que eles gostaram, que eles acharam “Pô, vocês do Brasil vocês são incríveis, como é que vocês fazem assim, tal.” Ele gostou de... E eu falei: “Gostou?” “Gostei, quero fazer outras vezes.” e eu fiquei muito feliz, que a gente fez um show legal e foi a primeira vez que eu toquei com, não tinha brasileiro comigo. Foi um, dois...
P/1 – Mas das outras vezes a sua banda estava sempre junto?
R – Não, é, quando eu fui para Mônaco eu toco na banda do Luís Carlos, eu vou tocar numa outra banda, a minha banda eu só fui para Cuba até hoje. 
P/1 – Entendi.
R – E quando eu toquei em Londres eu toquei sozinho, porque é o meu trabalho solo, porque para levar um grupo para o exterior, é, precisa muita estrutura, muita condição, então, como não deu para levar a banda, eu fui sozinho, já vou alimentando essa esperança que eu tenho, que eu tenho certeza que eu vou conseguir, eu tenho convicção né, convicção é certa, eu acho que nós vamos conseguir chegar até lá.
P/1 – E quando você voltava para o Brasil, daí você continuava o seu trabalho na...
R – Na minha banda
P/1 – Na sua banda e com a educação também?
R – Sempre com educação e também tocando com os rappers e outras pessoas que eu gosto e esse trabalho de arte-educação, de workshops, eu fiz também na França e fiz em Mônaco e já em língua francesa. Lá em Mônaco, eu fazia com as crianças ricas. Eu lembrava das crianças lá de Itaquera, eu falava “Pô, como é que é o mundo, né cara” e crianças assim que, é, eu conseguia, a gente fez um (sacorá?) é uma roda indígena, as crianças cantaram em tupi-guarani lá, um versinho, eu falei: “Ah é, então, vamos fazer uma coisa brasileira aqui.” e em Paris eu fiz workshop em uma cidadezinha chamada La Courneuve, que é um... Em Paris, é...  As subprefeituras existem mesmo, não é uma prefeitura que administra uma cidade e essa La Courneuve é uma cidadezinha do lado de Paris, assim, como se fosse à periferia de São Paulo, e eles têm orçamento próprio e tudo mais, então, eu fiz um workshop com os rappers lá e isso em 2005, em... No ano passado em 2006, eles nos convidaram para lá, eu fui para lá com seis, três rapazes e três meninas, eu fui dirigindo todo um trabalho de arte-educação até lá, nós ficamos uma semana com eles, lá no centro cultural deles, e aí no final de outubro do ano passado, eles vieram aqui, eles vieram em oito para cá, aí nós ficamos aqui com eles, durante duas semanas também. Não, nós ficamos uma semana lá e eles ficaram uma semana aqui. E o que me chamou a atenção nessa cidade La Courneuve, lá de Paris, é que o orçamento da cidade tem verba para fazer intercâmbio cultural, eles não só vieram no Brasil, eles já foram para outros países também e... E outra, eles nos levaram para lá, então, eles nos levaram com passagens de companhia de aviação numa época que sobram lugares, então, tem todo um estudo e que poderia ser feito aqui, de fazer os nossos jovens, por exemplo, de São Paulo irem para Manaus os de Manaus virem para cá, porque que, eu não sei como é um cara de Manaus cara, eu conheço cara de Porto Alegre, mas de Manaus eu não sei, não fui, não pude. Eu fui dez vezes para França e não fui para Manaus cara, tá errado isso aí, eu tenho que conhecer primeiro o meu país, mas tem que ter recurso e eu tenho certeza que essas companhias de aviação devem ter em algum momento, não sei agora, tá meio tumultuado, mas é que poderiam ter. Isso daí, eu acho que no meio estudantil é muito legal, você saber que você pode viajar e encontrar outros jovens de outro estado e trocar experiências, porque essa experiência que eu tive com essa cidade lá, que é do lado de Paris, onde é o é o estádio de France, o estádio onde o Brasil tomou aquele três a zero, aquele vexame lá, é ali que é o estádio de France, é a cidade La Courneuve, não, lá, é Saint-Denis, essa La Courneuve é do lado de Saint-Denis e... Eu me vi com esse intercâmbio finalmente, que começou lá no começo dos anos 80, indo nas escolas públicas aqui de São Paulo, ensinando a tocar berimbau, ensinando a tocar violão, cavaquinho, a construir instrumentos, isso vem, vem, vem, vem, vem em 20 anos e eu me senti realizado de estar representando o Brasil, é, de dirigir um grupo e ir numa outra cidade de um outro país e depois eles virem para cá e eu fazer toda a tradução, é, preparar o circuito cultural, porque lá, eles nos levaram no Louvre, eles nos levaram no estádio de France, nos levaram em outros museus, eles mostraram toda a estrutura que, como que se trata uma juventude e eu falava para os nossos jovens: “Olha só, olha o respeito que existe com os jovens aqui.” e são jovens imigrantes, jovens imigrantes tem um centro cultural, é, tem, pode ficar fazendo rap dentro do centro cultural, tem informática, tem auditório, tem aula de dança, tem e tem esse intercâmbio, de levar pessoas de outros países até lá. E depois, a própria prefeitura deles os trouxeram para cá, as passagens eles tem acordos, eles conseguem as passagens e aí, o orçamento é distribuído para uma série de coisas porque se você investe nos jovens você gasta dinheiro, mas acho que é melhor você gastar assim do que você gastar com presídio, com Febem e isso já se tornou um círculo vicioso, agora vai gastar duplamente, vai ter que continuar manter os presídios e investir no que eles deveriam investir antes. Eu acho que eu não sou economista, não sou político, mas, não sei, para mim é meio, parece que é meio lógico, é meio simples, é uma matemática arroz com feijão, entende? Então, fica aí a minha constatação de que se investir na criança e no jovem pobre com seriedade, com projetos mesmo, dele sentir respeitado, dele sentir que ele tá ganhando alguma coisa, por intermédio do esporte, por intermédio da música, da arte, ele vai ter isso dentro dele, ele não vai ser um problema para o país, agora, se não der nem o básico, depois vai ter que fazer presídio e também não vai resolver presídio, tá, você só vai engaiolar a pessoa e enfim, né?
P/1 – Mas desse, você ainda hoje é atua, é, com educação musical em São Paulo?
R – É, atualmente eu já estou em fase, que eu cheguei o ano passado e estou reestruturando, porque esse ano eu não estou indo para França, então, eu tô reestruturando o meu trabalho musical do meu grupo, que nós estamos voltando, vamos começar a gravar disco e já estou começando a organizar um novo grupo de arte e educação. Então, é... Agora estou é... Reorganizando para eu trabalhar na área do ABC, já tô retomando as coisas, talvez na zona norte, eu sempre fico procurando, daqui a pouco eu fixo um trabalho em um bairro e aí, agora eu já tenho uma atuação internacional com esse trabalho de arte-educação e eu quero chegar a outros países, então, estou fazendo contato também com alguns outros países aí, não posso afirmar nada ainda que eu estou começando, mas agora eu peguei a... Assim, a experiência de levar o trabalho de arte-educação do Brasil porque nós somos muito bons, eles ficaram assim impressionados com a nossa atuação lá no centro cultural deles, nós chegamos lá e tomamos conta do centro cultural deles e eles não entendiam porque nós fazíamos isso sem a ajuda da mairie. Mairie é a Prefeitura. Eu falei assim: “Não, porque no nosso caso, a Mairie atrapalha. É melhor assim.” e eles vieram para cá, com todo o suporte da Mairie, que é a prefeitura e lá, nós ficamos também é... Mas, é tudo, é, como fala, assim, é, é tudo, ah... Integrado, entende? O alojamento é integrado com a prefeitura, a empresa de aviação, os restaurantes é tudo integrado, então, fica fácil quando você tem as coisas integradas e não separadas. Então, o trabalho de arte-educação é ligado com o trabalho de esportes. Eles nos deram, eles têm um contato com a Puma, a Puma fornece o material esportivo para eles, eles deram de presente para nós, várias coisas. É essa integração empresa-Estado e população que é a minha esposa ela é uma batalhadora disso, que chama terceiro setor, é, eu estou aprendendo ainda sobre isso, mas eu tô vendo que tem sentido, é, Estado, as empresas e a população civil, que tem que haver um trabalho integrado e temos vários exemplos disso, que eu quero ver se eu consigo, por exemplo, conhecer de perto esse trabalho, de Cuba eu já conheci, Cuba é tudo ligado à escola, se você quer ser jogador de futebol você tem que fazer educação física, se você quer fazer músico você tem que estudar música, se você não estudar você não vai conseguir trabalhar, então, é integrado porque lá, é pequeno, tudo bem, mas tem um país grande que faz isso já de muitos anos, e a gente sabe, é um país que domina muito isso aqui, nos influencia muito, porque que não influencia nessas coisas boas? Por que lá nos Estados Unidos as pessoas, a rapaziada vai jogar basquete tem que ter um bom aproveitamento escolar e aí ganha bolsas para praticar esporte, vai morar em outra cidade, por quê? Não sei porque. Tá, aqui tem? Tem, mas é muito tímido, muito pequeno e eu estou vendo que a cada dia que passa eu me lembro do meu, dos anos 60, nas ruas de terra da Penha, e eu estou vendo que isso tá virando um papo de véio, e eu não quero ficar “Lá vem aquele tiozinho contar historinha lá do tempo da, né, da Penha lá.” não, eu não quero isso, eu quero que volte isso, eu quero que coloque a cesta na rua para os meninos ficarem fazendo cesta, eu quero que coloque rede de vôlei para as pessoas jogarem na rua, já que não vai construir centros esportivos, então, organiza as coisas para as pessoas, ah, viverem, né, e tem como fazer isso. Todo Estado tem dinheiro para fazer isso, e onde está o dinheiro? Eu sei, eu tô vendo aí, aonde tá indo o dinheiro, então, tem essa experiência internacional agora com a arte-educação tá fazendo com que o menino que veio da classe pobre, que vem de uma situação de órfão de guerra, eu sou um órfão de guerra, eu sei que eu sou um órfão de guerra como outros, e... Eu vejo que é por destino, por sorte, e não por Estado, não pela ajuda do Estado, não por outras organizações institucionais eu fui me tornando uma pessoa que além de ter a minha profissão, eu ainda faço uma contribuição, ela é paralisada às vezes, às vezes uma escola não vai além, eu sei que ela não pode ir porque a estrutura tá errada, mas eu não perco, eu não perco a responsabilidade de tentar continuar, colaborar com isso, porque eu sou casado com uma pessoa que faz isso, então, nós lá em casa a gente é isso, ah, o que a gente faz na vida não pode ser só para nós porque se nós pensarmos assim a gente vai tá repetindo os erros, então, tem que haver um, a gente tem que devolver isso de uma certa maneira para o mundo que a gente vive, e no caso do Brasil, é um país maravilhoso, eu só tenho a dizer isso, eu que já viajei, assim, para o exterior eu tenho que dizer, o nosso país é maravilhoso, as pessoas são legais, mas se não cuidar eu não sei o que vai ser, a gente já tá vendo aí, no que tá se transformando, em alguns aspectos tá muito ruim, mas ainda dá tempo de cuidar se corrermos, acho. 
P/1 – Essa consciência tua de todo teu passado, toda tua história...
R – Sei...
P/1 – Que você contou aqui hoje...
R – Ahan...
P/1 – Ela é, é justamente essa consciência que te traz mais também, consciência da responsabilidade do papel que você tem...
R – Sim...
P/1 – Como músico e como arte-educador?
R – Sim, eu acho que, ah, se... É... Não fossem essas pessoas, porque quem fez o papel para mim foi à sorte que eu tive de encontrar pessoas e eu não sei se todo mundo vai ter a sorte que eu tive de encontrar pessoas, mas eu fui encontrando e continuo encontrando, sabe, é, isso foi permanente na minha vida, se não, é, se eu não tivesse a sorte de encontrar pessoas, eu não sei se eu estaria aqui agora, e eu não sei se é todo mundo que encontra pessoas, então, eu quero ser uma dessas pessoas, para as pessoas. E tem um verso que... Ah... Que “músico que não ensina soa falso harmonizar.”. Isso para mim é básico, é ponto número um, “músico que não ensina soa falso harmonizar.” então, é, nós temos responsabilidades como adultos, eu acho que, é como eu falei no início, eu desde o início, a própria vida, a minha história de vida, a minha consciência pessoal, o meu jeito de lidar com as coisas foi me levando a não me deixar levar por esse outro lado de querer ser famoso com música, de ficar distante da pessoa, de ficar num... Outro andar, entendeu, eu nunca deixei isso acontecer, eu saio para a rua, em qualquer lugar do mundo eu pego ônibus, eu faço tudo que uma pessoa comum faz, eu não deixei e nem vou deixar, isso não aconteceu comigo, né? Então, eu pude fazer sempre esse trabalho de arte-educação junto e tentando colaborar com o meu país, com a minha cidade e com o meu bairro, mas nem sempre com satisfação porque a estrutura tá errada, eu não vejo integração, eu fiz muitos trabalhos que ficaram perdidos, compraram material e ficou largado lá na sala, gastaram dinheiro público com material, isso é, para mim tudo é absurdo, mas é um erro de estrutura do Estado, da instituição, tá errado. E eu acho que eu tô vendo alguns músicos famosos se manifestando com relação ao patrimônio musical, cultural, eu tenho, assim, sempre a esperança de que a sociedade civil, nós, pessoas, a gente tá cada dia mais indignado e nós vamos de uma certa maneira, é, dar uma resposta, dar um sentido. Eu acho que as pessoas tão aprendendo a votar, por mais ainda que seja lento, a gente tá tornando cidadão cada dia mais, é lento, não sei se essa lentidão, é, vai ser muito negativa, mas tá lento (risos), poderia ser mais rápido, eu gostaria que fosse mais rápido.
P/1 – E nesse, então, assim, a gente fez um panorama da sua vida. Eu queria que você pegasse um pouquinho, tentasse...
R – Ahan...
P/1 – Se você tivesse alguma coisa mais que você pudesse colocar, pontuar, continuar tocando ou não, sobre um momento da tua vida que foram..
R – Sei, importantes?
P/1 – É.
R – Bom, eu acho assim, que o primeiro, o momento importante é... É a minha infância...
(Troca de fita)
R – Ah, as músicas, é, que influenciaram minha vida, que tem músicas de outros autores e músicas próprias, né, uma música própria, que marcou muito a minha forma de fazer música é que é a soma de uma série de influências, que é a poesia e música juntos, então, são vários poetas, é, assim, nacionais, né, e... A música internacional, que começou a existir a partir dos anos 90, com essa forma de você usar a música para expressar a poesia, que aí, o nascimento do doble poetry que é um estilo jamaicano e que, diz a história, que foi um grande influenciador para o surgimento do rap, que também partiu da Jamaica para os Estados Unidos. Então, um poema que chamou minha atenção é o poema Regai por Nós do meu parceiro Arnaldo Xavier e que eu musiquei que, aqui no Brasil, foi o primeiro (dolby poetry?) que foi gravado, né? Que é mais ou menos assim, só vou dar uma palhinha (o entrevistado toca violão e canta) “Regai por nós, regai por nós, os pirilampos brilhos amplos negros campos de um senhor fora de lei, em nome do pai, do filho do espírito canto, do povo brasileiro cheio de luz, no toque de pedra do Pedro da tocha acesa, Peter toche, no toque de pedra do Pedro da tocha acesa Malcom X, em nome do menino rapper morto no metrô em legítima tristeza, em nome dos moleques de rua mortos nas esquinas em legítima tristeza. Regai por nós, regai por nós.” E aí ela vai...
P/1 – E essa música foi a primeira que você musicou?
R – O primeiro poema que eu musiquei e que eu levei muito tempo para musicar e que é do paraibano Arnaldo Xavier. Aí, depois eu fui musicando outros dele e da Meire Gonzaga de Londres e de livros também, aí eu comecei a pegar, é, essa fórmula de musicar poemas, né, então eu...
P/1 – Isso foi em que ano?
R – Isso daqui? 1900 e.. Quando eu voltei da França, 1990, né, que eu voltei da França, que eu vi isso lá, entendeu, eu vi que estava surgindo esse movimento musical de poesia com música que é o rap, e que também no reggae tem isso, então, eu fui, vamos dizer assim, um dos pioneiros do reggae a fazer esse tipo de mistura de música e poesia, você declamar a poesia com o fundo reggae, com a base reggae.
P/1 – E qual a dificuldade de você musicar uma poesia?
R – Eu acho que primeiramente é você ser fiel ao autor, você não modificar o poema; e segundo porque leva tempo para você, é... E eu acho uma aventura eu entrar dentro de um poema, que você escreve. Imagina, eu entrar num poema de uma mulher, que escreve poema que nem a Meire, a Meire escreve poemas como mulher, ela é mulher e eu tenho que entrar dentro de um poema do qual não é minha maneira de escrever, eu acho isso um desafio, eu tenho que buscar sonoridade para aquelas palavras, o poema é, ele é repleto de sentimentos e o sentimento de um homem é uma coisa, de mulher é outra, isso para mim passou a ser desafios. Primeiro, com o Arnaldo que ele é, ele, a poesia dele é concretista, não é uma poesia comum e no caso da Meire, que é uma poesia feminina.
P/1 – Mas nesse sentido, tem alguma que tenha te tocado especialmente, assim, de sentimento, aquela coisa de você falar assim “Não, essa poesia realmente me marcou profundamente.”?
R – A minha própria. Quando eu fiz uma homenagem ao meu tempo de criança, mas, e que o Osvaldinho tocou acordeon. (Entrevistado toca violão e canta) “Eu moleque brasileiro quer uma bola aqui na terra e uma pipa lá no céu, eu moleque brasileiro quer uma bola aqui na terra e uma pipa lá no céu, aqui na terra o moleque é o rei da bola, toca bola faz firula, embaixada e outras mais, rola na ginga, cai pra ponta, dribla os dois, cruza na área, ou então, marca seu gol. Já no campinho tem um show de meia lua, bicicleta, calcanhar só de ladinho. A qualquer hora pode começar um (babo?), uma pelada, um racha, um treininho. E o moleque brasileiro quer uma bola aqui na terra e uma pipa lá no céu, e moleque brasileiro quer uma bola aqui na terra... Aí senhores, deixa o moleque brincar.” (risos).
P/1 – O que é essa música, porque essa poesia te marcou?
R – Porque eu viajei dentro, na minha infância, em todas as brincadeiras de rua, lembrei de todos aqueles momentos nas ruas de terra, de todas as brincadeiras, gude, queima, taco, pipa, balão; e a segunda parte da música fala das pipas, que a gente faz uma guerra de pipa no céu e que é uma homenagem a essa entidade brasileira que é o moleque, ele deixa as ruas de São Paulo, da periferia, mais bonita, brincando, a gente passa, eles tão lá numa pelada ou tão soltando pipa, agora já em cima das lajes, chega a cair das lajes mas, é, ele embeleza, né? Eu acho que as crianças, as meninas com as brincadeiras, os rapazes, eles embelezam a vida, né, e com pouco, com brincadeiras, então, eu senti um sentimento de gratidão, por eu ter tido essa, essa, todas essas brincadeiras na minha vida, né, e que me ajudou a curar uma chaga, isso me fez, é, renascer, né? Eu como criança, medroso, com medo de uma coisa que amedronta mesmo a violência, mas eu fui, graças a esse ser criança, a esse tempo que eu vivi eu falei: “Eu tenho que fazer uma música.” Eu batizei a música de moleque brasileiro.
P/1 – Essa música você considera que também ela te ajuda a curar esse trauma?
R – Eu tenho certeza.
P/1 – Ela é quase que uma homenagem também para o seu pai?
R – Não, homenagem ao meu pai eu não pude ainda, eu tenho ainda que fazer isso e eu acho que não consegui condições ainda, mas...
P/1 – Eu digo assim por você ter essa música ter te ajudado a...
R – Sim, sim, acho que nesse ponto sim, mas o que eu gostaria de fazer pra ele ainda acho que vai ser um blues ainda. É um projeto ainda, mas, é... Que foi muito cedo, eu não tenho boas lembranças, eu tô caçando, né, vivo mais de perguntas, então, tô caçando com as pessoas da minha família e tudo que eu tenho escutado é muito legal, então, tô batucando ainda, num... E vai ser difícil, porque é delicado, entende, mas com a música tudo é possível (risos). Com a música e com a poesia.
P/1 – Tem alguma coisa a mais que você queira falar, que você queira pontuar, que você acha que...?
R – Olha
P/1 – Como é que foi a experiência de rever tua história hoje aqui?
R – É... A experiência foi, assim, emocionante, gratificante, eu acho que me emocionou, acho que esse trabalho que vocês fazem é super importante, né, porque vocês mexem com ser humano, isso é o que existe de mais precioso, né, e para mim foi viajar no tempo, voltar. Eu particularmente penso sempre nesse tempo passado porque eu como falei; eu que acho que eu tive sorte de encontrar pessoas e de ter aproveitado a vida, eu me considero uma pessoa que eu aproveitei até agora e tenho muito que aproveitar ainda, mas principalmente essa fase de ser criança e ser adolescente que para mim foi, é muito intensa, eu aproveitei bem. E o que eu gostaria de dizer é que eu gostaria que as crianças e os adolescentes hoje pudessem aproveitar a vida com, com objetivos, com alguma coisa que vai ser útil lá na frente, que ele possa utilizar isso para ele, para a vida profissional dele, para formação dele mesmo, né, e é o que eu... É, às vezes, é... Me decepciono por falta de ver resultados nisso na nossa terra, mas, é, a música me dá forças para sempre estar ali ou aqui buscando colaborar para que isso aconteça. Eu acho que, eu não sou muito sonhador não, eu acho que eu sou uma pessoa realista, eu acho que eu sou muito mais consciente da minha cidadania hoje e ver e poder dizer que eu tenho uma experiência internacional onde eu já vi que as pessoas podem ser muito mais respeitadas do que são aqui nessa terra, e elas tem direito, e não precisa de violência, não precisa fazer como Che Guevara, que eu sou fã, nem acho que dá mais para fazer o que ele fez, acho que foi naquele momento histórico, mas a gente não pode ser, é, uma pessoa que se cala porque quem cala consente e que acho que nós temos que, ou com a música, ou com o teatro, ou com qualquer profissão, médico, enfermeiro, professor principalmente, cada um tem uma grande contribuição como adulto a dar à essa terra e a gente tem que superar todas as diferenças. Eu tenho muitas diferenças para superar porque tenho a minha experiência de vida e as discrimações eu conheço uma por uma e eu acho que cada brasileiro tem algo a superar, a aprender e colaborar. Se nós conseguirmos isso daí eu acho que a gente vai poder ter um país legal como ele é mesmo, não porque passa na televisão como legal, e que não é, e que não está sendo, então agradeço a vocês aí, a oportunidade e admiro o trabalho de vocês e vou tentar conhecer as histórias de outras pessoas que vocês já entrevistaram porque eu só fã das pessoas. Valeu, obrigado.
R – Obrigado.

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