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História

Tomei um tiro

História de: Arnaldo dos Santos Filho
Autor: Coleção Alagados
Publicado em: 30/08/2020

Sinopse

Arnaldo narra sobre o dia em que saiu para comprar uma galinha na feira e acabou sendo ferido por uma bala perdida.

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História completa

Eu tomei um tiro uma vez. Eu tive diversas enfermidades que me apareceram. Apareceram uns três tumores em mim. Foi uns três tumores que apareceram e não sei, foi uma sequência de três tumores que apareceram um em cima do outro, no abdômen. Quando eu cheguei no médico eu estava sentindo muita febre, dor de cabeça e eu não sabia porque. Quando eu cheguei no hospital, e fiz exame de ultrassom abdominal, essas coisas. Então eu ia buscar diagnóstico, mas nunca dava nada, nunca dava nada... Até que um dia foi... um foi o Gabriel [nome do médico] e outro era Rafael... olhando o ultrassom bem profundo aí ele detectou. E aí fiz uma pequena cirurgia. Aí foi uma graça também. E esse tiro foi quando eu fui comprar uma galinha. Eu tinha encomendado uma galinha lá na feira, no Jardim Cruzeiro, na Granja, e a moça ligou: “- Aí diga a Arnaldo que é pra vim buscar”. Aí meu cunhado disse: “- Olha a moça falou pra você ir pegar a galinha que ela vai fechar à uma hora”. Ai eu digo: “- Não já vou, já vou”. Aí fui saindo e um menino estava passando aí no campo de bola (...) ele vinha de moto, no sentido do Jardim Cruzeiro pra cá, da feira, e o rapaz vinha saindo da rua Boa Vista onde ele mora. Então, na hora que ele foi saindo ele veio, pra poder entrar – assim me contaram depois – então o rapaz brecou. No que o rapaz brecou ele saiu um pouco do carro e caiu, ele e o outro. Eram dois traficantes. E daí eles começaram a entrar em discussões – mas isso eu não vi nada né que eu estava em casa ainda. Então no espaço que ele ficou, uns dez metros da pessoa que estava discutindo, o rapaz saiu do carro pra pedir desculpa, nesse intervalo. Acho que foi isso. E ele começou a xingar e então nesse intervalo que o rapaz estava pedindo desculpa eu acho que ele sacou a arma e atirou. No exato momento que eu saí de bicicleta, ele atirou e eu passei na hora. E aí eu recebi esse tiro. O tiro pegou aqui (mostra), partiu aqui. Faltou assim só uma linha pra pegar uma veia do coração... partiu o osso, saiu cá. Aí pronto, aí foi um corre corre, que todo mundo pensou que eu tinha morrido. Foi um corre corre nesse Uruguai! E eles fugiram na hora. Ele mora aí no fim de linha. Aí eles fugiram, o campo estava cheio. Falavam “- Pega ele! Pega ele!” Aí foi um corre, corre. Me levaram pro Pronto Socorro. Tive a graça porque minha irmã trabalha lá no Santo Amaro e nesse dia no Santo Amaro ela estava no Pronto Socorro também. Foi muita graça. Foi Deus mesmo. E quando eu dei entrada, demorou. Era quase uma da tarde quando eu dei entrada lá e fiquei esperando até onze e pouco da noite, aí fui pra cirurgia. Não tinha vaga. Estavam pensando em me transferir pra um outro hospital porque tava assim né [expressão com a mão]. Foram me mobilizando dando medicamento, vacina e coisa e tal... Vacina na barriga... Imobilizaram a perna... Disseram “- Aguarde aí”. Depois fui fazer raio-x. Foi um processo no hospital. E daí foi graça... Disseram que não precisava transferir: “ - Você vai ser operado”. Foi graça mesmo. Foi uma equipe maravilhosa que me operou. Tem o que? Deve ter uns quatro anos já (incerto)... dois anos pra três... três anos já... que eu tomei esse tiro. Aí pronto. O médico falou que faltava pouquinho pra pegar na veia do coração. O médico disse que eu ia ficar bom, que ia poder caminhar, depois de um ano. Mas eu estava muito agoniado em casa porque tinha esse problema de eu estar em casa rezando e a missa acontecendo, a eucaristia... mas eu queria estar lá na Igreja. Aquela coisa me dava uma agonia. Eu disse: “- Poxa, não, não”. Aí passou um mês, passou dois, três... aí foi num dia na missa de São Paulo... Acho que já fazia uns quatro meses já... e aí, menina, eu disse: “- Eu vou na Igreja”. Minha irmã disse que eu disse: “- Se você não me levar eu vou, vou de muleta” Ela disse: “- Arnaldo você é maluco!”. Eu com a perna engessada... que nada... Com seis meses eu tava andando. Eu tava fazendo fisioterapia. Aí ele disse que eu tinha que ir lá pra abrir e tirar o ferro que tá aqui. Eu falei: “- Tá bom”... Eu não vou lá pra ele abrir nada (risos) vai ficar aí esse ferro, parafuso... eu não vou tirar nada. Depois vai ter que me abrir... não, não... Tenha santa paciência.. abrir minha perna de novo? Eu não quero mais não. Eu não voltei de novo pra ser aberta não. Não incomoda nada. Não sinto nada na perna, nessa perna aí não. (...) Uma vez eu estava no campo, e falaram: "olha quem lhe atirou ali..." porque ele estava ali, se escondendo pelos cantos, entendeu... Então toda vez que eu ia lá pra baixo, onde ele morava, no gueto, eu rezava um terço ali e eu acho que ele tinha uma grande preocupação. De sempre alguém me dizer: "Fulano está ali." Às vezes alguns colegas meus da polícia me perguntavam: “- Você sabe quem é!” eu dizia: “- Não.” Eu nunca dizia que eu sabia quem era. Embora depois me disseram: " - Olha, foi fulano de tal que estava naquela moto". Quando eu estava ainda de cama, uma irmã me visitou e a palavra que ela me deu foi essa... dessa experiência que Jesus fez comigo. Ele mandou um parente dele também lá pra saber qual ia ser a minha reação... Porque ele era traficante, né? Eu disse: "- Não sei quem foi não, mas eu tô rezando pra ele, pra que ele se converta, pra sair dessa vida." Toda vez que eu ia lá pra baixo alguém passava isso pra ele. Pra dizerem: "- Não, ele é de Igreja, ele é de caminhada, ele não está procurando vingança com você não."

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