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Ternamente Maggy

História de: Margarida Maria Assis de Oliveira Ferraz (Maggy)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/08/2015

Sinopse

Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, Margarida, ou Maggy como gosta de ser chamada, relembra sua infância em Juiz de Fora, os passeios a cavalo na Fazenda da Floresta, as idas com o pai à Fábrica de Tecidos São João Evangelista e as lições que aprendeu com as tias maternas. Descreve a casa em que morou na Rua Braz Bernardino e o sobrado da avó materna, na Av. Rio Branco. Conta como começou o namoro com Armando e como após um rápido noivado, casou-se e foi morar no Rio de Janeiro. A adaptação ao Rio de Janeiro, o nascimento dos quatro filhos e o retorno à Juiz de Fora são relatados por ela, sempre com alegria e desenvoltura. Finaliza falando sobre a morte do marido, de câncer e como conseguiu realizar o seu sonho de voltar a morar em Juiz de Fora, na casa em que ela e o marido construíram em um terreno herdado do pai, na Fazenda da Floresta.

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História completa

Meu nome é Margarida Maria Assis de Oliveira Ferraz, eu nasci em Juiz de Fora, no dia 21 de agosto de 1935. Meu pai chamava-se Theodorico Álvares de Assis e minha mãe, Margarida Maria Monteiro de Assis. Os dois eram aqui de Juiz de Fora. Meu pai era industrial, trabalhava na Fábrica de Tecidos São João Evangelista, fundada pelo meu avô, e a minha mãe era dona de casa.

As famílias Assis e Monteiro
A família do meu pai é aqui de Juiz de Fora mesmo. E a minha mãe, ela nasceu em Juiz de Fora, depois, o meu avô, que era médico, foi morar em São Paulo, se não me engano, em Rio Claro. Mais tarde, a família voltou novamente para Juiz de Fora. Eu não conheci meu avô, porque ele faleceu cedo, então, eu só me lembro mesmo da minha avó e da família já em Juiz de Fora, dos irmãos, tios, essa família toda, que era uma família muito grande. E, por parte do meu pai, também eu me lembro, desde pequenininha, deles morando aqui em Juiz de Fora. Meu avô paterno eu conheci muito pouco, só me lembro uma vez de tê-lo visto, porque ele faleceu também muito cedo. Agora, a vovó, não, me acompanhou bastante, e, depois que ela casou a última filha, ela entrou para o convento das Irmãs Servas do Santíssimo Sacramento, e, mais tarde, ela fundou, em Juiz de Fora, o Cenáculo, e veio a falecer no próprio Cenáculo.

Eu tenho uma história desde o meu bisavô Assis, porque ele veio para Juiz de Fora e exerceu até um cargo político aqui. Ele fundou a Fazenda da Floresta, onde eu passei a minha infância toda. E ele faleceu muito cedo, então, deixou a minha bisavó Carolina com cinco filhos pequeninos. E ela foi uma pessoa que marcou muito a nossa família, porque era uma senhora de muito caráter, muito piedosa, e que foi em frente, conseguiu educar os filhos. Ela ficou morando na Fazenda da Floresta durante 16 anos e ali criou a família. E, depois, o filho, meu avô, Theodorico, é que ficou cuidando da Fazenda da Floresta e, aí, foi desenvolvendo a família. Depois, ele fundou a Fábrica de Tecidos São João Evangelista. Então, a família é bem de Juiz de Fora e localizada na Fazenda da Floresta.

As famílias dos meus pais eram muito conhecidas, porque Juiz de Fora era muito pequenina, então, as famílias eram muito conhecidas. E uma tia, minha tia-avó, se não me engano, ela se casou com uma pessoa da família Burnier, que era primo da minha mãe, Henrique Burnier. Então, as famílias, além de muito amigas, se entrelaçaram mais com o casamento do Henrique Burnier com a Olga de Assis, mas esses eu não os conheci. As famílias foram sempre muito amigas, muito unidas, e com esse casamento eles se aproximaram mais ainda.  Meus pais tiveram cinco filhos: o meu irmão Theodorico, o segundo, Paulo, eu fui a terceira, a quarta, Helena, e depois teve uma temporona, que é a Ana Lúcia. Meus dois irmãos já faleceram.

Os pais
Meu pai sempre teve um espírito empreendedor e a família tinha esse espírito. Na fazenda, naquela época, tinha muitas famílias que trabalhavam na casa-grande. E o meu avô recebeu de um amigo, que pediu para ele para ficar com umas máquinas, que esse amigo tinha em Juiz de Fora. Então, ele disse: “Mas eu sou fazendeiro, não tenho muita prática com maquinário”, mas o amigo insistiu e ele, então, comprou essas máquinas de tecido. E, nessa ocasião, o meu pai tinha mais ou menos uns 22 anos, ou 23 anos. Então, ele foi para a Inglaterra, para estudar em Manchester sobre a parte industrial. Ele ficou lá uns três ou quatro anos, quando se formou, veio para Juiz de Fora, e montou a Fábrica de Tecidos São João Evangelista. Essa fábrica existe até hoje, atualmente, o dono é o meu primo, Eduardo Pinheiro de Assis. Então, a minha infância toda decorreu entre a fazenda e a fábrica, porque a fábrica é pertinho da casa-grande da Fazenda da Floresta. Quando meus pais se casaram, eles foram primeiro morar na fazenda, enquanto estavam construindo a nossa casa, aqui na Rua Braz Bernardino, 105. Quando ela ficou pronta, eles mudaram para cá. Eu nasci na Santa Casa, mas vivi nessa casa de Juiz de Fora, desde o meu nascimento. Nessa época, nós passávamos as férias escolares todas na casa-grande. Depois, como meus tios eram sete, para não ficar um grupo muito grande de pessoas na casa-grande, cada irmão tinha direito a uma temporada na fazenda. Então, iam com os filhos, levavam uns convidados, os amigos, eles dividiram isso muito bem, isso decorreu durante toda a minha infância até o meu casamento. E foi muito gostoso, foram férias maravilhosas, eu fui muito feliz na minha infância, muito mesmo!

Eu era ligada aos meus pais, eu era muito ligada aos dois, o meu pai era mais discreto, ele não era muito de falar, de conversar não. A minha mãe, eu conversava muito com ela e tinha prazer de ficar com ela, de modo que ela ficava perto de mim, eu ficava estudando, ela às vezes ficava costurando. E o meu pai trabalhava o dia todo fora, mas eu tinha uma ligação muito preciosa com ele. Ele não era expansivo, era mais tranquilo, mas chegava sempre, tinha aqueles jantares com os filhos todos, ele conversava, depois, nós dávamos um passeiozinho a pé na Braz Bernardino, ele saía, eu ficava estudando, os meninos também estudando. Eu fui a terceira, éramos cinco, depois de mim, tem a Helena, depois de um período grande, teve a caçula. Quando eu tinha 13 anos é que nasceu a Ana Lúcia. Então, a Ana Lúcia para mim foi uma coisa! Eu estava acostumada com nenê, então, foi uma beleza, eu cuidava dela, fazia as mamadeiras, essa coisa toda, e foi uma alegria muito grande para a gente a caçulinha. E a Helena tinha uma diferença de quatro anos, mas eu não tinha muita ligação com ela. Ela era o oposto meu, aquela coisa toda, e eu ficava em casa mesmo, com meus livros, com meus estudos e nas duas casas, na minha casa e na casa das minhas tias. Mas foi um período muito gostoso!

A Fazenda da Floresta
A fazenda ainda existe e está uma beleza, porque, depois de diversos anos, quem comprou foi um primo meu, Mário Assis Ribeiro de Oliveira, e ele é o dono da fazenda. E ele cuida da casa-grande, a casa-grande está uma beleza. Há pouco tempo, nós fomos lá reviver a nossa história, é uma beleza, é um verdadeiro museu, linda, linda, linda. O Mário cuidou, recuperou, está realmente linda. Porque a Fazenda da Floresta tem uma importância muito grande na minha vida, as férias maravilhosas que tive lá, o contato com a família, então, marcou muito todos nós, a família toda. De modo que eu sempre digo, fico muito feliz, porque a casa-grande é como se fosse um casamento feliz, porque ela ficou nas mãos de um primo muito querido, e isso para mim é uma alegria muito grande.

Era uma casa muito grande, na época em que eu era criança, por exemplo, tinha a parte em que geralmente ficávamos meu pai, minha mãe e meus irmãos. Nessa parte, tinha um quarto enorme, que era dos meus pais, ao lado, ficava um quarto muito grande, que era das meninas, e tinha um quartinho menor, que era dos meus dois irmãos, e um banheiro, isso está perfeito até hoje, ela [a nova proprietária, Marly] só melhorou a aparência, os banheiros. Depois, do outro lado, tinha também a mesma coisa, um corredor grande, ali tinha três quartos e mais um outro, quatro quartos e um banheiro. Então, ficava lá quem gostava mais de ficar naquele cantinho ali, que tinha vista do fundo da mata. Aí, depois, tinha a varanda da frente, muito grande, uma sala de estar também muito grande, uma outra sala enorme, onde nós fazíamos os jogos, tinha bilhar, pingue-pongue, depois, tinha a sala de visitas, também muito bonita, aí, tinha um salão enorme, que era o salão das refeições, é imenso até hoje, uma beleza! Depois, no lado esquerdo da fazenda, tinha a outra parte dos quartos, eram quartos grandes também, dois quartos e o quarto do casal, e mais um quarto de solteiro, para quando tinha alguma visita, e a parte da cozinha toda. E embaixo tinha o porão, mas, na minha época, o porão não era muito bem cuidado, eu tinha até receio de entrar lá e encontrar aranha caranguejeira, porque lá tinha bastante. A casa-grande é um quadrilátero, no centro, tinha umas palmeiras, uma coisa toda cheia de janelinhas, tipo mineiras mesmo, e depois tinha uma outra varanda que nós chamávamos de varanda dos passarinhos, porque tinha um jardim na frente e a gente tinha vista de todos os terreiros de café. Durante muito anos, a fazenda produzia e vendia muito café, isso eu me lembro, os empregados trabalhando, secando café naqueles terreiros enormes. Estão lá até hoje, a fazenda não tem mais a plantação de café, mas os terreiros estão lá, como era antigamente, ele [o novo proprietário, Mário] conservou tudo como era no meu tempo de menina. De modo que, quando a gente está lá, é uma recordação muito gostosa!

O primeiro passeio da manhã era a cavalo, porque eu tinha duas primas, que eram da mesma idade, mas tinha uma outra também, que era um pouquinho menor, então, quando nós nos juntávamos nas férias, os passeios a cavalo eram maravilhosos, porque nós rodávamos a fazenda inteira, íamos pela mata, e a fazenda naquela época era bem grande, então, aqueles passeios levavam duas horas, duas horas e meia, e quem nos acompanhava era o rapaz que cuidava dos cavalos, ele chamava-se Vieira, que era uma figura, um encanto! Não esqueço a figura dele, porque ele nos levava nos passeios todos com uma educação, aliás, os empregados antigos da Fazenda da Floresta, eu hoje me lembro de todos, eram pessoas educadíssimas, amigas. Então, eu me lembro deles, eu fecho os olhos e recordo tudo isso, e eles ficaram lá bastante tempo, até que eles foram falecendo e foram então vindo outros, mas sempre com muito carinho com todas as pessoas da família. Os empregados moravam todos ali, tinha uma cozinheira, de quem até hoje eu me lembro, ela era baixinha, não sabia ler e nem escrever, mas cozinhava que era uma beleza! Como a família era muito grande, porque na família do meu pai nós éramos cinco, mas, nas dos outros tios, um teve 14 filhos, outro teve 13, dez, era por aí, então, era muita criança. Tinha a casa-grande, depois, perto da casa-grande, tinha umas quatro ou cinco casas, que eram, então, do administrador, e, depois, de uma irmã do administrador, e, ao lado, da mãe, antiga, italiana - porque a família veio da Itália - a mãe dos empregados, do administrador da fazenda. Então, as casinhas estão lá até hoje, só que agora com novo dono, que é o meu primo. E, logo depois, tinha aquelas outras partes da fazenda e, mais afastado, além de ter um açude muito bonito, que era a paixão do meu avô, que eu conheci muito pouco, aí, tinha um bairro, que era um bairro que pertencia à fazenda. Então, a cozinheira e a lavadeira, essas moravam no bairro, que chamava-se antigamente Pari, o bairro dos empregados. Agora, o administrador e a família dele, que eram todos irmãos, eles ficavam bem na entrada da fazenda, porque a entrada da fazenda tem uma parte que é mais bonita, que era da família, e a outra parte que era onde se ia para o estábulo, as vaquinhas, essa história toda, e, no meio, tinha um pasto que era onde ficavam muitas vezes as vaquinhas pastando ali. Quer dizer, era tudo muito lindo, a paisagem muito bonita.

A cozinheira fazia essa comida caseira: panquecas maravilhosas, o franguinho, o tutu de feijão, aquela comida bem mineira, mas ela fazia e ficava tudo tão gostoso! E tinha também a governanta, que ficava responsável pela parte dos doces. Então, eu me lembro do doce de leite daquele tacho de cobre enorme! Ela fazia o doce e depois deixava a gente aproveitar: a gente raspava o tacho com aquele doce de leite maravilhoso! Eu tenho uma saudade imensa do doce de leite, daquela cozinha antiga! Acho que o ambiente era muito gostoso ali, a gente sentia muita amizade. A lavadeira, eu ficava impressionada, porque era um tanque imenso, e ela lavava tudo à mão, a roupa ficava branquinha, aqueles lençóis... E ela vivia rindo, então, a minha mãe gostava muito de ir lá conversar com ela. Elas tinham uma alegria e aquilo me impressiona até hoje, porque tinham uma vida difícil, com muita dificuldade, mas elas eram tão alegres e transmitiam isso. Então, o ambiente lá da fazenda era muito gostoso, muito amigo, e assim foi durante muitos anos.

Nós tínhamos as festas, eu não me lembro muito bem, tinha os aniversários, mas nas temporadas de cada tio; na minha época, por exemplo, tínhamos mesmo só a família, não ia muita gente, na época da minha mãe; mas, quando era a época de outros tios, às vezes eles faziam festas, faziam aniversários de sobrinhos e tudo, mas festas muito grandes eu não me lembro não. Olha, eu me lembro pouco, só quando havia mesmo algum aniversário, mas normalmente na fazenda, como as famílias eram muito grandes, a casa-grande ficava mesmo para as famílias e os amigos dessas famílias, dos tios.

A Fábrica de Tecidos São João Evangelista
O meu pai trabalhava na fábrica, porque, depois que foi construída, ele foi presidente da fábrica durante muitos anos. Então, a gente vivia ali, e eu sempre gostei disso. Á noite, ele nos levava para visitar a fábrica, quando era nossa temporada na fazenda. Nós saíamos à noite para dar uma voltinha, e ele tinha aquele amor, porque aquilo foi construído por ele, pelo pai, essa coisa toda. Então, nós visitávamos, principalmente, a parte nova da estamparia e da tecelagem. Eu me lembro muito bem, nós passeando e aquele barulho forte das máquinas trabalhando, e as pessoas trabalhavam, acho que até as dez horas, e depois tinha um outro turno, que trabalhava a noite toda. Teve uma época também, eu já era maiorzinha, na época de 13, 14 anos, que eles também colocaram uma sala de cinema na fábrica. Eu adorava, porque os filmes eram muito bem escolhidos. Então, nas férias, aos sábados e domingos, tinha cinema. Eu tenho uma recordação muito gostosa, os filmes muito bonitos... E a gente ia ao cinema e a sala de cinema ficava cheia. Atualmente, não tem mais, isso já acabou há bastante tempo. Mas de todo aquele conjunto que é a fábrica, porque também foi construída a vila, ainda tem muita coisa lá. Na época, a fábrica dava tudo. A fábrica construiu a vila dos operários, as casinhas eram todas coloridas, eram todas da fábrica, e a fábrica ajudava muito, então, tinha posto médico, que atendia todas as pessoas ali da região, tinha a escola, que até ficou com nome da minha bisavó, Carolina de Assis. No final do ano, a minha mãe com mais duas tias iam para fazer o exame dos alunos, lá, só tinha o curso primário, então, eu ia também e acompanhava o exame, e era tudo muito organizado. Também, no final do ano, a fábrica sempre fazia um churrasco, para os familiares e também para os empregados. Isso durante muito tempo, enquanto o meu pai ficou na fábrica, era todo ano, no dia 27 de dezembro, que era dia de São João Evangelista. Eu fui criada entre a fábrica e a fazenda, então, é um amor imenso que eu tenho por aquela região.

A casa da Rua Braz Bernardino
Nós morávamos na Braz Bernardino, então, todo dia, meu pai ia de manhã e voltava às quatro e meia, isso durante muito tempo da minha vida, depois, mais tarde, ele passou para a Companhia Mineira de Eletricidade, então, a fábrica ficou para o meu irmão, que trabalhou lá com um primo também durante muito tempo, e assim foi progredindo. Essa casa era muito linda, eu não sei se o estilo dela era estilo mexicano, isso eu não me lembro, mas era uma casa grande de dois andares e tinha um jardim muito lindo do lado, isso eu me lembro perfeitamente, porque a minha mãe adorava planta, tinha um pequeno laguinho, tinha aqueles caminhozinhos de cimento em que a gente andava de bicicleta, um alpendrezinho com flores, era um parque bem bonito, bem grande. Na frente da casa, tinha também, mas isso era mais fechado, tinha um jardinzinho em frente às varandas. Tinha uma vista muito bonita e eu acho que, por causa disso, eu sempre gostei de morar tendo vista, porque eu não sei morar não vendo vista. E nós aproveitamos muito o jardim, eu costumava, depois do almoço, ir passear com a minha mãe um pouquinho, fazendo o quilo, porque eu fui sempre muito agarrada com a minha mãe, muito mesmo, e eu fui sempre muito estudiosa, depois, eu ia estudar, mas aquele passeiozinho ali, depois do almoço, era todo dia. Eu me lembro da casa, eu já era maiorzinha, devia ter uns nove anos, é o que me lembro, ela já estava pronta, depois, a minha tia construiu do lado, e, mais tarde, o tio construiu do outro lado, porque, quando eu era pequenina, a casa da minha avó ficava em frente à Catedral - hoje, é um posto de gasolina, se não me engano - e ia até a Batista de Oliveira. Então, tinha a casa do meu avô, depois tinha um terreno, campo de tênis, depois, vinha a casa que a minha tia construiu, e a nossa casa. Então, a gente ficava brincando por ali, correndo por ali, foi uma época muito feliz para a gente.

A rua era muito sossegada, eu me lembro só do Grupo Escolar, que tem até hoje, tinha casinhas todas parecidinhas umas com as outras e que pertenciam, se não me engano, à Santa Casa. Eram todas de gente muito conhecida da minha infância, e a rua era muito tranquilinha, porque só a nossa família tinha casas maiores, o resto eram todas casinhas lá da Santa Casa. Na casa da minha tia tinha piscina, nós frequentávamos muito a piscina, porque eu tinha duas primas da minha idade mais ou menos. Eu ia muito lá, ficava muito lá, depois, os outros foram construindo, e eu já não frequentava muito, eu sou das mais velhas, atualmente, eu tenho só uma prima e depois já vem eu, mas, naquela época, tinha os meus irmãos e tinha os primos também mais velhos. Eu fecho os olhos e vejo tudo aquilo de novo!

O sobrado dos Burnier
Nós não brincávamos na rua, era muito raro, minha irmã às vezes gostava de jogar vôlei, bola na rua, mas eu não, porque eu gostava muito de estudar. E eu passava muitos dias no sobrado da família Burnier, onde eu tinha duas tias, que foram minhas mães também. Eu passava a maior parte do tempo lá, brincando, e elas eram professoras, então, uma me ajudava a fazer dever da escola, outra me ensinava francês. Então, eu passava os dias lá no sobrado da família Burnier. Esse sobrado ficava na esquina da rua Oscar Vidal com a avenida Rio Branco, era um sobrado bem antigo, parece até que ele recebeu numa ocasião o Dom Pedro II.

 Era um sobrado muito antigo e na parte de cima, vivia a família Burnier, que eram a minha tia-avó e os filhos, era uma família que teve uns sete ou oito filhos, mas a minha tia-avó, ela casou com primo, então, eles eram surdos-mudos, eu não me lembro se eram sete ou dez, mas três ficaram perfeitos, os outros todos eram surdos-mudos. Então, a minha tia-avó fez muito esforço, iam para o Rio para eles aprenderem a falar, quer dizer, no final, eles escreviam muito direitinho, falavam com mais dificuldade, mas uma delas, a Maria Burnier, trabalhou muito tempo na Santa Casa, com meu padrinho João Villaça, e ela era  instrumentadora, surda-muda, eles eram muito inteligentes. Então, na parte de cima, o sobrado era da tia Maria Cândida Burnier, na parte de baixo, era da família Penido Monteiro, que era a família da minha mãe, porque a minha avó era Francisca Penido Monteiro, e era prima-irmã dos Burnier. Eu era afilhada das minhas duas tias, uma madrinha era casada com Olavo Coimbra e a outra irmã era Maria Antônia Penido Monteiro, esta não casou. Elas eram professoras da Escola Normal.

Era uma casa muito grande, aquele sobradão enorme, aquelas salas grandes, eu me lembro muito bem. Tinha uma sala enorme, que era onde ficava o escritório da minha tia. E a minha avó, é impressionante, porque eu não me lembro com que idade ela faleceu, mas ela ficou doente muito tempo, ela dormia em cima, e era uma escada assim, até hoje não compreendo como ela conseguia subir a escada para o andar de cima, onde tinha os quartos. Eu passei a infância toda ali, eu passava os dias ali, depois, eu ia para casa, porque elas gostavam de ensinar, e a minha mãe não tinha muita paciência para ensinar. Então, eu ia para lá, aprendia, aprendi muita coisa com elas, e eu sempre digo, eu sou muito feliz, porque eu tive três mães, não era uma só, eram três. E a vida toda elas me ajudaram muito e isso ajuda muito a gente, eu me sentia muito amada, isso era importante, porque eu era muito tímida, eu não era muito de apresentação, de representação, e eu gostava muito de ler e essas coisas todas, mas eu era mais retraída, a minha irmã já era outro tipo, totalmente diferente. Então, ali, aquela infância com muito amor, com muita amizade, me deu força para enfrentar tudo na vida, isso eu agradeço àquela infância que eu tive. Eu sempre digo: a gente podendo, fazendo com que os filhos tenham uma infância feliz, é uma base para o futuro, eu acho muito importante isso.

Religiosidade da família
Minha família era muito religiosa, e eu sou muito religiosa até hoje, mas isso eu devo a eles. Nessa família Burnier tinha já três padres, eu já tinha primo padre também, eles frequentavam muito a casa. E a família Penido era muito unida, eu tinha muitos primos no Rio e eu ficava ali, quer dizer, todas as visitas, eu estava sempre no meio deles, de modo que, aquilo também dava muito espírito religioso, eles eram muito piedosos. Eu sempre frequentei a Catedral. E eu sempre fui de acordar cedo, então, eu me lembro, eu, menina novinha de ginásio, eu levantava cedo, se não me engano, eu ia à missa de seis horas ou de sete horas, na Catedral, e sempre voltava, porque eu gostava de estudar piano no sobrado. Eu sempre fui estudiosa, de modo que eu gostava, tinha sempre o que fazer, o que ler, então, eu ia à missa tranquila, a minha vida era muito com a minha mãe, eu não tinha amigas não, a única amiga que tive foi durante o período de colégio, mas ela no colégio e eu aqui. A não ser as minhas primas, essas duas primas, essas me acompanharam a vida inteira, na fazenda, principalmente, e no colégio, porque eu também estudei no Santa Catarina, e uma delas a Berenice Ribeiro Machado, ela também fez o ginásio todo comigo.

Vida escolar
Naquela época, quando eu era criança, a minha casa era na Braz Bernardino, 105, e a minha tia morava do lado, então, as filhas dela viveram ali comigo, estudavam no mesmo colégio, então, elas tinham um chofer, ele passava, me pegava e me levava ao colégio e voltava. Quando tinha algum motivo, já que elas viajavam muito, aí, eu ia de bondinho, também era gostoso, do mesmo jeito. Mas, durante muito tempo, eu tive essa facilidade do carro das minhas primas me levar para o colégio. O bonde, a gente pegava no Parque Halfeld, se não me engano, e ele deixava a gente embaixo, porque o Colégio Santa Catarina é em cima; a gente ficava embaixo, aí, a gente subia a ladeira.

Eu fui para o Santa Catarina fazer o quinto ano primário lá. Naquela época, eu estudei particular: primeiro, eu estudei com as primas, que elas viviam do lado; depois, eu peguei uma professora particular; no terceiro ano primário, aí, eu fui para o colégio das Barros, que era muito antigo em Juiz de Fora, ali pertinho mesmo, quase esquina da Batista de Oliveira com a Braz Bernardino. Era uma casa antiga, eram quatro irmãs, eu estudei ali, mas já estudei sozinha, minhas primas foram para outro colégio. Eu terminei lá o quarto ano, fui para o admissão no Santa Catarina, e terminei o ginásio lá. Depois, eu quis fazer Contabilidade, então, fui estudar no Machado Sobrinho, porque, naquela época, enquanto eu era muito menina, eu dizia assim: “Eu vou estudar, porque depois eu vou trabalhar com meu pai na fábrica”, porque eu tinha muito amor à fábrica, mas, aí, não deu tempo: eu terminei o curso, fiquei um ano passeando por aqui mesmo, logo depois me casei, quer dizer, conheci meu marido e casei logo, eu não cheguei a trabalhar na fábrica.

No Colégio das Barros, eu me lembro das professoras, foram umas professoras muito boas. Eram três irmãs, uma era mais séria, que era a diretora, dona Carmem, esta era mais brava, era de Português, muito boa; tinha a dona Celina e a dona Maria, eram três irmãs. Mas a salinha era pequena, porque era uma casa, mas eram umas aulas muito boas, eu me lembro, quando fecho os olhos, eu me vejo na salinha do quarto ano, porque, do terceiro ano, eu não me lembro muito não. Tinha esse colégio que era o colégio das Barros, depois, fundaram outro colégio também, o Santa Rita de Cássia, meu irmão estudou lá. Era um colégio misto, naquele tempo, eram aquelas carteiras de cinco, então, na frente, ficavam meninos, mas tudo muito educado naquela época, e as meninas ficavam em duas carreiras; uma, duas, três, quatro e cinco, era muito simples o colégio, mas o estudo era muito bom.

Eu gostava de todas as matérias, mas eu gostava muito de Geografia e de História; de Matemática, não gostava muito não; Português, também eu sempre gostei. E eram as matérias que a gente tinha: Ciências, Português, Matemática e Desenho. Mas a diretora era muito severa, então, era uma tranquilidade na classe, era muito diferente, foi uma época de muita educação entre os alunos.

No Santa Catarina, eu gostei muito, e fui para o admissão, eram só irmãs, não tinha professores homens não, só tinha professoras, mas eu gostei, porque eu tinha uma professora que, até depois, ficou muito amiga da família, ela dava, acho que Geografia, aí, a outra, História. Tinha umas freiras, de que eu gostava muito também, e tinha uma que dava Francês, tinha irmã Letícia, de quem eu gostava muito, eu sempre me dei muito bem com elas, e tinha uma alemã, todo mundo não gostava, porque ela era meio brava, e esta eu custei um pouquinho a me ambientar com ela, porque eu fazia tudo para agradar a Irmã Silva, mas ela era alemã mesmo, ela não dava atenção à gente mesmo, mas era de muita ordem, o colégio era muito organizado, eu gostei muito de lá.

O Santa Catarina, na minha época, era só de alunas, e tinha internato também, então, eu fiz o ginásio todo lá. Eu me lembro que foi uma formatura bonita, eu acho que eu fui a oradora, se não me engano, tudo mais simples do que é hoje, foi só no colégio, mas teve lá a apresentação toda, mas tudo bem mais simples do que tem hoje. E, no Machado Sobrinho, também, tive uma formatura, teve o baile, essa coisa toda, mas eu não fui no baile não, eu fui só na formatura mesmo oficial. E, no Machado, eu tive uma amiga, que foi três anos muito minha amiga, depois, eu casei, aí, eu perdi, porque também não soube, acho que ela mudou de cidade, mas foi muito minha amiga nos três anos do Machado Sobrinho. Eu tenho uma amiga que, até hoje, continua, num encontro que eu tenho das “Velhas Amigas”, que são aquelas pessoas de Juiz de Fora - eu casei e fui para o Rio -, mas esta é minha colega mesmo, então, encontro com ela nesse grupo, a Maria Eugênia.

Aulas de piano
Era engraçado que as minhas primas, essas que eu convivo o tempo todo, elas tinham aula de piano, e a mamãe não fazia muita questão. Eu falei: “Eu vou também aprender piano”. Elas foram no início, eu olhava para elas e queria copiar as duas, porque a minha tia era muito organizada, exigente, essa coisa toda, eu disse assim: “Acho que também quero aprender piano”. Aí, aprendi piano lá no sobrado, porque minha tia tinha um piano, estudei, acho que uns dois ou três anos, mas depois eu vi que não tinha jeito para piano e não gostava. Eu tinha uma professora, até me lembro dela, uma professora antiga de piano, não me lembro agora o nome dela, que era daqui de Juiz de Fora, acho que eu estudei uns dois anos, mas eu estudava pouco, eu gostava de estudar as outras coisas do colégio, que eu era sempre das primeiras. Então, o piano ficava meio de lado, e piano você tem que estudar mesmo, eu vi que não era aquilo que eu estava querendo, depois de dois anos, eu parei com o piano. Mas sempre estudei inglês, porque eu sempre gostei de inglês, estudo até hoje, porque eu não quero perder, e é uma maneira também da gente botar a cabecinha para funcionar. De modo que o piano foi pouquinho, depois, um pouquinho de acordeão, que a minha mãe gostava de tocar acordeão, mas, aí, logo eu casei, e então mudei completamente de tipo de vida.

Adolescência em Juiz de Fora
A cidade era muito pequenininha e eu não era muito de festa, minha irmã não, ela ia a muitas festas, eu ficava mesmo naquela vidinha tranquila e as férias eu sempre passava fora, aí com os primos, eu juntava com os primos na Floresta, fazia jogo de vôlei, isso eu gostava muito. Lá tinha um pessoal da fábrica, nós tínhamos um time com as moças da fábrica, isso foi muito bom, porque eu sempre gostei muito de esporte, até hoje, eu encontro com elas na igrejinha que nós temos na Floresta.  A fábrica fazia muito, tinha a parte dos homens, que era o futebol, o meu pai jogou durante muito tempo, e lá organizávamos um time. Tinha um rapaz, que ainda está lá hoje, bem velhinho, que controlava, fazia torneios e, às vezes, era engraçado, quando a família estava toda lá, então, fazia dois grupos: os Assis, de um lado, e os Ribeiro de Oliveira, que também eram Assis, mas família Ribeiro de Oliveira, do outro, muito engraçado, mas acabava tudo em festa, isso a gente fazia muito. Eu gostava muito. A fábrica dava muito apoio aos empregados, distração, essa coisa toda, então, o futebol continua até hoje, e o vôlei eu adorava.

Carnaval também deveria ter, pois tinha sede para fazer bailes lá, mas eu não frequentava não. Tinha uma sede esportiva, para jogar também, para os homens jogarem esses joguinhos de mesa, mas isso eu não frequentava, eu fazia mesmo era o vôlei, que eu gostava, e o futebol, que a gente ficava assistindo. Quando eu era pequena, o meu pai jogava, até hoje eu lembro, ele tinha paixão pelo futebol, porque ele jogou muito na Inglaterra. Então, aquilo ali, no sábado e domingo, era um prazer ficar assistindo ao jogo deles, mas, depois, mais tarde, ele não estava jogando, mas continuavam os times, até hoje tem lá, domingo tem sempre jogo lá.

Eu não era muito de ir a festas não, minha irmã, que era um pouco mais nova, quatro anos mais nova, já ia a muitas festas. Eu me lembro de ir nas festas juninas da Rua Rei Alberto, eu fui umas três ou quatro vezes, todo ano tinha, aliás, era uma festa muito organizada, muito bonita. E a gente botava aquelas roupinhas de festa caipira, festa de São João, essa festa era muito bonita, muito organizada, e ficava muito cheia, era muita animada, a essas eu ia, às outras, eu já não ia, não era muito de festa não. Ao carnaval também eu fui, mas fui com os meus filhos pequenos; quando era novinha, eu fui uma vez, eu não era muito de carnaval não, mas eu fui, acho que no Clube Juiz de Fora. Eu acho que já era o prédio novo, não sei, isso eu não tenho muita certeza, mas eu me lembro do salão lá em cima, isso eu fui, eu já era mocinha, vi tudo, eu fui, mas um ou dois bailes só. Eu já vim aqui também no Bom Pastor, uma ocasião, até hoje, eu não sou muito carnavalesca não. Então, a essas festas de carnaval, eu só ia nessa da Rei Alberto, que tinha muita gente conhecida, muitas colegas, então, a gente ia também. No mais, eu tinha uma vidinha muito tranquila, porque eu vivia muito com adultos, eu não tinha uma amiga constante, eu tinha os adultos comigo, lá com as tias, e em casa com os primos, também nas férias, mas mais com gente da minha idade mesmo, mais da família, foi um período muito bom, muito alegre.

Namoro relâmpago
Foi tão engraçado, porque eu era muito tímida e eu sempre tive uma vontade de ter uma família, mas os rapazes amigos dos meus irmãos eu olhava, punha defeito, não é esse que eu quero, não sei o quê, aí, digo assim: “Vou rezar para me dar um marido, porque eu não estou encontrando”, isso foi muito engraçado. Eu fiquei nisso: “Eu vou pedir a Deus que eu quero me casar, quero ter uma família”, mas, como eu era muito tímida, não ia à festa, não gostava de festa. Aí, no carnaval, foi muito engraçado, lá na Floresta... Na época de carnaval, os tios já tinham casa lá, então, faziam festa em cada casa, faziam na casa que a mamãe tinha, que não era dela, era da fábrica [Paraíso], menorzinha, faziam na casa de uma outra tia, esta casa está lá até hoje. E o meu marido era muito amigo da minha tia Lilina, porque ele era bem mais velho do que eu, ele era 11 anos mais velho do que eu. E eu já o conhecia, eu o vi pela primeira vez, quando eu tinha dez anos, porque ele frequentava a fazenda, por causa da minha tia, que era casada com um primo-irmão dele, o Roberto. Então, eu conhecia o Armando, desde os dez anos de idade, nós fomos fazer um passeio a cavalo, eu com dez anos e ele com 21, eu achei ele meio metido e tudo, mas eu falei: “Está lá, a família conhecia, e os meus pais conheciam, todo mundo conhecia o Armando”. E eu gostava muito de equitação, então, nessa época, eu tinha uma prima que gostava muito também, e nós frequentávamos lá, onde tinha uns cavalos antigamente. E tinha um professor - eu estou esquecendo o nome dele -, que era um senhor compenetrado, ele dava aulas de equitação. Como eu tinha paixão por cavalos, meu pai me deu um cavalo, Caramujo, que era um cavalo muito bonito. E eu ia toda semana com essa minha prima, que era mais nova do que eu, tinha uns cinco anos menos, e esse dia eu fui à hípica, porque não deixava de ir à hípica para tomar as aulas com ele, ele era todo consciencioso, era muito bom. E, quando eu voltei, eu falei: “Agora, eu vou passar na casa da minha tia, porque eu tenho a festinha de carnaval”.  Eu fui, estava de culote e tudo, de uniforme lá da hípica, aí, eu cheguei lá e vi o salão, eu me lembro que olhei assim: “Até que vai ser bom porque tem uma pessoa diferente”. Era ele. Ele estava dançando com a minha irmã, eu falei: “Que bom, não vai ter só gente da família”. Aí, eu fui para casa, troquei de roupa, e voltei. Entrei no salão, cumprimentei, daqui a pouco, ele veio me tirar para dançar, e não me largou mais, nós dançamos até meia-noite, e meu irmão ficou aborrecido, porque o Armando era do Rio, não sei o quê.  Meu irmão foi embora da sala, e eu fiquei calmamente. Eu acho que o Armando falou a noite toda, porque eu era muito tímida, e ele ficou lá e a família toda olhando, mas ele era muito querido da família toda.

Aí dançamos e ele não me largou, eu fiquei dançando até meia-noite, e a família na cozinha, cheia de tudo e eu na minha, porque eu achava que ele, sendo de fora, amanhã, vai embora, e como fica isso? E não liguei, passou, foi para casa e tudo. Aí, no dia seguinte, nós tínhamos combinado um piquenique, com as primas todas, daqui a pouco, quem aparece para o piquenique? Ele. Eu falei: “Não é possível, ele veio aqui para o piquenique, tudo bem”, mas eu sempre desconfiava. Aí, foi no piquenique, depois, não sei o quê, voltamos, ele pegou e disse assim: “Eu sou capaz de voltar semana que vem”. Eu caí dura, porque ele ia para o carnaval, era na véspera do carnaval, ele sempre foi carnavalesco, eu peguei: “Está ótimo, aparece”, nem acreditei. Aí, na semana seguinte, estou eu tranquila andando de charrete com a minha tia e tudo, daqui a pouco, ela falou: “Maggy, sabe quem está aí? O Armando está aí”. Eu corri para me arrumar, que eu estava de charrete, essa coisa toda, aí veio ele, daí não acabou mais, toda semana, ele estava ali, aí queria ficar noivo, eu digo assim: “Eu nunca namorei ninguém, como é que vou ficar noiva de uma pessoa que eu não sei se eu gosto dele?”. Porque era pouco tempo. E ele insistindo, ele insistindo, toda semana, ele vinha e depois ia embora, depois, quando chegou em maio, mais ou menos, ou abril, eu soube que ele pegou catapora, uma coisa assim, e não passou bem não, eu falei: “Acho que eu gosto dele, porque eu fiquei tão preocupada, eu acho que eu gosto dele”. Aí, no mês seguinte, ficamos noivos e casamos no fim do ano.

Não teve um ano de namoro não, comecei a namorar no carnaval, fiquei noiva em maio e casei em novembro. Fiquei casada 43 anos, porque ele faleceu já tem bastante tempo, mas foi muito bom, fui muito feliz. Casamos na Igreja da Glória, foi de manhã, depois viemos para o almoço, no Círculo Militar, aí fomos passar a lua de mel, fomos para Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, uns dez dias mais ou menos.

Mudança para o Rio de Janeiro
Ficamos morando em Santa Teresa, porque ele tinha uma casa em Santa Teresa. Ele nasceu nessa casa, ele tinha paixão por essa casa e a minha sogra também. A minha sogra só tinha dois filhos, ele e o outro, mas o outro morava em Volta Redonda. Então, ela ia ficar conosco, e eu tenho uma tia que eu gosto demais, que é até casada com um primo dele, que é a Carolina Assis, que mora aqui também na Floresta, então, ela deu um jeitinho lá na casa. Era um casarão de três andares, antigo, ela adaptou para nós, e a minha sogra continuou a morar em cima. Aí, ficamos lá nessa casa, na mesma casa, e lá eu criei os meninos todos, os quatro que eu tive. Mas eu gostava, porque eu gosto de morar num lugar onde eu tenho vista, e, lá em Santa Teresa, a vista era a baía, era linda a vista. Então, aquela vista me dava uma alegria, e, depois, a minha sogra foi ficando mais velhinha, então, nós reformamos e eu fiquei com a casa toda; deu muito trabalho, porque eram três andares, mas um lugar muito tranquilo, quer dizer, para educar filho era muito fácil, porque eles ficavam sempre em casa, iam para a escola e ficavam jogando futebol lá no terraço. Então, eu não tive tanta dificuldade, não tinha aquele negócio de brincar na rua, não sei o quê, eles gostavam muito, ficavam naquela casa mesmo. Eu eduquei ali mesmo. A Christina, que era a mais velha, ficou estudando lá no Sion. Minha mãe morou em São Paulo, então, ela foi educada no Colégio Sion, e eu tinha uma prima e uma tia, freiras do Colégio Sion, e eu tinha paixão de não ter estudado no Colégio Sion, porque a minha mãe estudou lá. Eu tinha paixão pelo colégio, mas, para sair de Juiz de Fora, para ficar interna, eu não queria, então, eu não fui. Quando chegou em Santa Teresa, eu falei: “Agora, a minha filha vai para estudar no Colégio Sion”. E a minha sogra ficou aborrecida, porque tinha um colégio pertinho lá da casa, mas eu falei: “Não, isso aí é um sonho que eu tenho e eu vou realizar”. E aí bati o pé e realizei, e a Christina fez um curso lindíssimo no Colégio Sion, e eu realizei o meu sonho, não estudei, mas a minha filha estudou, e os meninos estudaram no Liceu Francês, lá no Largo do Machado, ficaram os três ali.

Os filhos
A Christina é a mais velha, depois vem o Ricardo, André e o Carlos. Carlos é o caçula. Eles estudaram lá no Liceu Francês e depois o Ricardo e o André resolveram fazer Escola de Aeronáutica, ali em Barbacena, então, para mim, foi até muito bom, porque o meu marido nessa ocasião estava trabalhando em Brasília e eu no Rio com eles. No início, ele vinha no final de semana, mas os dois na Escola de Aeronáutica era um sossego para mim, que eram os dois meninos maiores, os outros dois eram muito tranquilos, nunca me deram preocupação maior. E depois teve uma época em que o meu marido falou: “Eu não aguento ficar mais sozinho em Brasília”, então, o que é que eu fazia? Eu ficava 15 dias em Brasília e 15 dias no Rio, aquelas viagens longas... Graças a Deus, não aconteceu nada, depois, ele voltou para o Rio, aí, continuamos no Rio.

A adaptação ao Rio de Janeiro
Acho que o amor da família que eu tive me deu força para tudo, eu enfrentei muita coisa! Eu comecei a dirigir no Rio, depois, dirigia por todo lado, e como a minha sogra ainda estava mais forte, ela começou a me ensinar sobre o centro da cidade aos pouquinhos. Eu fui me ambientando com muita facilidade, porque tinha que levar menino para colégio, tinha que sair, e o meu marido trabalhava em Niterói, então, ele saía de manhã e chegava à noite. Às vezes, ele chegava às nove horas da noite, as crianças estavam dormindo, ele ia lá, e acordava todo mundo, e aí me dava trabalho, porque a criançada ficava agitada e eu tinha que botar todo mundo para dormir de novo, mas ele tinha que estar com os filhos. E fui vencendo assim os problemas todos, depois, eles cresceram, foram para a Escola da Aeronáutica, e aí facilitou muito, eu ficava mais tranquila, eu ficava com os outros dois, a Christina nunca me deu trabalho, sempre estudiosa, e o caçula, também, foi sempre muito tranquilo. Então, eu consegui levar a tormenta. Depois, quando terminou a Escola, eles não quiseram seguir a carreira militar não, então, vieram para o Rio, aí, fizeram vestibular, foram fazer Engenharia, um fez e terminou. O Ricardo, ele é um dos mais inteligentes dos meninos, mas ele tinha horror de estudar, então, ele fez até o terceiro ano, não quis ficar no Rio, me deu mais trabalho, veio para Juiz de Fora, ficou aqui, depois do terceiro ano, disse: “Não quero mais”, eu quase tive uma coisa, porque eu era muito estudiosa, mas Deus ajudou, porque hoje ele está muito bem, porque ele é habilidoso, aonde meu marido ia, ele ia atrás para aprender, então, mecânica, essas coisas todas ele tira de letra, então, eu falei: “Bom, pelo menos Deus me compensou, porque está muito bem sem ter terminado a Engenharia dele, os outros dois terminaram”.

Volta para Juiz de Fora
Eu fiquei lá no Rio até 1990 quando o Armando aposentou, aí, eu digo assim: “Agora, não vou ficar no Rio, porque no Rio é tudo mais difícil, a minha sogra já estava velhinha, o que você vai ficar fazendo aqui sem ter um trabalho, uma coisa para distrair?”. Porque ele era muito ativo. Aí, a família já tinha dividido uma parte da fazenda para cada filho, o meu pai tem um terreno lá, então, eu falei: “Papai, divide para os filhos, nós éramos cinco, e eu vou ficar com o meu pedacinho e vou fazer uma casa, que era o meu sonho, e vou morar aqui em Juiz de Fora”. E assim fizemos, começamos a construir a casa, onde eu moro hoje, e a gente vinha toda semana, enquanto ele estava trabalhando, a gente vinha na sexta-feira. Depois que ele parou, em 1990, nós viemos para cá. E foi muito bom, porque ele já não estava muito bem de saúde, e eu fiquei oito anos aqui, cuidando dele com médico e tudo, porque ele teve câncer, mas aí eu tive a família junto, porque, lá em Santa Teresa, eu tinha só a minha sogra e ele, porque o outro filho morava em Volta Redonda, e não tinha gente mais chegada a mim, eu falei: “Aqui em Juiz de Fora, tudo é fácil”. Eu tenho a Christina, a Christina já estava casada e tudo, então eu teria mais apoio. E foi uma beleza mesmo, mas, no início, ele ficou assim: “Você vai me tirar das raízes, das minhas raízes, porque eu sou da casa de Santa Teresa”, porque ele tinha paixão pela casa, então, eu falei: “A gente experimenta”. Ele veio para cá e se apaixonou, porque nós ganhamos o terreno sem nada, aí, ele ficou fazendo tudo, quer dizer, ele se ocupava com tudo, e ele ficou apaixonado, no fim, ele falou: “Foi uma grande coisa a gente ter vindo para cá”. Ele construiu a casa, acompanhou tudo, e acho que morreu feliz, porque morreu em casa mesmo. Ele ficava na varandinha, o tempo todo ali, foram oito anos de luta, mas aqui eu tinha o apoio da Christina, dos irmãos e tudo, quer dizer, foi um período difícil, mas eu tinha apoio das pessoas queridas. Eu acho que eu venci direitinho. Mas, depois que ele morreu, eu disse: “Meu Deus, como é que vai ser?”. Porque ele fazia tudo para mim, ele resolvia tudo, aí, o marido da Christina, uma vez, chegou perto de mim, depois que o Armando morreu, e falou: “Agora, você que tem que fazer as coisas”, mas eu estava tão abalada que, até para ir para os bancos, eu não ia sozinha, eu tinha que ir com uma pessoa, não me sentia bem, foram dois anos bem difíceis, depois que ele faleceu.

Aí, fui vencendo, comecei e até agora eu estou indo, já resolvo as coisas, mas tem um filho que me ajuda muito. Então, o Carlos, da Christina, na parte de saúde, e o Ricardo, na parte de negócio, essas coisas todas, ele me ajuda muito, ele é muito prático, porque os outros dois estão mais longe. Quando você tem um apoio da família, você vence as coisas com facilidade. Durante muitos anos, fiquei morando sozinha lá, eu não tenho medo lá, não, mas, depois, começaram a dizer: “Uma cidade perigosa, você está com mais idade”. Então, eu disse: “Vou botar uma pessoa para me acompanhar à noite”, e ela está lá comigo há um ano, porque, é verdade, imagina se eu tomo um tombo lá sozinha, até que eu peço um socorro, se conseguir pedir, mas é complicado, então, eu falei: “Vocês têm razão”, porque eu ouço muito, eu falo muito com eles, é que eu digo, que a gente vai ficando mais velha, é bom ouvir os mais jovens. Então, eles me ajudam muito, quando tem algum problema, um ajuda, o outro faz, quer dizer, então, eu sinto que, apesar de eles não estarem juntinhos de mim, mas eles têm casa aqui, uma ao lado da minha, lá no sítio. Agora, com a comunicação, é muito fácil, eu gosto de ficar lá. As minhas colegas de inglês falam: “Você mora sozinha, é tudo longe, vem pra cá”. Eu digo: “Se eu for ficar num apartamento, olhando só parede, não dá pra mim, eu tenho que chegar em casa, ver o céu azul, ver as árvores, ver tudo”. Quando eu chego, eu brinco assim: “Meu Deus, cheguei no paraíso”. Porque são os passarinhos, é o cachorro, é o céu, eu gosto muito de natureza, eu gosto de ver o verde e a vida inteira, quando eu era criança, vivia em casa, quando casei, morei numa casa, uma vista linda, então, eu digo assim: “Eu, para ficar o resto da vida, eu tenho que ter verde na minha frente”. E lá aonde eu moro é na antiga Fazenda da Floresta, então, eu tenho uma parte da mata muito grande, e eu fico ali no jardim, eu não preciso de mais nada, porque tem o verde, tem o azul, tem os passarinhos, de modo que estou muito feliz lá, eu não quero sair de lá não, a não ser que precise.  Se eu puder, eu quero acabar os meus dias lá mesmo. Porque eu tenho lá uma irmã, que também tem paixão por morar lá, eu tenho esse irmão, que também faleceu lá, há mais tempo, mas também chegava lá em casa e dizia assim: “Olha! Estamos no paraíso”. Engraçado, é que toda a minha infância foi na Floresta, quer dizer, eu tenho amigos até hoje lá, para mim, é um presente de Deus poder estar lá.

Eu agora tenho nove netos, as mais velhas são da Christina, minha filha mais velha, e agora tem uma caçulinha, que é do segundo casamento do terceiro, do André, então, é muito gostoso, porque fica já pequenininha, eu chamo de bisneta, mas está com seis anos. São nove: sete mulheres e dois homens, o Bernardo, da Christina, e o Lucas, do Ricardo.

Dia a dia atual
Eu gosto sempre de ser ativa, porque, ativa, a gente põe a cabecinha para trabalhar, então, eu faço um curso de inglês, que eu gosto muito, duas vezes por semana, faço esse curso das senhoras -  CCA -, também uma vez por semana e, depois, comecei a aprender também computador, porque comecei a achar que eu não estava entendendo nada, agora, estou bem desenvolvida. Mas eu cuido das minhas coisas também, bancos, essa coisa toda eu faço, porque os meninos estão fora, de modo que fico tranquila.  Quando chego em casa, eu gosto muito de ler, então, estou sempre lendo, e gosto de ver notícias, eu gosto muito de ver notícias, do que está acontecendo no mundo, então, eu gosto muito da GloboNews. É o que eu vejo, porque filme, eu não vejo muito não. À noite, eu fico cansada, eu sou muito esperta até as seis horas da tarde, depois, eu estou querendo ver coisas mais suaves. Às nove, eu já subo, leio um pouquinho e durmo, porque eu gosto de levantar cedo, seis e meia, eu já gosto de estar de pé, porque, de manhã, eu tenho muita disposição, de tarde, eu já não tenho. Gosto muito de fazer doce, fazer as coisas, e tem o sítio, você tem que cuidar, então, você fica passeando, você tem que fazer uma coisa, tem que fazer outra, de modo que o dia passa. Aí, eu vou ler, eu estou com três livros agora para ler, que é uma coisa que eu gosto, me distrai muito, e essa vidinha de ver natureza, tem que ter a natureza perto de mim, aí, eu estou feliz.

Sonho ou a casa dos sonhos
Um sonho que eu tive, eu realizei, que era vir morar no sítio. Primeiro, eu tive o sonho de me casar, depois, criar família, e, depois, quando nós estávamos no Rio, o sonho que tinha era de ter essa casa aqui na Floresta, porque eu tenho uma paixão por aquela região da Floresta, e consegui. Porque o meu marido podia não ter gostado e querer ficar no Rio e tudo, mas não, porque ele também gostava muito da Floresta, já tinha passado muitas temporadas aqui com a minha tia e o primo dele, de modo que, no início, ele ficou meio assim: “Você vai me arrancar das minhas raízes”. Eu falei: “A gente vai e experimenta, se você não gostar, volta”, mas ele gostou e se adaptou tanto, que ele dizia assim: “Mas que coisa boa nós estarmos aqui”, e, aí, eu aliviei, fiquei tranquila, ele se dava muito bem com a minha família, que já conhecia há muito tempo. Então, ele se ambientou bem, e eu tenho que agradecer a Deus. Porque eu digo, a gente passa momentos difíceis, complicados, mas eu tenho muita fé em Deus, a gente pedindo, a gente recebe, e essa parte religiosa me dá muita força, vamos pensar positivo, peço que Deus me ajude, agradeço, porque eu tenho muita saúde, que eu vejo tantas pessoas da minha idade com isso, aquilo, aquilo outro. Eu até agora não tenho nada de especial, então, eu só tenho que dizer obrigada, obrigada, meu Deus, porque eu sou realmente muito feliz aqui.

Desejo de memória
Eu vou contar, porque, aí, depois, fica para os meus netos, porque esses detalhes, os netos não sabem. E eu lembrei que, agora, nós estamos fazendo um livro, que está quase pronto, justamente sobre a história da nossa família Assis, desde o início da fábrica, da fazenda. O livro está sendo terminado agora, é uma maneira para os outros ficarem sabendo, porque os netos não conhecem os detalhes. Eu estou muito feliz de deixar para eles mesmo, porque tem muitos detalhes que eles não sabem, e é uma coisa para continuar, que eu dou muito valor à família, eu acho que uma família unida é uma coisa muito importante, e eu vejo que os meninos, eles têm casa lá, os pais, os meus netos gostam muito de ir lá, gostam de saber. Até a Mariana fez agora um clipezinho de cinema, esses pequenos clipes, e ela fez, justamente, uma partezinha da capela lá da Floresta e de outro ponto também da Floresta, quer dizer, isso fica, eles têm muito amor, eu vejo pelo sítio da Christina, eles estão sempre lá, e o outros netos também, estão morando no Rio, mas, volta e meia, estão na casa deles, aqui de Juiz de Fora. Então, eu acho que continua esse amor à terra aqui, porque eles gostam de vir aqui, e eu fico feliz, apesar deles estarem todos fora, fica o cantinho dos pais deles que está aqui, de modo que, para mim, isso aí é uma alegria muito grande, eu fico feliz mesmo!

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