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Artesanato Sustentável

História de: Emerson de Lima Araújo
Autor: Ana Teresa de Carvalho Lazarini
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Emerson de Lima Araújo nasceu em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, mas sua família se mudou para São Paulo quando ele ainda tinha três meses. Seu pai sempre trabalhou como pedreiro, além de fazer artesanato. Sua mãe trabalhou como diarista e, atualmente, trabalha no Hospital do Mandaqui.

Inicialmente, sua família se instalou no Peri Alto, em seguida, passaram para o Jardim Antártica. Também morou no Parque Edu Chaves e no Jardim Brasil. Até que, por volta de seus 11 anos, se mudaram para o Jardim Fontalis. Todos bairros da zona norte de São Paulo, área que continua morando até hoje. No Fontalis, diz que teve mais liberdade, ficava na rua até tarde, fazia fogueira sob a lua e chegava por volta das dez, onze horas da noite em casa.

Emerson começou a trabalhar com 12, 13 anos. Assim como seus tios, igualmente como seus pais, que haviam saído de casa logo cedo para trabalhar, para ajudar no sustento de suas famílias. Emerson, ainda na pré-adolescência, começou a trabalhar como ajudante na construção civil. 

Seu segundo trabalho surgiu de um projeto chamado “Hip de la Hop”, patrocinado pelo VAI. Foi por ele que se envolveu com a cultura do Rap, Hip Hop, Break Dance, grafite. Após o projeto, fez um curso da Comgás e acabou entrando em projetos sociais. No caso, ele ministrava oficinas, dava aulas de break na EMEI Margareth de Azevedo, lá no Jardim Fontalis. Se lembra de que eles elaboraram um projeto, pediram patrocínio para um mercado, que fornecia um lanche para turma, e aos finais de semana, conseguiam juntar 150 crianças na escola. Crianças de todas as idades. Um momento mágico. 

Sua narrativa traz muitos elementos, seus diversos trabalhos, como conheceu sua esposa e como entrou para o artesanato.  Sua história traz, por exemplo, o que é chamado de artesanato sustentável, algo que engloba não só a reciclagem, mas toda uma cadeia em torno da produção dessa manufatura. Conta que seu pai sempre trabalhou com reciclagem, sempre reaproveitou as coisas que encontrava, e que ele, sua irmã e sua mãe sempre fizeram objetos aproveitando esses achados, como pegar um pote de vidro e fazer uma capinha, fazer uma decoração, criar novos itens, algum presente. Em algum momento, sua família deixou de ver o lixo como lixo e passou a ver a possibilidade de ganhar dinheiro com ele.

Após muitas odisseias, mudança para a Paraíba, a gravidez de sua esposa, os aprendizados na marra até se considerar um artesão, voltou à São Paulo e, através da dica de uma colega, se inscreveu e entrou na Rede CriaNorte, projeto de inclusão social destinado a artesãos de baixa renda que residem na zona norte de São Paulo. Interessante que a ação inicialmente era destinada às mulheres. Para todos, sobretudo para ele, ver um homem no meio dos crochês, era uma novidade. 

 

Emerson é um artista múltiplo, que se diverte e milita entre o universo do artesanato e da música, da dança, da cultura negra em geral.  Conta que incentiva as filhas a dançar, desenhar, cantar. Elas são a quarta geração de uma família que veio com a arte no sangue. Ele vive disso, ele vive assim, e é por meio da arte e de suas oficinas que ele paga suas contas e que constrói sentido para prosseguir. A Rede CriaNorte, por exemplo, diz que é como uma grande família. Existem as discussões, as desavenças, mas que estão todos juntos, unidos por um propósito. Querem expandir seus horizontes. Assim como o Coletivo “84 North”, estúdio e produtora musical a qual também faz parte, com todos juntos, para um dia dominar o mundo com a arte. 

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História completa

O artesanato entrou na minha vida cedo, com sete anos de idade, quando eu ainda morava no Jardim Antártica. Minha mãe estava desempregada, e ela ia para casa de uma amiga onde as duas produziam peças em crochê para vender. Minha mãe começou a aprender e eu só ficava olhando, e, claro, também comecei a aprender. E depois fiquei fazendo, né? Com sete eu aprendi, com oito e nove eu fiz. Depois dos dez, onze, eu já não fazia mais, pois foi quando me mudei pro Fontalis, onde era só diversão!

 

Lembro que a gente fazia bastante tapete, puxa-saco, muita coisa em crochê. Eu trabalhava e minha mãe vendia. Até uns cinco, seis anos atrás eu ainda fazia e quem vendia era ela.

 

Ah, eu já trabalhei de muita coisa! Já trabalhei em depósito de construção, já fui cobrador de lotação, fui cobrador de ônibus, trabalhei em mercado... Que mais? Trabalhei em lanchonete, como atendente, em shopping, como vendedor... Ajudante de pedreiro, de pintor, de eletricista... Eu sou formado também. Fiz curso técnico em Instalações Elétricas. Também já trabalhei de auxiliar administrativo... Já fiz um monte de coisa. 

Eu trabalhava de domingo a domingo e comecei a perceber que estava trabalhando para pessoas que não tinham nada a ver com meu propósito. Não era isso que eu queria para minha vida. Aí larguei tudo pedi demissão e fui para Paraíba.

Tive sonhos, até alguns Dejavu, algumas premonições, foi quando cheguei lá e aconteceu. Conhecer meu pai depois de 25 anos, eu não sabia como ele era. Fiquei dois anos com ele, foi uma experiência boa.

Quando cheguei, a única forma de me manter era sendo artesão. A Paraíba é considerada o berço do artesanato, e eu já sabia fazer o crochê, além disso, passei por maus bocados para conseguir emprego... Então, eu tive que me virar. Foi aí que eu conheci um pessoal lá do Espaço Cultural, na Rua Epitácio Pessoa, lá na avenida. Eles me conheceram, me acolheram e me deram um emprego na lojinha de artesanato. Então, eu ficava tomando conta da lojinha e fazendo meus crochês. E vendendo, claro. O artesanato deles e o meu. E também foi nessa ocasião que eu conheci e comecei a colocar os produtos na internet, nas redes sociais... E tinha muito pedido.

Foi lá que descobri que o artesanato era minha profissão mesmo. Foi onde me reencontrei e assumi a profissão de artesão. 

Em um determinado momento, minha esposa, saudosa da cidade e da família, quis voltar para São Paulo. Ela veio primeiro, já voltou grávida, e em seguida eu retornei para ver minha filha nascer. Quando chegou perto do nascimento, eu vim... e estou aqui até hoje. 

 

Na CriaNorte, a gente vive muita coisa. Participamos de feiras, a gente vai pra lá, vai pra cá... Atualmente, eu ensino crochê em algumas associações para senhoras da terceira idade e mulheres vítimas de violência doméstica, mulheres em depressão... É como uma terapia ocupacional. É um trabalho remunerado, eu ganho para isso. Também participam umas crianças, umas meninas mais novas de 12, 13, algumas de sete anos, que vão com a mãe ou com a tia e que ficam lá aprendendo. 


Recentemente, teve uma palestra sobre suicídio. Uma mulher - ela nunca tinha ido, era seu primeiro dia - chegou, teve essa palestra... Para ela, acho que foi... Acho que ela foi enviada por Deus naquele dia, porque ela já tinha tentado se matar, ela tem uma doença séria, que eu não lembro mais o nome... É um negócio avançado de depressão. Ela tentou se matar não sei quantas vezes... E fora os acontecimentos, da família deixar de lado... Quando ela chegou lá, que ela contou isso, todo mundo olhou para ela, assim, tipo, impressionado. E ela chorando, chorando, chorando bastante... Foi uma coisa que me marcou muito.

 

Nós temos muitas assistentes sociais no trabalho. Elas incentivam as mulheres, comentam sobre o trabalho, elogiam, e aí eu até brinco: “Pergunta pra ela quem foi que ensinou”. Aí, elas falam: “Ah, foi o meu professor Emerson que ensinou”. E a gente dá risada até umas horas. É uma energia muito boa. 


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