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História

A última grande enchente na Cachoeirinha

História de: Rivânia Gonçalves da Silva
Autor: Cláudia Regina Ricci
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Rivânia Gonçalves da Silva nasceu em Estância, Sergipe, mas cresceu e passou sua infância no bairro Vila Rica, zona norte de São Paulo. Conta que o bairro era afastado de tudo, não tinha luz, não tinha água, e se lembra de seu padrinho questionando seu pai pela escolha do lugar. Ele sempre reclamava:" Não sei onde você estava com a cabeça de comprar um terreno aqui, nesse lugar onde não mora ninguém,onde não tem nada,não tem água, não tem luz".

Os problemas não se encerravam por aí, o bairro sofria com as chuvas. Ela conta que quando chovia, a água ficava parada uma semana, e o que lhes restava era conviver com isso, pois com a próxima queda d’água, o resultado seria o mesmo. Imagina o verão? Era enchente na certa. 

Mas também conta sobre suas brincadeiras na rua, de pula-pula, de passa anel, de brincadeira de roda. Claro, tudo com horário. Quando sua mãe aparecia n portão, era sinal de que já era hora de entrar. Passou uma infância tranquila, em um lugar onde todos se conheciam.

O falecimento de seu pai mudou a dinâmica da casa, e todos tiveram que se empenhar para a família não se desestruturar. Sua mãe foi uma guerreira, criou cinco filhos homens e quatro mulheres. Um costume que se fez foi o de almoçarem juntos, os nove irmãos; diz que nunca ninguém dormiu fora de casa, e isso seguiu até cada um ir se casando. 

Rivânia também contou sobre seu período na escola, sempre na rede pública. Desse período, algumas memórias lhe veem à tona, primeiro, os castigos de seus tutores, os quais ela chamou de “enérgicos”, em seguida, o acolhimento de outros docentes, como a dona Iracema, professora cujo olho brilhava e você percebia que aquela era a profissão mais importante na terra. Lembra saudosa das idas à sua casa, os preparos coletivos dos almoços, das saladas de frutas, aquele monte de criança pela sala. Também não pôde se esquecer das datas cívicas. Sua turma e escola se empenhavam muito nesses dias e frequentemente ganhavam os desfiles e concursos de outras escolas. 

Ter que trabalhar desde nova, principalmente após a partida de seu pai, fez com que crescesse com poucos sonhos. O sustento foi o foco, primeiro como tecelã, depois em um banco, onde financeiramente sua situação passou a melhorar, até passar seus 26 anos no Metrô de São Paulo. 

A narrativa de Rivânia não exclui os momentos de diversão, que sempre se intercalaram em sua trajetória, como quando foi à praia do José Menino, em Santos, com as amigas. Elas partiram de trem, um passeio maravilhoso, um bate-volta onde elas foram de manhã para voltar à tarde. Só se esqueceram de passar o filtro solar. Resultado: todas se queimaram horrores e voltaram vermelhas como camarões. Contou também dos bailes de Carnaval, das sessões de cinema, como conheceu seu esposo e o dia de seu casamento, um dia “feliz-triste”, pois seu avô havia falecido há poucos dias da cerimônia. 

Sua história também traz a figura materna, apresentando em sua narrativa as crises e preocupações das mulheres que trabalham muito, e que gostariam de passar mais tempo com seus filhos. Conta que certo dia, após sua curta licença maternidade, chegou à pediatra de sua filha e confessou-lhe que iria pedir a conta de seu emprego no banco, isso, para ficar mais tempo com sua pequena. A pediatra foi firme: "Mãe, olha. Presta atenção. Tem mãe que fica em casa e não cuida dos filhos direito, não é a mãe que trabalha que não vai cuidar bem do filho. A que trabalha, às vezes cuida melhor do que a que não trabalha”. Esse conselho ela carregou consigo. 

O Metrô de São Paulo, como não poderia ser diferente, também ganha destaque em sua história. Foram 26 anos trabalhando na área de Operação, com atendimento ao cliente, nas bilheterias, nas catracas. São inúmeros causos contados, como o dia em que um cavalo entrou na estação Tatuapé e caiu lá do alto tombando diante da bilheteria. 

Após sua aposentadoria, a volta ao artesanato, ao bordado, lhe abriu novos caminhos. A Rede CriaNorte, grupo de artesãs e tecelãs da zona norte de São Paulo, revolucionou seu trabalho, sobretudo pela troca constante, onde pessoas mais experientes puderam observar seu trabalho e lhe dar boas devolutivas. Rivânia destaca a amizade e o conhecimento que a Rede tem lhe proporcionado.

Como sonho, encerra sua narrativa querendo ver a CriaNorte crescer, e deixa a mensagem que o trabalho coletivo é a coisa mais importante nos dias de hoje. 


 

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História completa

Se vocês forem lá e pegarem as fotos de antigamente, vocês falarão: "Não, isso aqui não é o bairro de Cachoeirinha". Tem hospital, tem maternidade... Hoje, nosso bairro está muito bom, mas no passado tinha muitas enchentes, era muito, muito mesmo. Quando chovia, enchia tudo e ficava uma semana aquela água parada, com os bichos andando por cima, aquelas galinhas d'água, cobra... A gente convivia com isso, a gente não podia ter muitos móveis porque chegava na época das chuvas era enchente na certa. Não tinha outra alternativa.

A última enchente que teve, foi uma enchente muito grande... - Lembrando que antes não tinha divulgação, a mídia não ia nesses lugares - A última enchente que deu no nosso bairro, lá na nossa vila, foi em 1995, uma enchente feia. Eu lembro que cheguei do trabalho e entrei na Inajar de Souza com água na cintura. Eu morei na Cachoeirinha, na parte mais alta, depois nós compramos um apartamento lá embaixo, na Inajar, e foi a primeira vez que deu enchente lá nos prédios, nos apartamentos, que nunca tinha dado. Lembro que eu saí do trabalho duas e pouco, três horas, e entrei na rua Antônio Botto, rua que é uma travessa da Inajar de Souza, e metade dela já estava cheia de água. Me recordo que um senhor veio e falou: "Para onde a senhora vai?" Eu falei: “Eu vou naqueles prédios ali." Falou assim: "Então vou acompanhar a senhora porque os bueiros abriram todos, os bueiros estão todos abertos e eu sei onde eles estão". E aí ele foi segurando no meu braço. Eu lembro que eu estava de saia, de meia, eu entrei na água assim, de saia, de meia fina, sapato social, entrei com água na cintura até a entrada do meu prédio. 

No meu apartamento não entrou água, mas teve alguns da frente que entrou. Isso que eu morava embaixo. No condomínio ficou aquela lagoa, e todos nós ficamos muito apavorados. A gente não conseguia ir à casa da minha mãe - minha mãe mora perto de mim - a rua dela encheu tanto de água, a casa dela encheu tanto de água, que veio na altura da pia da cozinha. 

Nessa época, já tinha o Terminal Cachoeirinha. Encheu o Terminal. Os ônibus não conseguiam chegar lá. Então foi uma enchente braba mesmo. E foi a partir daí que eles começaram a fazer os piscinões. Foi feito um piscinão e também a canalização paralela ao rio. Essa canalização vem desde a Ponte da Freguesia até lá embaixo. Eu acho que só depois dessas construções que as coisas melhoraram. Aí não teve mais enchentes. 

Hoje, ainda têm alguns alagamentos por causa do lixo. Isso é uma outra coisa que me deixa indignada, o lixo nessa cidade! Olha, eu falo, não é a pobreza, eu não sei o que está acontecendo com o nosso povo de jogar tanto lixo na rua. E é em toda cidade, é aqui em Santana, em todos os bairros você vê lixo na rua. Fico indignada, porque não dá, não está dando mais enchente por outros motivos, mas continua alagando por conta do lixo. Eu penso assim, que a política melhorou uma parte e o povo piorou em outra.


 

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