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História

Testemunha de um tempo em transformação

História de: Ricardo Braune Solon de Pontes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/10/2008

Sinopse

Nesta entrevista, Ricardo Braune compartilha memórias sobre as mudanças e transformações que testemunhou nas cidades por onde passou e instituição onde trabalhou. Descendente de alemães e suíços que colonizaram Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, na juventude mudou-se com a família para Brasília, que ainda tinha muito a crescer. Casado, foi um dos primeiros moradores de Valparaíso, município da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno. Trabalhando no Banco do Brasil, acompanhou as mudanças internas com a informatização dos processos de trabalho. Mas, para ele, sua maior contribuição para a instituição está no trabalho que executou nos projetos da Fundação Banco do Brasil, com foco em cultura e desenvolvimento social em comunidades desassistidas a partir da fruticultura. Aqui, ele relembra situações e reconta histórias de um período de grandes transformações, tanto pessoais como coletivas.

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História completa

P/1 – Ricardo, então, a gente vai começar nossa entrevista, vou pedir pra você falar de novo o seu nome completo, o local e data de nascimento.

 

R – Bom, meu nome é Ricardo Braune Solano (?) de Pontes. Eu nasci em Nova Friburgo, Estado do Rio, em 1954, numa região serrana do Rio. A região serrana compreende Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis. Era uma bela cidade.

 

P/1 – E o nome dos seus pais e o que eles faziam profissionalmente?

 

R – Bom, o nome do pai era Eurico Monerat Solano de Pontes, já falecido, faleceu o ano passado, funcionário do Banco Central de carreira. Minha mãe, Marina Braune Solano de Pontes, falecida também em 99. Mamãe era do lar, de casa. Era grande mulher.

 

P/1 – E o seu pai trabalhava com quê?

 

R – Banco Central.

 

P/1 – No Banco Central. Qual que é a origem da família? Braune, o sobrenome é estrangeiro...?

 

R- Sou descendente de alemão e suíço. São as famílias que colonizaram Friburgo, em 1800 e 50 e poucos, eu não tenho a data, sou muito ruim. Mas, papai tem descendência suíça, a família de mamãe, Braune, tem descendência alemã. E papai Monerat, ih, é uma família muito grande: Veterlink, Luterbach. Se fosse botar o nome de todas não dava, talvez, numa folha de caderno, de tantas famílias, né, de mistura que teve nessa época. Mas a família é muito grande. Colonizaram Friburgo.

 

P/1 – E por que eles vieram pro Brasil? Você tem ideia?

 

R- Não, não tenho ideia. Eles migraram para o Estado do Rio de Janeiro. Vieram pra cá e Friburgo foi a região que eles escolheram. Eu não sei se por causa da região suíça, né? A região de “Fri”. Escolheram a região mais alta do estado do Rio que é a de serra e ali ficaram. E ali nasceu Nova Friburgo.

 

P/1- E você tem irmãos?

 

R – Tenho. Tenho mais três irmãos.

 

P/1 – E como é que era o cotidiano da casa? Você falou que sua mãe era muito carinhosa... Conta um pouco como é que era esse...

 

R – Bom, com aproximadamente um ano de idade, nós fomos morar em Niterói. Papai construiu a nossa casa. Foi a primeira, inclusive, feita no bairro de São Francisco, lá em Niterói. Hoje, um belo bairro, com casas muito valorizadas, e ali vivemos. Papai primeiro trabalhou, se não me engano, na febre amarela, no Rio de Janeiro. Trabalhou no Ministério do Trabalho no Rio, e entrou na Sumoc, que era a antiga Superintendência da Moeda do Crédito. Com a criação do Banco Central juntamente com funcionários do Banco do Brasil, foi criado o Banco Central. E em 1970, com a instalação do Banco Central em Brasília, ofereceram, teve que vir, né? E nós viemos todos para Brasília em 1970. E aqui estou até hoje. 

 

P/1 – E a sua infância? Você cresceu em Niterói?

 

R – Bom, eu cresci em Niterói, minha infância foi toda em Niterói, toda em São Francisco. Uma infância maravilhosa, correndo na rua, jogando bolinha de gude, soltando pipa. Até hoje essa época em Brasília é uma época de soltar pipa, né?  Papagaio, esse negócio, cerol... E eu gosto até hoje de soltar balão. Eram hábitos nossos lá do pessoal do Rio de Janeiro. E caiu uma pipa lá no telhado de casa. Aí minha esposa estava lá atrás, subindo no toldo, e o menino pedindo a pipa. E ela começou a rir porque eu não queria dar a pipa pro menino. [risos] Ela falou: “filho, dá a pipa pro menino.” Eu estava doido pra ficar com a pipa pra mim soltar a pipa, vê só que coisa, né? São coisas que a gente guarda. “Dá a pipa pro menino”. Falei: “Não, eu vou dar a pipa pro menino.” Aí dei a pipa pro menino. São coisas que eu ainda guardo, que eu adorava fazer na minha infância: soltar pipa, pião, bolinha de gude.

 

P/1- Você tinha turminha na rua? Como é que era?

 

R- Tinha. Nós tínhamos uma turminha e era uma turminha pesada. Tinham turmas de rua e nós brigávamos, inclusive a gente marcava briga, já viu disso? Então você era meu amigo hoje, agora como nós estamos aqui, mas só que a gente combinava porrada, briga de turma. Então a gente tinha escudo, né? Fazia uma tabuazinha de madeira, prendia um elasticão, câmara de bicicleta, fazia um escudinho, né? Fazia espada, espada de pedaço de pau que é de mangueira, de mangueira não, de goiabeira que doía pra danar. Estilingue, aí pendurava um cachinho de cacho de mamona aqui no calção e marcava briga com a turma da rua seguinte: “Olha, então amanhã, às três horas da tarde – geralmente de fim-de-semana que a gente fazia isso – vamos ter um confronto”. E era assim, só que hoje eu era teu amigo e amanhã eu estava brigando com você. E era estilingada de mamona, o “pau comia” mesmo, o negócio era violento. Eu chegava todo requebrado em casa, arrebentado, assim...

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe, fazia o quê? Não tinha jeito. E aí, chegava todo machucado, mas no outro dia estava tudo bem.

 

P/1 – E todos amigos?

 

R – Todos amigos.

 

P/2 – O senhor frequentou escola?

 

R – Oi?

 

P/2 – Escola, o senhor frequentou?

 

R – Frequentei.

 

P/2 – Como é que era?

 

R – Eu comecei a estudar numa escola do bairro, Instituto Dona Judith. É...Maria Carvalho. Eu não fui mau aluno não. Gostava de estudar, sempre gostei de estudar. Terminei o meu segundo grau aqui em Brasília, mas fiz o ginasial todo em Niterói. Depois eu fui pro Instituto Balesdan (?), que era no centro de Niterói, depois fui pro Instituto Gay Lussac. Terminei o ginásio, fui estudar no Rio, na escola técnica da Embratel e terminei o segundo grau. Foi exatamente nessa época que meus pais vieram pra Brasília. Foi aí então que eu retornei ao Rio, para terminar o período, porque na época as provas eram trimestrais lá e era aqui era mensal e eu tive que retornar para completar o ano lá, senão eu ia perder praticamente um ano aqui em Brasília. Tive que retornar. Fiquei morando na casa da minha avó, em Niterói. Quando eu concluí o ano, eu retornei definitivamente para Brasília, 1970. 

 

P/1 – E... você falou que fez escola técnica?

 

R – Escola técnica da Embratel.

 

P/1 – da Embratel? Por que você fez o curso?

 

R – Olha...

 

P/1 – Tinha alguém que te incentivava?

 

R – Não lembro na época. Era um grupo de amigos que eu tinha em Niterói também que faziam esse curso lá na Tijuca e não teve assim um porquê. Não tinha nada assim, a Embratel não era... da Embratel não. Era o Instituto Brasileiro de Tele... Não era a Embratel [Empresa Brasileira de Telecomunicações], que… (?)

 

P/1 – Telefônica, né? 

 

R – Telefônica, não...

 

P/1 – De telefonia.

 

R – Não. Era uma escola normal onde tinha parte de eletrotécnica e algumas matérias diferentes, mas nada ligado à Embratel, não.

 

P/1 – E, me fala uma coisa, como é que foi sair de Brasília, sair do...

 

R – ...do Rio.

 

P/1 – ...de Niterói e vir pra Brasília?

 

R – Olha, no início foi uma mudança, assim, terrível. Eu, na época, já namorava a minha atual esposa – atual não, eu acho que vai ser... nós já estamos juntos há bastante tempo – mas foi assim, terrível, sabe? Eu estava namorando em 1970, nós começamos a namorar praticamente nessa época. E Brasília nessa época não tinha nada. Em 70, era um poeirão danado, eu acostumado com praia, aquela turma toda, violão, farra, aquela bagunça. E você vem pra Brasília, deixando todas as pessoas, amigos, namorada, tudo lá, foi assim terrível. Mas aí a gente vai se adaptando, né?

 

P/1 – Descreve como é que era a cidade, o que constituía a cidade, quais eram os bairros que já...

 

R – Não, tinha. Já existia praticamente todos os bairros que existem hoje. Guará, Guará I, Guará II, Taguatinga, Núcleo Bandeirantes, já existia tudo. Eu vim morar no plano, no primeiro prédio do plano piloto, era a uma quadra do Banco Central. Foi construída para os funcionários do Banco Central. Viemos morar num local privilegiado, na 102 Sul. Mas era assim um marasmo danado. Aquela turma que ficava acostumada em praia, aquela confusão toda, ficava reduzida à turminha do bloco, sabe? Então era só reunir, tocava violão embaixo do bloco, saía num barzinho pra tomar uma cerveja, uma coisinha assim. Jogava futebol, ainda jogava naquela época... Ia beber, foi um dos lugares que deu mais, convergava (?) mais o pessoal, né, o pessoal do banco e aí já…(?) Mas foi terrível. A mudança foi muito pesada pra mim. Eu senti muito.

 

P/2 – Como ficou o namoro nisso?

 

R – É, rapaz. Foi complicado, viu? Porque era aquela paixão inicial. Aquele negócio forte demais, aquele início de namoro. Quando eu terminei meu segundo grau, no Elefante Branco, eu ia, passava seis meses lá. E quando eu passei no banco, que foi em 76, eu terminei em 74 o segundo grau, eu fiquei dois anos praticamente assim. Passava três meses lá, quatro meses ela vinha, eu ia, ela vinha, eu ia... E ficou nesse negócio até ficarmos noivos e casarmos em 78. Mas foi pesado. Foram seis anos assim de ida e vinda de Itapemirim. Eu conhecia até os bancos de Itapemirim [risos], motorista, tudo. A estrada, curva por curva, cara, você não imagina como era difícil isso.

 

P/1 – Era de terra a estrada?

 

R – Não, não era estrada de terra, mas não é essa coisa que é hoje, né? Aquela estradinha sem acostamento, arrochadinha, buraqueira danada, onde levava 22 horas pra chegar no Rio.

 

P/1 – 22 horas?

 

R – Hoje você faz em 14, 15 horas, né? No ônibus-leito, tudo, mas naquele pé-duro, era duro. Mas valia a pena. [risos]

 

P/1 – Com certeza.

 

P/2 – O senhor fez curso superior?

 

R – Fiz. 

 

P/2 – Qual curso?

 

R – Administração.

 

P/2 – Aqui em Brasília?

 

R – Aqui em Brasília. Terminei inclusive agora. Eu já tinha largado dois cursos no caminho, com negócio de viagem, banco. Fiz um logo quando terminei em 74 meu segundo grau. Até larguei por conta que eu estava no Rio, né? Fiz a prova, passei e tal, só que eu estava no Rio. Falou: “Ó, vem fazer a matrícula.” Falei: “Não, vou não.” E eu não vim. Eu larguei pra lá e fiz a de Economia, passei também, larguei aí por conta de muitas viagens de banco, esse negócio todo e agora, por fim, resolvi, falei: “Tem que terminar o curso, não é possível, né?” Aí comecei e terminei esse ano agora, em dezembro eu concluí o curso de Administração.

 

P/2 – E esse período da faculdade, foi...

 

R – ...cansativo, né? Você fazer uma faculdade com 50 anos não é mole não 

 

P/1 – Mas também vira o líder da turma, às vezes, não é?

 

R – É. É o jurássico, né?[risos] Tinham outros colegas também, mais ou menos da mesma idade. Umas duas, três pessoas na mesma idade que eu. Mas é cansativo, você termina, uma experiência de bancário já ali pesada. Adoro o que eu faço, mas cansa, né?

 

P/1 – É uma demanda grande...

 

R – É muita demanda, mas é muito bom trabalhar na Fundação.

 

P/1 – A gente vai falar só da Fundação daqui pra frente. O que te levou a prestar o concurso do Banco do Brasil?

 

R – Papai já era do Banco Central. Então aquele negócio de você sempre puxar um bocadinho a sardinha, né? Na época eu fiz um concurso para o Banco Central e Banco do Brasil. E eu passei nos dois concursos, tanto Banco Central e Banco do Brasil. E eu perguntei até pro papai, como tinha os dois bancos à disposição pra assumir e o Banco Central na época era pequenininho. Eram só uns poucos funcionários aqui em Brasília e pela capilaridade do banco, pela facilidade que você tinha dentro do banco, e tem ainda hoje, mas não tanto como há trinta anos de você poder, em qualquer agência, ser adido. Essa capilaridade que o banco tem, se você quiser mudar pro Rio, você vai, em qualquer lugar do país você tinha um emprego, em qualquer agência que você quisesse como adido, como pedir transferência. Banco Central, não. Banco Central é Brasília e Rio, né? Então ele me aconselhou na época que “Bom, filho, eu te oriento que você fique no Banco do Brasil.” E assim eu escolhi o Banco do Brasil e aqui estou até hoje.

 

P/1 – Que ano que foi que você entrou, Ricardo?

 

R – Eu entrei em 1976.

 

P/1 – E fazendo o quê?

 

R – Eu entrei no Departamento de Estatística. Fiquei no departamento até 1989. De 89 a final de 91 eu trabalhei no Deape, Departamento de Comercialização de Produtos Agropecuários e no início de 92, me chamaram pra Fundação. Aí eu fui pra Fundação e até hoje eu estou lá.

 

P/1 – Eu queria que você falasse... no começo que você fala do banco... Hoje a gente tem muita informatização, né? Queria que você falasse um pouco dos processos, como é que era...

 

R – Do início?

 

P/1 – Isso. Do início.

 

R – Nesse tempo o Departamento de Estatística que eu trabalhava, era a área rural do banco. E as informações que nós elaborávamos em cima de um boletim de acerto eram informações vindas das agências dos créditos rurais do Banco do Brasil. Então todas as informações vinham e nós cadastrávamos numa ficha manualmente e isso era processado. Logo após foi criado o Projeto Sky, que foi a parte de informatizar esse sistema. Depois eu fiquei oito meses no Rio, de adido lá no Cesec [Centro Eletrônico de Serviços de Compensação], no Andaraí. Praticamente essa parte de informática foi feita aqui em Brasília, evidentemente, só que nós ficamos lá fazendo um enxoval para encaminhar às agências, sabe? Enviando os novos formulários e orientando as agências como proceder a partir daquele momento com essa parte da informatização desses documentos. Aí fiquei oito meses lá e retornei a Brasília, continuei no departamento trabalhando em várias áreas e no Departamento de Estatística, mais voltada aí já com os relatórios (RUH?) e (IMD?), que chamavam, eram relatórios rurais e industriais, né, financiamentos como faziam na área rural e industrial. E aí gerava uma série de informações que a gente prestava pro banco inteiro e fiquei no departamento até 1989. O departamento foi extinto e eu fui para o DEAPE. No DEAPE eu trabalhei na parte de comercialização do trigo, (CETRIM?), que era um departamento que era no Rio Grande do Sul. Comercialização de trigo. E fiquei também nessa área, a parte mais contábil inclusive. E nessa época eu fiquei, trabalhei no (SEDE-1?), dois anos e lá fui chamado pra Fundação. 

 

P/1 – Pode ser uma pergunta boba, de leigo, né? Pra gente estar registrando mesmo. Por que o Banco do Brasil investe tanto assim e financia tanto os empreendimentos na área rural?

 

R – Porque é a praia do Banco do Brasil. O Banco do Brasil sempre foi tido como um dos maiores, o maior banco rural do mundo, né?

 

P/1 – Do mundo?

 

R – É. O Banco do Brasil sempre foi o maior investidor na área rural. Até porque você vê a capilaridade da agência, o Banco do Brasil tem agência em locais que nenhum outro banco no país tem, né? Então por isso que ele era tido, e as linhas de crédito do banco sempre foi voltadas para o produtor. A ajuda mesmo, aqueles financiamentos para o produtor rural. Então sempre foi muito forte essa parte rural, essa parte agrícola do Banco do Brasil. 

 

P/1 – Tá. Entendi.

 

P/2 – Voltando um pouquinho. Em 76, passou no concurso, e agora? Como é que você encarou aquilo ali, aquele momento, agora tem um emprego?

 

R – É a realização do sonho, né, cara? Aquele negócio, o Banco do Brasil sempre foi... Hoje em dia eu acho que ainda é, está tendo concurso do banco agora e eu acredito que você vai ver o número de pessoas que vão se inscrever, porque é a segurança, né? Eu já vendo papai sempre trabalhando em banco, tivemos uma vida boa, graças a Deus, não passamos sufoco assim na vida. Papai sempre teve um emprego razoável, depois que ele entrou pro SUMOC no Banco Central, a coisa melhorou muito. Mas eu não me lembro daquela fase da febre amarela que ele trabalhava. Era muito pequeno. Mas não me lembro de ter passado necessidade na minha vida. Sempre tivemos praticamente tudo, graças a Deus, tudo, sabe? Mas essa foi a realização, né? Em 76, quando eu passei, era tudo o que meu pai queria. “Meu filho está no Banco do Brasil”. E eu também me senti seguro com isso. Era “o” emprego, né? E continua sendo “o” emprego.

 

P/1 – Você lembra do que você fez com o seu primeiro salário?

 

R – Eu lembro. Eu acho que eu lembro. Eu comprei uma casa. Dei de entrada numa casa no Valparaíso. Foi logo no início, um dos primeiros salários, eu já comprei, um aplan (?), né? Naquela época, em 70, já está de início de 76, já estava pensando em já ficar noivo, aquele negócio todo. Já comecei a investir nisso. Casei em 78 e morei na casa dos meus pais durante um certo tempo até ficar pronta a casa no Valparaíso e mudei. Logo, fui o primeiro morador do Valparaíso 1. [risos]

 

P/1 – O que? O primeiro morador ou um dos?

 

R – Fui um dos primeiros mesmo. Entregou a chave, eu entrei.

 

P/2 – Como é que era o Valparaíso naquela época?

 

R – Nada! Não tinha nada. Nada, nada, nada... Era um nosso Deus-me-livre. Não tinha nada. Duro, né? Eu tinha um carrinho Fusquinha 1300 L, me dado pelo meu sogro. Não sei se você conhece o Valparaíso, conhece? Aquela etapa um, aquela primeira esquina, quadra 13, casa 16. Nunca me esqueço. Aí entramos, passei o primeiro Natal, nós mudamos no final do ano. Primeiro Natal com um franguinho na mesa, uma vela acesa e acabou a luz, olha essa só. Mas foi bom demais. Aí meu garoto Leandro, nasceu em 80, aí logo no início foi difícil ali, porque Regina ficava sozinha em casa com ele. E era relativamente longe, a estrada que passava era ruim também. Ônibus é uma tristeza, né? Você ir pra rodoviária pegar ônibus é uma dificuldade, era ônibus pra ocidental, pra Lousiana. Eu chegava em casa um bagaço. Aí eu falei: “Bom, vou de carro”. Mas carro todo dia não aguentava. Aí eu pegava o meu fusquinha, parava e aqui rodando Valparaíso todinha até encher o carro. Enchia o carro de coisa, custeava a minha gasolina e ia tranquilo, ia e voltava. E na volta fazia a mesma coisa. As pessoas que eu levava já deixavam mais ou menos acertado. Então eu vinha ali no eixinho, botava uma plaquinha no carro, “Valparaíso I,” [risos] e vinha recolhendo todo mundo, sem vergonha nenhuma e fiz isso muito tempo. Fiz e deu pra viajar e custear a gasolina, me dava um certo conforto e eu chegava em casa mais rápido, né? Regina e Leandro sozinhos em casa, mas foi muito bom. Etapa muito boa de vida também.

 

P/1 – E a sua esposa estranhou de ter saído do Rio pra cá?

 

R – Ela?

 

P/1 – É.

 

R – Estranhou porque é aquela separação, a gente estava começando, já namorando, tudo. Nós casamos em Niterói e viemos morar em Brasília. Trouxe ela pra cá, mas _____ também não. Ela estranhou muito. Quem mora no Rio estranha, né? Vir pra cá... Só que eu vim numa situação diferente da dela. Ela veio pra cá já com família, com a gente junto. E aí foi muito difícil. Toda a largação da terra onde você nasce, o teu chão, né? Vir para um lugar longe da família, ela filha única, os pais também sentiram muito a falta dela lá. Mas deu tudo certo. 

 

P/2 – Como é que você vê Brasília hoje? Do dia que você chegou em 70, no momento em que você casou e foi pra Valparaíso, hoje. O que você sentiu na cidade? Qual o seu sentimento hoje? Você voltaria pro Rio agora?

 

R – Nunca. Não retorno pro Rio. Estive no Rio agora, aniversário de 80 anos da minha sogra, então juntou toda a família, levei meus filhos, um que estava no Rio, levei pra lá também, fizemos pra ela uma festa bonita. Mas toda a vez que eu vou ao Rio, eu sempre repito isso, eu não volto pro Rio pra morar em hipótese nenhuma. Rio pra mim é passeio, sabe? Passar 15 dias, um mês. Pra você ter uma idéia, nem banho de praia eu tomo. Eu carrego minhas baterias em beira d’água, sabe? Eu prefiro um rio, um lago. Daí eu vou lá e dou um mergulhinho, tal, jogo uma linha na praia, que eu adoro pescar. E só isso, mas eu não volto pro Rio. A violência é muito grande, você não tem segurança. Brasília hoje é uma cidade maravilhosa. Isso aqui é um paraíso. Eu acho que eu não saio de Brasília, mas nunca. Pode até acontecer, você não sabe o dia de amanhã, mas aqui eu quero terminar os meus dias. Uma cidade tranquila de morar, qualidade de vida excelente. De 70 que eu cheguei aqui, pra cá teve mudanças. Morava de frente pro eixinho e se passava um carro, um minuto depois passava outro. Aí passava outro pra lá. Hoje em dia, se botar o pé na rua, você é atropelado a qualquer segundo. [risos]

 

P/1 – Então, vamos falar agora da Fundação. Quais foram as circunstâncias que te levaram à Fundação. Teve um convite...

 

R – Teve um convite.

 

P/1 – ...como é que foi isso, Ricardo?

 

R – Eu trabalhava no DEAPE e tinha um grande amigo chamado Guizo e ele me convidou. A gente sempre saía, éramos muito amigos e tal e teve uma vaga, abriu uma vaga de assessor na Fundação e ele me convidou. Fui, fiz uma entrevista e me chamaram. E lá estou. 

 

P/2 – Qual que foi o ano?

 

R – Eu estou na Fundação desde 1992. Foi final de 91, início de 92. E assim ele me convidou, fui, fiz a entrevista, e graças a Deus eu estou, porque eu acredito que não exista lugar melhor dentro do Banco do Brasil. A gente fala porque aquilo ali não deixa de ser banco, né? É um lugar maravilhoso de se trabalhar. Eu gosto muito do que eu faço.

 

P/1 – Quem que te convidou mesmo?

 

R – Guizo. Antônio Guizo. 

 

P/1 – E o que ele fazia na Fundação nessa época?

 

R – O Guizo era assessor na Fundação nessa época. Era chefe de uma área na Fundação que eu não me lembro também. Esses detalhezinhos eu sou meio ruim de...

 

P/1 – Não tem problema. E o que estava acontecendo na Fundação naquela época? Você pode falar um pouco? O que você pode falar? Como é que estava estruturada a Fundação...

 

R – Olha, eu entrei já fazendo análise de projetos. Lógico, existe diferença de como os projetos chegam, a parte operacional mudou algumas coisas, né? Formulários, a gente naquela época não tinha computador, as análises eram feitas todas naquela máquina elétrica Line SE. E hoje em dia, quando chegou o primeiro computador inclusive, ninguém queria mexer no bicho, eu falei: “Não, eu prefiro minha máquina elétrica, deixa ele quieto aí” [risos] E o negócio era meio complicado, que era tudo feito na máquina. Pareceres e cartas e tudo. Mas basicamente era o mesmo processo que a gente está hoje, análise do projeto.

 

P/1 – No que consiste a análise de projetos?

 

R – Que... a análise em si?

 

P/1 – É.

 

R – Bom, você está falando o trabalho da análise.

 

P/1 – Isso.

 

R – Bom, a gente tem um formulário de proposta, um modelo padrão da Fundação. O que faz a Fundação hoje não está aberta para colhimento de pleitos. A Fundação hoje trabalha com projetos estruturados pela própria Fundação. Mas o que se trata a análise: nós encaminhamos, disponibilizamos este modelo pra beneficiária e ali nesse modelo tem a apresentação, onde ela coloca os dados do município, os dados da associação ou da entidade dela. Aí tem ali informações do município, da própria beneficiária, justificativa do projeto e objetivos diretos, objetivo geral, objetivo específico e metas. E dentro da proposta do foco da Fundação, a gente faz as análises. Tem toda a documentação que ela tem que apresentar, orçamentos… Recurso próprio não é necessário licitar os projetos, não precisa porque não se trata de recursos públicos, apresentação de orçamentos. Ali sim a gente faz, através de Internet, consultas de preço, e a gente tem, internamente, meios de verificar se aqueles preços estão de acordo com os preços de mercado, parte de obra civil, quanto é que está custando o metro, de obra civil em cada Estado. A gente faz isso, se o que eu estou pedindo está de acordo com o foco da Fundação, isso vai para a instância superior e o projeto é deferido. Mas simplesmente é um estudo do projeto, daquilo o que eles nos encaminham, qualquer informação a gente torna a ligar para o beneficiário para pedir novas informações até que dê subsídios para que a gente possa fazer uma análise, um estudo melhor do projeto, faz um parecer e encaminha para o comitê fazer o deferimento do projeto. 

 

P/1 – Em 92 ainda não tinha os programas estruturados, né? Eram projetos...

 

R - Não. Eram projetos isolados. A Fundação trabalhava como um grande balcão, onde qualquer instituição poderia encaminhar projetos. Ele entregava o projeto na agência, a agência encaminhava à Fundação. Chegando na Fundação, nós tínhamos várias áreas, como eu já disse: educação, cultura, assistência à comunidade urbana (?) e rural, recreação e desportos e, dependendo do que era solicitado no projeto, ele era encaminhado para uma área e ali era feito o estudo, a análise do deferimento ou não, de acordo com o interesse da Fundação de atender ou não. Aí nós víamos, no decorrer dos anos, que isso aí era uma metralhadora giratória, você gastava todos os recursos e não atingia aquilo que a Fundação queria atingir, né? Você faz uma ajuda aqui, uma coisinha pingada, não dá um resultado da forma que queria. Dessa forma, por isso que começamos a trabalhar com projeto estruturado. A Fundação estudando, analisando e criando os nossos projetos. E hoje nós temos essas cadeias, hoje nós trabalhamos com cadeias produtivas na nossa área. Oito cadeias e projetos temáticos, grandes projetos, estruturados pela própria Fundação.

 

P/1 – A gente vai falar disso. Uma coisa que eu fico muito curiosa, Ricardo, é o seguinte: dentro dessa análise de projeto... Até a gente ter aí o real, você tem muita variação, uma inflação muito grande. Como é que ficava a análise de projetos com essa inflação que tinha até então?

 

R – Existe uma cláusula contratual que eventuais acréscimos no projeto, a beneficiária arca com a diferença. Isso depende muito da agilidade dela inclusive. Na época de inflação, realmente era uma coisa muito difícil, então o seguinte: vamos supor que você tem um projeto numa cidade, sei lá, qualquer cidade. E essa associação, que tem que ser uma entidade sem fins lucrativos pra ser beneficiária da Fundação, encaminhou o projeto através da agência. A agência que vai operacionalizar é a agência mais próxima onde será desenvolvido o trabalho. Bom, encaminha o projeto, ele é analisado, a gente preenche os convênios e manda. A partir do momento da formalização do convênio, ela já tem o direito assegurado dos recursos. Na época de inflação era uma coisa meio difícil, porque era coisa complicada, mês a mês era uma coisa estúpida. E a agilidade dela na aquisição dependia dela, porque quanto mais demorava para adquirir os equipamentos, mês seguinte ela comprava uma geladeira por mil, mês seguinte era 1050, deixava era 1100. Agora, existia uma cláusula contratual, existe até hoje, que eventuais acréscimos dos valores, a beneficiária tem que arcar com essa diferença. Deferimos mil, é mil que será concedido para ela, se ela demorar seis meses para adquirir, o problema é dela. Ela vai bancar essa diferença. Pode haver uma suplementação financeira no projeto, tem que haver uma solicitação e tal, e aí de acordo do mérito a gente, às vezes, faz ou não. Suplementa o projeto. Mas a inflação realmente foi um grande problema, mas dependia mais da agilidade da beneficiária na aquisição rápida dos equipamentos do que da Fundação.

 

P/1 – 92 foi um ano em que a fundação teve alguns problemas estruturais, né? 

 

R – Quando?

 

P/1 – 92.

 

P/1 – E está até no site da intranet, né? Que a Fundação ficou fechada.  Então esse “fechada” não é que ela fechou as portas? Ela...

 

R – ...ela teve uma intervenção...

 

P/1 – Isso. Mas assim, mas isso daí parou de ter alguns financiamentos de projeto, você se recorda disso?

 

R – Olha, eu estava muito recente na Fundação. 

 

P/1 – Olha, o que você se recorda dessa época?

 

R- Eu me recordo da intervenção, que teve um interventor na Fundação, que alegaram que tinha algum envolvimento político, alguma coisa nesse sentido. Mas eu gosto de esquecer dessa... [risos] Eu não lembro, eu cheguei era bem recente a Fundação, e a coisa não ficou muito...

 

P/1 – Estava num momento de transição também....

 

R – É, um momento de transição.

 

P/1 – Então vamos lá. E aí tem uma reestruturação, né? Que é realmente para passar para programas estruturais, mas você começou na área de cultura?

 

R – Foi. Eu comecei na área de cultura. Trabalhando na área de cultura.

 

P/1 – Mas já dentro dos programas estruturados?

 

R – Não, eram vários projetos avulsos. Logo quando eu cheguei na Fundação eram projetos de qualquer natureza. Chegava, a gente fazia. Depois eu fui para a área de cultura e trabalhei com recursos da antiga lei...

 

P/1 – Sarney?

 

R – Lei Sarney. Lei Sarney, exatamente...

 

P/1 – Você começou a trabalhar com a lei Sarney.

 

R – Eu trabalhei. Eram recursos que nós tínhamos na Fundação e esse projeto estava na Fundação e nós fizemos um grande projeto e tal pra acabar com esse recurso, ele tinha que ser devolvido para o Ministério da Cultura, e nós idealizamos na Fundação o Projeto Bandas.

 

P/1 – Queria que você falasse um pouquinho.

 

R – Eu e o Jairo Brodi, se não me engano, nós começamos com esse projeto e ao todo foram 327, 357 bandas que nós demos no país inteiro. Foi um projeto muito bonito de revitalização dessas bandinhas de interior. E até hoje ligam lá pra Fundação a respeito do Projeto Bandas. Mas, identificamos bandas de todo o país, mandavam projetos para a Fundação e os projetos eram na revitalização, revitalização não, na compra de instrumentos musicais, o projeto em si era esse, era compra de instrumentos musicais e fardamento. 

 

P/1 – Fardamento?

 

R – É. Sabe aquelas fardas de tocar em coreto, aquele negócio todo? Mas era muito bonito. Eu viajei em algumas entregas de instrumentos em cidades. E era até como um evento, você chegava assim, na cidade, algumas duas ou três eu me lembro direitinho. Você chegava e não esperava, né, de entrega dos instrumentos oficial, prefeito, aquele negócio todo, o presidente da associação musical, o (Deoterpe?), não-sei-o-quê, geralmente essas bandas tem esses nomes. Aí quando você chegava assim, cara, no coreto da praça, aquela banda começava a tocar, como se fosse uma homenagem à Fundação, não a mim. Homenagem agradecendo à Fundação. Rapaz, chegava a arrepiar, era um negócio muito bonito. É um resgate de cultura que, se nós não tivéssemos feito aquilo na época, eu acho que nós teríamos perdido várias e várias bandas no interior desse país. E eu acho que, uma coisa que eu sempre tive na cabeça, foram dois grandes projetos que eu acho que vou fazer isso quando me aposentar. Voltando na revitalização de coretos, que eu acho que é um palco de cultura fantástico. Não é só banda que pode tocar ali. Você pode colocar ali grupos de crianças, bandas, teatro e é um espaço, assim, fantástico que hoje em dia está largado em cidade do interior, que ninguém dá valor àquilo. E são peças assim... lindas, não é?

 

P/1 – Arquitetônicas, né?

 

R – A arquitetura desse negócio, é impressionante como é bonito. E outro, é um projeto que nessas viagens que eu continuo fazendo, que hoje eu estou tocando a cajucultura, no projeto da cadeia produtiva do caju, viajo muito pro interior, principalmente pro nordeste e eu vejo igrejas maravilhosas, sabe? Tem um grande projeto de vida que eu tenho, que se tiver dinheiro e tempo, um projeto que eu gostaria de fotografar igrejas. E fazer um livro de igrejas do Brasil. Você tá em Belo Horizonte, no Estado de Minas, você vai passar dez anos lá dentro fotografando igreja. [risos] Não sei quantas mil existem. Mas seriam aquelas principais, sabe? Principais da cidade, mais importantes, e contar o histórico de cada. Eu acho um projeto legal que eu tenho sempre na cabeça e ainda vou fazer isso.

 

P/1 – Projeto pessoal, né?

 

R – Pessoal, esse é. Quem sabe, eu aposentado, consiga recursos da Fundação para fazer isso.

 

P/1 – Vou torcer. [risos] Ricardo, ainda falando do Bandas... você lembra de alguma cidade que você foi, que te emocionou, dessas assim, do Bandas? Cidadezinhas pequenas...

 

R – Nova Friburgo é uma que eu fui. Sou friburguense, né? E duas bandas de lá, a Euterpe Friburguense e a Campesina, foram duas bandas que nós ajudamos, não por ser de Nova Friburgo, que eu não puxo a sardinha pro meu lado, não, mas chegaram propostas para a Fundação e eram bandas tradicionais e muito conhecidas – que tem um campeonato nacional, já venceu várias vezes, mas não chegou a ter nenhuma toccata que eu não presenciei. Eu já presenciei, me lembro disso da época dos meus pais em Friburgo. E papai e mamãe quando namoravam em Friburgo, no coreto e tal, sempre falavam da Campesina e na Euterpe Friburguense. E hoje, depois eu tive a possibilidade de, na Fundação, poder ajudar essas duas bandas que meus pais ouviram quando eram crianças, namoravam em Friburgo, eles sentavam na praça para assistir a banda tocar e eu tive a possibilidade de ajudar a revitalizar essas duas bandas. Foi, assim, muito gratificante. 

 

P/1 – E o outro projeto da cultura que você acompanhou?

 

R – Na cultura ali foi vários, o grande projeto mesmo da cultura foi esse.

 

P/1 – Bandas.

 

R – Projeto Bandas. Esse aí me tomou uns bons anos de Fundação. Aí terminou o recurso, o projeto foi praticamente encerrado. Aí que começou essa parte da renda. Era um pequeno grupo e fizemos um convênio com o Ministério do Trabalho e Emprego, que foram aportados recursos no Ministério, e começamos a trabalhar em vários projetos, inclusive tinha um plano de trabalho, quer dizer, todo um acerto com o Ministério, e aonde que esses recursos seriam... que tipo de projetos seriam desenvolvidos. E a coisa começou a crescer. Outros ministérios começaram... hoje nós estamos com sete, oito convênios com ministérios, e hoje a coisa já tomou um porte muito grande, já. E a área de que o Sílvio trabalha, que é a Geret  [Gerenciamento de Recursos de Terceiros] recursos de terceiros.

 

P/1 – Agora, que ano começou... esse início, essa gênese, que ano que era mais ou menos?

 

R – Mais ou menos? Em 1998, 1999, ou antes um pouquinho, 1997, 1998. 

 

P/1 – Mas deixa eu te perguntar uma coisa. A gente viu umas fotos ali de uma viagem para uma zona rural, que atolou o caminhão... é de projeto isso?

 

R – É, todas aquelas fotos são fotos de projeto.

 

P/1 – Conta um pouco dessa viagem que atolou, conta um pouco.

 

R – Ali tem fotos de Roulinho de Moura (?), que foi um grande projeto que nós fizemos... é, meu Deus, aí...

 

P/1 – Mas conta da dificuldade de acompanhar esse projeto lá, depois a gente recupera o nome.

 

R – É, esse projeto eu e o Chico fizemos, viajamos parece que à noite. De cada saída, a gente visitava três municípios. Numa foi Cambuçu, no Rio Grande do Sul, Reserva, no Paraná, e Inácio Martins, também no Paraná. Então nós saímos aqui de Brasília, isso já tinha sido identificado, quais municípios que iriam ser atendidos. Nós tínhamos um tripé de ação: eram projetos voltados à educação, à área de cultura e assistência social. Então nós tentávamos vincular, entrávamos no município, identificava quais as escolas, ou hospitais, e a gente tentava fazer um projeto integrado na comunidade. Isso demorava tempo, quer dizer, a gente tinha que ir e voltar com os projetos. Não adianta só visitar. Você ia, entrava na prefeitura ou entrava na agência do banco, levava já em disquete com todos os formulários, e desenhava, fazia todos os projetos lá e já chegava na Fundação com os projetos prontos, aqui já chegava praticamente definido. Porque aquilo que nós trazíamos era aquilo que nós identificamos que era a necessidade da comunidade. E foram construídos projetos excelentes. Homem do Campo, projeto...

 

P/1 – Ah, o Homem do Campo. Mas tem um percalço, né, que vocês atolaram... conta pra gente.

 

R – Ah, meu Deus do céu! Essa viagem que nós atolamos foi uma que eu fiz pra Cruzeiro do Sul, no Acre. E a gente já saiu daqui, foi uma viagem complicada, porque eu já fui primeiro para Cacoal, e a Elisângela... até me lembro da Elisângela, como eu xinguei a Elisângela... aí ela me botou num vôo, eu pensei que eu fosse direto pra, sei lá, pra Porto Velho, mas nada, ela botou num Caravan, é um aviãozinho de oito lugares, eu levei quase dez horas pra chegar em Cacoal. E esse bichinho era pequenininho, porque ele tem uma barriga embaixo, tem um porta-mala embaixo, sabe? Era um aviãozinho da TAM e da BR-FAB. E eu saí daqui, sei lá, oito horas da manhã, cheguei lá no final da tarde, seis horas da tarde. Eu fui xingando a Elisângela até lá. Mas esse bichinho não pode ver uma pista que ele quer descer, ele vê uma pista, e puff! Então é o dia inteiro assim, subindo e descendo, subindo e descendo. Tudo que era aeroporto daqui pra Rondônia, eu acho que eu parei. Mas foi uma viagem legal. Aí chegamos em Rondônia, fizemos... Roulinho (?)de Moura, depois nós fomos pra Cruzeiro do Sul, no Acre. E fomos visitar um assentamento que ficava depois do rio Juruá. Cruzeiro do Sul fica lá na ponta do Acre, lá em cima, quase que no final do norte... leste-oeste, lá em cima. É o último município, se não me engano. Aí fomos visitar uma comunidade no rio Juruá, numa Toyota, numa caminhonete da Embrapa, ou EMATER [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural], um órgão de extensão rural, eu não me lembro...

 

P/1 – ...o INCRA?

 

R – Eu não sei, era um órgão de extensão. E fomos em quatro, eu, o Paulo Sérgio, o técnico e um colega do banco. E eram mais ou menos 20 quilômetros até chegar a esse assentamento, mas era uma estrada de terra, e nessa época chovia muito. E lá é um pozinho, é um barrozinho muito fininho, que sai uma poerinha danada, e quando chove, é uma lama, rapaz, quer dizer, é um negócio terrível. Pra você ter uma ideia, nós levamos, mais ou menos 20 quilômetros, nós levamos quase quatro horas pra passar. A porta da caminhonete era lama, na metade da caminhonete era lama, e ele ainda cismou de rebocar um caminhão que estava atolado, então você imagina o desespero que foi. Você não podia descer porque a porta nem abria direito, que a lama não deixava. Aí começou a esquentar a caminhonete, porque a lama entupiu o radiador, aí tinha que correr no rio, encher uma garrafinha dessa “pet”, fazer um furinho na tampinha, ficar espirrando no radiador para limpar as grelhazinhas, pra poder respirar, poder ventilar e não aquecer a caminhonete. Foi uma tragédia! E aí chegamos lá na comunidade, era uma tristeza danada. O final da BR termina dentro do rio, lá na ponta do país. Mas é muito bonito. Tem assentamentos, matas maravilhosas. Até me lembro num caso, cheguei, tinha uma menina num farmacêutico... não, farmacêutico não... lá não tem médico, não tem nada, era um enfermeiro, sabe, ou nem isso. A menina ali com a boca toda sangrando dentro de um postinho de saúde. Aí, falei: “O que que aconteceu com ela?”. E ele: “Estou arrancando os dentes dela”. Falei: “O que? Você está arrancando os dentes?”. “É, ela pediu porque ela não quer sentir dor de dente, então todo dia ela vem aqui e pede pra arrancar um dente, e eu arranco”. Estava arrancando os dentes da boca da menina todinha, um dente bonzinho, e lá arrancando. Ele já tinha arrancado dois, fora os que ele já tinha arrancado antes. Tem até uma foto dela aí, ela sorrindo com a boca toda inchada.

 

P/1 – Ah, aquela foto...

 

R – Ele estava arrancando os dentes da menina porque ela não queria sentir. Então ela botava a dentadura pra não sentir dor de dente. Eu falei: “Meu Deus do céu, não faça isso!” Não sabe o valor de um dente. E dente sadio, bom, ela queria arrancar os dentes tudinho da boca pra botar dentadura, esse era o sonho dela, pra não sentir dor de dente. São essas coisas que você vai vendo por aí.

 

P/1 – Então, agora, voltando pra agência... Que que é o Homem do Campo? Um projeto muito importante, né?

 

R – É, como eu te falei, era esse tripé. Eles visitaram 60 e poucas cidades, dividiram em grupos, né, no caso eu viajei com o Chicão e viajei com o Paulo Sérgio.Com o Chicão eu fui pro sul, com o Paulo Sérgio eu fui pro norte. O projeto consistia nisso, era você entrar no município, identificar nessas áreas projetos que de preferência se interligassem. 

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – Basicamente era isso. Um projeto muito bonito. Foi um dos grandes projetos da Fundação.

 

P/2 – Voltando um pouquinho.

 

R – Vamos lá.

 

P/2 – Estou curioso aqui pra saber como é que é sair dessa área administrativa do banco, do dia-a-dia do Banco do Brasil pra, de repente, estar fazendo esse tipo de projeto pra Fundação Banco do Brasil. Como é que mudou o seu cotidiano? Sair da parte administrativa para assumir um trabalho na Fundação Banco do Brasil. Sentiu muita diferença no dia-a-dia?

 

R – Senti pra melhor, cara. Eu não sabia exatamente o que era a Fundação, mas era tudo aquilo que eu queria fazer no banco, sabe? Aliás, trabalhar com projeto social é muito bom, é gratificante. No dia-a-dia você está ajudando pessoas, sem interesse, sem absolutamente nada, e você vê resultados, sabe? Com 10, 12 anos de Fundação, eu não imagino quantos projetos eu já visitei e vi. E pude, através da Fundação, melhorar a qualidade de vida das pessoas. É um negócio que você não imagina o que é chegar num município e ver uma escola completamente quebrada… tem foto que vocês podem até ver e o assoalho completamente inclinado, a criança estava estudando em cima de uma carteira, era um negócio absurdo. Você derrubar aquilo ali, botar uma escola nova, né? Só um sorriso de uma criança dessa não tem... não paga. Então quando eu saí do banco pra Fundação, não sabia o que era a Fundação, eu sabia que trabalhava com projetos sociais. O braço social do banco. Mas eu não tinha ideia de que eu poderia me sentir tão bem fazendo isso, sabe? Acho que se você trabalhasse na Fundação veriam o que era. É muito bom.

 

P/1 – E essa vontade de conhecer o Brasil, assim, acompanhando esses projetos?

 

R – É fantástico. Eu sempre digo, eu conheço praticamente o país inteiro, sabe? Alguns estados, duas ou três capitais do país, mas interior eu conheço muito. Não conheço capital, conheço mais interior que é o foco, o objeto dos nossos projetos é atender o produtor rural pequeno. Se eu estivesse no banco em outra área, não teria essa possibilidade. Essa facilidade de você ir, conhecer, ver os projetos de perto. É isso que faz você dar valor a essas coisas, sabe? Dar valor ao ser humano, de você ajudar as pessoas, é muito bom. É gratificante demais da conta, não tem preço um negócio desse. Não tem salário do banco ou da Fundação que pague a satisfação de você ver um projeto, você ter melhorado uma pessoa. Não precisa ser uma comunidade, não. Porque é difícil você trabalhar com pessoas, né? Mas basta saber que uma pessoa melhorou de vida, todo o dinheiro investido valeu a pena.

 

P/1 – Mas qual era a receptividade da comunidade quando vocês chegavam ali? O que eles...

 

R – Quando chegavam não, quando chega, né? Hoje em dia, eu estou tocando a Cajucultura. A cadeia produtiva do caju em cinco estados do nordeste. O nordeste é um negócio meio complicado, é diferente do sul. As pessoas têm um sentido de associativismo, de cooperativismo mais forte que o do pessoal do nordeste. Não que não tenha, em alguns lugares tem. Mas eu tenho visto muito no nordeste, até porque, acho que é o problema do coronelismo. Aquele negócio: o cara cruza o braço, se você não mandar fazer, ele não faz, sabe? Só faz reclamar, pedir, pedir, pedir... e não tem. Às vezes você não vê as pessoas brigarem por aquilo. Você chega, você monta uma unidade de castanha, por exemplo, e fala: “Olha, essa unidade aqui é de vocês. Vocês são donos disso aqui.” Eles não se sentem donos daquilo. É um troço gozado. Por mais que a gente trabalhe nessa parte de associativismo, na parte de conscientização, de criação, de apoderamento daquilo ali, eles não têm essa. Está tendo um problema muito grande hoje, com esse projeto da cajucultura, principalmente no Ceará. No Rio Grande do Norte a gente está tendo menos, e na Bahia muito menos agora, porque o pessoal do GTA está entrando, fazendo um trabalho de base muito bom, mas tem isso. Eles não conseguem se sentir donos da coisa. Eles criam associações simplesmente por criarem, pra pegarem recurso do governo. Mas não tem a noção do que é a coisa. Mas estamos aí batalhando, brigando, eu não me aposento enquanto não ver esse negócio rodar. [risos]

 

P/1 – Que ótimo! Mas vamos voltar um pouco então. Queria que você detalhasse mais, a origem da área de renda, que você falou que primeiro surgiu, começou...

 

R – ...com um convênio.

 

P/1 - ...com um convênio... 

 

R - ...com um convênio que fizemos com o Ministério e foi se avolumando. Os projetos, as demanda foram sendo cada vez maiores. Era um, dois, três funcionários só organizando isso, a coisa começou a trazer mais, agregando mais gente, até que formou a auditoria. 

 

P/1 –Vamos começar então a definir coisas. Como se define uma cadeia produtiva? 

 

R – Como eu defino uma cadeia produtiva?

 

P/1 – É, o que é uma cadeia produtiva?

 

R – Bom, uma cadeia produtiva é, vamos dizer assim, em três fases: a parte da produção, a parte da comercialização, a parte do beneficiamento e comercialização do produto. É quando você começa a trabalhar uma associação na base dos produtores, onde ele está plantando, vamos botar por base o caju. Você trabalha a roça dele, a parte de custeio, a melhoria da copa, a melhoria da planta em si, aquela parte de produção. A segunda parte é a parte de beneficiamento da castanha. Ele pega, já vai pra uma fase da castanha pra se tornar em amêndoa, e a parte de comercialização que você coloca a castanha no mercado. Então são essas três etapas: produção, beneficiamento e comercialização. 

 

P/1 – Então aí o grupo tem que ser associado, cooperativas normalmente...

 

R – Geralmente cooperativas ou associações. Este projeto que nós estamos idealizando do caju, ela funciona da seguinte forma: nós implantamos, revitalizamos e construímos minifábricas de castanha de caju, vai ser em cinco estados, começamos no Ceará. O que acontece? Identificamos que a cajucultura no Ceará, no nordeste, é um dos maiores produtos de comercialização, de exportação do nordeste. E o problema de atravessador nessa área é muito grande. Então, tudo que era produzido, ficava praticamente na mão do atravessador. E a moeda lá é a castanha. Então, através de um projeto feito pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), comprando tecnologia. Em 2001, um dos cinco prêmios de uma tecnologia de melhoria do aproveitamento da castanha foi da Embrapa. E com o advento do Fome Zero, com a entrada do Governo Lula, a Fundação participou do corpus institucional. Várias empresas para trabalhar e ver aonde que nós poderemos ajudar o Governo no Fome Zero. Foi montado um grupo de parceiros com Banco do Brasil, Fundação, Caixa Econômica, Sebrae e várias outras entidades. E fizemos várias reuniões para tentar achar uma forma de ajudar o Governo dentro do Fome Zero. As empresas participaram nesta ação. E nessas reuniões, a Embrapa já tinha ganho com o prêmio de tecnologia social a revitalização de minifábricas de castanha-de-caju. E demos a ideia, como é que nós vamos fazer, qual é a ação que nós vamos tomar, e falamos: “Olha, nós temos um banco de tecnologia disponível, tem várias ações que podem ser aproveitadas para ajudar o governo nessa etapa”. E aí escolhemos que faríamos em cima da revitalização dessas unidades. Que o foco era norte e nordeste do país. E como a castanha-de-caju é um dos maiores produtos de exportação do nordeste, resolvemos atuar com isso. E a ideia principal foi essa, vamos revitalizar as unidades, as minifábricas já existentes que eram coisas feitas no fundo de quintal, sem critério nenhum, era uma coisa. E a tecnologia da Embrapa era exatamente essa, a melhoria, tanto na parte de equipamento quanto na parte de obra civil, mais a parte lógica de produção. Eassim começamos este projeto da Cajucultura nesses cinco estados. 

 

P/1 – Tem outros projetos que estão ligados à área de renda, Projeto Berimbau...

 

R – “Berimbau” é um projeto que nós fizemos com a Costa do Sauípe. Construíram o empreendimento e em torno de lá virou um bolsão de pobreza enorme, que sempre foi aquilo ali, sempre Porto de Sauípe, são vários vilarejos que existiam ali. A linha verde, aquela que liga Salvador a Sergipe, é um litoral maravilhoso e uma pobreza muito grande, aquilo ali era. Colocaram o empreendimento de Sauípe e o entorno continuou uma pobreza danada. Então você vê dólar rodando, um empreendimento maravilhoso, de primeiro mundo, e em volta dali uma pobreza tremenda. Então a Fundação, juntamente com a Costa do Sauípe, idealizou oito projetos para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas que estão em torno, e não só melhorar como trazer esse pessoal para trabalhar no próprio Sauípe. Essa era a ideia de você fazer curso de treinamento na parte de hotelaria, nessa área de turismo, principalmente, para capacitar esse pessoal do entorno para trabalhar. Sauípe fica a 70 quilômetros de Salvador, a mão-de-obra toda vinha de Salvador pra lá, então porque não desenvolver projetos na área de capacitação, capacitar esse pessoal todo pra trabalhar no empreendimento. E assim foi feito. Fizemos vários cursos, eu não sei os projetos de cor. Eu e o Lino estamos com um projeto agora da usina de adubo orgânico, que era um grande problema também, que jogavam no lixão aberto e lá são cinco grandes redes de hoteis que trabalham dentro de Sauípe. Então o volume de lixo orgânico é muito grande. Aí construímos uma usina. Então todo o orgânico de Sauípe, que era jogado no lixão, hoje é trabalhado nessa usina e aí ele se torna (_____) inclusive. A usina está pronta, teve um problemazinho lá que nós fizemos inclusive uma suplementação financeira para melhorar o processo produtivo e é uma usina de compostagem, todo o lixo orgânico vai pra lá, é tratado e volta. A ideia é ele voltar, uma grande parte ser absorvida pela própria Sauípe. Lá tem campos de golfe, uma área imensa de gramados, e o próprio resultado é comprado pela Sauípe, para colocar em canteiros, em gramados. É imenso o espaço. Este é um dos grandes projetos que nós tínhamos lá. 

 

P/1 – Tem uma diferença, também é uma cadeia produtiva.

 

R – Não, a gente tem o Projeto Berimbau, que é um projeto temático. 

 

P/1 – Temático.

 

R – Temático. Lá nós temos projetos das cadeias produtivas, projetos temáticos e projetos-N, que a gente fala, que são projetos que não estão dentro dos temáticos e das cadeias. Dentro das cadeias nós trabalhamos a cajucultura, mandicultura, a ovinocultura, a fruticultura...

 

P/1 – ...mel...

 

R – ...mel...

 

P/2 – ...a borracha...

 

R – Não, borracha era o _____ que estava no temático e tem mais um. Mel... mandioca eu falei?

 

P/1 – Falou.

 

R – Depois eu digo mais qual é essa outra. [risos] E os temáticos são projetos, por exemplo, como o “Berimbau”. São projetos focados num espaço. É um tema que nós achamos, é por isso que chamamos de temático.Vamos agir naquela região e desenvolver naquela região, para fazer um grande projeto. Como nós temos no Vale do Urucuia. 

 

P/1 – Fala um pouquinho desse projeto pra gente?

 

R – Olha, o Urucuia, eu não tenho ele muito afiadinho não, sabe? Que ele são várias ações dentro do Urucuia, é um projeto muito grande. 

 

P/1 – Mas aonde ele está locado, onde ele acontece?

 

R – É aqui, é perto de Arinos. Nessa região aqui do norte de Minas aqui. Não fica longe não. Arinos, Urucuia, ali pra cima. É uma região muito grande, muito pobre, região de quilombolas, que precisa realmente de muito apoio. E estamos fazendo ali também, Urucuia é um projeto temático, o tequibora (?) era um projeto temático, mas ele saiu, não está mais no foco da Fundação para esse ano. “Hortas” também saiu, que era um projeto temático também. “Agricultura Familiar”... Deixa eu ver outro... “Agricultura Familiar”, “Horta”, “Tequibora”, “Berimbau”, “Proninc,” que são incubadoras de cooperativas e – eu devia ter trazido um colinha, não é? – [risos] mas é isso.

 

P/1 – A gente complementa...

 

P/2 -     Qual o seu papel dentro da Fundação, nesse sentido da articulação das cadeias produtivas?

 

R – Bom, meu papel de gerente, eu tenho que administrar, gerenciar toda essa parte de contatos. Eu saí, não estou trabalhando mais na parte de análise, evidente, porque não dá tempo, porque é muito projeto. Mas pessoalmente, hoje eu ainda estou trabalhando diretamente com a cajucultura. Os papéis dessa articulação, contatos com agências e solução de problemas, viagens, projetos que estão com dificuldade eu vou a campo, tentar ver o que está acontecendo. E a parte de acompanhamento de projeto, liberação e análise fica com a parte dos assessores. 

 

P/1 – Tem algum contato com o pessoal do movimento do GTA [Grupo de Trabalho Amazônico] e do ASA [Articulação no Semi-Árido]?

 

R – ASA é do semi-árido, não é isso?

 

P/1 – Semi-árido. Articulação do Semi-Árido.

 

R – Articulação do Semi-Árido. O ASA está fazendo um trabalho com isso na mandiocultura. O GTA é através da Unitrabalho, é um projeto que nós temos. O GTA é um projeto de auxílio técnico e de assessoramento. Nós contratamos a Unitrabalho, que contratou esses técnicos para assessorar a Fundação dentro das cadeias produtivas. Esse trabalho que estão fazendo, eles vão a campo também, fazem todo aquele trabalho de base, de identificação, de trabalho com as associações. Trabalho de base mesmo, na parte de associativismo, cooperativismo, identifica as ações, regulariza a parte ambiental, vê a parte ambiental dos projetos, o que afeta ou não, a parte documental, auxilia as associações à montagem de documentação, isso é todo o trabalho que o GTA faz. 

 

P/2 – Existe nesta proposta das cadeias produtivas a participação das agências do Banco do Brasil próximas à localidade? Existe alguma proximidade?

 

R – As agências, pra gente, são o braço operacional. Não conseguiríamos trabalhar sem as agências do banco. Elas são os nossos olhos, nossos braços na ponta. Ela que faz a assinatura do convênio. É por isso que a gente coloca as agências mais próximas do desenvolvimento do trabalho para que elas possam fazer o acompanhamento in loco dos projetos. Não adianta ter uma agência, fazer um projeto lá e colocar uma operacionalizando aqui em Brasília. Por isso a gente coloca a agência mais próxima do desenvolvimento do trabalho, que ela execute, operacionalize o projeto. E ela vai, é obrigação dela. Quando necessário, a Fundação pede para mandar algum funcionário, para ver como é que está o andamento do projeto, porque a gente não pode se deslocar para todos os projetos. É humanamente impossível e você não pararia em Brasília visitando esses projetos. Então as agências fazem esse papel. São os nossos olhos lá na ponta.

 

P/1 – Tem alguma agência, alguma pessoa de alguma agência que seja um entusiasta da cajucultura? Tem alguma coisa da cajucultura?

 

R – Tem, tem...

 

P/1 – Como é que eles recebem o projeto? Eles têm vibração por isso, como é que é, Ricardo?

 

R – Eles sempre recebem muito bem. Primeiro que a gente chega num projeto desse, você não tem que dizer que nós vamos fazer isso, porque primeiro você deve perguntar se eles querem receber aquilo. Tudo que é descido goela abaixo, o negócio é complicado, né? Você fala: “Não. Nós vamos botar esse projeto aqui.” Geralmente essas coisas não dão certo. Tem que ter todo um trabalho, esse trabalho que o GTA está fazendo de identificar, de fazer seminários regionais, municipais, de juntar todo mundo, explicar como é que a coisa funciona, contratar – se for o caso, nós temos a Universidade Federal do Ceará, que tem uma metodologia de entrar em cada associação, sentar com os associados, explicar tim-tim por tim-tim como a coisa funciona, sabe? – Agora elas geralmente aceitam muito bem. Agora, na cabeça deles... é isso que eu estava falando, o grande problema é dinheiro. Isso aí eu acho que é a mola-mestra de tudo, né? O que eles querem é o imediatismo, eles só entendem que querem ver o dinheiro no bolso. Esse é o problema do atravessador na cajucultura, porque o atravessador pega um quilo de castanha, é um real. Custa um real. Hoje em dia está valendo isso. E ele junta 60 quilos de castanha, ele pega o fruto, que é o pedúnculo, eles não dão valor. Eles deixam o fruto cair...deixam o caju. Por que o fruto é a castanha, não é o que a gente come, a parte comestível é o pseudofruto. O fruto é a própria castanha. Deixa cair, tira, junta. Eles têm um saco de 60 quilos, chega o atravessador, dá R$60 reais, ele pega e entrega. Acabou de resolver o problema dele de dinheiro, né? Vai lá, compra a cesta básica dele e resolve. Mas ele não entende que esse saco de 60, se você tirar a castanha que você come em latinha é cinco por um; a cada um quilo, ele faz duzentos gramas de castanha, a cada cinco quilos ele faz um quilo de amêndoa. Só que essa amêndoa, que custaria pra ele cinco reais, depois de beneficiada, em Fortaleza, no mercadinho lá da Praia de Meireles, custa de R$ 17 a R$ 20 reais. Então o grande problema é esse, é o imediatismo. Ele não pensa que se esperar um pouquinho, três, quatro, cinco meses para poder produzir, cortar a castanha e ele mesmo entrar na linha de fábrica e fazer o trabalho, ele vai ganhar três, quatro vezes mais. Mas se chega o camarada na hora, compra a castanha e ele não tem um dinheiro na frente para fazer nada... Às vezes compram “na folha”, que eles chamam lá. 

 

P/1 – Na folha?

 

R- Comprar na folha. Quanto você produziu ano passado? Produzi três toneladas. Ele chega e fala: “Ó, toma aqui, R$ 3 mil reais.” E lá é de boca,  não tem esse negócio de assinar papel, não. O que ele produzir, com base na produção do meio do ano anterior, o atravessador chega e R$ 3 mil reais, a safra dele já está vendida na folha, antes de dar o fruto. Ele vai se endividando, e os R$ 3 mil, que era pra passar o ano, ele já entregou no ano anterior. No ano que vem ele já não tem mais dinheiro para nada, absolutamente nada. É muito difícil trabalhar, eles entenderem que se eles esperar um pouquinho, se juntar, a parte de cooperativismo mesmo, associativismo, se juntarem, a coisa funciona. 

 

P/1 – Ricardo, nesses lugares que estão implementados as mini-fábricas, as cooperativas, a associações, tem resistência do atravessador?

R – Tem. Ainda existe. Nós estamos tentando acabar com isso, mas ainda existe. Nós tínhamos um grande problema de quebra de safra nestes dois anos, 2004 e 2005. Inclusive o projeto não andou ainda como deveria ter andado, as unidades estão prontas, os equipamentos estão todos lá, já foram treinados, mas não tem matéria-prima. Não tem matéria-prima e eles não têm recurso para comprar. O banco tem linha de crédito para fazer isso, mas eles estão inadimplentes. Estão no Cadin (Cadastro Econômico de Inadimplentes). A maioria deles estão sem poder pegar recursos em qualquer instituição bancária. Porque já estavam devendo de safras anteriores, entendeu? Então essa inadimplência impossibilita que o banco forneça, dê uma linha de crédito, forneça recurso para que eles possam adquirir, até através da Conab [Companhia Nacional de Abastecimento], que é um parceiro fantástico, que está nos ajudando bastante, mas impossibilita por conta disso. 

 

P/1 – E assim, nos lugares que já está implantado, que você percebe que mudou, o desenvolvimento local, melhoria para a comunidade?

 

R – Olha, no Ceará...

 

P/1- Assim, o efeito cascata,  dominó?

 

R – No Ceará, como eu te falei, nós estamos com um problema. Estamos com dez unidades implantadas e três unidades estão praticamente funcionando, mas funcionando bem devagar por conta da queda da safra. Bom, você já nota a melhoria. Você vê pessoas que não tinham uma geladeira, que não tinham uma televisão, hoje têm. São pequenos detalhes que você nota que houve uma melhoria na qualidade. Não só na qualidade, mas na qualidade de vida, a compra de um bem que ele não tinha, um armário, uma coisinha hoje ele já consegue ter. Esse é um dos grandes problemas da Fundação, de que nós não temos hoje uma metodologia de avaliação de projetos. Nós estamos... eu estou indo agora, inclusive, domingo agora eu estou indo pra Fortaleza, que nós estamos contatando a FGV (Fundação Getúlio Vargas) para desenvolver um trabalho da cajucultura dentro do Ceará e no Rio Grande do Norte – nós temos quatro unidades funcionando – para desenvolver uma metodologia para avaliação de projeto. Nesse projeto é uma falha, podemos não acertar nunca, mas não tínhamos um marco zero desses projetos de forma que eu pudesse chegar pra você e dizer agora com absoluta certeza: “Agora a comunidade tal teve seus filhos, que ninguém estudava, mas hoje tem um menino já na escola”. Você vê isso, você conhece alguns produtores que te falam pessoalmente que deu uma safrinha legal, ele conseguiu trabalhar a castanha dele, ele melhorou. Mas a maioria não é assim. A coisa que tem que entender que toda a produção tem que ir para unidade, ele e a família irem lá trabalhar e que aquilo vai render para eles três, quatro, cinco vezes mais que se ele fosse vender para um atravessador.

 

P/1 – Ricardo, e os líderes locais, como...?

 

R – Olha é difícil. Existe, sempre tem. 

 

P/1 – Naturalmente, sempre tem um líder...

 

R – Sempre tem numa comunidade uma pessoa mais, sei lá, que fala melhor, pessoa mais instruída e tudo. Às vezes nem isso, às vezes a pessoa nem é instruída, mas é um líder nato mesmo. Você sente que ele tem aquele poder de influência sobre as outras pessoas. Mas é difícil tirar alguns. E aquele problema que eu te falei, essas pessoas sentam e se você não mandar ele fazer alguma coisa, eles sentam e ficam olhando. Tem uma pedra na frente dele, se você não mandar ele tirar... não é assim, não estou generalizando. Mas as coisas, tenho visto muito assim, o problema está na frente. É fácil até às vezes de eles, a comunidade solucionar. Não, ele cruza o braço, espera, liga pra Brasília, liga pra cá, pra gente tentar resolver o problema, você fala: “Porra, tira a pedra da frente, pô! Pega ali, abaixa e tira a pedra da frente que você vai poder passar”. Mas até pra isso eles têm essa dificuldade. Esse é um trabalho muito difícil, essa mudança... é muito difícil, é muito difícil o pessoal entender.

 

P/1 – É cultura. É cultural, né?

 

R – É cultural.

 

P/2 – Esse seria um dos grandes desafios hoje? 

 

R- É. É um dos grandes gargalos hoje que nós estamos tendo dentro da cadeia produtiva, principalmente na cajucultura, é isso aí.

 

P/2 – Existem mais desafios pra superar nesse sentido?

 

R – Tem. Existem desafios que você tem... É um leão por dia. Às vezes, você está ali no negócio, sabe, as coisas vão arrebentando e você vai, corre pra lá, corre pra cá, e você vai saindo às vezes do foco do que você queria fazer e as coisas vão saindo... É, tem gargalos imensos. Crédito é um gargalo terrível. Você não conseguir recursos, você não conseguir uma linha de crédito no banco, em qualquer outra instituição bancária pra você conseguir, devido a uma série de problemas. Nenhuma delas são... mesmo legalmente constituídas, você tirar um documento é difícil, a associação não tem dinheiro, a Fundação não pode bancar dentro dos projetos, por exemplo, taxa. Essas coisas nós não podemos fazer. E os associados não têm dinheiro pra colocar dentro da associação para pagar esse tipo de coisa e, às vezes, por causa de 100 reais, 200 reais, um investimento de 200, 300 mil, você empaca uma unidade porque a gente não pode fazer, né? Porque pelas normas a gente não pode financiar certas coisas como taxas... e eles não têm recursos também, não de onde tirar, eles estão inadimplentes, é muito difícil, cara. E as coisas vão surgindo, a gente só vai percebendo isso no dia-a-dia, conforme as coisas vão andando. Já o Maranhão, que vai ser o último estado a ser trabalhado, esse aí vai ser... É aquela história, os últimos serão os primeiros, não é? E é verdade isso. O Ceará está sendo um laboratório pra gente, apanhando que nem bode na horta. Já no Rio Grande do Norte, nós já fizemos mais três unidades e mais uma central de classificação. As três já estão funcionando e a central já está funcionando. Ceará que já está há dois anos implementado e estão com esse problema até hoje. Já Bahia, que vai ser o próximo estado, que o GTA está fazendo um trabalho muito bom de base, eu acredito que ali a coisa já vai fluir tranquilamente, todas elas legalizadas, com licença ambiental, com tudo. E o Maranhão, então, eu acho que vai ser tranquilo.

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa, eu não sei se eu não estou entendendo bem, mas o GTA é o Grupo de Trabalho do Amazonas?

 

R – Não. O GTA que eu estou falando é o Grupo Técnico de Assessoramento. É aquele que funciona numa salinha ao lado da minha gerência ali. Onde (___) trabalhava o Zeca, trabalhava o Luciano, são...

 

P/1 – O Luciano Queiroga...

 

R – Isso.

 

P/1 e R – Ah, tá! Grupo Técnico de Assessoramento.

 

P/1 – Não é o Grupo de Trabalho do Amazonas, que é outro...

 

R – Não, não, não... Não é não. Quando você falou da ASA, do GTA...

 

P/1 – Agora entendi.

 

R – Que é o seguinte. Nós contratamos a Unitrabalho, através da Unitrabalho, profissionais que são eles, é o ________, o ________ para nos ajudar no desenvolvimento destas cadeias produtivas. Então cada técnico tem uma cadeia que desenvolve. Por exemplo, nós estamos atuando em três principalmente, que eles estão atuando, que é agricultura, nós estamos focados na região de Picos, no Piauí; a mandiocultura, em Vitória da Conquista; e o caju nestes estados que eu falei, Maranhão e Ceará. Principalmente Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia. E Piauí também nós já estamos com unidade lá. 

 

P/1 – Eu tinha sempre essa dúvida, assim, por que o grupo se chamava Amazonas e tá trabalhando no nordeste, tem alguma coisa que eu não estou entendendo.

 

R – Não. É uma beneficiária da Fundação. É um pessoal que nós contratamos para nos auxiliar nesse trabalho, desenvolvendo as cadeias produtivas. 

 

P/1- E aí eles trabalham em parceria com a Unitrabalho. 

 

R – A beneficiária é a Unitrabalho, que contratou esses profissionais pra nos ajudar.

 

P/1 – Tá, tá. Agora fez sentido pra tudo.

 

P/2 – A partir dessa vivência que o senhor teve na Fundação Banco do Brasil, qual o significado, queria que o senhor falasse um pouquinho sobre isso, da Fundação para o desenvolvimento social do Brasil?

 

R – Cara, é muito importante. A gente não tem noção do que a Fundação já ajudou. É lógico que a gente não vai poder nunca resolver o problema do país. Eu acho que nem é função da Fundação. Eu acho que tem... a Fundação, dentro do que ela se propôs a fazer, desde a sua existência, em 1985, quando foi criada, eu acho que desenvolveu um papel muito importante no desenvolvimento social desse país, sabe? Nós tivemos um projeto, FUNDEC, Fundo de Desenvolvimento Comunitário, que foi o início realmente da Fundação, daí que surgiu a Fundação, que era um departamento do banco, da (COTEC?), e foi crescendo, se tornou a Fundação Banco do Brasil. Hoje, você tem esses (FUNDECS?) que foram construídos, hoje existem vários municípios, que partiram dessa iniciativa da Fundação, da criação desses Fundecs, que eram também um projeto parecido com esse do Homem do Campo. Você chegava num vilarejo, você tentava fazer uma escola, construir um hospital, construir uma área produtiva, uma casa de farinha, entendeu? E aquilo ali começou a crescer em torno daqueles empreendimentos, e hoje se tornaram... Colônias _______ é um município que foi criado em torno de um Fundec. É um que eu me lembro assim, Colônias ________, no Piauí. Foi criado, se tornou um município em cima de ações da Fundação através do Fundec, de um programa da Fundação. Então a participação da Fundação, ela, evidentemente, não dá pra comparar, até por conta de recursos, mesmo, né? Mas nós já fizemos trabalhos maravilhosos, trabalhos muito bonitos, eles não muito, mas muito mesmo. Acho que dentro daquilo que a gente se propôs a fazer, dentro dos recursos que nós tínhamos. E a gente fez grandes projetos, já melhorou muito esse país. Até porque tem ações políticas que eu acho que a gente não pode nem intervir, né? A gente não trabalha, não faz saneamento básico. Isso é política pública, a gente não tem que trabalhar com isso. Mas dentro da fundação, nas áreas de atuação da fundação fizemos grandes projetos e eu acredito que nós melhoramos, ajudamos muito este país numa escala pequena, lá dentro do nosso universo foi muito legal. Fizemos muita coisa boa.

 

P/1 – E dentro desses anos todos que você trabalhou na Fundação, o que você aprendeu com a Fundação, com esse trabalho que você faz?

 

R – Olha, eu não tinha noção realmente, como eu te falei. Quando saí da parte administrativa, como você me perguntou, eu não tinha noção ainda do que era você trabalhar com projeto social. Você fica mais humano, sabe, você começa a olhar para baixo, você vê pessoas, hoje você fala: “Porra, estou num...” né, cheia de problemas, meu Deus do céu. Problema, vai para o interior, entra numa comunidade dessa, você vai ver o que é problema. Que gente passa fome, entendeu? Às vezes dá vontade de você sair com o carro, nessas visitas, encher um carro com cestas básicas e sair distribuindo. Você não vai resolver o problema do país, não tem como, mas acho que a gente aprende a ser gente, sabe, você sofre, eu sofro, eu sou um cara muito molengão, sabe, eu me sensibilizo muito fácil com as coisas. Às vezes eu dou dinheiro. Não devo fazer, mas às vezes faço, de comprar as coisas, a gente sai distribuindo, quando eu chego numa comunidade ali. As coisas podem estar muito esquisitas, eu tento fazer o que eu posso, dentro de minhas possibilidades. Você não pode virar isso numa rotina também, que não é isso. Até o propósito da Fundação não é esse, assistencialismo, né? Não é isso, mas do meu lado, eu fiz isso várias vezes. Confesso, fiz. Mas a gente aprende a ser mais gente, sabe, e você dá mais valor às suas coisas. É chegar em casa, você pegar, deitar na tua cama, e ver que pessoas dormindo em chão em cima de estrado, terra batida...

 

(fim do CD 1/2)

 

R – ...sem água, uma coisa básica. Você tentar assim... meu Deus, vamos furar um poço para essa comunidade aqui. É um troço assim tão... e a gente assim... você lava o canil, atrás de casa, desperdiçando uma quantidade de água imensa, e a pessoa lá morrendo de sede. Então às vezes eu paro, eu faço isso, quer dizer, eu tenho isso direto na minha cabeça, porque eu vivo isso, o ano inteiro eu vivo vendo essas coisas acontecer, né, pessoas morrendo de fome, morrendo de sede. Isso muda muito a gente, muda, a gente sente demais isso. Eu sinto muito.

 

P/1 – E os colegas da Fundação que fazem esse trabalho, quem são as pessoas mais próximas que você convive?

 

R – A gente tem aqueles jurássicos, né?

 

P/1 – Os jurássicos? [risos]

 

R – São aquelas pessoas mais antigas do que a gente, de 12 anos de Fundação... o Chicão, Alfredo, Artur, Maria Helena, Germana, a Jucélia, que aposentou agora, Alípio, o próprio Alípio, mas tem mais um... mais um, não, tem vários! Os que estão hoje, estou falando dos que estão hoje ali, né. Germana já falei, Maria Helena... ah, tem muita gente legal. Mas esses são os mais próximos, né. Aquele, de sexta-feira, de a gente sair toda sexta-feira, tomar uma cervejinha, comer lá no Boró...

 

P/1 – Boró?

 

R – Boró. É lá na Vila...

 

P/2 – Acho que alguém comentou sobre essa feijoada.

 

R – Ali não é só feijoada, não. Ali é tudo aquilo que serve para aumentar, né? Ali é buchada, é chambaril, é tudo que é bom para engordar, a gente come ali no Boró. O Boró é um ex-... é um ex, não, mas não sei ele aposentou. Ele era contínuo do banco, aposentado, e na frente da central ali, do prédio da Sede 1, até hoje, ele tinha uma Kombizinha velha, que depois até tiraram a Kombi, botaram um trailer lá. E ele é feio... você precisa ver como ele é feio. E o Chicão chamava ele de “desabonitado”... [risos]

 

P/1 – [risos]

 

R – Ele não é feio, ele é “desabonitado.” Mas o homem é feio, moça, sabe, aquilo ali é um consolo, quando você olha pra cara dele, você fica consolado. E ele, contínuo do banco, diz que já matou um bocado de contínuo. Na Kombi ele vendia cachaça. Sabe aqueles copinhos de branquinho? Ele vendia dez litros por dia, bicho!

 

P/1 – Quanto?

 

R – Mais de dez litros por dia que ele vendia só de copinho de cachaça. Mas contínuo... não é só contínuo não, né? Ficava na frente do Banco do Brasil, mas aí tem vários prédios em volta, todo mundo tomava. Aí falou que matou um bocado de gente de cirrose. E hoje ele tem esse restaurante lá na Vila Planalto, que é na casa dele, uma casa muito boa, inclusive. E ele continua ainda, faz umas quentinhas e leva para vender hoje no trailer. Comida muito boa, saborosíssima, vocês têm que aparecer lá, que vocês vão ver como é bom.

 

P/1 – Ah, deu vontade...

 

R – Mas é bom. Comida pesada, mas...

 

P/1 – Aí é de hábito, os colegas vão lá...

 

R – Ali é... rede, na (parte de baixo?) da casa dele, ele fez um espaço muito bom atrás, uma varanda coberta, e restaurante na mão, musiquinha ao vivo...

 

P/2 – Você lembra algum fato curioso que aconteceu dessas reuniões entre os colegas de banco?

 

R – [risos] Nessas viagens aconteceram fatos assim, a maioria não dá nem para contar, não dá para contar, mas...

 

P/1 – Tem algum publicável?

 

R – Deixa eu ver... Olha, eu não sei se vocês vão cortar isso aí... eu vou contar, vocês cortam se quiser. Não vou dizer nome, só contar o fato. Lá na Fundação mesmo, ele contando a situação... que estava mal, tinha comido alguma coisa que não fez bem e tal. Foi para o banheiro e, a Fundação nessa época tinha uns contratados com deficiência, eles tinham um contratado lá que tinha deficiência auditiva, era surdo. E ele foi ao banheiro, naquela loucura, sentou lá, e tal, e estava naquele... né? E aí entrou alguém no banheiro, e ele estava lá, naquele desespero. Quando a pessoa se vê lá, lavando a mão, aquele negócio todo, sentindo que a pessoa estava saindo. Aí ele olhou na frestinha da porta, e viu que era esse contratado, deficiente auditivo. Normalmente você está ali no banheiro, você faz barulho e tal, dá uma coçada para as pessoas perceberam que você está ali dentro, né? Aí que você já está imaginando o que aconteceu.. Então, quando ele olha na frestinha da porta e vê que é o estagiário deficiente, é o Sílvio. Aí ele viu que ia apagar a luz e começou a chamar o nome dele: “Fulano de tal! Fulano de tal!”. E não teve, cara, ele puff! Desligou. E ele falou que foi um desespero, que estava logo no início do negócio, e ele lá sentado, esperando que alguém entrasse para acender a luz, ninguém entrou. Ele passou o tempo todo lá, com a luz apagada, depois teve que acender, voltar e terminar a higiene dele, porque foi uma tristeza! E ele chamando o nome do cara, o cara era surdo... “Fulano de tal! Fulano de tal!” E ele vai lá e pum! Desligou.

 

P/1 – [risos] Que ótimo... E nesses anos todos, Ricardo, se você pudesse traduzir o que que significa a Fundação em algumas palavras, pra você?

 

R – Olha, eu digo que eu amo essa Fundação, sabe, eu gosto demais, adoro o que eu faço, acho que se eu tivesse em outro lugar, eu já teria até saído do banco, talvez. Se eu não tivesse na Fundação, acho que já teria saído do banco. Eu me realizei profissionalmente na Fundação, fiz grandes amigos, sabe? Esse negócio de viajar, conhecer pessoas... conheci pessoas no país inteiro. Hoje eu me sinto profissionalmente realizado por ter trabalhado na Fundação, coisa que acho que se eu estivesse no banco, trabalhando em qualquer área, qualquer diretoria, qualquer lugar, em agência, eu acho que já teria saído. Graças a Deus estou lá.

 

P/1 – Acho que foi uma boa indicação do seu pai.

 

R – Nossa Senhora, agradeço ao Guizo até hoje por conta disso. Eu estou falando de Fundação, né? Indicação do meu pai por ter me dado essa dica naquela época.

 

P/1 – Ricardo, a gente está encaminhando para o final da entrevista. Então, você deve ter ouvido falar de nosso trabalho, a gente está fazendo a história da Fundação, o que você acha desse trabalho de estar registrando a memória da Fundação, e a importância de você ter participado, contando a sua trajetória, olhando o seu passado, a sua trajetória, o que você acha desse momento?

 

R – Olha, estou me sentindo... confesso a vocês que é uma situação que eu não fico muito à vontade, né. Por 20 anos eu sempre fiz isso, projetos e entrevista, esse negócio, mas nunca me senti à vontade. Hoje estou me sentindo muito bem aqui, como se estivesse numa sala de casa. Eu acho que o trabalho de vocês é fantástico. Eu acho que esse resgate, como o Projeto Bandas é muito importante. Então, se você não escreve, a história não existe, né? Vocês estão recuperando, inclusive, colegas que não mais estão na Fundação, e isso é muito bom, são fatos assim... eu estou louco para ver esse negócio pronto. Quero ver o resultado disso, e eu sei, tenho certeza disso, que vai ser um negócio muito bacana para a Fundação. Eu acho que foi uma iniciativa que não só a Fundação, mas, não digo o próprio banco, porque já é uma coisa muito grande, mas outras empresas deveriam fazer esse tipo de coisa para resgatar a sua memória, é muito importante. Um país sem memória ou nada, uma entidade, não existindo memória, não... tudo é em cima disso, né? Memória é memória.

 

P/2 – E o que que o senhor achou de ter participado desta entrevista?

 

R – Não, eu estou te falando... eu estava realmente um pouco apreensivo, mas estou me sentindo muito à vontade, muito legal, foi um momento bom. É muito bom a gente voltar atrás e recuperar algumas coisas, que a gente, no dia-a-dia, vai esquecendo, não vai dando mais importância àquilo, e hoje eu vi, que tudo aquilo que eu passei teve realmente alguma importância. Teve importância e eu vou aprender a partir de agora a dar valores, mais valor a todos os momentos, mesmo aqueles pequenos momentos, e isso vai virar passado, e vai virar memória, né?

 

P/1 – Com certeza. Então, em nome da Fundação Banco do Brasil e do Museu da Pessoa, eu agradeço, eu e o Aurélio, a gente agradece mesmo sabendo...

 

R – Eu que agradeço vocês.

 

P/1 - ... a sua entrevista, obrigada.

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