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História

Todo dia às cinco e meia da manhã cai a carta

História de: T. R. L.
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2013

Sinopse

Nascida em Fernandópolis, interior de São Paulo, T. foi criada pela sua avó paterna depois que seus pais se separam quando ela ainda era bebê. Cresceu brincando na rua de pipa e de skate e gostava de ajudar seu pai na oficina mecânica. Seu sonho era seguir os passos do pai e ser Engenheira mecânica. Com treze anos casou com seu primeiro namorado e teve, aos 15 anos, seu primeiro filho com ele. Sua filha nasceu 1 ano depois. Separada, chegou a cursar a faculdade de Engenharia mecânica, mas por causa de uma briga familiar foi afastada deles. Hoje, T. cumpre pena na Penitenciária Feminina de São Paulo por tráfico de drogas. Ela adora escrever e receber cartas. Faz lindos desenhos para ilustrar as cartas que manda para a família e outros detentos. T. dá muito valor às cartas que para ela são como visitas que ela não recebe.

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História completa

Eu nasci em Fernandópolis, tenho 25 anos, nasci dia 16 de junho de 1988. O meu pai trabalhava numa oficina mecânica e foi pra Minas, aí ele deu uma passada em Minas e foi para o Mato Grosso. Aí chegando lá ele foi fazer um conserto de uns caminhões, num sítio e lá conheceu a minha mãe. Aí ele trouxe ela pra Fernandópolis. Meu pai e a minha mãe atualmente são separados. O meu pai é mecânico e a minha mãe é do lar. Eu fui criada pela minha avó, por parte de pai. A minha avó é aposentada. Eu morei sempre ali em Fernandópolis, num bairro meio afastado da cidade. Na minha infância eu morava num bairro muito humilde, uma casinha bem humilde. Tinha uma escola num quarteirão assim pra cima, que foi aonde eu estudei a maior parte da minha infância. Aí do lado de baixo assim tinha uma outra escola agrícola. Eu morava entre essa escola e a rodovia. Tinha uma pracinha onde a gente brincava. A gente brincava muito na rua, de carrinho de rolimã, andava de skate com as crianças da vizinhança. A gente bagunçava bastante. Quando meu pai e minha mãe se separam eu era pequena, tinha oito meses, e eu fui criada ali com a minha avó sozinha. Na minha família era meio que uma regra assim, todo final de semana, a gente sempre se unia pra almoçar com a minha avó, pra ela não ficar sozinha, porque o meu avô morreu, ela ficou muito sozinha. Ela me ensinou, desde pequena faço comida, fazia comida em casa, limpava casa. Eu estava sempre ali, ajudando ela. Sempre fui meio moleque, gostava de soltar pipa, andar de skate, a brincadeira que nós costumava fazer ali no dia a dia. Eu andava de carrinho de rolimã, soltava pipa na beira do rio. Era sempre eu de menina e aquele monte de menino, era sempre assim as brincadeiras que a gente tinha. Pela profissão do meu pai, eu estava sempre ali na oficina, então eu fui meio que engenheira mecânica. Gostava de ajudar ele a abrir motor, descer motor de caminhão, pôr no guincho, puxar. Eu gosto assim dessas coisas mais pesadas. Eu corria demais, na sala de aula eu era muito atenciosa, gostava muito de estudar, apesar de eu cabular bastante aula, mas eu tirava notas boas. Aí depois da sexta eu comecei a dar uma fugidinha, mas sempre estudando pra terminar os estudos. Eu gostava muito de aprender sobre o corpo. Teve uma das aulas que passou pra gente que até um pouquinho lá pra frente eu tive que usar foi aula de massagem cardíaca, de socorrer uma pessoa, tipo afogada, engasgada. Eu gostava muito dessa aula, pra mim foi um pouco marcante porque depois de algum tempo, no decorrer do passar do tempo, a minha tia veio a ter tipo de uma parada, sabe, e eu lembrei’ ‘Poxa, eu fiz o método, por quê que não vou fazer nela?’, e eu fiz e quando o resgate chegou, o médico falou: "Se ela não tivesse feito, talvez agora ela não estaria mais aqui", então marcou bastante. Eu estudei até a sexta e da sexta eu fui pra o Ângulo e ali eu fiquei até terminar o terceiro. Aí nessa fase eu ainda tava meio em dúvida do que fazer. Aí sentei um dia pra conversar com o meu pai, ele queria que eu fosse enfermeira, que eu fizesse enfermagem. "Pai, eu gosto muito de mecânica, não quero fazer enfermagem" "Não, mas enfermagem vai ser bom" “Ah, mas eu tenho mais habilidade com esforço físico, tal”. Aí ele falou: "Ah, se é isso que você quer fazer, eu te apoio". Aí eu parti pra engenharia mecânica. Namorar eu só namorei com o pai dos meus filhos, que eu tenho dois filhos, um casal. Namorei, já casei, permaneci sete anos casada e depois que eu separei eu fui morar com minha avó de novo. Não arrumei mais nenhum companheiro sério, nenhum fixo. Eu não gostava de namorar, gostava mais de curtir. Eu não gostava de um laço, eu nunca fui chegada nisso. Eu conheci meu marido da seguinte forma, minha prima namorava um rapaz e ele era amigo desse rapaz. Aí os dois foram juntos e eu conheci ele ali. Eu tinha 13 anos. Nós começamos a namorar, aí teve aquele negócio de ir em casa, pedir pro meu pai, que na época ele era muito duro. Ele pediu pro meu pai, aí nós começou a namorar, aí nós já casou. Eu permaneci sete anos casada. Quando eu casei com ele, ele descarregava caminhão, depois ele virou caminhoneiro. Por isso que o casamento foi acabando, já não parava mais em casa, foi meio que foi desgastando. Tive dois filhos com ele. Quando eu me separei eles vieram comigo, só que o menino era muito apegado ao pai dele. Quando o pai dele ficava em casa, era Deus no céu, o pai na terra. Eu trouxe eles comigo pra morar, aí ele ficou doente. Como eu ainda era muito nova, e ele ficou doente e ele só pedia pai, pai, pai. Ele não comia, não queria mais pentear o cabelo dele, não queria saber mais de nada. E ele começou a emagrecer, e eu sem saber o que fazer. Tava meio que perdida. Peguei ele e levei pra ele, falei: Leva, vê o que você faz, me ajuda". Aí ele veio, ele falou: "Ó, vou levar o menino", falei: "Fazer o que, não vou deixar meu filho morrer. Ele não quer ficar comigo, eu não posso fazer nada". Aí ele foi, e a menina viu ele ir, quis ir também. Acho muito difícil pra mim porque eu não posso mais chegar perto deles, por causa da sequencia da vida que eu escolhi, que eu me envolvi. Uma vez eu fui ver eles e chegou lá, eu tive uma discussão com ele (ex-marido), porque ele prometeu pra mim que mesmo eles indo morar com ele, que ele deixaria eu estar vendo as crianças, e eu cheguei lá, ele não quis deixar eu ver. Eu não tenho muita paciência, aí nós começou discutir e a mãe dele veio pra cima de mim com uma faquinha de serra e eu tipo meio que empurrei, ela caiu em cima da lança do portão. E ela abriu um boletim de ocorrência contra mim, o juiz entendeu como tentativa de homicídio. Aí ele me afastou a mil e quinhentos metros longe das crianças. Aí eu não posso mais ver eles, nem escrever, nem pedir satisfação, tipo, só posso ver eles se ele trouxer até a mim. Eu chegar perto, eu não posso. Meu advogado me instruiu para eu ter um bom comportamento, não procurar ele, para não piorar a situação, que isso não é pro resto da minha vida. O juiz pode reverter a situação. Mas minha avó me mandava foto. Ela me mandava foto, eu tinha várias fotos deles. Mas aí eu vim de bonde pra cá, tava numa comarca do interior, como eu vim num bonde de madrugada, meio que se perdeu no meio das coisas das companheiras. Bonde é quando alguém pede a remoção pro sistema penitenciário, que eu estava na comarca, aí eu vim pro sistema penitenciário. Isso na nossa linguagem é bonde. Quando eu consegui entrar na faculdade, pra mim foi tudo muito novo, porque eu tava acostumada com aquela vidinha de escola, você tinha horário pra entrar, você tinha horário pra sair, você tinha horário pra fazer, tudo muito certinho. E na faculdade não é bem assim não. Você vai, aí fica todo mundo ali conversando, você entra na aula se você quiser, se você não quiser você vai embora. Então pra mim foi tudo muito novo, tudo muito diferente. Mas nos primeiros meses eu gostava de estar ali, e eu tranquei a faculdade por isso. Porque foi passando os dias e eu já não gostava mais de ir, já não gostava mais de estar lá, mas foi uma experiência legal. Eu queria fazer o que meu pai queria que eu fizesse. Eu queria fazer enfermagem, porque eu percebi que meio que eu tenho um dom de cuidar das pessoas, é um negócio que eu gosto. Com 19 anos eu fiz meio que um curso de home care, cuidar de pessoas em casa. Eu cuidava de um rapaz que sofreu acidente de moto. Eu fiquei um ano e seis meses cuidando dele, e depois quando a minha tia veio a ficar internada, que ela fez uma cirurgia na cabeça, eu cuidava dela também. Então é um negócio que eu gosto de fazer. Meu primeiro trabalho foi esse. Eu tava em casa um dia e tal, aí meu pai chegou lá e disse: "Ah, tem um menino que sofreu um acidente de moto e a família dele tá procurando alguém pra cuidar". Cheguei lá conversei com o rapaz "Então, eu até pago meio que um curso pra você, pra você se especializar e cuidar bem e tal". Aí eu fiz, comecei a trabalhar. Trabalhava das seis da manhã até às seis da tarde. Aí eu ia das seis e meia da tarde até às oito da noite eu ia nesse curso, nessa espécie de curso. Aprendi passar sonda, curativo, medicação, o que pode, o que não pode. Eu gasto muito com selo. Eu mando muita carta. Eu mando pras pessoas que eu não conheço ou pra minha avó, pro meu primo que também se encontra privado da liberdade, mas eu mando muita carta pra gente que eu nunca vi na vida. Eu mando carta às vezes pras pessoas que estão presas também. Pra se conhecer, pra tipo, dividir experiência, tipo: "Ah, eu faço isso", "Ah, eu também faço isso", tal, "Hoje eu tô triste" "Não, mas não fica assim, tal", então troco muita carta assim. Com várias penitenciárias eu me correspondo, com quase todas. Quando eu não recebo uma carta eu fico muito brava, mas quando eu recebo carta já começa a brincadeira, tipo assim: "Carta pra mim". Ah, a gente fica feliz assim. Sabe, é uma sensação de ser lembrada, porque é meio que um lema: carta é a visita que eu não tenho e às vezes uma palavra é mais do que se a pessoa tivesse presente. Quando eu recebo uma carta, a sensação de eu tenho é de uma visita. Eu fico muito feliz quando eu recebo uma carta, muito feliz. Quando a carta cai, você fica escutando, caiu no chão, já cata a carta "É prá mim". Chega muita carta. É conforme a frequência que eu escrevo. Se eu escrever bastante, vou receber bastante resposta. Agora quando eu escrevo menos, tipo essa semana eu não recebi nenhuma carta, porque eu não escrevi. Eu não tava bem, trabalhei bastante, não tava aguentando, tava cansada. Mas essa semana agora que vai entrar, vai ser a semana da carta, que eu acho que eu escrevi acho que 42 cartas, foi um bolo assim, foi muita carta. Foi bastante carta. Família do interior não tem como vir, mas eu recebo sedex. Uma, duas vezes no mês a minha avó manda o que não vende na casa. Aí ela me manda sedex. Se eu estou precisando de camiseta, aí ela manda. Meia, essas coisas assim. Agora aqui vende, mas antigamente quando não vendia ela mandava meia, camiseta, top, calcinha, essas coisas assim. Aí sempre vem uma cartinha, aí já começo a chorar lá na fila, de alegria. Posso pedir por carta ou ir na assistente social. A assistente social liga pra minha casa e fala: "A T. tá precisando disso, disso, disso. Tem como o senhor mandar?". Meu pai fala: "Ah, vou mandar semana que vem", aí ela me chama: "Teu pai falou que vai mandar semana que vem", assim. Eu mando mais por carta, não gosto muito de pedir pra assistente social.

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