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História

Toninho Contador, a profissão que virou sobrenome

História de: Antonio Fernandes Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/05/2004

Sinopse

Infância e juventude na zona rural de Poços de Caldas (MG). Brincadeiras. Pontos turísticos da região. Agricultura familiar. Paquera em torno da praça. Mudança para São Paulo. Estudos na área de contabilidade e trajetória profissional em indústrias farmacêuticas e aposentadoria. Casou-se e teve dois filhos.

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História completa

P/1 – Stella Franco.

 

P/2 – Immaculada Lopes.

 

R – Antônio Fernandes Filho.

 

P/1 – Então, seu Toninho, para a gente começar, eu gostaria que o senhor dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Antônio Fernandes Filho, Campestre, Minas Gerais, 06 de dezembro de 1943.

 

P/1 – E o senhor chegou a conhecer os seus avós?

 

R – Eu conheci meus dois avôs e nenhuma das duas avós.

 

P/1 – O senhor conhece a história da origem da sua família, de onde os seus avós vieram, qual a ascendência deles?

 

R – Não, não me lembro.

 

P/1 – E o nome de seus pais?

 

R – Meu pai chama Antônio Fernandes Souza Filho e mamãe Efigênia Conceição de Jesus.

 

P/1 – Eles são de onde? Lá de Campestre também?

 

R – São de Campestre.

 

P/1 – Certo. Quanto tempo o senhor passou em Campestre?

 

R – Na verdade, em Campestre, eu fiquei mais ou menos... Saí, a minha família saiu, os meus pais saíram eu tinha três anos de idade.

 

P/1 – O senhor tem alguma lembrança de lá, da casa, alguma memória escondida?

 

R – Não, eu não conheço... Só conheço a cidade, mas depois, já de mocinho, que a gente retornou, tudo, mas nessa época de infância eu não me recordo, não tenho lembrança assim.

 

P/1 – O senhor sabe porque os seus pais decidiram mudar de lá quando o senhor tinha três anos de idade?

 

R – Meu pai era sitiante, ele vendeu as terras que ele tinha e veio tentar uma vida nova em Poços de Caldas. Essa é a história.

 

P/1 – Daí, já morava na cidade, em Poços de Caldas?

 

R – Já morava na cidade de Poços de Caldas.

 

P/1 – Ele era sitiante e fazia o que no sítio? O que tinha, alguma produção?

 

R – Ele era plantador de batata..[risos]. Batata e café.

 

P/1 – E vendia a batata e o café, não?

 

R – Vendia, vendia.

 

P/1 – Para quem?

 

R – Vendia para atacadista, atacadista. Na época já existia a figura de atacadista.

 

P/1 – Entendi. Além do senhor, tem outros irmãos?

 

R – Tenho. Nós somos em seis do primeiro casamento de meu pai e do segundo casamento mais duas garotas. Então, são oito. Empate; quatro homens e quatro mulheres.

 

P/1 – O senhor é filho do primeiro casamento?

 

R – Sou filho do primeiro casamento. Sou o do meio.

 

P/1 – Do meio?

 

R – Do meio.

 

P/1 - Todos homens, seu Toninho?

 

R – Não, do primeiro casamento são duas moças, duas mulheres, né? E quatro homens. E do segundo casamento, duas mulheres.

 

P/1 – Certo. E em Poços de Caldas, o senhor lembra da casa onde o senhor morava?

 

R – Lembro, lembro.

 

P/1 – Como é que era?

 

R – Era uma casa bastante simples, com uma chácara grande. Ela ficava no fim da Rua Assis de Figueiredo. Assis Figueiredo, para quem não conhece Poços de Caldas, é uma avenida que atravessa a cidade de ponta a ponta, vai do morro a outro morro, porque lá só tem morro [risos].

 

P/1 – Como é que era na infância? Enfim, brincar nesses morros?

 

R – Era gostoso. Daqueles morros, era andar de carrinho de rolimã, que tem bastante. O duro é carregar, mas quando a gente é menino, a gente faz de tudo. Então, muito gostoso brincar de carrinho de rolimã, atrapalhar os vizinhos [risos].

 

P/1 – Mas com carrinho de rolimã, não?

 

R – Com carrinho de rolimã.

 

P/1 – Por que atrapalhava?

 

R – Porque lá tinha muita calçada, que é igual a um tablete de chocolate, aqueles quadradinhos, então era uma delícia passar lá, faz um barulho! (Entrevistado vocaliza o som do carrinho de rolimã nas calçadas)  Um barulho enorme, enorme [risos].

 

P/1 – O morro que o senhor fala já era todo ocupado, dentro da cidade?

 

R – Não, dentro da cidade era descida, não é morro, é descida[risos].

 

P/1 – Ladeiras?

 

R – Não, descida mesmo. Tinha ladeira também.

 

P/1 – O senhor falou que essa casa tinha uma chácara do lado, é isso?

 

R – Não, a chácara era do meu pai. 

 

P/1 – Já era fora da cidade?

 

R – Não, era dentro da cidade, mas bem retirado porque, na época, nessa cidade, quase todo mundo tem uma chacarazinha. No interior usava-se muito.

 

P/1 – As crianças iam para a chácara, não?

 

R – Que crianças?

 

P/1 – Vocês. Ou seja, crianças, os filhos? 

 

R – Não, não.

 

P/2 – O senhor, os seus irmãos iam para a chácara? 

 

R – Não, a chácara, a gente residia nela.

 

P/2 – Ah, a casa era uma chácara. Ah, eu pensei que era uma casa e uma chácara.

 

R – Não, não, não.

 

P/2 – Entendi.

 

R – Essa primeira nossa ficava num bairro que se chama Serrote. Depois, nós saímos dessa, nós fomos para um outro bairro, que se chama Jardim do Estado, que também era casa com chácara, tudo junto. E dessa chácara aí, o meu pai, praticamente, tirava o sustento da família, cultivando legumes, verduras, frutas.

 

P/1 – E vocês ajudavam nesse cultivo?

 

R – Ajudava. Bastante.

 

P/1 – Como é que era? 

 

R – Bastante.

 

P/1 - Você poderia contar um pouquinho?

 

R – Tem a época... Vou contar aquela que, no entender do meu pai, dava mais dinheiro para ele. Seriam as plantações, por exemplo, alface. Ela não se dá com o frio e lá é frio. Então, ele chegava à tarde, olhava no céu: “Vamos cobrir as alfaces, os canteiros de alface, porque vai giar.” Então, lá vai toda a família cobrir os canteiros. Depois, de manhã, às seis horas, joga água em cima para pegar, não queimar. Nessa parte, a gente trabalhava junto com ele, nesse sentido.

 

P/1 – Entendi. Assim, além do carrinho de rolimã, tinham outras brincadeiras de infância? 

 

R – Tinha o de rolimã, trolinho, papagaio, que hoje se chama pipa, né? Nós chamávamos de papagaio. Pião, bolinha de gude. Cada época tem a sua época. Então, a gente ia virando, uma vez era carrinho, outra vez era trolinho, outra vez era pião, outra vez bolinha de gude, outra vez pipa. 

 

P/2 – O que era o trolinho?

 

R – Trolinho é um carro de madeira, com roda de madeira, maior do que o carrinho de rolimã que cabe uma pessoa. Aquele lá levava dois, três moleques. Então, maior, né? [risos]

 

P/1 – O senhor que puxava, alguém puxava o trolinho, não?

 

R – Não. A gente subia o morro e descia em cima dele[risos].

 

P/1 – E seus pais? Como é que eles eram? Eram severos ou eles liberavam os filhos para as brincadeiras?

 

R – Não, meu pai era… A minha mãe era severa, mas não era severa por causa das brincadeiras, era severa na educação, no respeito, no trabalho. Agora, meu pai não. Meu pai já não incomodava muito.

 

P/1 – Já era mais...

 

R -  Mais liberal... Ele era tranquilo. Agora a minha mãe, a minha mãe realmente ela era bastante severa, bastante.

 

P/1 – E quem cozinhava em casa, seu Toninho?

 

R – Minha mãe.

 

P/1 – O que ela fazia de gostoso? O senhor tem uma lembrança de uma comida, especialidade?

 

R – Minha mãe cozinhava muito bem. Uma das coisas que ela fazia era rosca. A rosca dela era uma delícia, uma delícia! Até hoje, minhas irmãs não conseguem fazer igual[risos].

 

P/2 – Era recheada? Com cobertura? Como é que era?

 

R – Não, não. É, cobertura com açúcar, camada de ovos em cima, todo esse negócio. Aquela  trançadinha.

 

P/2 – Para comer com café?

 

R – Comer com café.

 

P/2 – O senhor se lembra dessas tardes de café, na casa de infância do senhor? Vocês sentavam todo mundo em volta da mesa, como é que era?

 

R – Não, não era. Normalmente, sentava para comer o almoço e o jantar, mas o restante, a gente saía muito, não ficava dentro de casa. Então, às vezes, a gente nem vinha. Vinha, comia e já saía novamente.

 

P/2 – Não ficava muito tempo dentro de casa, então?

 

R – Não, não ficava.

 

P/1 – E de final de semana, domingo, tinham aqueles almoços tradicionais?

 

R – Tinha, no domingo, frango..[risos]. Isso não podia faltar! Tinha comida diferente...

 

P/1 – O que mais que tinha de diferente, além do frango?

 

R – Tinha o arroz, o feijão, que o mineiro não dispensa nenhum dos dois, né? O frango com quiabo. Então, essa era a diferença.

 

P/1 – O senhor contou do céu de Minas, né? Eu queria que o senhor descrevesse um pouquinho como é que era esse céu, final de tarde. Enfim, por que o senhor acha que o céu era diferente lá?

 

R – Quando eu estava no Ginásio, e nós saíamos, um grupinho, e depois cada um tinha um ponto que a gente separava depois, separava cada um para sua casa. A gente ficava à noite, ficava olhando no céu, contando as estrelas, olhando o Cruzeiro do Sul [risos].

 

P/1 – Um grupo?

 

R – Grupo.

 

P/1 – Meninos e meninas?

 

R – Não. Só menino, só menino, só menino. 

 

P/1 – Tinha… Andava separado assim, seu Toninho, um grupinho de meninos, um grupinho de meninas? Nunca se misturava?

 

R – Era bem diferente de agora, né? Não tinha, mesmo a própria ligação da gente, a formação da gente era diferente. A gente era mais para o espírito mais de moleque, mais levado, mais arteiro, andar de bicicleta, apertar a campainha à noite. Fazer o zelador da escola, às vezes até o vice-diretor, acompanhar a gente para descobrir as reclamações, quem é que estava fazendo..[risos].

 

P/1 – O senhor foi para a escola com quantos anos?

 

R – Entrei com idade normal, sete anos.

 

P/1 – O senhor lembra do nome da escola?

 

R – Eu estudei no que chama David Campista, que é um Estadual, estudei também no... Isso é o primário, aos quatro anos Primário. Também estudei no Francisco Escobar.

 

P/1 – Esse era... 

 

R – Era também.

 

P/1 – Também público?

 

R – Público.

 

P/1 - E como é que era na primeira escola, no Primário, o senhor tem lembranças? Se era muito rígido o ensino, se os professores cobravam muito?

 

R – Olha, o primeiro Primário, eu não falo nada se era rígido, nem rígido porque eu não assistia aula, eu ficava só voando, só flutuando[risos]. Não fazia nada. 

 

P/1 – Não ficava concentrado.

 

R – Não, não, não prestava atenção, nem sabia o que a professora estava ensinando. Agora, já depois de repetente, não achava assim tão rígido não, viu? Não encaro.

 

P/1 – O senhor repetiu muitos anos, seu Toninho?

 

R – Repeti duas vezes.

 

P/1 – E o pai e a mãe, ficavam bravos, não?

 

R – Ficavam, ficavam. No David Campista, eles me tiraram de lá. Tive que ir para esse Francisco Escobar, que era mais perto da minha casa. Bom, eles que decidiam, né? Não sei porquê[risos].

 

P/2 – Como é que o senhor ia para a escola? Era a pé?

 

R – A pé.

 

P/2 – Tinha uniforme, o senhor lembra?

 

R – Tinha uniforme.

 

P/1 – Como é que era esse uniforme?

 

R – Calça azul marinha e camisa também azul marinho. Tudo azulão[risos].

 

P/2 – E a mãe que cuidava do uniforme do senhor?

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – Tem algum professor que tenha marcado o senhor, que o senhor lembre? Ou por ser um bom professor ou por ser aquele traumatizante?

 

R – Não, tinha... A minha primeira professora já... A primeira não, a segunda. No primeiro ano Primário, ela se chamava Dirce, ou chama Dirce, não sei se ela está viva. E como eu já era repetente, então sabia alguma coisa, eu conversava muito. Então, de vez em quando, ela arranjava alguma desculpa para mandar eu na casa dela, pegar algum material que ela tinha esquecido, só para se ver livre de mim [risos].

 

P/1 – A intenção dela era manter o senhor longe, então. Não dentro.

 

P/2 – O senhor aprontava muito na sala de aula?

 

R – Oi?

 

P/2 – O senhor aprontava muito, conversava muito?

 

R – Não, eu conversava e brincava demais e não prestava atenção. Chamava atenção dos outros. Eu não era muito certinho não, quando eu era moleque[risos].

 

P/1 – Seu Toninho, eu queria que o senhor descrevesse um pouquinho como era Poços de Caldas nessa época do Ginásio, como é que era a cidade?

 

R – A cidade, quando eu vou lá, eu falo que eles acabaram com a minha cidade, né? Acabaram com minha cidade porque ela tem Cartão Azul, lombada, tem contramão, farol, tem o diabo. Está igual a uma cidade grande. Então, eles acabaram com minha cidade. Foi agora, em fevereiro, eu estive lá, eu cheguei numa sexta-feira após o almoço, olha não dá para transitar na cidade, não dá, não dá! Um movimento de carro, de pedestre. Então, acabaram. Na época do Ginásio, era uma delícia porque veículo não existia, praticamente, poucos. O negócio era bicicleta. Então, quem tinha uma bicicleta, estava bem [risos]. E, quem não tinha, era ônibus, ou andar de charrete, que era um meio também de locomoção. Nessa época aí, que eu estou falando, são uns 45 anos atrás.

 

P/1 – O senhor ficou até adolescência lá? Com quantos anos o senhor mudou de lá?

 

R – Com 22. 

 

P/1 – 22.

 

R - Aproximadamente 22 anos.

 

P/1 – Então, a adolescência o senhor passou lá?

 

R – Todinha.

 

P/1 – E como era essa questão das paqueras, namoro, bailinho na época da adolescência? Tinha isso?

 

R – Tinha, tinha, tinha bastante, bastante. Aliás, era o que tinha, era isto, porque não tinha outro meio. Então, era festinha de aniversário, matinê, cinema à noite, bailinhos... Festa assim, às vezes, falava: “Vamos fazer qualquer coisa”, já ia um na casa do outro e fazia.

 

P/1 – Tinha clube, não?

 

R – Tem ainda que é o clube que se chama Country Club. Ele existia e existe até hoje, por sinal, muito bonito.

 

P/1 – Você freqüentava, não?

 

R – Freqüentava, principalmente, jogar futebol.

 

P/1 – Mas onde que era o point assim, da rapaziada, da juventude.

 

R – O point nosso era o seguinte: ia no cinema, na primeira sessão; aí, terminava a primeira sessão, a gente ia para praça, se encostava lá e ficava andando. As moças, a gente, ficava passeando até às dez horas, dez e meia, depois... 

 

PAUSA

 

P/1 – Era o footing, né? Não era footing que chamava? [risos]

 

R – Chamava footing e tinha diferença de quem tinha um poder aquisitivo um pouquinho maior, eles andavam na calçada, e quem tinha menor andava na rua. Asfaltaram, tudo bonito. Inclusive uma praça bonita, é bonita.

 

P/1 – Mas tinha essa divisão da calçada e da rua? 

 

R – Tinha, tinha divisão.

 

P/1 – Mas era oficial isso ou acaba tendo?

 

R – Nasceu, nasceu, nasceu, nasceu.

 

P/1 – Como que é? Eu não entendi. Quem tinha mais dinheiro...

 

P/2 – As famílias mais ricas, o pessoal andava na calçada.

 

PAUSA

 

P/1 – Então, o senhor estava falando do footing, que as pessoas iam passear. Como que é... O senhor pode repetir essa história de que tinha... Enfim, uma separação entre a rua e a calçada? Por quê?

 

R – Todo mundo lá, ou ia no cinema, ou talvez já nem ia ao cinema, já ficava direto na calçada. Mas o maior movimento mesmo era após a sessão, a primeira sessão, até nove horas, nove e meia. Então, havia uma separação... Não sei se alguém fez ou foi naturalmente. Um, que tinha um poder aquisitivo um pouco maior, andava na calçada, no passeio mesmo, e aqueles outros, depois tinham outros. A separação acabava no asfalto.

 

P/1 – E tinha essa coisa dos moços ficarem encostados e as mulheres, as moças...

 

R – Justamente, era isso mesmo. Então, ia um quarteirão, chegava lá, retornava, voltava. Essa era a diversão.

 

P/1 – E como é que paquerava? Dava uma piscada, não? Com é que acontecia isso?

 

R – A gente olhava, sorria [risos]. Mas só bem por aí. Não me comprometa, né? [risos]

 

P/1 – É verdade. Mas seu Toninho, só mais uma coisinha, tinha uma roupa... Não, eu estou falando do geral, não é o senhor só, a turminha, não é dona (Zumira?), toda a juventude [risos] tinha uma roupa especial de passeio, não?

 

R – Não, não tinha. 

 

P/1 – Não?

 

R – Não... Isso, eu não lembro que existia. É claro, a gente saía com uma roupa bonitinha, mas todo mundo fazia isso. E até hoje lá é mais ou menos assim.

 

P/1 – É um ponto turístico, Poços de Caldas?

 

R – É um ponto turístico.

 

P/1 – E já era nessa época?

 

R – Era. 

 

P/1 – Por quê? Qual que é a peculiaridade da cidade?

 

R – Ela tem as águas sulfurosas, tem as termas que, tanto ela acolhia pessoa de idade, que faz esse tratamento com essas águas, e também o próprio modelo da cidade que pegava muito os casais, lua-de-mel. Há pouco tempo, há pouco tempo não... Esse rapaz que faz Cidade Alerta, como é que ele chama? Datena, ele passou a lua-de-mel em Poços de Caldas [risos]. Ele falou no ar.

 

P/2 – A Fonte dos Amores.

 

R – É, a Fonte dos Amores. Tem bastante lugar para turismo, né?

 

P/1 – Certo. E com quantos anos mesmo o senhor... 22, o senhor saiu de lá?

 

R – É, aproximadamente 22.

 

P/1 – Conta um pouquinho dessa mudança. Para onde o senhor vai, por que o senhor muda de lá?

 

R – Aí acontece uma coisa gozada. Eu estava fazendo o segundo técnico de Contabilidade e a gente não tinha... Eu não tinha a perspectiva assim, de conseguir alguma coisa melhor. Então, já era costume mesmo, a gente já tinha amigos, estavam aqui em São Paulo. Eu falei: “Vou terminar, concluir o meu curso em São Paulo.” E vim, vim para cá.

 

P/1 – O senhor foi morar aonde aqui?

 

R – Eu fui morar na... Numa pensão na rua Maranhão, em Higienópolis, em frente a Igreja Santa Terezinha, que não tem mais. Agora é um prédio lá.

 

P/1 –  O senhor já tinha vindo para cá?

 

R – Eu tinha vindo, mas para assistir futebol, só. De lá para o Morumbi, do Morumbi para Poços. Assim, conhecer a cidade, eu não conhecia.

 

P/1 – Qual foi sua primeira impressão da cidade de São Paulo, chegando aqui?

 

R – Olha, eu não fiquei impressionado porque eu tinha amigo que estava aqui, que trabalhava aqui, falava para gente, entendeu? Foi muito mais a gente in loco ver mesmo o que era o que a gente já sabia, supunha. Agora, o tamanho dela, eu já sabia, porque a saída da Anhanguera, a gente vinha pela Anhanguera, chegava no Morumbi, era uma puxada, né?

 

P/1 – Essa pensão na Rua Maranhão, como é que era? Tinha uma dona, ou um dono?

 

R – Dona Terezinha

 

P/1 – Como é que era a vida de pensão? Tinham outros jovens morando lá?

 

R – Ah, só tinham jovens. Só, só tinham jovens. Cara fazendo cursinho, cara estudando, cara trabalhando e já fazendo faculdade. Esse era o nosso nível de pessoas. Ambiente misto.

 

P/1 – Ah, eram homens e mulheres?

 

R – É, ambiente misto, ambiente até que muito bom, muito gostoso.

 

P/1 – E ela servia almoço ou vocês tinham que comer fora?

 

R – Não, fazia café, almoço e jantar, tudo.

 

P/1 – Lavava, passava?

 

R – Aí não.

 

P/1 – O senhor teve que se virar, então?

 

R – Aí, era por conta de cada um. Quando dava, eu levava a roupa para lavar em Poços, quando não dava, eu mesmo lavava. Lavava e passava.

 

P/1 – O senhor voltava com freqüência para visitar os seus pais, não?

 

R – Frequente, ia bastante.

 

P/1 – Aqui em São Paulo, que ano que o senhor ingressou no curso de Contabilidade? O senhor fez a conclusão aqui, né?

 

R – Fiz, fiz. Deixa eu dar uma volta no tempo aí. Deve ser em 1966. Inclusive, eu peguei a fotografia de formatura não tinha data, mas deve ser 1966.

 

P/1 – E era o terceiro ano?

 

R – É, o terceiro ano.

 

P/1 – E era curso técnico?

 

R – Técnico de Contabilidade.

 

P/1 – Onde era, seu Toninho?

 

R – Não, não existe mais a praça. Era a Praça Clóvis (Praça Clóvis Beviláqua?), ela ficava entre... Ao lado da Sé. Agora não existe mais essa Praça Clóvis. Lá no prédio que eu estudei, parece que era um... Segundo eles diziam, que era uma casa que Dom Pedro, quando vinha do Rio, se hospedava aí. É um prédio até que eles deviam ter preservado, né? Era muito antigo mesmo, mas demoliram o prédio.

 

P/1 – O senhor se lembra da formatura? O senhor citou a foto da formatura, foi marcante para o senhor se formar em Contabilidade?

 

R – Ela foi... Ela foi bastante, inclusive... Eu tive que batalhar bastante para conseguir me formar porque quando eu fiz... Terminei o segundo em Poços de Caldas, eu precisava entrar no terceiro aqui em São Paulo. Eu vim para cá em janeiro, mas eu precisava arrumar serviço primeiro [risos]. Então, eu comecei a procurar serviço e eu estive na Álvares Penteado (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado?), aí eu já estava trabalhando_____ Álvares Penteado. Eles não me aceitaram porque eu já tinha perdido quase um  mês e meio de aula. Então, "volta no mês de abril". Eu perguntei alguma escola, para eles me indicarem uma escola boa. Eles pegaram: “Escola Técnica de São Paulo.” (Escola Técnica Estadual de São Paulo?) Aí, que eu fiz lá, tive que negociar com o vice-diretor, para diminuir a mensalidade porque meu salário não dava para pagar pensão, me manter e mais escola [risos].

 

P/1 – O senhor arrumou emprego do quê?

 

R – Eu estava trabalhando na Phillips. Eu era... Trabalhava na sessão de consertos de aparelhos elétricos. Eu era expedidor, expedidor B.

 

P/1 – Aí, o senhor trabalhava durante o dia e estudava à noite?

 

R – Estudava à noite, é..

 

P/1 – Então foi puxado, né? 

 

R – Foi.

 

P/1 - Onde ficava a Phillips?

 

R – A Phillips, ela ficava aqui na Alameda Nothmann, perto da.... Para baixo um pouquinho da Estação Rodoviária velha. Bem embaixo, pertinho quase da José Paulino, ficava ali na esquina. Ali era, não essa Phillips fábrica, Phillips que fazia os consertos.

 

P/1 – O senhor ia, então, direto para escola de lá?

 

R – Não, eu descia da... Lá da Rua Maranhão até a Phillips a pé. Aí, eu almoçava na Companhia, depois eu voltava de ônibus. Aí, eu tomava banho, tal,  pegava meus livros e ia para escola. Aí, eu jantava na pensão, aí que eu ia para escola.

 

P/1 – Seu Toninho, quanto tempo o senhor passou na Phillips?

 

R – Minha passagem lá foi rápida, viu? Por volta de seis, sete meses só.

 

P/1 – E como é que foi a sua trajetória de trabalho depois da Phillips?

 

R – Eu estava fazendo o terceiro ano técnico e estava trabalhando em expedição, e eu realmente, eu queria entrar no que eu estava estudando. Então, eu fui procurando, batalhando, até que surgiu uma oportunidade de um amigo meu que trabalhava na (Boehringer Ingelheim?), que é um outro laboratório, estavam precisando lá de auxiliar de contabilidade. Eu fui, fiz o teste, passei e fui trabalhar na (Boehringer?). Aí, eu entrei realmente no campo, no qual eu estava estudando, que eu estava me dedicando, esforçando [risos].

 

P/2 – O senhor sonhava em ser contador?

 

R – Não, não sonhava em ser contador não. Eu gostava, sabe? Sei lá.

 

P/2 – Da onde veio esse gosto pela Contabilidade, o senhor sabe?

 

R – Pode até ser  que tenha alguma influência, tá? Meu pai, ele tinha um empório, eu comecei a trabalhar com ele com 13 anos nesse empório. Trabalhei até os 18 anos, mais ou menos, com isso aí. Dos 13 até os 18. E aquele negócio de fazer caderneta, as contas, os controles. Eu parece que eu fui pegando amor nesse negócio. Eu aprendi a fazer conta de memória muito rápido, porque na época não tinha maquininha, não tinha nada. O negócio era na munheca mesmo. Então, pode ser que teve alguma influência.

 

P/2 – Isso na época de Poços de Caldas, esse empório?

 

R – É, na época de Poços de Caldas.

 

P/2 – Como é que chamava o empório?

 

R – Não tinha nome não.

 

P/1 – Não tinha nome?

 

R – Não.

 

P/2 - Quem trabalhava lá? Era o senhor...

 

R – Eu e o meu pai só[risos].

 

P/2 – Só os dois. Vendia o que?

 

R – Vendia bastante coisa,viu? Nós vendíamos secos e molhados, que era o arroz, o sal, o açúcar. Tinha uma parte também de quitanda, de frutas. Frutas e tinha verdura também, que alguma coisa a gente pegava, inclusive, dessa horta nossa e mandava para lá, porque aí ele já não estava mais trabalhando com essa horta, ele já tinha melhorado um pouco.

 

P/2 – E o pessoal comprava muito fiado naquela época?

 

R – Comprava. 

 

P/2 – E como é que fazia?

 

R - E tinha inadimplente também, viu? [risos]

 

P/2 – Como é que fazia para cobrar esse pessoal?

 

R – Tinham uns que eram incobrável porque eles vinham da redondeza, de Poços de Caldas, faziam as compras, e depois passava... O cara não vinha uma semana, duas, o meu pai ia perguntar... Perguntava para o amigo, às vezes, da pessoa: “Ah não, acho que ele foi embora para o Paraná.” Então...

 

P/2 – Nunca mais.

 

R – Agora, o pessoal da cidade mesmo, ele não perdia, era difícil.

 

P/2 – Naquela época, que moeda que era, seu Toninho?

 

R – Cruzeiro, né?

 

P/2 – Cruzeiro.

 

R – Cruzeiro.

 

P/1 – E depois desse laboratório que o senhor trabalha um tempo, como estagiário de contabilidade, é isso que o senhor falou?

 

R – Auxiliar.

 

P/1 – Auxiliar. Aí, o senhor já prestou uma provinha e tudo, né? O senhor ficou quanto tempo nesse laboratório?

 

R – Nesse laboratório, eu devo ter ficado uns quatro anos, uns quatro anos.

 

P/1 – O que o senhor acumulou de experiências? O que o senhor viu de novo nesse laboratório? Tinha muita coisa que o senhor não sabia e que aprendeu ali?

 

R – Não, na realidade, o que eu tinha? Eu tinha só a parte acadêmica e a prática nada. Dei sorte de encontrar um funcionário de lá já, uma pessoa muito bacana, inclusive ele é amigo meu até hoje.

 

P/1 – Como é que ele chama?

 

R – Edmir. Uma pessoa muito bacana e foi ele quem foi, digamos assim, o meu mestre na prática. Ele não era... ele não estava estudando, não era contador, mas ele tinha prática. Então, ele passou esse conhecimento, essa prática todinha para mim. Uma pessoa que eu estimo bastante.

 

P/1 – Depois dessa experiência que o senhor conheceu o Aché?

 

R – Foi sim. Na (Boehringer?) tinha um funcionário que chamava... Chama-se Leonel e ele fazia alguns trabalhos para o Aché. Ele, de vez em quando, ele levava alguma coisa lá para eu ajudá-lo no trabalho que ele estava fazendo para o Aché. Normalmente não. O que ele fazia realmente era entrar com pedido de preço no CIP, sabe? Que o Delfim Neto criou, o Conselho Interministerial de Preços. Então, eu o ajudava neste sentido. E eles viram que quem fazia a contabilidade do Aché era um escritório de fora. Eles pegaram... Comentando lá dentro, acabou surgindo uma entrevista. Me convidaram para uma entrevista. Eu fui entrevistado e acabei ingressando no Aché.

 

P/1 – O senhor se lembra quem fez essa entrevista com o senhor?

 

R – Foi o Adalmiro.

 

P/1 – O senhor já tinha ouvido falar do laboratório antes?

 

R – Não, não o conhecia. Não conhecia porque ele era muito pequeno e eu já trabalhava. (Boehringer Ingelheim?) era alemã, era uma multinacional, né? Então, a gente tinha um contato bem diferente, eu não conhecia realmente o Aché. Não conhecia.

 

P/1 – O que atraiu o senhor para ir para o Aché?

 

R – Por duas coisas; a primeira é que eu era sub-contador da (Boehringer?). E o Aché, eles estavam me oferecendo um cargo já de contador. E o segundo foi o salário. A primeira foi realmente a promoção de cargo, que era aquilo que eu vinha almejando já, batalhando, já estava formado há mais de três anos, três anos mais ou menos. Então, como eu era sub-contador, me deram o cargo de contador, eu aceitei. O salário também que era atraente.

 

P/2 – Que ano que foi isso, seu Toninho?

 

R – Foi outubro de 1970.

 

P/2 – Como é que era o Aché dessa época?

 

R – Não, deixa eu contar agora aquela parte do diploma, por isso que eu ia trazer a fotografia para vocês, tá? Porque na entrevista, o Adalmiro, ele já tinha um prático de contabilidade e que era mineiro. E ele não estava muito satisfeito com o trabalho dessa pessoa. Então, quando ele veio me entrevistar, ele perguntou para mim: “você é mineiro”. “Eu sei, o que é que tem?” “Você está formado? Mas, você formou em Minas Gerais?” Eu falei: “Não, eu não me formei em Minas Gerais. Me formei aqui em São Paulo.” “Que escola?” “Escola Técnica de São Paulo.” “Ah, bom. Porque tem um mineiro que eu não gosto muito do serviço dele, porque se você tivesse se formado em Minas Gerais, não teria entrado no Aché com certeza, viu? [risos] Não teria entrado.

 

P/2 – Ele estava traumatizado, né?

 

R – Não teria entrado. 

 

P/1 – Ainda bem que o senhor se formou em São Paulo.

 

R - Por isso que esse diploma, para mim, vale muito [risos]. Teria sido podado, não pelo Estado de origem, mas pela formação acadêmica.

 

P/1 – E era muito fraco em Minas, o senhor sentiu diferença assim, quando veio para cá?

 

R – Era bastante, bastante.

 

P/1 – Tinha que estudar muito para acompanhar os estudos?

 

R – Olha, bastante. Eu estudei bastante nesse ano para eu tirar... alcançar o pessoal que estava aqui e consegui passar, embora que eu já tivesse perdido 45 dias de aulas. Então, eu estudei bastante, muito, muito, muito. Depois, outra vez, eu estudei bastante também foi (para) prestar o vestibular. Também eu estudei bastante. Depois, eu...

 

P/2 – O senhor fez o técnico de contabilidade e depois fez a faculdade?

 

R – É, depois eu fiz Administração de Empresas e depois fiz Ciências Contábeis também.

 

P/2 – Isso foi mais para frente?

 

R – É, fiz Administração, depois em seguida, fiz Ciências Contábeis.

 

P/1 – Entrando no Aché, seu Toninho, como é que era o Aché do (bairro) Imirim? Foi lá no Aché mesmo que o senhor foi trabalhar?

 

R – Foi, foi lá.

 

P/1 – Em 1970?

 

R - Imirim, Chora Menino, tudo bem. Santana [risos].

 

P/1 – Como é que era lá? O senhor poderia fazer uma descrição?

 

R – Bom, para época assim, eu senti uma mudança muito grande de ambiente, muito grande. Porque eu trabalhava aqui na Avenida Paulista, no 13º andar do Conjunto Nacional, daí eu fui trabalhar num sobradinho, no (bairro) Chora Menino, em frente a uma marmoraria e do lado um cemitério. Então, eu pensei que não ia aguentar porque a mudança de ambiente assim, foi muito grande, mas muito grande. Não tinha refeitório, a Companhia, o Aché não tinha refeitório. Você não tinha opção de pagar, não adiantava ter dinheiro porque você não tinha opção, ali pelas imediações para comer. Então, era “sanduba” e outras coisas. Era uma empresa pequena, bem pequena. Devia ter uns 150 funcionários, estou chutando, interno, devia ter uns 150 funcionários, ou até menos. E a coisa assim, que me animou bastante em dar seqüência ao trabalho, tudo direitinho, foi quando eu comecei a mexer na parte financeira deles. Ela era uma empresa pequena, mas redondinha. Era uma empresa que tinha todos os compromissos pagos, os impostos, salários, os fornecedores, carteira de duplicata boa e tinha sobra de caixa ainda. Eles tinham caixa para fazer aplicação no mercado financeiro, que eles nem faziam. Eles deixavam todinho o dinheiro fora, quando começou a orientar eles: “Vamos entrar no Open Marketing na época”, que chamava.

 

P/1 – Como chamava?

 

R – Open Marketing. Mercado aberto. Então, sobra de caixa, a gente passava e não deixava para o banco. Então, a gente começou a perceber que tinha bastante coisa para fazer lá. Mas, em termos de ambiente, era ruim [risos].

 

P/2 – O senhor trabalhava sozinho nessa área de Contabilidade lá?

 

R – Não, tinha essa pessoa que ela fazia a contabilidade manual. Era manual, escrito mesmo nos livros. Eles devem, inclusive, se eles passarem esses livros para vocês, vocês falem para mim que eu tenho esses livros guardados, tá? Esses livros de 1969, 1968, feito na mão a contabilidade.

 

P/2 – Toda a contabilidade da empresa era manual? 

 

R – Era manual. Então, eu guardei esses livros, entendeu? Eles devem estar nos nossos arquivos.

 

P/2 – Livros grandes, como são?

 

R – Grandes, assim.

 

P/2 – Capa dura?

 

R – Isto, isto. Uma caligrafia invejável.

 

P/2 – Tinha um senhor que fazia caligrafia?

 

R – Tinha.

 

P/2 – Como é que ele chamava, o senhor lembra?

 

R – Waldemar Mendes.

 

P/2 – Ele cuidava desses livros?

 

R – Desses livros, é. Ele fazia isso aí.

 

P/1 – Ele já é falecido, esse senhor?

 

R – É falecido.

 

P/1 – Como é que ele era, seu Toninho? De personalidade?

 

R – Era um senhor bonzinho, viu?. Um senhor bom, gente, tranqüilo. Tinha uma filha e dois filhos.

 

P/1 – Ele trabalhava diretamente com o senhor?

 

R – Trabalhava diretamente comigo. Eu fui ser o chefe dele.

 

P/12 – Então, era o senhor, o seu Waldemar e quem mais?

 

R – Depois eu arrumei um operador e tinha um outro auxiliar. Depois um cara de livro fiscal, aí a gente foi montando, foi montando a equipe, mas no começo, começou ele, que já estava, né? Eu que vim depois. Depois veio... Tirei a parte manual,  passei para a máquina, mecanografia, esse termo, né? Que na (Boehringer?) nós já tínhamos a máquina de contabilidade. Então, coloquei a máquina de contabilidade, depois coloquei uma pessoa para fazer os livros fiscais também, que é o ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços], IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados], isso aí, e arrumei um auxiliar para ajudar na contabilidade.

 

P/2 – Na época que o senhor chegou, como é que era essa movimentação de dinheiro? Porque o salário era pago em dinheiro, não era isso? O senhor lembra disso? O senhor cuidava dessa parte de pagamentos?

 

R – Olha, vou falar para você, viu? Não é nessa época que eu cheguei no Aché não. Em 1973, nós fomos para a Dutra, tá? Em 1973 e vários anos ainda para frente, tinha um galpão na parte de baixo da Companhia que era enorme, a gente colocava 5, 6 pessoas e pagava os caras a cash. Lá, não é aqui quando eu entrei não. Lá mesmo.

 

P/1 – Fazia uma filinha?

 

R – Oi?

 

P/1 – Fazia uma fila, não?

 

R – Não, separava, dava folha para a pessoa assinar, em ordem alfabética. Então, eles colocavam lá de A a E, botaram nessa mesa e iam separando [risos]. E pagava salário por salário. A gente envelopava tudo antes primeiro, mas entregava em dinheiro.

 

P/2 – E a parte de notas fiscais de cobrança, o senhor também cuidava disso?

 

R – Era.

 

P/2 – Era tudo manual também?

 

R - No Aché lá, antigo, ela tinha duas empresas, como era a Prodoctor, que eles devem ter citado para vocês, Prodoctor São Paulo,  Prodoctor Produtos Farmacêuticos e tinha o Aché Laboratórios. No Aché, a nota era manual e essa outra era datilografada. Depois eu peguei, passei... Depois, nós passamos as duas para ser datilografadas. 

 

P/2 – E o recebimento do dinheiro, por exemplo, das farmácias, era tudo dinheiro vivo também?

 

R – Tinha dos dois, eu tinha em cheque e tinha a dinheiro. Cheque e dinheiro.

 

P/1 – Essa entrada no Aché, seu Toninho, significou algum tipo de desafio para o senhor?

 

R – Não resta dúvida, né?

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque eu estava saindo de sub-contador para ser contador. Então, eu já estava começando a tomar as decisões e assinar coisas da Companhia. Assinar Balanço, Declaração de Imposto de Renda, a parte de Impostos, tudo. Aí, a gente começa, a gente começa... Porque quando a gente é sub-contador, a gente faz, a gente trabalha e quem assina é o contador [risos]. Lá, além de eu fazer, eu tinha que assinar também.

 

P/1 – E ficar com a responsabilidade?

 

R – E ficar com a responsabilidade, justamente. Muitas vezes pode custar o emprego da gente.

 

P/1 – Entendi.

 

R - Deixar impostos sem recolher, fazer uma apuração errada.

 

P/2 – E nessa época, o senhor morava aonde, na época do Aché, lá do (bairro) Chora Menino?

 

R – Eu estava morando aqui... Como é que chama o bairro? O bairro ali, do lado da Consolação? 

 

P/2 – Higienópolis, alí?

 

R – Não, não. Higienópolis, eu morava antes. Eu mudei aqui pertinho da Consolação.

 

P/1 – Vila Buarque?

 

R – Vila Buarque. Justamente, Vila Buarque.

 

P/2 – Era outra pensão lá ou já era uma casa?

 

R – Não, eu estava num apartamento.

 

P/2 – Num apartamento.

 

R – Estava num apartamento.

 

P/2 – É nessa época que o senhor se casa, ou é mais para frente?

 

R – É nessa época.

 

P/2 – Como que foi? O senhor conheceu a esposa no Aché, na Faculdade, como é que foi?

 

R – Não, a esposa eu conheci lá na (Boehringer?). Ela era funcionária da (Boehringer?). Ela era analista de custo da (Boehringer?).

 

P/2 – E o namoro foi longo, seu Toninho?

 

R – Corrige aí; Três anos [risos].

 

P/2 – Três anos e meio de namoro. E sobrava tempo para namorar? Como era namorar em São Paulo naquela época? Ia para o cinema, como é que era?

 

R – Cinema, teatro, Poços de Caldas, não podia deixar de ir.

 

P/2 – Levou a namorada para família conhecer, então?

 

R – Levei. Levei várias vezes.

 

P/2 – E eles aprovaram a paulista?

 

R – Hum?

 

P/2 – Eles aceitaram a paulista na família?

 

R – Olha, eu acho que eles nem pensaram em recusar nada porque ela já era independente. Então...

 

P/1 – E na família dela, teve que enfrentar o pai, a mãe, como é que era?

 

R – Só a mãe dela só.

 

P/1 – Só a mãe?

 

R – Não,  brincadeira [risos]. O pai dela, eu não conheci, já tinha falecido. Quando nós  começamos a namorar, ele já tinha falecido, né? E então só a mãe dela, muito simpática.

 

P/1 – E como é que foi o casamento depois, seu Toninho? Teve festa de casamento?

 

R – Teve uma festinha, uma lembrança.

 

P/1 – Onde que aconteceu?

 

R – Na casa da irmã dela, _____ minha esposa.

 

P/1 – Quem é que foram os convidados?

 

R – Os convidados, alguns amigos meus de São Paulo e familiares, familiares.

 

P/1 – E a noiva estava bonita?

 

R – Lógico que sim [risos]. Principalmente o cabelo dela. Não tem nada a ver com esse cabelinho de hoje [risos].

 

P/2 – Como é que era o cabelo daquela época?

 

R – Ele era comprido, bem ondulado.

 

P/2 – E o senhor estava elegante, lembra da roupa do casamento?

 

R – Eles estavam falando que eu estava parecendo com um gangster, né? [risos]

 

P/2 – Por quê? Como é que é?

 

R – Porque eu estava com terno meu, era roxo e listrado, sabe? Então, eu estava do jeito que eu gostava, um gangster perfeito [risos].

 

P/2 – Todo ele roxo?

 

R – Não, roxo com listras, acho que pretas, né?

 

P/2 – E gravata?

 

R – Gravata... Puxa, gravata, eu não lembro a gravata que eu estava não.

 

P/2 – E o paletó também era listradinho?

 

R – Não tudo, era terno.

 

P/1 – Era um terno listradinho. E que igreja que foi o casamento, o senhor lembra?

 

R – Consolação. 

 

P/2 – Lá na Igreja da Consolação. E depois que o senhor casa, vai morar no mesmo apartamento ou mudou de casa?

 

R – Não, mudei. Eu fui morar mais próximo do serviço, que eu morava numa quitinete. E ali na Vila Buarque ali, não dá para morar com família ali, né?. É “barrona” pesada. Eu fui morar no Jardim São Paulo.

 

P/2 – Que fica aonde Jardim São Paulo?

 

R – Fica ao lado de Santana. Já ouviu falar no Mirante? O Mirante? Que pega água, nível da chuva, tudo? Então, pertinho, eu morava bem pertinho do Mirante de Santana, Jardim São Paulo.

 

P/1 – Dava para ir a pé para o laboratório, não?

 

R – Não.

 

P/1 – Como é que ia?

 

R – Mas, eu já tinha carro.

 

P/1 – O senhor já tinha carro nessa época.

 

R – Aí, a gente já começou...

 

P/1 - Melhorar.

 

R – Melhorar [risos].

 

P/2 – Qual foi o primeiro carro do senhor, o senhor lembra?

 

R – Esse carro, você já ouviu a marca Latinha?

 

P/2 – Latinha?

 

R – É, então, comprei um Fusca 1967, numa cor vinho, que ele ficava no sol e no sereno. Ele ficava... ele ia mudando de cor, ia ficando branco, ficando roxo [risos]. Ele chamava Latinha porque a lataria dele era tão fraca, tão fraca, que se a gente desse (uma sopa?) ela afundava [risos].

 

P/1 – Quando o senhor estava lá... O senhor entrou em 1970 no Aché do (bairro) Imirim?

 

R – É.

 

P/1 - Já tinha ideia de que ia construir em Guarulhos, né?

 

R – Ah, já. Não, já estavam construindo.

 

P/1 – Já estava construindo.

 

R – Eles estavam construindo. Na entrevista, o Adalmiro mostrou para mim, falou: “Vem cá...” Mostrou a maquete, né? “Então, olha, essa aqui é a fábrica que nós estamos construindo”, já estava construindo.

 

P/1 – Tinha uma maquete?

 

R – Tinha uma maquete.

 

P/1 – Onde ficava essa maquete?

 

R – Ficava aqui no escritório da (Rua) Álvaro de Carvalho, no escritório de vendas nosso, ficava aqui na (Rua) Álvaro de Carvalho. Essa (Rua) Álvaro de Carvalho é uma... Ela sai ao lado da (Rua Coronel) Xavier de Toledo. É uma rua pequenininha que tem ali.

 

P/1 – E nesse dia que o senhor viu a maquete, o senhor tinha ido lá fazer uma visita?

 

R – Não, eu estava na fase de entrevista. Eu fui entrevistado pelo Adalmiro e pelo irmão dele, o Rafael.

 

P/2 – O senhor conheceu todos os sócios fundadores, pessoalmente?

 

R – Conheci.

 

P/1 – Como o senhor descreveria cada um deles, o senhor tem uma lembrança assim? Como eles eram naquela época?

 

R – Até hoje, eles não mudaram muito. Com exceção do Rafael que ele vendeu a parte acionária dele em 1988. Saiu, eu acho que em 1989. Eles não mudaram muito, no jeito, no tratamento da gente, assim sabe? Eles continuam a mesma coisa. É claro que mudaram assim, na parte... Evoluíram, como eu evolui, como todos evoluíram nessa parte de administração. Então, esse negócio, a gente teve que acompanhar esse ritmo aí, mas na parte afetiva, de tratar a gente, de conversar com a gente...

 

P/2 – Existia uma proximidade, né?

 

R – Existia. Então, eles não mudaram em nada, viu?

 

P/1 – Mas cada um atuava numa área naquele começo, ou todo mundo fazia tudo?

 

R – Tinha o Adalmiro, ele cuidava da parte de vendas, o Víctor, ele fazia a parte de Marketing, o Depieri, ele cuidava da parte industrial e o Rafael, ele cuidava da parte administrativa-financeira e cuidava também da fábrica que estava sendo construída. Então, eu vim para ser o contador do Rafael. Inclusive, foi o Adalmiro que me entrevistou, fui aprovado por ele. Depois ele falou: “Você não vai trabalhar comigo, você vai trabalhar com meu ‘mano’. Nós vamos marcar um outro dia para você voltar, para você conversar com ele.” Mas assim, eles não mudaram de comportamento, viu? Ficaram ricos, ganharam dinheiro, mas eu acho que assim, o tratamento com as pessoas, ficaram iguais, viu? Iguais, não subiu aquilo lá... Vou falar na gíria, “metidez pela cabeça”. Parece que...

 

P/1 – O senhor chegou a visitar o prédio de Guarulhos antes dele ser concluído?

 

R – Não, não fui.

 

P/1 – Quando é que vocês foram, então, para lá? O senhor se lembra a primeira vez?

 

R – Nós fomos em junho ou julho de 1973.

 

P/1 – Aí, já foi para mudar de vez?

 

R – Não, nós já fomos levando toda... Já tinha, já tinha alguma coisa funcionando, máquinas novas que já tinham comprado, já estavam instaladas lá, tal. Mas a mudança mesmo foi nesse mês, quando foi... Aí que levou a parte de Administração, Escritório, levou tudo, né? Aí fechou realmente aqui em Santana.

 

P/1 – Todo mundo ajudou nesse processo de mudança? Como é que foi?

 

R – Todo mundo.

 

P/1 – O senhor inclusive?

 

R – Inclusive. Enchi o carro de livro, de notas fiscais, papéis, documentos e levar [risos]. 

 

P/2 – A organização dessa parte administrativa, as tarefas, elas mudaram muito? Lá do (bairro) Chora Menino para Guarulhos assim, organizou tudo de novo a empresa ou ela já vinha mudando?

 

R – Não, ela já estava num processo, estava num processo, desde quando eu entrei lá, estava num processo de mudança. Você vê de 1970 para junho de 1973, dois anos e sete meses, né? Trinta meses nesse negócio. Já tinha mudado bastante coisa. Agora, quando nós fomos para lá, o escritório que nós tínhamos aqui em Santana, não tinha nada a ver com o que eles colocaram lá. Lá, eles colocaram mesas, colocaram os móveis, as cadeiras, um negócio bem bonito, sabe? Bem arrojado, sabe? Um escritório aberto, os móveis todos novinhos. Nessa qualidade, com ar condicionado. Essa qualidade deles assim, foi uma coisa impressionante! Aí, não perdia nada para a (Boehringer?) [risos].

 

P/1 – Isso de infra-estrutura, né?

 

R – É.

 

P/1 – E de trabalho mesmo? Teve algum direcionamento diferenciado, quando vocês mudaram para Guarulhos ou foi uma continuidade?

 

R – Não, foi continuidade, continuidade. Não houve assim... Nós continuávamos ainda datilografando as notas, nós continuamos ensacando o dinheiro e pagando os caras a dinheiro, sabe? O processo, nessa mudança, ela foi acontecendo na medida das necessidades, mas não o negócio de falar assim: “Vamos fazer isso aí quadrado, está redondo, vamos fazer quadrado.” Não, não aconteceu esse tipo de coisa.

 

P/1 – E venda de produtos importantes, como o Moderex (moderador de apetite), o Energisan (energético injetável), esses que foram, tiveram um nível incrível de venda, isso interferia no trabalho do contador? Isso chegava a mudar o ritmo do seu trabalho, ter que acelerar?

 

R – Não.

 

P/1 – Não.

 

R – Não. Para a gente escriturar, contabilizar, receber, tanto faz o valor ser 100, 200, 300, um milhão. É a mesma operação, o mesmo custo. Você pode...Quer ver, (vou) te dar um exemplo, para ficar bem entendido: os boletos  bancários, se for (pagar) boletos de R$ 50,00, o banco nem pega e você também nem dá, porque o custo é o mesmo de um ou de dois milhões. Então, você vai pagar R$ 5,00 para um boleto de R$ 50,00, pagar 10%. Eu vou pagar R$ 5,00 por um boleto de 1 milhão. Então, não existe, sabe? O número que está no documento, para gente, ele fala na hora de receber, vem para o caixa, né? Mas a parte burocrática dele é igualzinha para um grande número e um número pequeno. E a coisa que a gente tem, que diferencia entre o número grande e o número pequeno, é que o número pequeno, embora ele tenha a mesma burocracia que um número grande, o número pequeno você coloca lá e esquece. O número grande, a gente fica olhando, vê se o cara vai pagar em dia, o que vai acontecer com ele. O número pequeno, a gente deixa ele mais “escanteado”, é esse o negócio que difere, né? Mas o trabalho burocrático é a mesma coisa.

 

P/1 – O senhor se manteve na mesma função com a mudança, ou o senhor foi mudando de função lá dentro do Aché?

 

R – Não, eu fui mudando, mudando de função. Eu comecei como contador para depois, quando nós fomos para lá, dentro de pouco tempo eu passei a ser gerente. Eu fiquei gerente administrativo, depois eu fui para diretor administrativo e agora eu me aposentei como executivo financeiro-administrativo.

 

P/2 – O senhor passa a ser gerente em que época, o senhor lembra mais ou menos?

 

R – Não lembro, viu?

 

P/1 – Nesse trajeto todo tem um momento assim, de uma grande reformulação administrativa no Aché ou as mudanças, elas foram graduais? Ou teve momento assim, de grandes mudanças e transformações?

 

R – Ah, teve.

 

P/2 – Qual seria a primeira grande mudança?

 

R – A hora que nós tivemos que parar com as máquinas, as máquinas de datilografia, IBMs elétricas, que nós começamos passar para a área de informática. Começamos a passar para o computador. Aí, um desastre, um desastre.

 

P/2 – Isso foi mais ou menos o que? Anos 80 já?

 

R – É, por aí, viu? Bem por aí. Porque em 1988, nós já começamos com microcomputadores, sabe? Aí, a hora que você começa a informatizar os negócios, aí faz um estrago que...

 

P/2 – Estrago em que sentido, seu Toninho?

 

R – Estrago, mão-de-obra que sobra, né? Mão-de-obra que sobra.

 

P/1 – Teve um corte grande de pessoal?

 

R – Não tem como, não tem como. Eu devia ter umas 15 máquinas IBM e depois deveria ter umas 10 calculadoras. Calcular no pedido, passar para frente. Depois já tinha cara fazendo estatísticas manuais, todo esse negócio. Então, teve que cortar eles, só na parte de faturamento, umas 20 pessoas. Acabam fazendo esse serviço com três, quatro. É muito mais preciso, muito mais certo, muito mais tudo.

 

P/2 – As máquinas IBMs eram datilográficas ou eram computadores?

 

R – Não, as máquinas eram de escrever.

 

P/2 – De escrever. Ah, tá.

 

R – De escrever. Na realidade, eu fui muito contra a IBM, eu achava que eles eram muito metidos, cobravam muito caro e prestavam um péssimo serviço. Os computadores que nós pegávamos na época eram as máquinas eletrônicas mesmo, não eram (Boss?), não era (Boss?).

 

P/1 – Não era o quê? Perdão.

 

R – (Boss?).

 

P/1 e P/2 – (Boss?).

 

P/1 – Tinha gente qualificada para operar com essas máquinas novas, com esses computadores? Vocês tiveram que chamar de fora? (pequena interrupção)

 

P/1 – Seu Toninho, o senhor tinha contado que o senhor mudou de funções ao longo do tempo. Eu queria que o senhor repetisse para mim, quais foram essas funções pelas quais o senhor foi passando e o que mudou no trabalho, nas atribuições?

 

R – Quando você é a função de contador, além da gente ter equipe inteira, a gente tem uma série de atribuições que, no dia-a-dia, mês-a-mês, são recolher os impostos, as apurações, tudo em ordem, não deixar nada atrasar, recolher corretamente, apurações corretas, declaração de imposto de renda de pessoa jurídica, tem uma série de burocracias mensais que a gente tem que atender. Então, essas atribuições que é mais inerente ao cargo de... Tinha o contador, o contador da época. Contador é muito mais que isso, muito mais. A gente era mais, um pouco mais limitado. O contador não era bem visto, ele era uma figura mais ou menos [risos]. Os cara até desconfiava do contador. 

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. Isso era normal, né? Agora que o contador está pegando funções assim, mais nobres, está sendo uma função bastante valorizada, principalmente quando o cara é auditor. Você vê os escândalos, ____, esse tipo de coisa aí, que são funções realmente de um contador fazer. Mas antigamente, ele era... Área era mais fechadinha, a gente não tinha muito palpite em outras áreas não, principalmente em empresa familiar, que ela separa e fala: “Não, isso aqui a família cuida, sai fora você desse negócio.” Depois na parte de gerente administrativo... (pequena interrupção) Eu estava falando que na parte do contador era uma parte mais ou menos limitada. Aí, depois, quando a gente é promovido, igual eu fui, gerente administrativo, o leque da gente abre mais, aí você já pega ou um contador para ficar no seu lugar, ou um sub-contador. Aí, você começa a ter funções, ver preços, ver faturamento, ver finanças, fazer relatórios gerenciais que já é um livro maior, prestar mais esclarecimentos para os acionistas, donos, ou diretor acima da gente. Aí, a coisa muda bastante. Esse tipo de coisa de Imposto de Renda, a gente esquece, não é... O (boy?) já sabe fazer tudo, mas não é atribuição mais da gente fazer. Então, você... Eu até brinquei, eu acho que foi esse ano, 2001, peguei a Declaração de Imposto de Renda do Aché, olhei, eu falei: “Meu Deus do céu, se eu tivesse que fazer isso aqui, ou eu ia demorar muito tempo, ia ter que estudar muito para fazer uma declaração dessa ou ia botar o Aché numa barca furada, viu?” Porque [risos] a gente acaba esquecendo, né? A gente aprende, depois passa para frente, não mexe mais. A gente confia nas pessoas que estão executando.

 

P/1 – E depois da gerência, o senhor vai assumir qual cargo?

 

R – Eu assumi diretor administrativo, após a saída do Rafael. Eu era gerente dele, do Rafael. Aí, com a saída dele, eles fizeram uma reestruturação, eu passei a diretor.

 

P/1 – Diretor administrativo?

 

R – É.

 

P/1 – E quais eram as atribuições dessa função?

 

R – Aí, você já começa a participar de reuniões mais de cúpula, você começa a ter as informações mais fresquinhas. Você entra na parte assim, de decisões, opinar, dar opinião sobre tal coisa. Fala: “Nós pretendemos fazer isso, como é que você vai controlar esse tipo de coisa, como é que você vai agir, o que vai afetar na sua área?”. Muda bastante, bastante. Na realidade, a gente acaba trabalhando mais intelectualmente, menos na “munheca”. 

 

P/1 – Entendi. O trabalho mais intelectual...

 

R – É, mais intelectual.

 

P/1 – Menos manual.

 

R – É, e também a gente _____ começam a olhar o que está sendo feito embaixo e o que a gente pode melhorar esse serviço, tanto na precisão, na rapidez, na segurança. Todo esse negócio a gente começa a olhar.

 

P/1 – Seu Toninho, e essa evolução do Aché, o senhor acompanhou isso, as aquisições, as parcerias que o Aché fez ao longo do tempo?

 

R – Acompanhei, acompanhei. A primeira aquisição que o Aché fez foi a Bracco-Novoterápica. Inclusive no fechamento do negócio, eu estava junto com o Adalmiro. Adalmiro, o advogado e os donos da Novoterápica. Fui eu que contratei a auditoria, para fazer auditagem na Companhia. Acompanhei o serviço da auditoria, ajudei nesse serviço. A Parke-Davis também. A Parke-Davis, eu assinei como testemunha de Jeová lá, porque não dá para você ler, que são calhamaços assim de contratos. Então, você vai só de Jeová, Jeová, Jeová [risos]. E também nessa... A Parke-Davis foi bastante difícil, a gente controlar a administração, porque a Novoterápica, ela tinha uma só unidade industrial, mas ela tinha uma estrutura administrativa. Ela tinha um contador, ela tinha a sua fábrica, tinha sua folha de pagamento, tinha um pessoal que cuidava de todo esse negócio. Então, o que aconteceu? A gente só começou a melhorar isso aí, trocar as pessoas. O que acontece, é normal. Agora, na Parke-Davis, olha... A Parke-Davis foi difícil porque a Parke-Davis ela é uma unidade da ___________(Warner-Lambert?), que agora nem ___________(Warner-Lambert?)  mais, é Pfeizer, que ela foi comprada pela Pfeizer. Mas ela era uma unidade, uma divisão... Não era unidade, era uma divisão da __________(Warner-Lambert?). Tudo que era feito na fábrica do Rio de Janeiro era centralizado aqui em Cumbica na ____________. Então eram os mesmos livros que faziam a (Schicler?), que fazia as lâminas (Schick?), fazia também a parte da indústria farmacêutica. Quando nós compramos, na realidade, nós compramos com os maquinários e pegamos as licenças de fabricação. Então, na medida que nós estamos contratos, documento nenhum poderia entrar na Contabilidade da ____________, só que nós estávamos com uma fábrica produzindo, nós não tínhamos nota fiscal, não tínhamos CGC (Cadastro Geral de Contribuintes), não tínhamos inscrição, não tínhamos nada. Nada, nada, nada. Então, essa parte administrativa, foi a pior época, a pior época que eu passei no Aché. Foi a parte mais difícil que nós tivemos para absorver. Ela foi trabalhosa, essa realmente deu trabalho.

 

P/1 – Para organizar tudo isso?

 

R – É, porque nós não tínhamos estrutura para pegar uma outra fábrica quase do tamanho nosso, no Rio de Janeiro. Os caras produzindo, fazendo requisição e mandando tudo para São Paulo. Aí, acabou com a parte ______, acabou com a minha administração em São Paulo também, da própria Aché.

 

P/2 – Voltando um pouquinho, no caso da Bracco, foi um investimento grande do Aché, na aquisição da Bracco, o senhor lembra?

 

R – Olha, eu digo... Eu falo para você: “Não foi grande, nem pequeno.” Eu falo: “Foi um bom negócio”, sabe? Um bom negócio. Uma empresa pequena, redondinha. Inclusive, o auditor ainda brincou comigo: “Pô, seu Antônio, se nós tivéssemos dinheiro aqui, dava para gente comprar isso aqui. É só a gente cobrar os caras que estão devendo as duplicatas, só cobrar a carteira de duplicata, sabe? Só cobrar a empresa, só cobrar as duplicatas... Pronto, a empresa sai do buraco.” Na realidade, ela nem estava no buraco. O dono, um italiano, que era mais _________, porque a Bracco era italiana, ele aqui no Brasil. Ele já estava com uma idade bastante avançada, ele não queria mais isso aí, não queria. Por isso que foi vendida, sabe? Foi muito mais assim, pessoal do que do negócio em si.

 

P/2 – E a estrutura toda da Bracco foi assimilada pelo Aché, como é que funcionou isso? 

 

R – Não, nós trabalhamos bastante tempo na (Avenida) Pedroso de Moraes ainda. Onde está esse prédio bonito aí. Comentaram com vocês já desse prédio?

 

P/1 – Do Instituto Tomie Ohtake. 

 

R – Isto. Então, era ali.

 

P/2 – Durante um tempo continuou lá?

 

R – Não, continuou, mas isso até... A gente vai pegando aos poucos. Então, você pega, faz uma folha de pagamento. Depois, você faz isso, faz aquilo outro. E depois está na hora, pega e incorpora, aí desaparece.

 

P/1 – Demora bastante tempo, desde essa compra até a incorporação definitiva? É um processo longo?

 

R – Aí, depende, sabe? Depende..

 

P/1 – Do caso da Bracco?

 

R – É, depende, depende a economia de escala que você queira fazer, tá? Depende da economia de escala. Por exemplo, nós, primeiro, fechamos, colocamos capital, compramos a Novoterápica, colocamos capital em cima para ela girar e mantendo a estrutura dela. Aí, a gente pega, monta a estrutura no Aché para absorver praticamente o quê? A produção, a produção. O mais difícil é a produção porque na parte administrativa, quando a gente faz uma incorporação, é fácil, não tem muito segredo, sabe? É fácil porque está entrando num livro só. É duro quando você tem livro aqui na (Avenida) Pedroso, tem livro no Aché, tem livro no Rio (de Janeiro).

 

P/1 – Fica muito fragmentado.

 

R – É, então fica um pouco mais complicado e essa escala que nós fizemos foi justamente no período que nós tivemos que preparar a fábrica para a produção.

 

P/1 – Os funcionários vieram juntos, foram mantidos?

 

R – O Roberto Mitsuda é um, ele veio da Bracco.

 

P/1 – Ah, ele veio da Bracco.

 

R – Veio da Bracco. Não, é muito pouco. 

 

P/1 – Poucos?

 

R – Muito pouco, muito pouco, mas muito pouco mesmo. Muito pouco.

 

P/2 – A maioria foi demitida com a aquisição?

 

R – A maioria, quase todo mundo. Para falar 99%. Muito poucas pessoas. Às vezes, algum cargo específico, sabe? Assim, muito pouco.

 

P/2 – E no caso da Parke-Davis, o senhor avalia que também foi um bom negócio? O investimento foi grande?

 

R – Olha, na época, quando eu já estava como gerente administrativo aí, tudo, eu havia aconselhado o Adalmiro a não fazer o negócio porque eu comparando o preço deles com o nosso preço, nós já estávamos passando apertado pelo controle de preços do Governo. E o preço deles era muito inferior ao nosso. Inclusive, se a gente não comprasse a Parke-Davis, eles tinham abandonado o Brasil. Não foi um investimento alto não. Foi em crise, foi em crise mesmo, foi uma oportunidade de negócio.

 

P/2 – Que injetou dinheiro na Companhia, no Aché assim? Essas aquisições repercutiram na vida financeira da empresa?

 

R – Repercute um pouco, tá? Mas a gente tinha caixa na época, sabe? Nós tínhamos caixa na época. Tinha caixa na época que estava no mercado financeiro. Aí, ficava no mercado financeiro e passamos para nosso ramo de negócio.

 

P/1 – Seu Toninho, o senhor citou por duas vezes o Controle Interministerial de Preços, o senhor sabe como que funcionava essa questão dos preços, o controle?

 

R – Eu tenho uma bronca do Delfin. Eu não voto nesse cara nem para dirigir carrinho de pipoca, viu? [risos] Foi ele quem inventou isso aí. Nem carrinho de pipoca. Se ele for candidato para dirigir, eu não voto nele.

 

P/1 – O senhor lembra quando foi implementado o controle... Não a data, mas enfim...

 

R – Eu estava na (Boehringer?), então foi antes de 1970, e já existia isso aí. Foi quando ele foi Ministro da Fazenda, deve ser 1966, 1967, ou até um pouquinho antes.

 

P/1 – E como é que funcionava esse controle?

 

R – Política, política. Você fazia um balanço da Companhia, onde você mostrava o balanço global da Companhia, com todos os produtos, quando você mostrava o resultado. Aí, você ia lançar o produto Y. Aí você faz uma planilha, onde se coloca as matérias-primas, materiais de embalagens, os custos diretos, mão-de-obra, custo indireto, esse negócio aí e chega num preço. Então, eles pegam aquele lucro que você teve, em cima desse preço que você está almejando aqui, e eles davam o preço na base da política, na política. Laboratório pequeno, eles eram favorecidos, os grandes eram podados.

 

P/2 – Não fazia diferença se era nacional ou multi (multinacional)?

 

R – Não, não fazia.

 

P/1 – E era um preço só? Era tabelado, é a mesma coisa que tabelamento?

 

R – Não, não, você... Cada um tinha o seu preço, cada um tem o seu preço, mas o preço é tabelado para todo mundo. Todo mundo era tabelado. Agora, felizmente, voltou de novo. Tabelaram o ano passado. José Serra conseguiu fazer isso novamente.

 

P/1 – Agora, se o Governo chegasse lá e quisesse olhar e falar: “Ah, não, está acima do preço”, eles podiam fazer baixar o preço, é isso?

 

R – Não, eles davam o preço com política mesmo. Eles viam o preço teu, teu faturamento, eles davam o preço. Às vezes, davam preço para gente que não dava para lançar o produto, estava com margem negativa.

 

P/1 – Aconteceu isso?

 

R – Oh.

 

P/1 – O senhor lembra de algum produto que tenha acontecido isso, não?

 

R – Nós temos um produto relativamente novo, ele chama (Artrosil?), (Artrosil?), tá?. Esse produto, nós ficamos mais ou menos uns cinco ou seis anos. A gente ia, mandava o preço eles não davam preço. Mandava, eles não dava preço. Até a gente conseguir depois, olha quanto tempo a gente ficou nessa briga. Dava preço, eles davam preço que a gente não aceitava. Voltava o produto, o produto caducava em Brasília, renovava a licença, entrava novamente. Imagina, uma coisa absurda. Absurdo. E nesse preço, quando eu falei da Parke-Davis, que o nosso preço já estava ruim, a Parke-Davis ficou pior ainda, é porque o Adalmiro não me contou na época. Ele pegou, fez o negócio, que ele já tinha negociado no CIP, ele pegou a lista de produtos mais vendidos da Parke-Davis e foi na CIP, falou: “Vou comprar isso aqui, se vocês me derem aumento diferenciado nesses produtos.” E ele conseguiu. Só quando entrou o Plano Cruzado, aí eles cortaram todo esse aumento extra. Eles iam dar nesses produtos da Parke-Davis. Então, aí foi o caos de novo, né?

 

P/1 –Essas medidas governamentais interferiam muito assim, na vida do... 

 

R – Não, só acabava com a nossa raça. Era todo mundo. Aí, todo mundo dançava, todo mundo, todos os funcionários. No Plano Cruzado, para você ter uma ideia, tinha produto da Parke-Davis que nós estávamos com 280, 300% de aumento. Então, o produto tinha aumentado três vezes, só que eles fizeram assim; a cada aumento setorial, nós dávamos aumento setorial, por exemplo 20%, aumento setorial para todas as indústrias, para todos os produtos. Esses produtos, nós dávamos mais 25% em cima desses produtos negociados com o CIP. Só desses, uns oito produtos da Parke-Davis. Só quando veio o Plano Cruzado, tinha produtos que faltava, a gente repassar 180, 150% do preço. E o Funaro (Dilson Domingos Funaro), cortou. O nosso salário, no Plano Cruzado, foi aplicado a “tablita” (tabela de preços resultante do congelamento dos preços), eu tive redução de salário [risos].

 

P/2 – Qual foi o momento de maior crise assim, financeira no Aché, nesses anos? Foi esse momento desse plano?

 

R – É, foi.

 

P/2 – Chegou a ficar negativo?

 

R – Não, não chegava a ficar negativo, mas todo o dinheiro que nós tínhamos em caixa, nós gastamos. Tudo, tudo, tudo. Todo dinheiro que nós tínhamos em caixa, nós gastamos, todinho. Porque faltava produto. Nosso material de embalagem, como você não pode mexer na matéria-prima para ganhar, reduzir custo, porque aquilo é uma fórmula, você tem que colocar. Aquilo lá é qualidade. Então, vai caixa de embalagem de papelão, ela cai de qualidade, ela fica um papel mais mole. Então, vai desse jeito? Vai.  Mesmo assim, faltando um produto, esse negócio todo, e muitos produtos nossos no vermelho, então o que acontecia? Nós tirávamos dinheiro do caixa para bancar. Nós acabamos com o nosso caixa.

 

P/2 – E no momento das ampliações do Aché, quando foi construindo os outros Achés, eles eram momentos com sobra de caixa ou também precisou tirar muito dinheiro de caixa para fazer o Aché III, Aché IV, Aché V?

 

R – Não, esses nós nunca fomos em banco pegar dinheiro para isso não.

 

P/2 – Não.

 

R - Foi tudo recurso próprio, tudo recurso próprio. Tudo. Aquele Aché VI lá, era para ser uma expedição. Ele ficou parado, um esqueleto de concreto, que a gente estava quase pondo dinamite nele até saber o que a gente ia fazer. Aí, resolvemos fazer o Centro Administrativo. Essa fábrica nova, nós compramos o terreno da Alcoa, que tinha a Alcoa lá e começamos a fazer também com recurso próprio, só que nessa fábrica, eu tomei, eu acho que uns 24 milhões de dólares mais ou menos, para colocar na fábrica, nessa nova que está sendo feita em Guarulhos, está sendo feita. Foi a primeira vez que nós pegamos dinheiro em banco.

 

P/2 – A primeira vez na história financeira do Aché. Todas as demais já tinham sido sempre com...

 

R – Recurso próprio.

 

P/2 – Recursos próprios.

 

R – Tudo com recursos próprios.

 

P/2 – E a (Schering-Plough?) representou o que na vida financeira da empresa? Foi um investimento também?

 

R – É, todo... Isso aí, inclusive, na Contabilidade, ele é caracterizado como um investimento mesmo. A rubrica contábil é investimento. Então, qualquer... Digamos assim, qualquer empresa que você entra como acionista é classificado na rubrica “investimento”. Então, nós éramos... Diferente da Novoterápica. Ela estava como investimento no início, depois nós incorporamos, acabou. Agora, a (Schering-Plough?) não. A (Schering-Plough?) era investimento, a Prodome também é investimento.

 

P/1 – O senhor lembra da época da Prodome, como é que foram feitas as negociações, a sua atuação nessa...

 

R – Não, já nessa aí, dessa aí quanto na Schering, elas foram diferente das aquisições da Bracco-Novoterápica e da Parke-Davis, completamente diferente. Não tem (distinção?) porque lá tem os acionistas e nós pegamos, compramos uma parte. Então, o que a gente tinha? Tinha o Adalmiro que era presidente, tem conselho de administração, tem auditoria, tem tudo, funciona. Então, esse negócio realmente, para gente assim, não...

 

P/1 – Da Schering e da Prodome?

 

R – Da Prodome não apita nada. A única coisa que a gente cobra deles são os balanços, para ver como estão os resultados porque isso, o resultado bom ou ruim deles afeta o nosso resultado, ele afeta o nosso resultado. No ano de 2000... É, no ano de 2000, a Schering e o Aché já estavam com resultados ruins. A Schering pulou também para o resultado ruim, então nos jogou para um resultado pior ainda. Ou seja, nós estávamos com um investimento ruim, a gente interpreta assim, tá? A gente interpreta dessa forma. Então, ela deu um resultado ruim, nós estávamos com o investimento ruim lá também. Então, jogou o resultado do Aché mais para baixo. E a Prodome, o pessoal, às vezes, tem um resultado bom, ajudou a calibrar os negócios, mas não...

 

P/2 – Nesse mesmo ano?

 

R – Nesse mesmo ano.

 

P/2 – Mas no geral, a Schering e a Prodome trouxeram dinheiro para o Aché ou fizeram o Aché perder dinheiro, no decorrer desses anos?

 

R – Olha, eu fiz o estudo, eu peguei inclusive os resultados dos balanços dele, da comparação, o resultado é positivo. 

 

P/2 – Positivo.

 

R - Positivo, é positivo. Uma, que dá uma força assim, de marketing para o Aché. E mesmo sem contar essa parte subjetiva, na parte financeira mesmo, que dá para gente ver, palpar, o resultado foi positivo, positivo. E mais a Parke-Davis... Mais a Parke-Davis, que deu resultado mais positivo. A Parke-Davis deu um resultado muito positivo e a Bracco também muito positivo, porque lá, o negócio no Rio, estava 100%. O risco também é 100%, mas… [risos]. Tudo é 100%, o que você ganha é 100%, o que você perde também é 100%. Mas da linha Parke-Davis foi uma linha boa, a Bracco também é uma linha boa.

 

P/1 – A gente... Enfim, falou um pouquinho dos cargos por onde o senhor passou e pulamos para as aquisições e parcerias. Esses cargos, o senhor foi diretor administrativo? Foi nesse cargo que o senhor ficou até o ano passado, é isso?

 

R – Não. Diretor administrativo, na realidade, eu fiquei, eu acho que até setembro, até quase no fim de 2000. Diretor executivo-financeiro que eu fiquei pouco tempo com esse título, que daí a gente pegou nesse período, saíram muitos diretores do Aché. No fim, o diretor executivo mesmo só estava eu e meu “xará”, o “Toninho químico”. Nós ficamos um tempo só nós dois, assumindo toda a responsabilidade porque tem o Conselho de Administração, mas quem executa mesmo _________. Nessa parte, eu fiquei pouco, um ano e pouco só, um ano e pouco.

 

P/1 – E como foi essa transição para diretoria executiva?

 

R – Olha, isso aí não é fácil para ninguém. Se fosse numa situação normal, uma situação normal assim, tranquilo, mas você entrar num cargo deste com acionista  divergindo, brigando, não é fácil não. Não é fácil. É uma função até que gostosa, ela é muito boa numa situação normal de uma empresa, sem o orgulho, o amor, o ego ferido, esse tipo de coisa. Realmente... Olha, é difícil, não é fácil. Entrar numa transição desta, olha não é mole. Não é mole. Porque você convivia lá com... (Natali?) e Vavá já estiveram aqui, não? 

 

P/2 – Não. Ainda não.

 

R - Os caras que estão... O Vavá é mais velho que eu, chama Waldemir, né? Ele tem, eu acho que 35 ou 36 anos trabalhando no Aché. Trabalhou antes. Inclusive trabalhava com ele, antes de comprar o Aché. Essa pessoa foi, da noite para o dia, aposentado, desaparece. Aí, vai um outro também. Quando vê estava eu e o químico sozinhos, e tomando tiro do Adalmiro assim, no meio do fogo cruzado. Realmente não é fácil, é bem complicado. Até para eles também  é complicado. Para o Víctor é complicado, para o Depieri é complicado, para os filhos é complicado. Complicado para todo mundo. Para o empregado é complicado. Não só na parte da... Nós assim, mais de nível mais alto, mas o pessoal mesmo, mais baixo nível, todo mundo fica com suspeita, fica inseguro por qualquer mudança que é feita. Qualquer uma, por pequeno que seja, ela é sentida. Ela dá uma tremidinha, muito pequeninha, ela dá uma tremidinha. Agora, a mudança que foi feita foi muito grande, foi muito grande, muito grande.

 

P/2 – O senhor se aposentou num momento de grandes mudanças também, seu Toninho? Como é que o senhor vê essas mudanças...

 

R – Não, ela estava no fim, ela estava se encaixando, o negócio estava se encaixando já, né?

 

P/2 – Uma mudança geral?

 

R – É, ela estava se encaixando. Nós já estávamos com um diretor de marketing e vendas já engatilhado, o acionista minoritário, ele já estava perdendo as ações que ele tinha movido, coisa que ele tentou barrar na junta comercial, das mudanças. Então, essas ações, ele já estava começando a sair os primeiros pareceres favoráveis ao Aché. Mas, agora, quando o cara entra, a barra,  e aí, como é que fica? Aí, quando o cara começa a perder, começa a se encaixar as coisas, né? Então, nós estávamos com três, quatro (atas?) na junta comercial paradas. Já tinha o diretor substituto para entrar no meu lugar e ele não podia assinar nada. Tinha que ficar lá porque a dele estava na junta comercial, não tinha sido eleito. Parada na junta.

 

P/2 – Mas existe um acionista minoritário ou não?

 

R – Olha, lá o Aché é 33,33%, três famílias. Se duas famílias uniram, eles ficaram com 66,66%. Então, o outro é minoritário.

 

P/2 – Entendi. O senhor decide se aposentar por quê? Era época de se aposentar mesmo?

 

R – Não, não, não. O nosso plano de previdência, nós temos o plano de previdência privada, tá? O plano de previdência, ele é com 60 anos. Eu me aposentei com 58.

 

P/2 – Foi uma decisão do senhor?

 

R – Não, decisão deles.

 

P/2 – O senhor deixou o Aché num momento de mudanças, já se ajeitando, mas muitas mudanças pela frente ainda?

 

R – Tem.

 

P/2 – Como é que o senhor vê o futuro do Aché, seu Toninho?

 

R – Olha, o pessoal que está lá, o Víctor, os dois filhos do Eduardo... Do Depieri, né? E mais com esses, os diretores aí, os novos, que eles não têm um compromisso maior com os funcionários antigos que tem lá. Se eles souberem levar direitinho, o Aché vai continuar tendo sucesso, com certeza, com certeza. Ela vai continuar tendo sucesso mesmo, mas se eles continuarem com essas brigas, e esses diretores não se empenhar, a empresa, ela pode ser vendida, ainda pode ser vendida. E isso aí, não vai ser bom para ninguém; nem para os funcionários e nem para os donos, porque uma empresa que tem esse tipo de desacordo, esse negócio é uma empresa desvalorizada no mercado, sabe? É fácil quando você quer vender o seu carro para mim e eu não estou querendo comprar. Eu vou pegar no teu preço... É um exemplo simples, mas é o que acontece com as empresas, é isso aí. Mas, por outro lado também, isso não é um privilégio do Aché. Não é privilégio do Aché. As empresas familiares assim, são umas poucas, que passam da primeira geração para a segunda, sem traumas. Normalmente é tudo com trauma ou vai para terceiro, é vendida, né? Quando ela é passada da segunda para terceira é bem mais simples, porque a segunda geração já comeu tudo de ruim, já pegou. Então, ele não vai deixar a terceira entrar nisso aí. Ele se prepara de uma maneira mais eficiente. Aí, tem o caso: Pão de Açúcar foi uma empresa que ficou na corda bamba, os irmãos, tudo. Até saiu, há pouco tempo, eu acho que semana passada, saiu na Veja, Diniz lá, que não vendeu a parte societária dela. Os irmãos venderam tudo, ela ficou junto com o pai, o Abílio. Então, ficou, mas foi uma empresa que estremeceu. Eldorado acabou, Eldorado acabou. Tudo briga de família. Cofap acabou. Tem mais. O Aché também não vai ser uma empresa diferente. Eles têm que ter bastante cuidado. Realmente, eles estão mexendo com uma coisa que é complicada. Ou seja, eles estão mexendo em sistemas complexos. São sistemas complexos.

 

P/1 – Seu Toninho, fazendo uma retrospectiva da sua carreira dentro do Aché, como o senhor avalia sua trajetória esses anos todos?

 

R – Olha, eu não posso reclamar nem um pouquinho, inclusive daquele diplomazinho que eu tive lá, que me colocou no caminho da felicidade [risos]. Trabalhei com pessoas honestas, sinceras, pessoas assim, que me ajudaram bem assim, que entendeu o que é uma família, um filho, o que é uma esposa. E também, todas as coisas que eles prometeram para mim, não deixaram de cumprir uma, escrito ou não escrito. Esse profissional aqui, hoje em dia, acabou. Não tem mais, não tem mais. Se eu fosse dar um conselho para o jovem agora, eu falo: “Cinco anos numa empresa, tem coisa melhor? Cai fora. Quatro anos, esquece.”

 

P/1 – E o senhor estava contando para gente lá fora que já se aposentou, mas, volta e meia, ainda tem que... Enfim, dar um telefonema, explicar, dar algumas coordenadas e tal, então está nessa fase que ainda tem um contato muito forte com a empresa.

 

R – Não, não tenho um  contato forte.

 

P/1 – Não?

 

R – Não, não, não. O meu contato é muito pouco e muito mais assim, em torno dessas agropecuárias que eu falo com estudantes. Mas, a parte operacional do Aché mesmo, aí foi só coisa assim, que estava alguma coisa que estava atrasada, que era da minha época, que eu tive que assinar para atualizar livro, alguma coisa, parte acionária, alguns negocinhos pequenos. Mas eu não tenho mais. 

 

P/1 – Sei. Você respondia por essas questões.

 

R – Não, não respondia por essas questões. É que a gente na função de diretor, a gente é o responsável [risos]. Não quer dizer que a gente faz. Diretor, muitas vezes, é o responsável por muitas coisas que ele nem sabe fazer aquilo lá. Ele sabe, mas ele que dá o nome, parte-se do princípio, né? É claro,  se o cara é diretor, ele tem que ter um subordinado eficiente, competente para fazer as coisas certas para gente “meter o chamegão” [risos].

 

P/2 – O senhor se aposentou como diretor financeiro-administrativo, mas ainda conhecido como Toninho contador. O contador ficou, né?

 

R – Por que é que ficou essa praga desse nome aí? Porque quando eu entrei no Aché, eles me chamavam de Toninho. Aí, veio o outro diabo lá da Squibb (Bristol-Myers Squibb), que é o Antônio Russo, o Toninho Químico. Aí ____ Antônio: “Pô, agora têm dois Toninhos aqui.” “Então, esse aqui é o Toninho Contador e esse o Toninho Químico. Pronto.” Lá era uma beleza para colocar apelido nos caras, viu? Era uma beleza.

 

P/2 – Ficou.

 

R – Era uma beleza. “Olha lá a cara do cara?” Falou: “Pô, aquele cara lá parece… tem uma cara de tigre. Pronto, Tigrinho” [risos]. “Tem os olhos meios tortos, Galo Cego”. Olha, “tem um que fala muito baixinho, Sussurro” [risos]. Eles são criativos.

 

P/2 – Tinha o Espanto, o Sombra...

 

P/1 – Como que é? Eu acho que era Sombra. E o Toninho Químico também era chamado também de TQ, né?

 

R – TQ e TC.

 

P/1 – TQ e TC.

 

R – TQ e TC. E os bilhetinhos rolavam TC. ______ Contador [risos]. _____ Contador.

 

P/1 - E como é que está agora, depois da aposentadoria que o senhor saiu, como que é a rotina, seu Toninho? Em casa... Enfim, como é que o senhor está se acomodando a essa nova realidade?

 

R – Bom, eu como bom administrador, não coloquei rotina [risos]. Eu, como bom administrador, eu não acompanho rotina. Só para mim tirar os papéis, documentos, agenda, essas coisas particulares que a gente tem. Nesse tempo você vai acumulando. No fim você acaba tendo um escritório particularzinho junto com tua mesa de trabalho. Então, demorei mais de um mês para mexer nesse negócio. Então, não coloquei rotina, não. Acho que não vou colocar também não. Deixar sem rotina. Chega de rotina [risos]. Já tive rotina de pegar essa marginal, essa Dutra, 28 anos. Puxa, corri tanto risco aí, tudo por rotina. Agora, não vou por rotina mais não. Deixa aí, deixa sem rotina. Deixa bagunçado [risos].

 

P/1 – Mas está curtindo mais a casa? 

 

R – Ah?

 

P/1 – Está curtindo mais a casa?

 

R – Não, a gente dá uma saída, a gente passeia. Tinha um monte de coisa, aqui tinha um monte de gente que ______ . Agora você tem que fazer sozinho. Você tem que pagar cota, você tem que ver isso, você tem que fazer uma agenda de pagamento porque antes pegava os boletos, entregava lá para o caixa, para o Roberto Mitsube, dava para ele, era o secretário [risos]. Então, ele fazia. Agora,______, acaba sobrando para a gente, mas isso não é trabalho não.

 

P/2 – O senhor mora atualmente com quem, seu Toninho? O senhor mora atualmente com quem? É o senhor, a esposa...

 

R – E o meu filho. Eu tenho um cunhado também.

 

P/2 – O senhor teve dois filhos?

 

R – Eu tenho dois filhos.

 

P/2 – Dois filhos.

 

R - Um está casado e o outro é solteiro. Eu tenho um cunhado também que mora junto comigo e minha esposa.

 

P/1 – Como é que chama os seus filhos?

 

R – Um chama Douglas, esse que trabalha no Aché, outro chama Ricardo. 

 

P/1 – Eles estudaram, estudam?

 

R – O Douglas, ele está formado em Marketing e agora ele está fazendo... Vai entrar agora, começar a fazer pós-graduação em Marketing. O outro está fazendo TV-Rádio, Rádio-TV, sei lá. Esse pequeno, esse caçula não sabe o que ele quer, se vai ser salsicha ou lingüiça, viu? [risos] Prefiro que seja lingüiça porque eu não gosto de salsicha [risos].

 

P/1 – Seu Toninho, a gente já está encaminhando para o final, eu queria  perguntar se o senhor tem um sonho que o senhor gostaria de realizar? O senhor tem um sonho de vida?

 

R – Porra, um sonho de vida? Eu vou falar para você, “olha, eu não quero ficar doente.” Eu tenho pavor de ficar doente. A Segunda coisa, o meu sonho de vida é não ficar inválido. O restante, eu acho que posso me considerar uma pessoa vencedora, uma pessoa que foi... Que depositaram em mim uma confiança que pouca gente tem, que pouca gente tem mesmo. Igual o Victor chegar e falar: “Pô, contador. Vou falar, você sabe mais da minha vida do que a minha mulher, viu?” [risos] Tenho uma previdência privada que não vou passar necessidade de dinheiro, não vou ficar rico, mas não vou ficar tipo argentino. Eu e minha esposa, nós estamos garantidos até os últimos dias. Plano de previdência me paga. No caso de eu falecer, a minha esposa continua até ela falecer com 50% do valor. Então, nós estamos assim... Eu gostaria que milhões de brasileiros tivessem na minha situação, essa é a grande verdade. Essa é a grande verdade, só que isso seria outra Terra. Deveria ter mais empresas assim, iguais ao Aché. Mais, bem mais, muitas, muitas. 

 

P/1 – Por último assim, para encerrar, queria perguntar, o que o senhor achou da experiência de ter contado um pouquinho da sua história?

 

R – Eu nunca pensei nisso[risos]. Eu acho que foi gostoso. (pequena interrupção)

 

P/1 – Então, eu gostaria de perguntar, o que o senhor achou de ter contado um pouquinho da sua história, hoje, aqui?

 

R – Eu nunca pensei nisso, mas acho que foi gostoso, foi gostoso. Foi bom. Fora o vexame, não saber dados do pai, da mãe, dos avós. Também vocês pegaram isso é sacanagem [risos]. A Immaculada: “Não, mas é simples. Mas, umas perguntas tão simples”. É tão simples, tão simples que eu não sei. Eu estou acostumado com perguntas difíceis. As simples eu não consigo.

 

P/1 - Tem mais algum detalhe que o senhor gostaria de deixar registrado, que a gente não tenha perguntado?

 

R – Eu acho que vocês estão fazendo um trabalho bacana, válido e espero que vocês tenham sucesso aí nos outros amigos da gente. Cara que já saiu e pessoas que estão lá ainda carregando, como diz o _____, “carregando o piano”. Pegar esse pessoal, tudo. Deixo também, se precisar de alguma coisa, se eu achar algum material que eu ache importante, eu posso passar no crivo de vocês, se valer a pena, aí fica para a história do Aché.

 

P/1 – Está jóia. Então, a gente queria agradecer muito a sua participação. Obrigada.

 

R – Eu recebo o cachê onde? [risos]

 

P/2 – Lá fora [risos].

 

P/1 – Recebe um café.

 

P/2 – Fora das câmeras.

 

---FIM DA ENTREVISTA---


 

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