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Thereza Santos - A Malunga Guerreira - Cap. 01

História de: Thereza Santos
Autor: Odirley Isidoro
Publicado em: 01/01/2022

Sinopse

Conheça a História de vida da Atriz, ativista e militante negra Thereza Santos, retratada em três capítulos especiais.

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História completa

“Humbiumbi yange yelela tuende Kakele ka tchibamba Osala posi”
Letra da música Humbiumbi de composição do Cantor Angolano Filipe Mukenga.


Amanhece mais um dia de sol na Capital fluminense, assim como os pássaros que repousam sobre o leito da Baía de Guanabara, eu fiquei preso observando a tranquilidade das águas que começavam a espelhar mais uma missão, mais uma grande aventura pelo caminho. Fechei os olhos e imaginei os traçados tortuosos da Escadaria Selarón e seus infinitos azulejos coloridos, abro os olhos e me vejo em frente ao Bar do Mineiro, peço o gole de um destilado e deixo uma paga para o Santo, a fim de que abra os caminhos.

Observo a particularidade das casas e suas estruturas, que remetem a um passado bem distante, ouço o atrito do ferro nos trilhos e vejo mais um bonde “Dois Irmãos” chegando, me sento no entroncamento da Rua Alm. Alexandrino e respiro, sinto o perfume de eucalipto no ar. A fumaça dos cigarros e os gritos das crianças descendo a ladeira atrás da bola, me trazem de volta a realidade. Fecho os olhos novamente em busca daquela paz e ao abrir os olhos, aqui estou! Venerando com carinho e cuidado, as pegadas que Thereza Santos deixou. Mas afinal, quem era Thereza Santos? Qual a magia que a transformava em tão especial, a fim de que cada pedaço do Morro de Santa Tereza forjasse sua trajetória e começava a lhe reconstruir, quando meramente ela se sentia despedaçada. Mas para entendermos melhor sobre a sua personalidade, teremos que mergulhar mais fundo em sua história.

Vamos voltar no tempo, lá atrás! Em 07 de Julho de 1938 nascia no Rio de Janeiro, a mulher que colocaria o mundo de cabeça pra baixo! Ela foi batizada com o nome de Jaci dos Santos, Jaci no dicionário tupi significa “Lua” e os astros logo decidiram se alinhar para que o destino da Jovem fosse diferente. Criada em uma família negra, ela aprendeu a respeitar, não somente a sua raça, mas também seus valores culturais, assim ela aprendeu maneiras que a conduziram e a moldaram ao longo de sua vida.

Em Santa Teresa, Bairro onde a dinastia endinheirada residia, ela cresceu em um pequeno quilombo de casas, onde os vizinhos eram membros de sua família, negros morarem naquela região sem ter quinhão era um ato de heroísmo para época e muito se acredita que a união daquela família fora a fonte para tal. Ao tempo que Jaci crescia e conhecia sua vizinhança, mais ela percebia que os negros eram minoria dentro daquela comunidade e com o passar dos anos fora se tornando mais latente a sua visão, através das brincadeiras de criança ela fora sentindo na pele, leve toques amargos do racismo estrutural e com o tempo aquele velho gole de café sem açúcar pelas manhãs fora se tornando adocicado sem a necessidade de colocar um torrão sequer. Mas como tudo na vida se movia rapidamente, com o passar do tempo os seus pais se viram obrigados a lhe encaminhar para o Bairro de Santa Cruz e lá ela passou a morar com sua Tia avó Antônia, viúva e repleta de filhos.

Todos moravam com elas, inclusive os casados, cada um em sua casa na imensa chácara da família e também uma figura importante que moldou a sua formação: Preta Benedita. Uma Senhora branca que a família havia encontrado no mercadão dormindo nos sacos de lixo com seu filho e que seu tio avô, levou para casa e cedeu espaço para ela morar com a família. Com estes pilares de força e resistência como base, ela começava a despertar a consciência de sua importância como negra na sociedade. Em Santa Cruz, o batuque de terreiro começa a invadir a sua vida, Jaci com doze anos de idade se torna amiga dos moradores de uma pequena favela que ficava no final de sua rua, ali ela conheceu um casal de ex- mestre sala e porta bandeira da extinta Escola de Samba Indios do Acau, Margarida e Marreco. Este casal de nomes sugestivos lhe abriria os caminhos para um mundo novo. Através deles, ela começou a sentir pulsar a energia do carnaval, mesmo que sua origem familiar seja festeira, as escolas de samba não tinham ligação em sua vida, mas ao descobrir esta alegria vinda dos rincões da favela, Jaci toma coragem e começa a frequentar cada vez mais a comunidade e se defronta com uma realidade cada vez mais pobre do que a sua e logo ela vai de encontro a sabedoria de um velho guardião da família, neste caso seu Pai.

Neste momento, ela começa literalmente a ver o mundo fora da caixa e a descobrir as questões sociais do país e suas mazelas. Brota dos amontoados úmidos de madeiras e personalidades variáveis, uma guerreira que luta e sonha com um país mais justo e honesto.Assim floresce aos quinze anos, uma brava militante da Juventude Comunista, forjada por batalhas e objetivos, nasce assim o perfil: Thereza Santos. Porém seu pai, se transformou em seu porto seguro, o seu pilar, para que ela pudesse sonhar, e a ajudava a entender melhor todo o universo, a incentivando a expandir horizontes e assim desbravando cada pedaço de chão, fora assim que ela conheceu Julinho Simplicio, integrante da única família negra na mesma rua que a dela. Julinho a convenceu a conhecer o então Bloco Canarinhos das Laranjeiras, lá ela conheceu um universo de personalidades espetaculares, unida com sua inquietude e mentalidade coesa, logo ela se aproximou de pessoas como: Ciro Monteiro, Haroldo Costa, Leo Jusi, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Com um time deste, ela ficou empolgada! Esta energia que ela compartilhava, pulsava pelos poros.

E logo ela fora convidada para ensaiar no Teatro, a peça Orfeu da Conceição e olha que ela até começou a ir, porém Dona Marta, sua mãe, descobriu as escapadas e ela fora recebida com chuvas de sapatos plataforma “Anabela” e o sonho de ver seu nome em letras garrafais coloridas foi se embora. Juntamente com o contato com Ciro Monteiro, Haroldo e os demais. O desejo da Enfermeira Dona Marta, era ver a sua filha formada em Medicina e sendo o exemplo da família, para ela os palcos não lhe dariam um bom futuro e a transformaria em uma mulher solitária e perdida. Dona Marta que vivia frustrada pela não convocação à segunda guerra para ajudar as equipes em batalha, tinha a nobreza e a sapiência de milhares de mães, ela enxergava na filha a sua continuidade.

Mas o sopro de Minerva havia adentrado a alma da jovem Jaci, o sonho da mãe em ver sua filha conduzir este legado de amor estava com os dias contados, quanto mais ela forçava este desejo, mais seu coração se encantava com o brilho das luzes neon. Coube ao Tio João que morava no Bairro de Olinda, fixar os seus olhos a cada passo que ela dava, porém Tio João teve três casamentos e vinte três filhos, sendo que deste total, dezenove eram mulheres.

Cada vez mais que elas iam morar nas casas da família, ficava difícil ele administrar. As mais velhas adoravam a gafieira e assim ensinavam as mais novas a dançar e este fora o bilhete premiado para que ela soltasse o corpo e a música invadisse a mente, afastasse a tristeza e a preenchesse. E mesmo contra o desejo do famoso Tio João da Canela de Prata, (conhecido por ter sido atropelado por um bonde e ter uma perna de platina) que desejava e enxergava um futuro melhor e diferente para sua sobrinha, afinal ele de alguma maneira sabia que aquela menina iria virar o mundo de ponta cabeça. Ele entendeu e respeitou e apesar dos rebenques que ela tomou após a sua escapada, ela mesmo assim sentiu o cheiro e o sabor da madrugada e se permitiu Na próxima semana, teremos a segunda parte desta magnífica história de vida…

Até Breve!

 

Obs: (1) O HUMBI-HUMBI (Cicornia Abdimi) é um pássaro muito comum na fauna angolana que segundo a história tradicional anuncia as boas novas, que aspira voar mais alto e que chama os outros pássaros para voarem consigo. (2) Rebenque é um cinto feito de couro animal.

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