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Tesouros da comunidade

História de: Elisabete Freitas dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2006

Sinopse

Coleta de castanha e atividade de seringueiro do pai. Brincadeiras da infância. Rio Iratapuru. Festas religiosas na região de Laranjal do Jari. Trabalho na roça. Mudança de casa. Namoro e casamento. Inicio da cooperativa de apanhadores de castanha. Mãe parteira. Nascimento dos filhos. Cotidiano na comunidade e no lar. Contato com a Natura. Estudos. Sonhos.

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História completa

 

P/1 – Então, vamos começar a entrevista? Eu vou pedir para você falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Primeiro o nome é? Meu nome é Elisabete Freitas dos Santos, eu nasci no dia sete de julho de 1962.

 

P/1 – E em que lugar você nasceu, Elisabete?

 

R – Eu nasci no Iratapuru, em um lugar chamado Abacate.

 

P/1 – Abacate?

 

R – Minha mãe falou, né? Que abacate é o nome da colocação lá de Castanhal. Eu nasci lá com uma parteira.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Armando Leite dos Santos, o nome do meu pai. A minha mãe é Davinia Arcolana de Freitas.

 

P/1 – E o que é que eles faziam? O que é que você lembra assim, qual era a atividade profissional do seu pai?

 

R – Olha, quando eu me entendi o papai trabalhava com seringa, cortando seringa. Às vezes balata, mas o trabalho dele mesmo era seringa e castanha. De inverno era castanha e de verão era seringa. E aí quando acabava a produção da castanha, aí entrava produção da seringa. 

 

P/1 – O que é que você falou? Balata?

 

R – É. A balata é um madeira igual à maçaranduba. Ela tira o leite também só que é cozinhado em uma banda de tambor. Esses tambores de colocar gasolina.

 

P/1 – Vira que nem aquelas bolas?

 

R – É. Fazia aquelas bolas. E a seringa defumava na fornada que chama, né? Fazia bola também, só que era diferente. Na fornada no chão e é só com a fumaça. Fazia aquelas bolas grandes de sessenta, oitenta quilos, cem quilos os bolão que a gente chamava de borracha. E era assim. 

 

P/1 – E ele mandava esses bolão para onde?

 

R – Quem comprava era aqui na cachoeira. _______________ ____________, né? Mas o patrão dele, na época, era o Orlando Barreto. E aí comprava aqui na cachoeira. Na Vila Santo Antônio. É Cachoeira do Santo Antônio o nome da comunidade lá. Aí ele vendia lá tanto a castanha quanto a seringa. Vendia tudinho para os marreteiros lá na época.

 

P/1 – E vocês eram em quantas pessoas na casa? Quantos irmãos?

 

R – Nós éramos sete irmãos. Sete.

 

P/1 – Quantas mulheres?

 

R – Quatro mulheres e três homens. Quatro e três sete, né? Morreu um.

 

P/1 – E como é que era vocês como criança? O que é que você lembra que vocês faziam quando criança?

 

R – Ah, a gente fazia. Mas de quê? De trabalho?

 

P/1 – De brincadeira, de trabalho.

 

R – De brincadeira a gente fazia muita estripulia. A gente bagunçava muito com negócio de, a nossa brincadeira mais era na água. Nossa brincadeira aí para cima. Principalmente agora de verão, né? 

 

P/1 – Nesse mesmo rio?

 

R – É. Nesse mesmo rio. E aí para cima tem cada pedra bonita, cachoeira bonita que tem para aí. E nossa, quando a mamãe saia para ir para o mato assim a gente ficava pulando n'água. Tipo atravessava de um lado para outro e ficava pulando lá embaixo para fazer aqueles balanços de galho de pau. Nosso brinquedo era isso. Nós brincávamos só assim pulando de galho de pau lá no meio do rio. Pulava de uma pedra, de uma _____________ para outra. Às vezes a gente passava o dia todo brincando. A gente tirava para brincar. Era assim nossa brincadeira.

 

P/1 – E você aprendeu a nadar com quem assim? Mergulhar sozinha?

 

R – Comecei com a mamãe ensinando, né? E aí ficava mergulhando. Ficava ensinando a gente pulando na água e depois pronto, a gente aprendia sozinho. Era assim a nossa brincadeira.

 

P/1 – E tinham outros vizinhos? Como é que era isso?

 

R – Olha, vizinho, o vizinho mais perto que tinha era vinte minutos de viagem, que era o meu avô que morava, né? E aí os outros ia de vinte e meia hora, né? E isso de remo, porque a gente andava mais de remo. A gente não andava quase de motor naquele tempo. Motor mais era para baixar castanha. E da casa do meu avô mesmo de remo, era vinte minutos, meia hora. Agora ___________, né? A gente não usava quase ____________. Aí depois os outros vizinhos eram mais distantes ainda. Para baixo eram duas horas de viagem de remo, três horas até chegar na outra colocação.

 

P/1 – Tinha algum momento que vocês se reuniam, assim, alguma festa? Natal, Ano Novo? Festa assim...?

 

R – Tinha dia vinte de janeiro, são Sebastião. O meu avô, ele festejava São Sebastião. Agora final de ano assim, a gente não costumava fazer brincadeira. A gente ficava só reunido em casa. E até porque a gente não tinha como. A gente não tinha esse negócio de som, essas coisas. Televisão, não tinha nada. Só era rádio. E a gente ficava ouvindo rádio de pilha, que pegava lá. Pegava tudo. Nacional de Brasília, aí para fora a ____________, rádio pegava tudo. E, assim, a gente ficava ouvindo a comemoração de Ano Novo e Natal. Mas a gente não tinha esses contatos de fazer essas brincadeiras assim. Agora a gente fazia festa, que a gente chamava naquele tempo. Mas era comemoração do santo. São Sebastião meu avô, ele festejava uma festa grande. Eram dois dias de festa. Três dias que ele fazia, aí ele criava um monte de peru, porco, galinha e pato. Aí ele matava pato, peru, porco e fazia dois, três dias de festa. E dava os vizinhos tudinho, desde a metade da viagem do começo que dá um dia de viagem de motor, ia para lá para essa festa. Juntava vinte famílias, dez famílias. E morava muita gente para aí. Morava acho que uma faixa de umas trinta famílias. Só que era assim na beira do rio. E ia embora um do lado e outro do outro e aí ia embora até chegar lá. Meu avô era o último que morava. 

 

P/1 – E vocês cantavam, dançavam? O que é que tinha na festa?

 

R – A festa lá era eletrola. O que chamava eletrola, né? Que tem aquele disco grande assim. E aí funcionava eletrola. Eletrola em umas caixas grandes. Mas era porque tinha o cabo, né? Não sei se você chegou a conhecer.

 

P/1 – À manivela.

 

R – Isso.

 

P/1 – Que não precisava de energia?

 

R – Não. Era só pilha. Pilha. Colocava pilha e pronto. Funcionava já com a pilha, todos eles tinham pilha. E o que eu lembro, né? Era sim, meu avô tocava, como é esse negócio que coloca... Violino. Aquilo que escorrega. Ele tocava aquilo, o meu avô. Papai também tocava isso. Mas mais mesmo que tocava nas festas aquele tempo era merengue e eu me esqueci. Eu me lembro bem do merengue, né? Eu me esqueci a _____________, eu estou esquecendo _________ _____________.

 

P/1 – E vocês dançavam?

 

R – Sim. Eu esqueci já o nome das outras. Eu me lembro bem do merengue, né? Porque tocava muito. E o pessoal dançava mesmo. Amanhecia o dia e ficava o dia. Terminava a noite e todo mundo se retirava de novo. Todo mundo ia nos seus casquinhos para lá para essa festa. Aí eu me lembro desses eventos, né? Porque tinha assim, sempre era festa do Santo, quando não aniversário também. A Tereza do Tuneco, a _____________ que é separada, né? Mas ela fazia muito aniversário. Ela gostava de fazer aniversário. Aí ela matava porco e galinha. Mais era porco que ela matava. Aí dava porco com fruta assim, e fazia o convidado e o pessoal ia para a festa, né? A gente se reunia, a casa era grande assim, que nem aqui assim, esse barracão mesmo. Casa grande, casa deles, né? Aí fazia um salão grande de festa e fazia o aniversário. Ela costumava fazer o aniversário do filho dela, sempre ela fazia. Aí chamava um pessoal, todo mundo se reunia e dançava até amanhecer o dia. Era da eletrola também. Aí matava porco, todo mundo ___________, e de manhã todo mundo se retirava para as suas casas de novo em festa de aniversário.

 

P1– Me fala uma coisa. Na sua casa tinha assim tarefa que as meninas tinham que fazer, tarefa que os meninos tinham que fazer quando você era criança? Ajudar na casa, ajudar no trabalho. Como é que era isso?

 

R – Olha, tinha assim porque eu, eu ficava na parte de casa. Eu ficava em casa porque eu era a mais velha e ficava tomando conta dos meninos. Aí eu ficava em casa. E aí os meninos iam para o mato com a mamãe. Sempre, às vezes, eles iam só acompanhar ela quando eles iam para a roça e eles iam brincar na roça. E aí quando já estava maiorzinho ajudar mesmo, né? A fazer as coisas. Ninguém estudava mesmo. Lá não tinha escola para estudar.

 

P/1 – O que é que fazia na roça assim?

 

R – Olha, plantava todo o tipo de fruta. Era cana, mandioca, macaxeira, arroz, feijão, batata, abacaxi, milho, tudo isso eles plantavam. Banana. Banana. Tinha muita banana. Porque se estragava. Fruta para lá se estragava porque para lá a terra é boa. Bem melhor ainda do que aqui a terra.

 

P/1 – Aqui você também tem uma roça?

 

R – Pois é. Aqui eu tenho uma roça também.

 

P/1 – Você aprendeu a plantar com ela?

 

R – Aprendi a plantar com ela, porque quando eu conheci ela já trabalhava. Quando eu me entendia ela já trabalhava com esse negócio de roça. Era roça, castanha e seringa. E a roça só era para comer mesmo. Ninguém vendia nada. Fazia muita farinha. Tirava muita tapioca, fazia beiju para tomar com café de manhã. Era assim. 

 

P/1 – O que é que vocês comiam? A gente estava conversando muito sobre comida daqui da região do Amazonas e tudo. O que é que vocês comem assim que a gente não conhece lá em São Paulo?

 

R – Olha, a gente come muitos tipos de comida, né? Assim, porque pássaro. Negócio de pássaro. A gente tem vários tipos de pássaro e a gente come. Caça que anda no chão, né? Também. Mas a gente como mais com leite de castanha no tempo da castanha. O leite da castanha é porque é muito bom e leite da castanha. Em vez de usar o óleo que a gente compra, a gente usava o leite da castanha. Tanto para cozinhar comida, fazer o guisado ou cozidão, como para tirar o leite para comer com peixe assado. Com peixe assado.

 

P/1 – Como é que tira esse leite?

 

R – Rala. Lá a gente usava, naquele tempo, só na mão. Ralava na mão no ralo que a gente faz, né? E ralava.

 

P/1 – Você quer passar o repelente?

 

R – Quero.

 

P/1 – Espera aí. 

 

(PAUSA)

 

P/1 – A gente estava falando como é que tira o leite da castanha.

 

R – A gente descasca a castanha, né? E aí depois rala no ralo. Aí depois de ralado tira na peneira, né? A gente faz uma peneira de uma tala chamada aromami. _______________ de crivo que a gente compra essas coisas não. Era na peneira mesmo. A gente tirava na peneira o leite, separava da massa e tirava o leite, porque a gente chama leite, né? E é igual mesmo leite, esse leite que a gente compra. 

 

P/1 – Sai branco?

 

R – Sai branquinho, branquinho. Aí a gente tirava o leite e colocava na comida. Quando não assava o leite ou a carne, tomava o leite cru mesmo com a carne até pronto. E você via assim, tipo assim, tipo um suco. Só que a gente comia com a comida mesmo. A gente não comia só ele. Só quando queria comer sozinho mesmo. 

 

P/1 – E nessa época vocês já comiam açaí? 

 

R – Já. Desde de quando eu me entendi. Porque para lá tem muito açaí também. 

 

P/1 – Como é que vocês fazem o açaí aqui? Explica para a gente? Lá para o pessoal de São Paulo.

 

R – O açaí, a gente, olha, na mão, o que a gente chama na mão, né? Agora tem esse negócio de máquina para bater, essas coisas de ____________. Mas na mão a gente amassa ele, depois passa duas vezes na peneira. Passa em uma grossa e em uma fina para separar a massa, o vinho. A gente chama vinho, né? Também. Aí separa, tira, sai da grossura que a pessoa quer. A pessoa faz. Aí faz e pronto. Toma com carne assada também, peixe assado. A gente come mais assim. É um almoço, uma janta. Pode ser. A gente come assim.

 

P/1 – E joga farinha?

 

R – Com farinha sim. Sem farinha, a gente não come sem farinha.

 

P/1 – Fazer que nem eu fiz ontem com açúcar é raro?

 

R – É. Tem pessoas que gostam, né? Cada pessoa tem um gosto. Mas nem sempre. A maioria mesmo é só com comida e farinha. Com carne, peixe. Acho mais gostosa com peixe, eu. Gosto mais com peixe.

 

P/1 – Que peixe que vocês comem aqui? 

 

R – Trairão, que é o peixe que mais tem aqui. Trairão.

 

P/1 – Que é uma delícia.

 

R – Aracu. Qual é o outro? Tucunaré aqui também tem bastante aqui. Lá para dentro mesmo, para lá não tem muito. Mas trairão tem muito para lá. Surubim, Jaracu eu já falei, né? E outros peixes que eu não estou lembrada. Cará, Jacundá, Feixeira, Irapucu que a gente chama. Piraçardão. Tem muitos peixes que eu não estou lembrada agora.

 

P/1 – Com quem é que você aprendeu a cozinhar, Elisabete?

 

R – Eu aprendi com a minha mãe, né? Ou eu mesma fui aprendendo. Ela me ensinou um pouco e depois eu aprendi o resto eu mesmo, só eu mesmo cozinhando.

 

P/1 – Me fala uma coisa. Você morou nesse lugar aí chamado Abacate, né?

 

R – Foi. O Abacate foi lá onde eu nasci mesmo. Eu nasci lá, que é uma colocação que é lá do tio da mamãe essa colocação. Porque tinha a parteira que morava lá. E era até Catita o nome da mulher, a minha mãe fala. E depois a gente foi para a nossa colocação que é a Boa Esperança. Tem duas colocações, Chapéu Virado que o meu pai tirava, né? E Boa Esperança. 

 

P/1 – A colocação o que é? É o lugar, é o território demarcado?

 

R – É onde se coloca lá para tirar castanha. Faz a colocação tipo assim, porque a gente se coloca lá, acampa lá, faz a casa e ao mesmo tempo tem o castanhal aí. E tira castanha, tira seringa, tira madeira para fazer a casa, faz a roça e tudo. E aí é a colocação lá.

 

P/1 – Mas assim é uma coisa oficial ou não assim, a pessoa que se instalava? 

 

R – Não. A gente que ia tinha um. O acampamento geralmente era assim, a gente já mora lá, tirava o lugar lá e pronto. Ficava morando lá. Aí fazia a sua colocação. Tipo assim, tirava um caminho, as trilhas, né? Fazia as trilhas tudinho para os castanhais. As seringueiras, tem a estrada da seringa. O pé é tudo pelo meio da trilha, a seringa. E a castanha do mesmo jeito também. Só que a castanha é espalhada mesmo para todo lado assim. Já a seringa não é. É mas é mais, você vai e tira o caminho mais em fila, entendeu? É assim, que é.

 

P/1 – Ô Elisabete, me fala uma coisa. E vocês iam para a cidade? Tinha algum contato com a cidade nessa época?

 

R – Tipo assim com?

 

P/1 – De ir para a cidade. Qual é que era a cidade mais próxima?

 

R – A cidade mais próxima é o Laranjal do Jari, na época. Município de Macapá, né? E a gente via, nós mesmos, a gente passava anos sem vir aqui no Laranjal. O papai comprava assim tudo de muito que é para passar o ano. Ele comprava por seis meses. Ele comprava saco de açúcar, um fardo de sal. Duas caixas de biscoito, porque também tinha muita fruta que a gente comia, né? Aí para ficar lá para passar seis meses a um ano. E o nosso, quando a gente ia, só ia à Laranjal do Jarí e voltava de novo. Porque na época tinha bem pouca casa. Eu acho que se tinha umas cem casas tinha muito, que eu me lembro.

 

P/1 – Lá no Laranjal?

 

R – Lá no Laranjal. Eu acho que não tinha nem uma faixa de duas mil pessoas. Eu acho que agora é que tem mais de dez mil pessoas lá no Laranjal. E era assim, era a cidade que a gente ia de lá para trás. Eu, o nosso, pelo menos filho de papai. né? Papai, porque ele já veio das ilhas, né? Ele disse que quando ele era rapazinho ele veio das ilhas para cá, entendeu? E aí nossa cidade era só Laranjal do Jari.

 

P/1 – E aí vocês iam, sei lá, fazer compras ou vocês passeavam, iam à igreja. Tinha alguma coisa assim?

 

R – A igreja era que o Santo Antônio. O Santo Antônio da cachoeira, lá tinha um evento muito grande religioso, que era a festa do padroeiro lá. O Santo Antônio. E lá tinha o festival lá. Eram nove noites de festa lá. E tinha as barraquinhas de todo mundo, tinha leilão. A pessoa gritava o leilão. Você sabe o que é leilão, né?

 

P/1 – Explica pra gente.

 

R – O leilão é a pessoa pegar um galinho, um cacho de banana, uma cana, qualquer objeto. Vamos supor que comece em dez reais. Vai terminar em cem. E cinquenta reais, na época, né? Porque era mais barato, mas se tornava caro, né? É como se fosse hoje. Aí quem tivesse mais dinheiro é que arrematava. Por exemplo uma galinha, vamos supor que naquele tempo, vamos fazer o preço de hoje. Vamos supor que uma galinha esteja dez reais hoje. Se fosse hoje ia dar uns cem reais. Porque o leilão era assim, só comprava quem tinha dinheiro. Porque vinha muita gente de fora. Tinha uns marreteiros que vinham de fora, regatão, como a gente chamava, né? Eles vinham e encostavam tudo aí porque é ponto turístico ali na cachoeira. Aí eles vinham, encostavam lá e participavam da festa. E nós vínhamos, quando as comunidades todas se reuniam para esse festival. Dava muita gente. Vinha muita gente de fora.

 

P/1 – Como é que chama? 

 

R – Festa do Santo Antônio.

 

P/1 – Festa do Santo Antônio.

 

R – Que é o nome da cachoeira também. O nome da cachoeira é o mesmo do santo. É por isso que é Santo Antônio o nome da cachoeira, por causa do santo padroeiro lá. E o homem forte de lá era o senhor Orlando Barreto, na época. Porque agora ele está velhinho. Eu acho que ele tem quase uns oitenta anos. Daí para lá eu acho que ele tem. E a esposa dele era professora lá na cachoeira. Agora ele mora no Laranjal do Jari e tem uma padariazinha lá ele. Ele era nesse tempo bem rico. Mas agora ele não é mais rico assim. E ele tem uma padaria lá e mora lá. Mas ele era bem velhinho. Tanto ele como a esposa dele.

 

P/1 – E antes, de que é que ele trabalhava aqui?

 

R – Ele era comprador de castanha. Ele era assim tipo um atravessador. Tipo não, ele era, porque ele comprava castanha aqui e ele também ia comprar lá dentro. Tanto ele comprava lá como ele comprava aqui. E daqui ele exportava para o Mutran. Para o Mutran. Ele vendia por lá. E por lá ele vendia bem, por outros a uns preços muito lascados.

 

P/1 – E como é que o atravessador pagava, na época, assim antigamente?

 

R – Agora está até difícil de eu dizer, porque tinha o, primeiro era o Cruzeiro, Cruzado e aí depois é que veio o real. 

 

P/1 – Mas eles pagavam em dinheiro ou pagava em espécie assim, em mantimentos? 

 

R – Mais dificilmente. Mais era com mercadoria. Mais era com mercadoria. Ele levava muita mercadoria para vender. E lá mercadoria sai mais caro porque o combustível daqui lá é muito alto também. Aí ele levava e trocava. Aí, se a pessoa saldasse, eles pagavam com dinheiro, senão, mas a maioria era trocando mesmo, sabe? Dava mercadoria, biscoito, açúcar, café, essas coisas. Aí trocava e trazia castanha. Assim que era.

 

P/1 – Mas não era bom para vocês isso?

 

R – Não, porque a gente tinha que comprar roupa. Tinha que comprar calçado. E a gente tinha que pegar um dinheiro. Às vezes um queria tirar, queria combater com o outro. Um queria cobrar mais caro que o outro, e o forte ideal é ______________. Dizia: "Ah, eu pago mais. Eu pago em dinheiro". E aí pagava mais um pouquinho e a gente pegava o dinheiro e vinha para comprar calçado, roupa, essas coisas. Porque se a pessoa atravessando levava mercadoria daí lá, ele ia vender muito mais caro lá e a castanha é muito mais barata. Se a pessoa trouxesse aqui já saía mais caro a castanha. Em compensação era quase uma coisa pela outra. Porque você tinha que vir de lá, né?

 

P/1 – Elisabete, quando é que vocês vieram para cá para esse lugar aqui tirar castanha, que seu pai resolveu vir para cá. Você lembra quando é que foi isso?

 

R – Quando foi? Em oitenta e oito...

 

P/1 – Mais ou menos.

 

R – Noventa e nove, não. Oitenta e sete para lá. Acho que foi oitenta e seis que nós viemos para cá. Se não e engano foi oitenta e cinco ou oitenta e seis. Foi um desses dois aí. 

 

P/1 – E aí vocês armaram uma colocação aqui?

 

R – Não, a gente vinha morar no terreno do meu tio ali, o Zé Laranja. A gente veio morar lá porque aqui todo mundo mais perto da cidade, todo mundo já tinha o seu lugar, entendeu? Seu lugar para o povo não chegar e entrar. Porque aqui todo mundo respeita um o lugar do outro. E aí ninguém ia chegar e fazer uma casa, porque eles queriam fazer roça, queriam plantar e não no lugar do outro. Aí o que é que nós fizemos? A gente foi lá para baixo para animais e achou um lugar que não tinha dono. Assim, dizer assim aqui essa colocação termina. Aí a gente veio morar. De lá a gente veio para cá de novo nesse lugar, que é o sítio da mamãe hoje. E a gente veio para cá para esse lugar. E aí cada qual tem seus pedacinhos de terra. A mamãe tem o dela lá, ela ficou com essa parte para ela, e nós temos o nosso retiro, temos o nosso sítio além da casa. Porque aqui só é de orar mesmo. Aqui não dá para colocar roça nem nada. E lá a gente colocava rocinha só para a gente tirar fruta mesmo para comer. E a nossa colocação castanhal fica para lá. É retirado. É bem longe. Aqui só é onde coloca roça para comer mesmo. Fazer fruta para comer.

 

P/1 – Deixa eu só dar uma paradinha. Você quer tomar uma água? Retomando? Por que é que o seu pai resolveu vir para esse lado aqui? Você sabe? 

 

R – Eu sei porque todo mundo estava saindo de lá porque não tinha escola, entendeu? Aí o pessoal saía _____________ para estudar. Porque a gente se criou sem saber ler. Meu avô não sabia ler. Depois os meus pais também não sabiam ler. E depois eu casei também e não sabia ler. E o __________ _________ _____________ ficando no mesmo. Então a gente resolveu mudar um pouco. O pessoal foi saindo, foi saindo. O último que saiu de lá fomos nós. Nós é que ficamos lá. Éramos nós e uma tia tinha também ficamos lá. Aí: "Vamos embora porque aqui não dá". Aí foi ficando tudo mais difícil porque ficamos longe. A última colocação era a nossa. E aí vamos embora então porque senão vai ficar difícil para a gente. Todo mundo saiu e uma _________ de doença é muito perigoso. Era muito perigoso. Até chegar aqui embaixo era muito ruim. 

 

P/1 – Dava quanto tempo assim de canoa?

 

R – De canoa? Ah, de canoa dá mais de três dias de viagem daqui lá. Agora com a água seca, é? 

 

P/1 – No remo?

 

R – No remo. Três dias de viagem. Meu bem, três ou quatro dias. Agora, de motor com a água grande é mais rápido. E então vamos embora. Aí o Tinoram disse assim: "Vamos, é bom vocês irem embora daí mesmo comadre. Porque só vocês ficarem por aí é ruim". Aí nós viemos embora de lá e não decidimos a vida de lá para cá. Aí no que a gente veio para cá, quando a gente estava morando aqui que eu falei desse lugar já aqui. Primeiro que a gente morava lá. Aí a escola funcionava na casa de uma família. Aí da casa de uma família funcionava na outra senhora, aquela que esteve aqui ontem, né? Funcionou na casa dela também. Era ela mesma que dava aula, porque não era uma professora mesmo. Depois veio já professor, né? Nesse tempo não tinha também prefeito no Laranjal, uma comunidadezinha bem pequena, o Laranjal. E aí depois que teve prefeito foi que colocaram já uma professora. Depois da professora, aí colocaram, fizeram a escola e aí já colocaram a professora. A primeira que eu falei era na casa dessa senhora.

 

P/1 – Como é que ela chama, essa senhora?

 

R – Dona Maria. Só conheço uma Buiraquita. É Maria Helena o nome dela, mas é conhecida como Buiraquita. Aí depois fomos para a igreja quando já tinha professora mesmo. Depois, da igreja, foi que a prefeitura mandou fazer uma escola. Que na época era o Cruz, finado. Ele até morreu esse Cruz.

 

P/1 – O prefeito?

 

R – Sim, prefeito. 

 

P/1 – E aí você começou a estudar?

 

R – Aí nesse tempo não. Já eram só os nossos filhos que estudavam. Os meus filhos. Porque eu disse nós estamos crescendo, e os meus filhos estão crescendo. A gente não aprendeu nada. Meus avós, meus pais e agora os filhos? Aí nós colocamos o menino para estudar. E aí o menino passou a estudar, porque era a Elza e o Edimar. Começaram a estudar, estudar. E eu disse: "Ah, não quero saber de estudar porque eu não posso estudar com um bocado de menino tudo pequeno, não dá". Eu tinha que trabalhar e ele não parava, né? O _____________ não parava. E de lá, quando nós viemos para cá já para começar a cooperativa já. Quando nós viemos para cá, ainda não existia a cooperativa. Se falava o nome de cooperativa. Aí nós viemos para cá para essa casa que nós hoje moramos que está com, treze anos vai fazer que nós estamos nessa casa aqui. Nesse lugarzinho aqui. E nós viemos para cá não tinha nada aqui. Só era mesmo, aqui era um paiol até ce castanha aqui. E aí nós viemos morar aqui para começar se juntar porque ficava mais perto da escola. O nome da escola lá é São Francisco e a escola era lá na boca onde a Dona Maria Helena mora.

 

P/1 – É sua comadre?

 

R – Que é a minha comadre Iaquita que eu chamo, né? Aí depois eu vim morar aqui e aqueles meninos todo dia estudavam para lá. Ficava mais perto, porque de lá para cá era uma hora e meia de remo. De lá onde eu morava no sítio da mamãe para cá que eles vinham de remo, né? Eu, o Edimar e a Elza. De lá eles vinham para lá. Daqui já ficou mais perto porque atravessa aqui a trilha e vai para lá. Tá. Aí depois começou. Aí começou a cooperativa mesmo. Já passou dois anos, começou a cooperativa.

 

P/1 – Mas vamos voltar um pouquinho. Como é que você conheceu Arraia?

 

R – Meu pai trabalhava com muita gente tirando castanha, né? Então até que trabalhava, mamãe, ele e meus irmãos que foram crescendo. Nós, também, mulheres, trabalhávamos com castanha. Aí não era só ele. Muita gente trabalhava com homem, né? Pegava assim dois, três homens para tirar castanha. Quatro, dois, para ajudar a trazer até aqui embaixo. Aí ele foi e conheceu um bocado de gente, de homem, né? Onde ele conheceu o Arraia que estava no meio. Mas não era só Arraia. Tinha Arraia, tinha o Maracanã. Porque põe apelido, né? Era só apelido. Porque ele trabalhava na (Najari?). Era Serra do (Najari?). Aí a castanha estava dando dinheiro nesse tempo e ele saiu da (Najari?). Saiu um bocado de gente para torrar castanha. Aí o papai conheceu ele e foram-se. Era um bocado de homem. Um foi trabalhar com o outro e com o outro e eu sei que o Arraia foi trabalhar com ele e mais outro. Foi lá que a gente se conheceu. Lá, ele tirando castanha. 

 

P/1 – E aí começou o namoro?

 

R – Foi. 

 

P/1 – Como é que era assim namorar? O seu pai era bravo? Podia?

 

R – Não. Era mamãe mais. Porque a mamãe não deixava a gente sair para canto nenhum.

 

P/1 – É? Tomava conta?

 

R – Era. E a gente não passeava assim. Passear era assim. Domingo vamos lá na casa do vizinho. Mais lá na casa do meu avô que era mais perto. A gente ia de domingo, passava o dia para lá e voltava de tarde. O passeio era assim. Nós ficávamos brincando e ela ficava conversando lá com a minha tia, o pessoal lá e a gente ficava brincando até chegar o final da tarde. Quando era a noite, ia para dormir e voltava no outro dia de manhã. Era assim que era o passeio. E eu não saía. Mamãe não gostava porque ela não levava a gente na festa. Quando levava assim, mas era rápido. Ela mandava logo a gente ir dormir. Era assim.

 

P/1 – Ela era muito brava?

 

R – Ela era. 

 

P/1 – Mas ela é parteira?

 

R – É.

 

P/1 – Como é que ela chama mesmo?

 

R – Dalviara.

 

P/1 – Dalviara. Fala um pouquinho assim dela ser parteira. Eu não sei se eu vou conseguir falar com ela assim ainda hoje, né? Fala um pouco assim dessa atividade? Porque parteira aqui é uma pessoa importante na comunidade. 

 

R – É. Agora assim, lá nesse tempo lá tinha a Dona Batista que é mãe da Teresa. É uma das parteiras que eu conheci lá. A outra era Dona Maria que é a filha dela. A Dona Maria, Larieta que chamavam para ela, né? Já morreu também. E a Dona Batista que pegou uma filha minha mais velha, e Elza. Foi ela que pegou a Dona Batista, né? E tinha mais outra que pegou o nego também. E o Edinho foi ela mesmo, a mamãe. O Edinho eu sei que foi ela. Ela estava sozinha. Ela que pegou e o Arraia também, que ajudou, né? Ele estava lá na Boa Esperança. Então eu sei contar disso aí, né? Que ela pegou o Edinho, ela ajudou a pegar também a Elza, né? Que foi a Dona Batista, mas ela ajudou e o Edinho foi ela sozinha. 

 

P/1 – Todos os seus filhos você teve com parteira?

 

R – Olha, já depois que a gente veio para cá que teve mais uma também com parteira que morreu, né? Mais um não. Mais três, porque um era gêmeo, né? E depois foi que desses gêmeos que aqui ninguém sabia que eram dois, eu fui no médico e todo mundo falava que a minha barriga era grande, né? E aí eu fui no médico. Aí cheguei lá no médico e o médico falou que não, que era só um. Aí eu fiquei, né? Quando eu fui _____________, tive um e não tive a outra. Porque eu não sabia nem se eram duas. A gente não sabe. E aí que quando eu fui ter passou da hora. E aí não teve jeito. Aí tive que ir para o Laranjal. Aí desde isso a mamãe não quis que eu ficasse aqui. Ah, tem que ir para o Laranjal, porque eu já tivesse muito filho e não sei o quê. É melhor ir para o Laranjal: Aí foi que eu já ia para Laranjal, mas só que tinha que atravessar para outro lado para ________________ porque só tinha hospital lá na Jari. E só ia ganhar neném lá e voltava para esse lado aqui. Então essa meninas são todas nascidas no Hospital do Mundo Dourado. Essas que estão hoje aí.

 

P/1 – As mais novas?

 

R – É. As novinhas. Tudo nasceu no Hospital do Mundo Durado. Nossas primeiras nenhum foi no hospital, tudo era na parteira. 

 

P/1 – O que você achava melhor? Com a parteira ou com o hospital?

 

R – Não, com a parteira eu achava muito melhor porque a parteira cuida melhor da gente. Porque, a parteira, a gente ia em casa e depois tinha todo aquele cuidado com a gente. A gente não ia para beira do rio, a gente não ia pegar sol, a gente não ia. Era um monte de coisa que a gente não fazia. Galinha só comida fresquinha que a gente comia na hora. Que a mãe da gente faia, no caso a minha mãe fazia, né? E a parteira também fazia.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – E comida de casa assim. E já a comida do hospital, a primeira vez que eu fui eu estranhei muito. Porque a comida era só aquela sopa assim. Sem sal, ruim. Te levantavam quatro horas da madrugada para tomar banho. Coisa que eu nunca tinha tomado banho quatro horas da madrugada. Ganhava neném, por exemplo, na boca da noite, quatro horas da madrugada e seis horas já estava para banhar. A gente nunca tomava banho assim na mesma hora. Então eu estranhei muito quando eu fui para o hospital de que lá. A gente é muito mais bem cuidado em casa do que no hospital. No hospital tinha essa dificuldade. A enfermeira vem, mas só vem naquelas horas certas mesmo. Se não for nas horas certas ela não vem. E aí eu achava essa dificuldade. Tinha que me ver mais sozinha para banhar o menino e tudo o mais.

 

P/1 – Bem diferente, né?

 

R – É. Muito diferente.

 

P/1 – Elisabete, como é que é o cotidiano assim hoje aqui na comunidade? Você acorda que horas mais ou menos? Quais são as primeiras coisas que você faz? 

 

R – Eu costumo levantar seis horas da manhã. Seis horas da manhã eu já levantei já. Porque eu já estou acostumada, né? Porque desde pequena eu levantava cedo. Porque, quando eu era novinha mesmo, que eu ficava em casa, cinco horas da manhã que eu levantava.

 

P/1 – Assim que o sol aparecia?

 

R – Antes. Cinco horas da manhã eu estava na cozinha já. Antes do sol amanhecer eu já estava na cozinha. Porque a mamãe tinha que ir cedo para a roça, para o mato, né? E eu tinha que estar de manhã cedo, seis horas, estar com o café todo pronto. Então eu me levantava cinco horas. Hoje eu me levanto já mais tarde porque já não tem muito com o menino. Estou acordada. Me acordo às vezes cinco horas, mas às vezes eu não quero levantar. Aí quando dá seis horas eu me levanto. Seis horas eu me levanto e aí vou fazer. Isso quando eu não estou trabalhando. Porque geralmente eu cozinho aí na cooperativa, né? Eu cozinho para pessoa que vem de fora assim. Porque as meninas, elas não gostam muito de cozinhar. Elas gostam de fazer outras coisas, mas menos cozinhar.

 

P/1 – Que meninas? 

 

R – Não, as meninas que eu falo são as minhas vizinhas. Não é menina mesmo. São as vizinhas. Aí eu levanto-me cedo. Cinco horas já me levantei que é para quando der seis horas já estar tudo pronto para adiantar mais. Mas eu levanto mesmo aqui é seis horas da manhã.

 

P/1 – E aí o que é que você faz primeiro?

 

R – O primeiro serviço que eu faço quando eu me levanto é amarrar o meu cabelo, lavar o rosto e vou logo descer para (João?) primeiro colocar comida para as galinhas. Vou colocar tudinho comida para as galinhas, aí na hora que eu coloco comida para as galinhas é que eu venho fazer o café. Aí eu faço café. Quando eu não chamo as meninas, porque eu não quero chamar as meninas, né? Quando as meninas não estão estudando, que nem agora elas estão de férias, eu não gosto de chamar elas porque eu me acordava muito de madrugada. Era cinco horas, isso que eu digo, mas quando eu, tinha um velho lá ___________ voltando, né? Eu tinha tanta vontade de estudar e aí tinha esse senhor velhinho que tirava ____________ e gostava de ensinar. Passava uma semanas em uma casa, a outra semana na outra. Isso eu me levantava duas horas, três horas para ele me ensinar. Ele me ensinava em um livro, tinha um livro grande assim, né? E ele ensinava. E aí eu me lembro daquele tempo que eu passava, né? Que eu acordava muito cedo e muitas das vezes eu não queria me levantar, aí eu deixo elas. E daí elas ficam dormindo na época de férias assim, deixo levantar sete horas, sete e meia, elas se levantam. E aí eu não chamo elas. Mas quando está funcionando a cooperativa aqui, a escola, elas se levantam cedo. Eu boto tudinho para se levantar cedo. Porque umas vão estudar e quem não vai estudar vai cuidar da casa porque também trabalham na escola, prestam serviço para a escola e aí vem na fábrica. Mas mais é cozinhar para o povo quando vem.

 

P/1 – Que povo que vem?

 

R – Sempre vem gente de fora, de fora, o pessoal de fora assim para cozinhas e aí eles sempre me procuram para cozinhar porque as meninas não gostam muito de cozinha, né? Aí eu sempre vou cozinhar. Eu fico mais nessa parte de cozinha. E aí elas se levantam cedo. Mas a primeira coisa que eu faço é isso, boto primeiro a comida para as galinhas, né? Depois eu vou, faço o café, aí foi o tempo que eu chamo as meninas para levantar. E aí distribuo as tarefas, cada uma faz uma coisa.

 

P/1 – Você distribui as tarefas para as meninas? 

 

R – É. Uma vai varrer a casa, outra vai lavar vasilha. A outra vai arrumar o quarto, as roupas e juntar roupa para lavar. Isso na época de férias, né? Porque quando tem alguma atividade para fazer na fábrica, a ___________ que já tem quinze anos, a Elsiane, elas trabalhavam na fábrica. Assim, eu botava elas assim para fazer serviço assim pequeno, né? _______________ que elas não estavam fazendo nada e aí elas iam fazer isso na fábrica. As duas maiores de quinze e dezesseis anos.

 

P/1 – E assim, me fala uma coisa. A gente está aqui bem pertinho do Rio Iratapuru, né? O que é que o rio oferece para vocês além do peixe assim, né? Qual é o significa para você esse rio tão lindo?

 

R – O significado é muito grande desse rio, porque olha, veja bem, a Vila agora da cooperativa, o pessoal tudo fez casa ali na Vila ali para cima, né? Até porque disse que vai sair uma barragem não sei quando aí. Disse que a _____________ fala que vai sair. Eu não sei. Mas eu sempre gostei de morar na beira do rio porque eu acho mais bonito, acho mais fresquinho na beira do rio. E ____________ para a água. Tomar banho, lavar roupa. Tudo é mais perto na beira do rio. É mais bonito para você chegar, acho mais frio. Por exemplo, o sítio na beira do rio, começando na beira do rio. O açaizal é na beira do rio. E já lá na Vila de cima eu já acho mais ruim porque fica mais distante do rio. E na beira do rio não, é mais bonito, é mais próximo para você ir para a água, né? Aqui, no caso, nós temos a cachoeira aqui, que é São Raimundo o nome dessa cachoeira aqui, é São Raimundo. É, é São Raimundo essa aqui na frente é São Raimundo. Você vê essa cachoeira assim calma, mas quando ela está, a água está grande, é queda de água grande mesmo aí. 

 

P/1 – Então assim, vocês tomam banho, pegam água para beber. O que mais?

 

R – Toma banho, pega água para beber, lava roupa, lava castanha, lava fruta. Esse negócio de cana. Tudo na beira do rio.

 

P/1 – A água também cozinha, água para beber?

 

R – É, água para beber, para cozinhar, para tudo. Molha as plantas, coloca água para os bichos, para as galinhas no caso, né? Então a água serve para tudo isso. Então é muito mais fácil aqui na beira do rio. Eu gosto mais da beira do rio. E eu acho que não sou só eu. Tem um bocado de gente que gosta da beira do rio mesmo.

 

P/1 – E é bom tomar banho no rio, né?

 

R – E é bom, eu adoro tomar banho no rio. Porque a gente toma banho de chuveiro mas não é bom não. A gente termina e já está com calor. Termina e já está com calor.

 

P/1 – E quando é que assim é inverno aqui e quando é que é verão aqui? Porque cada um está falando uma coisa, né? Para mim. Quando é que começa o verão e quando é que começa o inverno?

 

R – Olha, o inverno está começando já. Começa a partir de janeiro já é o inverno. Nós já estamos em janeiro, né? Hoje já é o quê? Seis de janeiro. Então já começou o inverno.

 

P/1 – Porque chove muito?

 

R – É. Chove muito. Olha, a primeira chuva dá em dezembro, no final de dezembro. Aí em janeiro dá mais chuva. E aí varia porque o tempo também mudou. Do meu tempo que eu me entendi para hoje está muito mudado o tempo mesmo, entendeu? E o tempo mesmo está mudado. Então hoje agora está começando. Já é inverno. Janeiro já é inverno. Janeiro começa a chover muito. Agora final de janeiro e fevereiro começa a chover muito. O tempo que eu me entendia era assim, janeiro, fevereiro, maio, maio é o tempo da água grande mesmo.

 

P/1 – Março?

 

R – Maio. Começa a crescer a água agora em fevereiro e aí vai, fevereiro, março, água grande já maio a água está grande ainda. Ela baixa e sobe. Maio, junho, julho e aí julho já começa o verão de novo. 

 

P/1 – Aí é calorzão?

 

R – É. Aí julho está chovendo ainda. Mas já é restinho de chuva. A água vai embora e cresce um pouquinho. E cada vez que ela cresce e que ela baixa, ela vai embora mais para baixo. Vai embora até ficar julho. Aí agora já está verão. Agosto, setembro, quando daí em outubro está seco mesmo que está lá embaixo. Outubro, novembro, dezembro é que está desse jeito aí.

 

P/1 – Ah, como está hoje?

 

R – É. Porque começa o verão a partir de julho. É em julho. Só é verão porque são seis meses de novo de verão até chegar dezembro. Aí chegou dezembro, final de dezembro já está começando tudo de novo. Janeiro, inverno de novo. Assim é que é.

 

P/1 – Me fala uma coisa. Qual é a época da colheita da castanha?

 

R – A castanha começou a cair em janeiro. Só que ela está caindo pouquinho, né? Por causa do sol. O sol dá e ela seca o cabo. A chuva chove e aí amolece e vai caindo. Mas cai pouquinho. Começa a cair em janeiro, aí fevereiro está caindo mais. Aí quando é março, aí a castanha está caindo mesmo demais. Março a abril a castanha está tudo no chão já. 

 

P/1 – Aí que é bom para pegar?

 

R – Aí é que é bom para pegar a castanha.

 

P/1 – E como é que é a loja assim com a cooperativa, com a fábrica? Porque antigamente vocês pegavam, traziam a castanha e vendiam, né? Agora com o cooperativa e com a fábrica aqui na comunidade, depois que traz a castanha faz o quê?

 

R – Traz a castanha para cá para beneficiar a castanha. Porque antes, quando a gente não tinha secador, levava para o Laranjal para a Comaja lá. Aí a Comaja descascava, botava na estopa porque ela tinha o secador, né? E mandava para cá. Agora é assim. Isso passando, né? Porque eu pulei umas coisas, porque quando a gente trabalhou artesanal não era assim. Mesmo com a cooperativa, mas era artesanal. Quebrava com um pau, descascava a castanha tudinho. E era biscoito no tempo. Biscoito, farinha, essas coisas. Hoje, o que está se falando hoje é que já vende, já coloca no secador que já é energia. Aí seca, aí depois é manual com uma máquina que quebra tudinho. Tira a amêndoa de dentro. Aí tira a amêndoa e depois mói no triturador, na outra máquina mói tudinho. Aí depois de moída, aí vai, tira o óleo. 

 

P/1 – Qual dessas atividades são as mulheres que fazem?

 

R – As mulheres, elas fazem mais a parte de tirar a amêndoa da casca da castanha. Isso mais é com as mulheres.

 

P/1 – Porque, enquanto isso, os homens estão coletando ainda?

 

R – É. E mesmo os homens, tem uns que trabalham nisso. Mas é mais parte para mulher. Os homens vão fazer mais, porque tirar o óleo, porque já é serviço mais. É mais leve e se torna mais pesado na hora de colocar o produto dentro da máquina. Na hora de tirar o produto e colocar o óleo. Mas depois que está ali dentro e ela está tirando, ela tira sozinha. Você está ali, os homens só para olhar, olhar, olhar. Aí quando encheu o carote. Aí um carote de cinquenta quilos, né? De oitenta quilos, o carote é pesado. Mas, no momento que está tirando lá, ele está só olhando. Então essa é a parte mais dos homens.

 

P/1 – Tá. Então as mulheres ficam mais pegando a castanha e tirando a amêndoa?

 

R – É. Hoje é.

 

P/1 – E me fala uma coisa. Quando a mulher tem uma roça, como é que é? Planta que nem você planta? A gente foi lá hoje de manhã, eu conheci lá a roça que você planta.

 

R – Quase, não todas, né? Mas a maioria tem a sua roça. Mais são os homens assim que trabalham junto com as mulheres na roça assim. Todo mundo quase tem. É difícil um para não ter. E as roças hoje são todas pequenas. Antes as roças eram maiores. Hoje as roças são todas pequenas. São mesmo para o consumo ali do dia a dia que nem você foi lá, né? 

 

P/1 – Mas é um trabalho, né?

 

R – É. É um trabalho pesado trabalhar com a roça. É bom. Mas só que é pesado mesmo. A pessoa que não [tem] costume de trabalhar mesmo é ruim, porque trabalha no sol quente, carregando pau, tem que derrubar o pau para plantar, tem que cavar a terra. De verão, a terra é muito seca de verão. Você viu hoje lá que ela estava até boa de tirar aquela macaxeira, mas, quando é muito seco, o tempo a terra é muito dura para cavar para plantar.

 

P/1 – Aí fica difícil?

 

R – É.

 

P/1 – Mas, quando você vai para lá, você gosta de passar o dia inteiro lá? 

 

R – Eu gosto de passar porque eu não gosto de ir lá, vir aqui e voltar de novo. Aí eu me tento fazer um serviço e outro, uma coisa e outra, capinar o mato a até que eu fico entretida ali. Tem vezes que eu levo uma merenda, né? Um peixe assado quando tem assim eu já levo. Quando não eu faço lá mesmo, ali na roça, e como lá e venho embora. Aí, às vezes, eu levo um menino, um só para me esperar lá e para chupar cana, porque eles gostam também de chupar cana, comer banana quando tem. Agora o verão está tão forte que chegou o olho da banana desceu assim. Não sei se você viu lá. 

 

P/1 – Aquele fendão? Aquele?

 

R – Virado assim, tem muito lá virado assim na roça. 

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho de Natura, né? Quando é que foi a primeira vez que você ouviu falar de Natura? O senhor Arraia que começou, o que é que ele?

 

R – A primeira vez? Deixa eu ver se eu me lembro.

 

P/1 – Mais ou menos.

 

R – Mais ou menos, né? Porque ainda, isso no tempo do outro pessoal que trabalhava aí a gente ouvia falar em Natura. Mas só que era uma coisa que a gente nem compreendia, né? No tempo da outra diretoria, do outro pessoal que estava aí e que já foram embora, a gente ouvia falar de Natura, mas a gente não sabia nem como era que eles queriam fazer com o pessoal da Natura, a gente não sabia. Então do meu conhecimento para cá, a primeira vez do contato com a Natura foi com o Breu que eu sei, né?

 

P/1 – O Breu-branco?

 

R – O Breu-branco para fazer o perfume.

 

P/1 – O que é que é o Breu-branco? Onde ele dá? Aqui assim.

 

R – Ah, o Breu-branco ele é uma árvore. Uma árvore que dá uma resina, né? Dá uma resina, muita resina mesmo no toco assim da árvore. E aquela resina vai descendo só e cada pau assim varia de quilo, né? Você pode tirar três quilos, você pode tirar dez quilos, você pode tirar um quilo. Dependendo do tamanho da árvore. Porque ela está grande, dá pequena, entendeu? Então ela varia. 

 

P/1 – Mas dá naturalmente? Dá para tirar, você não está prejudicando?

 

R – Dá naturalmente. Não precisa você cortar ela e nada. Ela dá na natureza. Na natureza você acha um pau no mato virgenzinho, do jeito que ele nasceu lá. E aí você já está sabendo que aquilo é uma resina porque eu não sei nem explicar quando eu entendi. Já existia quando eu era criança. O papai dizia: "Olha embora minha filha, isso aqui é bom para levar para fazer o fogo. Para fazer o fogo para calafetar canoa". Essas canoas que a gente anda, tudo era calafetada com breu. ________ o breu, né? E calafeta. Então desde quando eu me entendi esse pau já era assim. Eu já vi esse pau assim. A gente tirava muito. Em casa tinha muito. E quando é que a gente estava para imaginar que hoje a gente ia usar um perfume do breu. Porque hoje eu tenho quarenta anos, né? Na época que eu nasci, todo o tempo usava e era muito querida, esse negócio dessa resina, para fazer esses trabalhos. Para fazer o fogo, acender em casa, calafetar canoa. Mas nunca a gente ia pensar que ia fazer um perfume para a gente usar hoje.

 

P/1 – E ______________, vocês nunca usavam para deixar um cheiro gostoso na casa.

 

R – Não, a gente dizia: "Mas é muito cheiroso esse breu". Mas a gente não tinha, tinha acostumado, né? A gente nunca tinha aquele negócio de ___________ ficar. Só quando encontrava no mato, né? Aí eu gostava ficar cheirando, cheirando o breu porque é muito cheiroso, muito cheiroso. Igual a esses paus que tem, tem muita madeira no mato também que é cheirosa, né? Mas dizer assim que, não, eu vou deixar assim ficar cheirando. A gente é tão acostumado que eu acho que a gente não ia deixar cheirando para ficar só assim em casa.

 

P/1 – E aí começou a parceria com a Natura por causa da castanha?

 

R – Sim. Olha, daí veio e aí já veio a castanha. Começou a parceria da Natura, do breu e já veio a castanha. Tirar o óleo da castanha, né? Tirar o óleo. A Natura começou a negociar para comprar o óleo também para fazer o mesmo produto também, né? Para fazer o shampoo, fazer os sabonetes, fazer essas coisas todas. Aí um dia eles trouxeram uma amostra para a gente que é água de banho da castanha. Eles trouxeram para dar assim para a gente, né? Para cada uma família eles deram um vidro.

 

P/1 – O que é que você achou?

 

R – Olha, eu achei assim muito legal porque onde que uma castanha dessa, que a gente come castanha aqui. Desde criancinha comendo castanha e tirando castanha para fazer doce, paçoca, o leite, farinha, biscoito que é o último, que já é mais artificial biscoito, né? Porque a gente não. E eu nunca pensava que a gente ia já usar um perfume, usar um sabonete da castanha. Então eu achei muito legal mesmo. 

 

P/1 – E o do breu, no caso, foi até parar em uma novela, né? 

 

R – Pois é. O breu foi, né? Porque naquela novela Celebridade eu vi passar uma vez lá. 

 

P/1 – Você lembra disso?

 

R – Eu lembro ainda.

 

P/1 – Você ficou feliz assim?

 

R – Aí todo mundo dizendo. Ali na cidade, né? No Laranjal do ___________, junto com pessoa de fora: "Mas eu não acredito que esse breu é de lá". Gente assim, né? Que não coisa. "Eu não acredito que esse breu." E aí eu disse: "Esse aí tem, é lá da minha comunidade. Foi tirado de lá". "Onde que é". E eu digo: "Pois eu vou mostrar para você que é". Aí: "Ah, mas é mesmo? Aí que quero, eu quero". E aí mas __________ de vez em quando eu conhecia assim, essas pessoas que assim, né? Que moram em certas cidades por aí achavam que era mentira. Aí depois, quando eles passaram a ver de verdade acharam que, aí: "Poxa, na tua comunidade? Então realmente é verdade". É, porque a gente nunca imaginava, né? Que fosse ter isso assim um dia. Fosse fazer.

 

P/1 – Mas você estava me falando assim, tem outras coisas que são bem perfumadas aqui da comunidade que dá depois para usar mais para frente.

 

R – Tem, olha. Porque tem a preciosa. A preciosa ela é uma madeira muito cheirosa. A preciosa, ela cheira a madeira dela inteira. Se você cortar o pau, ela cheira. A casca dela ela é cheirosa, a folha dela é cheirosa. Um todo é cheiroso. Mas é muito cheiroso. Você faz um chá para tomar assim com qualquer coisa de manhã, de café. O café da manhã, no caso, pode fazer o chá da preciosa. Ela é muito boa sim.

 

P/1 – E serve para quê? É bom para quê?

 

R – Olha, ela é um chá tipo calmante. Ela é boa para o estômago. Mas, ao mesmo tempo ela é boa para você tomar. Tomar mesmo com qualquer coisa de manhã. E ela é boa também para o negócio de gases assim, a pessoa tomar um chazinho dela assim como remédio. Qualquer dorzinha assim toma um chazinho assim. 

 

P/1 – Resolve?

 

R – É. Quando é qualquer coisa.

 

P/1 – Me fala. O que é que você acha da importância do trabalho do senhor Arraia como líder comunitário?

 

R – Qual é a importância dele?

 

P/1 – É. O que é que você acha?

 

R – É, eu acho assim, né? Eu acho bom, né? Assim, porque aqui a comunidade que escolheu, né? Eu não queria. Sabe, por quê? Porque a pessoa anda muito. Antes, ele sempre trabalhou assim andando muito e eu ficava mais sozinha com os meninos. Todo o tempo eu fica mais sozinha, mais sozinha e eles eram tudo pequeno. Agora não. Você vê que eles já estão tudo mocinho, né? Aí o pessoal da comunidade escolheu ele como representante de comunidade. Então eu acho legal por uma parte, porque as pessoas conhecem e vai lá e ele consegue no nome da comunidade, para a comunidade que hoje tem aí as coisas da comunidade. E eu acho importante por isso, porque sempre na comunidade tem que ter uma pessoa para ir lá fora assim, conseguir. E isso não significa que ele seja sozinho. Que ele vai fazer tudo, porque ele, não, porque o contato, às vezes, as pessoas acham isso melhor. Aquela pessoa para manter contato com a pessoa lá para trazer as coisas para a comunidade. Então eu acho que tem que ter uma pessoa assim. Eu acho importante assim por isso, né? Eu só não acho importante por outro lado porque tem _____________ que depois começou o trabalho da Natura. Esses trabalhos mesmo da cooperativa muito, avançando muito e ele passou um ano, quase dois anos mesmo sem parar aqui. Daqui dois, três dias ia embora para aí. Dois, três dias, uma semana e aí ia embora para lá. Aí parou de tirar castanha também. Tira assim, a gente coloca gente para tirar a nossa castanha lá. Ele vai só dar um pulo lá e vem embora para cá. Ano passado ele nem foi.

 

P/1 – Esse ano ele falou que quer ir, né?

 

R – Esse ano eu disse para ele ir porque é melhor, né? Porque, quando a pessoa vai trabalhar lá, ganha mais. Porque no preço que está a castanha hoje. Hoje a cooperativa está pagando um preço, mais ou menos, né? Mas bom para nós, né? E tem pessoas que ficam mais à vontade só tirando castanha, fazendo outra atividade aqui, ele ganha mais porque ele tem o tempo de tirar, trabalhar para ele mesmo. Aí ele compra as coisas para ele. E quem vai trabalhar assim ganha o dinheirinho que é só para ir fazer esse serviço, mas não tem aquele tempo de trabalhar para ele, aí não compra quase nada. Agora, esse ano agora, porque o ano passado que a gente comprou essa televisão com essa parabólica. E já esse ano estava uns três, dois meses esse freezer. Três por aí assim e ele mandou consertar. Esse foi um freezer mandado consertar. Não foi nem a gente que comprou esse freezer porque a gente não tinha também.

 

P/1 – Porque ele não está trabalhando com castanha?

 

R – E é. E, assim, ele está só trabalhando nessa atividade de líder comunitário.

 

P/1 – E ele não recebe nada?

 

R – Não. Agora desse ano, foi de julho para cá. De julho não, foi de agosto que ele começou a ganhar. Ganhar mas como diretor.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Entendeu? Assim, na parte. Porque ele é do Conselho Fiscal, né? Ele não é da diretoria oficial assim como é do Conselho Fiscal. Então nessa parte aí foi que o presidente começou, eles começaram a se organizar e cada um começou a ganhar um salário. No caso, o presidente que é o Luis. Ele é o Arraia. E a Dona Tersinha e o Sabá. Que ficam mais na frente trabalhando, lidando com o negócio, todo o trabalho, né?

 

P/1 – Representando mesmo, né?

 

R – Sim, representando. Aí foi que a gente começou a ganhar. Foi que a gente começou a comprar essas coisas, né? Porque eu também trabalho, né? Estou trabalhando direto.

 

P/1 – Você trabalha onde? Aí nessa lida toda, onde é que você trabalha?

 

R – Eu? Na escola. Sou merendeira da escola. Servente, zeladora da escola. Nós dividimos o horário, porque era eu e mais outro para trabalhar durante o dia todo. Então a gente dividiu o horário. Ela ficava com uma parte e eu ficava com outra. No caso, eu trabalhava de manhã e estudava de tarde. Duas horas da tarde. 

 

P/1 – Você estava estudando?

 

R – Se agora que eu comecei e que eu não contei para você. Porque eu comecei a estudar depois que eu cheguei aqui. Aí comecei a estudar o ano retrasado, o ano passado. Estudei primeiro no BB Educar, que é a Fundação do Banco do Brasil em parceira com a prefeitura. E depois do BB Educar nós já entramos agora na primeira etapa. Que foi esse ano que passou. Que eu já estou chamando ano passado, mas é ano retrasado, né? O primeiro.

 

P/1 – 2003?

 

R – É, porque nós agora já estamos em 2005, né? Então esse ano é que eu ainda não comecei a estudar, né? Já estou mentindo por isso, mas foi 2004. 2003 e 2004.

 

P/1 – O que é que você já aprendeu?

 

R – Eu aprendi muita coisa na escola. Eu aprendi o negócio. Por exemplo, no caso, ler eu sabia um pouquinho, né? E aí eu aprendi o resto, né? E aí eu aprendi mais falar certas coisas que eu não sabia falar. Eu aprendi brincadeira com o professor. Eu fui, aí é que eu fui dançar quadrilha. Nunca tinha dançado quadrilha e já fui fazer apresentação em Laranjal do Jari. Fui apresentar a nossa turma mesmo. Porque eu estou falando de mim. Mas nós temos a nossa turma, só que é nossa turma e ninguém quis ir das mulheres representar lá no Laranjal, representar a escola. Aí escolheram eu. “Ah, e Elisabete, a Bete, a Bete.” Chamavam de Bete também, né? Aí eu disse: "Ai, eu vou mas eu não quero que ninguém caçoe de mim". Aí eu comecei, né? Aí apresentei brincadeira, dancei quadrilha, dois anos dancei quadrilha. E assim aprendi. Mas conheci mais os professores. Aprendi muita coisa mesmo. Outros, como é que se diz, outros contatos assim, né? De, a escola ensina muita coisa. Até mesmo falar certas coisas que a gente não sabe. Aí o professor fala para a gente: "Olha, é assim, é assim, é assim". Para tu falar com fulano tem que ser assim, assim, e a gente vai aprendendo mais. Eu achei bom.

 

P/1 – E assim, tirando Monte Dourado e Laranjal do Jari, o que mais você conhece assim da região aqui do Amazonas, do Brasil? O que é que você conhece mais? Para onde é que você viajou? 

 

R – Não. Eu conheço só o Laranjal do Jari mesmo e Monte Dourado. Porque Monte Dourado é bem pequenininho mesmo, Monte Dourado. E Laranjal do Jari também. Maior porque tem muita casa na beira do Rio. Mas é só onde eu conheço. Macapá eu já fui. Macapá também eu fui na Praça Beira Rio. Mas eu não conheço Macapá porque eu fui poucas vezes lá. Vai de carro e fica lá em uma casa e depois aí vem embora. Assim, eu fui no centro da cidade lá, mas eu não tenho assim conhecimento não. Só mesmo Laranjal. Conhecimento mesmo, que eu conheço somente a minha cidade, que é Laranjal do Jari e Monte Dourado. Porque, Monte Dourado, você é só atravessar do outro lado. Porque é Pará. Para cá é Amapá e para lá é Pará. Mas é vizinho porque você conhece tudo, né? É bem pertinho, você vai de carro por lá para poder atravessar. 

 

P/1 – Me fala uma coisa. Você vendo esses produtos da Natura sendo produzidos assim com matéria-prima que vem aqui da comunidade e tudo. Você acha que a Natura valoriza o brasileiro, o amazonense? Você acha, aqueles, está valorizando ou você acha que não?

 

R – Eu acho assim, ela está valorizando por uma parte. Por uma parte ela está valorizando bastante, né? Assim, porque. Eu digo valorizando porque está trabalhando com produtos naturais, né? Produtos assim. Mas eu acho que ainda dá para ela fazer mais ainda. É, porque só de você ver a pessoa trabalhar com uma, como é que se diz, trabalhar com os produtos naturais...

 

(PAUSA)

 

P/1 – Bom, a gente estava falando das coisas que faltavam para a comunidade, né? Um Centro Cultural, uma praça, a creche, uma praça de esportes. O que mais? 

 

R – Eu falei, né? Uma escola também melhorada. Porque a nossa escola é muito pequena, a nossa escola. Então, se tivesse uma escola melhorada, mais, uma escola assim, tem duas salas de aula mesmo na escola-oficina, né? Então deveria ter uma escola mesmo com quatro salas de aula. Quatro salas de aula e alojamento dos professores também deveria ser melhorado. Eu acho que falta também. E a outra coisa também é o transporte. Assim, porque nós ainda não temos um transporte assim. Estão com previsão de comprar um caminhão. O transporte que eu digo é do Laranjal do Jari para lá. Que é de carro, né? 

 

P/1 – Porque aqui todo o transporte é pelo rio, né? 

 

R – É. Todo transporte é pelo rio. Mas para ir daqui para o Laranjal tem que ter o carro porque não tem como ir pelo rio, porque tem a Cachoeira de Santo Antônio. E aí se não for de carro.

 

P/1 – Não temo como.

 

R – É. Não. Se você, com muito sacrifício, passar a canoa para o lado de baixo das pedras de Santo Antônio. Mas aí é muito ruim. A gente passou antes, né? Mas agora do jeito que estão trabalho, mais avançado, a gente tem que ter uma coisa mais fácil, né? Para a gente poder avançar. Senão.

 

P/1 – Não dá.

 

R – Não dá.

 

P/1 – Me fala uma coisa. Você é vaidosa?

 

R – Um pouco. Assim, vaidosa como assim? Por quê? 

 

P/1 – Você gosta de se arrumar?

 

R – Ah, sabe o que é que eu gosto muito assim de vaidade? Eu gosto muito de ir em festa. De dançar. Eu não sei se eu danço direito, mas eu gosto muito mesmo. Porque quando eu era solteira a mamãe não gostava. E quando eu me casei com ele, ele é que me ensinou negócio de festa. Porque ele gostava muito de festa, desse negócio de festa, né?

 

P/1 – Bailinhos.

 

R – Sim. Essas coisas. Porque para lá para cima era assim, né? Porque eu não participava de ___________ nenhum e ele era acostumado já. E aí eu aprendi e, depois que eu aprendi, eu gostei. E aí eu gosto. Jogo eu não jogo. Jogo nenhum. E não é que um dia desses o professor me ensinou na escola um tipo de joguinho que tem em escola? Aí eu aprendi e gostei. Mas eu gostei, mas deixei lá mesmo na escola. De lá eu não trouxe para casa o jogo, né? E aí os meninos e aí as meninas gostaram e jogaram. O professor trazia aqui para casa para jogarem. Mas eu nunca gostei. Até vôlei, negócio de vôlei, queimada que eles gostam, que eles ficam brincando. Quando o professor está aí tem uma quadra. Mas eu nunca fui assim. Porque quando tem uma coisa para fazer, eu posso gostar do que eu gostar, posso gostar de uma novela, eu posso assistir o que eu gostar de assistir, mas, se eu tive um serviço para fazer em casa, eu largo tudinho isso e vou fazer o meu serviço. Só tem uma coisa que eu deixo mesmo, eu vou para festa, o que eu tenho que fazer e tem uma festinha ali eu deixo lá e vou para a festa. Vou e danço até amanhecer o dia se for preciso. Mas outro negócio de novela, qualquer coisa é que eu gosto de novela. Eu gosto de qualquer coisa mas eu largo todas essas coisas para fazer o meu serviço quando eu vejo o meu serviço para fazer. 

 

P/1 – Mas você gosta de se arrumar?

 

R – Gosto. Eu gosto de (risos).

 

P/1 – Fala. Pode falar. Para que é que você gosta de se arrumar. 

 

R – É eu gosto de colocar um batom, um brinco e um esmalte. Só.

 

P/1 – Esmalte, que cor que você gosta?

 

R – Esmalte eu gosto muito de vermelho e gosto também de branco. Eu gosto de vermelho e branco. Eu até tenho. Esse aqui eu coloquei no Natal. Esse eu fui tirar para colocar branco e não coloquei, foi, nada mais.

 

P/1 – Eu também não. (risos) Me fala mais uma coisa. Você tem um monte de filha. Elas são muito bonitas. Pelo menos, eu acho que elas são muito bonitas assim. O que é que você acha assim que elas têm de bonito. As meninas e os meninos. Assim que caracteriza a mulher aqui na região?

 

R – Você está falando só da mulher?

 

P/1 – É. Depois você pode falar dos meninos.

 

R – Ah tá. As meninas eu acho assim que elas são, eu acho elas também bonitas assim, tanto a cor, como também o tamanho e a gordura. Porque elas não são muito grandes. Porque não adianta eu ter uma filha muito grande se eu sou pequena. O pai é que é maior. Você já deu para perceber que eu sou baixinha, né? Eu não sou grande. E elas todas são pequenas, né? Elas não são muito gordas, nenhuma é muito gorda. Elas são tudo... Até porque tem umas que estão meninas, mas só que a Edna já tem dezesseis anos. Ela já fez. Então tanto é que ela é magrinha, tanto é que ela foi assim. O corpo dela foi assim. E a outra, a Elza, que é a maior de todas. Só que é porque ela também já tem vinte e quatro anos, né? Mas ela é assim quase, não do seu tamanhão assim, mas de um tamanho assim que é assim muito mais alta do que eu um pouco.

 

P/1 – E o rosto, assim? O que é que você gosta no rosto delas? Elas têm os olhos bonitos? Uma boca bonita? O que é que você acha?

 

R – Eu acho mais, olha, da Elziane eu acho muito bonito o jeito da boca dela, da Elziane. Já a Sandra é o olho também e é a boca, né? A Diane mais eu acho que é assim o cabelo dela. É o cabelo dela e o rosto dela assim. A Elziane é como eu falei, eu acho mais o jeito de rir dela. Da Elziane. E a Elziane até um tempo teve um cabelo bem liso, liso. Nunca teve cabelo enrolado. As outras tudinho de cabelo enrolado, mas ela não. O tempo liso.

 

P/1 – E a Sabrina? A Sandra e a Sabrina?

 

R – Ah, a Sabrina, eu acho o rostinho dela todo bonito porque o jeito dela ri, porque ela fala um jeitinho de rir que eu acho bonito ela. E ela é bem morena. A Sabrina é a mais morena delas. É ela e a Eliane. São as duas mais morenas. E eu acho o cabelo dela também. E o da Sandra também. Só que, a Sandra, ela foi mais branca. O cabelo dela era bem amarelo.

 

P/1 – Mais loiro, né?

 

R – É, mais loiro. Só que nunca foi, eu nunca usei coisa para ficar loiro o cabelo delas. Nenhuma delas. E eu acho bonito também o cabelo delas. Todinho delas.

 

P/1 – E os meninos? O que é que você acha que eles têm de bonito assim? São fortes, são?

 

R – Nego é o mais forte deles. É o mais baixo. Só eles dois, homens que estão feitos, como é que se diz, são eles dois. Então ali ele está bem pequeno ainda. 

 

P/1 – Mas ele tem uns traços bonitos também.

 

R – Tem. O Nego era que nem ele. Bem magrinho. Bem magrinho mesmo. E ele ficou assim, mais gordo e mais baixo. Já o Edinho é mais alto e mais magro. 

 

P/1 – Legal. Te alguma coisa que você acha que ficou faltando falar, Elisabete? Que você não falou? Que você gostaria?

 

R – Do meu neto.

 

P/1 – Fala. 

 

R – Não falei dele.

 

P/1 – Não. 

 

R – É o primeiro neto que eu tenho, ele. Ele é tão engraçadinho. Ele parece com a Sandra, ele. 

 

P/1 – Como é que ele chama?

 

R – Felipe. É Felipe. A mãe dele terminou de estudar. E, na época que ela foi terminando, ela foi ganhando ele também. Ela ganhou ele em novembro. E ela foi terminando também de concluir o negócio do Primeiro Grau, né? E tudo. Aí ela voltou para trabalhar aqui e daqui ela voltou para fazer um curso em Laranjal. Ela está fazendo um curso no Laranjal. O Laranjal que diga. Macapá. Ela está fazendo um curso em Macapá. 

 

P/1 – Ela mora lá?

 

R – É. Ela mora lá porque ela está fazendo o curso. Quando ela terminar, ela vem embora para cá. A casa dela é até ali em cima. Que ela sempre morou comigo, né? Mas só que ela tem uma casa agora para ali. Aí quando ela vinha terminar lá de fazer o curso, a vontade dela é que a prefeitura contrate ela para trabalhar aqui na escola. 

 

P/1 – O neto é a paixão nova?

 

R – É. Eu esqueci de falar dele, né? Ele é o primeiro neto. Eu tenho, ele fez uma ano dia oito de novembro.

 

P/1 – Ai que gostoso.

 

R – Ele já anda, já corre e já começa a falar.

 

P/1 – E assim, para o futuro qual é o teu sonho?

 

R – Ah, meu sonho, eu tenho vontade ainda de estudar mais. Deixa eu ver o que eu queria. Eu queria um monte de coisas. Um monte de coisa assim não. No futuro eu queria assim que os meus filhos estudassem e eu sempre trabalhar. Mas tinha vontade de estudar assim para eu ser ainda alguma coisa assim dentro da comunidade. No caso, que fosse mesmo na escola assim. Eu queria ser alguma coisa assim. Trabalhar na comunidade assim, mas trabalhar assim como na escola. Fazer assim alguma coisa. Isso é que eu tinha vontade no futuro ainda. Ter uma casa melhorada assim. Porque quando eu trabalhei muito também para essas meninas que estão desse tamanho mais ____________________. Eu sofri para caramba com essas meninas. Eu não tinha tempo nem para eu sair para ir ali. Eu não tinha tempo. Isso para mim no Laranjal tinha que ser uma no braço e outra segurando com a mão. E eu cansava. Chegava de lá morta de cansaço, que na época a gente só andava pela cachoeira. São três quilômetros. É o que eu estou lhe falando de __________ de carro, né? Então, agora, não é importante, nós com um trabalhão desse nós andarmos três quilômetros de pés. Não é importante para nós isso. Porque a gente já andou muito. Andar, agora eu vou passear. A cachoeira tá, tudo bem. Vamos passear, mas para a gente ir a trabalho no Laranjal do Jari fazer compras para carregar nas costas que nem nós carregávamos, então, não é bom para nós se nós estamos trabalhando para crescer a comunidade. Então muito sacrifício _____________ ____________ que está na idade que está. Já as meninas que estudam hoje, elas já não querem. Até porque são mais fracas. Você vê, eu vejo uma menina minha de hoje e não tem mais, não é que nem eu que sou. Eu vejo assim, eu conheço no corpo delas que elas não dão conta. Elas fazem sim muita coisa. Elas gostam. Às vezes eu não quero nem levar elas para o mato e: "Ah mãe, eu quero ir". Mas não é que nem eu assim. Elas são mais fracas. O pessoal de hoje é mais fraco.

 

P/1 – Aquele saco de macaxeira lá hoje quantos quilos tinham?

 

R – Dez quilos.

 

P/1 – Dez quilos.

 

R – Isso baseado no mínimo. Dez quilos. Então o pessoal de hoje, os meninos de hoje não são fortes que nem os de antigamente. Do meu tempo. Eu acho assim que eles são mais fracos. A gente percebe neles assim que eles são mais fracos um pouco. E não é tanto.

 

P/1 – Mas?

 

R – Mas tem uns que são. E eu conheço meus parentes mesmo que moram lá. Em Dourado tenho parente lá na _____________. Que ainda são mais fracos ainda, eu acho assim. São mais fracos ainda do que eles. Então o meu sonho era ter uma casa melhorada assim e só. 

 

P/1 – E trabalhar na escola?

 

R – Trabalhar assim na escola para ajudar a comunidade. Só o que eu queria.

 

P/1 – Está joia. Olha, eu quero deixar registrado aqui, tá? Agradecer a entrevista, mas não só isso. Mas toda a hospitalidade que a gente teve aqui nesses dois, três dias e a oportunidade de viver aqui com vocês. Obrigada.

 

R – De nada.


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