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História

Testemunha da maioria dos campos de petróleo no Rio Grande do Norte

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Trajetória na Petrobras. Desenvolvimento da atividade petrolífera no Rio Grande do Norte e o orgulho de participar dessa construção. Relatou episódios da greve em 1995 na Petrobras e refletiu sobre o papel do sindicato.

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História completa

P/1: Boa tarde, senhor Francisco.

R: Diogenes.

P/1: Diogenes. Prefere ser chamado assim?

R: Sim.

P/1: Gostaria de começar perguntando seu nome completo, local e data de nascimento.

R: Bom, o meu nome é Francisco Diogenes de Medeiros. Eu nasci em 9 de maio de 1958.

P/1: Conta pra gente quando e como se deu seu ingresso na Petrobras [Petróleo Brasileiro S.A].

R: Bom, o meu ingresso aconteceu em novembro de 1978 através de um concurso público realizado em Natal, aqui no Rio Grande do Norte. Após esse concurso, nós fomos para Aracaju fazer o curso de formação.

P/1: E depois disso você foi trabalhar onde?

R: Eu fui pra Aracaju, onde nós fizemos um curso teórico de seis meses e depois, um ano de estágio. Depois desse período de estágio, fui transferido pra cá, onde estou até hoje.

P/1: Fala pra mim, como é o trabalho da Petrobras aqui em Mossoró? Como era antigamente? Como é agora?

R: Bom, eu fui um dos pioneiros aqui. Quando cheguei, só existia a parte de exploração e produção marítima. Depois iniciou-se a produção terrestre e a partir daí a atividade foi crescendo. A região aqui era um distrito, passou a ser região que é (IP?), virou unidade de negócio e hoje está... [gravação interrompida]

P/1: Gostaria que o senhor me dissesse como era a Petrobras aqui em Mossoró e como ela está hoje em dia.

R: Antes, quando eu entrei aqui na Petrobras, não existia atividade na área terrestre, apenas na área marítima, era apenas resumida aos campos Ubarana e Agulha. A partir de 1981, começou aqui em Mossoró onde não existia nenhuma estrutura. Com o passar do tempo, foram descobertos novos campos e hoje é o que vocês estão vendo aí. Uma estrutura toda completa e uma condição bem favorável para trabalhar.

P/1: E me diz uma lembrança marcante que o senhor tem da empresa... Quando o senhor lembra da Petrobras, o que vem à sua cabeça? Qual é a primeira coisa?

R: Bom, eu sempre achei a Petrobras um desafio. Como eu trabalho na atividade... quando iniciei na atividade de exploração e avaliação, a própria avaliação de formação era um desafio. Quando você vai trabalhar numa operação de avaliação, você tá naquela expectativa de saber o que veio, se é óleo, se é gás, se é óleo e gás... Isso não é nada, mas as lembranças que eu tenho que mais me marcaram... Foi quando eu trabalhei em poços pioneiros e via aquele poço surgir. Dava aquele sentimento de que a gente estava realmente contribuindo pra alguma coisa pro país. Fui testemunha da maioria dos campos de petróleo daqui.

P/1: Daqui do estado?

R: Exatamente.

P/1: O senhor tem alguma história que o senhor queira contar pra gente, que tenha acontecido durante todos esses anos que o senhor trabalha na empresa? Pode ser uma história engraçada, qualquer fato...

R: As histórias acontecem, acontecem, mas de trabalho mesmo, assim... Tem umas que são até um pouco longas, não sei se seria interessante contar aqui. Na verdade, eu sou uma pessoa que leva o trabalho muito a sério, embora tenha muitos amigos, o trabalho pra mim... Eu tenho uma característica e sou conhecedor dela. As pessoas me conhecem como uma pessoa que gosta de levar as coisas a sério. Numa certa época, numa plataforma, eu estava prestes a desembarcar e chegou um colega, desses extrovertidos, um amigo, e à noite - era um dia antes de desembarcar - eu ia passando no corredor da plataforma e casualmente um pássaro desses do mar tava no corredor da plataforma. Eu achei aquilo interessante, estranho. Você lá no meio do mar e um pássaro dentro do corredor da plataforma. Eu peguei esse pássaro, botei numa caixa, fui no refeitório e tentei trazer alimentação. Disse: “Amanhã vou soltar.” Aí, deixei esse pássaro descansando. Só que antes, eu tava com um problema de obstrução nasal e junto com esse meu amigo, fui na enfermaria e pedi um descongestionante nasal. Eu tava com um frasco vazio que tava usando, o rapaz me deu um similar cheio e tudo bem. Quando fui dormir, o rapaz não tava no alojamento. Eu coloquei aquela caixinha pra no dia seguinte soltar o pássaro. Durante a noite, eu tentei respirar, busquei aquela medicação que tava guardada ao lado e vez por outra eu colocava no nariz, mas não fazia efeito nenhum. Achei que a medicação tava vencida, passou. Quando amanheceu o dia, esse colega acordou e disse assim: “Diogenes, você teve algum problema ontem à noite com a sua respiração?” Eu disse: “Rapaz, sim, aquela medicação que eu peguei tava vencida, eu tentei colocar no nariz e não fazia efeito.” Ele disse: “A medicação que você pediu na enfermaria tá aqui, essa que você tava usando era um frasco de água, eu peguei o vazio e coloquei aí.” Eu disse: “Rapaz, isso não é coisa que se faça, brincar com a saúde das pessoas.” Ele disse: “Ontem à noite o _________ tava dormindo e você jogou aquele pássaro em cima de mim.” Eu digo: “Eu?” Eu pedi desculpas, contei: “Eu encontrei esse pássaro no corredor e coloquei aqui, me desculpa”. Aí perguntei: “Cadê o pássaro?” Ele disse: “Já matei.” “Mas, por quê?” “Eu tava dormindo no escuro e você joga aquele pássaro em cima de mim?” Claro, o pássaro à noite, dentro da caixa, levantou voo dentro do quarto desesperado e onde foi bater? Em cima dele. Ele tomou aquele susto, acredito. Eu não gostaria de ter passado por aquela situação, ele achou que eu tinha feito isso, mas eu não sou pessoa de fazer esse tipo de brincadeira, eu disse a ele: “Bom, já que eu tô desembarcando hoje, eu vou fazer alguma coisa, alguma brincadeira com você, embora eu não seja de brincadeira”. Conversando com ele, fui no refeitório e ali, sem ele perceber, eu peguei um frasco de maionese. Eu sabia que ele tinha umas botas muito boas, bonitas. Eu procurei... despistando, de forma que eu colocasse aquela maionese nas botas dele, pra desculpar o que ele fez comigo. A solução que eu encontrei foi ir lá no alojamento onde o pessoal troca de roupa. Próximo de onde se coloca as botas tem um sanitário, então eu procurei ficar no sanitário pra despistar ele e no momento que ele saiu, eu fui lá, peguei a bota e coloquei a maionese. Ele não percebeu e eu vim embora. Antes de desembarcar eu disse pra ele: “Olha, quando você desembarcar, você me conta o que aconteceu com você.” Ele perguntou: “O que foi?” Eu disse: “Vai acontecer alguma coisa de bom com você.” Passaram-se cinco dias, eu desembarcado, tava em casa, no escritório, ele passa na minha sala e pergunta: “E aí, Diogenes, o que você fez?” Eu disse: “Você voltou a trabalhar?” “Sim.” “Você foi lá na plataforma?” “Fui.” “Você calçou suas botas?” Ele deu um sorriso, como quem tivesse colocado os pés e ficado lá com a maionese... Ele disse: “Diogenes, se o soldador souber que foi você quem colocou aquilo nas botas dele, você tá frito!” Na verdade, as botas onde eu coloquei não eram dele, eram de outra pessoa. Realmente, assim... foi uma história que aconteceu que eu achei bem interessante. Até hoje eu espero que esse soldador não saiba que fui eu quem fez isso.

P/1: Ah, depois disso, agora já era.

R: Mas realmente, foi marcante, digo, de uma forma mais extrovertida, embora eu não goste desse tipo de brincadeira... Eu sou uma pessoa, como falei, que gosta de levar as minhas coisas a sério.

P/1: Agora, mudando um pouco de assunto, eu vi aqui que o senhor não é filiado ao sindicato. Por que não é mais? O senhor já foi e não é mais. Por quê?

R: Olha, ser sindicalizado, eu acho, é um direito de todo empregado, A Petrobras tem os seus movimentos sindicais onde, infelizmente, existem as greves. Eu sempre atendia ao apelo da categoria quando trabalhava aqui. Era sindicalizado e havia aquelas greves. Movimento grevista, eu estava lá presente, mas sempre fui uma pessoa que se abstinha, eu sempre fui neutro, tava no sindicato apenas pra concordar com aquilo porque quem deve pensar nessas coisas são os sindicalistas. Ele __________ e a gente decide, mas no movimento sindical, não no dissídio coletivo de 1995, eu não concordei com a postura do sindicato de querer fazer o movimento grevista no mês de maio e por essa razão, nas reuniões que nós fizemos, eu fui claro em não concordar com aquele ponto de vista e por essa razão eu não participei dessa greve. O fato de não ter participado dessa greve fez com que eu viesse a trabalhar, na época, aqui em Mossoró. No dia que foi decretada a ilegalidade da greve... Até então eu tava entrando e saindo daqui... o pessoal, havia um respeito mútuo, o direito de ir e vir estava sendo respeitado e nesse dia houve um problema. Não me deixaram entrar e vieram com aquelas ameaças de furar pneu de carro, aquelas coisas do pessoal, um grupo, por sorte, pequeno. Até considerei baderna e um deles achou de fazer umas fotografias de mim, o porquê eu não sei. Batia uma foto, ia se aproximando e aquilo veio à tona. Eu já tava decidido a voltar pra casa, mas tomei uma decisão radical: entrar, porque eu não achei aquela atitude... Eles não estavam me deixando entrar, fizeram barricada, eu apenas pedi pra sair. Tinha uma faixa e, com o carro, eu passei com faixa e tudo. Isso gerou uma série de problemas, eu não tomei uma atitude correta, poderia ter pensado mais. Não feri ninguém, graças a Deus, mas vieram à tona os comentários dos próprios sindicalistas. Não houve o respeito de ir e vir. Não só os colegas como também os sindicalistas questionaram muito e a minha imagem ficou um pouco deturpada aqui na empresa. Nós tivemos problemas que eu não gostaria de comentar aqui e por essa razão, após o período da greve, eu compareci ao sindicato e pedi o meu afastamento.

P/1: Isso foi em que ano?

R: Em 1995.

P/1: Noventa e cinco...

R: Numa greve que não era um dissídio coletivo.

P/1: Tá. Mesmo estando do lado de fora do sindicato, o senhor saberia me dizer, na sua opinião, quais as conquistas mais importantes do sindicato para os trabalhadores?

R: Olha, eu sou uma pessoa que, como falei, sempre fui uma pessoa... era um sindicalista mais de fazer presença, nunca fui... Eu sou uma pessoa que, pra mim... Eu olho mais a empresa, o meu trabalho. O sindicato tem a sua participação social, houve muitos avanços, mas eu vejo hoje o sindicato muito politizado, principalmente aqui na nossa região, existem outros fins, com todo respeito que tenho por todos sindicalistas. As conquistas são aquelas que nós já tivemos e que ainda se mantêm, como PLR [Participação nos Lucros e Resultados], com...

P/1: PLR? O que é?

R: Participação nos lucros. Tem uma série... tem ajuda no ensino dos filhos, você tem um percentual que a empresa paga, a própria (__________), enfim, tem todas aquelas conquistas que nós já temos, que nós consideramos como direito adquirido, graças aos esforços do sindicato, né? Eu não quero tirar o mérito de nenhum dos sindicalistas, apenas foi uma questão localizada. Eu não quero tirar o mérito, mas eu questiono muito hoje a postura do sindicato por uma questão ideológica, política. Muitos sindicalistas se aproveitaram do contato com a massa só pra se promoverem na política. Isso é uma questão delicada, são colegas de trabalho. Eu fico numa situação constrangedora de comentar porque são colegas de trabalho.

P/1: Não. Claro. Não precisa.

R: Isso aí é um pensamento pessoal, claro, eu espero que não seja coletivo, mas cada um tem o direito de pensar.

P/1: E como o senhor vê hoje a relação do sindicato com a empresa? Acha que tá melhor, que tá pior?

R: Olha, é como te falei, existe uma ideologia política. Nós vimos nos governos passados uma crítica muito fervorosa dos sindicatos perante as políticas neoliberais até então existentes com outros presidentes. Hoje nós estamos numa situação para o sindicato que, acredito eu, é delicada pelo fato de que os sindicatos sempre foram voltados pra uma ideologia de esquerda e hoje quem está no poder é um partido de esquerda. Fica difícil pra qualquer sindicalista hoje fazer um questionamento político, quando na verdade, até há bem pouco tempo, eles estavam totalmente a favor. Eu vejo hoje uma situação delicada, acredito que exista uma certa formalidade, uma certa facilidade de se fazer acordos coletivos em função de ter um certo sincronismo entre o sindicato e essa política que hoje existe. Então, eu não vejo uma política agressiva, eu vejo mais diálogo.

P/1: Mudando um pouco de assunto, eu queria que senhor dissesse pra gente aqui, o que o senhor achou de ter sentado aí, de ter dado seu depoimento, de ter participado do projeto. O senhor acha importante o projeto? Por quê?

R: Bom, eu venho acompanhado essa iniciativa através de e-mails de comunicação da Petrobras desde o ano passado, quando teve o jubileu da Petrobras, os cinquenta anos. Então, pelo que a gente percebe, é uma forma da Petrobras preservar a sua própria imagem. A imagem que fica da Petrobras não é dos equipamentos, porque esses equipamentos se desgastam e são alienados. Nós nos desgastamos, nós ficamos cada dia um pouco mais velhos do que o dia anterior, mas a gente deixa alguma marca aqui. A Petrobras, eu reconheço que foi meu primeiro emprego e espero que seja o último. Eu faço parte desse patrimônio, eu visto a camisa da Petrobras como uma camisa que eu vou à igreja, que vou a uma festa, porque eu gosto. A empresa, pra mim... pode não ser a melhor do mundo, mas pra mim é a melhor empresa, foi o meu primeiro emprego e eu não tenho o que questionar.

P/1: Então, o senhor gostou de ter participado?

R: Bom, é uma forma de reconhecimento dos seus empregados que a Petrobras tem. É uma forma de... Um dia, meus próprios filhos poderão estar por aqui e quem sabe um dia estar ouvindo e vendo esse depoimento.

P/1: Tem mais alguma coisa que o senhor queira falar? Queria deixar registrada?

R: Não. Gostaria apenas de agradecer a participação, a colaboração que eu estou dando aqui e também o incentivo que a Petrobras está dando não só para mim, mas para os demais colegas. Espero que tudo isso que vai ser registrado aqui fique na memória e que amanhã sirva pra alguma coisa.

P/1: Muito obrigada, eu agradeço a sua participação. R: Eu que agradeço.

 

---FIM DA ENTREVISTA---

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