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História

Terapeuta e produtora cultural

História de: Thamara Fernandes Sales Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

A terapeuta ocupacional  e produtora cultural Thamara Santos contou sua história ao Museu da Pessoa. Nascida em São Paulo, mas filha de pais sergipanos, ela recorda a origem de sua família, seu pai nascido em Itabaiana e sua mãe, em Aracaju. Fala do retorno da família para morar em Aracaju e devido a falta de adaptação da mãe à cidade os fizeram retornar a São Paulo. Recorda os colégios em que estudou em São Paulo e em Aracaju e do trabalho como modelo na juventude. Ao escolher uma profissão, optou por cursar Terapia Ocupacional, curso que concluiu na USP de São Carlos. Ela recorda o período de estudante, morando em república na cidade de São Carlos e os estágios que fez durante o curso. Lembra como ajudou seu pai com o cursinho popular que ele teve durante um período e como voltou a morar em Aracaju quando iniciou sua vida profissional como Terapeuta Ocupacional. Fala dos trabalhos que desenvolveu como T.O. e como produtora cultural no Sesc de São Paulo. Finaliza seu depoimento falando dos projetos em que está envolvida atualmente como produtora cultural de eventos de saúde mental.

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História completa

Meu nome é Thamara Fernandes Sales Santos. Eu nasci em São Paulo, no dia 3 de abril de 1980. Meu pai se chama Antônio Fernandes dos Santos e minha mãe Maria de Lourdes Sales. Os dois são sergipanos. Meu pai nasceu no interior do Sergipe, uma cidade chamada Itabaiana e a minha mãe é da capital, Aracaju. Eles moravam em São Paulo, mas se conheceram em 1977, no início do ano numa viagem de volta de férias de Sergipe. Eles ficaram amigos, namoraram, ficaram noivos e casaram, tudo em nove meses. Nessa época meu pai morava em Mauá, numa pensão. Ela construiu a casa, ela comprou dois terrenos. E o meu tio que construiu a casa dela, ela deu o terreno em troca do serviço e todos os irmãos dela, toda família morou nessa casa. Meu pai trabalhava no IBGE, ele era concursado, ele foi trabalhar no IBGE. E nessa época que ela o conheceu, ela trabalhava no IBGE. E ela trabalhava na Kibon, era secretária executiva. Eu nasci em abril de 1980, então uns dias antes do meu irmão completar um ano.

Nessa época eu acho que meu pai tinha saído do IBGE, ele pediu demissão para ir trabalhar com um amigo dele, um gaúcho, tio Aragão, que tinha uma empresa de telefonia. A minha mãe foi demitida da Kibon nessa época, depois de 20 anos ou mais, porque a Kibon foi vendida. E eles resolveram ir morar em Aracaju. E com o dinheiro que a minha mãe recebeu o meu pai comprou um material de construção na periferia de Aracaju. Meu pai já tinha pedido demissão do IBGE, exoneração, estava trabalhando na Subratec, que era a empresa do amigo dele, empresa de telefonia, e nessa época ele pediu demissão, largou tudo e foi pra montar o negócio dele. E foi difícil, foram dois anos que a gente passou lá, 87 e 88 que a gente passou em Aracaju. Aí voltamos para São Paulo. Foi em 91 que o meu pai, que sempre queria ter a empresa dele, viu que a Subratec já não estava mais aquela Coca-Cola e ele abriu a empresa dele de telecomunicações. E a minha mãe entrou com ele de sócia e foi um período bastante difícil, depois de um tempo meu pai arranjou um outro sócio pra segurar as pontas. Foi nessa fase que eu me lembro de ter começado a trabalhar, então eu ia pra empresa e eu atendia os telefones. E eu ajudava meu pai nas coisas que precisava, então, por exemplo, mandava mala direta para os clientes.

Eu fui pro berçário bebezinha, acho que com quatro meses, três, quatro meses, por aí. Depois eu fui para uma escolinha, que era o Del Rei, depois acho que no Beatíssima eu entrei no jardim ou no maternal. Eu devia ter uns quatro anos, no maternal. Fiquei no Beatíssima até o final do pré. Fui pra Aracaju, fui pro Salesiano, fiz a primeira e a segunda série lá. Quando voltei pra São Paulo na terceira série até a sétima série estudei no Santa Helena, que é na Saúde, na Vila Gumercindo, depois fui pro Beatíssima, fiquei um ano lá, o ano de 94, depois mudei pro Meninópolis. Quando eu estava no terceiro colegial foi quando meu pai me matriculou nesse curso do Senac, o curso de modelo e manequim. Eu fiz o primeiro módulo, passei, fiz o segundo, passei. E no segundo meu pai falou: “Não tenho mais dinheiro pra pagar o cursinho”. Era um curso caro, e eu falei: “Tá, então eu vou me virar, eu vou arrumar esse dinheiro”, eu tinha 16 anos nessa época. Eu pedi: “Me empresta um investimento”, acho que já era real, já tinha virado. “Me empresta 50 reais”. Eu fui na 25, comprei um monte de buginganga, montei um bastidor, coloquei brincos e anéis e tal e fui pra Praia Grande andar na praia e vender. Eu fui e comecei a fazer esse curso e pra mim acho que foi uma libertação nesse período. Eu saí desse curso por causa do cursinho. No ano seguinte eu consegui uma bolsa no cursinho do XI de Agosto que era no Largo São Francisco, dentro da Faculdade de Direito. A minha vida foi outra, nessa época eu fazia figuração no programa do Jô Soares. Quando eu comecei a fazer curso no Senac eles arranjavam alguns trabalhos, então eu lembro de um desfile da Expo Noivas e Casais. Nessa época, bom, não tinha passado no vestibular, eu tinha que fazer alguma coisa, eu tinha que trabalhar. E meu pai falava: “Não, mas eu prefiro que você estude”, porque ele viu que eu me esforçava, era diferente do meu irmão que ficava soltando pipa. E eu falava: “Mas eu quero ter meu dinheiro”, e eu fui atrás dessas agências e fiz inscrição em algumas delas e tinha uma que sempre me chamava pra fazer figuração do Programa do Jô, que acho que na época era no SBT ainda.

Eu quis estudar bem longe, porque de universidade pública de Terapia Ocupacional só tinha na USP e na Federal de São Carlos. E eu falava: “Eu não quero ficar quatro anos fazendo esse trajeto até o Butantã nesse sacrifício, eu vou pra São Carlos”. Eu passei na primeira e na segunda fase. Meu pai já bancava o meu irmão morando fora em república, ele não tinha grana pra pagar dois filhos morando fora, moradia de dois. E eu prestei, eu não falei pra ele que eu coloquei primeira opção em São Carlos. Ele não sabia, ele achava que eu ia pra USP. E quando eu passo: “Bom, agora já passou, agora você vai”. Eu sabia disso e eu tinha aprendido com uma das minhas primas a bordar chinelinho havaiana, quando começou aquela coisa de miçanga na havaiana. E eu fiz um monte, eu fiz um estoque. Eu pedi, de novo um investimento pro meu pai, empréstimo, fui lá e comprei as miçangas, as chinelas e fiz um monte e eu falei: “Mas eu vou vender e eu vou passar. Vou me virar nos meus chinelos”. E assim foi, eu passei. O primeiro mês eu tinha o dinheiro das chinelinhas havaianas que eu tinha vendido. E foi festa. Quando eu cheguei eu fui atrás do Serviço Social pra conseguir bolsa, alojamento e tudo. Como meu pai era professor do Estado e minha mãe era aposentada eles tinham renda fixa, então não consegui vaga no alojamento, eu consegui outros tipos de bolsa. Eu tinha aqueles 250 reais pra viver, pra pagar tudo, então eu tinha que administrar. Vira e mexe algum professor arranjava alguma coisa também: “Olha, vai ter um evento tal, precisa vender os cadernos de T.O.”, eu ganhava uma graninha. Às vezes vendia uma outra coisa, fazia o chinelinho, inventava coisas pra me virar. Eu tive bolsa de iniciação científica em 2000, 2001. Quando eu estava de férias eu ia pro cursinho e eu comecei a dar palestra, falar, conversar com os estudantes, contar das histórias e como era a vida universitária, o que a gente pensava. Não era só passar no vestibular, era a vida universitária, então meio que a gente cultuava um sonho, não era estudar pra passar no vestibular, era estudar pra conquistar seu sonho, qual é o seu sonho? Então a gente foi nessa vibe que a gente construiu aquele cursinho, que chamava Síntese, Cursinho Síntese. A apostila a gente montava, era tudo muito artesanal. O meu pai comprava as apostilas por matéria, desmontava todas, montava as matérias pra ficar uma apostila com todas. Fazia o silk pra fazer os adesivos pra colar na capa, os adesivos do cursinho.  Tinha me formado, estava fazendo estágio. Em São Paulo. Fiz trabalho voluntário também no centro espírita lá numa comunidade que era o Buracão, e era com adolescentes da favela. Mas a gente fechou o curso. Então, nessa época quando eu estava me formando. Então eu falei que eu não queria me formar e eu fui pra, eu deixei no último ano, eu tinha essa justificativa, que eu estava triste, deprimida e tal e que eu não dava conta de pegar todas as matérias. Eu fiz esse projeto e ele foi aprovado, então meu primeiro projeto foi aprovado pela Unesco e foi desenvolvido em parceria com a Prefeitura de São Paulo. E a gente botou toda turma pra trabalhar. E foi muito legal, ficou um projeto fantástico. Era um projeto Cursinho Síntese, acho que era o nome. E a proposta era de ter as aulas regulares do curso pré-universitário, de ter o plantão de dúvidas, naquela época plantão de dúvidas tinha, mas não tinha orientação vocacional, não era uma coisa de praxe ter em cursinho. Recebemos 200 mil pra executar aquele projeto durante o ano. Foi no ano de 2003, eu fazia estágio em um período e estava sempre lá. Então eu trabalhava 60, 70 horas por semana entre estágio e no cursinho ficava até tarde da noite, final de semana, às vezes tinha atividade de domingo. Meus pais se separaram e eu fui embora pra Aracaju. comprei minha passagem, fiz minha festinha de despedida e fui embora pra Aracaju. Na primeira semana arranjei quatro lugares pra trabalhar e fiquei quatro anos e meio. Trabalhava em clínica de reabilitação, coisa que eu nem imaginava. Fui trabalhar com crianças e adolescentes com deficiências. Deficiências múltiplas, tudo aquilo que eu vi quando eu descobri que queria ser T.O.mesmo. Eu fui trabalhar. Atendia bebês com atraso no desenvolvimento, deficiência, crianças, adolescentes; idosos com sequela de AVC, com traumatismo crânio encefálico, todas as braberas, paraplégico, tetraplégico, todas, pegava tudo. Quadros psiquiátricos, quadros de demência. Porque eu saí na cidade distribuindo os folders nas clínicas e eu conversava com os médicos, explicava: “Sou T.O., faço isso”, entregava o material, então fui peregrinar. E era uma especialidade que não encontrava em todas as partes, eram dez no Estado inteiro, parece, naquele ano de 2004, foi no início de 2004 que eu fui pra Aracaju. E logo eu: “Ah, paraíso. Consegui trabalho”. E uma das clínicas me chamou, porque a dona era de São Paulo também, se formou na mesma universidade que eu, teve as mesmas professoras, sabia de onde eu vinha. Comecei a fazer projetos de curso para educadores da rede normal, da educação, a respeito dos quadros clínicos. Então comecei a dar aula assim, dar curso e tal. E começou e todo mundo queria: “Ah, fazer projeto”, eu ia e criava projetos e colocava a equipe toda pra trabalhar. Então eu escrevia os projetos, ia lá e vendia o peixe, botava todo mundo pra trabalhar e todo mundo ganhava. E foi isso que eu fiz, trabalhei também em Aracaju numa instituição pra autistas. Depois eu fui indicada pra trabalhar na Universidade Tiradentes, que era uma universidade privada em Aracaju, que queria implantar o setor de Terapia Ocupacional. Então eu fui pra UNIT, fiz um projeto pra seis meses, idealizando o serviço, implantei o projeto, passei um ano lá, esse serviço funciona até hoje, quando eu volto lá: “Essa pessoa que criou isso, olha aqui”. Trabalhei muita coisa, mudei de clínicas, mas mantinha a equipe porque as pessoas mudavam de clínica, mas se mantinha a equipe. E durante um tempo, logo eu comecei a ser referência em algumas coisas que eu fazia, tudo o que aparecia eu não sabia, eu ia me virar, então eu ia, pedia para alguma amiga ensinar e comecei a fazer aparelhos de mão, órteses para correção de deformidade de mão. E aí não tinha quem fizesse aquilo com o material, que são os termoplásticos. Então era só eu na cidade e tinha um cirurgião de mão que mandava... Uma das atribuições da Terapeuta Ocupacional é fazer órtese de membro superior, que são aparelhos pra correção de movimentos, deformidades, melhorar movimentação, evitar atrofias. Eu passei em primeiro lugar no concurso para T.O e eles chamaram logo depois, tipo, poucas semanas depois. E saiu e a cidade inteira ficou sabendo. E aquela pressão da família: “Você passou em primeiro lugar, vai!”, mas eu queria ir embora. Ainda eu falei: “Tá bom, eu vou, até eu resolver”, eu assumi esse concurso. Eu queria ir embora, eu dei um passo e aí eu deprimi.  Peguei a licença de 70 dias, já arrumei minhas trouxas, mandei minha mudança sem esperar o tempo. Já sabia o que eu queria. Providenciei alguém pra ficar com meu consultório, passei os pacientes, avisei pra todo mundo que eu ia embora e não ia voltar. Fiquei um mês viajando por aí, foi a primeira viagem que eu fiz sozinha, mochilão nas costas, guia do Hi Hostel, ficava onde tinha hostel e fui pra Maceió, fui pra Salvador, pra Chapada Diamantina, pra Arraial D’Ajuda, Porto Seguro. Rodopiei. Rio, BH, eu fiquei viajando. Fui descer, fui pro Sul até chegar mais preparada, eu fui num processo de mudança mesmo. E eu fui morar com a minha mãe naquele apartamento. Quando eu voltei pra São Paulo eu estava com 28, foi segundo semestre de 2008. Eu fiquei só seis meses na prefeitura de Aracaju, na saúde mental. Eu fiquei dois anos morando com a minha mãe e trabalhando na atenção básica. E eu fazia grupos na comunidade, eu comecei a aplicar as coisas que eu tinha aprendido na especialização. E não bastava também porque eu queria mais e eu fui fazer MBA em Gestão Estratégica do Terceiro Setor.  Na FMU. Em 2009 e 2010. Entrei no Sesc, passei dois anos trabalhando. Fui pra unidade de Santo André. Fiz escola, aprendi na raça Produção Cultural, que eles não dão esse nome, mas o trabalho é muito de direção de produção, e fiz coisas fantásticas que eu adorei, pintei, bordei. E eu comecei a querer me lançar pro mundo e sair por aí trabalhando com aquele pessoal que eu conheci, esse pessoal da Educação Popular em Saúde que lidava com saúde, mas trabalhava com arte. Eu pedi demissão, foi um processo. Eu saí do Sesc em final de novembro de 2012. E eu me dei férias num tempo, mudei a minha casa, mobiliei o restante, decorei, mudei, mexi, Quando eu terminei o namoro com esse meu namorado na fase que eu estava no Sesc eu conheci o Espaço Terapêutico no Tatuapé, comecei a fazer terapia de grupo lá, terapia individual, faz três anos e meio que eu estou lá. E nesse meio tempo eu fiz vários projetos em parceria com eles, que chama Instituto Evoluir e esse ano eu comecei a trabalhar lá com eles. Então eu fiz um evento no ano passado, o Dia da Luta Antimanicomial, foi um evento do pessoal da saúde mental envolvendo vários coletivos. E aí a gente começou a articular o pessoal da Educação Popular em Saúde aqui em São Paulo, logo depois o pessoal da Faculdade de Saúde Pública ficou sabendo e chamou pra fazer a Tenda Paulo Freire do Congresso Paulista de Saúde Pública. E aí no ano passado o Vitor falou: “Vamos fazer de novo o Ocupa Nise, Segundo Ocupa Nise”, e aí me chamou pra ajudar na produção desse evento lá no Rio. Nesse evento a gente leva pessoas do Brasil inteiro.

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