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História

Todo dia é dia de semear

História de: Adriano Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/07/2021

Sinopse

Infância no Paraná e depois em Sorocaba (SP). Dificuldades na escola. Deixando de estudar e trabalho ainda na adolescência. Trabalho como vendedor e no setor elétrico. Envolvimento com o escotismo. Oportunidade de trabalhar na CPFL Energia. Instituto CPFL, Projeto Semear e equipe Circuito das Águas. Ações com a Casa da Criança. Família.

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História completa

P1 – Boa tarde, Adriano, tudo bem?

R – Boa tarde, tudo!

P1 – Tudo bem. Para começar, eu gostaria que você me informasse o seu nome completo, a data e o local de nascimento.

R – Adriano Lopes. Nascido em 22 de agosto de 1983, na cidade de São Tomé, Paraná.

P1 – Qual o nome dos seus pais?

R – Meu pai é Abel Lopes e minha mãe é Maria Aparecida Ferreira Lopes.

P1 – Qual é a ocupação dos seus pais?

R – É... Cortou na hora que você falou, só entendi “ocupação dos seus pais”.

P1 – Ah, sim, eu vou repetir, então: qual a ocupação dos seus pais?

R – O meu pai faleceu dia 8 do mês passado (junho de 2021), né, ele era aposentado; a minha mãe é do lar.

P1- Certo. E com o que seu pai trabalhava, antes?

R – Antes da aposentadoria do meu pai, ele trabalhava no setor elétrico, assim como eu, né? Ele veio da parte da indústria. E, quando ele construiu a casa dele, ele passou, saiu da empresa e daí eu o convidei para trabalhar. Então a gente trabalhava junto, aí ele trabalhou no setor elétrico até a aposentadoria.

P1 – Certo. E vocês, os seus pais, vieram de fato do Paraná ou eles tinham vindo de alguma família, de ambas as partes, tinham vindo de alguma outra região, outra cidade?

R – Não, eles são naturais do Paraná. Tanto meu pai quanto minha mãe são do Paraná.

P1 – Você tem irmãos, Adriano?

R – Sim, eu tenho... Tem meu irmão mais velho, o André; tem a minha irmã, Aline; eu; e tem um irmão meu que é falecido também, que faleceu com dezesseis anos, que é o Alan.

P1 – Certo. Você teve contato com seus avós, na sua infância?

R – Sim, mais com a minha avó paterna. O meu avô paterno, eu não consigo recordar. Quando eu era muito criança, né, acredito com uns quatro anos para cinco anos, foi quando ele faleceu, então eu não tenho muita recordação dele. Mais da minha avó, né, paterna e da minha avó materna. Dos meus dois avós, eles... Eu tive pouco contato, eles faleceram quando eu era criança.

P1 – Certo. Então, falando um pouquinho sobre a sua infância, do que você gostava de brincar quando era criança?

R – Ah, nossa, quando eu era criança, (risos) era bem arteiro, viu? Qualquer coisa, para mim, era motivo de brincar. Eu sempre fui assim da parte de imaginação. Então, se eu pegasse um pedacinho de madeira, eu imaginava que era um ônibus, fazia de carrinho e brincava, subia em árvore, eu sempre fui bem arteiro, assim, construía casa em morro de areia. Eu sempre fui... Sempre gostei de brincar e com imaginação. Imaginava as coisas e construía uma brincadeira em cima da minha imaginação.

P1 – Você se lembra da casa onde você passou sua infância?

R – Sim. Quando eu era criança, antes dos sete anos, que com sete anos de idade, eu vim para a cidade de Sorocaba, estado de São Paulo. Meu pai conseguiu trabalho aqui, então a gente veio de mudança para cá. Mas eu me recordo muito bem de quando eu era criança, antes dos sete anos, no Paraná, que as casas eram de madeira. Então eu me recordo que tinha uma escadinha que subia para a casa dos meus avós maternos, que era no mesmo terreno. Tinha a casa nossa, né? E tinha uma casa do lado, que era a casa dos meus avós. Então, eu ia muito lá, ficava muito sentado nessa escadinha, na porta da casa [da] minha avó, uma casa de madeira. E era uma casa... Era um terreno de esquina, né, bem numa descida, assim, então me recordo muito bem. Passava uns caminhões de cana, na época, porque é uma cidade pequena, então passava caminhão da área rural lá, né, com cana. Era bem interessante. Eu me lembro sim.

P1 – E era uma região... A rua onde você morava, era uma rua tranquila? Era mais para região rural? Como ela era?

R – Ela não era tão rural. Assim, era uma cidade pacata, de população de vinte mil, 25 mil habitantes, então era uma cidade pequena. E eu lembrava, assim, que na época de safra de cana, passava muito caminhão de cana ali. Era... Eu não tenho como afirmar com certeza que era caminho da usina, mas na minha recordação aquele caminhão... Passava muito caminhão de cana ali, então eu acredito que seja uma rota que ia para uma usina de cana. Então, o maior movimento que tinha lá era desses caminhões de cana. Recordo porque eu corria atrás dos caminhões para pegar cana: a gente puxava a cana e ficava chupando cana o dia inteiro. (risos) Era bem legal.

P1 – Você acredita, então, que boa parte da sua infância você já passou em Sorocaba, né?

R – Sim, é. Após os sete anos, eu... A gente veio para Sorocaba e daí o resto da minha infância foi inteira na cidade de Sorocaba. Eu fui sair de Sorocaba, já estava... Já era casado e estava trabalhando no setor elétrico, mas até os 24 anos - dos sete aos 24 anos - eu fiquei na cidade de Sorocaba.

P1 – Certo. Então, vamos começar a falar sobre a sua chegada em Sorocaba. Você achou muito diferente? O que você sentiu com essa mudança?

R – Então, quando eu vim para a cidade de Sorocaba, vim para um bairro - que Sorocaba é uma cidade grande, né, hoje eu acho que deve ter quase setecentos mil habitantes - distante um pouco da cidade. Então, o ambiente desse bairro lá lembrava muito a cidade onde eu morava, porque era estrada de terra, né, então era tranquila. Todo mundo conhecia todo mundo, né, porque, por ser distante da cidade. Então eu não vi muita mudança. Fui ver mudança depois, quando o meu pai conseguiu comprar um terreno e a gente mudou para outro bairro da cidade de Sorocaba, aí acho que o impacto foi um pouco maior, mas isso eu já estava com os meus nove anos, mais ou menos.

P1 – Nesse primeiro momento, então, nesse bairro mais tranquilo, né, de Sorocaba, onde vocês moravam, você tinha muitos amigos? Vocês brincavam na rua ou você ficava mais em casa? Como era?

R – Eu acho... Assim, eu sou... Eu era muito de brincar mais sozinho. Lembro que conhecia, né, tinha alguns amigos. Inclusive, um amigo de infância mesmo, que a gente foi criado junto, que era do Paraná, veio antes, né? Então, a família que morava vizinho da gente no Paraná, morava no mesmo bairro da cidade de Sorocaba, então meio que migraram... Foi uma migração dos vizinhos também. Então, quando eu cheguei, tinha esse amigo que era de infância lá da cidade do Paraná, de São Tomé, né? A gente se encontrou, mas eu, assim, a maioria da porcentagem do meu tempo eu brincava mais sozinho. Gostava muito de ficar imaginando, imaginar as minhas brincadeiras do meu jeito, então eu brincava mais só, no quintal da casa da minha avó.

P1 – A sua avó se mudou também com vocês, para Sorocaba?

R – Sim, é, até ficou um pouco confuso: a minha avó por parte de pai ela veio antes, quando meu vô faleceu. Passado alguns anos, eles vieram para essa cidade de Sorocaba, que os meus tios conseguiram trabalho na cidade, então eles estavam trabalhando e trouxeram minha avó. Então, essa casa era uma casa bem ampla, bem grandona. Eu lembro que no bairro lá, era a maior casa que tinha. Eles vieram, eram bastantes irmãos, então eles alugaram essa casa para comportar todo mundo ali. E quando a gente veio do Paraná, não tinha uma condição financeira tão legal, então todos que vinham migravam para essa casa da minha avó e lá ficavam, até cada um tomar um rumo, né, começar a trabalhar, alugar uma casa e sair. Então, a gente passou um período morando na casa dessa, da minha avó, que era todo mundo junto. Cada quarto era uma família. A gente morou um tempo nessa casa aí.

P1 – Bom, então, voltando para a sua infância, Adriano, você tinha algum sonho de infância, do tipo: “Quando eu crescer, quero ser tal coisa”?

R – Nossa, eu acho que... Não tinha muito essa... Lá na infância, assim, não tinha muito. Eu acho que, assim: sempre, a minha infância sempre foi meio... Vamos dizer assim: fui de família humilde, né, todos trabalhadores e tudo. Mas acho que o meu sonho que eu tinha era de melhorar a situação financeira, eu acho que estar melhor, né, de conseguir fazer as coisas. Então, não tinha uma coisa específica: “Ah, eu tenho sonho de ter essa profissão ou ser algo, mas sim de ter uma condição financeira melhor”, talvez, mais focado a isso, nunca... Não fui muito sonhador, assim, de ter algo: “Ah, eu quero isso” e ficar com isso na cabeça, não. Não me recordo disso.

P1 – E sobre a sua vida escolar, Adriano, qual a primeira lembrança que te vem à cabeça quando você pensa da época que começou a frequentar a escola?

R – Eu sempre fui muito, vamos dizer assim, inquieto. A escola, para mim, sempre foi um motivo de me segurar. Assim, na minha infância, eu tinha isso como... Uma prisão eu acho que é um pouco forte, mas algo que me segurasse de fazer as coisas que eu gostava. Eu sempre fui muito solto, sempre gostei de ser muito solto, de brincar, de aprender fazendo, sabe? De correr atrás: “Ah, aquilo, eu [me] interesso naquilo, então quero aprender aquilo e aprender fazendo”. Então, na escola, eu sempre fui um pouco, vamos dizer assim, rebelde. (risos) Não gostava muito de estar na escola, entendeu?

P1 – E chegando nesse primeiro momento, pelo menos, do seu ensino fundamental, nos primeiros anos, que lembrança você tem desse período? Da escola, dos professores, de alguma situação. Como você lembra disso?

R – Desse bairro lá, né, quando eu vim para Sorocaba, que na primeira... Na pré-escola e no primeiro ano, eu tenho lembranças, né, de ser uma escolinha bem pequena. Eu acredito que tinha umas quatro salas só, de aula, era bem pequena. Tinha aquelas festas tradicionais que eu me recordo muito bem, né, que eram as festas juninas, então que reunia todo mundo. A gente dançava lá, fazia quadrilha, ensaiava, né? Então, me recordo. Isso me interessava muito, eu gostava muito, essas... De brincar, de se divertir. Isso, eu gostava muito. Então, eu me recordo disso e também me recordo também, assim, de uma professora, que ela era uma professora substituta, então ela cobria quando faltava um professor, ela que dava aula. Eu me recordo que ela era muito amorosa. Então, quando era ela que ia dar aula, eu me recordo que ela passava na frente da casa da minha avó, chamava para que eu viesse junto com ela, então ela me levava até a escola e, quando ia embora, eu ficava por último, que ela passava - que era caminho da casa dela - e me deixava na casa da minha avó. Então, assim, o que me vem na lembrança, algo assim que ficou muito forte na minha lembrança é dessa professora, o carinho dela, a atenção dela, que ela tinha em mim, entendeu?

P1 – E tinha alguma matéria da qual você gostasse mais, Adriano?

R – Ah, eu sempre gostei mais de cálculo, de Exatas. Eu sempre gostei mais de fazer cálculo, não gostava muito de Português, essas matérias assim. Eu sempre gostei mais da área de cálculos, Matemática.

P1 – E essa escola era perto [de] onde você morava? Ou ela era um pouquinho longe e por isso essa professora também te levava e te trazia, para ajudar?

R – Não era muito longe, não, porque a gente ia a pé. Eu consigo recordar, assim, está bem certinho na minha memória aqui. Lembro que a gente saía da casa da minha avó, seguia por uns trezentos metros e virava direto, à direita, ali, andava um quarteirão, aí tinha um campo de futebol, porque era um bairro afastado. Então tinha um campo de futebol, todo final de semana reunia a galera lá para jogar, tinha campeonato. Nós atravessávamos esse campo, depois de atravessar esse campo, a gente andava por de trás de umas casinhas, uma colônia e já chegava nessa escola. Então era bem próximo, era dez, quinze minutinhos de caminhada.

P1 – Certo. E, passando para os últimos anos, digamos assim, do seu ensino fundamental, você continuou na mesma escola, até fazer todo o ensino fundamental ou chegou a mudar de escola, por algum motivo?

R – Então, aí eu cheguei a mudar de escola, por conta do meu pai, que conseguiu comprar um terreno, né? A gente ficou até os nove anos, então eu fiquei por dois anos nesse bairro, né, e depois o meu pai comprou um terreno, já mais para dentro da cidade de Sorocaba, aí foi quando eu mudei. Aí, essa escola, sim, essa era bem mais distante de onde eu morava e lembro que eu ia... No começo, minha mãe me levava para escola, mas passado, assim, uns três, quatro meses depois, comecei [a] ir para escola sozinho, ia ficar... As crianças iam para a escola e a gente ia sozinho mesmo, mas era bem... Era... Aí já era uma meia hora de caminhada, quando eu fui para essa outra escola.

P1 – Certo. E eu queria que você comentasse um pouco sobre esse bairro, sobre essa nova casa, como foi para você? Do que você se lembra dessa mudança, para você?

R – Essa casa foi legal. Conheci, tive mais amizades, né, no momento que eu estava nessa casa aí, então era maior o bairro, tinha mais crianças, então eu fiz mais amizades. Mas também tiveram momentos difíceis nessa casa, porque foi quando minha mãe foi embora de casa, né? Então, foi um momento difícil para a família, em si. Então, ali teve um trauma naquela casa, mas, assim, olhando para mim como criança e amizade, eu tive mais amizades ali, tinha muito mais amizade naquele bairro lá.

P1 – Era uma região mais agitada? A sua rua era mais movimentada? Você conhecia os vizinhos? Como era ali o ambiente, o entorno dessa nova casa?

R – Sim, então... Sim, nisso que eu estou dizendo: nesse lugar tinha muito mais gente, então era um bairro mais... Tinha uma galera, era gigantesca e muito unida. Então, as coisas que a gente fazia lá, naquele bairro pequeno, a gente fazia ali, só que com uma quantidade maior de gente. A gente fazia fechava a rua, fazia festa junina na rua. A minha casa ficava de frente com o ponto final de um ônibus. Então, era toda hora [que] chegava ônibus, desce aquele monte de gente. Era o ponto final, então, para quem morava mais para frente do bairro, descia tudo ali. Era... Para mim, aquilo dali, no começo, foi um impacto bem grande, porque era como se o menino do sítio chegasse na grande cidade, aquele monte de gente diferente e tal. E daí, com o tempo, eu fui me enturmando, fui fazendo amizade. Tinha uma amizade, bastante amizade. Então, assim, foi um impacto social, vamos dizer assim, tinha muito mais pessoas, mais diversidade, mais... Foi bem diferente da... Tanto do Paraná, quanto desse bairro lá de Sorocaba, que era distante.

P1 – E na escola, as coisas mudaram também, você se enturmou com mais gente? Era muito diferente?

R – Sim, era bem diferente, né? Era muito maior, acho, que a escola, acho que dava umas seis escolas da que eu estudava lá, nesse bairro que era distante, né? Então, tinha... Lá, onde eu estudava, nessa cidade, nesse bairro lá, que era distante, tinha acho, se não me engano, até a terceira série, mais ou menos, terceiro ano do ensino fundamental, tinha nessa escolinha. Então, quem... As outras... Você passava para o quarto ano, tinha que ir para um bairro vizinho desse bairro lá, que lá não tinha. Já nessa daí que eu fui morar depois, quando meu pai comprou o terreno, era uma escola que tinha até o oitavo ano, né? Na época, não tinha o nono ano, era até o oitavo ano, então era... Tinha muita... E era um complexo que tinha as salas de aulas, que eram na parte baixa, que daí era quando ficava o primeiro ano, segundo, terceiro ano, até o quarto ano. Aí mais para o fundo da escola, tinha um prédio e nesse prédio era onde tinha o quinto ano. Eu lembro até que a gente falava: “Nossa, a gente não vê a hora de chegar lá no prédio”, que quem está no prédio são os mais legais, entendeu? Porque era o quinto ano, sexto ano, sétimo e oitavo ano, então não se misturavam muito. A gente era ‘criançadinha’ ali e eles lá, os maiores. Então, tinha muito, na hora do intervalo era lotado, era muita criança e jovem, por ser um bairro maior, né? Não só um bairro maior, mas como tinha muitos bairros… Lá era um bairro só afastado e nesse daí não, já era dentro da cidade. Então você saía de um bairro, já estava outro grudado. Tinha bastante criança, que ela nem conhecia por conta disso, que, às vezes, era de bairro diferente de onde eu morava.

P1 – E você se lembra do nome dessa escola?

R – (risos) Não sei se é Beathris Caixeiro... Eu lembro que uma das escolas que eu estudei era Beathris Caixeiro [Del Cistia], não lembro se é essa daí. Mas eu não me recordo, não, porque estudei em várias escolas. Estudei acho que nessa do bairro Iporanga, dessa da outra onde meu pai comprou o terreno, aí quando teve a separação dos meus pais, eu fui para uma cidade vizinha. Daí, depois, voltei, então teve... Eu estudei acho que em umas cinco ou seis escolas diferentes. Não consigo recordar o nome, não.

P1 – Tá certo! Mas voltando, então, para essa questão da escola, essas mudanças aconteceram no ensino fundamental mesmo ou já foram mais para parte do ensino médio? Essa mudança de cidade de novo.

R – É, então, essa daí foi no ensino fundamental mesmo. Teve a mudança, né, assim como eu falei, quando teve essa separação dos meus pais, então meu pai trabalhava lá numa empresa chamada CBA – Companhia Brasileira de Alumínio. Meu pai trabalhou por dezesseis anos nessa empresa e fazia três horários, então ele não tinha um horário definido: ele trabalhava das seis às duas, aí ele folgava; depois das duas às dez, daí depois ele folgava; e das dez às seis, então rodava. E como ele estava sozinho, né, porque ele tinha se divorciado e a gente tinha ficado com o meu pai, não tinha como ele cuidar da gente. Então, naquele momento, eu fui morar com um tio meu, por parte de pai; a minha irmã foi morar com outro; e só o meu irmão ficou morando com o meu pai, porque o meu irmão fazia o Senai na época. Meu irmão tinha quatorze anos e ele estava fazendo o Senai, então ele não poderia sair de lá, ele ficou morando com o meu pai. E assim nós ficamos por um ano e, nesse um ano que eu fiquei morando com o tio meu, fui morar numa cidade chamada Araçoiaba da Serra (SP), que é uma cidade próxima a Sorocaba, com esse tio meu, e é uma área rural, aí eu fiquei um ano morando em um sítio. Esse tio meu cuidava de um sítio, então daí eu estudei por um ano nessa escola lá de Araçoiaba da Serra. Lembro que a gente ia de ônibus, era bem distante. Então, a gente andava a pé, esperava num ponto, o ônibus vinha, pegava a gente, levava para a escola, depois deixava lá e a gente tinha que andar um bom tempo a pé também.

P1 – Certo. E como era essa escola? Voltava a ser uma escola menor, por ser uma escola de uma área rural? O que você se lembra dela?

R – Essa escola aí eu lembro que ela era um prédio, a entrada dela... Tinha a entrada, era toda cimentada. Era como se fosse um asfalto, que dava acesso para um outro bairro que tinha lá, né, saia da área rural, pegava um asfalto. E daí, para chegar... Até chegar nesse outro bairro, na área rural, tinha essa escola, entre as duas áreas rurais ali, e daí tinha um portão e ela era um prédio, ela era maior... Ela era do tamanho, do porte da escola que eu estudava, lá onde meu pai comprou o terreno e construiu a casa, porque ela atendia bastante... A área rural ali da região toda era atendida por essa escola, então ela era grande, sim. Ela tinha até... Ah, não vou saber ao certo se ela tinha o ensino médio, mas com certeza até [o] oitavo ano, tinha.

P1 – Certo. Você ficou durante um ano, então, e depois voltou para Sorocaba?

R – Isso! Aí eu voltei para Sorocaba quando meu pai casou novamente. Meu pai casou novamente, daí eu, a gente voltou para morar com o meu pai, eu e minha irmã, né? Meu irmão também já estava morando lá, daí voltou eu e minha irmã. Aí eu fui estudar em outra escola e já era um outro bairro, não era aquele bairro onde meu pai construiu a casa. Lá foi alugado, ficou alugado lá, e daí meu pai foi morar em outra casa, com essa nova esposa dele. Aí eu comecei estudar nessa outra escola, que ficava num bairro vizinho, era uns quinze, vinte minutos de caminhada também. Foi onde que começou a minha rebeldia, (risos) na questão da escola não me interessar mais, né? Não sei se era pela situação, né, que estava vivendo, mas não tinha muito interesse em estudar não. Eu queria ficar conversando, brincando, jogando bola, andando de bicicleta, mas estudar, eu não tinha muita vontade de estudar, não.

P1 – Certo. E você conseguiu, digamos assim, se entrosar nessa nova escola? Ou realmente esse seu desinteresse, você queria realmente ficar fora da escola, você não queria ir, algo assim?

R – Lá, naquela época, não se falava em "bullying", falava em ‘zoeira’, então eu era aquele garoto zoado, sabe? Aquele garoto que todo mundo tirava sarro. Então, eu não tinha muito interesse em estar na escola, não tinha interesse em estudar, mas não porque não conseguia acompanhar, eu sempre tive facilidade de aprender. Então, se eu fosse, tudo que era passado, aprendia com mais facilidade que os outros, mas eu não gostava de estar lá, por conta do… Hoje, a gente fala "bullying", do "bullying" que eu sofria, né, até agressão, então brigava, queria brigar com a gente, passava rasteira, derrubava a gente, colocava a gente no ridículo. Então, foi um momento bastante difícil, eu não queria ir para a escola porque, para mim, era torturante ir para a escola. Não tinha interesse.

P1 – E seguindo em frente, então, você, depois que finalizou o ensino fundamental, chegou a ir para o ensino médio direto ou deu alguma pausa?

R – Então, aí que está o “x”. Hoje eu sou formado, né? Lógico, a gente vai chegar nisso. No ano que vem vou iniciar a faculdade, mas eu parei de estudar, fiquei um bom tempo sem estudar, então eu vim estudar depois de adulto. Essa situação, essa condição que eu passei fez com que eu me desinteressasse da escola e parei de estudar para trabalhar. Eu larguei, abandonei mesmo o estudo e comecei a trabalhar com vendas. Fazia vendas, trabalhei em diversas coisas, mas estudar, eu parei. Fiquei... Não consegui concluir, eu parei no quinto ano.

P1 – Entendi. E aí me conta, então, um pouquinho desse momento posterior da sua vida, né? Você parou, então, os estudos e começou a trabalhar. Como surgiu o seu primeiro emprego? O que você fazia nele? 

R – Então, o meu primeiro emprego foi com vendas. Então, assim, meu pai falou: “Você não vai estudar, então você vai trabalhar. Você não vai ficar parado, sem fazer nada” e daí ele ligou para um amigo dele, que o cunhado… Esse amigo dele tinha um cunhado que trabalhava com vendas. Vendia enxoval, colcha, panela. Vendia de tudo, né? Na época, bem, no passado, chamava de mascate, né, aquele que vendia de tudo um pouco, parava o carro na frente e vendia. Então, fui trabalhar com isso, fiquei um bom tempo trabalhando com vendas. Então, eu ia, viajava, ficava, dormia no carro, a gente dormia no posto de gasolina, encostava o carro, dormia lá e vendia as coisas. Então, ia para Campinas. Aí eu comecei a viajar muito, então comecei a conhecer diversos lugares na região de Sorocaba, todas as cidades pequenininhas: Cesário Lange, Laranjal Paulista, Itapetininga. Então, todas as cidades pequenas no entorno, ali, de Itapira... De Sorocaba, no caso. Eu ia vender e passava [a] semana vendendo. Então, aí, naquele momento, para mim, jovem, né, estava feliz, porque [estava] conhecendo diversos lugares diferentes e tudo. Mas também com a preocupação de que o que eu vou ser, né? Porque daí já não estava estudando. Qual era a perspectiva de vida que eu ia ter? O que que eu ia ser? Ia ser vendedor o resto da vida? Não desmerecendo, mas: eu vou ser vendedor? O que eu vou conseguir? Será que eu conseguir ter uma família, adquirir bens? Será que eu vou ter minha casa, meu carro? Então, olhava os outros jovens no final de semana lavando o carro, ‘sonzão’ ligado e eu naquela, trabalhando sem - no momento - perspectiva, porque o salário era pequeno, né? O que eu ganhava era mal... Era só para sustentar eu mesmo. Então, tinha essa... Eu estava feliz, mas, ao mesmo tempo, também preocupado e triste por conta de não saber, não ter uma perspectiva do que eu vou ser, o que vou fazer, né?

P1 – Você lembra do que fez com o seu primeiro salário? De você pensar “esse dinheiro é meu”, alguma coisa que você queria comprar e comprou?

R – Eu não vou saber falar exatamente, mas pelo que eu me conheço, assim, acredito que devo ter gastado com um monte de doces, salgadinho, tudo esse tipo de coisa, porque o meu pai não deixava faltar nada, então comida. Dentro da casa, as coisas, roupas, essas coisas não faltavam. Então, provavelmente, eu devo ter gastado dinheiro só com besteira, com doce, com refrigerante, com sorvete, essas coisas. Com certeza, foi isso.

P1 – E, nesse período, o que você gostava de fazer no seu tempo livre? Quando não estava trabalhando.

R – Então, assim, tempo livre que eu tinha era... Só, acredito, domingo que eu tinha livre, porque a gente viajava e, às vezes, a gente chegava no sábado, na hora do almoço, de tardezinha. Então, nesse tempo livre, o que eu fazia? Como eu comecei a trabalhar, então me distanciei dos meus amigos ali do bairro. O que eu fazia? Chegava, ficava louco para encontrar com eles, né? Então, a gente ficava até altas horas, eu lembro que a gente ficava na esquina lá do... Perto da minha casa. Então, tinha a rua principal que eu morava e daí, depois, tinha uma, duas, três ruas para cima. A gente subia lá e ficava na esquina conversando, às vezes comprava um refrigerante, ficava tomando refrigerante ali, então a gente ficava até uma hora, duas horas da madrugada, conversando. Então, no meu tempo livre o que eu fazia era encontrar os meus amigos, que não tinha como eu ver durante a semana.

P1 – Certo. Você ficou nesse emprego, fazendo vendas, durante quanto tempo, com esse trabalho?

R – Oh, devo ter ficado uns quatro anos, porque eu lembro que no... Eu cheguei... E olha só, para você ver, né, como é interessante: então, com quinze anos de idade, eu casei, foi meu primeiro casamento, assim, eu me ajuntei, né? Com a parente, né, desse rapaz que eu trabalhava com vendas. Fiquei um bom período, uns quatro anos, trabalhando com ele [em] venda. Então, já estava casado quando eu ainda fiquei vendendo. Acredito que dos quatorze, quinze, até os dezoito anos eu fiquei trabalhando com vendas. Depois disso, eu passei a trabalhar com... Aí eu já entrei no setor elétrico, um amigo que a gente chegou a trabalhar juntos com vendas, que é um amigo de infância também, que é o Júlio. Então, a gente chegou [a] vender, só que daí não era... Era tapete, aqueles tapetes de “nylon”, né? Eu lembro que a gente ia para São Paulo, em Osasco, aquela área de Osasco, ali, para vender esses tapetes de “nylon”. Então, daí, quando eu completei dezoito anos, foi quando eu saí dessa venda que eu estava com o parente da minha ex-mulher e fui trabalhar no setor elétrico. Porque ele entrou primeiro e daí ele me chamou: “Ô, vamos lá, trabalhar juntos lá, eu indico você”. Daí foi quando eu entrei no setor elétrico, foi quando eu tinha dezoito anos. Então, eu fiquei quatro anos trabalhando com vendas.

(37:13) P1 – E essa sua entrada no setor elétrico, o que mudou para você? O que você se lembra? O que te marcou, dessa época?

R – Então, essa época é uma época que teve... vão ter dois momentos que teve mudança de vida, assim, de dar aquela virada na minha vida, dois momentos importantes e um foi esse. O primeiro momento importante foi esse, foi quando eu falei assim: “Opa, tem uma luz no fim do túnel. Eu posso ser alguém, eu posso ter algo”. Então, eu vi ali uma oportunidade de crescimento. Então, foi um momento muito importante, porque até então era o momento mais importante, que foi a virada de vida minha, eu falei assim: “Agora eu vou ter um salário melhor, um registro”, porque eu não tinha registro em carteira. Então, aí foi quando eu tive um registro, então tinha uma cesta básica, tinha direitos, tinha direito a férias. Então, foi quando deu uma perspectiva de vida, eu falei assim: “Pô, eu posso chegar em algum lugar”. Então, foi um momento bem legal na minha vida.

P1 – E essa segunda virada, que você disse que foram duas?

R – Sim, essa segunda virada, vamos dizer assim: eu estou aqui hoje, conversando com vocês, por conta dessa segunda virada. Foi quando eu… É que, assim, pra mim é muito legal falar disso, porque foi quando eu descobri o porquê que a gente está aqui, porque eu acho que todo mundo tem que chegar um momento na vida dele e ele falar assim: “Espera aí, qual o meu papel aqui na Terra? O que eu estou fazendo aqui? O que eu vou deixar? Que legado eu vou deixar?”. Então, foi a segunda mudança. Eu falei assim: “Não, eu não vou ser só mais um, quero fazer um trabalho social, quero mostrar algo, ajudar. Eu quero fazer”. Então, foi quando eu comecei a fazer trabalhos voluntários. A minha segunda virada foi isso aí: acreditar que você pode fazer algo diferente, que você tem um porquê de estar aqui. E daí foi quando eu comecei com o Projeto Semear e quando comecei também no escotismo, que eu sou chefe de escoteiro. Então aí foi a outra virada, que foi muito importante, até mais importante que essa primeira que eu tive, dessas duas viradas.

P1 – Então vamos conversar, primeiramente, sobre esse seu envolvimento com o escotismo: como ele aconteceu? Como foi ____ (áudio falhou)?

R – Então, o movimento de escoteiro eu só conhecia de filme, não sabia. Para mim, na verdade, até então achava que nem existia isso no Brasil. Eu via isso como uma coisa que tinha no país de primeiro mundo, nos Estados Unidos, nesses outros lugares. Não via isso como uma coisa que existia no Brasil. Mas o meu filho, o Wiliam, teve um amigo dele que começou no movimento escoteiro e falava para ele sempre disso aí, daí a gente foi levá-lo. A gente o levou para ele participar como jovem no movimento de escoteiro e daí eu fui me encantando. A primeira vez que eu o levei, eu só... A minha esposa não sabia o caminho, então eu fui para mostrar o caminho para ela, daí eu olhei lá todo mundo brincando, aquele de 'uniforminho' lá, parecia de exército, né, e daí ficava olhando aquilo: "Nossa, interessante". Fiquei assistindo um pouco, deu a hora de ir para o trabalho e eu fui. Aí teve uma outra oportunidade, no outro final de semana. Eu estava de folga, fui e daí o chefe de escoteiro... Porque, assim, o movimento de escoteiros é o seguinte: é um trabalho voluntário, né? Então, se você ficar marcando ali: “Opa, vem aqui, vamos ajudar”, daí me chamaram para ajudar. Então, fui lá, comecei a ajudar nas brincadeiras, né, no método educativo que eles estavam colocando ali através de brincadeira, "o aprender fazendo", e daí foi, quando eu vi, eu falei: “Nossa, como isso é legal. Os jovens vêm aqui, se divertem, aprendendo e se divertindo ao mesmo tempo, né, criando valores. Caráter, né? Emocional, ajudar o próximo. Nossa, muito legal isso!”. E daí eu comecei, fui me envolvendo, né? A hora que eu vi, já era chefe. Já tinha feito o curso de... Porque, para você lidar com jovem, aí você tem que fazer os cursos lá de proteção infanto-juvenil, tive que fazer esses treinamentos "on-line" lá, depois conversar com o presidente do grupo, né, para eles saberem qual a índole da pessoa. Não é qualquer um que vai entrando. Daí eu fui me envolvendo e hoje eu faço parte do grupo, assim, é uma segunda família minha. Então, hoje, eu sou chefe de seção, eu cuido da seção dos escoteiros. Porque, para quem não conhece o movimento de escoteiros, é até interessante que busque entender, que é uma coisa linda de se falar. Então, tem lá: os jovens começam com seis anos e meio, sete anos, no ramo Lobinho; depois ele passa a faixa etária pra ser Escoteiro; depois, Sênior; depois ele vai para Pioneiro. Então, o jovem, até os 21 anos, ele tem, passa por todo período dele no movimento escoteiro e vai se tornar... Com certeza, né, eu falo isso com bastante convicção [de] que ele vai ser um adulto melhor. Então, eu fui me envolvendo e cada vez me envolvo mais, porque a gente quer que o futuro tenha pessoas boas, pessoas que ajudem o próximo, que se preocupam, né, que tenham empatia. Que se vê uma pessoa de idade atravessando a rua e, mesmo você estando atrasado para o seu trabalho, você ajude aquela pessoa, porque aquilo é mais importante que qualquer outra coisa: ajudar o próximo. Então, cada vez eu me envolvo mais. Foi uma coisa muito interessante, alegre e gostosa de se fazer, que aconteceu na minha vida.

P1 – E há quantos anos você tem essa atividade no movimento de escoteiros?

R – No movimento de escoteiros, tem três anos. Eu comecei com trabalho voluntário, veio o Semear e daí depois veio o movimento de escoteiro, mas não [foi que] um levou o outro: o que [me] levou ao movimento de escoteiros foi meu filho. Mas a questão voluntária é parecida. Tem três anos que eu estou no movimento de escoteiro.

P1 – Certo. Então vamos voltar um pouco na história, porque a gente ainda não tinha falado do seu filho, né? Seu filho tem quantos anos?

R – Na verdade, eu tenho quatro filhos. Esse filho que eu estou falando é de coração, ele é filho da minha esposa. Hoje, ele vai completar dezesseis anos... Hoje, não, né? Ele vai completar dezesseis anos [no] dia 28 de setembro. Esse é de coração, mas eu tenho duas filhas do meu primeiro casamento, uma tem 21, a outra tem treze e tem o José Gabriel, que é o caçula. Então, eu tenho, de sangue, três filhos e esse que é de coração, é filho e não tem... É igual, ali tudo é igual. É meu filhão.

P1 – E quais os nomes deles?

R – A mais velha é Amanda. Então, tem a Amanda, a Maria Clara, aí tem o Wiliam - que esse é o meu de coração - e tem o José Gabriel, que é o caçula, o último aí dos herdeiros.

P1 – E falando sobre o seu trabalho, você está há quanto tempo na Cpfl? Já faz tempo? Você chegou a mudar de trabalho, de emprego, no ramo do setor elétrico?

R – Então, no setor elétrico, lá atrás, quando eu tinha dezoito anos, entrei numa empresa, que era uma empresa que prestava serviço para uma das empresas do grupo Cpfl, que é a Cpfl Piratininga, que fica na região de Sorocaba. Então, eu trabalhei nessa empresa por um período, saí dessa empresa, fui fazer a mesma coisa em outra, também, empresa que é prestadora de serviço, já na... Prestando serviço para a Cpfl Paulista, que é a que eu trabalho hoje e sempre - para quem trabalha na prestadora de serviço - [fui] almejando trabalhar na concessionária de energia. Então, assim, quando eu vim para a cidade de Itapira - vim em 2013, em abril de 2013 -, foi quando eu construí minha casa aqui em Itapira, porque era a sede da empresa que eu trabalhava, que era prestadora de serviço. Então, construí minha casa aqui e nesse mesmo ano, foi um ano muito feliz também, porque eu mudei para a minha casa, né, e em outubro eu entrei na Cpfl. Agora, em outubro, vai fazer oito anos que eu estou na Cpfl, que daí foi onde eu comecei tudo de novo: terminar o estudo, estudar, crescer. O meu crescimento, tanto profissional, quanto de pessoa e de perspectiva de crescimento, de saber, assim: “Não, eu posso, é só eu querer. Eu chego onde eu quiser, só depende de mim”. Igual a Oprah fala, né? Tem uma frase que ela fala assim, que você é o que você acredita, pode chegar onde quiser. Se você acreditar que você pode chegar, vai chegar. Então, meu crescimento foi dentro da Cpfl, tanto na cultura de segurança, na cultura de crescimento profissional, foram... Esses oito anos, foi...  [É] cada dia um crescimento maior.

P1 – E como aconteceu sua volta para os estudos? O que te deu o estalo de falar “agora eu volto”? 

R – É assim: teve dois momentos. Para eu entrar na concessionária de energia Cpfl, eu precisava ter no mínimo o oitavo ano. Então foi o primeiro momento lá na empreiteira, né, lá na prestadora de serviço, que eu fiz um... No Sesi, eu fiz aquele “ensino de adultos”, então eu fui e concluí o oitavo ano. Esse foi o primeiro. Quando eu entrei na Cpfl, no primeiro mês, porque lá, na época, você fazia o treinamento depois que você era contratado… Então, você ficava três meses em treinamento, tanto teórico, quanto prático, para depois você ir para campo, para exercer a sua função. E lá teve um momento que uma psicóloga conversava com a gente, foi um treinamento de dois dias e daí ela falava assim, que a gente tem que traçar o nosso futuro. Metas! “Você está entrando na Cpfl, o que você quer ser daqui a um ano, daqui dois anos, daqui três anos, daqui quatro anos? O período que você ficar aqui, onde você quer chegar e o que você quer fazer? Coloca isso [em] uma meta”. E daí eu falei que o primeiro ano eu queria dar entrada nos estudos, para fazer... Terminar o ensino médio, depois fazer técnico e assim por diante. Então, o primeiro momento, eu terminei o ensino fundamental na prestadora de serviço, entrei na Cpfl. Com um ano, um ano... Passou um pouquinho, um ano e dois meses, um ano e três meses aí, eu dei entrada e comecei fazer o ensino também... Só que daí já era semipresencial. Aí eu fiz o médio, foi um ano e meio, né? Fiz o ensino médio, fiquei parado por um período, né, trabalhando. Eu trabalhava à noite, então era bem complicado o horário. Até quando eu tracei de novo, eu falei assim: “Ó, eu já estou me perdendo naquilo que eu tinha feito lá no começo, já estou atrasado. Eu preciso fazer o ensino técnico, né?”. E há dois anos, eu dei entrada... Aliás, dois anos e meio atrás, eu fiz uma prova. A primeira prova que eu fiz para Etec eu não consegui passar, foi na cidade de Mogi-Guaçu, só que eu falei assim: “Eu não vou desistir, né? Daqui seis meses, eu vou lá de novo” e eu fiz na cidade de Amparo e até, assim, foi até legal, porque foi um desafio maior, né? Então, nessa outra Etec que eu fui, era mais puxado até o conteúdo e, graças a Deus, eu passei e daí, há dois anos, eu dei início e agora, no dia sete desse mês aqui, eu concluí com uma nota boa. Aprendi muito. Eu acho que foi bem sofrido no começo, foi muito sofrido, porque você faz ideia, vir de dois... De duas conclusões, tanto no fundamental, quanto do ensino médio, você vir de forma de ensino para adultos, que é um resumo do resumo, né? Se você for ver é o resumo do resumo. Aí você cai no técnico e ainda mais em área de Exatas. Quanto cálculo que eu nem cheguei [a] fazer. Eu tive que aprender na raça, porque tem que fazer. Se você não fizer você toma bomba, né? Não é empurrado, a Etec é um ensino muito... Eu gostei muito, porque ou você faz ou você não conclui. Então, foi um desafio muito grande, mas vencido, né? E estou aí, agora já dei entrada na minha carteira no CFT (Conselho Federal dos Técnicos Industriais), então, para técnico. Foi um desafio, mas vencido, graças a Deus.

P1 – E você fez o técnico... Esse curso técnico que você fez, foi técnico em...

R – Técnico em eletrotécnica. Até, se você me permite, eu gostaria, assim, sei que isso vai ser visto. Um recado, né, para os jovens: aproveite a sua oportunidade de estudo; lá atrás, não desista, né? Busca! Isso é importante para vocês, porque sempre, na parte quando você estiver adulto, é tudo mais difícil: você tem família, tem criança, pessoas que dependem [de você]. Então, lá atrás, se eu conseguisse voltar no tempo, não tinha abandonado o estudo e tinha concluído bem lá atrás.

P1 – Certo. E esse curso que você fez, o técnico, foi presencial mesmo?

R – Sim, foi presencial. Só no finalzinho, agora, né, por conta da pandemia, que a parte de TCC teve que ser concluída na parte remota, né?

P1 – Certo. E vamos chegar, então, justamente na parte do Projeto Semear. Eu queria saber como você teve contato com o projeto? Como te interessou? Como isso aconteceu?

R – Então, o Projeto Semear é um projeto maravilhoso que a Cpfl tem. Lá atrás, bem no começo, era o “Dia do Bem Fazer”. Então, tinha um dia do ano que você, as equipes que existiam, escolhiam uma ONG e daí, nesse dia, pintava, limpava, organizava e entregava para essa ONG. Quando veio o Projeto Semear, que aí já para uma maneira mais, vamos dizer assim, estruturada, com mais entendimento do que realmente a população precisa, que daí já é o Projeto do Semear. Já é um projeto contínuo, então você não só ia ir lá um dia, ir embora e no outro ano pegava outra. Não! Aí ele já se transformou num projeto contínuo: você entrava na ONG, via a necessidade da ONG e ali ficava. E aí que eu vi o quanto era gostoso, porque teve aquela virada, né? Porque você precisa saber o que você... Qual o seu papel aqui na Terra, aqui, né? Igual eu tinha falado. E daí, no Semear, eu vi tudo aquilo que eu precisava, que era o que eu queria: ser útil, ajudar o próximo. Então, era tudo que eu precisava, estava dentro do projeto Semear, que é entrar, é cuidar dos jovens, né? De uma maneira, não ir na casa deles, mas saber as condições por... Através das ONGs, qual é a condição daquela família? O que eles precisam? Qual família precisa ser mais assistida, né? Tem uma.... Esses jovens têm uma dificuldade, né, uma deficiência, alguma coisa. Então, assim, eu entrei no Projeto Semear como um complemento de algo que eu achei que era necessário para minha vida: ajudar o próximo.

P1 – A gente sabe que você é líder do grupo Circuito das Águas: queria que você contasse um pouco como isso aconteceu [e] que tipo de ações vocês realizam. 

R – Isso. Como eu falei, teve primeiro esse projeto, “Dia do Bem Fazer”, que era cuidado por outras pessoas e era assim: acontecia uma vez só, então isso ficou meio que apagado aqui, na nossa região. E quando começou o Projeto Semear, o meu líder falou assim: “Você era da Cipa, né? Você sempre gostou, né, de dar palestra, de falar de segurança para os jovens. E aí, agora você saiu da Cipa, quer ir conhecer o Projeto Semear, tal?”. Eu falei: “Não, quero sim!”. E daí foi quando a gente foi num “workshop” do projeto, né, em 2018. Então, quem me apresentou esse projeto foi o meu líder aqui da nossa região. Ele [me] levou, né, e também falou assim, que isso, como é um trabalho voluntário, então teria que partir da gente aqui, dos eletricistas, né, dos atendentes e que daí ele ia apresentar o projeto, que se eu me interessasse, né, por esse projeto, que eu puxasse isso, né? Que eu visse com os outros colaboradores se daria certo para a gente fazer esse projeto, até porque é uma coisa legal e que a gente ia assistir ONGs da nossa região, né, as necessidades deles aqui e era importante a gente fazer isso. Eu fui lá e conheci. A hora que eu... Quando eu fui nesse “workshop”, nossa! Aí, é isso que eu quero. “Não, eu quero! Vamos fazer!”. E eu sempre fui muito ansioso para fazer as coisas, então: “Não, pé no chão, né, vamos estruturar isso. Você faz de uma forma estruturada, mas eu te apoio, que você tem que ficar à frente”. E daí foi que ele indicou, falou assim: “Ó, você quer? Pega a liderança, né, eu indico você lá. Aí você pega a liderança, forma um time forte, né, de pessoas que estejam engajadas, porque o Projeto Semear não pode ser uma máscara, né, para que as pessoas queiram crescer dentro da empresa. Não! O foco do Semear é ajudar as pessoas e não se promover, então tem que ser uma coisa estruturada, né? Eu pensei assim e tem que ser algo que as pessoas gostem e sintam à vontade de fazer, não faça por obrigação, mas sim porque gostam”. E daí tudo foi dando certo, porque o time que eu fui montando foi um time extraordinário, não tem o que falar. Só por conta da pandemia e, mesmo assim, a gente fez muitas ações. Mas é um time, assim, que: “Bora’, precisa fazer tal coisa. Estamos precisando de dinheiro para pagar conta”, “Não, vamos reunir”. “Está precisando de roupa”. Então, é um time muito legal, todo mundo engajado. Vamos dizer assim: foi algo gostoso, que foi fácil para mim, porque as pessoas que estão ao meu lado, que fazem parte do time, são pessoas boas e que têm o mesmo pensamento [que] eu. Então se torna fácil ajudar o próximo quando todos estão com a mesma sintonia, com o mesmo pensamento.

P1 – E tem alguma ação que você realizou, que você se recorda, que te marcou por algum motivo?

R – Nossa, eu vou falar uma, mas a gente fez diversas ações, são muitas ações. Então, assim: mas uma em específico foi quando a gente fez a horta suspensa, porque foi o momento de interação, onde a gente trabalhou [em] várias coisas. As crianças envolvidas para fazer o plantio, a reutilização de madeira, a parte também da fome, erradicação da fome, porque daí aquela horta lá serviu para que eles, na hora da refeição deles, tivessem uma alface, um cheiro-verde, tivesse dentro da própria ONG ali. Eles plantaram, colheram e comeram aquilo. Então, isso marcou bastante, entendeu? Eles pegaram o curumim, né, que é o colorau, então eles: “Nossa, que interessante isso aqui!”. Daí a gente pegou lá e pintou a madeira com o curumim, então foi tudo bem artesanal. Teve uma interação muito grande, então isso marcou bastante. E até hoje, às vezes, eu… A cidade aqui tem oitenta mil habitantes, às vezes eu vou no mercado e daí eu estou passando: “Ô, tio”, aí você olha - porque é muita criança -: “Eu lembro de você. Você é da Cpfl, que foi lá na Casa da Criança. Ó, eu tenho uma hortinha na minha casa, é igual a que a que a gente fez lá, eu fiz em casa”. Então, não tem preço para isso, não tem. O pagamento é muito grande, esse reconhecimento de uma criança. Então, essa ação, acho que foi a ação que mais marcou, que teve mais impacto, vamos dizer assim, de melhoria de condição social, talvez nem tanto foi essa, mas teve sala de computação, nós tivemos melhoria na cozinha de ONG, nós temos melhoria de refeitório, diversas coisas. Mas essa acho que foi a que mais impactou, porque teve mais interação, para mim, essa daí.

P1 – E vocês fizeram ações especificamente com a Casa da Criança ou com outras também da região?

R – Então, aqui na cidade a gente fez na Casa da Criança, a gente ficou na Casa da Criança por três anos, porque normalmente se fica dois anos, tá? Mas como lá a gente viu que precisava dar mais uma ajudinha, então eu conversei com a Gabi, que é a responsável lá pelo Semear, aí eu falei com ela e ela de pronto, falou: “Adriano, se você acha que isso é necessário, estamos juntos” e daí a gente ficou por mais um ano lá, foi quando a gente montou a sala de informática - coisa mais linda - e daí a gente entregou de uma forma que a gente achou: “Ó, está mais legal, está andando mais”. E foi quando a gente migrou para o Educandário. Mais crianças, né, muito mais crianças que a Casa da Criança, né? Só que também tem uma parceria da prefeitura, então algumas crianças são por parte assistidas da prefeitura e daí a... Como um todo, a gente está assistindo. Mas aí veio a pandemia, aí que está um pouco a tristeza, porque nós não tivemos tanta interação. Nós estamos no segundo projeto lá, né, impactante para que, quando eles voltarem, eles vão sentir diferença na qualidade. Mas ainda não teve aquele impacto, porque eles, os jovens, ainda não participaram dessas melhorias que a gente fez, mas teve essa melhoria, a outra está em curso, essa outra melhoria está em curso, que a gente vai entregar agora, até o fim do ano, né, que é uma área de "playground" lá, para eles poderem brincar. A gente vai fazer um gramado artificial lá, porque o gramado estava estragando muito; a areia, com a chuva, estava indo embora. Assim, as crianças ficavam restritas de ir, então a gente está melhorando essa condição. A pandemia, nesse último ano aí, tem - não só a nós - atrapalhado tudo, né, mas a gente espera que logo volte e daí eles vão sentir essa ação das ONGs, mas a gente não está parado. Acho que você deve saber a ação que a gente está fazendo, que é gigantesca. É uma ação que vai pegar mais gente, né, que está assistindo muito... Milhares de pessoas, né, que é a ação Juntos Contra a Fome, essa é ação grandiosa, onde juntou todas as equipes e a gente está fazendo esse mutirão aí, para ajudar as pessoas que estão na pobreza, passando necessidade, por conta da pandemia.

P1 – E como vocês se organizaram, para participar todas as equipes dessa ação, Adriano?

R – Então, por conta da pandemia, as equipes foram vendo a necessidade de fazer algo, porque e aí, o que a gente faz? Então, a nossa equipe aqui, né, para entender as outras equipes também, a nossa equipe viu aqui, primeira coisa, o que a gente precisa fazer? Conversar com as assistentes sociais, né, da ONG e ver qual é a necessidade, o que estão precisando nesse momento. Então, a primeira ação que foi feita aqui, no Circuito das Águas, a primeira ação de todas foi perguntar isso: o que está faltando? Alimento, como está de alimento para essas famílias? Porque tinha família que se alimentava, né, vou colocar cinquenta por cento da alimentação ou mais, da criança, era feita lá na ONG, ela ficava o dia todo ali. Então, ela tomava o café da manhã, almoço, o café da tarde e, às vezes, até janta. Então, e aí, essas crianças que se alimentavam lá, será que elas estão se alimentando bem em casa? Está faltando alguma coisa? Então, aí a ONG, né, graças a Deus, bastante [parte da] população ficou solidária com isso, ela recebeu muita doação de alimento. Então, ó, no momento a alimentação, estão todos assistidos, estão bem, mas a gente está com uma preocupação na parte de higiene, higiene bucal: está faltando pasta de dente, sabonete, detergente, álcool em gel, álcool setenta por cento. Então é mais na parte de higiene. Então, o que eu propus para as equipes, eu falei assim: “A gente vai montar uma ação dentro da Cpfl, de arrecadação, para arrecadar esses itens que eles estão necessitando e, em contrapartida, como eu estou no movimento de escoteiro e eles precisam fazer o bem sem olhar a quem também", então eu promovi, dentro do movimento de escoteiro, dentro do grupo de escoteiro, uma ação solidária, para que eles conseguissem arrecadar, também, todos esses itens. E foi um sucesso, porque nós arrecadamos uma Kombi cheia de álcool, de sabonete, aí veio xampu, até coisa que não foi pedido veio. Veio xampu, veio um monte de coisa. Então, [a] primeira ação que a gente fez foi essa. A gente entregou lá e sempre perguntando: “O que está faltando, está tudo tranquilo? Fale com a gente o que está precisando”. Ela falou: “Não, Adriano, agora está tranquilo”. Mas a gente não pode ficar parado: "E agora, o que a gente vai fazer?". Então, foi feita uma reunião, né, do pessoal do Projeto Semear, junto também com a alta cúpula da empresa, falando, né, eles entenderam: “Não, a gente precisa fazer algo para a população, né, para as pessoas”. E daí foi criado: “E se a gente fizer uma mega campanha, se juntar todas as equipes para promover isso?”. Porque não é só: “Ah, vamos fazer uma campanha de arrecadação”. A gente precisa divulgar, a gente precisa mobilizar as pessoas para que isso aconteça, né? Então, os canais de divulgação da empresa interno, a gente como as equipes compartilhando em grupos de WhatsApp, em Facebook. E daí a gente foi montado, né, essa estrutura dentro de um portal, que é o V2V, né, que é do Projeto Semear, que é como se fosse um Facebook. Então a pessoa tem acesso, entra lá e aí lá tem essa campanha, que são duas, tá? É da Cufa (Central Única das Favelas), que foi a parceria que foi feita, né, entre a Cufa e a [Fundação] Feac. E daí, lá tem, você entra lá e faz uma doação, você pega dez reais, acho que é dez, trinta, cinquenta, mas você pode fazer uma doação maior. Então é feita essa doação lá, vai direto lá para a conta desses institutos aí, que lá eles têm um projeto gigantesco que assiste pessoas. Então, o que ela faz? É um pessoal que a gente está aprendendo muito com eles, porque é muito estruturado, né, e daí eles têm um cartão alimentação com o valor da cesta: eles vão lá, levam nessa família, essa família vai lá, sempre para a mãe, né, a mulher, a tutora lá do lar, daí ela vai e compra. Ah, mas não é só assim, dar o cartão, é isso que eu achei interessante: eles mapeiam isso, então vamos dizer que esse mês a dona do lar não gastou o cartão, o cartão está lá, mas não foi gasto, então eles conseguem mapear isso. Eles mandam a assistente social lá, para saber o que aconteceu. Perdeu a senha? Aconteceu alguma coisa com a família? Eles vão ver o que aconteceu e dar auxílio para essa família. Então, foi uma campanha muito estruturada, que você está atendendo seis mil, ao total são 6500 famílias, então é uma mega de uma ação, né? E juntou todas as equipes, para mobilizar, para que isso aconteça. Então, não estamos parados, mesmo com a pandemia, não estamos parados. E sem esquecer nossa ONG, né, porque a nossa equipe, a nossa ONG aqui, a gente não pode esquecer dela, então a gente está sempre em contato, né? Agora, em agosto, se Deus quiser, volta, vai voltar gradualmente. Algumas crianças já vão estar voltando, né? É lógico, com todo protocolo, né? E a gente vai estar, para dar um suporte, no que precisar.

P1 – Então, a gente está se encaminhado para o final da entrevista, Adriano, e aí eu gostaria de perguntar para você, primeiramente, como foi ser pai? Voltando na sua vida pessoal.

R – Ah, foi um momento mágico e assustador, porque eu tinha quinze anos de idade, né? Então, olhando com a visão que eu tenho hoje, era uma criança cuidando de outra criança. Então, não tem amor maior do que isso. Foi formidável ser pai, você vê... EU lembro do gesto que a minha filha estava fazendo, na primeira vez que eu fui vê-la no hospital, eu lembro de tudo, lembro de qual foi o peso dela, tudo. Então, assim, é um momento único, mas também foi assustador, por conta da idade que eu tinha. Hoje, eu sei melhor ser pai do que eu era antes, então... Mas foi um momento único.

P1 – E quais são as coisas mais importantes para você, hoje, Adriano?

R – Para mim, as coisas mais importantes hoje, uma delas é ajudar o próximo, né, eu tenho isso como uma missão de vida; a família, cuidar, não deixar faltar nada para minha família, né? Porque a gente olha para família dos outros, mas também não pode deixar a nossa, né? Assim, é ajudar o próximo e não deixar faltar nada no lar para minha família. Então, sempre trabalhar, sempre buscar o melhor, crescimento profissional e não parar de estudar. Então, assim, hoje, eu tenho isso como uma coisa muito importante também: em janeiro [se] inicia mais um ciclo com a faculdade, vou fazer uma faculdade de Engenharia Elétrica, então também é uma das coisas importantes, [que é] não parar de estudar, [que] é estudar. Quanto mais a gente corre atrás para estudar, mais a gente aprende, mais a gente cresce. Eu tenho um filho meu que ele adora ler e você vê o quanto é rico isso. O José Gabriel, o meu caçula, você quer dar presente para ele, dá um livro. Ele 'come' livro, adora. E você percebe que ele, com dez anos, o enriquecimento que ele tem na fala, na sabedoria, nas coisas, de tanto que ele lê. Então, aprender, correr atrás, estudar é uma das coisas mais importante que todos... Não só eu, quanto todos precisam, é buscar conhecimento.

P1 – E quais são seus sonhos para o futuro, Adriano?

R – Hoje, o meu sonho é crescer na carreira, né? Isso vem acontecendo, graças a Deus, então é crescer e poder ajudar mais pessoas. Buscar sempre ajudar mais pessoas e crescer, deixar um legado para os meus filhos, um exemplo de vida, para que eles possam ter isso como exemplo, também seguirem e, assim, deixar como exemplo para os filhos deles também. Então, eu acho que esse é o meu sonho: é ser exemplo para os meus filhos.

P1 – Tem alguma coisa que eu deixei de perguntar, ou que você queria contar para a gente, que não entrou nessa conversa que a gente teve até agora?

R – Ah, eu acho que... Acredito que não, né? Tem alguns detalhes na vida da gente que, talvez, a gente não conversou, né, com relação ao meu filho mesmo, esse filho meu, que é o meu caçula e a Maria Clara, os dois são diagnosticados com autismo, autistas. Eles têm Asperger, num grau mais leve, mas, também são crianças que ensinaram bastante... Eu aprendi muito com eles. A forma deles de enxergar o mundo, isso fez com que eu aprendesse bastante. Então, acho que do que não foi falado, foi isso. É que a diversidade, as pessoas diferentes te ensinam muito a forma correta da gente ser. Então, a gente tem que olhar para essas pessoas e para essas crianças que são taxadas como os diferentes e olhar com [o] olhar [de] que eles têm mais a ensinar a gente do que a gente ensinar a eles.

P1 – Então vamos partir para a última pergunta, Adriano. Como foi contar a sua história para a gente, hoje?

R – Ah, eu gostei muito de contar a história, até porque remete a gente ao passado, a rever também a nossa vida, coisa que a gente faz pouco, parar para refletir o nosso passado. Como nós chegamos aqui? O que ficou para trás? A gente não... Pelo menos, eu posso falar que não tenho muito esse hábito. Então, essa conversa, essa entrevista foi legal. Por quê? Remeteu lá ao passado, a lembrar de coisas que talvez estavam paradinhas ali, então foi muito legal e também compartilhar isso, né, com outras pessoas, que talvez, em algum momento, em alguma fala minha, pode remeter essa pessoa também ao passado, a lembrar de alguma coisa, de que passou, ou algo que foi semelhante, né? Foi bem legal, eu gostei muito.

P1 – Bom, então, eu agradeço muito também em nome do Museu da Pessoa e desse projeto que a gente está pra Cpfl. Agradeço muito a sua entrevista, Adriano. Muito obrigado!

R – Eu que agradeço. 

Projeto: CPFL - Impacto Social
Depoimento de Adriano Lopes

Entrevistado por Genivaldo Cavalcanti Filho e Grazielle Pellicel
Locais: São Paulo (SP) e Itapira (SP)

Data: 16 de julho de 2021
Realização: Museu da Pessoa

Código da entrevista: PCSH_HV1059

Transcrita por Selma Paiva

Revisada por Grazielle Pellicel


P1 – Boa tarde, Adriano, tudo bem?

R – Boa tarde, tudo!

P1 – Tudo bem. Para começar, eu gostaria que você me informasse o seu nome completo, a data e o local de nascimento.

R – Adriano Lopes. Nascido em 22 de agosto de 1983, na cidade de São Tomé, Paraná.

P1 – Qual o nome dos seus pais?

R – Meu pai é Abel Lopes e minha mãe é Maria Aparecida Ferreira Lopes.

P1 – Qual é a ocupação dos seus pais?

R – É... Cortou na hora que você falou, só entendi “ocupação dos seus pais”.

P1 – Ah, sim, eu vou repetir, então: qual a ocupação dos seus pais?

R – O meu pai faleceu dia 8 do mês passado (junho de 2021), né, ele era aposentado; a minha mãe é do lar.

P1- Certo. E com o que seu pai trabalhava, antes?

R – Antes da aposentadoria do meu pai, ele trabalhava no setor elétrico, assim como eu, né? Ele veio da parte da indústria. E, quando ele construiu a casa dele, ele passou, saiu da empresa e daí eu o convidei para trabalhar. Então a gente trabalhava junto, aí ele trabalhou no setor elétrico até a aposentadoria.

P1 – Certo. E vocês, os seus pais, vieram de fato do Paraná ou eles tinham vindo de alguma família, de ambas as partes, tinham vindo de alguma outra região, outra cidade?

R – Não, eles são naturais do Paraná. Tanto meu pai quanto minha mãe são do Paraná.

P1 – Você tem irmãos, Adriano?

R – Sim, eu tenho... Tem meu irmão mais velho, o André; tem a minha irmã, Aline; eu; e tem um irmão meu que é falecido também, que faleceu com dezesseis anos, que é o Alan.

P1 – Certo. Você teve contato com seus avós, na sua infância?

R – Sim, mais com a minha avó paterna. O meu avô paterno, eu não consigo recordar. Quando eu era muito criança, né, acredito com uns quatro anos para cinco anos, foi quando ele faleceu, então eu não tenho muita recordação dele. Mais da minha avó, né, paterna e da minha avó materna. Dos meus dois avós, eles... Eu tive pouco contato, eles faleceram quando eu era criança.

P1 – Certo. Então, falando um pouquinho sobre a sua infância, do que você gostava de brincar quando era criança?

R – Ah, nossa, quando eu era criança, (risos) era bem arteiro, viu? Qualquer coisa, para mim, era motivo de brincar. Eu sempre fui assim da parte de imaginação. Então, se eu pegasse um pedacinho de madeira, eu imaginava que era um ônibus, fazia de carrinho e brincava, subia em árvore, eu sempre fui bem arteiro, assim, construía casa em morro de areia. Eu sempre fui... Sempre gostei de brincar e com imaginação. Imaginava as coisas e construía uma brincadeira em cima da minha imaginação.

P1 – Você se lembra da casa onde você passou sua infância?

R – Sim. Quando eu era criança, antes dos sete anos, que com sete anos de idade, eu vim para a cidade de Sorocaba, estado de São Paulo. Meu pai conseguiu trabalho aqui, então a gente veio de mudança para cá. Mas eu me recordo muito bem de quando eu era criança, antes dos sete anos, no Paraná, que as casas eram de madeira. Então eu me recordo que tinha uma escadinha que subia para a casa dos meus avós maternos, que era no mesmo terreno. Tinha a casa nossa, né? E tinha uma casa do lado, que era a casa dos meus avós. Então, eu ia muito lá, ficava muito sentado nessa escadinha, na porta da casa [da] minha avó, uma casa de madeira. E era uma casa... Era um terreno de esquina, né, bem numa descida, assim, então me recordo muito bem. Passava uns caminhões de cana, na época, porque é uma cidade pequena, então passava caminhão da área rural lá, né, com cana. Era bem interessante. Eu me lembro sim.

P1 – E era uma região... A rua onde você morava, era uma rua tranquila? Era mais para região rural? Como ela era?

R – Ela não era tão rural. Assim, era uma cidade pacata, de população de vinte mil, 25 mil habitantes, então era uma cidade pequena. E eu lembrava, assim, que na época de safra de cana, passava muito caminhão de cana ali. Era... Eu não tenho como afirmar com certeza que era caminho da usina, mas na minha recordação aquele caminhão... Passava muito caminhão de cana ali, então eu acredito que seja uma rota que ia para uma usina de cana. Então, o maior movimento que tinha lá era desses caminhões de cana. Recordo porque eu corria atrás dos caminhões para pegar cana: a gente puxava a cana e ficava chupando cana o dia inteiro. (risos) Era bem legal.

P1 – Você acredita, então, que boa parte da sua infância você já passou em Sorocaba, né?

R – Sim, é. Após os sete anos, eu... A gente veio para Sorocaba e daí o resto da minha infância foi inteira na cidade de Sorocaba. Eu fui sair de Sorocaba, já estava... Já era casado e estava trabalhando no setor elétrico, mas até os 24 anos - dos sete aos 24 anos - eu fiquei na cidade de Sorocaba.

P1 – Certo. Então, vamos começar a falar sobre a sua chegada em Sorocaba. Você achou muito diferente? O que você sentiu com essa mudança?

R – Então, quando eu vim para a cidade de Sorocaba, vim para um bairro - que Sorocaba é uma cidade grande, né, hoje eu acho que deve ter quase setecentos mil habitantes - distante um pouco da cidade. Então, o ambiente desse bairro lá lembrava muito a cidade onde eu morava, porque era estrada de terra, né, então era tranquila. Todo mundo conhecia todo mundo, né, porque, por ser distante da cidade. Então eu não vi muita mudança. Fui ver mudança depois, quando o meu pai conseguiu comprar um terreno e a gente mudou para outro bairro da cidade de Sorocaba, aí acho que o impacto foi um pouco maior, mas isso eu já estava com os meus nove anos, mais ou menos.

P1 – Nesse primeiro momento, então, nesse bairro mais tranquilo, né, de Sorocaba, onde vocês moravam, você tinha muitos amigos? Vocês brincavam na rua ou você ficava mais em casa? Como era?

R – Eu acho... Assim, eu sou... Eu era muito de brincar mais sozinho. Lembro que conhecia, né, tinha alguns amigos. Inclusive, um amigo de infância mesmo, que a gente foi criado junto, que era do Paraná, veio antes, né? Então, a família que morava vizinho da gente no Paraná, morava no mesmo bairro da cidade de Sorocaba, então meio que migraram... Foi uma migração dos vizinhos também. Então, quando eu cheguei, tinha esse amigo que era de infância lá da cidade do Paraná, de São Tomé, né? A gente se encontrou, mas eu, assim, a maioria da porcentagem do meu tempo eu brincava mais sozinho. Gostava muito de ficar imaginando, imaginar as minhas brincadeiras do meu jeito, então eu brincava mais só, no quintal da casa da minha avó.

P1 – A sua avó se mudou também com vocês, para Sorocaba?

R – Sim, é, até ficou um pouco confuso: a minha avó por parte de pai ela veio antes, quando meu vô faleceu. Passado alguns anos, eles vieram para essa cidade de Sorocaba, que os meus tios conseguiram trabalho na cidade, então eles estavam trabalhando e trouxeram minha avó. Então, essa casa era uma casa bem ampla, bem grandona. Eu lembro que no bairro lá, era a maior casa que tinha. Eles vieram, eram bastantes irmãos, então eles alugaram essa casa para comportar todo mundo ali. E quando a gente veio do Paraná, não tinha uma condição financeira tão legal, então todos que vinham migravam para essa casa da minha avó e lá ficavam, até cada um tomar um rumo, né, começar a trabalhar, alugar uma casa e sair. Então, a gente passou um período morando na casa dessa, da minha avó, que era todo mundo junto. Cada quarto era uma família. A gente morou um tempo nessa casa aí.

P1 – Bom, então, voltando para a sua infância, Adriano, você tinha algum sonho de infância, do tipo: “Quando eu crescer, quero ser tal coisa”?

R – Nossa, eu acho que... Não tinha muito essa... Lá na infância, assim, não tinha muito. Eu acho que, assim: sempre, a minha infância sempre foi meio... Vamos dizer assim: fui de família humilde, né, todos trabalhadores e tudo. Mas acho que o meu sonho que eu tinha era de melhorar a situação financeira, eu acho que estar melhor, né, de conseguir fazer as coisas. Então, não tinha uma coisa específica: “Ah, eu tenho sonho de ter essa profissão ou ser algo, mas sim de ter uma condição financeira melhor”, talvez, mais focado a isso, nunca... Não fui muito sonhador, assim, de ter algo: “Ah, eu quero isso” e ficar com isso na cabeça, não. Não me recordo disso.

P1 – E sobre a sua vida escolar, Adriano, qual a primeira lembrança que te vem à cabeça quando você pensa da época que começou a frequentar a escola?

R – Eu sempre fui muito, vamos dizer assim, inquieto. A escola, para mim, sempre foi um motivo de me segurar. Assim, na minha infância, eu tinha isso como... Uma prisão eu acho que é um pouco forte, mas algo que me segurasse de fazer as coisas que eu gostava. Eu sempre fui muito solto, sempre gostei de ser muito solto, de brincar, de aprender fazendo, sabe? De correr atrás: “Ah, aquilo, eu [me] interesso naquilo, então quero aprender aquilo e aprender fazendo”. Então, na escola, eu sempre fui um pouco, vamos dizer assim, rebelde. (risos) Não gostava muito de estar na escola, entendeu?

P1 – E chegando nesse primeiro momento, pelo menos, do seu ensino fundamental, nos primeiros anos, que lembrança você tem desse período? Da escola, dos professores, de alguma situação. Como você lembra disso?

R – Desse bairro lá, né, quando eu vim para Sorocaba, que na primeira... Na pré-escola e no primeiro ano, eu tenho lembranças, né, de ser uma escolinha bem pequena. Eu acredito que tinha umas quatro salas só, de aula, era bem pequena. Tinha aquelas festas tradicionais que eu me recordo muito bem, né, que eram as festas juninas, então que reunia todo mundo. A gente dançava lá, fazia quadrilha, ensaiava, né? Então, me recordo. Isso me interessava muito, eu gostava muito, essas... De brincar, de se divertir. Isso, eu gostava muito. Então, eu me recordo disso e também me recordo também, assim, de uma professora, que ela era uma professora substituta, então ela cobria quando faltava um professor, ela que dava aula. Eu me recordo que ela era muito amorosa. Então, quando era ela que ia dar aula, eu me recordo que ela passava na frente da casa da minha avó, chamava para que eu viesse junto com ela, então ela me levava até a escola e, quando ia embora, eu ficava por último, que ela passava - que era caminho da casa dela - e me deixava na casa da minha avó. Então, assim, o que me vem na lembrança, algo assim que ficou muito forte na minha lembrança é dessa professora, o carinho dela, a atenção dela, que ela tinha em mim, entendeu?

P1 – E tinha alguma matéria da qual você gostasse mais, Adriano?

R – Ah, eu sempre gostei mais de cálculo, de Exatas. Eu sempre gostei mais de fazer cálculo, não gostava muito de Português, essas matérias assim. Eu sempre gostei mais da área de cálculos, Matemática.

P1 – E essa escola era perto [de] onde você morava? Ou ela era um pouquinho longe e por isso essa professora também te levava e te trazia, para ajudar?

R – Não era muito longe, não, porque a gente ia a pé. Eu consigo recordar, assim, está bem certinho na minha memória aqui. Lembro que a gente saía da casa da minha avó, seguia por uns trezentos metros e virava direto, à direita, ali, andava um quarteirão, aí tinha um campo de futebol, porque era um bairro afastado. Então tinha um campo de futebol, todo final de semana reunia a galera lá para jogar, tinha campeonato. Nós atravessávamos esse campo, depois de atravessar esse campo, a gente andava por de trás de umas casinhas, uma colônia e já chegava nessa escola. Então era bem próximo, era dez, quinze minutinhos de caminhada.

P1 – Certo. E, passando para os últimos anos, digamos assim, do seu ensino fundamental, você continuou na mesma escola, até fazer todo o ensino fundamental ou chegou a mudar de escola, por algum motivo?

R – Então, aí eu cheguei a mudar de escola, por conta do meu pai, que conseguiu comprar um terreno, né? A gente ficou até os nove anos, então eu fiquei por dois anos nesse bairro, né, e depois o meu pai comprou um terreno, já mais para dentro da cidade de Sorocaba, aí foi quando eu mudei. Aí, essa escola, sim, essa era bem mais distante de onde eu morava e lembro que eu ia... No começo, minha mãe me levava para escola, mas passado, assim, uns três, quatro meses depois, comecei [a] ir para escola sozinho, ia ficar... As crianças iam para a escola e a gente ia sozinho mesmo, mas era bem... Era... Aí já era uma meia hora de caminhada, quando eu fui para essa outra escola.

P1 – Certo. E eu queria que você comentasse um pouco sobre esse bairro, sobre essa nova casa, como foi para você? Do que você se lembra dessa mudança, para você?

R – Essa casa foi legal. Conheci, tive mais amizades, né, no momento que eu estava nessa casa aí, então era maior o bairro, tinha mais crianças, então eu fiz mais amizades. Mas também tiveram momentos difíceis nessa casa, porque foi quando minha mãe foi embora de casa, né? Então, foi um momento difícil para a família, em si. Então, ali teve um trauma naquela casa, mas, assim, olhando para mim como criança e amizade, eu tive mais amizades ali, tinha muito mais amizade naquele bairro lá.

P1 – Era uma região mais agitada? A sua rua era mais movimentada? Você conhecia os vizinhos? Como era ali o ambiente, o entorno dessa nova casa?

R – Sim, então... Sim, nisso que eu estou dizendo: nesse lugar tinha muito mais gente, então era um bairro mais... Tinha uma galera, era gigantesca e muito unida. Então, as coisas que a gente fazia lá, naquele bairro pequeno, a gente fazia ali, só que com uma quantidade maior de gente. A gente fazia fechava a rua, fazia festa junina na rua. A minha casa ficava de frente com o ponto final de um ônibus. Então, era toda hora [que] chegava ônibus, desce aquele monte de gente. Era o ponto final, então, para quem morava mais para frente do bairro, descia tudo ali. Era... Para mim, aquilo dali, no começo, foi um impacto bem grande, porque era como se o menino do sítio chegasse na grande cidade, aquele monte de gente diferente e tal. E daí, com o tempo, eu fui me enturmando, fui fazendo amizade. Tinha uma amizade, bastante amizade. Então, assim, foi um impacto social, vamos dizer assim, tinha muito mais pessoas, mais diversidade, mais... Foi bem diferente da... Tanto do Paraná, quanto desse bairro lá de Sorocaba, que era distante.

P1 – E na escola, as coisas mudaram também, você se enturmou com mais gente? Era muito diferente?

R – Sim, era bem diferente, né? Era muito maior, acho, que a escola, acho que dava umas seis escolas da que eu estudava lá, nesse bairro que era distante, né? Então, tinha... Lá, onde eu estudava, nessa cidade, nesse bairro lá, que era distante, tinha acho, se não me engano, até a terceira série, mais ou menos, terceiro ano do ensino fundamental, tinha nessa escolinha. Então, quem... As outras... Você passava para o quarto ano, tinha que ir para um bairro vizinho desse bairro lá, que lá não tinha. Já nessa daí que eu fui morar depois, quando meu pai comprou o terreno, era uma escola que tinha até o oitavo ano, né? Na época, não tinha o nono ano, era até o oitavo ano, então era... Tinha muita... E era um complexo que tinha as salas de aulas, que eram na parte baixa, que daí era quando ficava o primeiro ano, segundo, terceiro ano, até o quarto ano. Aí mais para o fundo da escola, tinha um prédio e nesse prédio era onde tinha o quinto ano. Eu lembro até que a gente falava: “Nossa, a gente não vê a hora de chegar lá no prédio”, que quem está no prédio são os mais legais, entendeu? Porque era o quinto ano, sexto ano, sétimo e oitavo ano, então não se misturavam muito. A gente era ‘criançadinha’ ali e eles lá, os maiores. Então, tinha muito, na hora do intervalo era lotado, era muita criança e jovem, por ser um bairro maior, né? Não só um bairro maior, mas como tinha muitos bairros… Lá era um bairro só afastado e nesse daí não, já era dentro da cidade. Então você saía de um bairro, já estava outro grudado. Tinha bastante criança, que ela nem conhecia por conta disso, que, às vezes, era de bairro diferente de onde eu morava.

P1 – E você se lembra do nome dessa escola?

R – (risos) Não sei se é Beathris Caixeiro... Eu lembro que uma das escolas que eu estudei era Beathris Caixeiro [Del Cistia], não lembro se é essa daí. Mas eu não me recordo, não, porque estudei em várias escolas. Estudei acho que nessa do bairro Iporanga, dessa da outra onde meu pai comprou o terreno, aí quando teve a separação dos meus pais, eu fui para uma cidade vizinha. Daí, depois, voltei, então teve... Eu estudei acho que em umas cinco ou seis escolas diferentes. Não consigo recordar o nome, não.

P1 – Tá certo! Mas voltando, então, para essa questão da escola, essas mudanças aconteceram no ensino fundamental mesmo ou já foram mais para parte do ensino médio? Essa mudança de cidade de novo.

R – É, então, essa daí foi no ensino fundamental mesmo. Teve a mudança, né, assim como eu falei, quando teve essa separação dos meus pais, então meu pai trabalhava lá numa empresa chamada CBA – Companhia Brasileira de Alumínio. Meu pai trabalhou por dezesseis anos nessa empresa e fazia três horários, então ele não tinha um horário definido: ele trabalhava das seis às duas, aí ele folgava; depois das duas às dez, daí depois ele folgava; e das dez às seis, então rodava. E como ele estava sozinho, né, porque ele tinha se divorciado e a gente tinha ficado com o meu pai, não tinha como ele cuidar da gente. Então, naquele momento, eu fui morar com um tio meu, por parte de pai; a minha irmã foi morar com outro; e só o meu irmão ficou morando com o meu pai, porque o meu irmão fazia o Senai na época. Meu irmão tinha quatorze anos e ele estava fazendo o Senai, então ele não poderia sair de lá, ele ficou morando com o meu pai. E assim nós ficamos por um ano e, nesse um ano que eu fiquei morando com o tio meu, fui morar numa cidade chamada Araçoiaba da Serra (SP), que é uma cidade próxima a Sorocaba, com esse tio meu, e é uma área rural, aí eu fiquei um ano morando em um sítio. Esse tio meu cuidava de um sítio, então daí eu estudei por um ano nessa escola lá de Araçoiaba da Serra. Lembro que a gente ia de ônibus, era bem distante. Então, a gente andava a pé, esperava num ponto, o ônibus vinha, pegava a gente, levava para a escola, depois deixava lá e a gente tinha que andar um bom tempo a pé também.

P1 – Certo. E como era essa escola? Voltava a ser uma escola menor, por ser uma escola de uma área rural? O que você se lembra dela?

R – Essa escola aí eu lembro que ela era um prédio, a entrada dela... Tinha a entrada, era toda cimentada. Era como se fosse um asfalto, que dava acesso para um outro bairro que tinha lá, né, saia da área rural, pegava um asfalto. E daí, para chegar... Até chegar nesse outro bairro, na área rural, tinha essa escola, entre as duas áreas rurais ali, e daí tinha um portão e ela era um prédio, ela era maior... Ela era do tamanho, do porte da escola que eu estudava, lá onde meu pai comprou o terreno e construiu a casa, porque ela atendia bastante... A área rural ali da região toda era atendida por essa escola, então ela era grande, sim. Ela tinha até... Ah, não vou saber ao certo se ela tinha o ensino médio, mas com certeza até [o] oitavo ano, tinha.

P1 – Certo. Você ficou durante um ano, então, e depois voltou para Sorocaba?

R – Isso! Aí eu voltei para Sorocaba quando meu pai casou novamente. Meu pai casou novamente, daí eu, a gente voltou para morar com o meu pai, eu e minha irmã, né? Meu irmão também já estava morando lá, daí voltou eu e minha irmã. Aí eu fui estudar em outra escola e já era um outro bairro, não era aquele bairro onde meu pai construiu a casa. Lá foi alugado, ficou alugado lá, e daí meu pai foi morar em outra casa, com essa nova esposa dele. Aí eu comecei estudar nessa outra escola, que ficava num bairro vizinho, era uns quinze, vinte minutos de caminhada também. Foi onde que começou a minha rebeldia, (risos) na questão da escola não me interessar mais, né? Não sei se era pela situação, né, que estava vivendo, mas não tinha muito interesse em estudar não. Eu queria ficar conversando, brincando, jogando bola, andando de bicicleta, mas estudar, eu não tinha muita vontade de estudar, não.

P1 – Certo. E você conseguiu, digamos assim, se entrosar nessa nova escola? Ou realmente esse seu desinteresse, você queria realmente ficar fora da escola, você não queria ir, algo assim?

R – Lá, naquela época, não se falava em "bullying", falava em ‘zoeira’, então eu era aquele garoto zoado, sabe? Aquele garoto que todo mundo tirava sarro. Então, eu não tinha muito interesse em estar na escola, não tinha interesse em estudar, mas não porque não conseguia acompanhar, eu sempre tive facilidade de aprender. Então, se eu fosse, tudo que era passado, aprendia com mais facilidade que os outros, mas eu não gostava de estar lá, por conta do… Hoje, a gente fala "bullying", do "bullying" que eu sofria, né, até agressão, então brigava, queria brigar com a gente, passava rasteira, derrubava a gente, colocava a gente no ridículo. Então, foi um momento bastante difícil, eu não queria ir para a escola porque, para mim, era torturante ir para a escola. Não tinha interesse.

P1 – E seguindo em frente, então, você, depois que finalizou o ensino fundamental, chegou a ir para o ensino médio direto ou deu alguma pausa?

R – Então, aí que está o “x”. Hoje eu sou formado, né? Lógico, a gente vai chegar nisso. No ano que vem vou iniciar a faculdade, mas eu parei de estudar, fiquei um bom tempo sem estudar, então eu vim estudar depois de adulto. Essa situação, essa condição que eu passei fez com que eu me desinteressasse da escola e parei de estudar para trabalhar. Eu larguei, abandonei mesmo o estudo e comecei a trabalhar com vendas. Fazia vendas, trabalhei em diversas coisas, mas estudar, eu parei. Fiquei... Não consegui concluir, eu parei no quinto ano.

P1 – Entendi. E aí me conta, então, um pouquinho desse momento posterior da sua vida, né? Você parou, então, os estudos e começou a trabalhar. Como surgiu o seu primeiro emprego? O que você fazia nele? 

R – Então, o meu primeiro emprego foi com vendas. Então, assim, meu pai falou: “Você não vai estudar, então você vai trabalhar. Você não vai ficar parado, sem fazer nada” e daí ele ligou para um amigo dele, que o cunhado… Esse amigo dele tinha um cunhado que trabalhava com vendas. Vendia enxoval, colcha, panela. Vendia de tudo, né? Na época, bem, no passado, chamava de mascate, né, aquele que vendia de tudo um pouco, parava o carro na frente e vendia. Então, fui trabalhar com isso, fiquei um bom tempo trabalhando com vendas. Então, eu ia, viajava, ficava, dormia no carro, a gente dormia no posto de gasolina, encostava o carro, dormia lá e vendia as coisas. Então, ia para Campinas. Aí eu comecei a viajar muito, então comecei a conhecer diversos lugares na região de Sorocaba, todas as cidades pequenininhas: Cesário Lange, Laranjal Paulista, Itapetininga. Então, todas as cidades pequenas no entorno, ali, de Itapira... De Sorocaba, no caso. Eu ia vender e passava [a] semana vendendo. Então, aí, naquele momento, para mim, jovem, né, estava feliz, porque [estava] conhecendo diversos lugares diferentes e tudo. Mas também com a preocupação de que o que eu vou ser, né? Porque daí já não estava estudando. Qual era a perspectiva de vida que eu ia ter? O que que eu ia ser? Ia ser vendedor o resto da vida? Não desmerecendo, mas: eu vou ser vendedor? O que eu vou conseguir? Será que eu conseguir ter uma família, adquirir bens? Será que eu vou ter minha casa, meu carro? Então, olhava os outros jovens no final de semana lavando o carro, ‘sonzão’ ligado e eu naquela, trabalhando sem - no momento - perspectiva, porque o salário era pequeno, né? O que eu ganhava era mal... Era só para sustentar eu mesmo. Então, tinha essa... Eu estava feliz, mas, ao mesmo tempo, também preocupado e triste por conta de não saber, não ter uma perspectiva do que eu vou ser, o que vou fazer, né?

P1 – Você lembra do que fez com o seu primeiro salário? De você pensar “esse dinheiro é meu”, alguma coisa que você queria comprar e comprou?

R – Eu não vou saber falar exatamente, mas pelo que eu me conheço, assim, acredito que devo ter gastado com um monte de doces, salgadinho, tudo esse tipo de coisa, porque o meu pai não deixava faltar nada, então comida. Dentro da casa, as coisas, roupas, essas coisas não faltavam. Então, provavelmente, eu devo ter gastado dinheiro só com besteira, com doce, com refrigerante, com sorvete, essas coisas. Com certeza, foi isso.

P1 – E, nesse período, o que você gostava de fazer no seu tempo livre? Quando não estava trabalhando.

R – Então, assim, tempo livre que eu tinha era... Só, acredito, domingo que eu tinha livre, porque a gente viajava e, às vezes, a gente chegava no sábado, na hora do almoço, de tardezinha. Então, nesse tempo livre, o que eu fazia? Como eu comecei a trabalhar, então me distanciei dos meus amigos ali do bairro. O que eu fazia? Chegava, ficava louco para encontrar com eles, né? Então, a gente ficava até altas horas, eu lembro que a gente ficava na esquina lá do... Perto da minha casa. Então, tinha a rua principal que eu morava e daí, depois, tinha uma, duas, três ruas para cima. A gente subia lá e ficava na esquina conversando, às vezes comprava um refrigerante, ficava tomando refrigerante ali, então a gente ficava até uma hora, duas horas da madrugada, conversando. Então, no meu tempo livre o que eu fazia era encontrar os meus amigos, que não tinha como eu ver durante a semana.

P1 – Certo. Você ficou nesse emprego, fazendo vendas, durante quanto tempo, com esse trabalho?

R – Oh, devo ter ficado uns quatro anos, porque eu lembro que no... Eu cheguei... E olha só, para você ver, né, como é interessante: então, com quinze anos de idade, eu casei, foi meu primeiro casamento, assim, eu me ajuntei, né? Com a parente, né, desse rapaz que eu trabalhava com vendas. Fiquei um bom período, uns quatro anos, trabalhando com ele [em] venda. Então, já estava casado quando eu ainda fiquei vendendo. Acredito que dos quatorze, quinze, até os dezoito anos eu fiquei trabalhando com vendas. Depois disso, eu passei a trabalhar com... Aí eu já entrei no setor elétrico, um amigo que a gente chegou a trabalhar juntos com vendas, que é um amigo de infância também, que é o Júlio. Então, a gente chegou [a] vender, só que daí não era... Era tapete, aqueles tapetes de “nylon”, né? Eu lembro que a gente ia para São Paulo, em Osasco, aquela área de Osasco, ali, para vender esses tapetes de “nylon”. Então, daí, quando eu completei dezoito anos, foi quando eu saí dessa venda que eu estava com o parente da minha ex-mulher e fui trabalhar no setor elétrico. Porque ele entrou primeiro e daí ele me chamou: “Ô, vamos lá, trabalhar juntos lá, eu indico você”. Daí foi quando eu entrei no setor elétrico, foi quando eu tinha dezoito anos. Então, eu fiquei quatro anos trabalhando com vendas.

(37:13) P1 – E essa sua entrada no setor elétrico, o que mudou para você? O que você se lembra? O que te marcou, dessa época?

R – Então, essa época é uma época que teve... vão ter dois momentos que teve mudança de vida, assim, de dar aquela virada na minha vida, dois momentos importantes e um foi esse. O primeiro momento importante foi esse, foi quando eu falei assim: “Opa, tem uma luz no fim do túnel. Eu posso ser alguém, eu posso ter algo”. Então, eu vi ali uma oportunidade de crescimento. Então, foi um momento muito importante, porque até então era o momento mais importante, que foi a virada de vida minha, eu falei assim: “Agora eu vou ter um salário melhor, um registro”, porque eu não tinha registro em carteira. Então, aí foi quando eu tive um registro, então tinha uma cesta básica, tinha direitos, tinha direito a férias. Então, foi quando deu uma perspectiva de vida, eu falei assim: “Pô, eu posso chegar em algum lugar”. Então, foi um momento bem legal na minha vida.

P1 – E essa segunda virada, que você disse que foram duas?

R – Sim, essa segunda virada, vamos dizer assim: eu estou aqui hoje, conversando com vocês, por conta dessa segunda virada. Foi quando eu… É que, assim, pra mim é muito legal falar disso, porque foi quando eu descobri o porquê que a gente está aqui, porque eu acho que todo mundo tem que chegar um momento na vida dele e ele falar assim: “Espera aí, qual o meu papel aqui na Terra? O que eu estou fazendo aqui? O que eu vou deixar? Que legado eu vou deixar?”. Então, foi a segunda mudança. Eu falei assim: “Não, eu não vou ser só mais um, quero fazer um trabalho social, quero mostrar algo, ajudar. Eu quero fazer”. Então, foi quando eu comecei a fazer trabalhos voluntários. A minha segunda virada foi isso aí: acreditar que você pode fazer algo diferente, que você tem um porquê de estar aqui. E daí foi quando eu comecei com o Projeto Semear e quando comecei também no escotismo, que eu sou chefe de escoteiro. Então aí foi a outra virada, que foi muito importante, até mais importante que essa primeira que eu tive, dessas duas viradas.

P1 – Então vamos conversar, primeiramente, sobre esse seu envolvimento com o escotismo: como ele aconteceu? Como foi ____ (áudio falhou)?

R – Então, o movimento de escoteiro eu só conhecia de filme, não sabia. Para mim, na verdade, até então achava que nem existia isso no Brasil. Eu via isso como uma coisa que tinha no país de primeiro mundo, nos Estados Unidos, nesses outros lugares. Não via isso como uma coisa que existia no Brasil. Mas o meu filho, o Wiliam, teve um amigo dele que começou no movimento escoteiro e falava para ele sempre disso aí, daí a gente foi levá-lo. A gente o levou para ele participar como jovem no movimento de escoteiro e daí eu fui me encantando. A primeira vez que eu o levei, eu só... A minha esposa não sabia o caminho, então eu fui para mostrar o caminho para ela, daí eu olhei lá todo mundo brincando, aquele de 'uniforminho' lá, parecia de exército, né, e daí ficava olhando aquilo: "Nossa, interessante". Fiquei assistindo um pouco, deu a hora de ir para o trabalho e eu fui. Aí teve uma outra oportunidade, no outro final de semana. Eu estava de folga, fui e daí o chefe de escoteiro... Porque, assim, o movimento de escoteiros é o seguinte: é um trabalho voluntário, né? Então, se você ficar marcando ali: “Opa, vem aqui, vamos ajudar”, daí me chamaram para ajudar. Então, fui lá, comecei a ajudar nas brincadeiras, né, no método educativo que eles estavam colocando ali através de brincadeira, "o aprender fazendo", e daí foi, quando eu vi, eu falei: “Nossa, como isso é legal. Os jovens vêm aqui, se divertem, aprendendo e se divertindo ao mesmo tempo, né, criando valores. Caráter, né? Emocional, ajudar o próximo. Nossa, muito legal isso!”. E daí eu comecei, fui me envolvendo, né? A hora que eu vi, já era chefe. Já tinha feito o curso de... Porque, para você lidar com jovem, aí você tem que fazer os cursos lá de proteção infanto-juvenil, tive que fazer esses treinamentos "on-line" lá, depois conversar com o presidente do grupo, né, para eles saberem qual a índole da pessoa. Não é qualquer um que vai entrando. Daí eu fui me envolvendo e hoje eu faço parte do grupo, assim, é uma segunda família minha. Então, hoje, eu sou chefe de seção, eu cuido da seção dos escoteiros. Porque, para quem não conhece o movimento de escoteiros, é até interessante que busque entender, que é uma coisa linda de se falar. Então, tem lá: os jovens começam com seis anos e meio, sete anos, no ramo Lobinho; depois ele passa a faixa etária pra ser Escoteiro; depois, Sênior; depois ele vai para Pioneiro. Então, o jovem, até os 21 anos, ele tem, passa por todo período dele no movimento escoteiro e vai se tornar... Com certeza, né, eu falo isso com bastante convicção [de] que ele vai ser um adulto melhor. Então, eu fui me envolvendo e cada vez me envolvo mais, porque a gente quer que o futuro tenha pessoas boas, pessoas que ajudem o próximo, que se preocupam, né, que tenham empatia. Que se vê uma pessoa de idade atravessando a rua e, mesmo você estando atrasado para o seu trabalho, você ajude aquela pessoa, porque aquilo é mais importante que qualquer outra coisa: ajudar o próximo. Então, cada vez eu me envolvo mais. Foi uma coisa muito interessante, alegre e gostosa de se fazer, que aconteceu na minha vida.

P1 – E há quantos anos você tem essa atividade no movimento de escoteiros?

R – No movimento de escoteiros, tem três anos. Eu comecei com trabalho voluntário, veio o Semear e daí depois veio o movimento de escoteiro, mas não [foi que] um levou o outro: o que [me] levou ao movimento de escoteiros foi meu filho. Mas a questão voluntária é parecida. Tem três anos que eu estou no movimento de escoteiro.

P1 – Certo. Então vamos voltar um pouco na história, porque a gente ainda não tinha falado do seu filho, né? Seu filho tem quantos anos?

R – Na verdade, eu tenho quatro filhos. Esse filho que eu estou falando é de coração, ele é filho da minha esposa. Hoje, ele vai completar dezesseis anos... Hoje, não, né? Ele vai completar dezesseis anos [no] dia 28 de setembro. Esse é de coração, mas eu tenho duas filhas do meu primeiro casamento, uma tem 21, a outra tem treze e tem o José Gabriel, que é o caçula. Então, eu tenho, de sangue, três filhos e esse que é de coração, é filho e não tem... É igual, ali tudo é igual. É meu filhão.

P1 – E quais os nomes deles?

R – A mais velha é Amanda. Então, tem a Amanda, a Maria Clara, aí tem o Wiliam - que esse é o meu de coração - e tem o José Gabriel, que é o caçula, o último aí dos herdeiros.

P1 – E falando sobre o seu trabalho, você está há quanto tempo na Cpfl? Já faz tempo? Você chegou a mudar de trabalho, de emprego, no ramo do setor elétrico?

R – Então, no setor elétrico, lá atrás, quando eu tinha dezoito anos, entrei numa empresa, que era uma empresa que prestava serviço para uma das empresas do grupo Cpfl, que é a Cpfl Piratininga, que fica na região de Sorocaba. Então, eu trabalhei nessa empresa por um período, saí dessa empresa, fui fazer a mesma coisa em outra, também, empresa que é prestadora de serviço, já na... Prestando serviço para a Cpfl Paulista, que é a que eu trabalho hoje e sempre - para quem trabalha na prestadora de serviço - [fui] almejando trabalhar na concessionária de energia. Então, assim, quando eu vim para a cidade de Itapira - vim em 2013, em abril de 2013 -, foi quando eu construí minha casa aqui em Itapira, porque era a sede da empresa que eu trabalhava, que era prestadora de serviço. Então, construí minha casa aqui e nesse mesmo ano, foi um ano muito feliz também, porque eu mudei para a minha casa, né, e em outubro eu entrei na Cpfl. Agora, em outubro, vai fazer oito anos que eu estou na Cpfl, que daí foi onde eu comecei tudo de novo: terminar o estudo, estudar, crescer. O meu crescimento, tanto profissional, quanto de pessoa e de perspectiva de crescimento, de saber, assim: “Não, eu posso, é só eu querer. Eu chego onde eu quiser, só depende de mim”. Igual a Oprah fala, né? Tem uma frase que ela fala assim, que você é o que você acredita, pode chegar onde quiser. Se você acreditar que você pode chegar, vai chegar. Então, meu crescimento foi dentro da Cpfl, tanto na cultura de segurança, na cultura de crescimento profissional, foram... Esses oito anos, foi...  [É] cada dia um crescimento maior.

P1 – E como aconteceu sua volta para os estudos? O que te deu o estalo de falar “agora eu volto”? 

R – É assim: teve dois momentos. Para eu entrar na concessionária de energia Cpfl, eu precisava ter no mínimo o oitavo ano. Então foi o primeiro momento lá na empreiteira, né, lá na prestadora de serviço, que eu fiz um... No Sesi, eu fiz aquele “ensino de adultos”, então eu fui e concluí o oitavo ano. Esse foi o primeiro. Quando eu entrei na Cpfl, no primeiro mês, porque lá, na época, você fazia o treinamento depois que você era contratado… Então, você ficava três meses em treinamento, tanto teórico, quanto prático, para depois você ir para campo, para exercer a sua função. E lá teve um momento que uma psicóloga conversava com a gente, foi um treinamento de dois dias e daí ela falava assim, que a gente tem que traçar o nosso futuro. Metas! “Você está entrando na Cpfl, o que você quer ser daqui a um ano, daqui dois anos, daqui três anos, daqui quatro anos? O período que você ficar aqui, onde você quer chegar e o que você quer fazer? Coloca isso [em] uma meta”. E daí eu falei que o primeiro ano eu queria dar entrada nos estudos, para fazer... Terminar o ensino médio, depois fazer técnico e assim por diante. Então, o primeiro momento, eu terminei o ensino fundamental na prestadora de serviço, entrei na Cpfl. Com um ano, um ano... Passou um pouquinho, um ano e dois meses, um ano e três meses aí, eu dei entrada e comecei fazer o ensino também... Só que daí já era semipresencial. Aí eu fiz o médio, foi um ano e meio, né? Fiz o ensino médio, fiquei parado por um período, né, trabalhando. Eu trabalhava à noite, então era bem complicado o horário. Até quando eu tracei de novo, eu falei assim: “Ó, eu já estou me perdendo naquilo que eu tinha feito lá no começo, já estou atrasado. Eu preciso fazer o ensino técnico, né?”. E há dois anos, eu dei entrada... Aliás, dois anos e meio atrás, eu fiz uma prova. A primeira prova que eu fiz para Etec eu não consegui passar, foi na cidade de Mogi-Guaçu, só que eu falei assim: “Eu não vou desistir, né? Daqui seis meses, eu vou lá de novo” e eu fiz na cidade de Amparo e até, assim, foi até legal, porque foi um desafio maior, né? Então, nessa outra Etec que eu fui, era mais puxado até o conteúdo e, graças a Deus, eu passei e daí, há dois anos, eu dei início e agora, no dia sete desse mês aqui, eu concluí com uma nota boa. Aprendi muito. Eu acho que foi bem sofrido no começo, foi muito sofrido, porque você faz ideia, vir de dois... De duas conclusões, tanto no fundamental, quanto do ensino médio, você vir de forma de ensino para adultos, que é um resumo do resumo, né? Se você for ver é o resumo do resumo. Aí você cai no técnico e ainda mais em área de Exatas. Quanto cálculo que eu nem cheguei [a] fazer. Eu tive que aprender na raça, porque tem que fazer. Se você não fizer você toma bomba, né? Não é empurrado, a Etec é um ensino muito... Eu gostei muito, porque ou você faz ou você não conclui. Então, foi um desafio muito grande, mas vencido, né? E estou aí, agora já dei entrada na minha carteira no CFT (Conselho Federal dos Técnicos Industriais), então, para técnico. Foi um desafio, mas vencido, graças a Deus.

P1 – E você fez o técnico... Esse curso técnico que você fez, foi técnico em...

R – Técnico em eletrotécnica. Até, se você me permite, eu gostaria, assim, sei que isso vai ser visto. Um recado, né, para os jovens: aproveite a sua oportunidade de estudo; lá atrás, não desista, né? Busca! Isso é importante para vocês, porque sempre, na parte quando você estiver adulto, é tudo mais difícil: você tem família, tem criança, pessoas que dependem [de você]. Então, lá atrás, se eu conseguisse voltar no tempo, não tinha abandonado o estudo e tinha concluído bem lá atrás.

P1 – Certo. E esse curso que você fez, o técnico, foi presencial mesmo?

R – Sim, foi presencial. Só no finalzinho, agora, né, por conta da pandemia, que a parte de TCC teve que ser concluída na parte remota, né?

P1 – Certo. E vamos chegar, então, justamente na parte do Projeto Semear. Eu queria saber como você teve contato com o projeto? Como te interessou? Como isso aconteceu?

R – Então, o Projeto Semear é um projeto maravilhoso que a Cpfl tem. Lá atrás, bem no começo, era o “Dia do Bem Fazer”. Então, tinha um dia do ano que você, as equipes que existiam, escolhiam uma ONG e daí, nesse dia, pintava, limpava, organizava e entregava para essa ONG. Quando veio o Projeto Semear, que aí já para uma maneira mais, vamos dizer assim, estruturada, com mais entendimento do que realmente a população precisa, que daí já é o Projeto do Semear. Já é um projeto contínuo, então você não só ia ir lá um dia, ir embora e no outro ano pegava outra. Não! Aí ele já se transformou num projeto contínuo: você entrava na ONG, via a necessidade da ONG e ali ficava. E aí que eu vi o quanto era gostoso, porque teve aquela virada, né? Porque você precisa saber o que você... Qual o seu papel aqui na Terra, aqui, né? Igual eu tinha falado. E daí, no Semear, eu vi tudo aquilo que eu precisava, que era o que eu queria: ser útil, ajudar o próximo. Então, era tudo que eu precisava, estava dentro do projeto Semear, que é entrar, é cuidar dos jovens, né? De uma maneira, não ir na casa deles, mas saber as condições por... Através das ONGs, qual é a condição daquela família? O que eles precisam? Qual família precisa ser mais assistida, né? Tem uma.... Esses jovens têm uma dificuldade, né, uma deficiência, alguma coisa. Então, assim, eu entrei no Projeto Semear como um complemento de algo que eu achei que era necessário para minha vida: ajudar o próximo.

P1 – A gente sabe que você é líder do grupo Circuito das Águas: queria que você contasse um pouco como isso aconteceu [e] que tipo de ações vocês realizam. 

R – Isso. Como eu falei, teve primeiro esse projeto, “Dia do Bem Fazer”, que era cuidado por outras pessoas e era assim: acontecia uma vez só, então isso ficou meio que apagado aqui, na nossa região. E quando começou o Projeto Semear, o meu líder falou assim: “Você era da Cipa, né? Você sempre gostou, né, de dar palestra, de falar de segurança para os jovens. E aí, agora você saiu da Cipa, quer ir conhecer o Projeto Semear, tal?”. Eu falei: “Não, quero sim!”. E daí foi quando a gente foi num “workshop” do projeto, né, em 2018. Então, quem me apresentou esse projeto foi o meu líder aqui da nossa região. Ele [me] levou, né, e também falou assim, que isso, como é um trabalho voluntário, então teria que partir da gente aqui, dos eletricistas, né, dos atendentes e que daí ele ia apresentar o projeto, que se eu me interessasse, né, por esse projeto, que eu puxasse isso, né? Que eu visse com os outros colaboradores se daria certo para a gente fazer esse projeto, até porque é uma coisa legal e que a gente ia assistir ONGs da nossa região, né, as necessidades deles aqui e era importante a gente fazer isso. Eu fui lá e conheci. A hora que eu... Quando eu fui nesse “workshop”, nossa! Aí, é isso que eu quero. “Não, eu quero! Vamos fazer!”. E eu sempre fui muito ansioso para fazer as coisas, então: “Não, pé no chão, né, vamos estruturar isso. Você faz de uma forma estruturada, mas eu te apoio, que você tem que ficar à frente”. E daí foi que ele indicou, falou assim: “Ó, você quer? Pega a liderança, né, eu indico você lá. Aí você pega a liderança, forma um time forte, né, de pessoas que estejam engajadas, porque o Projeto Semear não pode ser uma máscara, né, para que as pessoas queiram crescer dentro da empresa. Não! O foco do Semear é ajudar as pessoas e não se promover, então tem que ser uma coisa estruturada, né? Eu pensei assim e tem que ser algo que as pessoas gostem e sintam à vontade de fazer, não faça por obrigação, mas sim porque gostam”. E daí tudo foi dando certo, porque o time que eu fui montando foi um time extraordinário, não tem o que falar. Só por conta da pandemia e, mesmo assim, a gente fez muitas ações. Mas é um time, assim, que: “Bora’, precisa fazer tal coisa. Estamos precisando de dinheiro para pagar conta”, “Não, vamos reunir”. “Está precisando de roupa”. Então, é um time muito legal, todo mundo engajado. Vamos dizer assim: foi algo gostoso, que foi fácil para mim, porque as pessoas que estão ao meu lado, que fazem parte do time, são pessoas boas e que têm o mesmo pensamento [que] eu. Então se torna fácil ajudar o próximo quando todos estão com a mesma sintonia, com o mesmo pensamento.

P1 – E tem alguma ação que você realizou, que você se recorda, que te marcou por algum motivo?

R – Nossa, eu vou falar uma, mas a gente fez diversas ações, são muitas ações. Então, assim: mas uma em específico foi quando a gente fez a horta suspensa, porque foi o momento de interação, onde a gente trabalhou [em] várias coisas. As crianças envolvidas para fazer o plantio, a reutilização de madeira, a parte também da fome, erradicação da fome, porque daí aquela horta lá serviu para que eles, na hora da refeição deles, tivessem uma alface, um cheiro-verde, tivesse dentro da própria ONG ali. Eles plantaram, colheram e comeram aquilo. Então, isso marcou bastante, entendeu? Eles pegaram o curumim, né, que é o colorau, então eles: “Nossa, que interessante isso aqui!”. Daí a gente pegou lá e pintou a madeira com o curumim, então foi tudo bem artesanal. Teve uma interação muito grande, então isso marcou bastante. E até hoje, às vezes, eu… A cidade aqui tem oitenta mil habitantes, às vezes eu vou no mercado e daí eu estou passando: “Ô, tio”, aí você olha - porque é muita criança -: “Eu lembro de você. Você é da Cpfl, que foi lá na Casa da Criança. Ó, eu tenho uma hortinha na minha casa, é igual a que a que a gente fez lá, eu fiz em casa”. Então, não tem preço para isso, não tem. O pagamento é muito grande, esse reconhecimento de uma criança. Então, essa ação, acho que foi a ação que mais marcou, que teve mais impacto, vamos dizer assim, de melhoria de condição social, talvez nem tanto foi essa, mas teve sala de computação, nós tivemos melhoria na cozinha de ONG, nós temos melhoria de refeitório, diversas coisas. Mas essa acho que foi a que mais impactou, porque teve mais interação, para mim, essa daí.

P1 – E vocês fizeram ações especificamente com a Casa da Criança ou com outras também da região?

R – Então, aqui na cidade a gente fez na Casa da Criança, a gente ficou na Casa da Criança por três anos, porque normalmente se fica dois anos, tá? Mas como lá a gente viu que precisava dar mais uma ajudinha, então eu conversei com a Gabi, que é a responsável lá pelo Semear, aí eu falei com ela e ela de pronto, falou: “Adriano, se você acha que isso é necessário, estamos juntos” e daí a gente ficou por mais um ano lá, foi quando a gente montou a sala de informática - coisa mais linda - e daí a gente entregou de uma forma que a gente achou: “Ó, está mais legal, está andando mais”. E foi quando a gente migrou para o Educandário. Mais crianças, né, muito mais crianças que a Casa da Criança, né? Só que também tem uma parceria da prefeitura, então algumas crianças são por parte assistidas da prefeitura e daí a... Como um todo, a gente está assistindo. Mas aí veio a pandemia, aí que está um pouco a tristeza, porque nós não tivemos tanta interação. Nós estamos no segundo projeto lá, né, impactante para que, quando eles voltarem, eles vão sentir diferença na qualidade. Mas ainda não teve aquele impacto, porque eles, os jovens, ainda não participaram dessas melhorias que a gente fez, mas teve essa melhoria, a outra está em curso, essa outra melhoria está em curso, que a gente vai entregar agora, até o fim do ano, né, que é uma área de "playground" lá, para eles poderem brincar. A gente vai fazer um gramado artificial lá, porque o gramado estava estragando muito; a areia, com a chuva, estava indo embora. Assim, as crianças ficavam restritas de ir, então a gente está melhorando essa condição. A pandemia, nesse último ano aí, tem - não só a nós - atrapalhado tudo, né, mas a gente espera que logo volte e daí eles vão sentir essa ação das ONGs, mas a gente não está parado. Acho que você deve saber a ação que a gente está fazendo, que é gigantesca. É uma ação que vai pegar mais gente, né, que está assistindo muito... Milhares de pessoas, né, que é a ação Juntos Contra a Fome, essa é ação grandiosa, onde juntou todas as equipes e a gente está fazendo esse mutirão aí, para ajudar as pessoas que estão na pobreza, passando necessidade, por conta da pandemia.

P1 – E como vocês se organizaram, para participar todas as equipes dessa ação, Adriano?

R – Então, por conta da pandemia, as equipes foram vendo a necessidade de fazer algo, porque e aí, o que a gente faz? Então, a nossa equipe aqui, né, para entender as outras equipes também, a nossa equipe viu aqui, primeira coisa, o que a gente precisa fazer? Conversar com as assistentes sociais, né, da ONG e ver qual é a necessidade, o que estão precisando nesse momento. Então, a primeira ação que foi feita aqui, no Circuito das Águas, a primeira ação de todas foi perguntar isso: o que está faltando? Alimento, como está de alimento para essas famílias? Porque tinha família que se alimentava, né, vou colocar cinquenta por cento da alimentação ou mais, da criança, era feita lá na ONG, ela ficava o dia todo ali. Então, ela tomava o café da manhã, almoço, o café da tarde e, às vezes, até janta. Então, e aí, essas crianças que se alimentavam lá, será que elas estão se alimentando bem em casa? Está faltando alguma coisa? Então, aí a ONG, né, graças a Deus, bastante [parte da] população ficou solidária com isso, ela recebeu muita doação de alimento. Então, ó, no momento a alimentação, estão todos assistidos, estão bem, mas a gente está com uma preocupação na parte de higiene, higiene bucal: está faltando pasta de dente, sabonete, detergente, álcool em gel, álcool setenta por cento. Então é mais na parte de higiene. Então, o que eu propus para as equipes, eu falei assim: “A gente vai montar uma ação dentro da Cpfl, de arrecadação, para arrecadar esses itens que eles estão necessitando e, em contrapartida, como eu estou no movimento de escoteiro e eles precisam fazer o bem sem olhar a quem também", então eu promovi, dentro do movimento de escoteiro, dentro do grupo de escoteiro, uma ação solidária, para que eles conseguissem arrecadar, também, todos esses itens. E foi um sucesso, porque nós arrecadamos uma Kombi cheia de álcool, de sabonete, aí veio xampu, até coisa que não foi pedido veio. Veio xampu, veio um monte de coisa. Então, [a] primeira ação que a gente fez foi essa. A gente entregou lá e sempre perguntando: “O que está faltando, está tudo tranquilo? Fale com a gente o que está precisando”. Ela falou: “Não, Adriano, agora está tranquilo”. Mas a gente não pode ficar parado: "E agora, o que a gente vai fazer?". Então, foi feita uma reunião, né, do pessoal do Projeto Semear, junto também com a alta cúpula da empresa, falando, né, eles entenderam: “Não, a gente precisa fazer algo para a população, né, para as pessoas”. E daí foi criado: “E se a gente fizer uma mega campanha, se juntar todas as equipes para promover isso?”. Porque não é só: “Ah, vamos fazer uma campanha de arrecadação”. A gente precisa divulgar, a gente precisa mobilizar as pessoas para que isso aconteça, né? Então, os canais de divulgação da empresa interno, a gente como as equipes compartilhando em grupos de WhatsApp, em Facebook. E daí a gente foi montado, né, essa estrutura dentro de um portal, que é o V2V, né, que é do Projeto Semear, que é como se fosse um Facebook. Então a pessoa tem acesso, entra lá e aí lá tem essa campanha, que são duas, tá? É da Cufa (Central Única das Favelas), que foi a parceria que foi feita, né, entre a Cufa e a [Fundação] Feac. E daí, lá tem, você entra lá e faz uma doação, você pega dez reais, acho que é dez, trinta, cinquenta, mas você pode fazer uma doação maior. Então é feita essa doação lá, vai direto lá para a conta desses institutos aí, que lá eles têm um projeto gigantesco que assiste pessoas. Então, o que ela faz? É um pessoal que a gente está aprendendo muito com eles, porque é muito estruturado, né, e daí eles têm um cartão alimentação com o valor da cesta: eles vão lá, levam nessa família, essa família vai lá, sempre para a mãe, né, a mulher, a tutora lá do lar, daí ela vai e compra. Ah, mas não é só assim, dar o cartão, é isso que eu achei interessante: eles mapeiam isso, então vamos dizer que esse mês a dona do lar não gastou o cartão, o cartão está lá, mas não foi gasto, então eles conseguem mapear isso. Eles mandam a assistente social lá, para saber o que aconteceu. Perdeu a senha? Aconteceu alguma coisa com a família? Eles vão ver o que aconteceu e dar auxílio para essa família. Então, foi uma campanha muito estruturada, que você está atendendo seis mil, ao total são 6500 famílias, então é uma mega de uma ação, né? E juntou todas as equipes, para mobilizar, para que isso aconteça. Então, não estamos parados, mesmo com a pandemia, não estamos parados. E sem esquecer nossa ONG, né, porque a nossa equipe, a nossa ONG aqui, a gente não pode esquecer dela, então a gente está sempre em contato, né? Agora, em agosto, se Deus quiser, volta, vai voltar gradualmente. Algumas crianças já vão estar voltando, né? É lógico, com todo protocolo, né? E a gente vai estar, para dar um suporte, no que precisar.

P1 – Então, a gente está se encaminhado para o final da entrevista, Adriano, e aí eu gostaria de perguntar para você, primeiramente, como foi ser pai? Voltando na sua vida pessoal.

R – Ah, foi um momento mágico e assustador, porque eu tinha quinze anos de idade, né? Então, olhando com a visão que eu tenho hoje, era uma criança cuidando de outra criança. Então, não tem amor maior do que isso. Foi formidável ser pai, você vê... EU lembro do gesto que a minha filha estava fazendo, na primeira vez que eu fui vê-la no hospital, eu lembro de tudo, lembro de qual foi o peso dela, tudo. Então, assim, é um momento único, mas também foi assustador, por conta da idade que eu tinha. Hoje, eu sei melhor ser pai do que eu era antes, então... Mas foi um momento único.

P1 – E quais são as coisas mais importantes para você, hoje, Adriano?

R – Para mim, as coisas mais importantes hoje, uma delas é ajudar o próximo, né, eu tenho isso como uma missão de vida; a família, cuidar, não deixar faltar nada para minha família, né? Porque a gente olha para família dos outros, mas também não pode deixar a nossa, né? Assim, é ajudar o próximo e não deixar faltar nada no lar para minha família. Então, sempre trabalhar, sempre buscar o melhor, crescimento profissional e não parar de estudar. Então, assim, hoje, eu tenho isso como uma coisa muito importante também: em janeiro [se] inicia mais um ciclo com a faculdade, vou fazer uma faculdade de Engenharia Elétrica, então também é uma das coisas importantes, [que é] não parar de estudar, [que] é estudar. Quanto mais a gente corre atrás para estudar, mais a gente aprende, mais a gente cresce. Eu tenho um filho meu que ele adora ler e você vê o quanto é rico isso. O José Gabriel, o meu caçula, você quer dar presente para ele, dá um livro. Ele 'come' livro, adora. E você percebe que ele, com dez anos, o enriquecimento que ele tem na fala, na sabedoria, nas coisas, de tanto que ele lê. Então, aprender, correr atrás, estudar é uma das coisas mais importante que todos... Não só eu, quanto todos precisam, é buscar conhecimento.

P1 – E quais são seus sonhos para o futuro, Adriano?

R – Hoje, o meu sonho é crescer na carreira, né? Isso vem acontecendo, graças a Deus, então é crescer e poder ajudar mais pessoas. Buscar sempre ajudar mais pessoas e crescer, deixar um legado para os meus filhos, um exemplo de vida, para que eles possam ter isso como exemplo, também seguirem e, assim, deixar como exemplo para os filhos deles também. Então, eu acho que esse é o meu sonho: é ser exemplo para os meus filhos.

P1 – Tem alguma coisa que eu deixei de perguntar, ou que você queria contar para a gente, que não entrou nessa conversa que a gente teve até agora?

R – Ah, eu acho que... Acredito que não, né? Tem alguns detalhes na vida da gente que, talvez, a gente não conversou, né, com relação ao meu filho mesmo, esse filho meu, que é o meu caçula e a Maria Clara, os dois são diagnosticados com autismo, autistas. Eles têm Asperger, num grau mais leve, mas, também são crianças que ensinaram bastante... Eu aprendi muito com eles. A forma deles de enxergar o mundo, isso fez com que eu aprendesse bastante. Então, acho que do que não foi falado, foi isso. É que a diversidade, as pessoas diferentes te ensinam muito a forma correta da gente ser. Então, a gente tem que olhar para essas pessoas e para essas crianças que são taxadas como os diferentes e olhar com [o] olhar [de] que eles têm mais a ensinar a gente do que a gente ensinar a eles.

P1 – Então vamos partir para a última pergunta, Adriano. Como foi contar a sua história para a gente, hoje?

R – Ah, eu gostei muito de contar a história, até porque remete a gente ao passado, a rever também a nossa vida, coisa que a gente faz pouco, parar para refletir o nosso passado. Como nós chegamos aqui? O que ficou para trás? A gente não... Pelo menos, eu posso falar que não tenho muito esse hábito. Então, essa conversa, essa entrevista foi legal. Por quê? Remeteu lá ao passado, a lembrar de coisas que talvez estavam paradinhas ali, então foi muito legal e também compartilhar isso, né, com outras pessoas, que talvez, em algum momento, em alguma fala minha, pode remeter essa pessoa também ao passado, a lembrar de alguma coisa, de que passou, ou algo que foi semelhante, né? Foi bem legal, eu gostei muito.

P1 – Bom, então, eu agradeço muito também em nome do Museu da Pessoa e desse projeto que a gente está pra Cpfl. Agradeço muito a sua entrevista, Adriano. Muito obrigado!

R – Eu que agradeço. 

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