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História de: Veveco (Álvaro Mariano Teixeira Hardy)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/11/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Veveco fala sobre as origens de sua família, sua infância, como foi o desenvolvimento de Belo Horizonte através dos anos do aspecto arquitetônico a partir da sua formação como arquiteto e o estabelecimento da capital como um dos grandes lugares culturais do país. Conta sobre a Choplândia como ponto de encontro de artistas no Edifício Maletta, entre outros, e a então criação do Berimbau Club, conhecido pela decoração que remetia aos clubes de jazz, local que posteriormente ficou marcado como um dos grandes pontos de encontro do Clube da Esquina. Comenta também sobre as viagens que fez com o Clube para a Europa, sua paixão pela comida. Não deixa de falar da honra de ter sido uma das homenagens na música “Vevecos, Panelas e Canecas” de Beto Guedes e também de ser o arquiteto encarregado, junto com sua esposa, Marisa, do Museu do Clube da Esquina.

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História completa

P/1 – Então Veveco, eu já queria começar a entrevista pedindo para você nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Bom, Álvaro Mariano Teixeira Hardy, Veveco, é um nome que... Esse apelido não nem é familiar, não é um apelido de família. É um apelido da rua no sentido das amizades etc e tal, não sei porque a origem dele, mas é Veveco há muitos anos já. Então é o que circula por aí. Nasci em Belo Horizonte, no dia 4 de maio de 1942. Portanto, já tenho milhagem suficiente para contar algumas histórias.

 

P/1 – Veveco, você poderia falar o nome dos seus pais e a atividade deles?

 

R – Meus pais, o lado materno, minha mãe se chama Luzia, e é curioso, porque o Luzia vem da cidade onde ela nasceu que é Santa Luzia, que nasceu no dia de Santa Luzia, então não podia ter outro nome, o nome dela é Luzia. O Álvaro meu vem do lado materno, meu avô se chamava Álvaro, então na família somos cinco Álvaros e que se distingue pelo nome composto, pelo outro nome, no meu caso é Mariano. Tem quem se chama Álvaro Augusto, Álvaro José etc. Meu pai já é filho de um Belga. Então, meu avô era arquiteto, veio da Bélgica de Bruges, na condição de músico e arquiteto. Ele trabalhou aqui em Belo Horizonte a partir da década de 20 como arquiteto e como músico também. Meu pai é arquiteto, também seguiu meu avô... Eu segui o meu avô. Minha mulher Marisa é arquiteta, minha filha Mariana é arquiteta e a Joana caçula está formando em arquitetura. Então, houve um certo momento aí, não sei, eu falo que nós fomos contaminados pela arquitetura. Meu avô, então, é de Bruges e minha avó é de Viçosa. E meus pais se conheceram em Araxá. Então o avô vem de Bruges a mãe de Araxá, o resultado é esse aqui agora, um dos resultados, porque somos cinco irmãos, dando essa entrevista aqui, muito prazerosa.

 

P/1 – Cinco irmãos?

 

R – Cinco irmãos, eu sou o mais velho e a escala. Sou eu, uma irmã, um irmão, outro irmão e o caçula, que é...

 

P/1 – Fala o nome deles.

 

R – É a Eliana abaixo de mim, o George é seguinte, a (Bite?). Depois uma distância grande para o caçula que é o Toninho, que é curioso, que além de irmão, ele é meu afilhado de batismo.

 

P/1 – Qual a diferença de idade?

 

R – A diferença são 17 anos, eu acho, da caçula... Tem que fazer essa conta, mas é algo assim que a distância é grande e o Toninho que é engenheiro e meu afilhado. Todos belo-horizontinos.

 

P/1 – Todos belo-horizontinos.

 

R – Meu pai nasceu em Viçosa e veio para Belo Horizonte já garoto pequeno, e jamais voltou ou saiu de Belo Horizonte. Então ele permanece aqui desde a vinda dele que a família. Meu avô casou com a minha avó que era de Viçosa. Está enraizado em Belo Horizonte. É vivo ainda.

 

P/1 – É vivo?

 

R – Sim, está aí em plena atividade intelectual e tudo. Mas o fato é que Santa Luzia foi onde eu passei grande parte da minha infância, porque é próxima de Belo Horizonte. Então, as férias inesquecíveis... Aquela cidade ainda chamava Imperial Santa Luzia, uma cidade colonial, então, tenho gratas recordações.

 

P/1- Você poderia contar como era Santa Luzia na época da sua infância?

 

R – A Santa Luzia, essa de 60 anos atrás, essa distância grande... Mas era uma cidade muito tranquila, amena. Uma cidade que preservava, digamos 90%, possivelmente, da sua característica de uma cidade do século 18. Com as suas igrejas, suas ladeiras, as festas tradicionais, arquitetura colonial, seus casarões, sua Igreja Matriz, que sinalizava essa religiosidade do povo mineiro, as festas religiosas, que impressionava como toda cidade que era barroco-colonial. Então, Minas Gerais era uma situação muito... Esse tempo passado, quase todas as cidades eram preservadas, muito bem preservadas. Hoje, essas cidades tiveram, digamos, uma ocupação desordenada. E também é uma história que é lamentavelmente com grande desrespeito com ao que tinha o patrimônio. Elas guardam um pouco dessa fisionomia, mas é uma fisionomia que está muito marcada, muito sofrida, pela ação, digamos assim, pela ação do tempo, pela falta de cuidados com o patrimônio tão importante.

 

P/1- Veveco, você passou a infância em que bairro?

 

R – Eu nasci... Eu contei essa história uma ocasião numa entrevista também na Rádio Inconfidência, e até o entrevistador que estava lá ele achou curiosa a história, porque eu disse o seguinte... E é verdadeiro. Eu nasci na periferia de Belo Horizonte. Essa periferia, quer dizer o seguinte: há dois quarteirões da Avenida do Contorno, que é exatamente o marco, o limite de Belo Horizonte com Aarão Reis. A cidade pós Aarão Reis começava a se expandir. Então eu morava no Bairro do Carmo, há dois quarteirões acima da Avenida do Contorno. Era um bairro ainda que guardava, digamos assim, umas características ainda do início da expansão da cidade, que lamentavelmente ela cresceu dessa forma tão desordenada, e tão caótica, que desrespeitou obviamente um processo de planejamento como foi até o planejamento de Aarão Reis. Quer dizer, Belo Horizonte foi inaugurada em 1897, uma cidade centenária, mas ela ainda... A partir da década... Lamentavelmente, a partir do início do século 20, portanto, o período da década de 20, década de 30 começaram em nome do progresso essa marca, que tinha uma marca do tempo, que era, digamos, o período da república que estava se consolidando como a República. Achavam também que essa cidade, ela precisava de ter uma marca do modernismo. Não era do modernismo, que ela teve sem dúvida nenhuma, mas era uma marca de modernidade. O que estava feito no passado, no plano anterior, que era ainda do século 19, teria que apagar essa memória para iniciar uma cidade moderna. Então com isso, Belo Horizonte sofreu muito. Não só Belo Horizonte, mas as outras cidades brasileiras dentro desse olhar. O próprio Rio, também São Paulo. É óbvio que essas evoluções, digamos assim, do ponto de vista cultural, do ponto de vista arquitetônico: elas acontecem e veem acontecendo sempre, que é um processo digamos evolucionário de uma cultura, da arquitetura, de outras áreas também do conhecimento, mas Belo Horizonte perdeu... É uma expressão que eu li recentemente e que eu acho muito interessante. Não sei quem é o autor dessa frase, mas falando sobre essas cidades que adoecem antes de envelhecer: Belo Horizonte foi um episódio mais ou menos assim, antes de envelhecer adoeceu e perdeu muito da sua memória. O que é uma pena.

 

P/1 – Então lá no seu bairro, você e seus irmãos, o que é que vocês faziam?

 

R – Naquela época, não só para mim, mas para toda a geração belo-horizontina e ainda guardado talvez ainda até a década de 50, era a cidade dos quintais. Era a cidade onde as casas tinham quintal. Eu fui criado no fundo de um quintal e toda a minha vizinhança. O meu bairro era um bairro de quintais e a área planejada de Belo Horizonte, do ponto de vista paisagístico, tem uma coisa que me marcou muito, que era a questão da arborização da cidade. Eram árvores que tinham perfume e que a rua tinha perfume, porque exalavam dos seus quintais. Então qualquer passeio, qualquer época que o trânsito era calmo, as ruas eram de mão e contramão, existia um poste no meio da rua dividindo as duas pistas. Eram casas muito bem cuidadas na área planejada no plano de Aarão Reis, muito pequena também a cidade, e esse período marcou muito para nós todos essa questão da cidade tranquila, da cidade amena, da cidade sem ruídos, com perfumes e silenciosa.

 

P/1 – Esses perfumes, que tipo de árvore que eram?

 

R – Por exemplo, a magnólia era uma árvore que era plantada. Ainda existem, magnólias, digamos, centenárias, que ainda exalam o seu perfume, mas que hoje lamentavelmente se mistura com certos odores que perdem essa ideia de você perseguir um perfume. Eu digo que a minha geração, guardava a doce inocência de todos nós das crianças, ou dos garotos, meninos que ainda saíam pela noite. Nós tínhamos um certo medo, um certo receio de voltar tarde para a casa com medo de encontrar uma mula-sem-cabeça, uma coisa assim, um fantasma qualquer. Jamais imaginávamos ou jamais tinha ameaça de segurança no sentido de assalto, essa coisa toda. A cidade perdeu isso hoje por uma série de razões: da história da evolução, ou involução das cidades, ou da cidade especificamente de Belo Horizonte. Foi uma perda lamentável, porque recuperar isso e reconstituir isso é impossível, está perdido, fica na memória, fica numa entrevista como essa aqui de vez em quando... Vem um exercício assim um pouco memorial da cidade que a gente lembra, os pontos. Depois Belo Horizonte teve uma corrida, também já dentro desse olhar, digamos, da modernidade e também com estímulo fantástico que aconteceu na revolução da arquitetura moderna brasileira, através do Oscar Niemeyer, pelas suas obras na Pampulha. Belo Horizonte adquiriu uma consciência, e são, digamos, os ícones que hoje tem de arquitetura mineira. E a belo-horizontina na década de 40, pós Pampulha, porque a Pampulha é da década de 40. Inauguração de Pampulha foi 40. 43 as última obras. Mas daí para frente, esse sopro, digamos assim, da modernidade do ponto de vista arquitetônico, influenciado pelo Oscar, foi uma cidade que tem exemplares que são marcantes, que são verdadeiramente, digamos, singulares porque estão dentro dessa cultura belo-horizontina da formação dos arquitetos da época, da qual sem cerimônia incluo o meu pai. A geração do meu pai que foram vários, Silva Vasconcelos, principalmente, o Eduardo (Marães?) _____... Quer dizer, vários arquitetos da época formavam um grupo de vanguarda, digamos. A Belo Horizonte que tem essa marca da arquitetura modernista, pós Niemeyer, é muito interessante. Vários exemplares ainda estão preservados de edifícios, principalmente, porque as casas, poucas restam, que transformaram em prédios. Então, esse caos é de todas as cidades, não é só Belo Horizonte. Onde naquele bairro sereno e tranquilo era uma residência cuja a família nunca ultrapassava cinco ou seis filhos, que só tinha um carro na garagem. Um único carro. Não precisava de outros porque as distâncias eram curtas e o transporte funcionava bem. Os colégios eram perto, todo mundo se conhecia. Esse momento, destas cidades, que ficam dentro desse universo ainda urbano e restrito é que marcam as gerações. A evolução do Rio de Janeiro também foi muito rápida e muito violenta, São Paulo a mesma coisa. Mas nós estamos falando de Belo Horizonte. Essa situação que a cidade cresceu: essas casas viraram edifício e as ruas continuaram as mesmas, ou seja, aquela rua que tinha um quarteirão que tinha, digamos, 30 casas: moravam 30 famílias, tinha no máximo 30 carros. Essa cidade de hoje, esse mesmo quarteirão, moram 800 famílias. E hoje o apelo, digamos comercial e imobiliário, os prédios hoje, anunciam como padrão de bem morar  uma garagem de três, quatro carros, quer dizer multiplicado por 800 famílias. Então o quarteirão que tem 60 carros... Eu não sei essa conta é absurda.

 

P/ 1- Dois mil e quatrocentos carros.

 

R – É por aí.

 

P/1 – E você poderia descrever a casa da sua infância?

 

R – A casa da minha infância era uma casa muito modesta. Meu pai embora arquiteto, tinha uma profissão e etc, mas também, Belo Horizonte nunca foi uma cidade naquele período de grandes fortunas, de grandes riquezas. Uma cidade basicamente de funcionários públicos, foi criada para ser uma cidade administrativa e a economia da cidade era muito pequena. As famílias eram modestas, então as fortunas eram raras. Nossa casa fazia parte desse universo de classe média. Era uma casa pequena, tanto é que eram três quartos. A divisão era um modelo, uma tipologia de casa que tinha: sala de visita, sala de jantar, uma cozinha, uma copa, dependência de empregada e três quartos, garagem para um carro, só isso. Mas eram dois lotes, então a gente foi criado no quintal, eu e meus irmãos, com frutas, mangas, ameixa, amora, limão, laranja, banana e horta. O abastecimento vinha do fundo das casas. Galinha ao vivo e a cores. (risos) As galinhas hoje são congeladas, então ninguém conhece mais a galinha como ela era, com duas pernas. (risos) Não tem mais isso. O leiteiro levava o leite a porta... Quer dizer, isso está parecendo que é uma coisa de 200 anos atrás, mas é recente. Tem 50 anos isso. Esse modo urbano de viver e de conviver, os vizinhos com liberdade e com intimidade E aí, era muito curioso que a rua que eu morava era onde a gente se encontrava... Como a cidade do interior hoje ainda preserva a questão do passeio. É no passeio que a cidade depois do expediente, ela encontra os seus vizinhos na calçada e as crianças na rua iam jogar bola. Não tinha perigo de trânsito, de uma perturbação, daquele momento que você estava ali se divertindo, ou jogando bolinha de gude ou bete-alta, que o Fernando já até contou, esse músico. E o futebol, era muito bom, pena que essa turma de hoje, quer dizer, a geração de hoje, criada nesse ambiente de prédios... São magníficos confortáveis etc e tal, mas a rua era área de sociabilidade. E o que é interessante também, é que a área de sociabilidade. Aí eu vou dizer já do ponto de vista da boemia, da cidade, daquela geração do meu pai e dos seus amigos: era uma cidade também muito interessante como todas as outras foram. Existiam poucos pontos de referência, assim, de encontro, dessa sociabilidade, no sentido do espaço aberto a todos. Ou era os clubes, que eram poucos, e os bares também, que eram muitos. Mas aqueles bares especiais onde todos se encontravam, isso que eu acho que é uma marca interessante nesse tipo de cidade... Que fosse formando dentro dessa atmosfera de sociabilidade. Era naquele bar, naquele único bar. Aí, já tem a geração do Pedro Nava, do Carlos Drummond de Andrade, o famoso Bar do Ponto, onde se encontrava ali todos, os estudantes universitários, os arquitetos, os engenheiros, os pintores. Então não havia uma dispersão de pensamento, eles ficam ali naquele bar, todos, e poucos eram assim. Algumas chamadas petisqueiras que eram de alguns portugueses que vieram para cá e se instalaram. Tinha uns famosos, que era a geração do meu pai, tipo, pub inglês. As mulheres não iam, só iam a rapaziada da época, mas também só com essa característica: jornalistas, poeta, pintor. Então, saía dali, digamos assim, uma atitude intelectual, mas era digamos assim, um ponto geográfico. Hoje a cidade, quer dizer, esse ponto geográfico se espalhou e acabou formando certos pontos assim temáticos. Tem uns que só vão os músicos, outros os escritores, outros os advogados. Então isso dispersou. Eu acho que perdeu um pouco dessa universalidade, que é boa para se formar, em pensamento, não sei, acho que um processo evolutivo.

 

P/1 – É verdade, segmentou demais.

 

R – Segmentou. 

 

(pausa)

 

P/2 – Você estava falando agora sobre a vida social da geração do seu pai. Que é que era que vocês, jovens, faziam naquela época? Onde vocês se encontravam? Era nesses lugares também ou tinha outro tipo?

 

R – Bom, essa aí... Eu acho que fui um pouco precoce, porque meu pai me levava. Desse ambiente que eu estou dizendo, que foi a geração do meu pai. Eu sou a seguinte...

 

(pausa)

 

R – O que eu acho interessante, quer dizer, numa cidade feito Belo Horizonte. Ocorreram em outras. É o meu caso... Talvez seja a maioria dos belo-horizontinos da minha geração. Os meus pais eram de outras cidades, a maioria dos pais dos meus amigos da mesma idade que são belo-horizontinos, ou seja, que nasceram aqui, não são de Belo Horizonte porque eles vieram depois. As famílias tradicionais ficaram, claro, porque vieram para formar uma cidade. Outras pessoas que vieram ajudar a construir a cidade fizeram, inclusive, a sua história. Eram as famílias de ascendência de família estrangeira, principalmente, espanhóis e italianos que vieram para ajudar a construção da cidade. Era uma mão de obra especializada. Figuras que tinham um talento como pintores, serralheiros, cantaria, ou seja, trabalhando a pedra para poder revestir os edifícios e tal. Fazer as calçadas. Então era uma mão de obra muito especializada. Bom, mas dando esse salto da Belo Horizonte que virou uma segunda geração, talvez dentro da sua lógica de cidade, porque vieram da condição da cidade oferecer um ensino. Aí veio a geração da Escola de Medicina, a Escola de Advocacia. Vieram todas essas figuras que aqui estudaram e formaram, que inclusive são memorialista, que escreveram. Já falei do Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, principalmente a sequência, a geração mais marcante na sequência do ponto de vista da intelectualidade foram chamados os quatro cavaleiros, que saíram de Belo Horizonte. Os quatro amigos que saíram de Belo Horizonte já com a cultura formada e querendo buscar outro mundo para expansão do pensamento e do talento: foi o Paulo Mendes Campos, o Fernando Sabino, o Hélio Pelegrino e Otto Lara Resende. Eu percebo uma coisa nessa Belo Horizonte dessa época, que era também a geração dos meus pais, alguns ficaram e os outros foram. Esses que foram, que eram os representantes daquela geração belo-horizontina, foi muito importante. Ou da cultura belo-horizontina daquela época, porque outros já tinham ido, o Carlos Drummond de Andrade já tinha ido para o Ministério da Cultura e Educação, com o Gustavo Capanema, o Rodrigo Melo Franco já tinha ido também, uma figura fundamental quando a gente fala na memória brasileira, principalmente, do barroco de Ouro Preto. Aí tinha também um sopro muito interessante da modernidade da época de Juscelino Kubitschek, que é uma figura que foi um dos maiores, digamos assim, políticos brasileiros que governou cidades, o estado e o país com uma visão prospectiva. Então esse tipo de ação que acompanha ação política também era estimulante, porque dentro desse clima, é que forma aquela geração que vai fazer a sua manifestação cultural, intelectual e profissional em cada área do saber. São estimulados a fazer aquilo. Eu estou quase chegando lá no Clube da Esquina, porque o salto nesse tempo de uma cidade centenária... Os saltos foram muito curtos, digamos assim, foram de longos alcances na distância do tempo. A partir da década de 50, já entrando no período juscelinista, é que a geração... Começaram a nascer os filhos de Belo Horizonte, cujo os pais eram de fora, que vieram para cá por sua vez com o seus pais buscando oportunidade de trabalho de estudo. Na sequência, é que então começou a consolidar a cultura local. Essa geração seguinte, que aí eu me incluo, já tinha a busca de novos espaços. E até a adolescência, o que Belo Horizonte oferecia do ponto de vista intelectual não era grandes coisas. Mas também, ela começou a criar a sua própria cultura. Os jornais mineiros eram muito respeitados. Os jornalistas vinham para cá de certa forma nos dois jornais mais importantes naquela época trabalhar em Belo Horizonte. Vieram para cá vários que começaram a iniciar a sua carreira profissional aqui, depois alguns escritores, que também foram tecendo a sua história e a sua profissão, até chegar na música, fundamentalmente na música, porque o que tinha de música naquela época até então eram poucos compositores voltados para um tipo de trabalho mais ligado um pouco no samba,principalmente no carnaval, que era a grande marca também da minha geração. E mesmo a anterior, de manifestação popular em Belo Horizonte era o carnaval. Não tinha outra festa que marcava tanto feito o carnaval, que eram características também de animação e alegria diferente. Não diferente de outras cidades, como outras cidades. Diferente talvez na sua forma, eu diria mais provinciana, mais, digamos, mineira em termos de envolvimento com a música. Era uma característica aqui de Belo Horizonte: os blocos de carnaval, os blocos e não escola de samba. Não houve aqui, agora, recente, que apareça alguma escola de samba, mas a minha geração foi marcada por isso, onde começaram então a desenvolver essa forma de conviver. Começaram então a surgir os primeiros bares que acabaram levando a minha geração e já crescendo, e com idade para frequentar os bares, começaram a surgir novas coisas. Aí teve um momento, que foi um momento importante, quer dizer, onde nasce, consolida ou pelo menos, onde aponta uma direção para a música mineira genuína feita aqui, sem influência, que pudessem descaracterizar ou que pudesse de certa forma mesclar isso, que não marcasse ela como movimento autêntico. E foi o nascimento do Clube da Esquina. Mas é engraçado, porque essas oportunidades dentro de um espaço urbano, onde aparecem vocações ou direções urbanas levam a algum movimento, seja ele cultural no sentido da música, da dança ou do cinema.
Às vezes, tem um ponto geográfico que provoca reunião de determinados grupos que ali vão encontrar para inventar as suas coisas, que é o caso do Maletta, que foi o momento que... Belo Horizonte nunca tinha um empreendimento chamado... Um centro comercial, porque não era nem shopping. O shopping hoje tem outra característica e tem outra concepção, mas era um centro comercial e que já existia, digamos, nas cidades mais modernas, mais avançadas, que era São Paulo e Rio. Então Belo Horizonte se fez o primeiro, e nesse primeiro, ele tinha além das lojas e dos espaço interno, aconteceu a primeira escada rolante de Belo Horizonte. Isso é uma coisa engraçada: como uma escada rolante virou uma atração.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Então virou uma atração, a escada rolante. As pessoas iam levando seus filhos para descer e subir a escada rolante. Esse Maletta, que foi muito importante... Eu tive a oportunidade de estar presente desde o primeiro momento que ele foi inventado, que foi inaugurado. É curioso isso, porque antes dele, antes do Maletta existir, o que estava anterior era o Grande Hotel. O Grande Hotel era o hotel mais importante, mais chique de Belo Horizonte, onde as personalidades que vinham visitar ali se hospedavam.

 

P/2 – Veveco, só para a gente se situar, a gente está falando de que ano mais ou menos?

 

R – Isso aí já é década de 60, início de 60, porque o Maletta hoje... Salvo engano. Ele já está na faixa de 40 anos, 40 e pouco anos. Mas nesse momento, na transição da década de 50 para 60, é que a iniciativa privada demoliu esse hotel que chamava Grande Hotel, que o proprietário o sobrenome era Maletta. Eu esqueci o primeiro nome dele, mas era o ponto de convergência de todas as figuras importantes que vinham lidar no governo do estado ou que vinham conhecer Belo Horizonte. Então tem história de hóspedes ilustres, dentre tantos, por exemplo, Orson Welles teria vindo aqui, e teria ficado, porque era o hotel único que era capaz de receber, digamos, com muita qualidade os hóspedes importantes que vinham. Era nessa esquina. Teria vindo para cá também logo no início, os modernistas lá de São Paulo: o Mário de Andrade e que provocou uma relação com os intelectuais da época, tem livros que já tratam disso, as trocas de correspondências. Nesse período veio também um grande arquiteto, um jovem arquiteto que se chamava Oscar Niemeyer que ficou hospedado nesse hotel várias vezes, no período de execução da obra da Pampulha. Esse hotel era uma arquitetura chamada eclética, era um prédio de três, quatro pavimentos, mas o fato que ali ocorreram dentro daquele hotel grandes transformações na cultura mineira, na cultura belo-horizontina... Eu escutei, tive o privilégio de escutar uma história do Juscelino Kubitschek, depois confirmado pelo próprio Oscar Niemeyer quando ele fez o projeto da Pampulha. O Juscelino gostou de todos os projetos, ou seja, da casa do baile, do iate e da igreja, mas o projeto do cassino, o Juscelino fez algumas observações, alguma crítica ao projeto ao Oscar Niemeyer. Quando ele apresentou, falou: “Oscar está tudo ótimo, mas o cassino eu não sei, acho que poderia...” Ele falou: “Não, deixa comigo.” Foi para o hotel no dia seguinte, o Oscar apresentou ao Juscelino o que se tornou o projeto definitivo, quer dizer, em uma noite lá nesse hotel que era do Maletta. Ele fez o projeto do cassino que, esse ícone maravilhoso da arquitetura contemporânea. Bom, então o momento, digamos assim, da visão empresarial, de que o hotel estava obsoleto, nesse sentido de um prédio antigo exigindo reformas. Então ele foi vendido e aí foi lançado esse centro comercial, que tinha a tal escada rolante etc e tal. Era um certo número de lojas, fazendo em Belo Horizonte a sua primeira galeria, e que os mineiros que tinham oportunidade de ir a Rio e São Paulo se encantavam. Aquilo era um sinal que Belo Horizonte estava se modernizando, porque já tinha até escada rolante. Essa era uma ideia muito engraçada. Bom, nessa época, eu estudava, não, não estudava... Eu tinha a intenção de estudar para seguir o curso ginasial, científico, mas também eu precisava de ganhar algum dinheirinho, um dinheiro qualquer servia. E eu tinha um tio, um querido tio que chamava Gerson Sabino, irmão do Fernando Sabino, que começava então a Editora do Autor, naquela época que era do Fernando Sabino e do Otto Lara Resende, e tinha um outro sócio que eu esqueci o nome dele agora, que lançaram um quarteto de livros, que era um livro do Carlos Dummont de Andrade, um do Rubem Braga, um do Vinícius de Moraes e um do Paulo Mendes Campos. Esses quatro, que foram as primeiras publicações da Editora do Autor, foram lançados no Brasil inteiro e os autores no lançamento viam naquelas cidades, como vieram a Belo Horizonte, já que Fernando também era belo-horizontino. Então, nesse lançamento, que foi um sucesso no Brasil inteiro, eles precisavam de prosseguir as vendas e etc. Então esses livros vinham numa caixa, os quatro exemplares, um projeto gráfico maravilhoso, revolucionário, inclusive, e meu tio me arrumou um bico de vender essas coleções, tipo: tocando campainha, Avon chama. Eu saía com os quatro livros tocando campainha por aí. Também não era um vendedor, não tinha vocação para isso e nem nunca tive para vendas, mas, enfim, ali eu arrumava uns trocados e vendia alguns livros. Aí eu convidei um amigo, um colega da minha geração, da minha turma... Eu morava no centro da cidade nessa época, meus pais tinham vendido a casa lá no bairro do Carmo, porque então naquele momento, digamos assim, o que atraía mais era morar no centro da cidade. A cidade começou a verticalizar nesse momento, fazendo os prédios e apartamentos, porque lugar bom de se morar era no centro. Então houve essa corrida para o centro. E onde eu morava no Centro, estava a dois quarteirões desse Maletta. Quando o Maletta inaugurou eu era um vendedor de porta a porta, eu e este meu sócio. Esse sim tinha vocação para o comércio, ele falou quem sabe nós nos instalamos fazemos uma livraria lá no Maletta. Eu falei ótimo. Abrimos a livraria lá no Maletta, que naquela época, hoje eu não sei como é que é, não exigia muita coisa, porque a editoras deixavam o livro em consignação, então nós fizemos a livraria que era modesta, um pouco maior que este estúdio, mas que foi a segunda ou a terceira loja a ser ocupada lá no Maletta. Estrategicamente, ela era a primeira loja logo na entrada do Maletta. Já a primeira loja à direita, ainda hoje é uma livraria. Chama, me parece: O Livro Técnico. E também, por sorte da livraria e do bar em frente, abriu então uma choperia que era de dois casais, dois irmãos italianos. Um deles casado com uma brasileira, que abriram um bar que se chamava Choplândia, que era um botequim que passou a ser reunião da colônia italiana. Mas também como a livraria... Eu tinha um bom relacionamento, começou a atrair um público, principalmente, na minha geração e de outras, para ir ali adquirir um livro. Era um ponto de encontro, aí aproveitava e tomava um chope ali em frente, que era Choplândia, e com isso foi consolidando e as outras lojas sendo ocupadas, o centro comercial teve um momento assim de grande esplendor cultural e de comércio ali, todos bem sucedidos etc e tal. Então era muito convidativo, era animado o Maletta, e essa animação levou um amigo nosso que era da minha turma, inclusive, no prédio que eu morava no Centro, o apelido dele era Antônio Bolão, mas não era tão bolão assim, era um pouco encorpado, mas não era imaginar um corpanzil. Isso tudo eu estou dizendo, a gente aí com 19 anos, 20 anos por aí. A Choplândia começou a se consolidar como ponto de encontro de cineastas, escritores, etc. Daí surgiu também um pouco acima do Maletta uma pequena sala de cinema que também, no próprio Maletta, já tinha o Centro de Estudo Cinematográficos, que eram os Cinéfilos e os estudiosos. Até hoje, vários prosseguiram a carreira dentro do cinema. São diretores de cinema. Alii surgiu, digamos assim, um momento que tinha o cinema, o teatro, as artes plásticas, e a música que era no andar de cima, no tal, digamos, Clube de Músicas, de música de bom gosto, de música nova e  de jazz e Bossa Nova, que a Bossa Nova era o movimento mais recente e de maior entusiasmo da renovação da música brasileira no sentido de novidade. E aí, foi então no Berimbau, que surgiu então vários que por aqui passaram e já contaram e vocês já sabem, que foi o início de tudo do ponto de vista da execução da música amplificada e com a presença de um público, que até então o Clube da Esquina, lá do Edifício Levy, que era um encontro permanente, mas que começou então a ganhar essa dimensão que era de sair fora da esquina virtual.

 

P/1 – Só uma observação. Ninguém ainda tocou nesse assunto de Berimbau, então você pode...

 

R – É mesmo? Mas isso não é esquecimento não, porque deve ter faltado oportunidade de falar. Então, o Berimbau... 

E aí, então, nesse momento que foi década de 60, início da década 60 e 65, 66, e 68 por aí. O Berimbau teve uma importância muito grande na formação e na confirmação da qualidade do Clube da Esquina, porque para ali iam os músicos que já tocavam nos bailes. O que Belo Horizonte tinha de atração, já na minha geração eram os bailes nos clubes, até clubes de certa forma, digamos, não populares, mas da classe média de Belo Horizonte. Era o Automóvel Clube, a Sociedade Mineira de Engenheiros, e etc e tal, que já tocava os conjuntos que eram de músicos excepcionais e que não eram compositores. Executavam música com um talento fora do comum. Arranjos especialíssimos que aí começaram, então, a surgir uma nova geração de músicos que estavam tocando nesses bailes da vida e que no clube mesmo, nesse lá, Berimbau, é que depois do baile é que iam para lá dar as canjas. Então, tocar as suas músicas, porque nos clubes já existiam um repertório que era “clássico” que eram os sambas, os boleros, a música americana e não tinha, digamos assim, a Bossa Nova que já tocava com muita freqüência e aqui também, vale dizer, que teve um músico fundamental para este estímulo também da música que foi o Pacífico Mascarenhas, que também um dos freqüentadores lá do tal Berimbau. Mas o Berimbau tinha uma coisa muito curiosa e a gente assistia na passagem para a gente chegar ao Berimbau, porque no Maletta para chegar no Berimbau nós tínhamos que subir naquela majestosa escada rolante. Ufa! Chegava lá em cima, aí andava entre as lojas que existiam no segundo piso.  Mas para acessar o Berimbau, tinha uma solução arquitetônica que é a marquise do prédio que se debruçava sobre o passeio da Rua da Bahia. Era por essa marquise, que era uma varanda, digamos assim, que dava acesso as lojas voltadas para a rua no segundo piso, lá em cima no segundo andar, e eu me lembro com uma certa tristeza por eles, porque nós mais velhos entrávamos no Berimbau, tínhamos a nossa mesa, ali de frente para o palco, onde viam os artigos e os outros amigos davam aquela canja. E a gente ficava... Passava ali a noite ficava conversando e tal, mas do lado de fora não podia entrar certos jovens talentosos músicos, porque eles não tinham idade ainda para entrar no Berimbau. A idade mínima exigida era 21 anos.

 

P/1 – E quem ficava de fora?

 

R – Ficavam de fora uns camaradas conhecidos para caramba, um chamava Toninho Horta, o outro Beto Guedes e o outro Lô Borges. Então eles ficavam do lado de fora. Nós entrávamos, os mais velhos, e eles escutavam a música, mas a hora que alguém entrava ou saía do Berimbau, porque a porta era acústica, eu imagino a curiosidade deles querendo escutar o que estava lá dentro. Mas não tinha condições, porque a porta não permitia a passagem do som. Então até que quando eles atingiram a idade permitida, passaram aí a frequentar também o Berimbau. Mas eles passaram um período muito duro, digamos assim, eles não podiam frequentar o Berimbau, não tinham idade para isso. Essa época, então, eu acho que foi um momento muito importante. O Berimbau dentro da formação, e digamos, dentro da troca de linguagens, da troca de talentos, da consolidação das parcerias. Aí então do Berimbau saiu para o mundo. Eu acho que esse momento foi um momento legal.

 

P/1 – Veveco, um dos sonhos do Marcinho é fazer do Museu uma réplica do Berimbau. Você poderia descrever como era o interior do bar?

 

R – O interior do bar, o Antônio Bolão, o Antônio Moraes sobrenome dele, também era um jovem que não tinha recurso para sofisticar o ambiente, sofisticado no ponto de vista de bom acabamentos, digamos assim, de uma decoração que fosse cara. Então era um ambiente que era à meia luz. Já era também um truque para disfarçar, porque aí você não precisa de muita decoração. As mesas eram muito simples, não tinha sofisticação. O truque que tinha de sofisticação eram retratos ampliados de músicos conhecidos na época, principalmente a turma de jazz, que era, digamos, a base da formação musical, dessa turma que surgia Miles Davis _____ tinha lá o seu pôster. Alguns músicos brasileiros também tinham, conhecidos na época. Não cabia, por exemplo, um Tom Jobim e um João Gilberto, porque eles também estavam num início de uma carreira. Quer dizer, numa coisa paralela, mas eram respeitados e tudo. Não eram notáveis feito um Pixinguinha, feito um Noel Rosa, que possivelmente devia ter lá uma imagem disso, quer dizer, era um ponto de encontro de músicos de uma casa rigorosamente feita só para a boa música. O que o Antônio Moraes, Antônio Bolão... Não consigo chamar de Antônio Moraes... Era o cara que, por exemplo, tinha uma coleção... Ele era da minha turma, assim, de adolescente que era do mesmo prédio lá na cidade que era na Rua Espírito Santo com Goitacazes, Edifício Santa Mônica, e a gente era de encontro diário. Então quando íamos para a casa do Antônio Bolão escutar uns discos que ele tinha, e ele estava por dentro de todas as novidades e ele sabia tudo, tudo sobre música, ele tinha uma coleção, sei lá... Era absurda a coleção de discos que ele tinha, mas só de música vanguarda, música que realmente... Fazendo a formação cultural daquela, tanto ele como outros também. Então o Berimbau, ele tinha essa característica de qualidade. L dentro, você escutava música de qualidade e em resposta ao que se escutava: o estímulo era então essa nova geração [querendo] também mostrar sua música ali. Era então sempre um encontro muito prazeroso, e aí, começou essa história que depois saiu pelo mundo.                 

 

P/1 – Quer dizer, essa turma também era cliente lá da livraria ou você conhecia mais lá do Berimbau?

 

R – Não. Muitos eram clientes lá da livraria, mas a livraria, que era uma livraria pequena, e ela era mais ou menos setorizada também, poucas publicações. Naquela época tinham correlação com a música, mas havia um interesse sim com relação [ao] que se fazia, de literatura que surgia. Foi um período que era a única, inclusive, livraria no Maletta. Então, se tornou uma referência. Várias encomendas. Os escritores que frequentavam a livraria, eles faziam o ponto deles, num bar mais acima, que chamava Lua Nova, e que eram figuras mais velhas para aquela época, comparando com os jovens, mas hoje eu sou mais velho do que eles naquela época.

 

P/1 – Só por curiosidade, quais eram os nomes deles?

 

R – Tinha, por exemplo, o Murilo Rubião, era um frequentador assíduo daquela mesa do Lua Nova. Era uma mesa que sentava, por exemplo, Murilo Rubião, assentava a essa mesa também o Vander Pirole, Ângelo Prazeres, Roberto Drummond; Era o pessoal que estava iniciando carreira e outros que eram a referência também, digamos da escrita ou da literatura que se fazia. Jornalista sentava nessa mesa e vários artistas, e tinha um também, que trabalhava em jornal, que sentava nessa mesa que, era o famoso Carlos Estevão, que não era nem belo-horizontino, mas que teve uma época que ele veio morar em Belo Horizonte, tinha um sítio aqui em Santa Luzia. Então era um camarada que também, então, era assíduo lá, e abaixo, que era então abaixo desse Lua Nova, o que ficou conhecido como Cantina da Lucas, que o Lucas foi o terceiro proprietário, mas foi o que emprestou o nome. E o nome ficou definitivo como a Cantina do Lucas, porque primeiro foram aqueles os italianos. Eles venderam para um outro italiano, que veio da Itália para Belo Horizonte, chamado Saatori. Faleceu até recentemente, há um mês atrás... Mas o Saatori então, adquiriu dos (Gerris?), e aí eu acho que o nome não mudou. Mas depois, o metre dele era o velho Lucas, que era o metre do Minas antigo, o Minas Tênis Clube, e ele foi para lá como metre. Num certo momento, o Saatori vendeu para o Lucas e que os filhos do Lucas assumiram a direção. E aí, conhecido como... Que era um ponto mais freqüentado, digamos, os seus fregueses, a maioria eram de cineastas e músicos também, mas principalmente o Tavinho e o Fernando frequentavam mais, os outros iam direto para o Berimbau. O Tavinho e o Fernando passavam lá pela escrita também: o Fernando [era] poeta, tinham poetas, e o Tavinho, foi nesse momento, que consolidou  como um cara fantástico para trilha sonora, porque ele era amigo dos cineastas. Eu estou recordando essa cena aqui, mas agora que eu estou vendo de onde vem as trilhas do Tavinho, foi lá do Bareta, já com ____ Magalhães, o Carlos Alberto Prates Correia, Miltão que também era amigo e tanto é que esse grupo de cineasta. Eu era então... Aí vendi a livraria, porque voltei a estudar, mas continuei frequentando. Minha fidelidade ao Maletta. Mas nesse momento que eu fui estudar e as amizades que eu tinha feito lá no Lucas... Eu continuei frequentando. Tanto o Lucas... Chegava determinada hora alguém lá que estava interessado, ia escutar música. Eu ia lá para o Berimbau, mas o interessante na condição de estudante ainda, sem formar e etc... Eu recebi a encomenda, já que tinha o clube de cinema, [de] fazer um pequeno cinema, lá num prédio vizinho ao Maletta, que foi encomendado a mim por dois cinéfilos. Então esse cinema durou pouco tempo, lamentavelmente, porque naquela época... E outro dia me relembraram esse episódio, que era muito difícil: o Valdimir Luz e o outro sócio dele, que eu vou lembrar daqui a pouco... Otto. Eles arrumaram as cadeiras de um cinema antigo que já estava desativado. Na verdade, o projeto era muito simples: era uma bilheteria, pagar a luz, também era aquela coisa, não tinha recurso, paga a luz e está tudo bom. Ali tinham uns 60 lugares, mas eram filmes, digamos assim, escolhidos, filmes cult de assistir.  Então, reuniam os cinéfilos... Saíam do Maletta e “vamos agora assistir um filme”. Era muito interessante, mas a dificuldade maior foi concorrer com a cadeia de cinema que existia, quer dizer, você acabou... Que não tinha. Era restrito você ter ali permanentemente filmes bons. Era difícil também as companhias que representavam chegar a Belo Horizonte. Então, por dificuldade fechou, mas o fato é que a Cantina do Lucas era marcada pelos cinéfilos e cineastas. Eu, por exemplo, pela minha proximidade frente a frente ___ com o bar e com a livraria, eu pouco trabalhava, porque a frequência lá... Tinha gente que ia almoçar, que ia à tarde e gente que ia à noite. Então eu estava lá sempre disponível. Veveco vem para cá, eu ia para lá. Eles levavam muito chope para a livraria [e] a gente ficava lá trabalhando. Mas o fato é que com isso, eu acho que depois do... Como é que ele chamava? Um artista brasileiro, que fez mais filme no Brasil, que filmou mais.

 

P/1 – Ator?

 

R – Ator.

 

P/1 – O Guará?

 

R- Não, o Guará também trabalha muito, era o Wilson...

 

P/1 – Wilson Grey. O Guará era capanga do Wilson Grey.

 

R – Wilson Grey. Eu acho que depois do Wilson Grey foi eu. Só tem que dar seguinte forma... Eu fui o que mais trabalhei sem jamais ter feito um filme, porque os cineastas meus amigos falavam “eu estou pensando em fazer um filme e você vai trabalhar”, eu falei ótimo. Mas aqueles filmes que às vezes não aconteciam, também não ia trabalhar jamais. Não sou ator, mas sempre tinha uma relação, porque é ação entre amigos, não é isso? Não tem recurso, quer dizer, não tem ator, não tem coisa, então os amigos se prestam às vezes de atores e muitos começaram assim, porque tinham talento.

 

P/1 – Aqui tem muito essa característica dos projetos, essa cooperativa de amigos.

 

R – Claro, eu acho que isso é bacana essa identidade. Então Tavinho, essa questão da trilha do Tavinho... E ele vai dizer... Naturalmente, ele reconhece isso... Começou lá no Maletta também, o Clube da Esquina, quer dizer, o Tavinho músico foi no Berimbau, e o Tavinho trilheiro, vamos dizer assim, especialista em trilha sonora também foi no Maletta, porém, lá no Bar do Lucas.

 

P/2 – Do pessoal do Clube da Esquina, você conheceu a turma toda ali no Berimbau?

 

R – No Berimbau. 

 

P/2 – Você chegou a frequentar o Edifício Levy, ou conhecer?

 

R – Não, curiosamente, o Edifício Levy eu não fui nem uma vez. Embora tivesse amigos, que não eram ligados ao Clube da Esquina, mas que moravam... Essa que é uma coisa interessante, porque da minha geração, tinha a turma do Bairro Santo Antônio, que as famílias moravam no Santo Antônio, a turma do Bairro da Serra, a turma de não sei o que e tinha a turma do Centro. A turma do Centro era formada por vários grupos de jovens, etc e tal, que moravam em diversos edifícios do Centro, que foi essa corrida de morar no centro da cidade, [do] boom imobiliário que teve na década de 60, final de 50 e 60, para morar no Centro. Então, ali a gente se encontrava trombava, porque a turma do Centro, próxima... Que o Maletta que era o centro. Então de convergência, o Maletta reunia quem estava ali pelo Centro. Eu encontrava com o Marcinho, encontrava com o Tomas, principalmente lá no Berimbau ou então algumas festas.

 

P/1 – Então, quer dizer, Marco __ do Clube da Esquina, a gente tem, por exemplo, Milton tirando o segundo lugar com “Travessia”. Você acompanhou?

 

R – Eu acompanhei, claro, porque então a gente já era amigo. O Milton, Fernando, essa turma toda, nós já tínhamos nossos encontros. Eu não diria cotidiano, mas era sempre um encontro frequente e o Milton além de crooner, esse salto que ele deu depois do “Crooner”, era um camarada também muito generoso e muito disponível, quer dizer, o que o Milton fez de serenata em Belo Horizonte... Eu pelo menos fui em vários. O Pacífico era uma figura muito curiosa nesse aspecto, porque o Pacífico... Eu não sei se ele contou essa história aqui. Tinha um caminhão... Não contou, não? Onde ele colocava em cima desse caminhão, lá da indústria de tecido, que era da família dele, etc e tal. Era da loja que ele tinha de tecido. Ele tinha um caminhão, que ele punha lá em cima um piano, um piano armário, bateria e o baixo, que naquela época era o baixo acústico, que era o Paulinho Horta, que era o baixista. E então saíamos nós pela madrugada como seresteiros e o Milton, que era crooner, era o cara que abria as serenatas, e outros também que cantavam, tinha (Daise Guachini?), que era a voz feminina que estava sempre presente, tinha o Nivaldo (Dornelas?). Então era uma banda completa que saía em cima de um caminhão, hora que estacionava o caminhão silenciosamente para não despertar, mas tudo combinado com as moças e tal. E aí, aquele célebre um, dois, três e pá... Aí começava a música em cima de um caminhão e circulava muito.

 

P/1 – Qual era o roteiro aí de bairros?

 

R – O roteiro era Santo Antônio, porque o Pacífico, que era um seresteiro, um poeta seresteiro, digamos assim, que usava a música para encantar o coração das meninas de Belo Horizonte com os músicos dessa qualidade. Então ele era o carro chefe, embora pianista... Mas talvez ele fosse o flautista de ______. Se ele tocasse flauta... Todo mundo seguia o Pacífico. Então essas madrugadas aí, eram em torno da zona, da área, digamos assim, dos bairros tradicionais de Belo Horizonte, onde esse caminhão circulava.

 

P/1 – Era o que? Santo Antônio...

 

R – Santo Antônio, principalmente, ali o Bairro de Lourdes, porque eram em casas. Estava começando a verticalização de Belo Horizonte nesses bairros, então era sempre uma madrugada tranquila, tinha lugar para estacionar. Eu me lembro de uma dessas... Não sei se o Bituca estava presente, mas foi na Rua Tomé de Souza na casa da namorada de um amigo meu, do Cid Horta, que já faleceu. Foi um episódio muito engraçado, isso tudo armado, Eu não sei, eu estava... Mas eu não sei quem naquela época... Qual era a banda tocando em cima do caminhão. Na hora que contou um, dois e três e saiu o primeiro acorde, escutamos uma voz dizendo o seguinte: “Essa não.” E o Cid, então, achando que era o sogro, disse: “Pois não, Doutor Barcelos. Qual a que o senhor prefere?” Ele falou: “Essa não, turma de vagabundo! A essa hora, vocês aqui me acordando.” Era o vizinho do fundo, insatisfeito, entendeu? (risos) Ou seja, o cara perdeu a serenata maravilhosa que só tinha gente ali da melhor qualidade. Essa não era a hora, não era a música. Mas aí, várias vezes eu tive a oportunidade de sair. Era uma constante. Aí depois, veio logo a geração seguinte também começando, digamos, a sua obra nas noites. Na serenata, foi o Tavito. O Tavito também foi um grande seresteiro que circulava, Nelsinho Ângelo também, claro, um seresteiro. Belo Horizonte tinha para essa minha geração. Eu acho que as últimas serenatas foram feitas aqui, então era um bom programa.

 

P/1 – Oh, sem dúvida.

 

R – Com aquele velho truque de você avisar antecipadamente. Claro que na varanda, então, da casa da Julieta, se fazia uma serenata para Julieta, estrategicamente, às vezes, para não aborrecer os pais. Mas sempre tinha escondido lá no jardim, uma bebida, um tira gosto, (risos) que era o que forrava a turma. Era isso. 

 

P/1 – Então essas serenatas são antes do festival?

 

R – Antes do festival. Aí o festival, quer dizer, eu acho que tem uma coisa muito importante para nós aqui. Minha geração [de] belo-horizontinos ou não, o Tavinho é de Juiz de Fora, o Fernando veio de Caldas, mas foi consolidando essa geração aqui que se tornou belo-horizontina. É que também foi a primeira oportunidade que teve, nós tivemos, eu não como músico, mas participando dessa mudança. Aí até depois na arquitetura também, é que saiu, quer dizer, a novidade e o comando, digamos assim, da música brasileira, essa música... Não vou usar a palavra sofisticada, mas essa que diferenciava da produção brasileira de música, através do samba, do romantismo. O tipo de música, mas também era só eixo Rio-São Paulo, principalmente, o Rio. O Rio era o que comandava, digamos assim, a música brasileira. Mas tinha que sair do Rio, porque a cidade maravilhosa inspirava todo mundo. Caymmi foi para o Rio, por exemplo. João Gilberto acabou no Rio. Então o grande movimento musical acontecia no Rio de Janeiro, o movimento da música brasileira. Várias, inúmeras pessoas, podem ser citadas, porque o Rio era atração turística também do Brasil e da América do Sul. Era o Rio de Janeiro. Tanto é que a pirações nos filmes que a gente assistia, o cara que fazia um roubo nos filmes americanos ou mesmo europeu, o sonho do cara era roubar e ir para o Rio, (risos) porque o Rio tinha praia, mulheres mulatas, praias maravilhosas, comida maravilhosa, clubes incríveis de jazz, está lá o Dentro das Garrafas, que foi um marco genial, que eu tive a oportunidade de frequentar algumas vezes lá. Mas acontece que quando surgiu a Travessia, quer dizer, despertou no Brasil, “Opa, tem uns mineiros aí que a turma... Estão fazendo uma música diferente, de qualidade”. Então, a “Travessia” foi sem dúvida nenhuma o marco, digamos assim, que assinalou que aqui em Belo Horizonte estava acontecendo um movimento. E o Bituca era nosso porta-voz. Que voz hein! (risos) Que porta e que voz né, quer dizer, não só na questão da sua voz, mas também, óbvio, da sua capacidade de inventar uma música diferente. Então, essa característica do Clube da Esquina, que foi formando esse grupo de uma certa forma, de uma certa forma não, de uma maneira informal, porque era um encontro entre amigos que amavam a música e influenciados pelas grandes revoluções também da música que ocorreram no mundo, quer dizer... E tem o marco também, que eu acho interessante a gente falar, que é o momento que houve uma transformação no mundo no sentido global, que é o famoso 68. O 68 eu acho que é um dado muito importante também que faz uma provocação ou que faz uma forma do outro lado abaixo do Equador. Do outro lado do mundo, quer dizer, está acontecendo alguma coisa aqui, equiparável o que falta, ou que faltou talvez, hoje não tem reconhecimento. Aí está o Clube da Esquina no mundo inteiro, no Japão, na Dinamarca, em Montreal, está lá nos Estados Unidos, mas é porque essa qualidade é uma qualidade que foi feita, que não tem barreiras, digamos, que criasse uma proteção que não pudesse... Quem [estava] atrás daquela fronteira. Através daquela linha, daquela geografia que ama a música, não deixou prova. Está aí, de vários exemplos, de reconhecer uma qualidade que vinha daqui de Minas, porque para o europeu, a hora que ele vê o mapa-múndi e vê abaixo da linha do Equador um ponto. “Ali não é possível.” “Essa música veio daí?” “Como?” Eu tive a oportunidade de viajar algumas vezes aí, para fora, junto até com o Milton uma vez, com o Fernando e tal. Então a gente vê essa alegria, hoje mais com essa frequência maior do Milton e do Toninho no Japão. A gente vê que está consolidado um prestígio pela qualidade, porque não é nada de marketing. Você pode vender o seu produto. Se você faz um marketing agressivo, se você é um bom, digamos, estrategista você impõe, mas não fica. Então, quando a coisa é importante e tem qualidade, você não precisa de fazer uma jogada de venda no sentido do marketing, criar marketing para vender um produto que, digamos, não tem expressão ou qualidade. Essa coisa que tem valor, ela fica. Torna-se clássico, os Beatles são clássico hoje, o Clube da Esquina com certeza vai ser e é sem dúvida nenhuma já um clássico na condição de ser, como a Bossa Nova também é um clássico. A Bossa Nova hoje, o que a gente escuta de Bossa Nova, e as influências que tem, teve aquela influência do Jazz, a famosa música... Mas também, há uma inversão hoje. Os jazzistas que devem ter feito a música dizendo [que era] a influência da Bossa Nova.

 

P/1 – É verdade. Você falou das viagens, Veveco. Qual a primeira viagem que você fez com a turma do Clube?

 

R – Com a turma do Clube, a primeira viagem que fizemos junto com o Bituca, foi uma banda, feita, se não me engano, deixa eu ver... 85, 84. Não sei, por aí. Foi na década de 80, eu acho, que foi a primeira viagem que o Bituca fez ao exterior. Houve um convite para ele tocar na França, lá em Paris, no Teatro de La Ville. É um teatro maravilhoso, sofisticado. Ali, quase às margens do Senna. Então a banda, que naquela época era formada pelo Wagner Tiso, Toninho Horta, Robertinho Silva, Luisão Alves e o Bituca. E foram uns, digamos assim, uns agregados, amigos e escudeiros, e fomos juntos também, na condição de ver aquela oportunidade da primeira vez do Milton na Europa, e foi muito interessante, porque era...

 

P/1 – Qual era essa turma que foi mesmo?

 

R – Essa turma era o seguinte: Fernando Brant com a Leize, minha comadre Leize, somos compadres. Marisa, minha mulher, a Zezé, que é irmã da Leize, e duas irmãs do Fernando, Aninha e a Vina. Nós ficamos 20 dias lá em Paris, nós estávamos por conta da farra e o resto trabalhando. (risos) Alguém tinha que trabalhar, se não a gente não podia sair. Mas tem uma coisa marcante e emocionante, é o seguinte: desde a estréia até o último dia, o teatro era todo lotado. Essa coisa já foi feita com o teatro esgotado, então foram músicos, personalidades do mundo inteiro que amava a música e esperava com expectativa a ida do Milton à Paris, principalmente, a colônia brasileira saudosa e orgulhosa também presente, mas é curioso o seguinte, que nesses lugares, que a gente vai que tem presença da música brasileira. Claro que tem brasileiro, porque [tem gente que] mora no Estocolmo, mora na Genebra. [Se] tem uma música lá, vão lá de certa forma para ver a música, mas a grande plateia, a maioria é de estrangeiros, porque já tem uma noção da música, já conhece etc. Então eu acho que isso é um ponto muito interessante e prova disso é o seguinte: estávamos nós lá uma das noites, deram o convite para que fossemos nós, aquela turma, que estava ali junto, nós éramos então, sei lá, 10 pessoas, 12, ir assistir um show do Silvio Rodriguez e Pablo Milanés que estava, por uma coincidência, naquela noite, dando um show no teatro da Unesco, que é um teatro esplendoroso, muito bonito e tal. E quem fez o convite, promoveu o convite, que já estava junto conosco, também era [um] jornalista muito simpático, digamos assim, muito influente na Europa, porque ela tinha... Chamava (Regine Berlac?), ela tinha um programa na Radio France, que era sobre música latino-americana, então ela sabia de tudo, tudo, e tinha uma admiração. Eu não sei quem promoveu a ida do Milton lá. Eu me lembro muito do Marcinho Ferreira que também estava iniciando um trabalho junto com o Milton, que inclusive não foi nessa viagem, mas tinha também colaborado nesse processo de acertar as coisa lá, então a (Regine Berlac?) chegou uma noite lá e falou: “Tem aí o Pablo Milanés e o Silvio Rodriguez fazendo um show no teatro da Unesco.” E fomos todos para lá. Eu não sei se naquela noite tinham uma folga, ou se foi depois, que o horário do Milton permitiu que a gente fosse. Enfim, chegamos e nos assentamos a platéia já toda tomada, etc e tal, quando eles iniciam o show, de repente, corre lá pelos bastidores que o Milton estava na plateia. E aí, foi uma coisa muito emocionante para o Milton, e para nós também, motivo de orgulho, porque eles interromperam o show, falavam que estava presente na plateia o Milton, acenderam o holofote, tinha uma luz que procurava o Milton na plateia e na hora que ele foi descoberto, naquela timidez dele natural, ele não queria aparecer e tal. Então, acabou que se levantou. Foi um aplauso geral do público, quer dizer, ele não estava fazendo espetáculo. Aquilo era um sinal que ele já tinha prestígio lá na Europa. Aí ficamos lá essa temporada. Tem uma outra passagem muito interessante dessa viagem, que aconteceu com o Toninho Horta: de regresso, o nosso voo fazia uma escala em Barcelona, ficamos num hotel perto da Praça Catalunha, do famoso La Ramblas [e] mercado La Boqueria, um dos mais incríveis que eu conheço. __ eu e a Mariza já tivemos para tudo quanto é lado. Voltamos quatro vezes. Interessante que a cidade... Mas ficamos nessa proximidade. Nós íamos ficar só uma noite, porque nós íamos tomar o voo _______, mas logo _____ doido para chegar a Barcelona, porque ele falava que o sonho da vida dele é chegar lá em Barcelona, chegar no Lutie famosíssimo e comprar um violão. E nós que gostamos de música também queríamos ir para o La Boqueria, tomar uns tapas, tomar umas cervejas, claro. Provar uma cerveja catalã legítima. Então fomos lá para o La Boqueria, e o Toninho mal deixou as malas fez o check in, correu lá para tal loja. Ele já falou isso, acho que são dois luthiers na Espanha, muito famosos. Mas esse lá em Barcelona, era o máximo. E combinamos com o Toninho, para não haver desencontro, da gente sair às cinco horas da tarde no final da tarde, por exemplo, para a gente jantar, etc e tal. O grupo, então, junto, estamos lá esperando o Toninho, e o Toninho não aparecia, atrasado lá no hall do hotel. Eis que de repente surge o Toninho. Foi uma coisa fantástica. Surgiu o Toninho [com] um violão maravilhoso, lindíssimo, e atrás dele uns cinco músicos lá de Barcelona, porque aconteceu o seguinte: o Toninho entrou na loja, o tal do luthier... Ninguém conhecia o Toninho, ele começou então a selecionar e pedindo, agora aquele, e tiravam...

 

[CD com problema a partir de onde parou.]

 

[Fim do CD1.]                                                                   

 

Barcelona. Não sei qual o nome dela, mas era isso, e quando o Toninho estava lá dentro. Eles ficaram tão entusiasmados, não largaram Toninho mais. Então o Toninho foi para o hotel e eles foram juntos, e lá no hotel, porque eles queriam conhecer o resto da banda, foram assim de uma hospitalidade, de uma amabilidade. Uma coisa incrível. Porque até então convidaram a todos para a noite ir num botequim, que era o Berimbau de lá, digamos assim, (risos) que nós escutássemos a música. A interpretação que eles fazem da música brasileira e também uma integração, ou amizade, com os músicos de lá de Barcelona. Eu me lembro bem, que era uma casa muito interessante, num porão, e curiosamente, o proprietário era argentino. Então no palco, aquele modesto, porque era um clube de boa música e foi uma noite maravilhosa, porque eles, por sua vez, levaram os seus violões. Montaram uma banda de violão lá que eram cinco violões, por aí, e o Toninho que comandava a coisa. Aí, correu a notícia de que eu era cozinheiro. Eu fui para a cozinha e fiz um mexidão, sei lá.

 

P/1 – Um mexidão mineiro?

 

R – Fiz uma comida lá para a turma, mas então, esse episódio foi interessante. Depois desses dois, eu e a Marisa tivemos oportunidade [de] viajar com o Bituca, ____ foi também uma viagem inesquecível. Aí éramos nós quatro na célebre noite lá no Lincoln Center e foi um tributo a Tom Jobim. E foram vários músicos americanos, franceses, etc, fazendo homenagem ao Tom Jobim. Isso foi em 95. Lá também dá para a gente perceber... Éramos quatro só, a nossa excursão era de quatro. Alguns amigos que já moravam em Nova Iorque incorporaram ao grupo e a gente saiu várias vezes, principalmente, para comprar disco. Entrava na loja de disco e o Bituca invariavelmente era reconhecido, e aí a loja parava, os vendedores fazendo uma justa homenagem, quer dizer, as músicas todas passavam a ser as músicas do Milton, tocando naquele ambiente. Eu me lembro de uma loja da Sony lá perto do Lincoln Center, onde foi... Ah, acho que até, se não me engano, foi uma tarde maravilhosa. O reconhecimento que estava ali [de] um músico, aproveitou o Milton essa época. Eu acho que este dado é interessante, porque tinha vindo ao Brasil, aliás, veio até Belo Horizonte. Eu tinha visto um espetáculo de balé do David Parsons, que o Bituca fez uma trilha para ele de ensaio de música para tocar numa peça dele, e coincidiu que também era plano encontrar com David Parsons para ver então o ensaio geral, da música que o Bituca fez para a peça. E eu me lembro que nós estávamos no hotel, parece que era Rua 47, se não me engano, nós estávamos hospedados lá no hotel e saímos eu, Marisa e o Marcinho para dar uma volta. Ali em Nova Iorque, o Bituca estava cansado, falou: “Eu estou cansado, fico por aqui, mas olha... Vamos [nos] encontrar às cinco horas, porque nós temos que ir lá no David Parsons. Ainda temos que descobrir o endereço dele, porque aqui o horário... Nós temos que chegar lá certo, e eu estou muito curioso para ver o ensaio geral.” Saímos andando e perdemos o horário: eu, Marcinho e a Marisa, porque ficamos olhando aquela coisa, entra numa loja atração e tal, e na que demos conta, nós temos que sair correndo porque senão nós vamos chegar atrasado. E chegamos no hotel o Bituca já esperando um pouco impaciente: “Puxa, vocês demoraram um pouco aí e tal. Nós temos que sair correndo. Marcinho cadê o endereço?” Ele falou: “Não sei do endereço, temos que achar o endereço ainda.” E foi engraçado para caramba, porque já [estava] apavorado em cima da hora, do horário que nós não podíamos atrasar. A hora que o Marcinho conseguiu o endereço, ele olhou assim e falou: “Puxa, é Rua 47.” “E qual número?” “Número tal.” Saímos na rua e era de frente. (risos) Que coincidência, que sorte.

 

P/1 – Que coincidência, que sorte.

 

P/2 – Aí vocês chegaram na hora?

 

R – Chegamos na hora em ponto. E foi uma recepção maravilhosa: o Bituca entrou sob aplausos, foi uma coisa bacana.

 

P/1 – E nesse tributo ao Tom Jobim, que é que o Milton tocou?

 

R – Sabe que eu não me lembro, não sei qual música que ele tocou, mas o elenco de músicos brasileiros e americanos, era um elenco, tinha desde o Sting, se não me engano tinha o Miguel _____ tocava, eu acho que sim, o francês, mas músicos brasileiros tinha Caetano, o João Gilberto tocou,  o _____, acho que o ____ também, então era um time bacana. Foi emocionante, mas trocando Nova Iorque e Paris, eu acho que tem também outra história de ter viajado aí a Marisa não foi. Fomos Tavinho, Fernando, Beto Lopes e eu, não sei se estou contando história que eu estou sempre incluído nessa coisa, é história do Clube da Esquina. 

 

P/1 – Isso é bacana, porque a gente tem uma linha de pesquisa que o Clube da Esquina no mundo, e você está colocando as primeiras histórias.

 

R – Puxa vida, são as histórias, as viagens que o Milton fez depois, que a turma fez. Vão enriquecer muito, essas poucas experiências. Mas um vez, eu de vez em quando faço dublê de cozinheiro, porque eu gosto de cozinhar, exatamente por isso, porque proporciona uma história feito essa. Em Paris, por exemplo, eu fui uma noite na casa da (Regine Berlac?), eu cozinhei para o Pablo Milanés e o Silvio Rodriguez, foi um encontro desse que ocasionou isso, porque eu sou cozinheiro e isso é um truque que eu tenho. O instrumento que eu toco é fogão, (risos) porque dá essa chance de conviver com essas pessoas, então é um pouco de esperteza.

 

P/1 – O que você vez para os cubanos?

 

R – Para os cubanos, eu lembro o seguinte: o apartamento da (Regine Berlac?) era muito pequeno, então foi pouca gente. Era nós mesmo da banda, mais eles lá, alguém da banda deles. Devia ter talvez umas 20 pessoas no máximo, foi depois do espetáculo, porque ali naquele espetáculo encontrar... [Foi] coincidência do Milton encontrar com essa turma em Paris, não podia interromper naquela noite, porque eles iam embora logo no dia seguinte ou algo assim, então resolvemos esticar. Esticando, a (Regine Berlac?) falou o seguinte: “Vamos fazer lá em casa, mas eu não tenho nada lá em casa para fazer para essa turma. Vamos fazer um abastecimento.” Como ela me disse, que ia, que a cozinha dela era muito modesta, que o apartamento [era] muito pequeno, eu já imaginei e ela já tinha dito: “Panela é complicada, só tem uma ou duas. O fogão só tem três bocas.” Eu fui então, preparando uma receita para encontrar essa coisa. Falei tudo bem, já sei o que é. Eu me lembro que nós entramos numa loja, já era essa que não fecha 24 horas, o show acabou tipo meia noite por aí. Eu comprei, tipo, dois frangos [que] fica naquela vitrine chamada vitrine de cachorro, já preparado.

 

P/1 – Televisão de cachorro.

 

R – Televisão de cachorro. Aí cheguei lá, fiz um mexidão lá, bicho, que saiu legal com queijo francês ainda misturado. Deu um mexidão, um risoto de frango, fiz um risoto. Eles gostaram, eu acho que deu certo. Mas esse lá em Teresina foi interessante, foi em 97. Será que tem isso tudo? Caramba, a gente vai fazendo umas contas e vendo que o tempo está bandeira dois, mas o fato é que o seguinte: eu tinha recebido uma encomenda para fazer um jantar lá em Teresina em comemoração de um jornal local, que fazia, parece, 15 anos de existência e tal, e os cara me encomendaram se eu topava ir lá fazer uma comida mineira. Eu disse [que] eu topo desde que vá... Não me perguntaram se podia levar uma música mineira também. Eu falei [que] eu topo, [pois] música mineira nós vamos levando como música mineira. [Levei] Tavinho Moura, Fernando Brant e Beto Lopes, porque eles já estavam fazendo uma série de shows, já estavam com tudo afinado, roteiro, etc e tal. Estavam viajando. Era Conspiração dos Poetas, então, os caras toparam e fomos lá para Teresina. E foi engraçado para caramba, porque nós ficamos lá três ou quatro dias e foi uma recepção ótima, excelente, muito cordial, um tratamento espetacular e tal, mas aí tem uma passagem engraçada, porque quando fizemos o check in, logo que fizemos o check in, chegamos por volta de meio dia. Uma hora lá no hotel, já tinha um pessoal para nos receber e tal, e aí uma das pessoas aproximou e falou: “Olha, vocês estão chegando aqui agora, tem um pessoal ali no bar...” Era uma sexta- feira, “E queria conhecer vocês...” Quer dizer, os conhecidos eram o Tavinho, o Fernando e o Beto, eu estava ali como cozinheiro fazendo parte da trupe, mas então, na hora que nós chegamos lá no bar, para surpresa nossa, quem estava no bar, que era na sexta-feira tipo uma hora, uma e meia, estava ali almoçando e tal: o governador do Piauí, naquela época. Então fomos apresentado, ele muito cordial, muito gentil. Virou para o Fernando, falou: “Eu sou muito amigo do seu irmão, do Roberto. A gente se encontra em Brasília. Que prazer muito grande você estar aqui em Teresina.” e bla, bla, bla, “Vamos tomar um cerveja.” Aí, ficamos ali tomando cerveja e batendo papo com ele, que era muito simpático. A hora que ele levantou, disse: “Olha, eu sinto deixar vocês aqui, que eu tenho que ir para o Palácio para fazer uns despachos lá, mas vocês ficam com o meu cartão.” Deu um cartão para mim, para o Tavinho, para o Fernando e para o Beto: “Está aqui o meu telefone direto, particular da minha casa, e esse daqui direto, que pouca gente sabe, se vocês tiverem qualquer problema aqui em Teresina é só me ligar que resolve na hora.” “Governador com essa hospitalidade, não vamos precisar.” E barará, barará. Não é que precisamos do governador?! Caramba, no dia seguinte. E isso é que foi interessante.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque no dia seguinte, nós ficamos lá na sexta feira, saímos, levaram para jantar e fomos dormir tarde. Estávamos por conta do show e o jantar que eu ia fazer era no sábado, e na hora que chegamos no hotel, combinamos cada um no seu quarto, combinamos no dia seguinte, amanhã, vamos encontrar aqui no café da manhã para a gente planejar o que a gente, que é que vamos fazer: “Por volta de nove e meia está bom?” “Está, nove e meia.” Aí nos encontramos lá no hall nove e meia. Então fomos lá para a sala de café, era um hotel ótimo, cinco estrelas, um café da manhã maravilhoso, mas na hora que chegamos lá, nos assentamos à mesa, veio o garçom muito gentil e tal falou: “O que vocês querem para beber?” O Fernando disse: “Uma cerveja.” Cervejista que era o Fernando, aliás, todos nós cervejistas e todo mundo aprovou a idéia do Fernando da gente tomar uma cerveja, claro, aquela hora o calor de Teresina, e o garçom disse: “Olha, infelizmente eu sinto decepcioná-los, mas o ambiente aqui é só de café da manhã, eu não posso servir cerveja aqui, cerveja aqui é só é servido depois de 11 horas, a hora que desmonta a mesa.” Aí o Fernando disse para ele o seguinte: “Olha, ontem nós tivemos aqui nesse mesmo lugar com o governador do Piauí e ele nos deu um cartão...” E aí o Fernando tirou o cartão: “Está aqui o telefone dele e ele falou que se ele tivesse algum problema, era para ligar para ele. Você quer que a gente ligue para ele? Você vai trazer a cerveja?” (risos) Cerveja veio no ato. Rapaz, bebemos cerveja à tarde inteira, porque o cartão do governador foi nosso salvo-conduto. (risos)

 

P/1 – Mas está legal demais essa entrevista.

 

P/2 – Outras viagens? 

 

R – Outras viagens foram o seguinte: foi essa aí do Piauí que é uma história, depois foram às viagens para Três Pontas. Três Pontas a gente ia muito: aniversário da Dona Lira, a gente ia, homenagem ao Bituca a gente ia, homenagem ao Senhor Zinho, aí íamos todos.

 

P/1 - _________homenagem, inauguração da Praça Travessia?

 

R – Aqui?

 

P/1 – Não, em Três Pontas.

 

R – Em Três Pontas teve, porque aqui tem uma Alameda Travessia, pouca gente sabe disso.

 

P/1 – Ah é?

 

R – Em Belo Horizonte. Puxa, que bom você ter tocado nisso. [A] Alameda da Praça da Liberdade, aquela Alameda monumental, cheia de palmeiras, que foca o Palácio da Liberdade, vindo da Avenida João Pinheiro: ela [se] chama Alameda Travessia. Essa Alameda Travessia foi ainda na época do governo Tancredo, e eu naquela época, trabalhava na Secretaria Municipal de meio Ambiente, então, sei lá, por um projeto de um deputado, ou de alguém do governo, decidiram batizar a alameda de Alameda Travessia, em homenagem à Travessia no sentido de “Ditadura nunca mais.” Então, naquele momento, foi o primeiro governo também eleito. Eu acho que foi o primeiro, o Tancredo, parte do movimento já das “Diretas já”. Então, de forma, que chama Alameda Travessia. Eu junto com a Marisa, fizemos o projeto da placa, que hoje eu não sei, me disseram recentemente que ela não está mais lá, e a placa Travessia que nós fizemos lá na praça, que era uma placa de vidro com arranjos do Wagner Tiso, que foi o conceito do projeto interessante para não ser uma barreira visual. As notas ficam flutuando, porque é impressa no vidro, e várias vezes eu fui lá, com arranjo do Wagner, eu presenciei gente chegando lá, grupo de meninos de uma escola musical, tocando com flauta a Travessia seguindo a partitura do arranjo do Wagner, é muito interessante. Foi uma idéia boa de batizar como Alameda Travessia. Oficialmente é Alameda Travessia, mais um dado aí para a história.

 

P/1 – Sem dúvida. Veveco, eu queria voltar no tempo. Você diz que o seu instrumento, que você toca é o fogão. Quando que surge essa vocação para a culinária, para a gastronomia?

 

R – Isso é interessante. Eu fiz uma retrospectiva, aí. O que me ocorre é o seguinte: meu pai cozinha muito bem, então eu ficava meio que de ajudante do meu pai. Aí eu disse numa entrevista, um dia, eu fui boy de cozinha, porque eu tirava xerox de receita, transcrevia receita para o meu pai, antes de iniciar a operação mesmo e tal. Mas a partir daí, eu acho que tem um pouco do jovem, do adolescente, [da] mesada [ser] curta e não tem grana para gastar em restaurante, nas festas e tal, então você tem que fazer um mexidão, não é? Eu me especializei até em mexido, (risos) é o que tem na geladeira, mas aí eu me envolvi com isso. Mas como a cozinha, eu falo que eu tenho, sou um amante da culinária que gosta de cozinhar. Então eu comecei a cozinhar nessas circunstâncias e andei cozinhando por aí. Mas o engraçado é que eu fui entrevistado em uma ocasião, num programa de culinária, voltado para as mulheres, às telespectadoras. Então a apresentadora, que era a âncora do programa que era de culinária, fez a mesma pergunta sua e eu disse humildemente que eu tenho a cozinha como isso, como um hobby, e eu disse para ela e estou repetindo aqui essa história que é o seguinte: e como hobby, eu me sinto muito confortável dentro desse meu hobby e com a vantagem sobre todos os demais “hobbystas”, porque eu, por exemplo, como o meu hobby, entendeu? (risos) Eu duvido que o cara que coleciona selo vai comer, por exemplo, o olho de boi, aquele selo caríssimo para caramba, entendeu? (risos) Que o cara que coleciona tampinha, ele não come tampinha, aeromodelo, essas coisas. Então, eu como o hobby. Eu acho que é uma vantagem. Mas a propósito disso, eu vou aproveitar para fazer um reparo, porque nessa condição de cozinheiro amador: o Fernando e o Bituca fizeram uma música que chama “Vevecos, Panelas e Canelas”, então essa entrevista aqui hoje me dá uma oportunidade de esclarecer, ou de fazer justiça, ainda mais sendo para o museu, não há melhor oportunidade do que essa. Eu mexo com cozinha, e envolvido com essas coisas, Vevecos que é plural, Fernando colocou plural Vevecos, Panelas então parece que eu sou uma homenagem exclusiva, mas todos sabem, você sabe, que é o Tavinho das Panelas, razão pela qual aparece o vocábulo panelas na letra e canelas, como também é um ingrediente de cozinha, que aliás, a canela criou uma confusão dos diabos. No século XVI, canela, pimenta do reino, essa coisa toda... O Brasil foi descoberto por isso né, mas canelas é o nosso amigo também, que é o Chico Canelas lá de Três Pontas. Então, são os Vevecos, Panelas e Canelas, que nós fizemos uma foto histórica que foi a única vez que estivemos juntos, quer dizer, os autores Bituca e Fernando e os “Vevecos, Panelas e Canelas”.

 

P/1 – E você tem essa foto?

 

R – Tenho essa foto, eu vou... O Pablo me pediu essa foto, eu não consegui localizar esses dias, mas ela já está separada, porque é curiosa: feito lá em Três Pontas, numa dessas idas a Três Pontas, então é curioso.

 

P/2 – Gostaria de contar uma viagem dessas para Três Pontas?

 

R – Seria bom. Três Pontas é também onde está ali a essência, o Wagner e o Milton seguem de Três Pontas para Belo Horizonte.

 

P/2 – Você tem assim, uma viagem memorável a Três Pontas?

 

R – Tem uma interessante que foi... Aliás, uma das primeiras, quer dizer, primeira assim que reuniu um bando muito grande. Eu não estou muito certo qual foi o motivo, foi nobre com certeza, mas foi uma época que foi emocionante, porque fomos todos de Belo Horizonte, acho que foi a primeira vez que saiu um bando, eu lembro [de] termos dois ônibus, por aí. Fomos lá para Três Pontas e ficamos lá, dois ou três dias numa festa sem final, eu acho que foi bodas do casal, Bodas de Ouro com certeza, foi linda, mas depois fizemos uma também memorável. Ainda bem que me lembrei dessa, não estava nem aqui na lista de fatos. Essa foi muito divertida, [de] uma gravação que o Milton fez de Sentinela, que foi no Rio, eu não sei que estúdio, não sei qual era o selo do Bituca na época, mas eu me lembro que saímos daqui, da sede da Livre, que o Marcinho então comandava nessa época.

 

P/1 – Agência Livre?

 

R – Agência Livre. Foi alugado um ônibus e a capacidade do ônibus me parece que eram 46 pessoas, por aí, um ônibus incrível, porque na verdade era um bar sobre quatro rodas. Fomos para o Rio para gravar, fazer o coro dos Peixinhos do Mar e esse coro era, digamos assim, bastante amador, porque tinha misturado músicos e pessoas de outras áreas: os amigos do Milton, do Tavinho e do Fernando. Então fomos um bando nesse bar volante e chegamos no Rio, saímos daqui tipo meia noite, chegamos no Rio para fazer... Estúdio estava reservado, tipo, nove horas, então fomos lá de novo, esse bando todo, que eu falo que é uma gambazada, porque tem aquele ditado “um gambá cheira o outro”. Então era uma turma prazerosa, cheio de gambá, um ônibus cheio de gambá. A gambazada foi lá para o Rio. Aí chegamos lá tipo nove horas, fizemos a gravação. Agora, o que é interessante é o seguinte: esse coro foi batizado e está lá o crédito desse coro, chama Falta de Coro, (risos) porque ninguém era cantor, quer dizer, nem todo mundo. E então, tem uma presença. E aí, tirando um sarro, eu costumo dizer que eu gravei um disco e que foi um grande sucesso que chama-se “Sentinela” e que tiram a canja do disco no Milton, (risos) e depois dessa gravação, foi curioso que nós fomos jogar uma partida de futebol, que já tinha uma partida marcada entre esse bando, essa gambazada contra os gambá do Rio, que foi uma partida de futebol memorável, porque nós estávamos varados e eu acho que foi uma esperteza da turma do Rio, que sabia que nós estávamos prejudicado pelo tempo da viagem, sem descansar e sem dormir. Fizeram essa provocação e fomos jogar lá no sítio do Chico Buarque.

 

P/1 – Lá no campo do ______?

 

R – É lá no (Politana?). Então, tinha uma turma nos esperando. Eu tenho uma certa desconfiança do juiz nessa partida e também da organização, porque sabiam que nós estávamos trôpegos. Mesmo assim, resistimos bravamente (risos) uma derrota que não foi assim traumatizante, mas não deixamos de fazer uns gols. Fazia parte do time. Tinha muita gente, tinha incorporado mais alguém lá. Eu tenho uma foto também, desse time. Inclusive, tinha um jogador famoso, que também fazia parte da Falta de Coro, que era o Reinaldo, que estava...

 

P/1 – O Reinaldo do Atlético?

 

R – É, o Reinaldo participou, era do nosso time. Essa aí foi uma viagem boa, divertida.

 

P/1 – Veveco, voltando a música, como é que foi essa homenagem? Você soube disso pronto? Ele falou com você?

 

R – Eu soube pronto. Além dessa convivência histórica que eu tenho, logo que eu me casei com a Marisa, que também é arquiteta, Marisa também, essa turma e os outros amigos que foram casados, acabou formando uma grande família. Nós dois, eu e a Marisa, fizemos o projeto da casa do Bituca lá no Rio, lá no Itanhangá aquela casa dele. Foi uma adaptação. Existiu uma casa anterior, mas nós fizemos o projeto do Bituca no Rio e fizemos também o projeto da casa do Fernando aqui em Belo Horizonte. Projeto nosso, meu e da Marisa. E um dia, numa visita de rotina à obra, eu e a Marisa para acompanhar o andamento da obra, etc e tal, o Fernando me faz uma surpresa que me deixou bastante contente, emocionado, etc e tal, ele falou: “Vem aqui que eu quero te mostrar uma coisa.” Eu me lembro que nós estávamos dentro do carro dele. Fernando indo para algum lugar, talvez um fornecedor, mas estávamos lá especificamente para ver a obra e foi nessa hora que ele pôs a fita no carro, falou: “Olha, tem uma última música que eu fiz aqui com o Bituca. O que você acha? Vou por aqui para você escutar.” Eu falei: “Rapaz, mas que música bacana e tal. Excelente, que maravilha.” Ele falou: “Pois é, ela chama Vevecos, Panelas e Canelas.”  Então, ele me deu a notícia assim, de repente. Aí depois, ____ algumas vezes para comemorar, o Tavinho das Panelas, que é o Tavinho Bretas, ele tem esse apelido e eu não sabia, assim, que ele tinha esse apelido, que só aparece na música. É porque aqui ele tinha uma representação de pedra-sabão, e na representação de pedra-sabão para fazer fontes, revestimentos, etc e tal, também incluía panelas de pedra-sabão. Então ele tem esse apelido aí no paralelo, que é Tavinho das Panelas e o Chico Canelas, dizem, não sei, até fica chato falar isso sendo gravado, é porque ele dá muita canelada nos jogos de futebol, nas peladas, então ele ficou com o apelido de canela. Disso eu não sei, (risos) pode ser que seja.

 

P/1 – Mas é uma bela homenagem.

 

R – É uma bela homenagem. Essa música, curiosamente, ela foi gravada a primeira vez, eu não sei quantos anos tem, por uma tal de Mara Nascimento lá do Rio. Eu tinha esse disco, mas está perdido. Cara, eu não sei onde está esse disco, eu ganhei da própria Mara, porque nós estávamos no Rio e eu acho que foi nessa época que a gente foi gravar o Sentinela, que aliás eu fui gravar e o Milton deu uma canja. (risos) Então eu acho que a Mara eu, nunca mais a vi, mas a primeira gravação foi da Mara. Depois foi do Beto, que até hoje, sempre essa música, rola por aí. Depois o Bituca gravou também naquele acústico lá em São Paulo. Depois gravou Fernando e Tavinho, também gravaram. Então, isso aí é uma homenagem para os Vevecos, Panelas e Canelas e isso aí me coloca num posição privilegiada, de ter o nome ligado a essa música.

 

P/1 – Oh, Veveco, infelizmente estamos chegando ao fim da...

 

(Pausa.)

 

R – Mas essas histórias, assim que o convívio deu oportunidade também quando estava em construção a casa do Fernando. Saíamos sempre Fernando, a Leize, eu e Marisa a catar materiais por aí, porque o Fernando e nós tínhamos imaginado uma casa que poderia ser feito, por questão de custo, e questão de buscar algumas referências. Belo Horizonte estava num processo que várias casa eram referência para nós, para o Fernando e para mim. Elas estavam sendo demolidas e a gente passava pelas Ruas de Belo Horizonte sempre via “vende-se material de construção”, janelas, portas, escadas, etc e tal. Então a gente imaginou colocar na casa do Fernando essas referências de algumas casas que tinham em Belo Horizonte, quer dizer, um olhar assim, um pouco saudosista, romântico, da memória da casa e tal. E assim fazíamos, saíamos nós quatro de vez em quando procurando alguma obra [que] tivesse em demolição e tinha peças que poderiam, digamos, ser colocadas na casa do Fernando, sem, digamos, perturbar o conceito da casa e sem prejudicar a arquitetura e, assim foi. Numa dessas casas, que era atrás da Igreja da Boa Viagem, que estava sendo demolida, a gente aproximou lá do cara que estava demolindo. Isso foi num dia de semana e, digamos, para o cara que estava demolindo lá: “Bicho, você vai vender essas portas e janelas?” Ele falou: “Vou sim, vou vender.” Nós falamos: “Gostamos dessa, dessa e dessa.” Que já estava lá encostada no muro, ele falou: “Olha, infelizmente, essas aqui eu não posso vender, porque já veio um cliente aqui e já reservou.” “Puxa vida, mas não é possível.” Era uma casa representativa, que caberia essas janelas, essas referências, ficariam ali na casa do Fernando. Tinha uma escada bonita, umas janelas bonitas e tal. Aí insistimos muito e o cara não deu o braço a torcer, ele falou: “Compromisso é compromisso, mas eu combinei com esse cara onze e meia. Se ele não vier aqui, tudo bem, eu assumo compromisso. Onze e meia ele não veio, espero até meio dia. Dou um tempo aí, daí eu vendo.” Ficamos animados, então, eu falei: “Vamos nos encontrar amanhã para nos encontrar aqui, nessa casa, mas em vez de vir direto, vamos passar lá na Cervejaria Brasil?” Que era o ponto que a gente encontrava sempre, principalmente, se tratando de um sábado. Era [uma] hora espetacular para a gente ir para a Cervejaria Brasil, tomar uma cerveja antes de ir para comprar, ver se o cara não ia vender. Só que tem que a cerveja estava boa, o papo estava bom e a gente foi demorando sair da Cervejaria Brasil. A hora que a gente viu, já era meio dia e saímos correndo da Cervejaria Brasil com a intenção de voltar né, para continuar, mas fomos direto lá para essa obra. A demolição... A hora que chegamos lá, por sorte, as janelas ainda estavam encostadas e julgamos que o cara não tinha vendido ainda, como de fato não tinha, e aí a hora que o Fernando já ia preparar o cheque para acertar, porque o cara não tinha chegado, o cara chegou. Tinha ultrapassado, sei lá, 15 minutos do compromisso e o cara, nós [nos] escondemos para não constranger o negócio, a nossa presença ali, para o cara, que estava vendendo, ficar resistente, mas não conseguimos. O cara acabou cedendo ao apelo do cara, que o cara apelou mais, não sei e tal, e o cara levou as janelas. Então nós vimos aquelas janelas indo embora, vendidas, porque eram perfeitas para a casa do Fernando. Aí é que acontece uma cena muito engraçada, que a hora que o cara foi embora. Nós frustrados, vira o Fernando para mim e fala assim: “Está vendo Veveco, foi aquela saideira.” (risos) Perdemos a janela por causa da saideira. Se não tivesse tomado a saideira, nós estávamos com a janela.

 

(Pausa.)

 

P/1 – Você como arquiteto do Museu Clube da Esquina, como é que você imagina que será esse museu?

 

R – Primeiro que esse convite... Puxa vida, esse convite para nós, para mim e para Marisa, é uma honra muito grande e um entusiasmos muito grande fazer um projeto. Mesmo porque, não é só como uma cortesia, digamos assim, de amigo, uma gentileza etc e tal. É porque [é] uma história feito essa, que a gente viveu muito e acompanha, quer dizer, eu acho que nós somos capazes, vamos ser capazes de dar uma interpretação do ponto de vista da arquitetura, uma interpretação bastante fiel ao que é a história e o que se imagina. Mesmo porque, o Marcinho já escreveu naquele release, ele já fala da atmosfera esperada, que é evidente, é uma atmosfera que já está, digamos, imaginada por mim e pela Marisa, que é de fato, tem que ter semelhante lá ao Berimbau, que esse ambiente assim fraternal, é um ambiente onde as pessoas se reuniam, e [tinha] um clima saudável de entusiasmos e de boa música. Então esse é um ponto, sem dúvida nenhuma, que tem que ter lá no projeto. O outro lado é que a experiência nossa, que nós já conversamos um pouco sobre isso, no aspecto museológico, digamos assim, no aspecto de uma arquitetura voltada para museu, a característica hoje desses espaços que têm histórias para contar, é que tem que ter esse conteúdo dessa dinâmica, quer dizer, eu diria exagerando um pouco, 100% de uso. Um espaço feito esse, ele não pode ter espaço ocioso. Então é um espaço que ao mesmo tempo não é só a questão de um memorial, mas uma questão também de que tem também a questão voltada [para] o espírito de [um] projeto feito esse, de todo o “museu”, que é também voltado também para a educação. Quer dizer, a educação no sentido da educação musical? Tudo bem, é um lado, mas a educação também do ponto de vista da cultura, a educação com relação à história, porque isso aí é um legado, quer dizer, a responsabilidade é muito grande. Porque eu acho que através... E está aí o resultado do Clube da Esquina. Eu acho que através, digamos assim, de uma proposta do ponto de vista cultural, de uma coisa que você surge num cenário, seja música, literatura, poesia ou artes plásticas. Quer dizer, eu acho que tem um compromisso também e que é justo, que é importante que se preserve, essa questão de uma história, digamos singular, não é? Uma história singular, eu acho, que é o caso do museu. Então, ele, tem que ter essa dinâmica também e tem que ter também, digamos assim, os seus ambientes que sejam sem uma, digamos, exagero, sem nenhuma sofisticação, porque a arquitetura, aí ela não é importante. Ela não é importante, quer dizer, ela tem que ser cuidadosa, elegante e convidativa, mas o que é importante é o que está dentro do museu, quer dizer, o conteúdo que ele representa lá dentro, portanto, assim, essa imagem arquitetônica vai surgir naturalmente, porque vai depender da circunstância, diria geográfica, em que situação que ela está, numa esquina. Em qual esquina? Como é o ______. Como é o panorama? Como é a paisagem? Então, é a partir daí que eu acho que surgem as idéias e na verdade, que seremos eu e a Marisa interpretadores. Eu acho que vale também para aqui, nossa associação né, dos Amigos do Clube da Esquina Fundadores. Eu faço sempre uma diferença, porque somos eu e a Marisa de um outro museu que chama Museu Abílio Barreto, Amigos do Museu Histórico Abílio Barreto. Eu sempre falo com muito orgulho e repito aqui, para o caso do Clube da Esquina, amigos íntimos, Associação dos Amigos Íntimos (risos) do Clube da Esquina, então, isso é bacana, e estamos com o maior entusiasmos, vamos fazer isso com uma paixão, com a mesma paixão que os músicos, queridos amigos, fizeram o Clube da Esquina, quer dizer, tem essa expressão do ponto de vista musical, da cultura brasileira que são, digamos assim, o que a gente procura fazer, formar uma nação. O Clube é importante, mas nada foi combinado. Agora, uma nação, nós temos que fazer uma combinação para que a gente possa melhorar [para] fazer um país mais justo, mais fraterno. Eu acho que o espírito do Clube da Esquina, ele encerra essa postura ética, essa postura política, que nós temos que ter dentro de um idealismo que a gente cultiva desde a década de 60. Não é, digamos, uma coisa panfletária que ali dê discursos, etc e tal, mas que são gestos e atitudes que vem dignificar o que o Clube da Esquina na sua essência sempre procurou fazer, quer dizer, essa trajetória, digamos assim, civilizatória, através da cultura no caso especificamente através da música.

 

(Pausa.) 

 

P/1 – Veveco, para terminar nossa entrevista, a gente queria ver se você lembrava um pedacinho da música Vevecos, Panelas e Canelas.

 

R – Pois é, eu estou com um lembrete. Na época de escola, estudante chamava cola. Eu estou com uma cola aqui, que eu vou lembrar um pouco da música, que é a tal que... Vevecos, Panelas e Canelas. Então, ele diz o seguinte: “Eu não tenho compromisso, eu sou biscateiro. Que leva a vida como um rio desce para o mar.” Se eu fosse gravar isso, estava perdido. “Fluindo naturalmente como deve ser. Não tenho hora de partir, nem hora de chegar. Hoje tô de bem com a vida, tô no meu caminho. Respiro com mais energia o ar do meu país. Eu invento coisas e não paro de sonhar.” Então, é isso aí. Esses sonhos e essa questão não tem hora de partir e nem de chegar. Eu acho que está um pouco ligado a esse exemplo aqui, um pouco dessa entrevista, eu não tive hora de chegar e nem hora de partir. (risos) Então eu não posso continuar a me expor aqui nessa voz desafinada, porque...

 

P/1 – Mas está ótimo.

 

R – Uma beleza.

 

P/1 – Uma entrevista maravilhosa. Obrigado, Veveco.

 

R – Aliás, tem uma passagem da música, outro trecho, que fala assim: “Para quem não me conhece eu sou brasileiro.” Quer dizer, na música original, ela ficou mais, ela ampliou, porque o Fernando tinha um detalhe aqui, que era coisa mais a Minas Gerais, quer dizer, eu sou mineiro, mas o brasileiro aqui ampliou o universo. E beleza, eu fiquei muito feliz. Sempre que eu escuto essa música me traz muita emoção, eu gosto. Cantando nem tanto, me dá é um pouco de vergonha. (risos)

 

P/1 – Então, está... Muito obrigado pela entrevista. 

 

R – Está bom, agradeço.

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