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"Ter a certeza de que por trás tinha a White Martins"

História de: Manoel Carnaúba Cortez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2021

Sinopse

Infância e adolescência. Intercâmbio. Mochilão pela América Latina. Faculdade de engenharia química. Conhecendo a White Martins. Buscando tecnologia lá fora. Década de 2000 e acontecimentos no mundo industrial. Trabalhando em fábrica. Projeto da planta de MVC em Alagoas. Morando no Japão. Presidência da Cofic. Impacto da Braskem e a parceria com a White Martins. Vida pessoal. Influência no crescimento do Brasil.

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História completa

P/1 - Fernanda Prado

P/2 - Monique Lordelo

R - Manoel Carnaúba Cortez



P/1 – Manoel, boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Primeiro de tudo, a gente gostaria de agradecer por você ter aceitado o nosso convite, ter vindo aqui até o museu, pra conceder essa entrevista. Para deixarmos registrado, por favor, o seu nome completo, o local e data do seu nascimento.

 

R – Meu nome completo é Manoel Carnaúba Cortez, eu sou alagoano, nasci em Maceió no dia 3 de novembro de 1959.

 

P/1 – Tá certo. E qual é o nome dos seus pais, Manoel?

 

R – O nome do meu pai é Alfredo Durval Vilela Cortez, e minha mãe se chama Maria (corte no áudio)

 

P/1 – E o que você sabe um pouquinho assim, da origem da família? Como que...

 

R – Minha família, os dois têm a origem, tanto o meu pai como minha mãe, numa cidade do interior de Alagoas, que coincidentemente é onde também nasceu o Teotônio Vilela. E você notou que o nome do meu pai é Alfredo Durval Vilela Cortez? Porque Teotônio Vilela era também parente nosso. Eles cresceram em Maceió, não nasceram lá, mas os meus avós e bisavós nasceram quase todos lá. Mas os meus pais nasceram em Alagoas. Meu pai estudou Engenharia Química primeiro, depois estudou Engenharia do Petróleo. Ele se formou, em Recife, em Engenharia Química; e Engenharia do Petróleo, na Bahia. Casaram-se em 1959 e eu nasci nove meses depois. Meu pai começou trabalhando na Petrobras e foi chefe de Sonda, engenheiro chefe de Sonda. Naquela época, isso significava andar pelas cidades do interior do nordeste explorando petróleo, as primeiras experiências de exploração de petróleo em terra. Isso me levou a residir em várias cidades pequenas do interior do nordeste, como Marechal Deodoro, em Alagoas, Barra de São Miguel, uma ilha chamada... Esqueci o nome da ilha. Agora, (corte no áudio) flores que ficam na foz do rio São Francisco, lá em Alagoas, foi onde eu completei um ano de idade. Isso eu estou te relatando porque talvez tenha sido importante na minha formação, que me tornou um pouco “cigano”. Cigano está sempre mudando e eu terminei trazendo isso dos meus pais, de viajar muito e tal. Mas isso a gente vai falar mais na frente.

 

P/1 – E você falou um pouquinho da atividade do seu pai na Petrobras. E sua mãe, o que ela fazia?

 

R – Minha é do lar. Sempre acompanhou o meu pai. Eu tenho mais um irmão e uma irmã. Meu irmão é dois anos mais jovem que eu; e minha irmã, sete anos. Minha mãe foi do lar, acompanhando a gente. Meu pai, depois dessas jornadas pelo interior do nordeste, foi pra Bahia, residiu dois anos em Salvador, volta a Alagoas, passa em Maceió uns cinco anos, vai para Aracajú, onde passa mais uns dois, três anos e volta para Alagoas. Então, nós estávamos sempre em movimento, a família. Até que eu cheguei à adolescência (corte no áudio) e que saí de casa.

 

P/1 – Então conta pra gente um pouquinho como era pra você essas mudanças e como você encarava isso?

 

R – Nós encarávamos com muita naturalidade, sempre explorando o novo ambiente, fazendo novas amizades, mas sentindo também muita falta da família. Meu pai, embora filho único, tinha muitos primos que tinham filhos da minha idade. E minha mãe tinha mais cinco irmãos. Tem cinco irmãos, todos são vivos ainda, e eles também têm muitos filhos. E isso fez com que a família fosse grande, sempre casa cheia, tal. Então, quando a gente mudava, nós sentíamos muita falta desse lado da família. Mas isso também nos motivava a fazer muitos amigos em cada um desses locais para os quais nós mudamos nesse período. Então isso facilitou a nossa vida em termos de nos tornarmos mais desinibidos e abertos a conhecer pessoas e viver novas experiências. Isso foi muito bom.

 

P/1 – Teve algum lugar, alguma cidade que vocês ficaram mais tempo, que marcou mais pra você?

 

R – Olha, sem sombra de dúvida [foi] Maceió - é até hoje a minha cidade do coração. Maceió é onde eu tenho as minhas melhores recordações de infância e adolescência. Mas Salvador contribuiu também, de certa forma. Embora eu ainda fosse muito pequeno quando morei em Salvador. Essas outras cidades pequenas se confundiam muito com as minhas férias de fazenda, na casa dos avós ou dos bisavós, e isso era religioso. Todas as férias nós íamos para as cidades do interior, pra Viçosa, ou pra Palmeira dos Índios onde nós tínhamos fazenda, tal. E as férias eram no campo, na fazenda, em cima de um cavalo, dentro de um estábulo, de uma vacaria, ou na beira de um rio pescando - sempre fazendo essas coisas. Então, eu tenho recordações fantásticas da infância muito no campo, ou na praia. No campo ou na praia.

 

P/1 – Então conta um pouquinho pra gente, um pouquinho dessas lembranças de Maceió. Como era a casa dessa sua infância que ficou marcada?

 

R – Então, nós morávamos numa casa grande. Naquela época, não era difícil ter uma casa grande. Era uma casa que minha mãe já tinha herdado dos pais dela. Tinha bastante espaço, com jardins. Minha mãe sempre gostou muito de flores, de espaço pra transformar os jardins dela em campo de futebol. Uma casa sempre cheia com os primos, com os amigos e fazíamos peladas todos os dias quase, e à noite, brincávamos todos de esconde-esconde, uma série de brincadeiras e campeonatos de botão de mesa, dessas coisas. Também tínhamos muitos animais na casa, cachorro, peixes ornamentais. Uma época, nós tínhamos tantos peixes que montamos até um negócio de venda de peixe. Eu e o meu irmão, saímos fazendo tanques, aquários, e aquilo reproduzia, que viramos pequenos empresários de 12 e 14 anos, de peixes ornamentais. Mas as melhores recordações são sempre da casa cheia, com muitos primos, muitos amigos - sempre muita brincadeira, muita alegria. Naquela época, televisão, a gente assistia muito pouco, até porque em Maceió televisão só começava às cinco horas da tarde, porque ainda não tínhamos canal local e tinha uma repetidora de Recife, então só entrava no ar às cinco da tarde. Então, aquilo não nos interessava muito, eram mais brincadeiras interativas mesmo entre nós e tudo. Muito ir pra praia, porque também morávamos a uma quadra da praia e estávamos permanentemente... Quando não estávamos jogando bola em casa porque minha mãe tinha que recuperar o jardim dela pra gente destruir de novo, a gente ia pra praia. Jogava na praia, pescava, velejava e mergulhava. Eram sempre brincadeiras assim, sempre a casa muito cheia. Então a infância foi muito bacana. A experiência de colégio, esportes no colégio, sempre uma vida muito ao ar livre também.

 

P/1 – Tá certo. Então, antes de a gente falar do colégio, como era a sua relação com o seu pai? Como você se sentia sendo o primogênito, o que isso trazia de responsabilidade?

 

R – Meu pai sempre esteve viajando muito, então ele ficava um pouco mais ausente de casa e a aproximação com ele não era muito fácil no início. Depois, à medida que eu cresci um pouco mais, a gente se aproximou mais. Desenvolvi, meu irmão também, uma paixão muito grande pelas fazendas. E meu pai tinha... Ele trabalhava a semana; e no final de semana, ele: “Todo mundo pra fazenda”. Isso foi muito bem até uns catorze, quinze anos. Aí a gente descobriu que tinha as noitadas, namoradas, não sei o que - e fazenda não tinha isso. Aí a gente entrava um pouquinho no conflito com ele. Mas teve um período que foi muito rico aí, talvez entre nove e catorze anos, em que nós íamos pra fazenda e participávamos com ele das atividades na fazenda, tal. Então, embora ele ficasse um pouco ausente durante a semana, o final de semana era muito intenso. Sempre levando a gente pra vacinar gado, correr atrás de boi, fazer isso, aquilo, fazenda, trator, tal. Ele sempre gostou muito de máquinas e isso despertava na gente uma curiosidade muito grande, então isso era muito bom. E minha mãe ia também, todo mundo ia pra fazenda, e minha mãe ficava lá fazendo as comidas deliciosas, queijos e comidas de milho; e cada época do ano tinha uma coisa diferente que ela fazia. O nosso inverno é o período chuvoso e o verão é seco. Então, na época do inverno, nós tínhamos muito milho, [que] coincidia com São João. Nós comemorávamos isso, ainda comemoramos muito intensamente. Começa com o Santo Antônio, depois vem o São João e o São Pedro. São festas. Minha mãe é devota de São Pedro e até hoje ela faz uma grande festa de São Pedro e tudo. Então, isso tudo era muito bacana. E Semana Santa era outra data muito intensa pra família, que nós nos reuníamos, quer seja na fazenda do meu pai ou na fazenda do meu avô, na fazenda dos meus tios, em que todo mundo se reunia pra pescar. A Quinta-feira Santa era um dia especial, eu sonhava com aquilo. Pô, essa data tão especial das pescarias. Começava quatro horas da manhã e íamos até o sol se pôr. A emoção de ver de quem pegava mais peixe, o maior peixe. As grandes pescarias, sempre muito bacana isso. E depois o ritual da sexta-feira, todo mundo só comendo peixe, aquela história da Páscoa e quem ia ganhar mais ovinhos, onde que estava e tal. Isso é muito bacana. No final do ano, sempre estávamos na praia. Maceió é uma cidade muito pequena, nós tínhamos uma casa de praia que ficava dez minutos do centro da cidade, mas era praia. E chegava novembro, nós íamos pra praia. Embora os finais de semana fossem nas fazendas, claro. Nós estávamos de férias, passávamos a semana na praia, todo mundo. Eu, muito cedo, aprendi a velejar os barcos nossos lá, que era jangada, é um barco bem típico da nossa região. E eu com dez anos de idade ganhei uma jangada do meu pai e tal. E ia pescar com meu irmão, amigos [e] primos. Às vezes, ainda num período de aula, eu acordava quatro e meia da manhã e ia tirar isca, e pescar um pouquinho, pra sete horas ir pra escola. Ou quando voltasse, a maré estava enchendo, tinha tempo ainda de ir pescar, então tinha que guardar as iscas. Então, tinha toda uma paixão por pescar. Era uma época fantástica nisso daí. 

 

P/1 – Tá certo. E o que você, nessa sua meninice, queria ser quando crescesse? Tinha algum sonho?

 

R – Eu sempre pensei em ser engenheiro químico como meu pai. Sempre. Nunca tive muita dúvida do que eu queria ser. E ele ainda me deu lá uns pequenos químicos, aqueles brinquedinhos lá pra fazer experiência - aquilo só reforçou a minha vontade de ser engenheiro químico. Mas eu não tinha muita ideia do que era ser engenheiro químico, lógico, mas eu falava: “Eu quero ser engenheiro químico”, e tudo. Até que eu conheci uma indústria química pela primeira vez, aí não tive muito mais dúvida.

 

P/1 – Conta um pouco das lembranças da escola. O que você lembra? Se você sentiu medo no primeiro dia de aula, já que era o mais velho.

 

R – Não. Eu fui fácil pra escola. Evolui na escola sempre muito bem. Esse negócio de mudar de cidade talvez tenha facilitado pra mim a adaptação em cada uma dessas novas escolas. Meu irmão, dois anos mais jovem, eu ficava muitas vezes apoiando-o, mas ele também nunca teve muita dificuldade nas mudanças que nós tivemos. Eu sempre fui um bom aluno. No primário, eu fui o primeiro da classe. Depois isso foi reduzindo, já não era mais tão primeiro da classe, mas nunca tive muita dificuldade em estudar. Sempre fui muito participativo e, principalmente no que dizia respeito a esportes. Sempre gostei muito de futebol, de vôlei, de natação, organizar campeonato interescolar, tal, essas coisas - eu sempre gostava de participar. Então tinha sempre um ciclo grande de amigos, as gincanas que tinham nas escolas. Eu sempre fui um líder, sempre organizava as equipes, quer seja no futebol, no vôlei, na gincana, em que eu procurava liderar e tal. Essa foi sempre uma característica minha. Talvez por ser o neto mais velho, o primogênito de casa, tudo. Então, isso, eu sempre fui no futebol o dono da bola, que tirava os times e tal: “Olha, vai ser assim [e] assado”, criava as regras. “Vamos fazer um campeonato de botão de mesa, vai ser assim [e] assim, a regra é essa, tal.” Então eu sempre fui esse líder dizendo como iam ser as coisas. E a escola, eu fiquei um período de primário, quando voltei pra Maceió, numa escola próxima à minha casa, que minha mãe conhecia a dona da escola, tinha uma amizade pessoal, tudo. Aquela escola foi muito legal pra mim, o primário. Depois saí, fui pra Aracajú, passei um tempo em outra escola; voltei pra Maceió, fui pra uma escola um pouco maior. Depois mudei para o Colégio Marista lá de Alagoas, em Maceió, onde fiquei até o segundo ano científico, naquela época. Aí eu já estava com uns quinze anos e já estava achando Maceió muito pequena, eu queria outras coisas. Com catorze anos, meu pai me deu um presente de quando eu fosse fazer quinze, que foi uma viagem pela América Latina, chegando até a Flórida. Eu tive a oportunidade de conhecer o Peru, o Equador, o México, fui à Flórida, nos Estados Unidos, depois voltei pela Colômbia e entrei no Brasil pela Amazônia, tal. Meu avô paterno era um médico e um intelectual, gostava demais de música e de ler, ele lia muito bem em francês e alemão, e tinha uma fixação de que a cada dois anos ele ia à Europa sozinho ou com amigos para beber cultura - como ele dizia. E ele gostava muito de cinema também, me mostrou o cinema. Ele me levava com oito, seis anos, às matinês, nos cinemas lá de Alagoas - que não eram muitos, mas ele me levava a esse cinema aí. Isso abriu muito a minha mente. Com dez anos, ele me trouxe pra conhecer o Rio de Janeiro e São Paulo. Isso eu recordo muito bem, porque eu estava no Rio no dia que o homem chegou à Lua, lá em 1969. Acho que junho, se eu não estou enganado. E eu estava no Aterro do Flamengo com ele no dia em que o homem chegou à Lua, e a noite era uma lua cheia, a gente... Pô, eu fiquei radiante com aquela notícia nas televisões, não parava de falar aquilo. Depois viemos pra São Paulo, e duas coisas - além dessa chegada do homem à Lua, duas coisas me marcaram muito -: uma foi ir ao Maracanã no Rio de Janeiro. Eu tinha uma paixão por futebol, vocês viram que eu falei sobre futebol muito aí, tinha uma paixão no futebol, mas não tinha definido qual era o meu time no Rio de Janeiro. Eu tinha meu time lá em Alagoas já, o CSA [Centro Sportivo Alagoano], mas no Rio de Janeiro ainda... Ah, uma hora era Fluminense, [outra hora] era Botafogo, Flamengo e tal. E eu fui ao Maracanã pra assistir um Flamengo e Botafogo. Lógico, Flamengo ganhou de três a um. Eu vi aquela torcida, fiquei apaixonado. Tornei-me um rubro-negro aí para o resto da vida. E outra coisa foi vir a São Paulo; e aqui, o que mais me fascinou, com meus dez anos, foi o número de cinemas. Porque eu já tinha paixão por cinema, mas lá em Maceió não tínhamos muito cinema. Naquela época, eu ia para o cinema na matinê, só tinha aquilo no domingo. Aqui em São Paulo, meu avô, cada dia me levava a um cinema diferente, um filme diferente. Que lugar maravilhoso! Muita coisa boa. Assisti “Yellow Submarine”, dos Beatles, aqui em São Paulo, lá em 1969. Marcou bastante isso. Então, essa coisa... No fim dos meus 15 anos, eu fui passar uma temporada nos Estados Unidos. Passei seis meses nos Estados Unidos, como, um intercâmbio, estudante em Michigan. E foi, assim, muito bom,. Aproveitei muito e conheci outra cultura, outra forma de vida, porque em Maceió eu convivia numa sociedade que era diferenciada pra cidade. Uma cidade pobre que tinha uma elite pequena, e eu fazia parte daquela elite. De certa forma, eu estava inserido naquilo lá. E a vida era muito diferente pra essa elite. Nós tínhamos acesso a tudo, nós podíamos tudo. E isso, num determinado momento, quando eu fui para os Estados Unidos, eu voltei pensando que aquilo podia não ser muito bom continuar naquela vida. Tive outra vida nos Estados Unidos em que eu tinha obrigações em casa, em que eu aprendi a trabalhar, a relação de dinheiro, de riqueza. O americano com aquela ideia de que o filho completa 18 anos, vai pra faculdade: “Tchau, seu quarto já não existe mais. Um abraço”. E aquilo me abriu muito a mente, tanto que eu voltei pra Maceió e seis meses depois, eu já não estava mais em Maceió. Eu estava com a ideia fixa de estudar Engenharia Química. Também, quando voltei pra Maceió, tratei logo de arranjar um trabalho - e queria também trabalhar. Antes de ir para os Estados Unidos, eu estava fazendo o primeiro científico e fazia também o curso técnico de Química, porque eu já queria ser um engenheiro químico. Então, eu já fazia também o segundo grau no curso técnico de química. Estudava à tarde [o] científico e à noite, na escola técnica lá de Alagoas, eu fazia esse curso de Química. E aí quando eu voltei, eu fiz... Pô, eu queria um emprego, queria trabalhar, porque eu trabalhava nos Estados Unidos, tal, e eu queria ganhar dinheiro, não queria mais mesada, não achava aquilo legal, mas em Maceió não dava, em Maceió não dava pra fazer aquelas coisas. Aí eu fui assistir a um jogo de futebol em Salvador, o meu CSA jogando contra o Vitória da Bahia. Era dezembro já e, pô, o CSA perdeu de três a um. Eu fiquei triste pra danar, mas conheci lá no campo uns baianos, estava também com um parente lá que encontrei em Salvador, e o pessoal falou: “Vamos lá pra festa da Conceição da Praia”. Eu não sabia bem o que era isso, saí do estádio de futebol e fui pra essa festa da Conceição da Praia. A Festa de Largo em Salvador, naquela época, pô, as Festas de Largo eram um negócio muito bacana, samba em cada barraca, aquele cheiro do dendê com aqueles acarajés, aquele negócio todo. Eu fiquei apaixonado por aquela coisa. Tanta baiana bonita. Pô, virei a noite lá. Naquela época, não tinha celular. Pô, eu tinha ido, meu tio morava em Salvador e eu estava na casa dele, ia voltar no dia seguinte para Maceió. Ah, eu cheguei de manhã cedo, falei pra ele: “Olha, tio, vou trocar a passagem, vou ficar mais um dia nessa Festa de Largo, isso aqui é uma maravilha”. Bahia, tal, descobri Salvador novamente. Voltei pra Maceió e falei: “Tem um Colégio Marista lá e vou fazer o terceiro científico lá”. E aí eu comecei a ver que ia ter o polo petroquímico em Camaçari, tudo, aquilo estava sendo construído. A Universidade Federal da Bahia tem o curso de Engenharia Química, é um curso muito bom porque estão investindo no curso por conta do polo petroquímico que será construído, tal. Eu falei: “Ah, é o lugar pra eu ir”. E ainda mais com aquelas baianas bonitas todas, aquela cidade, aquele samba, aquela coisa toda. Não tenho dúvida. Voltei pra Maceió, falei para o meu pai: “Vou morar na Bahia”. Quinze dias depois, eu estava com tudo resolvido e estava matriculado no colégio. Conheci uns amigos de Alagoas que moravam lá em Salvador, faziam faculdade, tal. Alugamos uma república, fui morar com eles, lá e fiz Engenharia Química na Bahia. Foi uma grande experiência aí também.

 

P/1 – E como foi então essa mudança pra Bahia, e principalmente depois de já ter vivido nos Estados Unidos? O que você trouxe de lá dos Estados Unidos na bagagem, que você também levou pra Bahia? 

 

R – Essa autonomia. A busca da minha autonomia, de me firmar como pessoa independente, tal, cortar os vínculos. Isso aí era uma coisa que eu estava buscando forte também, não só ser engenheiro químico. Eu fui bom aluno, como eu falei, o tempo todo. Então, eu me saí bem no colégio em Salvador, era bem diferente. Os dois eram Colégio Marista, mas o curso em Salvador era muito mais rígido e os meus colegas de colégio eram muito bons alunos. E eu, no início, tive que me esforçar e estudar muito. Então, eu, primeiro semestre, principalmente, dediquei só ao estudo e fiz boas amizades com pessoas que também estavam muito comprometidas em estudar. Final de semana, a gente estudava. Nós queríamos passar no vestibular, tínhamos o compromisso - e eu tinha aquele compromisso comigo. E meu pai, naquela época, não estava num bom momento financeiro e eu era um desafio pra eles também, me manter em Salvador, pagando um colégio caro. Um dos colégios mais caros de Salvador e ainda me bancando na república com todas as despesas e tal. Eu tentava trabalhar, fazer algum bico, então eu dava aula particular, conseguia na turma do segundo científico ou do primeiro: “Ah, tal, a menina tá com dificuldade”. Eu: “Ah, você não quer que eu dê umas aulas particulares?”. Então eu arranjava uma horinha e ia lá, ensinava alguma coisa pra fazer um trocado e tudo, pra ajudar financeiramente. Mas também pra me firmar como, independente. Isso veio dos Estados Unidos também, esse negócio de: “Pô, você tem que agora vencer”. E vencer era, principalmente, passar no vestibular. Eu fiz vestibular de Administração de Empresas na Faculdade Católica e Engenharia Química na federal. E tive sucesso em todas as duas, passei, comecei a cursar, mas a pressão do terceiro ano pra fazer o vestibular foi muito grande. Quando eu entrei na faculdade, o primeiro semestre foi um semestre de vagabundagem. Pô, só passei em uma matéria, Educação Física. Todas as outras, eu tomei pau. O que foi que aconteceu? Pô, tinha festa todo dia, farra todo dia, pô, descobri a Bahia, fiquei encantado com tudo na Bahia. Ah, não queria nada com a vida. Quando caiu a fixa, perdi um semestre. “Não acredito, tenho que recuperar tudo”, aí voltei a estudar. Daí pra frente, eu fiz o curso bem. Mas já no segundo ano de escola, eu já comecei a fazer estágio no polo petroquímico de Camaçari. E aí tem um momento que foi muito legal pra mim, que não esqueço nunca, que [foi] a primeira vez que eu fui ao polo petroquímico de Camaçari. Eu estava iniciando meu segundo ano de faculdade e nesse negócio de liderar e tal... Eu não era do centro acadêmico, até porque os colegas do centro acadêmico, eu os achava muito radicais e pouco estudiosos. Eu achava que você tinha que estudar também, porque era uma universidade federal e a gente tinha que estudar, formar e abrir espaço pra outros. E a turma lá ficava oito, dez anos - sei lá se formavam, porque só faziam muita política e não estudavam. Então eu não me dava muito bem com a turma do centro acadêmico, porque eu os achava meio relaxados nesse lado - embora eu também participasse de política, tudo. Isso eu estou falando de 82, a barra era pesada nessa época. A polícia baixava o cacete na gente lá, muito gás lacrimogêneo, tal. E eu ia lá às passeatas também. Meu pai e minha mãe ficavam super preocupados, eles só ficaram sabendo disso bem depois. Mas, eu ia lá e ia com a turma. E eu, quando fui ao polo a primeira vez, nós tivemos um encontro de estudantes de Engenharia Química do Nordeste e esse encontro aconteceu lá em Salvador. Eu participava da organização. Nós conseguimos visitar o polo, levar os estudantes pra visitar o polo; e a visita era na central petroquímica, que chamava Copene, na época, Companhia Petroquímica do Nordeste. Era a maior petroquímica do Brasil. Ainda é a maior central petroquímica do Brasil. E nós fomos em vários ônibus, eu ia liderando o ônibus e quando nós nos aproximávamos do polo, quando eu vi as duas chaminés da central termoelétrica lá e as torres de destilação, a fábrica, a central, eu olhei, falei: “Poxa vida, que maravilha! Isso é muito legal. Pô, um dia eu vou liderar isso aqui”. Eu falei pra mim aquilo ali naquele dia e não me esqueço disso. Foi muito bacana que 25 anos depois eu consegui concretizar esse meu primeiro sonho com o polo petroquímico de Camaçari. Foi um momento que marcou muito a minha vida. Depois, uns dois meses depois, eu já estava fazendo estágio em Camaçari numa fábrica de polipropileno, que é um plástico - e que mudou um bocado a história da petroquímica brasileira com esse plástico. Já era produzido em São Paulo, mas com essa segunda fábrica lá na Bahia a gente teve uma mudança que o volume de oferta cresceu muito e a gente começou a introduzir o plástico no carro, e eu participei de um bocado de projetos disso aí. Mas falando um pouco mais... Fechar aí a escola. Quando eu comecei a fazer estágio eu deixei a Administração de Empresas e fiquei só com a Engenharia Química, e os estágios. E foi muito bacana, eu aproveitei muito a minha vida de estudante de faculdade participando de alguma coisa de movimento estudantil, como estagiário, das festas da faculdade, viajando, muitos amigos. Foi um período muito legal esse aí. E me formei, fui orador da turma - tinha que ser também. Foi muito legal. E antes de me formar, seis meses antes, eu tinha alternativas de onde ir fazer o último estágio para ser contratado. O mercado estava bem aquecido, eu tinha participado de alguns processos seletivos e tinha me saído bem em todos eles. Mas eu fiz uma escolha que foi muito importante pra minha carreira naquela época, eu escolhi ir trabalhar na CPC, Companhia Petroquímica de Camaçari, uma empresa que produzia PVC [Polyvinyl Chloride] e que era o primeiro investimento do Grupo Odebrecht em petroquímica; e isso me ligou ao grupo por 28, 29 anos.

 

P/1 – Eu queria que o senhor falasse pra gente agora se você teve algum professor que marcou da faculdade ou alguma matéria que...

 

R – Olha, na faculdade, o que me marcou muito foram os meus colegas, também na grande maioria foram grandes estudantes. A minha turma de Engenharia Química teve uma característica na Universidade Federal da Bahia, porque ela foi a primeira turma de Engenharia Química em que nós tínhamos mais mulheres do que homem. Isso, a partir daí as mulheres estão dominando a Engenharia, principalmente na Engenharia Química. E foi muito interessante, as meninas eram muito aplicadas. A turma era muito boa e nós estudávamos muito. Eu nunca tive uma ligação muito grande com os professores, as matérias eram semestrais e isso não criava muita aproximação, porque você ficava seis meses, passou e... Eu me recordo mais de cadeiras assim, que eram mais difíceis de passar: Mecânica dos Fluidos, Fenômeno de Transporte, Termodinâmica. Principalmente termodinâmica. Tinha uma professora que era super exigente, então tinha aquele tabu de: “Pô, se você conseguir passar em termodinâmica, você vai se formar e tudo”. Pô, o grande desafio na escola foi passar em termodinâmica, mas fui bem. Da faculdade, o que eu trago de muito legal é a recordação da turma, dos amigos, dos colegas. Não só do curso de Engenharia Química, porque como era Engenharia, tinham muitas matérias até o segundo, terceiro ano - eram todas as engenharias juntas. Lá era Escola Politécnica de Engenharia, depois você ia fazendo cadeiras mais específicas. Mas, a verdade é que eu tenho colegas de Engenharia Mecânica, de Engenharia Elétrica, e que nos encontramos até hoje. A turma do Marista de Salvador é uma turma bem unida. Anualmente, nós nos encontramos. Já temos mais de 30 anos que saímos da escola e agora, 26 de novembro, um almoço lá das três turmas do terceiro científico, dos 110, nós conseguimos reunir 70, 80 - sempre um grupo muito grande. E Engenharia Química, a gente também se reúne de vez em quando. Mas o que ficou mais aí da faculdade foram os colegas. Eu tinha um lado prático muito legal, porque eu comecei a fazer estágio muito cedo na petroquímica e eu trazia experiência da fábrica. Então os professores exploravam muito isso comigo, assim: “Pô, e como é naquela fábrica tal?”. E tem uma coisa que eu ganhei lá na Bahia, que foi o... Todo mundo passou a me conhecer, principalmente na faculdade, pelo sobrenome Carnaúba, que é o sobrenome da minha mãe e não é o do meu pai. E isso é importante para o meu pai. Ah, como isso, na época de faculdade, e até bastante tempo depois de formado as pessoas ligavam na casa do meu pai: “A casa do engenheiro Carnaúba. A casa do Manoel Carnaúba”. Ele: “Não. Aqui é a casa do Manoel Cortez, tal”. Ele não aceitava muito. Hoje acabou isso, ele... Mas o Carnaúba, um nome mais exótico, ficou o Manoel Carnaúba que trago até hoje aí. Todo mundo [me] conhece muito mais por Manoel Carnaúba. 

 

P/1 – Tá certo. E Manoel, conta pra gente então como foi a experiência do estágio, daquele primeiro contato no ônibus da faculdade indo conhecer o polo e com aquela já missão de “Pô, estarei aí”. Como foi de fato ir pra lá trabalhar e começar a entender a prática da Engenharia Química?

 

R – Ah, isso foi muito legal. Eu tive oportunidades fantásticas na minha vida e acho que soube aproveitar bem. Imaginem vocês que eu, estagiário, na Polipropileno, eu fui fazer estágio na área de Desenvolvimento de Produto. E a Polipropileno tinha tecnologia da ICI, uma empresa inglesa, Imperial Chemical Industries. E o grupo era formado por dois ingleses e mais uns três engenheiros brasileiros, e alguns técnicos. Os engenheiros brasileiros tinham dificuldades na comunicação com os ingleses, eles não conseguiam falar bem em inglês e os técnicos também não falavam muito bem. E eu tinha fluência na língua inglesa, isso me deu uma vantagem enorme com os ingleses, porque eles passaram a... Pô, queriam falar comigo, passavam o que tinha que ser feito, tal, e eu tinha que passar pra turma, pros engenheiros. Acabavam as reuniões, eles se levantavam, iam embora, os engenheiros ficavam: “Como é isso e tal?”, e eu ia lá para a linha de frente. E os projetos que eu participei foram muito bacanas. O primeiro para-choque de plástico no Brasil, a gente fez pra Fiat. O Fiat 147 foi o primeiro uso do plástico na indústria automobilística brasileira. A caixa de bateria, falava da caixa de bateria que era de chumbo e nós fizemos de plástico pela primeira vez. Vocês só conhecem a caixa de bateria de plástico. Aquilo reduziu em 60% o peso da caixa de bateria. Depois a grade do Gol, o painel do Gol, uma série de projetos aí voltados pra indústria automobilística, mas também pra bens duráveis. Caixa de sorvete, pra você conseguir botar lá o sorvete, de plástico e aquilo não quebra, congela, baixa temperatura, tal. Então, esse desenvolvimento desses produtos pra mim era um projeto fantástico. Em determinado momento, não foi fácil continuar na faculdade e ficar menos na indústria, porque os projetos me seduziam tanto que eu não queria ir pra escola e, às vezes, eu me prejudicava na matéria. Porque às vezes nós tínhamos corridas contínuas, ou fazíamos testes à baixa temperatura com produto, tal, e aquilo requeria de mim um tempo muito grande. E até um momento eles me fizeram uma proposta de me contratar não como estagiário, mas como um profissional e eu quase fui seduzido. Foi muito importante uma conversa que eu tive com meu pai nessa época, e que ele falou pra mim: “Não. Pô, não faça isso, porque você vai começar a ganhar dinheiro e aí talvez você dê menos importância à universidade e não forme logo. Talvez até nem forme achando que como técnico tá tudo bem, sua vida vai mudar bastante, tal”. Aí eu tomei uma decisão: saí da Polipropileno, com o coração um pouquinho partido, mas foi legal, porque aí eu dei uma adiantada no curso e acabei-o. Mas isso daí foi fascinante pra mim, porque eu saí também de produto, fui pra indústria que a gente desenvolvia o produto aqui e levava pra escala industrial. Isso eu fazia nos reatores e reatores de escala industrial, e controlando a produção, tal. Aquilo me deu acesso a todo o ciclo de produção da indústria petroquímica, aí já vinha a coisa de liderar as equipes. Eu, estagiário, dizendo lá para os operadores: “Pô, tem que fazer assim, fazer assado, não sei o que, a receita é essa”. Saía, ligava pra fábrica: “E aí, cumpriram a receita? Qual o resultado tal?”. Estagiário. Depois, quando fui fazer estágio na CPC, já foi outro momento também muito interessante, mas em que a CPC tinha um projeto pra um Polo em Alagoas, um novo Polo Petroquímico. Alagoas foi contemplado num determinado momento, lá em 1982, eu acho. É. Em 82, foi criado o polo petroquímico de Alagoas. E eu, alagoano, embora amasse Salvador, voltar pra terra, tal: “Ah, vou voltar pra Alagoas como engenheiro, construir o polo, tal. Isso vai ser muito bacana”. E comecei a participar do projeto para construção desse polo. Era um grupo de engenheiros experientes, dois nisseis, um brasileiro e três japoneses. Os nisseis são brasileiros também. Perdão, um nissei, outro engenheiro brasileiro - que não era nissei - e três japoneses. E a comunicação era toda [era] em inglês ou eles falavam em japonês. Eu não falava japonês, mas fiquei extremamente curioso por aquela cultura, por aquela língua. Esse foi outro momento marcante na minha carreira, porque a partir daí eu passei a me interessar muito pelo Japão, desenvolvi muita curiosidade pela língua. Terminei aprendendo japonês. E outro momento da minha vida, eu fui morar no Japão, passei um período morando no Japão e até hoje eu tenho muita relação com empresa japonesa. Mas, nessa época, trabalhando nesse projeto para o Polo de Alagoas, também foi quando eu tive meus primeiros contatos com a White Martins, eu recordo isso - e estou falando aí de 1982 - porque a White Martins foi a primeira empresa que atendia gases lá no polo e nós precisávamos de nitrogênio. E depois pensei também em usar oxigênio e hidrogênio lá em Alagoas. E eu comecei a fazer contatos com a White Martins, ela já fornecia pra CPC, via um contrato com a Copene, e lá pra Alagoas. Foi com ela que nós fizemos os primeiros estudos pra esse Polo Cloroquímico lá de Alagoas. Isso é 1982, eu me formei no final do ano e fui contratado. Fui o funcionário 001 da CPC Alagoas, Companhia Petroquímica de Alagoas. Íamos construir essas fábricas lá. E construímos, mas tínhamos um cronograma de fazer rapidamente. Isso com idas e vindas da economia brasileira naquela década, tomou muito mais tempo. O projeto [que] devia ter sido concluído em 86, só foi concluído em 89. Por conta desse projeto, eu saio da Bahia e vou para o Rio de Janeiro, porque íamos fazer o projeto de engenharia, o desenho das fábricas no Rio de Janeiro. Como eu tinha já acumulado alguma experiência, já estava há um ano trabalhando na CPC, no projeto de Alagoas, eu tinha passado um período... Aliás, eu passei foi um ano e meio depois de formado. Eu [me] formei em janeiro de 83 e fui para o Rio em outubro de 84. Eu passei um ano como engenheiro em treinamento, e isso pra mim foi um programa super valioso, porque eu comecei como o que o operador mais lá no chão da fábrica faz, que a gente chamava de operador um. Então, eu passei dois meses trabalhando de turno na função de operador um. Depois eu passei dois meses na função de operador dois. Depois fui ser operador de painel de controle, [e] depois fui ser um supervisor de turno, até ser um engenheiro de Produção. Passei um ano em cada uma dessas etapas e trabalhando de turno, no regime de turno de revezamento, que me abriu a cabeça pra o mundo na fábrica, como é a fábrica num domingo à tarde quando não tem nenhuma liderança, tal, quando você é o líder da fábrica. E me ensinou muito. E conviver com os operadores, porque quem trabalha em turno de revezamento tem uma vida social diferente. No Natal, tá todo mundo reunido, e ele vai pra fábrica. Aniversário de não sei quem, ele vai pra fábrica. Ele chega a casa oito horas da manhã, tá todo mundo começando seu dia e ele vai dormir, porque vai trabalhar novamente meia noite. Então, a vida social de uma pessoa que trabalha num turno de revezamento é difícil. Mais na frente eu precisei liderar essas equipes, entender, ter vivido a vida [deles] foi muito legal pra mim. Mas, ao fim disso aí, em 84, o projeto foi para o Rio de Janeiro e eu fui convidado pra ir para o projeto no Rio de Janeiro. E foi outro momento fantástico da minha vida pessoal e profissional. Depois de ter vivido a Bahia, aquela Salvador, aquela cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. 24 anos, chegando ao Rio de Janeiro, engenheiro formado, bom emprego, tal. Ah, adorei. Que cidade maravilhosa! É a cidade mais bonita que eu acho no mundo - e eu sou privilegiado de conhecer boa parte do mundo, não encontrei, até hoje, nada igual ao Rio de Janeiro. No Rio, fui pra ficar oito meses. Comecei a morar no hotel. Depois vi que não seriam oito meses, aluguei um apartamento. Encurtando a história: fiquei oito anos. O Rio de Janeiro abriu pra mim o mundo, porque novamente com o projeto e pelo fato de eu falar inglês, as oportunidades vinham e: “Pô, Manoel, você fala bem inglês, acompanha esse engenheiro que está fazendo não sei o que, mas, ele tem uma dificuldade, não sei o quê”. E eu ia, ia para os Estados Unidos, pra Europa, para o Japão, tal. E daqui a pouco eu já estava responsável por aquilo e fui acumulando responsabilidades. Rapidamente, fui sendo promovido. Muito cedo eu já estava ocupando uma posição de liderança na empresa, nos projetos. Finalmente conseguimos iniciar a construção das fábricas em Alagoas, as fábricas foram construídas e eu deveria ter voltado pra Alagoas para operar as fábricas, mas eu fiquei muito seduzido pela vida que eu estava vivendo naquele momento: primeiro, a vida de Rio de Janeiro; e segundo, a vida de projetos em que eu vivia nos Estados Unidos, no Japão, tal. E aí eu tive um convite pra fazer projetos de novas fábricas também pra Alagoas e esse meu líder me disse: “Manoel, está muito cedo pra você ir ficar dentro da fábrica, você vai se sentir meio preso. Vai achar, eventualmente, que Maceió é pequena. Por que voltar agora? Não, vamos fazer mais umas fábricas, lá você constrói e depois você volta pra Maceió”. E aquilo foi música no meu ouvido, naquele momento. Eu continuei no Rio, passei mais um período. Desses oito anos aí, eu estava falando de uns quatro anos e pouco que eu já estava lá. Mas aí fui pra novos projetos também lá no Polo Cloroquímico de Alagoas, também com muito contato com a White Martins. Sempre a White Martins é uma referência pra mim, sempre foi essa referência. Isso me levou a morar no Japão por um período de um ano e alguma coisa. Durante esses oito anos que eu fiquei no Rio de Janeiro, eu acho que fui ao Japão umas... Sei lá, 15 vezes, por aí. Muita experiência na Europa, na Alemanha Oriental. Naquela época, tinha o muro. Nós compramos tecnologia na Alemanha Oriental, ter vivido essa experiência de absorver tecnologia de um país da cortina de ferro, na época. Cada vez que passavam as fronteiras, era uma experiência excitante. Foi muito legal, muito interessante conhecer as pessoas. Aprender com elas é outro “mindset”, outra realidade. Não eram pessoas muito felizes, mas viviam e tinham os seus planos, seus sonhos. Também vivia muito [nos] Estados Unidos; os Estados Unidos sempre foram importantes fornecedores de tecnologia pra petroquímica brasileira. Comprei muito equipamento, trouxe muita novidade para o Brasil, pra esses projetos, tecnologias inéditas. Isso tudo foi muito legal pra mim, seduziu-me enormemente. Até 1990... Em 89, eu estava morando no Japão e vim para o Brasil no Natal, cheguei aqui na véspera do debate do Collor com o Lula. Vocês sabem do que eu estou falando? E o Collor foi eleito. O Collor foi eleito e todo mundo ficou meio que: “Pô, o que vai acontecer?”. Eu deveria ter voltado já no dia quatro de janeiro pra Tóquio, de volta, pra continuar os projetos lá e o meu diretor me pediu: “Fica aí porque a gente não sabe bem o que vai acontecer”. Depois me pediu pra ficar um pouco mais, tal. Ele falou: “Quem sabe você não tira férias. Você tá há dois anos sem férias e a gente aguarda um pouco o que vai acontecer com a economia”. Bem, eu não voltei para o Japão. Eu morava em Tóquio num “gigantesco” apartamento de 12 metros quadrados, e aí tive que pedir a um amigo meu lá no Japão pra botar a minha mudança lá numa caixa quase de sapato, porque o que você tem em 12 metros quadrados é nada, e mandar para o Brasil, porque aí eu passei quase que um ano sem ir ao Japão. Porque a economia mudou toda, veio o Plano Collor, paramos os projetos, desistimos de alguns deles, tal. E a vida mudou, eu passei o ano de 90 desconstruindo o que eu tinha feito até então, negociando os contratos, porque tínhamos decidido não mais construir aquelas fábricas. Então, como negociar o que já estava em andamento, equipamentos, tecnologia, tal? Então, o ano de 90 foi um ano duro de desconstrução de sonhos, de ter que demitir muita gente, tal. Foi um ano muito duro pra mim profissionalmente. Em 91, eu voltei pra Maceió. Recebi um convite do presidente da empresa pra ser assessor dele em alguns projetos que ele tinha lá em Alagoas. Eu fui pra Alagoas e fiquei nesses projetos de assessoria da diretoria, mais especificamente do presidente, fazendo algumas coisas que, naquela época, eram muito em moda, como reengenharia. Acho que vocês ouviram essas... Qualidade total. Tinham uns modismos, assim, que focavam principalmente em aumentar a eficiência das indústrias. E nós fizemos alguns desses projetos, demos saltos de produtividade importante. Projetos que foram importantes pra economia brasileira. Porque o Presidente Collor teve uma medida muito positiva pra nós [da] indústria, que foi nos desafiar para a competição. Nós éramos muito conservadores, muito acomodados com uma proteção enorme da indústria nacional, muito pouco preocupados em inovação e em competitividade, melhorar custo, qualidade. Então, essas coisas a gente não tinha muita preocupação. E o Presidente Collor provocou isso na indústria nacional. E a partir daí a indústria começou a mudar a sua forma de operar, de trabalhar, tornando... Foi muito bacana ter participado desse momento de revisão da postura da indústria nacional. Também aí, no início da década de 90, a gente começa a ter no Brasil aquele programa de privatização - aí já [é] o Presidente Itamar Franco. Já começa a ter o primeiro movimento de privatização. No primeiro governo de Fernando Henrique, vem a privatização da petroquímica brasileira. Eu participei intensamente, nessa época, lá em Alagoas, da preparação das empresas - na época, Salgema e CQR, Companhia Química do Recôncavo - para essa privatização. As empresas eram ainda bem gordinhas e a gente foi fazendo um enxugamento dessas empresas até que veio o programa de privatização. Nessa época, a Odebrecht, que já era acionista também da CPC, ou da Salgema, que já era da CPC, adquiriu o controle majoritário dessas empresas: CPC, Salgema e CQR. CPC tinha em Alagoas e em Camaçari; a CQR era na Bahia, em Camaçari; e a Salgema, em Alagoas. E nós juntamos essas três empresas e formamos a Trikem - três químicas aí. Isso eu já estou falando de 95, final de 95. Em 1996, em março, eu casei com uma pernambucana que conheci lá em Alagoas na indústria. E aí fomos transferidos de imediato para Bahia, voltei pra Salvador. E aí fui com Márcia morar em Salvador. Ficamos, [em] 96, fazendo a consolidação dessa nova empresa, dessas três; essa primeira fusão e integração das três empresas até 97, quando a Odebrecht - que também controlava a OPP, que era uma indústria de termoplásticos, de polipropileno e polietileno - resolveu juntar a OPP com a Trikem. E aí veio mais uma fusão minha, formamos a OPP Trikem. E eu mudei novamente de Salvador pra São Paulo, e Márcia veio comigo pra São Paulo. Ficamos aqui... Eu cheguei em agosto de 97, ela veio em janeiro de 98 e ficamos até o final de 99, quando eu fui transferido pra Maceió. Aí, em Maceió, eu já fui ser o líder empresarial das áreas de produção lá de Alagoas. Um ponto que eu queria destacar aí é que em 95 eu passei a ter um contato mais direto com a Odebrecht e conheci o que a gente chama de Tecnologia Empresarial Odebrecht, a TEO, que é um conjunto de conceitos de gestão que foi escrito pelo fundador do grupo, o doutor Norberto Odebrecht, ao longo da carreira dele. Mas, ele colocou isso em livro, se eu não estou equivocado, na década de 70. E quando eu li aquilo, eu me apaixonei, porque os conceitos do doutor Norberto têm muita aderência com os meus conceitos pessoais e da minha família, o que a gente tem dentro de casa, os valores que nós temos, o valor que nós damos às pessoas, o gostar de pessoas. Isso que eu falei já pra vocês muito de ser líder, mas você só é líder quando você tem paciência pra ouvir as pessoas, quando você se dá às pessoas também. Não é o líder de só mandar, porque o líder de só mandar ele vai ser líder por um período só, ele não vai ser líder sempre. O líder, pra mim, tem que dar também, tem que estar preocupado com seus liderados, ouvir, estar presente, dividir, educar, compartilhar. E isso a TEO me ensinou, trouxe um reforço nisso daí, e eu passei a ter a TEO no meu dia a dia. Isso foi muito importante pra minha carreira; até hoje, tem sido muito importante. Eu sempre que posso dou uma paradinha, dou uma “lidazinha” no livro - que já tá tudo riscado, marcado e tal. Lembrando-me um pouco disso. Mas 99 eu chego a Alagoas com a missão de empresariar o negócio em Alagoas. E ali eu já me tornava um empresário bem mais pleno, estava completando 40 anos de idade e fui então empresariar isso fazendo relação político-estratégico com o governo, liderando uma equipe grande, faturamento grande, tudo. Foi um período muito legal, trazendo muita tecnologia, fui buscar muita tecnologia fora. Lembrei-me de tudo aquilo que eu tinha feito nos projetos, fui reativar os contatos que eu tinha. As fábricas estavam muito tempo sem investimentos e a gente precisava fazer a atualização tecnológica delas, os recursos eram escassos. O início daquela década de 2000 não estava muito bom pra gente. 2001, a gente teve a falta de energia elétrica, principalmente no nordeste - racionamento de energia no país. O nordeste sofreu muito. E eu era líder da maior indústria eletrointensiva do nordeste, o maior consumidor de energia elétrica do nordeste era eu. E eu, pá, recebi esse presente do governo Fernando Henrique e da natureza também, que deixou os rios ficarem vazios. Não foi só do governo a culpa. Mas foi enorme [o] desafio pra mim, deu uma disposição muito grande também de trabalhar com o governo, influenciar Brasília, influenciar a Chesf lá em Pernambuco e tal. Atualizar a planta também, porque tinha que continuar produzindo, mas, energia elétrica é matéria prima pra uma indústria de cloro-soda. E quando você tem 25% a menos, você vai produzir 25% a menos - a não ser que seja criativo. Daí cria a Braskem, que foi um marco da petroquímica brasileira, porque aí nós começamos efetivamente um processo de consolidação dessa indústria. A partir daí, nós começamos a construir a maior petroquímica da América Latina. A Odebrecht adquire o controle da Copene Companhia... Na verdade, com a Norquisa, que ela já era sócia, ela compra mais uma fatia da Norquisa e passa a ter o controle da Copene, junto com mais outras empresas: o Grupo Mariani e outros. E com isso nós criamos a Braskem em agosto de 2002. Com isso, nós começamos um processo de crescimento. Eu fico em Alagoas até setembro de 2004. Com o advento da Braskem, a Braskem criou unidades de negócio, três unidades de negócio. Uma das unidades de negócio, nós passamos a chamar Vinílicos, que era responsável pela produção do PVC, cloro, soda. E tinham fábricas em Alagoas e no polo de Camaçari, e uma fábrica aqui em São Paulo. E eu fui ser o diretor industrial desse conjunto de fábricas, dessa unidade de negócios vinílicos. Fiquei com isso, viajando entre Alagoas, Bahia e São Paulo, até setembro de 2004. Setembro de 2004, eu recebo um convite pra ser o diretor industrial da Central Petroquímica do Nordeste, a Copene. Aí foi quando eu comecei a: “Pô, tá chegando a hora de liderar o polo”; aquele sonho de estagiário, quando vi a primeira vez. Fui ser diretor industrial da Copene. Em 2008, eu passei a ser Vice-Presidente de Petroquímicos Básicos da Braskem. E aí me tornei presidente do Cofic, Comitê de Fomento Industrial, que é uma associação das empresas que lideram o polo petroquímico de Camaçari, e passei a ser o número um da Central Petroquímica de Camaçari. De certa forma, tinha todo o polo ali fornecendo todas as matérias primas e utilidades, tal. Aquilo foi um momento, assim, que eu falei: “Poxa, vale a pena sonhar”. Esse foi um sonho legal que eu realizei. Outro sonho foi... Eu tinha lá 28, 29 anos, quando eu comecei a aprender japonês e estava indo para o Japão. Eu voltei [depois] de um período de 45 dias no Japão. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, meu pai e minha mãe estavam lá, foram fazer uma surpresa pra mim, que a gente estava um tempo sem se ver. E aí eu disse: “Vou levar vocês pra jantar num restaurante japonês”. E eles não tinham muita familiaridade com comida japonesa, ficaram achando aquilo muito estranho. Mas o que foi bacana é que nessa conversa eu falei pra minha mãe: “Mamãe, eu vou completar 30 anos em Tóquio, 40 anos em Paris e 50 anos, eu vou fazer em Nova Iorque”. Vocês viram que eu sempre fui sonhador e criava pra mim mesmo desafios, metas pra alcançar. Eu sempre tive o meu plano estratégico, meu plano de longo prazo, aonde eu quero chegar, o que eu quero ser, tal. Eu sempre tenho. E visito esse plano, e lógico, sempre faço correções de rumo e tal. Mas hoje eu tenho 52 anos e fiz 30 anos em Tóquio, 40 em Paris e 50 em Nova Iorque. Agora estou combinando com minha esposa, dividindo com ela onde é que eu vou fazer 60, porque a turma gostou muito da festa dos 50, diz que não dá pra esperar muito, querem: “Não, vamos fazer 55”, “Não, 60”. Mas é muito bacana isso aí.

 

P/1 – Vou voltar um pouquinho pra algumas questões que eu fiquei bastante curiosa antes de a gente continuar. A primeira era, como foi, de fato, o trabalho no chão da fábrica? Que você falou que ficou aquele primeiro ano de trabalho conhecendo as funções. Então, o que faz esse primeiro operador? Como foi sentir o trabalho noturno? Você falou que depois isso te ajudou a liderar a equipe, a entender os problemas deles. Então, eu queria saber um pouquinho disso.

 

R – Muito legal. Operador um, você aprendia como abrir válvulas. A indústria tem válvulas pequenas, torneiras, né? A gente não chama de torneira na fábrica, mas há pequenas de três quartos de polegadas, há válvulas enormes de vinte polegadas. E cada uma dessas tem uma técnica pra você abrir e tal. Conhecer o fluxo. São quilômetros de tubulação e cada uma daquelas tubulações, como você condicionar, porque pra você colocar, por exemplo, um gás em uma tubulação, não pode abrir a válvula de abrir e já passou o gás. Porque isso pode causar um resfriamento muito brusco, [pode] vir causar um rompimento ou uma dilatação porque ficou com um fluido muito quente e causar um problema, empenar uma tubulação, tal. Então, tem uma série de princípios aí de como operar no campo um equipamento, um vaso muito grande que você precisa parar aquilo. E como você vai aliviar a pressão dele, ele está muito quente e com muita pressão lá dentro. Como você vai descomissionar, como você vai liberando aquilo lá? Porque não pode ser instantâneo: [só] abriu. Então, cada um daqueles fluidos exige um conhecimento específico e tal. Isso era um pouco o que era o operador um. O operador dois já checa se a temperatura, a pressão e tal, daquele equipamento estão corretos. Ele leva o equipamento para a condição de operação. O operador um vai lá e o cara fala: “Abre a válvula tal”. Ele vai lá e sabe como abrir a válvula. O outro fala: “Pô, tá bom o nível. Vamos mais, vamos menos. Liga aquela bomba agora, tá na hora de fazer isso”. O operador três, que é o operador de painel, é o cara que tem a fotografia do processo de uma determinada área. Na época, eram instrumentos pneumáticos, mas era uma peninha que riscava o negócio, um “indicadorzinho” assim. Hoje, a gente tem tudo digital, tudo com números, tal. Você vê o processo na tela de um computador, ou até mesmo do celular, mas na época a gente ficava nos “graficozinhos”, as “peninhas” lá mostrando os indicadores de temperatura e pressão; e você tinha as válvulas automáticas, que você acionava aqui no dedo, abrindo ou fechando a válvula. E a válvula tem sensibilidade pra você abri-la rápido ou lentamente. Um forno de processo, a temperatura é de mil graus na câmara. No tubo, a temperatura é 800 graus. Você tem que... Uma faixa de temperatura muito estreita, porque senão você começa [a] gerar produtos indesejáveis e precisa controlar essa temperatura com um conjunto de 40, 80 maçaricos; e você tem que abrir mais gás, ou menos gás. Então, são coisas assim que a gente faz no painel, numa operação. O supervisor de turno já lidera isso aí tudo, o grupo, porque você divide isso em áreas e esse supervisor procura organizar isso numa sequência lógica. E os engenheiros buscam os pontos de operação pra maximizar a produção na melhor condição de eficiência de processo. Então, isso é um pouquinho do que é a fábrica. Mas tem lá também as suas brincadeiras, os momentos de descontração, uma “zero hora”, que a gente brinca. Você chega zero hora na fábrica pra sair oito horas da manhã. Pô, parece que não acaba nunca. Então a turma faz algumas brincadeiras pra relaxar, tem coisas também divertidas e momentos também de tensão em que os processos saem dos controles, e que você tem que tomar medidas rápidas. Hoje, as fábricas operam quase que em piloto automático. Então o grande desafio nosso hoje é como deixar o operador motivado e preparado para as anormalidades, porque você quer que ele vá e passe oito horas olhando para o terminal do computador, que não mudou nada. Porque hoje o processo está acontecendo lá, faz um algoritmo, escolhe o ponto ótimo, abre a válvula pra você, fecha, tal e diz pra você, calcula tudo qual é a melhor posição de eficiência. O operador só fica olhando se aquilo realmente está acontecendo. Então precisa ter alguma interferência externa pra fábrica sair daquela condição plena. E quando isso acontece, o operador tem que estar treinado. Fica meio “boring” pra ele o dia, o turno. Hoje, o grande desafio da gente é como manter essa turma preparada e motivada de estar lá. Uma geração nova aí de meninos que tem pressa de que as coisas aconteçam.

 

P/1 – E também, uma coisa que você falou e que eu queria recuperar era o sobre o projeto de Alagoas, o seu primeiro grande projeto, tal. Quais eram as perspectivas, o que se buscava com esse projeto? O que ele ia produzir? Os clientes?

 

R – Na verdade, eram duas fábricas [que] eu fiquei. Nós íamos produzir PVC, e tinha uma fábrica que produzia o monômero de MVC, Monômero de Cloreto de Vinila, e a outra, o polímero, PVC. E eu fiquei com a responsabilidade de processo da planta de MVC. É uma planta que o Brasil já era deficitário de PVC - o PVC é um plástico muito voltado pra construção civil e ele era fundamentalmente um projeto voltado para o mercado interno. Alagoas tem a matéria prima e a ideia era, então, utilizar essa matéria prima lá de Alagoas na construção dessa fábrica. Os nossos grandes desafios eram trazer um pacote tecnológico de controle ambiental. Esse era o principal objetivo que eu tinha, porque nós estávamos, de certa forma, copiando uma fábrica já existente em Camaçari, mas nós tínhamos uma preocupação de atualizar essa tecnologia no que diz respeito a controle ambiental. E nós fizemos muita coisa bacana e aproveitamos, trouxemos também o primeiro sistema de computadores pra controlar a fábrica. Deixou de ser esse pneumático eletrônico, que eu falava pra vocês, e passou a ser o que a gente chama de SDCD, um Sistema Digital de Controle Distribuído, que ao invés de um painel com aqueles “equipamentozinhos”, aqueles controladores todos, passou a ser um terminal de computador em que o operador sentado ali tinha todas as informações e mudava as telas olhando cada uma das áreas. Então, esse foi o primeiro projeto de Alagoas - depois vieram outros projetos aí, na vida -, mas esse me ensinou bastante.

 

P/1 – E a outra questão, antes de a gente continuar, é que, como foi morar no Japão? Você falou que vinha se encantando com a cultura também do começo desse projeto, por ouvir os engenheiros falando, como foi efetivamente ir pra lá e encarar essa outra cultura?

 

R – Eu comecei a ir para o Japão pra comprar e conhecer outras tecnologias que pudesse aproveitar nesse projeto. Aí comecei a visitar o Japão, ter um contato mais direto com a tecnologia, comida, os costumes e tudo, e passei a ler muito mais. Eu sempre gostei muito de ler, passei a ler muito mais sobre o Japão. Estava morando no Rio de Janeiro e, de repente, eu descobri que tinha um lugar que eu podia estudar japonês. E aí eu comecei a estudar japonês, não só falar, mas também como escrever e ler. E, de repente, o projeto evoluiu ao ponto de precisar... Antes, eu tinha ficado 45 dias, ficava 30 dias, tal, mas nunca morando mesmo. Aí, num determinado momento do projeto, eu ia ficar quase que um ano e meio lá no Japão. Aí fui, mudei pra Tóquio. E nessa época, eu conseguia falar relativamente bem japonês, ler e escrever - mais escrever do que ler, porque ler tem muito “kanji” e aí eu não... Eu aprendi uns 50 “kanji”, não mais do que isso. Mas eu lia muito bem em “hiragana” e “katakana” [alfabetos japoneses], e isso era suficiente pra eu me comunicar muito bem. Viajei o Japão todo. Sempre que tinha oportunidade, eu ia pra uma ilha, pra outra, sempre fazendo muitos amigos lá. E como eu tinha lido muito sobre a cultura, eu me interessava, ia e isso me criou um “network” no Japão fantástico e até hoje me rende dividendos muito bacanas, facilita muito a minha vida. Pena que o Japão não continuou crescendo como era lá na década 80, veio o problema econômico deles, eles estagnaram até hoje. Mas foi muito bacana.

 

P/1 – Tá certo. E a gente parou, antes de trocar a fita, quando você foi à presidência do Cofic.

 

R – Do Cofic.

 

P/1 – Como ele atua? Como isso tá junto com seu trabalho na fábrica?

 

R – Eu acumulo a presidência do Cofic com a responsabilidade de ser vice-presidente da Braskem. Mas o Cofic, hoje, é um conjunto de empresas, nós somos cerca de 80 associados. E o polo petroquímico de Camaçari deixou de ser polo petroquímico e passou a ser um polo industrial, porque ele passou por um processo de diversificação muito grande. Hoje, nós temos a Ford Motor Company, temos indústrias de pneus, indústrias metalúrgicas, metalmecânica; uma série de outros segmentos, além da Química e Petroquímica. Então, nós passamos a chamar o polo petroquímico de Camaçari, passou a ser polo industrial de Camaçari. Esse polo completou 30 anos em 2008; ele precisava ser revitalizado, rejuvenescer, assim como as indústrias, porque tinham todas elas, ou a grande maioria, tecnologias da década de 70, ou até mesmo da década de 60, e tamanhos também daquela época. E a petroquímica, toda, evoluiu no mundo todo, então as indústrias precisavam ser também atualizadas. E nós procuramos fomentar essa atualização tecnológica do complexo, ao mesmo tempo em que a gente buscou trazer novas empresas para o polo. Então essa associação de empresas, o papel do Cofic é muito de fomento do crescimento do polo. Então, de melhoria da infraestrutura. Nós temos uma preocupação muito grande com a proteção ambiental, o Cofic é quem faz a licença de operação de todo o complexo. A questão de segurança das pessoas e a segurança industrial também é uma preocupação grande nossa. Estamos muito próximos ao governo do estado, porque nós temos esse papel de fomentador do desenvolvimento de Camaçari. Bem, nós conhecemos os potenciais e temos os contatos, então a gente procura trazer essas indústrias pra Camaçari. Acho que o melhor exemplo é o que aconteceu agora recentemente, a Basf, a maior indústria química do mundo construindo um novo conjunto de fábricas lá em Camaçari pra produção de ácido acrílico - um produto pioneiro na América Latina. O Brasil vinha a mais de 20 anos tentando atrair uma fábrica para a produção de um produto como esse e nós conseguimos levar pra Camaçari. Camaçari está passando por um novo ciclo de desenvolvimento, que é um pouco fruto aí da atuação do Cofic também. Lógico que de Braskem [também], [que] tem uma força enorme. E a gente tem feito um trabalho uma hora com o boné de Braskem [e] outra hora, boné de Cofic.

 

P/1 – Tá certo. E como está dividida a sua rotina, quais são os seus grandes desafios, hoje, na vice-presidência?

 

R – Olha, a Braskem cresceu enormemente. Nós falamos até 2008, mas em 2007 a Braskem adquire o controle do Grupo Ipiranga, que era de Triunfo no Rio Grande do Sul. E, com isso, nós passamos a ser o controlador também da Copesul, que era a segunda maior central petroquímica do Brasil, no segundo maior polo petroquímico do Brasil. A partir de 2009, eu passei a ser responsável também pela Copesul, que agora a gente chama de Unib, é Unidade de Petroquímicos Básicos lá no Rio Grande do Sul. Então, a minha vida passou a ser um pouco de Bahia, Rio Grande do Sul e São Paulo - que é onde nós temos a sede aqui. Em 2010, nós adquirimos a Quattor, a segunda maior petroquímica brasileira. E com a vinda da Quattor, vieram duas novas centrais petroquímicas, uma aqui em São Paulo, em Mauá, e uma em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Isso expande a minha geografia, eu passo também a ir ao Rio de Janeiro. Não bastasse isso, a gente começou um processo de internacionalização forte da companhia: nós abrimos um escritório de negócios nos Estados Unidos, em 2009, para o início de 2010. Em 2010, também, Rotterdam, na Holanda. E no início desse ano, abriu um escritório em Cingapura - precisamos chegar à Ásia, conhecer melhor essa região. Então, a minha rotina tem sido nos aeroportos um pouco. Tenho me dividido entre o Brasil nessas fábricas todas e os clientes espalhados pelo mundo. Lamento estar pouco tempo com a família. Eu tenho, não tinha mencionado ainda, um filhinho que nasceu na Bahia - tinha que ser baianinho -, em 2005, o César, que está agora com seis anos de idade e que já aprendeu a cobrar bastante a ausência do pai. Mas é muito bacana isso tudo. Sempre que possível, eles viajam um pouquinho comigo e ele já está ficando tão “cigano” e desbravador do mundo quanto o pai.

 

P/1 – E falando de toda essa gama de indústrias e de produtos, qual é a importância dessas indústrias no mercado? Como é o impacto da Braskem aqui no Brasil e lá fora?

 

R – A Braskem é, com exceção do Rio e São Paulo, mas na Bahia, no Rio Grande do Sul e em Alagoas, a maior empresa, a maior indústria de cada um desses estados. Então, nós temos um impacto muito grande na economia. E no Rio de Janeiro e em São Paulo, nós somos um grupo extremamente relevante na economia. Não somos os maiores, mas somos muito importantes. O grande desafio que nós temos agora, Fernanda, é que nós somos fundamentalmente os únicos produtores de eteno, propeno - que nós chamamos de petroquímicos básicos no Brasil. E nós precisamos crescer para atender essa nova demanda brasileira. Então, o nosso grande desafio é acompanhar o crescimento do mercado brasileiro, um mercado que cada dia está ficando mais sofisticado, porque o poder aquisitivo da nossa sociedade cresce e nós não queremos mais só o saquinho que traz o feijão, o arroz; nós queremos também plástico que está no celular, no iPad, vem o pré-sal, e a gente precisa de equipamentos e materiais que eram inéditos pra gente. O mundo demanda produtos mais sustentáveis. Nós temos que operar de uma forma muito mais sustentável, consumindo cada vez menos recursos naturais, emitindo menos gases de efeito estufa e, se possível, usando matéria prima renovável. Então, desenvolvemos o novo plástico que é feito a partir de álcool. Foi um projeto que eu me envolvi pessoalmente nisso, foi um sonho que eu comecei a ter em 2002, que foi um pouco fruto do que eu vi no Japão. A sociedade japonesa já tinha, naquela época, uma demanda muito grande por produtos naturais, menos produtos renováveis, mas era mais por produtos naturais. Eu fiquei pensando: “Pô, lá atrás, a indústria brasileira já usou o álcool pra fazer plásticos ou fazer produtos químicos”. Nós deixamos de fazer isso porque o petróleo ficou tão barato que toda essa química do álcool foi esquecida - isso foi lá na Segunda Guerra Mundial. E aí eu fiquei pensando: “Por que a gente não traz isso de novo?”. O Brasil evoluiu tanto na produção de cana-de-açúcar e açúcar, e álcool, e desenvolveu uma indústria automobilística baseada no etanol, fantástica. E nós começamos a insistir muito nisso: consegui com uma empresa japonesa recursos a fundo perdido pra estudar isso, montamos uma planta piloto no Rio Grande do Sul, desenvolvemos a tecnologia, criamos o negócio em planta piloto e que evoluiu pra uma planta de escala mundial. Hoje, a Braskem é a maior produtora de plásticos a partir de matérias primas renováveis do mundo. Nosso polietileno verde, que está sendo exportado hoje para o mundo todo. E acho que o Brasil pode fazer muito mais nisso daí. O governo brasileiro tem motivado as empresas a investirem em ciência e tecnologia, e em inovação. E acho que nós temos um enorme desafio de fazer o Brasil ser mais inovador, aproveitando esse grande potencial que nós temos de sol, água, solo e um povo muito criativo.

 

P/1 – E falando, assim, da relação com a White Martins, como se deu essa parceria? No que o gás é utilizado?

 

R – Bem, a White Martins me acompanhou desde o início da petroquímica. A White Martins é um grande fornecedor de... Eu destacaria pra mim do nitrogênio. Nós usamos também outros gases da White Martins, mas em quantidades menores, para os nossos laboratórios. Mas os processos, todos os processos dessas fábricas todas que eu mencionei pra vocês aí, o nitrogênio tem um papel fundamental. Essas fábricas todas são atendidas pela White Martins. A Braskem, hoje, tem uma parceria enorme com a White Martins, eu sou parte dessa parceria, porque fui responsável em trazer a White Martins em alguns momentos pra fábricas novas que nós estávamos fazendo. Então, nos conhecemos aí desde lá da década de 80, a White Martins sempre assumindo novos desafios conosco, trazendo sempre soluções muito criativas e sempre preocupadas numa relação em que Braskem e White Martins saíam vencedores. Então, um parceiro que tem contribuído muito conosco pra tornar a Braskem número um da petroquímica. Várias gerações que já tratamos com a White Martins. Então, nos acompanha nesse tempo todo.

 

P/1 – E qual é a importância e o uso desses gases e soluções?

 

R – Olha, no caso do nitrogênio, ele é um gás inerte e essa propriedade de ser um gás inerte, ele é a segurança dos nossos processos. Nós operamos, produzimos muitos gases que são extremamente inflamáveis. Ou que eles em contato com água ficariam contaminados, ou líquidos que da mesma forma em contato com a umidade ficariam contaminados. Usando o nitrogênio, a gente faz muitas vezes um colchão de nitrogênio, o que cria uma barreira pra esse contato da umidade e tudo. Ou então a constituição de uma atmosfera inerte, porque alguns desses gases, se ele entra em contato com o oxigênio e se você tem uma faísca, você entra numa zona de explosão de explosividade enorme. E nós temos muitos gases que são extremamente inflamáveis e combustíveis, explosivos e tal. Então, o papel do nitrogênio é fundamental pra nossa indústria. Nós não teríamos a indústria de processos petroquímicos que a Braskem tem sem o nitrogênio. E nos nossos laboratórios, nós usamos vários gases hoje [que são] produzidos pela White Martins, gases raros, que nós chamamos: argônio e outros - que servem para os nossos equipamentos de análise desses vários produtos que nós temos, os nossos cromatógrafos e tal. E a White Martins sempre foi um fornecedor importante pra nós disso daí. Além de oxigênio, que nos fornecem em algumas fábricas nossas. E outro papel que eu destaco é assim, nós temos, por exemplo, lá no polo de Alagoas, nós fomos construir a primeira fábrica lá do polo, tal, e a White Martins foi junto conosco, foi nosso parceiro lá, junto. Em Paulínia (SP), foi uma das últimas fábricas que nós construímos fora de um polo industrial, aqui em São Paulo, e White Martins também foi junto conosco lá. Então, esse compromisso de estar junto conosco é um ponto muito bacana da White Martins.

 

P/1 – E qual é o diferencial dela? Por que escolher a White Martins?

 

R – Eu acho que esse compromisso de estar conosco em cada um desses lugares, de estar se atualizando tecnologicamente, porque isso também é fundamental pra que eles possam nos oferecer gases com qualidade, com custos mais competitivos. Porque toda indústria está sendo extremamente desafiada todo dia nesse... E uma corporação tão grande como ela, que busca sempre... Tem massa crítica pra buscar essas atualizações, é fundamental. Então, ter um parceiro desse porte pra nós faz todo sentido, é muito importante. Um parceiro que nos acompanha nesses desafios de crescimento, nesses desafios de competitividade que nós temos todo dia.

 

P/1 – Tá certo. Você tem alguma pergunta em relação...

 

P/2 – Você falou muito de Camaçari, a importância de Camaçari pra Braskem e vice-versa; qual é a relação da Braskem com essas comunidades em que ela está inserida? Você falou que Paulínia agora também.

 

R – A Braskem tem uma política muito forte de relação com as comunidades do entorno de suas fábricas. Isso vale pra essas cidades que você falou, mas também em Alagoas, aqui em São Paulo, em Mauá, no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias. Nós estamos permanentemente envolvendo essas comunidades em ações sociais, mas também de preparação dessas comunidades para que tenhamos pessoas dessas comunidades participando como empregados da Braskem. Então, nós temos sempre cursos de operadores, mantenedores, procuramos sempre fomentar a criação dessas coisas e atrair a comunidade local para essa participação, dando a eles acesso a esses empregos. Que são empregos que requerem conhecimentos mais altos, uma capacitação técnica maior e que uma cidade como Maceió você encontra mais fácil. Rio de Janeiro, São Paulo, lógico, mas Camaçari sempre foi mais desafiante; nós sempre fomos mais desafiados a conseguir empregar gente de Camaçari. E agora nós estamos conseguindo isso, tanto por essas políticas da Braskem, como também do Cofic. Mas, além disso, nós temos uma série de programas, por exemplo - e aí novamente com todas essas cidades Paulínia, Maceió, Duque de Caxias, Camaçari -, são programas de preparação das comunidades pra emergência. A nossa indústria é uma indústria química, é um indústria que tem um grau de risco elevado, e um imprevisto, uma emergência poderá acontecer. Agora, em fevereiro desse ano [2011], nós tivemos um grande “blackout” no nordeste. Nove estados do nordeste ficaram sem energia elétrica durante um período grande e isso afetou o polo petroquímico de Camaçari, nós tivemos uma parada total, “blackout” total do polo numa situação extremamente crítica em que nós ficamos sem energia elétrica e perdemos todas as outras utilidades. E tivemos emissão de gases, tal. As fábricas foram para as suas condições de emergência, nada de excepcional aconteceu, mas nós tomamos uma série de medidas preventivas. A comunidade foi envolvida, mas a comunidade estava preparada, porque nós fazemos treinamentos de evacuação. Anteontem, nós fizemos um grande treinamento de evacuação aqui em Mauá, na cidade de Mauá, evacuamos 700 pessoas no entorno da fábrica. Uma terça-feira, ontem, à tarde, imagina? Acionamos um alarme e aquele alarme que diz “abandone tudo”, que você tem, e vá para o ponto de encontro. São treinamentos que nós fazemos preocupados com essas comunidades do entorno também. E participamos de uma série de outros programas sociais com essas comunidades, voltados principalmente para a geração de emprego e renda, ou investimento em cultura, principalmente na cultura regional no nordeste e no sul. E aqui também, a gente trabalha muito cultura geral, apoiando grupos de música, grupos folclóricos, essas coisas. O artesanato, tal. Temos vários programas em cada uma dessas regiões, nós temos sempre uma preocupação grande com isso. Faz parte da Tecnologia Empresarial Odebrecht, o compromisso com as comunidades do entorno da nossa fábrica. Eu, pessoalmente, me envolvo com isso. Lá em Alagoas, eu lembro, fizemos um programa muito bacana, o Lagoa Viva, em que quando saí de Alagoas, nós tínhamos 22 municípios do estado participando e era um... A gente começou com educação ambiental, levando educação ambiental para as escolas, porque educação ambiental faz parte do currículo básico, do ensino básico brasileiro, mas muito poucas escolas no Brasil têm educação ambiental no currículo. E lá, em Alagoas, não era exceção. Lá, nenhuma escola tinha e nós envolvemos as escolas municipais de Maceió. Depois fizemos um convênio com o governo do estado, passamos a ter também nas escolas estaduais e aí começamos a envolver os municípios do entorno da grande Maceió, e isso foi crescendo. De educação ambiental, a gente começou a também fazer cursos de inglês para as crianças, informática. Aí, os pais dos alunos que, pô, à noite ficavam os computadores sem ninguém usar, eles iam lá e começamos a dar aula de informática também pra comunidade. E isso aí virou um programa que a gente chamou lá de Lagoa Viva, e apoiava o artesanato local também. Foi, assim, uma crescente muito bacana do programa. Ele ainda existe hoje e está muito forte lá. São experiências bacanas.

 

P/1 – Vamos voltar aqui. E pra gente ir encaminhando para o final: vamos voltar para a parte pessoal, pra encerrar. Você já falou que é casado com a Márcia. E o que você consegue... Quando tem um tempinho livre, o que você gosta de fazer nesse seu tempo de lazer?

 

R – Então, eu gosto muito de ler, sempre gostei muito de ler e sempre que tenho um tempinho, estou lendo. César tem me ocupado bastante nesses tempos livres e ele tem toda razão de fazer isso, então eu tenho procurado brincar muito com ele, jogar bola e os videogames, tal. Tem que ter o videogame. Ler com ele, que ele gosta também muito de ler. E pra não perder muito o costume, a gente viaja também um pouquinho, porque eles não viajam tanto quanto eu. Então, quando a gente pode, viaja pra conhecer novas culturas. E viajamos também muito pra fazenda quando a gente pode. Eu contei pra vocês quantas boas memórias eu tenho da minha infância de fazenda e eu quero muito proporcionar a ele essa experiência de contato com a natureza, praia, mar, fazenda. Então, isso que a gente tem feito muito. E aproveitar um pouco os amigos também. Eu moro na Bahia, em Salvador, Márcia e César moram lá - eu estou, sempre que possível, lá. E o final de semana, nós temos a Baía de Todos os Santos, praia, muitas coisas boas pra fazer lá e a gente procura aproveitar isso daí. Eu gosto muito. Eu gosto muito de correr, essa é uma coisa que faço pra mim, no meu dia a dia. Onde eu estiver, tenho um par de tênis comigo e estou sempre correndo corrida de rua. Não sou maratonista, mas até dez quilômetros eu estou correndo cinco dias por semana, principalmente quando estou em Salvador - eu gosto muito de correr na orla, vendo aquele mar lindo. Maceió, Porto Alegre, todos esses lugares aí. Eu gosto muito de correr. Rio de Janeiro também. Pô, lindíssimo.

 

P/1 – Tá certo. E como foi pra você ser pai? Como foi pra você a chegada do César: o que isso mudou na sua vida, o que isso significou?

 

R – Isso foi muito legal, porque nós casamos em 96 e antes de casar, a gente já queria ter um filho e não vinha. Passamos dez anos tentando de uma forma mais radical. Uma forma mais radical é que nós fomos para os médicos e tal, e começamos a fazer bebê de proveta. E fizemos durante dez anos 18 bebês de proveta, 18 ciclos de bebê de proveta e não deu certo. E aí nós desistimos. Estávamos nos preparando pra adotar uma criança, quando, um ano depois que tínhamos parado esses processos, César resolveu vir. E foi uma alegria enorme pra gente. Ele veio naturalmente. Pô, Márcia já com 40 anos, teve uma gravidez tranquilíssima. Ele nasceu muito bem. Cresceu aí, está com seis anos o guri

 Pô, muita energia, dando muita alegria pra gente.

 

P/1 – E pra gente ir encaminhando para o final, vamos pra uma parte avaliativa. E a primeira pergunta é assim: quais foram os seus maiores aprendizados ao longo dessa sua carreira na indústria?

 

R – Eu acho que a coisa mais importante pra mim foi aprender a gostar de pessoas. Aprender a trabalhar com as pessoas, ouvi-las, entendê-las, é, compreender as pessoas. Acho que isso foi um dos pontos mais importantes pra mim. Outro ponto, que eu sempre fui obcecado em ler, procurando me atualizar, conhecer novas culturas, novas tendências; isso também foi um ponto muito importante pra mim, fez a diferença.

 

P/1 – E o que significa inovação nessa área industrial?

 

R – Inovação é fazer muito mais com menos, que pode ser produtividade também, mas não é só ser radical e fazer uma coisa inédita. Fazer as mesmas coisas de outra maneira também é inovar. Então, acho que esse compromisso com a inovação tem que ser olhado de várias vertentes; olhar que você pode fazer um novo produto, inédito, ou aquele mesmo produto com menos matéria prima ou com menos energia. Então, a gente tem que estar aberto para essas várias formas de inovação. Acho que é um pouco isso, pra mim.

 

P/1 – E quais foram ou qual foi a sua maior realização? O que você traz com mais carinho? Alguma coisa que você fez, que você...

 

R – Bem, além do César, tá? Eu vou dizer que o que eu tenho, assim, com mais carinho é ter contribuído para o crescimento da petroquímica brasileira como um todo. A criação da Braskem, que eu participei de forma intensa, pra mim foi muito importante, porque deixou o Brasil com uma indústria diferenciada. Isso, pra mim, tem um valor enorme.

 

P/1 – E como essa parceria, Braskem e White Martins, tem contribuído pra industrialização e para o crescimento desse Brasil?

 

R – Olha, Fernanda, eu citei alguns exemplos como Alagoas, Paulínia, mas a presença da White Martins é em Triunfo, é em Camaçari, que são os nossos principais polos petroquímicos, é decisivo pra isso. E essa parceria que nós temos, Braskem e White Martins, esse compromisso da White Martins com a atualização tecnológica, com inovação, com ganho produtividade, tudo, isso casa muito com a Braskem. A Braskem tem essa obcessão em se tornar competitiva, em ser uma petroquímica mundial, competitiva mundialmente e a White Martins nos acompanha nessa plenitude. Então, acho que isso criou uma sinergia muito bacana entre as nossas duas empresas e tem gerado, anualmente, frutos. A comunicação entre as nossas equipes é muito forte em todos os níveis, os níveis operacionais das fábricas e tudo, até na alta liderança.

 

P/1 – E qual deveria ser o foco da White Martins nos próximos anos pra ela continuar contribuindo pra Braskem, para o Brasil, pra essa industrialização?

 

R – Eu reforçaria esse ponto da atualização tecnológica, passando pela inovação, pra que a gente possa continuar no mesmo diapasão, de crescimento físico dos nossos negócios. Nós temos, como eu mencionei a pouco, um compromisso com o mercado brasileiro de mantê-lo abastecido. Isso vai demandar do nosso lado novas fábricas, novas capacidades, e nós temos certeza que a White Martins também nos acompanhará nesses novos projetos.

 

P/1 – E o senhor achou que ficou faltando alguma coisa que a gente não tenha perguntado, que você gostaria de deixar registrado? Que você falou pouco, ou alguma história que ficou faltando.

 

R – Acho que não. Acho que... Eu fiquei pensando aí em... Têm alguns casos meus ainda como engenheiro de fábrica, de operação e tal, em que nós tivemos emergências, necessidades que a gente não previa e que isso demandou produto da White Martins que, pô, ele me atendeu de emergência, uma carreta de nitrogênio. Eu tive várias histórias dessas com a White Martins e eu não citei isso. Como engenheiro, na fábrica, responsável pela produção ali, eu não podia ficar sem aquele nitrogênio, e a White Martins, a gente ligava, eles diziam: “Eu vou trazer de Recife, ou vem de Camaçari”, e a carreta chegava. Ou numa operação em que a gente tinha previsão de consumir um volume específico de gás e, de repente, aquilo era muito maior do que a gente precisava e: “Pô, você precisa me atender aqui numa emergência, como você faz?”. E sempre a White Martins esteve presente, eles sempre mobilizaram suas equipes independente de ser sábado, domingo, dez horas da manhã ou dez horas da noite. Nós sempre pudemos contar com a White Martins e ter a certeza de que por trás tinha a White Martins. Porque esses produtos que eles nos fornecem são muito importantes pra nós, para a segurança dos nossos processos. E eles não podem faltar, eles têm essa consciência muito clara e nunca deixaram faltar.

 

P/1 – Tá certo. E que você acha da iniciativa de a gente contar a história do desenvolvimento industrial e também dos 100 anos da White Martins através de um projeto de memória com a trajetória dos seus colaboradores, parceiros?

 

R – Eu achei fantástico isso. Quando eu fiquei sabendo que isso estava acontecendo, eu fiquei um pouco torcendo pra ser convidado. E olha que rapidamente eu fui. E nem falei nada pra ninguém. Senti-me super orgulhoso de estar participando disso. Mas, é extremamente relevante gravar essa memória do que aconteceu no Brasil nesses últimos anos. E a White Martins, que tem 100 anos, então, tem uma história enorme, muito bonita pra ser contada. Isso não pode ser perdido. Eu adoro ler, adoro história, dou um valor enorme a isso tudo. Poder ter isso gravado é fantástico. Então, parabéns à White Martins por essa iniciativa. Espero que todos os convidados participem com o entusiasmo que eu estou e que também os integrantes da White Martins possam contar a sua história, que eu sei que é belíssima e que isso tudo fique registrado aí. Parabéns pra vocês.

 

P/1 – Tá certo. Então, antes de a gente encerrar, eu queria fazer a última pergunta, que é: como foi pra você estar aí então desse lado contando um pouco da sua trajetória aqui pra gente nessa tarde?

 

R – Foi uma viagem, meus 52 anos, porque comecei falando pra vocês do casamento de meu pai. Foi muito bacana, o tempo passou que eu nem percebi. E muito gostoso passar por tudo isso aí, momentos que marcaram minha vida e de certa forma marcaram a petroquímica brasileira.

 

P/1 – Tá certo. Olha, então, em nome da White Martins e também do Museu da Pessoa, a gente agradece a sua participação e a sua entrevista. Obrigada.

 

R – Muito obrigado vocês. Foi muito bom participar.

 

[Fim do depoimento]

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