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História

Todo mundo é cidadão

História de: Francisco Coutinho
Autor:
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Nasceu na comunidade de Comboios, em 1943. Na infância as casas eram feitas de estuque, brincadeiras de tambor. Foi eleito cacique da aldeia. Acordo com Aracruz. Projeto agrícola de autossutentação. Trabalha no Projeto Tamar. Casado, sete filhos.

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História completa

P/1 – Boa tarde, senhor Francisco, muito obrigado por ter vindo aqui para esta entrevista do projeto Memória Aracruz. Eu queria primeiro que o senhor dissesse o seu nome completo, o local e a data de nascimento.



R – Boa tarde, para mim é um motivo de grande prazer estar aqui junto com vocês e até para a gente ter, assim, mais um conhecimento, né, do que ainda a gente talvez não tenha, mas para mim é uma satisfação estar aqui junto com vocês. O meu nome completo, como já falei, é Francisco Coutinho, somente Francisco Coutinho, não tem mais um outro nenhum para colocar.



P/1 – E o nome do seu pai e da sua mãe?



R – O nome do meu pai era Manuel Coutinho, minha mãe Dorvelina Coutinho.



P/2 – O senhor nasceu onde?



R – Nasci em Comboios mesmo.



P/1 – E quando foi?



R – Sou de 1943.



P/1 – E a data completa do seu nascimento, senhor Francisco?



R – Catorze de novembro de 1943.



P/1 – Muito bem, e o senhor tem irmãos?



R – Tenho. 



P/1 – O senhor pode falar um pouco sobre eles?



R – Meus irmãos, eu já tenho um que é falecido. Então, éramos em cinco, hoje resta quatro, né, eu e mais um irmão e duas irmãs.

 

 

P/1 – E o senhor pode falar o nome deles?



R – Hilário, Viviane e Ester e o que faleceu chamava-se Valdemar.



P/1 – E o senhor e a sua família sempre viveram lá na aldeia dos Comboios?



R – Sempre, sempre vivemos lá.



P/1 – O senhor se lembra dos seus avós?



R – Olha, dos meus avós, o avô paterno eu não lembro, não cheguei a conhecê-lo. Então, a minha avó materna eu conheci, apesar de ser poucos tempos, mas eu ainda vi ela ainda.



P/1 – E o seu pai também foi cacique?



R – Não, meu pai não foi cacique, não.



P/1 – E o que é que o senhor se lembra, assim, de quando o senhor era pequeno? O que é que faziam o senhor, seus irmãos, seus amigos?



R – Bem, eu com meus amigos, a gente tinha assim uma boa vivência, brincava e trabalhava, fazia alguma coisa. Já com meus irmãos, eu fui, assim, praticamente criado, porque eles logo que foram se formando foram saindo, né. E eu praticamente eu me criei quase sozinho, somente com um irmão mais velho que eu, um pouquinho. Então, os outros mais velhos sempre se criaram fora. Um saiu para o Rio outro para aqui mesmo, para Vitória, teve alguns que trabalhou aqui. Então a gente, mas a gente teve uma convivência muito boa, eu com meus irmãos.



P/1 – Eles foram para uma outra aldeia ou foram para fora mesmo?



R – Não. Foram para fora. Dois, um casal, mora no Rio. E um mora na Barra do Riacho.



P/1 – E tem algum irmão que mora aqui em Vitória?



R – Não. Tem essa que mora no Rio ela trabalhou bastante tempo em Vitória, daqui que ela foi para o Rio.



P/1 – Senhor Francisco, o senhor nunca quis sair?



R – Quando era mais novo tive vontade de sair, mas só que eu era, eu fiquei como filho único da casa, ficou eu e a minha mãe, né. Fiquei com 10 anos de idade quando meu pai faleceu, então eu não pude sair, porque não tinha como deixar, e eu fiquei.



P/1 – E o senhor estudou na aldeia, aprendeu a ler e a escrever lá?



R – Não, na aldeia não, eu estudei na Barra do Riacho.



P/1 – Onde?



R – É aqui para lá de Barra do Sahy.



P/1 – Numa escola?



R – É.



P/1 – Fala um pouco sobre essa escola. Como é que o senhor aprendeu a ler e a escrever nela? O que é que faziam?



R – A gente estudava e brincava, né. Porque sempre todas crianças, os menores têm horário para brincar, divertir e depois voltar para estudar, então era o que a gente fazia.



P/2 – Era uma escola pública?



R – É que ali estudava todo mundo ali, né.



P/2 – E quais eram as brincadeiras que o senhor gostava de… 



R – … Tinha várias brincadeiras, tinha a brincadeira que chama picolê, né, de correr assim atrás do outro e cantar roda também, e gente juntava um monte de criança e enfim, várias brincadeiras.



P/1 – Aí você convivia com colegas de fora da aldeia também, de fora ou era só de dentro da aldeia?



R – Não, porque a gente vivia com os da aldeia também, da aldeia. A gente estudava e voltava.



P/1 – Tinha muita criança, não tinha?



R – Tinha bastante.



P/1 – E como é que era, assim, a casa do senhor, onde o senhor vivia com a sua família quando o senhor era pequeno?



R – A casa nossa era praticamente de estuque, né.



P/1 – O que é que é estuque?



R – Madeira, a gente chama embarreado, com barro, coberto com palha. Então, a nossa casa era assim.



P/1 – E ainda são assim?



R – Não, agora a gente perdeu um pouco da tradição, né, que começou a se infiltrar muito com a sociedade não índia, né, e a gente pegou mais o costume da sociedade branca.



P/1 – E quais eram as coisas que aconteciam quando o senhor era pequeno que eram da tradição dos índios?



R – Quando eu era pequeno tinha a brincadeira de tambor, tinha roda de terreiro que a gente chamava também e mais outras brincadeiras que tinha tradicional.



P/1 – E o senhor foi educado na religião dos seus avós ou em outra religião?



R – Porque a religião dos meus avós sempre foi católica, né, então eu sempre segui.



P/1 – E o senhor ia à igreja e ainda vai?



R – Vou ainda, inclusive nossa aldeia tem uma igreja também.



P/1 – E tem padre, capelão na igreja?



R – Não, ele não tem lá, mas ele vai de vez em quando na igreja nossa, Coqueiral, ele vai lá.



P/1 – Conta um pouquinho mais como era, assim, o dia a dia lá na aldeia quando o senhor era criança, jovem, conta um pouco mais como era para a gente.



R – É porque quando é bem criança a gente quase, depois que se torna adulto a gente esquece muito do que, do passado, né, e nem todas as coisas a gente lembra, mas… 



P/2 – … Mas é muito diferente de como as crianças vivem hoje?



R – É bastante diferente, né.



P/1 – O que é que é diferente?



R – Diferente é porque, pelos modos de tradição, de brincadeira que existe, ela tem, assim, grande diferença da antiga da tradicional indígena.



P/1 – O que, assim, por exemplo roupa, alimentação?



R – Roupa, na parte esportiva, né, assim como músicas diferentes, não são as tradicionais, né.



P/1 – Mas que esportes que eram que não tem mais, por exemplo?



R – Não, porque na época a gente, o que a gente usava mais era, é, jogo de futebol, né, era o que a gente conhecia mais. Então, como esses últimos esportes que existem hoje a gente não, na época a gente não conhecia, né.



P/1 – Que posição que o senhor jogava?



R – Olha, diz o pessoal que eu não era muito ruim de bola, não. Eu jogava de defesa, né.

 

P/1 – Hum, é.



R – É, de zagueiro. Diz o pessoal que eu jogava mais ou menos.



P/2 – E o senhor ainda joga futebol?



R – Não, eu parei, que para mim não dá mais, que a gente tem uns “trabalhozinhos”, então um trabalho que a gente não pode, se de repente for jogar, pode ter uma contusão e depois no outro dia não pode ir no trabalho, tem que justificar porquê, e não vale a pena, então… 



P/1 – E o senhor começou a trabalhar ainda muito novo?



R – Eu comecei, eu me tornei um chefe de casa a partir dos 10 anos, porque igual eu falei que a minha mãe ficou viúva, né, e meu irmão mais velho saiu também de casa e foi procurar a vida dele, então eu fiquei mais ela, aí eu que fiquei como chefe da casa.



P/1 – E o senhor, então, com 10 anos já ganhava para o sustento da família?



R – Ah, fazia tudo para, né, apesar de ser uma criança, mas aí tinha que se esforçar, né, porque só eu e a minha mãe. 



P/2 – Tinha ajuda de outras pessoas da aldeia, algum parente?



R – É, naturalmente que a tudo que, todo o pessoal da aldeia sempre, só fazia mesmo para si próprio, não tinha como, então cada um tinha que se virar do jeito que pudesse,né.



P/1 – O senhor plantava?



R – Plantava.



P/1 – O que?



R – Plantava mandioca, abóbora e melancia, cana.



P/1 – E vendia?



R – Vendia.



P/1 – Plantava para comer e para vender.



R – Para subsistência.



P/1 – E vendia onde?



R – Vendia na Barra do Riacho mesmo, na beira do riacho, onde a gente tinha comércio mais próximo.



P/1 – E também pescava?



R – Pescava também.



P/1 – Mas também para vender?



R – É, quando sobrava para vender a gente dividia, né. Mas mais é para consumo mesmo.



P/1 – Que peixe?



R – Vários tipos de peixe. No mar era pescadinha, uns outros peixes, no rio era robalo, traíra, vários peixes também.



P/1 – E como é que era? De rede?



R –  A rede sempre era, é, facilitava mais, né, porque pescar de anzol sempre é mais difícil, né. Então a rede ela… Hoje não, peixe hoje não tá mais para chegar assim, armar uma rede e dizer que no outro dia vai pegar peixe, que tá difícil.



P/2 – E o senhor é casado, seu Francisco?



R – Sou.



P/2 – E como é que foi que o senhor conheceu a sua esposa?



R – É, a minha esposa, a gente se conheceu assim, a gente se viu na aldeia, né, então a gente se conheceu na própria aldeia mesmo.



P/2 – É, o senhor tinha quantos anos?



R – Dezoito anos.



P/2 – É?



R – É.



P/2 – E vocês têm filhos?



R – Tenho.



P/2 – Quantos filhos?



R – Tenho sete filhos.



P/2 – E o que é que eles fazem hoje, conta um pouquinho o nome deles, qual é… 



R – …  É, o mais velho, a mais velha também é falecido, né, ele chamava-se Ricardo, o segundo é homem, é o Gilmar, terceiro Itamar, tem a Denise, Créia, Márcio e a caçula que é a Sandra. Tá com 18 anos ainda.



P/2 – E eles vivem todos ainda em Comboios?



R – Todos em Comboios.  



P/2 – Trabalham fora ou não?



R – Eles trabalham fora, quer dizer, um trabalha, eles trabalham na própria aldeia, só que é para serviço para fora, né.



P/2 – Sei.



P/1 – Seu Francisco, eu queria agora que a gente começasse a falar um pouquinho sobre a primeira vez que o senhor ouviu falar da Aracruz. Quando foi que o senhor conheceu o senhor Lorentzen, o senhor pode falar, contar para gente como é que foi isso?



R – Sim. O seu Lorentzen, a gente conheceu a partir do momento que a gente fez um acordo com a Aracruz, então daí a gente começou a conhecer várias pessoas, no qual a gente conheceu o seu Lorentzen, que é uma pessoa que merece todo respeito, que a gente tem muito respeito por ele. Isso foi na época, na década de 1998, né, e a gente começou a conhecer várias pessoas na Aracruz. Aí foi quando a gente conheceu também a Ivone, a gente trabalhou muito tempo junto, a gente tinha um programa que era, chamava-se Nisi, era um programa de saúde, né, chamava-se NIS, no qual ela era também membro desse programa. Então, a gente conviveu muito tempo trabalhando junto, né.



P/1 – Mas e a primeira vez que o senhor ouviu falar que iam construir uma fábrica, como é que foi isso?



R – A gente ouviu falar, só que eu não tinha, não sabia a fundo o que é que seria essa fábrica, né. Então, a partir do momento que foi passando, eles construíram e a gente depois teve a oportunidade de conhecer de perto né, o que é que ela faz, o que é que ela desenvolve, quais são as atividades. Então, é assim, e assim que a gente começou a conhecer o pessoal da Aracruz também.



P/1 – Mas o senhor acha que foi uma coisa, assim, que foi boa porque deu trabalho, deu emprego ou foi alguma outra coisa que, que não foi boa?



R – Olha, do meu ponto de vista eu não tenho nada a falar que se foi mau ou não, porque o primeiro passo é que ela deu muito serviço para o pessoal, todo mundo tá precisando de trabalho e foi uma oportunidade de todo mundo ter o seu trabalho para ganhar o seu dinheiro. Agora muitos falam de que a Aracruz prejudica e, o meio ambiente, tudo, agora eu não sei, eu não tenho conhecimento sobre isso aí.



P/1 – Teve muita gente da aldeia que foi trabalhar na obra da fábrica? 



R – Não, teve algumas pessoas, não foi muito, não, mais ou menos umas dez pessoas só, mas trabalhando, assim, depois dela já montada. É, não foi na construção da fábrica.



P/1 – A aldeia fica perto ou longe da fábrica?



R – Ela fica a 15 quilômetros..



P/2 – É grande a aldeia?



R – Ela mede aproximadamente uns 500 metros, só de povoação, né, fora, sem contar com a área toda que pertence a aldeia. A área toda tem 2556 hectares.



P/1 – E quando é que o senhor se tornou o cacique da aldeia? 



R – É, porque antes, teve um parente meu que foi o primeiro cacique, né, depois ele saiu, aí, é, veio outro no lugar dele. Depois o segundo também não quis mais ficar, saiu, veio o terceiro, aí depois do terceiro veio eu.  



P/1 – Mas como é que é isso, as pessoas elegem?



R – É, praticamente quando o cacique, ele trabalha direitinho, ele só sai se ele mesmo quiser, mas se ele tiver cansado, quer descansar um pouco, então ele pede e sai. Agora, quando duas vezes é por motivo de alguma coisa que ele faz que não é de acordo com a comunidade, aí eles fazem uma eleição e muda.



P/1 – Seu Francisco, o que é que um cacique faz?



R – Olha, o cacique ele faz várias atividades, ele, o primeiro passo ele é responsável, uma pessoa responsável pela comunidade, né, e aliás, responsável por tudo, porque tudo que se procura numa aldeia, ele que é a pessoa chave a ser procurada. Todo mundo que vai na aldeia sempre procura o cacique, então ele é a pessoa de frente, né.



P/1 – E o senhor teve que resolver problemas quando o senhor era cacique?



R – Tive, vários problemas.



P/1 – Então, o senhor podia contar um pouco isso para gente?



R – É problemas com posseiros, né, problemas até, problemas internos da própria comunidade, mas, graças a Deus, eu sempre consegui resolver pacificamente, hoje não tem ninguém que tem raiva de mim e tudo mais, entenderam que a gente fez uma coisa justa, né, que eu sempre trabalhei em cima de fazer as coisas justas, não injustas. Eu não sou aquela pessoa que, até que tem muita pessoa que diz se levar por influência dos outros, ele faz uma coisa que não, que deveria ser evitado, viu, então, mas ele não evita, depois quem sai prejudicado é ele, se queima por si próprio. Então, eu sempre fui tranquilo, meus trabalhos, e fiquei essa temporada na comunidade, saí porque sempre na comunidade tem, é igual partido político: tem os da direita e da esquerda. Então sempre tem alguns que por muito que a pessoa faça, mas para alguns não tá bem, então, aí também achei que deveria descansar um pouco. Eu fui cacique por dois mandatos, a primeira vez eu, assim, da primeira vez que eu entrei eu fiquei bastante tempo, depois cansei, fiquei um ano afastado, depois me procuraram de novo, retornei, esses dias, tem uns quatro meses que eu saí de novo. 



P/1 – Foi quando, o seu primeiro mandato que o senhor fez o acordo aldeia-Aracruz?



R – Não, foi agora no segundo.



P/1 – Ah, eu queria que o senhor falasse sobre isso, isso é muito importante.



R – É, o acordo a gente fez da seguinte forma: que devido, primeiro, as aldeias, elas, as aldeias de Pau Brasil e Caravela, elas resolveram chamar a empresa para um acordo, para _____ em três lá. Então, aí para Comboios não ficar sem nada a Aracruz propôs também para gente ter uma conversa, né, aí quem sabe chegar e fazer um acordo também com ela, então foi o que aconteceu. A gente conversou com a empresa, o administrador da Funai [Fundação Nacional do Índio], que é o responsável por todas as comunidades indígenas, ele chegou para gente conversou também. Então, a gente achou por bem que seria uma boa a gente fazer um acordo com a empresa, mas que, no geral, Comboios fez um acordo com a empresa, e os outros eles quiseram fazer para o bem deles, porque diz eles que a empresa tá prejudicando eles, então… 



P/1 – … Prejudicando em que sentido?



R – É, porque, devido ao eucalipto que estava plantando em volta das comunidades, né, agora, Comboios não. Comboios sempre foi mais retirado das outras aldeias, e na nossa área que nós convivemos hoje nunca teve plantio da Aracruz, tem áreas que a Aracruz, ela fez uma coisa boa com a gente, ela reconheceu que a gente também, por ser índio, a gente também teria mesmo direito que os outros tiveram, então ela chamou a gente, a gente foi lá e fez o acordo.



P/1 – O direito de ter terras?



R – Terras, de tudo, né, que é um recurso que atendesse a necessidade. 



P/1 – Seu Francisco, nas aldeias, na sua e nas outras, tem muitas religiões que não sejam a religião católica?



R – Na minha comunidade nenhum tem uma, é, evangélica, né, a batista não é, tem a Igreja Pentecostal e tem uma outra lá que agora de momento até esqueci, parece que é Brasil para Cristo, parece ser uma, tipo desse aí que, então são duas religiões diferentes da nossa católica, né?



P/1 – Mas tem alguma aldeia que ainda reza para os, para religião dos avós, dos antigos?



R – A única aldeia que ainda tem a sua religião tradicional é os guaranis, né, mas os tupiniquins que é a mesma etnia que a minha, mas aí é diferente, né.



P/1 – A nação que a sua aldeia pertence é tupiniquim?



R – É.



P/1 – Seu Francisco, quando o senhor era cacique tinha, assim, uma espécie de conselho de ministros para ajudar a governar?



R – A gente, até hoje, o que a gente considera é o cacique, né, e o vice-cacique é a segunda pessoa, o vice-cacique. Depois desses dois, tem mais dez pessoas que compõem o grupo que para formar o grupo de liderança, então são essas pessoas que administram a comunidade.



P/1 – Essas dez pessoas são escolhidas como?



R – São escolhidas pelo próprio cacique, por exemplo, nós estamos aqui nesse grupo, eu sou o cacique então eu escolho, escolho esse grupo que está aqui para compor o meu grupo para fazer, formar a liderança, então a partir daí começa funcionar. 



P/2 – O que é que vocês faziam, assim, quais eram as atividades de um cacique? O senhor já falou um pouco, mas assim, o que é que eles faziam efetivamente, todo dia tinha que fazer aquilo, por exemplo?



R – Ele, o serviço do cacique é o seguinte: ele articula todo o grupo dele, primeiro, que são as lideranças, depois vem a comunidade. Por exemplo: vai fazer um trabalho, ele chama o pessoal, reúne, né. Dali escolhe as pessoas para fazer um tipo de trabalho, qualquer que seja o trabalho. E organizar as coisas, ele tem por obrigação de estar na frente para resolver todas as situações que for possível na comunidade. Se tiver alguma coisa que for prejudicar a comunidade, ele tem que estar de frente para procurar evitar que aconteça; várias coisas que, então, são os trabalhos do cacique, né.



P/1 – Senhor Francisco, a Aracruz deu recentemente uma área nova, terras para a aldeia desenvolver um projeto agrícola?



R – Deu.



P/1 – Como é que isso? Para desenvolver que projeto?



R – Projeto de autossustentação. Nisso você vai plantar milho, feijão, café, enfim, o que pensar de plantar, né, então para isso. Até porque na época a gente sempre informou-se sobre a nossa área da aldeia que sempre foi uma área, que ele não dispõe de grande disponibilidade para a gente produzir uma agricultura, porque era muito arenosa, e não tem toda cultura que você planta que dá. Então, a gente sempre pensou que tivesse outra área de barro para desenvolver uma agricultura seria uma opção. Então, a Aracruz acho que, ela atendeu essa reivindicação nossa aí, nos deu essa área para a gente trabalhar.



P/1 – É muito grande?



R – São 179 hectares.



P/2 – Vocês plantam para a própria subsistência da aldeia, não vende?



R – Não, porque até agora não deu muito para comércio, é para subsistência.



P/2 – Vocês comem o que vem dessa plantação ou vocês compram coisas fora?



R – A gente compra também o arroz, o café. O café ainda não está dando grande coisa, porque está novo ainda, a gente espera que daqui mais alguns, mais um ano ou dois anos já está cobrindo as necessidades da comunidade.



P/1 – Na aldeia tem televisão?



R – Tem.



P/1 – O senhor gosta?



R – Não, até que eu não gosto muito, não. Na televisão o que eu gosto de assistir é só o jornal e, às vezes, a missa, assim, dia de domingo. Mas outros programas, não sou chegado, não.



P/2 – Na sua infância tinha televisão?



R – Não tinha, não.



P/2 – Não tinha, não.



R – Nem rádio mesmo quase não tinha.



P/2 – E como é que eram as festas?



R – As festas fazia tradicional mesmo lá na comunidade.



P/2 – Como é que era?



R – Era instrumento de corda, cavaquinho, violão… 



P/2 – … E cantavam músicas da própria aldeia?



R – Da própria aldeia.



P/2 – Que são músicas parecidas com as outras aldeias tupiniquins também?



R – É. Só o que não é igual é dos guaranis, que eles têm a própria língua tradicional deles, né, eles falam, cantam tudo naquele idioma deles, né.



P/1 – As aldeias de guaranis são perto da aldeia de Comboios?



R – Não. Fica bem distante.



P/1 – Mas fica no Espírito Santo?



R – Fica. Quer dizer, nós só temos uma etnia guarani aqui no estado. Mais são Minas, São Paulo.



P/2 – O que é que o senhor acha que caracteriza… Tem uma que o senhor acha que caracteriza mais os tupiniquins?



R – Como assim?



P/2 – O que é que tem mais, assim, que destacam eles das outras, dos guaranis por exemplo, na cultura, né?



R – Normalmente agora, porque essa tribo guarani que tem aí junto com os tupiniquins, vive-se tudo junto, né. Então, só é diferença um pouco, porque os guaranis, eles têm uma tradição, é só dos guaranis mesmo. Então, quando eles estão reunidos entre eles mesmo, ali é só mesmo a tradição deles mesmo. Agora, em termos de festa ajunta tudo: guaranis, tupiniquins, então aí fica tudo junto. 



P/1 – Senhor Francisco, como é que é o estudo na aldeia hoje? Tem uma escola que se chama Escola Família Agrícola?



R – Não, não é na aldeia. Essa escola ela existe, mas ela é em Bananal do Norte, para lá de Linhares. Então, é onde vários índios estudam lá, né. Inclusive esses filhos meus que eu acabei de falar agora, quase todos eles estudaram lá e se formaram lá.



P/1 – E se formam lá e depois vão trabalhar aonde?



R – Fica difícil, porque não tem trabalho para todo mundo, então eles ficam na própria aldeia mesmo. 



P/1 – E vão educadores na aldeia?



R – Agora já tem professor, professores na própria comunidade já tem, tudo índio também.



P/1 – E tem algum agora fazendo vestibular?



R – Da minha aldeia parece que tem quatro ou cinco índios.



P/1 – E os senhor sabe para que carreira eles estão fazendo o vestibular?



R – Tem, eles opinaram por vários tipos de, uns querem fazer Biologia, outros querem fazer Pedagogia, outro Enfermagem, aí cada um tem opção.



P/1 – O senhor gosta de vir à Vitória?



R – Gosto sempre, de vez em quando. Agora não, porque agora eu parei, eu saí de cacique. E depois que eu saí, a primeira vez que eu estou vindo aqui é hoje, mas antes sempre vinha.



P/1 – E o senhor gostava?



R – Gostava demais.



P/1 – O senhor gosta de passear, senhor Francisco?



R – Gosto, nossa! A poucos tempos eu estive lá em Brasília, fui. Em Brasília eu estive umas quatro, cinco vezes. Seis dias também, para a própria comunidade.



P/2 – O senhor ia como para Brasília?



R – A última vez que eu fui eu fui de avião.



P/1 – O senhor gostou?



R – Bom, um voozinho não é mau, não. 



P/1 – E Brasília, o senhor gosta da cidade?



R – Só que é muito quente lá. Não sei se é a época que a gente ia lá, não sei, mas esquenta muito. Mas é bom também.



P/1 – Senhor Francisco, eu vi uma fotografia sua, o senhor dando ao senhor Lorentzen um cocar de cacique honorário. Como é que foi isso, como é que o senhor deu um cocar para ele? 



R – Porque a gente fez uma troca, ele me deu um boné com o escudo da Aracruz, eu dei um cocar para ele também. Isso para, indiferente de outras, como amizade entre nós dois.



P/1 – Ele vai muito à aldeia?



R – Não, já tem mais de um ano que ele não vai lá. Ele sempre ia lá em festa, né. Fazia festa e ele, que dizer, não muitas vezes também, umas duas vezes, três vezes ele tem ido lá na aldeia.



P/2 – Nas festas vocês recuperam toda a cultura indígena, roupas, as comidas?



R – Tudo.



P/1 – Tudo?



R – Tudo. Agora os próprios índios lá já estão fazendo os próprios artesanatos.



P/1 – Artesanato de que?



R – Artesanato indígena com várias coisas.



P/1 – O que, por exemplo?



R – Faz colarzinho, faz brinco, faz cesto, enfim várias coisas eles fazem.



P/2 – E vendem onde?



R – Por enquanto ainda não está em venda, porque eles estão começando ainda. Eles estão tentando resgatar o que foi já perdido. Então, essa turma nova, que estão chegando agora, estão pensando em ver se conseguem trazer de volta a cultura tradicional.



P/1 – Como usavam antes no dia a dia, né?



R – É.



P/1 – Eu vou começar a fazer as perguntas finais, senhor Francisco. Eu queria que o senhor falasse o que o senhor faz hoje.



R – Hoje?



P/1 – É.



R – Hoje eu sou empregado, tive que empregar porque  o terreno que a gente tem não oferecia grande vantagem para você sobreviver, então eu tive que arrumar um emprego. E hoje eu sou empregado, já tem 20 anos que eu sou funcionário. Mas sempre na roça, não sai da roça. Trabalho na própria aldeia mesmo.



P/1 – Funcionário de quem?



R – Eu trabalho para, vocês conhecem o Projeto Tamar?



P/2 – Sim.



P/1 – Mas a gente queria que o senhor falasse um pouco sobre o Projeto Tamar. 



P/2 – O que o senhor faz lá?



R – No Projeto Tamar eu trabalho na preservação das tartarugas.



P/1 – E qual é o seu trabalho de preservação?



R – O meu trabalho é na época de desova a gente coletar os ovos, né, e transferir para um cercado que eles têm na base do Tamar. Então, eles levam para lá, lá eles tornam a enterrar aqueles ovos e dali, com um prazo de  90, 75 dias, nasce filhote. Aí eles soltam no mar.



P/2 – Onde que fica a base do projeto?



R – Fica lá na Regência, para cá da Regência um pouquinho.



P/2 – É perto da Barra do Riacho?



R – Bem para lá, são 15 a 20 quilômetros da Barra do Riacho até lá.



P/1 – Senhor Francisco, e o que é que o senhor faz hoje como lazer?



R – Hoje?



P/1 – É.



R – Só quando eu estou de folga dou umas pescadinha no mar ou no rio. 



P/1 – E qual é o seu maior sonho? Uma coisa que o senhor queria que acontecesse hoje?



R – Eu acho que o mais importante para mim é a gente tivesse o direito de viver bastante, mas bastante (anos?) para aproveitar mais um pouco do que a gente fez e então eu acho que o importante para mim é isso aí.



P/1 – Como é ser índio hoje no nosso país? Pertencer a um grupo indígena?



R – Para mim é bom. Só que o índio, ele, nem pela sociedade toda, mas tem alguns que ainda sempre discrimina muito o índio. Parece que, ele acha que o índio é uma outra pessoa diferente, né. Mas diferença assim na raça, mas acho que como ser humano não tem diferença nenhuma, não. Acho que do mesmo modo que um é tratado, eu acho que todo mundo tem direito de ser, todo mundo é cidadão.



P/1 – Se o senhor tivesse que mudar alguma coisa na sua vida, o senhor mudaria o que?



R – Em que sentido?



P/1 – Em qualquer sentido. De repente pode também não achar que tenha que ter mudado nada, mas se tivesse, o que é que o senhor mudaria?



R – Eu não sei acho que é meio difícil. Eu tenho várias coisas.



P/1 – Várias coisa que o senhor mudaria?



R – Não, tem várias coisas que poderia até mudar, agora difícil é a gente ver o que é que a gente poderia, quisesse que acontecesse, mas eu gostaria que se mudasse alguma coisa, eu acho que não tradicionalmente, mas para sobrevivência, subsistência, se mudasse alguma coisa para melhor seria bom. Na parte de sobrevivência, recursos para poder a pessoa, porque muitas vezes a gente tem vontade de fazer algumas coisas, mas não tem como fazer, porque não recursos, depende de, para falar mais claro depende de dinheiro, a coisa mais difícil que a gente tem. Mas devagar a gente vai, como diz a música do Martinho da Vila: “Vai levando a vida devagar.” 



P/ – Senhor Francisco, o que é que o senhor acha que a gente está fazendo, de colher depoimentos sobre a história da Aracruz? 



R – Eu praticamente não sei, não poderia nem lhe responder, a não ser que vocês me falassem: “Olha, a gente está fazendo isso, é para fazer isso.” Eu gostaria também até de saber qual é a finalidade disso aí, porque a gente até agora não sabe, né.



P/1 – A gente quer fazer uma porção de vídeos para formar uma videoteca sobre as pessoas todas que tiveram alguma participação na história da Aracruz e mais adiante a gente quer escrever um livro. O senhor acha que isso é importante?



R – Pelo que eu sei, que eu sinto, assim, em minha mente, eu acho que é importante, porque, não que a gente está, vamos dizer assim, a gente está, tem alguns que dizem, não sei se eu estou falando a coisa errada, “puxando o saco da Aracruz”. É bem pelo contrário, a gente está falando da realidade que a gente sabe que aconteceu entre a gente e a Aracruz. Eu, por exemplo, me relaciono muito com a Aracruz, foi muito bom, eu não sei agora, porque mudou a liderança da comunidade, eu não sei como é que eles estão sentindo agora, não sei como vai ser a opinião deles com a Aracruz a partir de agora, mas até o final da minha gestão eu não tenho nada que falar contra a Aracruz.



P/1 – E o que é que o senhor acha de ter participado desta entrevista? 



R – Eu acho que é importante, porque pode ser que até seja mais um incentivo que vá beneficiar a gente. Eu sempre que eu dei entrevista, sempre que eu falei nunca prejudicou nem a mim nem a ninguém. Ela está como telefone meu, a TV Norte já me consultou por telefone já várias vezes comigo, agora não, agora talvez eles não vão me procurar mais, porque eu não sou mais o cacique daqui. Mas se me procurarem ainda vou atendê-los.



P/1 – Então, senhor Francisco, a gente agradece muito a sua entrevista, que faz parte do projeto Memória Aracruz, muito obrigada.



R – Muito obrigado a vocês, também. Foi um prazer estar aqui junto com vocês dialogando, discutindo informações junto a outros. Para mim foi um prazer saber o que é que vai acontecer com essa entrevista. E acho que aqui não, mas acho que na Funasa [Fundação Nacional da Saúde], não sei se estava aí, mas tinha um pôster meu, assim, na parede. Cocar de índio na cabeça, colar no pescoço, tem vários lugar que têm aí.



--- FIM DA ENTREVISTA ---



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