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História

Toda glória do mundo é efêmera

História de: Gilberto Dimenstein
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/06/2020

Sinopse

Gilberto Dimenstein nos conta a história de sua família de origem judaica,  traz as imagens da infância, e desde como foi péssimo aluno até se tornar um destaque em Harvard, conta episódios fortes de quando foi repórter investigativo num Brasil profundo, de como seus livros denúncia se tornaram best seller e como ele pautou a mídia pra buscar o melhor que poderia ser mostrado, de como criou e ajudou ONGs inclusivas como o aprendiz e a orquestra sinfônica de Heliópolis, mas também sua conturbada vida sexual, nessa entrevista no ápice de um câncer Gilberto do topo de sua maturidade vê toda a vida através dos seus olhos e conclui que toda glória do mundo é efêmera, e que olhando a morte de frente,  o que realmente valeu na sua vida, foi quando conseguiu ajudar os outros.

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História completa

Eu me lembro pela primeira vez. Eu não sei quantos anos eu tinha, era muito pequeno, mas eu era muito pequeno. A minha vó falou assim: “Olha, meu neto, pega essa galinha e leva lá no galinheiro”. Eu fui levar a galinha no galinheiro, quando eu cheguei no galinheiro eu falei assim: “Pô, mas isso não é justo!”. Não sei se eu falava exatamente assim, mas foi exatamente o que eu pensei: “Isso não é justo”. Aí eu peguei a galinha, libertei e libertei todo o galinheiro, todo o galinheiro, não sobrou nada. Aí eu falei: “Puts, eu vou tomar uma surra”. Eu libertei todo o galinheiro e as galinhas saíram correndo, correndo, porque lá tudo era quintal. E, para a minha surpresa, o meu avô, meu avô era a figura mais importante para mim, toda a minha vida, mais que meu pai, mais que minha mãe, meu avô era a figura. Ele viu isso como um gesto divino, eu ter a sacada de libertar as galinhas. Então, lógico que eu não apanhei, se meu avô achou uma coisa legal, ninguém ia me bater. Eu carreguei essa imagem por toda minha vida, quando eu pensava sobre mim, onde que estava e tal, eu lembrava da coisa da revolução do galinheiro que eu tinha feito. Eu entendi exatamente naquele momento, mas eu entendia, não é que eu não entendia, que eu estava promovendo a liberdade das pessoas

E na adolescência e foquei em uma cultura meio de rua, porque depois eu virei um moleque de rua, adorava conversar com as prostitutas, eu não transava, adorava conversar com as prostitutas, achavam que elas tinham muito ensinamento, elas me perguntavam se eu era gay? Eu gostava de escutar. Depois eu fui saber que isso virou uma temática minha jornalística, das pessoas marginalizadas.  Eu me lembro que uma vez, eu estava conversando com uma prostituta que ela tinha uma conversa muito legal, elas têm muito ensinamento de vida, quem sofre tem muito ensinamento de vida, quem não sofre, não, pode ler o que quiser...

 Eu descobri em Harvard o que é excelência. O que é excelência. Lá excelência você encontra no banheiro. Eu lembro que um amigo falou uma frase tão engraçada, ele falou assim: “Gilberto, aqui é o lugar que você vai no banheiro e encontra um Prêmio Nobel”. E aconteceu comigo, eu fui no banheiro e encontrei o Desmond Tutu mijando e com o pau muito maior do que o meu. Eu falei: “Porra, que sacanagem”. E era assim, onde você andava encontrava coisas extraordinárias, e pensar que Harvard fez um dossiê sobre mim, teve uma vez que eu estava indo embora e perguntei para um garoto indiano que estava lá, daqueles geniozinhos, eu falei: “O que você aprendeu aqui?”. “Ah, eu aprendi que aqui o céu não é o limite, é apenas o começo”.

 Meu primeiro trabalho de jornalismo foi na Shalom, revista judaica. Depois foi no "O Globo", depois foi Jornal do Brasil, depois foi Folha, aí fiquei na Folha um tempão e foi lá que eu fiz grandes trabalhos. Apesar de no O Globo e JB, a gente ter ganho muitos prêmios, tal, mas onde eu fiz grandes trabalhos foi lá na Folha. E da Folha eu fui para Columbia, da Folha eu fui para Harvard. Na Folha, muitas matérias geraram livros: assassinatos de meninas, exploração sexual de meninas, corrupção, eu era um detetive, quase, com jornalista, como eu sabia escrever...Você sabe que eu aprendi escrever sem erro de português adulto?

E a pessoa dizendo, está errado aqui, aí eu me esforcei para aprender. E meu remédio foi tascar algumas coisas na veia: Clarice Lispector, Machado de Assis e o Rubem Braga, que era um cronista incrível, também tinha outro que morreu agora, o Rubinho Fonseca.

Eu acho que uma das coisas que eu mais fiz foi focar na imprensa, sobretudo a Folha, eu pensava: “Não é possível isso, jornalismo é só desgraça?”. Tá errado, até porque não é desgraça só, tem coisas lindas feitas por pessoas maravilhosas, porque pra mim, São Paulo é um videogame, eu estou brincando lá de melhorar a cidade, aí vem um cara atira, dá uma rasteira no cara, um videogame. E nesse jogo  Eu falei: São Paulo não tem nenhum símbolo, nenhum símbolo, eu tentei transformar São Paulo no símbolo do grafite, porque o muro foi inventado, por quê? Porque quando alguém inventou o muro, em algum momento da história da humanidade, eles inventaram o muro por causa do medo. Quanto mais medo em uma cidade, maior e mais fortes os muros. O que o grafiteiro faz? Ele transforma o muro em um ponto de arte e de união. É muito legal essa concepção, então falei: “Vamos transformar o grafite na marca registrada de São Paulo”, porque não tem nenhuma marca registrada. Eu passei esse tempo todo trabalhando nesse esquema de dar força para essa simbologia, de pintar a cidade inteira, mas para pintar a cidade inteira, tinha que pintar mesmo, tinha Os Gêmeos, com Cobra, tinha que pintar mesmo. A gente viu a suavização da cidade lentamente, né? Com as ruas coloridas. Até que o New York Times classificou São Paulo a capital mundial do grafite.

 

Fui fazer uma imensa reportagem de meninas que passaram por exploração sexual, encontrei várias flores do pântano e eu descobri que as melhores pessoas estão nos piores lugares. Parece uma compensação biológica do glóbulo branco, né? Que tem que produzir anticorpos para o sangue. Mas é muito grave, porque também você tinha uma visão marginal do mundo, aquela conversa, apesar da distância social, me era normal. Eu conseguia entender o que elas sentiam. E incrível que eu consegui falar com elas, porque não é fácil. Eu falava com elas, olhava no olho, elas viam e batiam, viam que era verdade mesmo. As histórias mais incríveis do planeta, as histórias mais incríveis do planeta. Uma menina perguntou: “Vem cá, no céu tem pão?”.

O Einstein tem uma frase muito boa, ele acha que desperdiçou a vida quem a viveu e não compartilhou nada, não criou força para as pessoas. Sabe que é verdade? Se eu fosse pensar, mas o que eu fiz de relevante? Ia estar essas coisas que misturam trabalho com ação social, está lá primeiro, segundo, terceiro. Não está as grandes trepadas, não está as grandes viagens, não está Nova York, não está isso. Toda glória do mundo é efêmera.

Eu agora tô com câncer, estou tendo os últimos melhores dias da minha vida, e posso dizer que tem a eutanásia que todo mundo conhece, que você vai lá e pede para morrer e que é proibido. Mas você tem a Deustanásia, que quando você está morrendo, eles fazem a morte suave, você não sente nada, é assim que tô me sentindo, vim dar essa entrevista e tive uma explosão de sensações no caminho nesse jardim

Eu que tanto escrevi, acredito que a coisa mais importante do ser humano é a narrativa, quando ele perde a narrativa, ele perde a vida dele. A narrativa é seguir valores, seguir prioridades, é seguir o que você acha mais importante, é seguir sua religião ou não. Isso é narrativa, te ajuda a viver. Sem narrativa é um ator, no palco, sem saber o roteiro. Esse foi meu roteiro, minha narrativa, minha vida.

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