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Teoria e prática

História de: Simone Pereira Assafin
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2009

Sinopse

Simone foi uma criança levada que adorava brincar na rua e que ia pra escola de comboio com seus vizinhos. Gostava de brincar de professora e acabou levando a sério a ideia. Formou-se em Letras e tornou-se professora de Português. Nesta entrevista, ela nos conta sobre sua vida, seu trabalho e as diferenças entre a teoria e a prática no dia a dia da educação.   

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História completa

 

P/1 - Para iniciarmos, eu pediria que você dissesse o seu nome, o local e a data de nascimento.

 

R - Meu nome é Simone Pereira Safin. Nasci no dia 23 de julho de 1972, no Rio de Janeiro, capital.

 

P/1 - Aqui, na cidade do Rio de Janeiro?

 

R - Cidade do Rio de Janeiro.

 

P/1 - E seus pais, como se chamam?

 

R - Nelson Safin e Valda Pereira Miranda.

 

P/1 - Eles são daqui do Rio?

 

R - São do Rio.

 

P/1 - Fale-me um pouco sobre eles. Quem era o seu pai? O que ele fazia?

 

R - Na verdade, eu não conheci meu pai. Essa é até uma história da minha vida que as pessoas ficam meio sem jeito de me perguntar porque acham que vão me causar algum constrangimento, mas eu lido com isso muito tranquilamente.

Minha mãe teve um relacionamento com o meu pai e engravidou. Ele não queria ter filhos. Por ser filhos de árabes também, tem toda uma cultura - se for filho homem, não é? Tem uma coisa assim. Quando ela disse que era filha, do sexo feminino, ele não quis assumir. A história é muito engraçada, eu vim descobrir… Quer dizer, passei todos esses anos e vim descobrir a família do meu pai agora, há quatro anos, porque sou diretora de um CIEP [Centro Integrado de Educação Púbica] lá em Curicica. Comecei dando aula lá e descobri que a primeira diretora dessa escola é minha prima. Coisa de novela mexicana, gente, descobri por acaso. Mas acho que nada na vida é por acaso, enfim.

A história é meio rocambolesca: a minha cunhada é fisioterapeuta e ela, fazendo uma consulta com uma paciente, pegou um cheque dessa paciente cujo sobrenome é Safin - é um sobrenome pouco comum, então chama a atenção. “A minha cunhada se chama Safin, será que você é parente?” Então, ficou aquela... A minha cunhada começou a investigar, investigar, e chegou até à Sheila, que foi diretora do CIEP Ulisses Guimarães - a primeira diretora da escola, fundou a escola. Descobri isso há três, quatro anos. Foi aquela coisa, aquela comoção: “Você é minha prima!” E vim a descobrir que meu pai já tinha falecido, falecera no ano anterior. Interessante.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - Minha mãe... Qual foi a pergunta que você me fez a respeito? Onde minha mãe nasceu?

Nasceu no Rio de Janeiro. Minha mãe sempre foi muito lutadora; criou-me e, como falei, não tenho nenhum problema em relação a isso, por conta da educação que a minha mãe me deu. Nunca me escondeu nada, sempre falou: “Olha, seu pai nunca foi um mau caráter, se você quiser conhecê-lo...” Eu nunca quis, nunca tive problemas com isso. Minha mãe batalhou muito para criar os filhos. Ela tem três filhos, eu sou a mais nova, sou a caçula. Acho que sou a que teve mais mordomia dos três. E ela trabalhou num hospital, se aposentou com trinta anos de trabalho, trabalhou muito. É a pessoa que mais amo nesse mundo. Meu modelo de fibra, de mulher. Uma pessoa com pouca instrução, mas que mostra que não precisa ter instrução para ser grande pessoa.

 

P/1 - E você teve contato com os seus avós?

 

R - Tive contato. Os meus avós, eu descobri que são falecidos e – detalhe - eu não consegui uma foto do meu pai, não consegui ver o rosto dele. Consegui uma foto dele quando era criança e uma foto dele adolescente, mas uma foto mais recente eu não tenho. E descobri que tenho dois irmãos.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Engraçado, não é? Enfim, a minha mãe, como eu estava falando, é um modelo para mim de fibra...

Você perguntou dos meus avós. Eu conheci a avó do meu pai, a tia-avó do meu pai. Estava até meio adoentada, então a gente perdeu um pouco o contato, mas acho que ela está um pouquinho melhor. A pessoa que criou o meu pai, na verdade. Ficou superfeliz de me conhecer, eu também fiquei. Acho que foi mais importante ter conhecido a minha avó do que ter conhecido o meu pai. (risos) Engraçado.

 

P/1 - E teve alguém que substituiu a figura do...

 

R - Do meu pai?

 

P/1 - Do seu pai?

 

R - Uma figura masculina, não. As minhas referências são todas de figuras femininas. Quer dizer, eu tenho um irmão, mas o meu irmão saiu, foi morar com a avó - irmão por parte de mãe. Somos três, como eu falei: meu irmão, minha irmã e eu. Os meus dois irmãos são irmãos por parte de mãe. O meu irmão foi morar com a avó, ele preferiu. A avó adorava ele, enfim, e aí ficamos eu, a minha mãe e a minha irmã. A minha irmã também é outro modelo para mim de mulher de fibra, lutadora, batalhadora, então minhas referências são todas femininas. Engraçado.

 

P/1 - Então você cresceu com a sua mãe e a sua irmã?

 

R - Minha mãe e a minha irmã.

 

P/1 - Onde vocês moravam?

 

R - Nós sempre moramos em Jacarepaguá, aqui mesmo, no município do Rio de Janeiro. Sempre.

 

P/1 - E como era quando criança? Era você e sua irmã? Tinha amigos da rua? Como era?

 

R - Sempre fui uma criança muito extrovertida. Nunca tive dificuldade de fazer amizades, sempre fui muito levada; na adolescência é que eu dei uma paradinha, fiquei mais devagar, mas até os doze anos, treze anos, fui uma criança muito levada, muito ativa. Minha irmã... A gente tem uma diferença de idade bastante grande,  doze anos, então ela sempre foi a minha segunda mãe. Aquela que tomava conta, que brigava, que tinha o papel de segunda mãe, mesmo. E a gente sempre teve uma relação muito boa. Até hoje ela é o meu segundo modelo de mulher, de pessoa, de ser humano.

 

P/1 - Com quem você brincava quando criança?

 

R - Eu brincava com o pessoal da rua, subia em árvores. Eu sempre fui muito moleca. E acho que essa coisa minha de educação começou na infância mesmo, sempre gostei muito de brincar de de ser professora. Essa coisa com a educação,  pensando agora, acho que veio desde criança. Interessante.

 

P/1 - Você se lembra de alguma história de criança? Alguma coisa que você viveu quando era criança. com os amigos?

 

R - Alguma história? Nossa! São tantas, mas nada muito que sobressaia, acho que não. Agora não me vem à cabeça, não. Foi, com certeza, a melhor fase da minha vida. Acho que, por ter sido a melhor fase da minha vida, até hoje sou muito infantil às vezes. Gosto de estar rodeada de crianças, gosto muito, o universo infantil me cativa.

 

P/1 - Simone, e como era a sua casa quando você era mais menina? A primeira casa que você lembra, lá em Jacarepaguá?

R - A minha mãe, como eu falei, sempre foi muito batalhadora. Muito lutadora. Eu lembro que a casa era muito simples, muito humilde. A minha irmã, nessa época, não trabalhava, nem o meu irmão. A casa era muito humilde, mas uma casa muito feliz. Engraçado, eu tenho uma referência de felicidade, de a gente [estar] sempre sorrindo, brigando. Minha mãe brigava, a minha irmã brigava, a gente brigava, mas daqui a pouco estava todo mundo rindo, se abraçando. Tenho essa referência de casa feliz.

Eu não lembro... Sinceramente não me lembro bem da casa, de como ela era, o espaço como era, como se dispunham os móveis, não me lembro muito bem, não. O que me vem à cabeça é sempre a gente rindo, almoçando.

 

P/1 - Quem fazia a comida?

 

R - A comida foi sempre uma tragédia. Ninguém gosta de cozinhar, nenhuma das três. (risos) A minha mãe fazia a comida reclamando, até hoje ela faz comida reclamando. Tem uma pessoa que ajuda, mas ela gosta de fazer porque a minha irmã é muito exigente com a comida. Ela vai para a cozinha todo dia reclamando: “Odeio cozinhar! Odeio cozinhar!” E todo mundo herdou isso dela, ninguém gosta de cozinhar.

 

P/1 - E tinha contato com a família da sua mãe? Tios, primos?

 

R - Eu tenho. A família da minha mãe é uma família muito pequena - na verdade, é a minha mãe e a minha tia. Ela tinha um irmão que que já tinha falecido, eu nunca tive contato com esse tio. A minha tia sempre foi muito unida à minha mãe, sempre essa coisa, foi aquilo que eu falei da referência feminina. Eu me lembro das duas brigando e se acarinhando, fazendo carinho na outra. Não digo assim briga, briga... Daqui a pouco estão se abraçando. Até hoje elas são assim. Minha tia liga para a minha casa, aí elas brigam no telefone, e daqui a pouco liga a outra: “Desculpa?” Aí fazem as pazes.

 

P/1 - Sua mãe lhe contava histórias?

 

R - Não. A minha mãe não tinha tempo, coitadinha. Minha mãe trabalhou no hospital psiquiátrico. Imagina, foi muito lutadora, trabalhava em hospital psiquiátrico, tirava plantão, não tinha tempo para esse tipo de coisa. Eu sempre entendia.

Não sei, hoje a gente vê na escola… Como eu falei no início, eu estou diretora de um CIEP e a gente vê hoje como é essa relação da família. Ou a falta de relação com a família, com o jovem, com a criança, como isso hoje mexe com a cabeça. Você começa a ver os problemas que os alunos têm na sala de aula, sejam eles quais forem. Você começa a investigar, você vai descobrir que a coisa está vindo lá da família.

Quando a gente fala em família, não é no sentido de pai e mãe, até porque o sentido de família hoje em dia já mudou bastante, não é? Então, não é isso. É uma figura, uma referência para você. Valores, isso é o que está faltando; eu acredito que está faltando muito é referência de família. Como eu falei aqui, eu, minha mãe e minha irmã... Minha mãe trabalhava fora o dia inteiro, sempre lutando muito para conseguir o mínimo para a gente - educação, e tudo com muito sacrifício - e eu sempre valorizei isso, entendia, nunca tive problema com isso. E hoje você vê pais que têm uma ausência muito grande, que estão ausentes e tentam suprir essa ausência, de repente, dando de tudo para a criança - tem essa situação - e a criança não valoriza, porque não era bem isso o que ela queria. Na verdade, faltam os limites, faltam os valores que têm que ser passados, seja pelo pai, seja pela mãe, seja pelo avô, pelo tio... Por uma referência, isso a gente vê que está faltando.

Eu acho que... É o que eu falo sempre lá na escola, que as pessoas tendem... Os estudiosos lá: “A escola está sendo avaliada; então, por que os índices de reprovação estão tão altos?” Porque a culpa é do professor, o professor tem que se avaliar. Acho que sim, o professor também tem que fazer uma autoavaliação e perceber: se a turma inteira está mal, ele deve ter uma parcela de responsabilidade. Mas não é só o professor. Eu acho que a questão da educação é muito maior, é uma questão social. Acho que a escola está aí para ajudar, com certeza. A escola é... Eu acho que... Posso até estar sendo repetitiva, mas a escola, a educação, é referência para tudo, mas a educação sozinha não vai dar conta. Também tem a atribuição dos governantes, da coisa do social mesmo, caminha junto. Então, não é a escola. A escola tem a obrigação de...

Hoje em dia a gente vê um discurso de que a escola tem que orientar o aluno, tem que abrir as suas portas, tem que educar, tem que orientar. A gente na escola faz tudo, a gente é orientador educacional, a gente é psicólogo, a gente é guia espiritual para o aluno que está perdido, a gente faz de tudo. Eu não tive preparação, eu não tenho formação técnica para ser, de repente, uma líder espiritual para falar de... Sentar o aluno e falar dos problemas dele ou dar uma orientação, mas a gente acaba tendo que fazer, não é? E será que esse é o papel da escola? É só esse o papel da escola? Porque parece que hoje o papel da escola é esse, é tentar socializar o aluno, e aí as coisas meio que se perdem. Porque, na realidade, na prática, o que eu digo sempre aos meus alunos é que o mundo lá fora é muito cruel. Na prática, quando ele sair da escola, o que ele vai encarar lá fora é uma outra realidade, não vai ter ninguém passando a mãozinha na cabeça dele.

A gente [diz]: “Não pode ser muito rígida com o aluno.” Eu acho que tem que ser rígido, porque lá fora todo mundo vai ser, ele não vai ter ninguém que vai falar: “Pode fazer, dá um jeitinho, vai. Pode ir com esse uniforme, vai com esse tênis roxo, pode passar.” Não adianta, porque lá fora isso não vai ser assim, ele vai ficar... E vai haver um choque. Enfim, eu acho que o problema é social. A atribuição que estão dando para a escola hoje, o papel que estão dando para a escola é um papel de muita responsabilidade, e acho que a escola não pode querer assumir tudo sozinha, tem que dividir. A gente sente muita falta, nisso a gente sente a falta de um suporte, sabe? De alguém - eu digo, de governo mesmo - de nos orientar, nos respaldar, ajudar, porque as escolas hoje funcionam de maneira muito autônoma, porque a gente está esquecida lá, e o que as escolas fazem, vocês não têm noção. O trabalho que as escolas fazem com os alunos, diante de todas as dificuldades que a gente tem, de falta de verba, falta de um canal direto para a gente se orientar, receber orientações... A gente não tem. E a gente faz um trabalho muito legal, sem falsa modéstia. É um trabalho conjunto, de equipe, e é um trabalho muito bom.

 

P/1 - Voltando um pouquinho lá, quando você era criança, a sua mãe ia trabalhar, não é? Com quem você ficava? Qual era o seu cotidiano do dia a dia?

 

R - Meu cotidiano: eu ia para a escola… Quando a minha mãe tirava plantão - era uma escala -, ficava com a minha irmã quando ela não estava trabalhando. Quando ela começou a trabalhar, tinha uma pessoa que tomava conta de mim quando eu vinha da escola. Dava-me almoço e, na parte da tarde, quando eu tinha que estudar, eu ficava estudando na casa dessa pessoa. Era uma vizinha, acho que a minha mãe pagava um dinheiro para ela cuidar de mim.

 

P/1 - E onde você foi estudar quando criança? Sua primeira escola?

 

R - Eu estudei... Tem até uma foto minha, que eu falei que é uma foto muito importante. Uma foto que eu tirei na escola, acho que é de 1980 essa foto. Eu sempre estudei em escola pública, na Escola Municipal Eunice Weaver, que era próxima à minha casa. Naquela época não tinha recarga [de passe escolar], não tinha gratuidade, então a gente ia andando. Eu andava acho que cerca de quarenta minutos para chegar à escola, ir e voltar, mas aquilo para mim era uma festa; ia com os meus colegas, com meus amigos, achava um barato. Então aquilo, para a gente, era um momento de socializar, de brincar, de curtir. E eu sempre estudei em escola pública, da primeira série até a oitava série foi nessa escola, a Escola Municipal Eunice Weaver, em Jacarepaguá, mesmo.

 

P/1 - Você lembra dos seus primeiros dias de aula? Qual foi o seu impacto com a escola? Era de família pequena, de repente, a escola cheia de crianças...

 

R - Era muita criança e a escola bem grande, mas eu já tinha isso. Na verdade, os alunos que estudavam naquela escola eram alunos também que moravam na mesma rua, então a gente tinha um grupo, foi todo mundo junto. Na verdade, eu não tive problema de me incluir no grupo. Eu já fui com o meu grupo, então aquilo para mim foi uma coisa natural.

Ia o pessoal da rua em grupo, um grupo grande. Acho que eram quinze colegas. Saíamos cedo, tinha uns pais que iam junto. A minha mãe não podia me levar, claro, coitada, minha mãe nem podia ir às reuniões de pais. Isso é uma coisa que eu acho que senti falta na infância, criança sente, mãe e pai em reunião escolar. Por incrível que pareça, foi nesse momento que eu senti a falta de um pai. Engraçado... Dia dos Pais na escola, eu acho que senti, sim. Mas a gente era sempre um grupo, então entrávamos todos juntos, não tive nenhum problema, foi muito natural.

Eu adorava a minha escola, nossa! Eu era do pelotão da bandeira, tirava notas boas, todo mundo me conhecia, estudei lá oito anos. Então [foi] muito legal, muito bom. Hoje, o meu irmão é professor dessa escola. Engraçado. As coisas são tão ligadas! Nada é por acaso, eu acredito.

 

P/1 - E nesses oito anos teve algum professor que marcou? Alguma coisa que aconteceu na escola que lhe marcou?

 

R - Olha, também não me lembro. Foram momentos tão bons.

Sim! Um momento que marcou foi quando eu fiquei reprovada na quarta série, foi horrível. (risos) Reprovação é horrível, gente, qualquer situação na escola... Eu fiquei muito mal quando fiquei reprovada.

O momento de pegar o boletim, de entregar o boletim para a minha mãe, nossa! Foi uma das maiores vergonhas da minha vida. Eu vi a expressão de decepção da minha mãe: “Você ficou reprovada!” Eu fiquei mal. Mas depois eu superei, acho que serviu até para me superar, porque aí eu fui para uma escola de ensino médio pública, estudei para fazer uma universidade pública, passei para uma Universidade Federal, então isso, na verdade, serviu de motivação. Eu acho.

 

P/1 - Simone, você reprovou em quê?

R - Naquela época, muito tempo atrás…(risos) Não foi em Português, não. O meu problema sempre foi com a Matemática, a Matemática me reprovou. E tem uma outra coisa curiosa: por falar em Matemática, a minha professora da escola hoje é diretora de junta comigo, por uma dessas coincidências da vida. Aliás, foi a melhor professora que eu tive na escola.

Você me perguntou de uma coisa que me marcou: foi a melhor professora que eu tive na escola, Odessa. Hoje nós duas estamos dirigindo o CIEP, coincidentemente. Ela nem se lembrava de mim. Professor [que] já está há anos no magistério não iria se lembrar. Eu falei com ela, quando nós formamos a chapa para tentar a direção da escola: “Você foi minha professora!” “Não acredito...” (risos) “Não fala isso para ninguém, que eu fui sua professora.” (risos)

 

P/1—Qual é o nome dela?

 

R - Odessa. Nome diferente, não é? Foi a melhor professora que eu tive de Matemática - da minha vida.

Matemática sempre foi um bicho-papão. Fui uma aluna medíocre em Matemática. (risos) Sempre na média, mas tudo bem... Pelo menos as quatro operações eu aprendi. (risos)

 

P /1 - Você leva à risca, não é?

 

R - É. (risos)

 

P/1 - E a adolescência, como foi?

 

R - Adolescência... A minha adolescência já foi, como eu falei... A minha infância foi ótima, a minha adolescência já foi mais complicada. Eu fui uma criança obesa, gordinha, e eu me sentia rejeitada; aí eu me tornei nerd, não é? Natural, porque quando a gente é rejeitada vai estudar, tem que se destacar de alguma maneira. Aí, no ensino médio, eu era uma ótima aluna, tirava notas ótimas, e foi bom também. Foi bom porque me incentivou, mais um motivo para eu me dedicar mais aos estudos e tentar uma universidade pública.

Lembro-me de que fazia pré-vestibular. Eu e mais três amigas fizemos pré-vestibular, fizermos uma prova para ganhar uma bolsa e ganhamos uma bolsa,  aí eu fazia o pré-vestibular em Madureira. Eu saía do colégio, do ensino médio, do Brigadeiro Schorcht… A gente saía ao meio-dia e tinha que estar em Madureira às 12:30, então eu não tinha tempo para nada. A gente levava uma vasilha de comida, nós comíamos na escola em dois minutos, a gente engolia a comida de qualquer jeito. Íamos correndo, pegávamos o ônibus lotado; a gente ia na porta, quase caindo, com um monte de coisa. Mas ainda assim a gente conseguiu, todas nós passamos para a faculdade pública, cada uma agora está seguindo o seu caminho.

A minha adolescência foi assim, eu era a menininha gorda, feinha, então só queria saber de estudar; aí você se junta aos seus, não é? Éramos, eu e as meninas, as mais feinhas da escola, as mais estudiosas. Na hora em que o pessoal queria tirar nota boa, eles se juntavam à gente. Mas foi bom, foi tranquilo.

 

P/1 - Você lembra de alguma dessas meninas?

 

R - Lembro. Márcia era minha amiga, muito amiga minha. Inteligentíssima. Marcinha... Eu não consegui revê-la. Até tentei manter contato com ela, mas perdemos mesmo o contato. Eu sei que ela hoje deve ter feito até doutorado de Biologia, na UERJ. Inteligentíssima, muito caladinha; excelente amiga, excelente companheira. E as outras, cada uma seguiu o seu caminho, eu não mantive contato.

 

P/1 - E o que você fazia para se divertir nesse período?

 

R - O que fazia para me divertir? Eu era aquela adolescente problemática, então eu vivia dentro de casa estudando. Adolescente problemático vive estudando. (risos) A gente é rotulado, então... “Vamos estudar, a gente tem que sobressair de alguma maneira.” Então eu ficava em casa estudando.

Hoje, depois de burra velha, resolvi viver a minha adolescência, então eu adoro sair, adoro ir à balada. Não bebo, não fumo, enfim, mas eu gosto de sair, eu sinto falta; final de semana, se eu não sair fico doente. Eu brinco com as minhas amigas: digo que hoje eu sou uma adolescente, estou vivendo o que não vivi na minha adolescência. Minha infância foi ótima, mas a minha adolescência foi péssima.

 

P/1 - Simone, você falou que ia com um monte de amiguinhas, antes da adolescência, para a escola...

 

R - Para a escola.

 

P/1 - E aí, como era? Vocês passavam um na casa do outro? Deve ter umas histórias aí nesses...

 

R - Ah, tinha um cronograma. A minha casa era a do meio da rua, então já vinham descendo aqueles colegas e a gente ia chamando, batendo no portão, gritando: “Fulano! Vamos embora! Vamos embora!” Aí já estava todo mundo pronto, a gente assim, fazendo meio que um movimento crescente. Descia a rua e já estava todo mundo junto, sempre com um pai de alguém, um pai de um deles levando aquele grupão. Lembro de que uma vez eu perdi o meu grupo. Meu grupo foi embora, me abandonou. Acho que estava atrasada, aí a minha irmã foi me levar.

Uma coisa engraçada: você me perguntou, agora me lembrei. Minha irmã foi me levar numa bicicleta muito antiga, a bicicleta era... Não sei se era uma Caloi ou uma Monark, sei lá, na época... A minha irmã estava pedalando, de repente me lembro de que a minha irmã se jogou no guidão da bicicleta, se debruçou, e ficou lá caída. Eu caí no chão, ela caiu no chão; ela estava passando mal, eu me lembro que isso me deixou muito assustada. Ela começou a passar mal porque - depois a gente descobriu - ela não tinha se alimentado. Ela tinha saído de casa sem comer nada, acho que teve uma queda de pressão, desmaiou. E juntou um monte de gente em volta, e eu me senti tão envergonhada... Coisa de criança, não é? Minha irmã caída no chão e meu maior problema era a vergonha. Eu não queria nem saber se ela estava viva, eu estava era com vergonha, porque todo mundo me olhava. (risos)  Arrastaram ela, um vizinho arrastou a minha irmã para a casa dele, colocou um ventilador, e eu morrendo de vergonha. E no dia seguinte foi o comentário geral na minha escola: “A Simone caiu com a irmã da bicicleta.”

Criança é cruel, não é? Já tomei uns tombos na escola, eu era gordinha nessa época também, mas eu me dava bem com isso na infância. Eu me lembro de que uma vez eu caí na escola, na hora do recreio, a escola toda riu. Eu tinha essa coisa de ficar com vergonha, morria de vergonha.

 

P/1 - E o intervalo então, era um tombo e outro de vez em quando?

 

R - Um tombo, uma vez ou outra. Eu vivia correndo, vivia caindo também, caía muito, caía de bicicleta. Criança levada vivia machucada, não é? Bom, entre um tombo e outro eu estava muito feliz. (risos) Muito bom.

 

P/1 - Esses seus vizinhos ainda são seus vizinhos? Você os encontra?

 

R - Encontro. Outro dia mesmo estive lá na rua, aí dá uma saudade. Você passa, você olha.

Eu tinha… Eu não sei onde estão essas fotos, umas fotos que a gente tirava na rua. Eu me lembro de uma foto que nós tínhamos que era uns cabritos puxando uma carroça, não sei de onde veio aquilo. (risos) Eu e mais duas amigas sentadas naquela carrocinha, aquilo para mim foi uma alegria. Eu estava me sentindo em uma charrete, no meio da roça. A gente tirou foto em uma praça, eu não encontrei essa foto, uma pena!

Estive na rua da minha infância, tem umas duas ou três semanas, me lembrei disso. Falei com os vizinhos, a gente ficou relembrando: “Lembra de quando a gente tirou foto naquela charrete?” Aí você vê a mudança nas casas: as casas aumentaram, as famílias aumentaram, então tem casa de dois andares, casas com uma fachada bonita. Naquela época não era assim, a gente acaba fazendo uma comparação. Era tudo mais simples, e era tudo tão mais leve.

Hoje as pessoas estão erguendo assim os castelos, as casas, mas estão com medo de tudo. Essa é a impressão que eu tenho: as pessoas estão com medo, erguem muitas casas, muito grandes, altas, muros altíssimos, e estão se isolando. É claro, isso não faz tanto tempo assim porque eu não sou tão velha, tenho 36 anos, mas hoje você vê isso. As crianças não conseguem curtir tanto a infância como eu curti. Por muitos motivos, mas acho que esse é um motivo muito forte: o medo, a insegurança.

Na infância tinha essa cumplicidade. A gente fazia festa de rua, festa junina, eu ajudava a organizar também... Criança, não é? Queria ajudar a organizar, e tinha caipira, fechava a rua, fazia fogueira, cada um levava um prato típico, muito bom. Acho que isso é algo muito legal da minha infância, foi muito legal, pena que se perdeu. Hoje você vê as ruas, elas estão totalmente fechadas em condomínios. Fecha, tranca, tem guarita, as pessoas têm medo de sair, é uma pena. Eu sinto muita saudade.

 

P/1 - Essas festas, como eram? Eram de vizinhos que se juntavam? Como era?

 

R - Ah, a gente se juntava. Também tinha uma pessoa, que era mais velha, que ensaiava a quadrilha, e tinha uma pessoa mais velha que ficava responsável por fazer uma lista com o que cada vizinho ia colaborar. Nada de dinheiro, cada um fazia sua parte, cada um comprava um bolinho amarrado de bandeirinha, e cada um arrumava uma palmeira. Era coqueiro, bananeira para enfeitar a rua, sempre nesse clima de muita cooperação. Foi muito legal. Os adultos que organizavam. E tinha uma menina, que era adolescente, que ensaiava quadrilha, foi muito legal.

Época de Copa também, na rua a gente se juntava; me lembro da Copa - acho que de 1982, se não me falha a memória -, a gente fechou a rua, todo mundo pintando a rua, foi um clima tão bom. Você vê os vizinhos todos unidos pintando muro, eu me lembro de umas fotos que eram… Laran... Não sei, acho que Laranjito, ele pintava aquela laranja, aqueles desenhos, fazia uns desenhos dos jogadores do time no chão, botava aquelas bandeirinhas verde e amarelo, muito legal.

O grande lance era você se unir; a Copa em si não era nem o motivo principal, acabava não sendo, você acabava até perdendo esse sentido. O interessante era você reunir todo mundo e montar. O objetivo é esse: vamos fazer a nossa rua ficar mais bonita. Ainda existe isso hoje, existe sim. No subúrbio tem muito, por aqui é mais difícil. Mas aí: “Vamos fazer a nossa rua ficar mais bonita.” E todo mundo se envolvia, cada um colaborava um pouco, era muito legal. Eu sinto falta disso. Cada um toma seu rumo na vida, o que é natural. É uma pena que os meus sobrinhos não estejam vivendo isso, não tenham vivido isso.

 

P/1 - E você, quando adolescente, sua irmã era mais velha então, não é?

 

R - Mais velha.

 

P/1 - Como era essa relação com você?

 

R - A minha irmã era a minha segunda mãe, não é? O que é natural. Isso acontece muito hoje em dia, hoje é mais até do que na minha época. Quando os pais trabalham fora, pai ou mãe, normalmente os irmãos mais velhos tomam conta dos irmãos mais novos.

O que a gente... Hoje, pensando bem, analisando, é meio que uma crueldade dar uma criança de quatro, cinco anos para uma menina de quinze anos, treze anos, tomar conta. É o que a gente vê, é uma realidade muito comum hoje em dia, não é? Muitos filhos, os pais trabalham fora, então os mais velhos, que não necessariamente são maiores de idade, vão cuidar dos menores.

Minha irmã cuidava de mim, só que ela era adolescente, cuidava daquele jeito.  Lembro de que ela esquecia de me dar comida. Eu ia atrás dela: “Cadê a minha comida?” Ela estava paquerando no portão; eu falava para a minha mãe, ela brigava comigo. A minha mãe brigava com ela e ela brigava comigo, me botava de castigo, eu não podia sair para brincar - aquilo para mim era a morte. Quando eu percebi que o sistema era esse, resolvi não falar mais nada para a minha mãe.

Ela cuidava de mim, coitadinha, na fase em que ela começava a namorar. Quando ela estava namorando, já tinha quinze dezesseis anos, ela namorava, era aquele namorico de portão. Eu lembro que foi uma fase ruim para mim porque eu me sentia meio que deixada de lado: “Perdi o meu espaço...” Aí eu ficava brincando, eu olhava que a minha irmã não estava dando muita bola para mim. Como ela era a minha segunda mãe, era a minha referência, aquilo também me deixava mal, tinha essas mágoas. Agora não, isso não cabe mais, claro, mas na época eu ficava muito chateada. Ficava com raiva, chorava, tinha crises de tristeza profunda... “Porque a minha irmã não quer mais saber de mim?” (risos) Engraçado.

 

P/1—Você já aprontou alguma para algum namorado dela?

 

R - Já. Para o namorado não, eu fazia fofoca porque queria desmanchar os namoros dela, claro, então eu botava lenha na fogueira. E a gente pensa que criança sempre fala a verdade, não é? Criança é sincera, criança fala... Não adianta, se você é feio ou bonito, criança fala. E eu falava para ela... Mas olha como criança é má, não é? Eu falava mentindo, sabendo que ia destruir aquela relação: “Vi fulano, seu namorado, estava lá na esquina beijando não sei quem...” Inventava umas histórias escabrosas e ela acreditava, aí terminava os namoros. (risos). Ah, se ela souber disso! Vai saber! Vou contar para ela.

Assim eu conseguia, mas não adiantava. Daqui a pouco o namorado voltava, ela arrumava outro. E ela nunca foi namoradeira, não, é que namorico não é o namoro de hoje, é óbvio, não é? Guardadas as devidas proporções, naquela época… Namorico era coisa de conversar no portão, já estava namorando, já é uma coisa séria! Conversar no portão, beijar então... Eu fazia um inferno com os namorados dela, falava que eles faziam, aconteciam. E, coitadinha, ela acreditava.

 

P/1 - E as suas paqueras, quando chegaram?

 

R - Nossa! Eu comecei... Como boa menina feia, patinho feio, eu comecei a namorar muito tarde - quer dizer, muito tarde para os padrões de hoje. Comecei a namorar com quinze anos, eu acho.

Lembro-me de que o meu primeiro namorado, Wallace, era do EPCAR - Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Nossa, aquilo era um suprassumo para as meninas! Nossa, que coisa! Ter um namorado do EPCAR. Mas ele era tão bobo, gente, muito bobo, muito ingênuo. Para ele também, para os meninos aquilo tinha um peso… Então ele só falava daquilo. Aquilo começou a me aborrecer, só falava do EPCAR, “eu vou para não sei onde” - ele estudava em Barbacena. Aí o namoro não deu muito certo, foi um namoro de cinco meses. (risos) Até que durou bastante; não deu certo, eu desisti, terminamos.

Com quinze anos eu estava no primeiro do ensino médio, do segundo grau na época. Nós ficamos uns cinco meses, acabou. Aí ele foi para lá e depois, imediatamente, ele arrumou outra namorada, claro. Não ia perder tempo, porque as meninas ficam sozinhas, tristes, chorando, mas os meninos não ficam sozinhos, os homens não ficam sozinhos. Foi o meu primeiro namorado; depois eu tive uns namoricos, nada sério. Meu namoro sério mesmo - eu tive namorado sério, ficamos quase noivos -, tinha acho que vinte e três, vinte e quatro anos. Foi namoro sério, mas eu descobri que não queria casar; gosto muito da minha liberdade, nada de namoro sério. Nessa época eu já estava trabalhando, é isso.

 

P/1 - O segundo grau você fez onde?

 

R - O segundo grau eu fiz no Brigadeiro Schorcht, numa escola estadual ali na Taquara. Meu segundo grau foi tranquilo, eu estudava muito, pensando no vestibular. Para os jovens o vestibular é um grande desafio e, às vezes, a gente fica mal. Eu me lembro de que nessa época engordei muito; quase não comia, mas ficava tão nervosa, tão ansiosa, que engordei muito. Cheguei a pesar acho que noventa quilos; aquilo para mim... “Ah!”, e ficava deprimida.

Depois que passei, as coisas se normalizaram. Mas é um desafio, e o desafio maior é quando você vai fazer o vestibular. Você vê como está defasado, aí tem toda aquela questão da educação, que é uma questão muito ampla, mas o jovem sente esse peso mesmo, o jovem de escola pública sente... Se bem que eu acho que quem faz a instituição é o aluno também, não é? Não é só, não tem que deixar se abater por conta disso, mas que existe, existe... Uma defasagem muito grande na escola pública. E aí você vê uns conteúdos no curso de pré-vestibular... Eu lembro que havia uma aula que tinha cinco tempos de Matemática, minha matéria preferida. Eu adorava. E o professor dava aquelas questões no quadro, eu ficava: “Gente, eu não vou conseguir nunca.” As coisas mirabolantes, você não conseguia. Essa minha amiga, Márcia, resolvia tudo, meu modelo de inteligência. A Márcia resolvia tudo, eu não resolvia nada de Matemática. Eu falei: “Nossa!” Mas também em Humanas - Geografia, Português, História - eu adorei, me dava bem. Tanto que quando fui fazer vestibular, eu quase zerei em Matemática, dei uma sorte numa questão que eu tentei e consegui salvar.

Foi difícil, mas foi legal o ensino médio, foi muito bom. O último ano foi muita loucura, muita correria, mas valeu a pena. Acho que vale a pena o sacrifício, é recompensador no final quando você passa. Foi legal.

 

P/1 - Você prestou em vários lugares?

 

R - Na época – acho que foi em 1989, 1988 – em que eu fiz vestibular, tinha unificado para _______, tinha o vestibular da UFRJ, que era sozinho, já era isolado, e tinha acho que Cesgranrio. E tinha as particulares. CTUF, UFRJ e a particular. Eu tentei na particular, Jornalismo, mas eu sabia que ia passar, porque naquela época não tinha Prouni.

Hoje em dia você tem… Hoje em dia o jovem tem ‘n possibilidades de ingressar na faculdade - quer dizer, estou falando das particulares. Tem o Prouni, tem o Enem, tem bolsa, tem muitos alunos na minha escola que conseguem bolsa integral porque tiram notas boas; na minha época, não tinha. Então você tem que passar para a universidade pública, porque não tem condição de custear - minha mãe não tinha, então tinha que ser universidade pública. Na particular passei, mas não pude entrar, passei para a Gama Filho na época, que era uma ótima faculdade. Até tentei Jornalismo, nem sei por que. (risos) Passei, mas não fui.

Passei para a Universidade Federal Fluminense e para a UFRJ. Preferi ficar na Universidade Federal Fluminense por conta de nem sei o quê. Porque me disseram que a Universidade Federal Fluminense era melhor em Letras, na minha área, e realmente ela foi. A Universidade Federal Fluminense é uma ótima faculdade, uma ótima universidade na minha área. Até porque hoje eu estou estudando no Fundão, hoje dá para você comparar e ver que não tem diferença nenhuma; em termos de conteúdo é igual, senão melhor até na Universidade Federal Fluminense. Mas o Fundão tem coisas boas, o Fundão na UFRJ tem pesquisa, pesquisa lá na UFRJ é muito incentivada. Na Universidade Federal Fluminense, na minha época, não era. Nós não tínhamos bolsa de CNPQ [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], inicialização científica, não tinha CAPES [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior]. Na Universidade Federal Fluminense era muito pouco. E na UFRJ tinha um campo bem maior, acho que esse era o diferencial, não sei como está hoje.

 

P/1 - Simone, antes de você entrar na Universidade você lembra de algum livro ou uma aula diferente que você teve?

 

R - Eu me lembro de um professor… Vocês até me perguntaram isso, eu me lembro de um professor que me marcou muito, tinha que ser de Língua Portuguesa. O nome dela era Napoleão, já é falecido. Eu o chamava de Popô, carinhosamente - não na frente dele porque ele era um senhor já de certa idade. Eu me lembro de que ele se arrumava assim, e punha aquela camisa de tecido, de botão, aquela calça de prega. (risos) Uma figura emblemática: calça de prega, sapato, e ia para a escola.

Você via que ele tinha orgulho de ser professor, aquilo para ele era uma paixão, e acho que isso foi o meu referencial. Eu me dei conta que de que eu queria ser professora realmente quando assisti a primeira aula do Popô, do Napoleão, um professor muito querido, do Brigadeiro. E eu me lembro que o Napoleão fazia o seguinte: no final da aula... O que hoje... Se a gente fizer isso hoje em sala de aula os pais dos alunos vão lá reclamar. Ele fazia sabatina no final, só liberava o aluno que acertava a resposta. Eu me lembro de um verbo que ele me pediu para conjugar, caiu para mim a pergunta: “Conjugar o verbo arriar, primeira pessoa do presente do indicativo”. Aí eu falei: “Eu arreio.” Todo mundo olhou para a minha cara, e ele: “Não, você está errada, você vai continuar na sala.” Aquilo para mim foi uma decepção, era “eu arrio.” “Ai, meu Deus do céu! preciso estudar...”

Isso me marcou, quer dizer, as aulas com ele... Ele sempre foi um professor tradicional, pela própria figura: de andar assim de camisa de botão, camisa de tergal, calça de tergal, de sapato. Mas ele era um professor maravilhoso. E hoje, o que eu vejo na realidade, fazendo contraponto com a escola, o que eu vejo é que os alunos gostam disso, a gente tem aquela ideia de que o aluno... Claro que a aula tem que ser dinâmica, mas não é só isso; na verdade, o aluno sente falta de uma referência. A gente tem essa coisa de: “Ah, o professor malucão, o professor que brinca...” O aluno até gosta do professor que brinca, claro, mas o aluno gosta de ser cobrado, o jovem precisa ser cobrado. Essa coisa da disputa, de você saber que você só vai sair se acertar aquela resposta, claro que deixa você nervoso, deixa tenso, mas isso é uma disputa, você está se preparando para encarar o mundo lá fora.

Hoje em dia existe uma filosofia - não sei por que cargas d' água - de paternalismo extremado: “Tadinho do jovem! Tadinho, não vai expô-lo a uma situação constrangedora, pobrezinho...” Professor não pode fazer isso. Se eu faço isso...

Tem um professor na minha escola - porque já aconteceram alguns casos assim -  um professor que segura uma turma porque a turma estava fazendo uma bagunça, ou porque vai dar uma avaliação surpresa. Isso para os pais é a morte. Aí você tem o Estatuto da Criança e do Adolescente que vai dizer que eles estão sendo mantidos em cárcere privado. “Não pode! Está constrangendo o aluno.” Mas os alunos gostam disso, os professores mais queridos da minha escola, lá do Ulisses, são os professores que são tradicionais, aqueles professores que cobram, que cobram o horário.

Eu tenho um professor na escola, um professor de Química, ele chega pontualmente na escola naquele horário; os alunos que não chegam no horário não entram. Não tem aluno atrasado, os alunos são todos pontuais, eles não chegam atrasados. O aluno que chega atrasado até fala: “Eu não vou subir, diretora. O professor Fabiano não deixa eu subir”. Então você vê que na verdade o jovem quer isso, o jovem precisa disso - precisa de um nó, precisa de um limite. E a gente vê, não é? O que a gente vê da sociedade é uma permissividade muito grande. “Pode, tadinho do jovem, deixa ele, tadinho... É um pobre coitado”. Mas não é, não pode ser assim, e o jovem sente falta disso, sente falta de limite.

 

P/1 - Então como se deu isso da escolha da profissão? Foi a influência desse professor?

 

R - Foi a influência, com certeza, desse professor Napoleão. Não me esqueço do Napoleão em sala de aula, dando aula no quadro, nunca usando computador. Nossa! Porque nem pensar, não é?

Era muito assim, a aula de cuspe e giz, conteúdo, livro, leitura de livro e biblioteca. Eu vivia na biblioteca, adorava, mas eu sempre fui uma aluna que gostava de ler, então isso já era meu mesmo. Mas os alunos adoravam. Ele era muito querido; era adorado, era temido, mas temido no bom sentido, não é? Quer dizer, não é o temido: “Ah, lá vem! Que horror, que medo...” Não. Era estimulante aquilo, era estímulo para a gente.

 

P/1 - Daí você foi para a universidade. Para qual universidade você foi?

 

R - Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

 

P/1 - E como foi?

 

R - Era uma loucura. Era assim: o curso na época era [de] cinco anos. Eu fiz o curso em quatro anos, resolvi fazer essa loucura, então ficava na faculdade o dia inteiro. E como nada na minha vida foi muito simples, sempre foi muito trabalhado, sempre muito árduo, eu inventei de estudar em Niterói, eu preferi. Eu levava duas horas e meia para chegar à faculdade; me lembro de que tomava um ônibus lá no Camorim - sempre morei no Camorim, sempre em Jacarepaguá - tomava um ônibus que... Nossa! Levava uma hora e meia para chegar ao centro da cidade. Chegava ao centro da cidade, descia na Praça XV, andava um pedaço, tomava uma barca. Atravessava a Baía de Guanabara, chegava a Niterói e ainda tinha que ir andando para chegar até o Campus de Caraguatá, ou pegava um ônibus quando estava muito atrasada - vivia atrasada nessa época, sempre atrasada.

Eram duas horas e meia, então, na verdade, eu passava cinco horas dentro de condução. O que eu fazia nessas cinco horas? Eu dormia; era a única coisa que eu podia fazer. Eu não dormia à noite. (risos) Chegava em casa quase meia-noite todo dia, estudava de oito da manhã até dez da noite, direto.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Das oito da manhã às dez da noite. Aí eu saía da faculdade... A gente pedia para o professor para sair mais cedo porque a gente morava longe. Ele liberava a gente às 9:30h para pegar a barca de 9:40h. Aí eu chegava em casa quinze para meia-noite quase todo dia - isso era umas quatro, três vezes na semana.

Eu fiz o curso por quatro anos e achei bom, também gostei. Sempre me envolvi muito com faculdade. Eu fazia monitoria, eu fiz prova para ser monitora. Aquilo tudo também era um status, às vezes a gente ganhava um dinheirinho, porque estudante de faculdade, duro, tem que se virar de todas as maneiras. Lembro-me de que me virava de todas as maneiras: era bolsa de monitoria, depois fui fazer revisão de texto na editora da faculdade, depois eu consegui uma bolsa de inicialização científica... Sempre assim, correndo atrás. E ficava o dia inteiro. Acho que a minha faculdade eu fiz com muita dedicação.

 

P/1 - Ô, Simone, você gosta de estudar, hein?

 

R - Eu gosto. Eu brinco que se tivesse dinheiro ia ser estudante profissional, só ia querer saber de estudar. Estudar é bom.

 

P/1 - Tinha algum tema específico que você gostava mais quando você fez?

 

R - Na faculdade, eu gostava muito de Linguística e Língua Portuguesa. De Literatura eu não era muito fã, mas tirava ótimas notas em Literatura, não sei por que. Engraçado, curioso, a parte pedagógica - eu fiz o curso de licenciatura, então você sai habilitado para ser professor. Você pode até trabalhar com outra coisa, mas, inicialmente, é licenciatura, professor, dar aula. Eu lembro de que odiava as disciplinas de Pedagogia e hoje eu sou diretora pedagógica; até hoje eu brinco com as minhas amigas, o pessoal do SOE, a minha equipe de trabalho. Eu falo com elas: “Odeio pedagogo! Odeio pedagogo!” (risos) Elas só faltam morrer de rir comigo, mas eu acabei caindo na coisa da Pedagogia - dos projetos, de organizar a parte pedagógica da escola. E eu detestava Pedagogia na escola, achava aquilo blá, blá, blá.

Na verdade, eu acho que hoje a gente vê que a teoria é necessária, mas a prática também. É aquela velha história: teoria é uma coisa, prática é outra. Acho que a gente tem que aliar os dois, mas, realmente, teoria e prática são diferentes. Claro que você tem que se embasar, você tem que ter um conhecimento teórico, e isso na faculdade era o meu bicho-papão. Mas eu tirava boas notas, eu estudava, meu CR era bom. Literatura também eu não era muito fã, embora eu goste muito de ler. Lia tudo, tirava boas notas também.

Tem uma coisa engraçada: eu fiz Português-Alemão na faculdade e não falo alemão (risos). Estudei quatro anos, mas não falo. No meio do curso de alemão, descobri que não era a minha praia. Escolhi alemão porque eu estava fazendo um curso de inglês. “Não, eu tenho inglês, Agora vou estudar alemão, vou pegar uma língua que seja diferente - japonês, russo... Uma coisa bem escalafobética, bem diferente do habitual”. Porque eu achei que ia ter uma importância no mercado de trabalho, na profissão,. Quais os profissionais que naquela época falavam alemão? Falavam russo? Japonês? Aí inventei de fazer alemão, mas, olha, eu sofri muito com alemão na faculdade, sofri demais. (risos)

No meio do curso... Eu consegui levar até a metade. Éramos quarenta e cinco alunos fazendo faculdade [de] Português-Alemão; só se formaram duas, eu e uma outra menina. No meio do curso eu falei: “Olha, Sandra...” - uma amiga minha do curso de alemão - “...Vamos desistir?” Ela disse: “Vamos! Simone, não vamos levar isso, porque isso é um sofrimento, está virando um martírio, vamos desistir...”

Falei com o professor coordenador do curso. Ele não me deixou abandonar: se a gente abandonasse o curso, não iria ter respaldo legal para ter curso de Alemão na faculdade, já que ninguém se formaria, não é? Isso iria ser péssimo para eles. Então eu falei: “Olha, então vocês vão ter que me levar, porque realmente eu não estou conseguindo me levar - nós duas, não é? Ansiosas, deprimidas.” “Não, você vai concluir, vai que você vai concluir...” Eu me lembro de que tinha me inscrito para fazer um intercâmbio na Alemanha, e ele falou: “Você vai para a Alemanha!” Eu comecei a tomar pânico de alemão, tomei pânico do alemão. Hoje eu bloqueei, e o pouco que aprendi eu já esqueci. Eu sei falar “bom dia”, “boa tarde”... É impressionante. Aí, eu fiquei meio traumatizada, meu CR só não foi tipo 9,8 por causa do alemão, porque as minhas notas mais baixas eram com alemão: sete... Eu ficava sempre com sete, oito... Difícil! Isso porque as pessoas ficavam com pena.

Eu falei: “Porque eu não tenho condições de levar o Alemão adiante, vou fazer Espanhol, vou fazer Literatura...” (risos) Ele ria muito. Ele ria, mas percebeu que a gente estava tendo dificuldade. Ele nos ajudou, mas a gente fez o curso meio que empurradas.

 

P/1 - Ele era o coordenador?

 

R - Era o coordenador.

 

P/1 - Qual o nome dele?

 

R - Professor Hofmann, muito bom também.      

 

P/1 - E ela que você falou também... a sua amiga?

 

R - A Sandra, minha amiguinha. Eu sempre tive uma melhor amiga. A Sandra, também inteligente - tem essa coisa que eu te falei, a gente acaba se juntando aos nossos. Eu sempre fui uma menina muito certinha, não sei... Do meu ponto de vista, certinha, cumpridora dos horários, eu era “CDF”. Na faculdade a mesma coisa, na faculdade então... Eu dava cola para todo mundo e, no final, uma vez quase a professora me deu zero porque eu dei cola, ficava mal por causa dos amigos.

A Sandra era a minha amigona, e a gente...No curso de Alemão, aquele desespero.  Juntas a gente estudava, sempre fizemos os trabalhos juntas... Sandrinha. Perdi o contato com ela também, porque era o pessoal de Niterói, eu vim para o Rio e acabei naturalmente me afastando. Mas foi muito engraçado, a gente conseguiu concluir e desisti do intercâmbio, desisti do Alemão. “Não quero mais saber do Alemão, agora vou me dedicar à Linguística (risos), à Língua Portuguesa”.

Foi bem legal. Aprendi muito na faculdade, muito.

 

P/1 - Você passava o dia todo lá em Niterói?

 

R - O dia todo em Niterói.

 

P/1 - E aí? Você participava de outras atividades que não as acadêmicas? Sei lá, um movimento estudantil? Um cineclube?

 

R - Eu, nessa época, no ensino médio, era a coisa do “nerd”. Então, normalmente, tem essa coisa da associação, se associar à pessoa... Os mais “CDFs”. O inteligente, o aluno articulado, o aluno que fala bem, realmente é um aluno que tende a ter uma visão política melhor, a ser o líder, não é? Líder político da escola, participar de grêmio. Eu até participei uma época lá no Brigadeiro, me lembro de que a gente fazia movimento. Nossa! Eu era meio idealista na época, eu me filiei ao Partido dos Trabalhadores, o PT. A gente ia fazer manifestações na rua pelo passe livre, naquela época. Lembro-me de episódios muito engraçados: eu “nerd”, a Marcinha, que era a minha amiga, que era mais “nerd” ainda, certinha, filha de pais portugueses. Tudo muito certinho, e os pais dela nem podiam desconfiar; não sei nem se eles sabem até hoje que ela tinha ido para uma manifestação em pleno centro da cidade. Paramos a [Avenida] Presidente Vargas, tinha polícia... E ela morrendo de medo dos pais descobrirem a gente. Eu me lembro que foi um acontecimento, a gente pulando a roleta do metrô. Paramos a Presidente Vargas, a gente deitou no chão, cantando a música do Geraldo Vandré. Muito legal.

 

P/1 - Qual música?

 

R - Ah! “Pra não dizer que não falei de flores”, música emblemática. “Caminhando e cantando, seguindo a canção...” Muito engraçado. A gente na rua assim, fazendo manifestação, deitadas no chão da Presidente Vargas. Aí vieram os policiais e foi uma correria, que loucura! Acho que se eu tivesse um filho hoje eu não deixaria que ele fizesse isso, não, eu não ia querer saber. (risos) Na verdade, eu até gostaria que ele fizesse, mas não ia querer saber, porque a gente se arrisca.

O jovem é impetuoso, não é? Jovem não pensa: “O que que é policial? Vai bater na gente?” Se juntam... A gente acha que é forte, que é muito forte. E eles não querem nem saber - teve até alguns alunos que foram presos, mas foram liberados logo depois.

Esse é o meu envolvimento com a política. Depois, na faculdade, como eu vivia o dia inteiro na faculdade, eu cheguei a participar do DCE - Diretório Central de Estudantes da Universidade Federal Fluminense, que era no Valonguinho, mas não fiquei também. Eu saí porque nessa época eu queria estudar, precisava estudar porque precisava ser monitora, e para ser monitor você tem que ter uma boa média, um bom CR. Então tinha que ter notas boas. Para manter uma bolsa de CNPq você tem que ter um CR legal. Era só estudar, não tinha nenhuma atividade extraclasse.

 

P/1 - Não dava tempo para festa?

 

R - Ah, nessa época eu nem ligava muito. Eu senti falta disso na adolescência, de sair. Na adolescência eu passei por isso, de ser aquela menina feinha, deixada de lado, que não arrumava namorado. Na faculdade eu não tive esse problema, acho que canalizei tudo para o estudo. De uma (certa) maneira é uma autodefesa, não é? “Eu não tenho namorado, eu sou gordinha, então deixa pra lá, vou estudar...”

Fiz muito bem, porque hoje o que acontece? Hoje eu vejo as pessoas - aquele grupo de amigos daquela rua, que ia junto comigo, que a gente fazia aquele comboio, tudo mundo junto e aquela animação, quarenta minutos caminhando para chegar à escola - hoje essas meninas que não estudaram, não fizeram faculdade, estão sem trabalhar. A maioria casou, teve filhos e não tem perspectiva nenhuma. Acho que fiz tudo no tempo certo. Essa lacuna da minha adolescência que eu não vivi, de sair, de curtir, eu estou vivendo hoje, bem resolvida, com dinheiro, não preciso pedir dinheiro para a minha mãe. Então, beleza!

Aí eu falo... Eu tenho um amigo hoje que fala a mesma coisa: “Na faculdade eu só queria saber de estudar, mas hoje eu tenho dinheiro no bolso para curtir bastante.” Então eu posso curtir, posso me dar esse luxo. E quem passou a juventude namorando, e sem estudar, e fazendo outras coisas, aí hoje amarga essa situação, não é?

Isso não é via de regra. Foi uma experiência que aconteceu comigo, claro, mas tem isso sim.

 

P/1 - O que é CR, que você falou?

 

R - CR é o coeficiente de rendimento que a gente tem que ter. Na Universidade Federal Fluminense o CR eu acho que era sete, aí tem que ter para ficar. Pra você ser monitor, por exemplo, você tem que ter um CR acima de oito e meio. Para você manter, você tem que manter o CR. Eu ganhava um dinheiro com isso, minha mãe era pobre e tinha que me sustentar. Me lembro de que eu ia para a faculdade e era assim: um tênis... Só trocava a blusa, era blusa de malha... Meu uniforme era calça jeans, de todo aluno que era duro. Mas foi uma fase muito boa. Então era assim: uma calça jeans surrada, um tênis, a mochila, e eu trocava a blusa de malha. E ia numa boa, amarradona, feliz da vida.

Eu ganhava aquele dinheirinho. Lembro da fila para receber o pagamento na Reitoria da Universidade Federal Fluminense, lá em Icaraí. Era uma fila... Mas aquilo era um acontecimento, era o dia do pagamento! DEPENDEI, que a gente falava... dia do pagamento. Baita fila, era um acontecimento, mas era muito legal, valeu a pena.

Eu acho que a educação é a base. Educação dá subsídio, dá suporte. A educação é cultura, não é? Hoje eu vejo os alunos da escola… Eu estava até comentando isso hoje lá na escola com a minha orientadora educacional - minha amiga, mas excelente profissional também, a Gislene - eu falei: “Gislene, esses alunos aqui não têm cultura, eles nunca assistiram uma peça de teatro, de repente, ao cinema até vão, vão para o shopping. A referência deles de cinema é shopping, eles não vão ao teatro, não assistem uma apresentação de um grupo de balé, não vão ao Teatro Municipal...” E para eles tudo é novo, então quando você vai trabalhar isso na escola...

A gente teve um projeto na escola, agora em agosto, sobre os quarenta anos de 1968. “1968 - Memória e História”, um projeto que o pessoal de História organizou. Teve um professor que escreveu uma peça itinerante, em que os autores se movimentam. A peça tem um determinado cenário, depois os autores andam e vão para um outro cenário e os alunos também têm que se movimentar, quer dizer que a plateia se movimenta, uma coisa super arriscada. E a minha preocupação era: como a gente vai conseguir fazer com que esses alunos participem e se comportem, já que eles não estão acostumados nem a assistir? Eles nunca foram a um teatro, a maioria nunca foi a um teatro e talvez nunca vá. São carentes de tudo, mas de cultura é impressionante. Como é que a gente vai fazer? Minha preocupação maior era essa.

No dia da peça eu ficava nervosa, suava, falava: “Meu Deus!” Porque é um turno inteiro, são quase oitocentos alunos… Quinhentos, seiscentos alunos da manhã, e você tendo que andar com esses alunos. Fez no pátio da escola, a peça andava, e a gente tinha que fazer um cordão de isolamento para os alunos, para não haver baderna e tumulto. E se o aluno ali começa a gritar, a fazer uma graça? Acabou a peça, não é? Mas os meus alunos se comportaram super bem. Meus alunos são ótimos, excelentes, se comportam bem em qualquer situação. A gente... Tem que haver uma preparação, você tem que conversar com eles antes. Tem que prepará-los, pois eles não estão acostumados com isso.

Teve uma apresentação de um grupo de balé da UFRJ, aí o nosso medo maior: “Está vindo gente de fora. Pelo amor de Deus, comportem-se, não façam gracinhas porque a nossa cara vai para o chão, não é?” Comportaram-se super bem. Depois, no final, eles falaram todos: “Diretora, o nosso teatro foi muito melhor do que o grupo de dança da UFRJ, tá? Muito melhor...” “Ah, eu sei que vocês foram melhores.” Eles se comportaram superbem.

Na verdade, no fundo é isso: você tem que dar oportunidades para o jovem. Ele vai saber, ele só precisa passar por aquilo. Porque ficar todo mundo levando a vida no abstrato: “Ah, eu tenho uma peça, e não sei...” O jovem tem que ter acesso a essas coisas para saber como se colocar. E eu tenho certeza de que hoje esses mesmos alunos, quando forem convidados para ir assistir uma peça de teatro, eles vão saber se comportar. Eles vão saber que não podem falar, que têm que desligar o celular, não é? Eles têm que fazer silêncio, que a pessoa tem que chegar no horário ao teatro porque qualquer movimento estranho à peça pode atrapalhar o ator, e não deve; até porque o ator está preparado para isso, mas ele não deve fazer isso, ele deve colaborar. Então, os meus alunos... Hoje eu diria que eles estão mais bem preparados. Esse é o papel, não é? É o nosso papel, aquele papel que vai muito além de passar o conteúdo.

 

P/1 - E o seu primeiro emprego, onde foi?

 

R - Meu primeiro emprego… Lembro-me de que quando terminei a faculdade estava muito decepcionada com o magistério, as disciplinas pedagógicas me deixaram meio atordoada. Tentei trabalhar em escolas, mas não consegui porque eles normalmente dão espaço para quem já atua na área. É aquela velha história do primeiro emprego. Não consegui e fui trabalhar numa empresa de consultoria jurídica, no centro da cidade, e foi muito bom também. Trabalhei lá dois anos, me deu muita tarimba.

Acho que todo funcionário público tinha que passar pela iniciativa privada primeiro. Sabe por quê? A gente vê no funcionalismo público alguns funcionários - não são todos - existe um ranço, uma coisa de funcionário público mesmo, não sei... Enfim, eu estou desmerecendo a mim mesma, mas não é isso. Infelizmente é uma coisa que acontece e acho que a iniciativa privada lhe dá muito essa noção de que você tem que correr atrás do seu para você ficar sempre ali, é isso. Todo dia é uma briga, tem que matar um leão por dia, na iniciativa privada. Isso me deu uma tarimba para chegar à escola e saber que eu tenho os meus deveres.

Por exemplo, o professor tem que fazer diário de classe. É o mínimo, existem coisas que são mínimas para um educador, não é? Que você tem que cumprir, é o seu papel. “Ah, mas não tem gente cobrando. E se não tem ninguém cobrando, então eu não vou fazer.” Eu não consigo acompanhar esse raciocínio. Se eu tenho que preencher o diário, eu vou preencher o diário; se eu tenho que fazer chamada, eu vou fazer chamada. Mas tem professores que não fazem, que esquecem... Aí o pai vai perguntar se o aluno está na sala, se está na aula. Você vai olhar o diário do professor e não tem nada. Você tem que dar um jeitinho de disfarçar para o pai não perceber.

Enfim, eu trabalhei nessa empresa por dois anos, aí fiz concurso para o estado e fui chamada. Eu meio que fui abandonando lá a iniciativa privada e descobri que gostava de dar aulas. Pedi para ser mandada embora; me demitiram e eu fui trabalhar na escola. Quando fui à Ulisses Guimarães - na verdade foi a primeira escola em que eu trabalhei - eu entrei lá para trabalhar na secretaria, porque não tinha lugar para eu dar aula. Eu nunca tinha dado aula na minha vida, por incrível que pareça. Eu fiz faculdade de licenciatura, Letras, e nunca tinha dado aula porque teve greve no final do curso, eu não cheguei a entrar em sala de aula para dar uma aula, ou para assistir.

Fui trabalhar na secretaria da escola e queria dar aula, mas queria me preparar para dar aula. Um belo dia, a diretora-geral - eu me lembro como se fosse hoje - virou para mim e falou assim: “Hoje você vai ter que entrar na sala e dar aula...” E eu: “Como dar aula? De quê? O quê?” “Toma esses cartazes!” (risos) Me deu um maço de cartazes na mão: “Leve esses cartazes...” Eu falei: “Letícia, eu nunca dei aula na minha vida” “Leva esses cartazes, você vai e se vira. Aprende uma coisa comigo: você ganha o aluno no primeiro dia de aula...” “Ah, então eu vou perder todos os alunos, porque eu nunca dei aula” “Não, você vai! Você tem que ter jogo de cintura, vai que com jogo de cintura você consegue. Se você conseguir cativá-los no primeiro dia, você é uma professora!”

Fui e consegui. Cheguei com os cartazes, abri na hora, enrolei, falei e falei, os alunos me adoraram. Depois, tudo é tranquilo. Comecei a dar aula assim, meio de sopapo. Foi bem legal também, o primeiro dia foi legal, as turmas eram boas.    

 

P/1 - Nessa época de professor, como você preparava as aulas?

R - As aulas? Quando você é novo no magistério, vai com gás, não é? E você vai com umas ideias mirabolantes, muitos projetos. Eu tinha muitas ideias para tentar colocar em prática, e tinha ideias... Eu falava com a Letícia, com a diretora-geral, só que eu dava aula para o turno da noite. O pessoal do turno da noite tinha um perfil um pouco diferente - hoje em dia está mudando um pouco, mas ainda mantém isso. O aluno da noite é um aluno que não se envolve tanto com projetos, essa coisa de você fazer trabalhos, de mandar trabalhos para casa. O aluno não está tão envolvido, por quê? Porque na maioria das vezes ele trabalha, vem cansado do trabalho, é um outro perfil. É diferente do aluno do dia, que normalmente não trabalha. Só que hoje em dia a realidade que a gente tem está mudando: o que você tem no estado hoje são alunos que são menores de idade, alunos de quinze, catorze anos, e acabam indo estudar à noite porque não tem escola de três turnos para eles estudarem, então acontece isso. Aí você tem... Na verdade o turno da noite está mudando o perfil, tem mais adolescente, mas no todo é basicamente isso. E fui bem.

Logo depois, em 2000, 2001, a gente montou a chapa para a direção da escola. Eu me lembro - e acho muito engraçado - tenho um amigo que fala para mim que eu amadureci, vê o meu crescimento. Realmente, quando entrei na direção eu tinha uma postura - a postura de perpetuar a postura da diretora anterior, que era uma diretora extremamente ditadora, que barrava aluno mesmo, que mandava aluno embora... Os pais adoram quando o diretor é... O pai gosta porque, na verdade, o diretor está fazendo o que o pai não faz. Só que ela era muito exagerada.

Enfim, eu lembro que eu a achava modelo, aquilo para mim era modelo. Então, quando fui diretora eu falei: “Eu vou ser assim, também vou barrar, vou proibir de entrar...” Coisa que não pode fazer, não é? Eu era muito rigorosa, muito rígida. E eu me lembro de que mantinha um distanciamento do aluno muito grande, era o aluno lá e eu aqui. “ [Sou] diretora, eu não posso me envolver. Aluno lá, eu que dou as regras, as normas; tem que seguir as normas da escola.”

Eu me lembro de que quando a gente assumiu, uma coisa que era muito marcante naquela escola especificamente é que ela era extremamente tradicional, não se trabalhava com projeto na escola. Não que eu ache que projeto é o suprassumo, que vai resolver o problema da educação. Acho que uma escola tem que dar conteúdo sim, é importante você ter conteúdo porque o aluno vai ser avaliado lá fora, ele vai fazer vestibular, ele vai fazer concurso público... Conteúdo. E tem que trabalhar, tem que ter projeto também, o aluno tem que gostar da escola.

Uma coisa que não acontecia eram projetos. Eu percebia que eu não gostava da escola. Eu ia para a escola, aula de cuspe e giz, saía da escola e voltava no dia seguinte. Não tinha nenhum atrativo e eu queria tentar mudar isso. E hoje o que vejo - e que não é mérito meu, é mérito de toda uma equipe, uma equipe de professores, da direção, dos coordenadores de tudo: coordenadores de área, coordenadores pedagógicos - hoje eu vejo uma outra escola. A escola hoje tem uma outra cara.

Eu mudei a minha postura, então hoje... Eu comecei a mudar a minha postura em relação ao aluno. Comecei a me tornar mais próxima do aluno, mais acessível, conversar. E eu descobri que, na verdade, a gente ganha o jovem dessa maneira. Você pode ser rigorosa, mas tem que manter um canal de diálogo, senão... Isso eu aprendi na prática, eu achava que tinha que ter... E não é assim, gente, não é mesmo. Tem que ter diálogo, tudo para o jovem tem que ser assim, tudo você tem que explicar o porquê: “Não pode uniforme...” Não basta você dizer: “Não pode tênis cor de abóbora.” Ele vai perguntar para você: “Por que não pode?” Porque o jovem quer contestar, quer bater de frente, aí você tem que ter paciência para explicar para ele por que não pode: porque é uniforme, porque o uniforme - o nome já diz - é uniforme, uma coisa igual, tem que ser igual; porque quando você for, por exemplo, seguir o Exército, você vai ter que ir uniformizado, se você for sem o uniforme você vai sofrer as sanções lá das Forças Armadas, você vai ser preso. E se você for trabalhar na iniciativa privada e tiver o uniforme, você vai ter que vir uniformizada, senão você vai ser demitida.

A gente começou a adotar o uso do crachá. “Por que tem que usar crachá?” Aí você tem que explicar: “Você tem que usar crachá porque quando você for, por exemplo, visitar uma empresa você é visitante. Eles vão te obrigar, muitas empresas fazem isso” “Coloca o crachá, você tem que andar de crachá dentro da empresa.”

Tem que haver um diálogo sim com o jovem, você não tem que deixar de ser rigoroso, não tem que deixar de impor limite, mas tem que manter um diálogo. E hoje eu vejo a minha escola totalmente diferente. Isso é um motivo de orgulho, acho que isso vale a pena na educação, pelo menos para a minha equipe eu tenho certeza. Você vê o aluno participando, coisa que não acontecia. Você vê o aluno envolvido, a gente até fez uma peça de teatro por conta desse projeto 1968 que fizemos na escola. Foi muito bonito o projeto, os trabalhos excelentes, muito bonitos. A maioria dos alunos do grupo de teatro que fez a peça nunca tinha atuado, foram porque a gente pediu: “Vamos que vocês vão ganhar ponto.” Porque tudo com o jovem também tem que ser à base do ponto, não é? “Vai ter ponto!” Eles começaram a se sensibilizar e gostaram, e fizeram bem feito; hoje estão formando o grupo de teatro da escola. Então você vê o jovem, o aluno envolvido com a escola, você vê que o aluno começa a gostar da escola.

A gente está desenvolvendo o projeto da rádio, a rádio da escola. Você vê os alunos envolvidos, comprometidos. Os alunos vão lá, pegam a chave sempre dentro do horário, sabem quais são os horários, então você vê que o aluno começa a perceber que a escola não é um espaço só de conteúdo. É um espaço em que ele se socializa, troca, o lado humano, afetivo. Eu acho que isso é o mérito da educação. E isso eu aprendi também.

No início, quando assumi a direção da escola, eu achava que tinha que mudar a cabeça dos 2.500 alunos. “Eles têm que mudar!”  E aí, aos poucos, você também vai percebendo que você não precisa mudar a cabeça dos 2.500; se você mudar a cabeça de três alunos, o seu trabalho está feito. Esse é o mais bonito.

 

P/1 - Com certeza. E, Simone, voltando um pouquinho: você se formou e aí você prestou o concurso e entrou no CIEP depois de outros empregos?

R - Me formei, prestei concurso e fui, abandonei o trabalho na iniciativa privada e fui para a escola. Trabalhava na secretaria.

 

P/1 - Em que ano foi?

 

R - Foi em 1998.

 

P/1 - Então você trabalha há dez anos no CIEP?

 

R - Há dez anos no CIEP. No magistério eu tenho só quatro anos - cinco anos no magistério, na verdade. Porque eu continuei na direção dando aula em escola particular, depois fiquei só na direção.

 

P/1 - Quando você entrou na direção?

 

R - A gente entrou em 2001, então são sete anos.

 

P/1 - E como foi a sua relação com os professores também? Porque só depois você virou diretora, não é?

 

R - Difícil. Eu diria para você que hoje... Porque a gente pensa assim… Quando a gente fala: “Sou diretora de um CIEP de 2.500 alunos”, elas falam: “Nossa, coitada! Os seus alunos devem te dar muito trabalho!” Pelo contrário, quem me dá trabalho na escola são os professores e os funcionários, porque os alunos, os pais de alunos, eles levam numa boa.

Aluno é mais fácil de você lidar - aluno e pai de aluno. O professor e o funcionário já são mais difíceis de levar, esse é o nosso maior desgaste. Eu até entendo porque, na verdade, quando o professor está em sala de aula, ele não sabe as coisas que acontecem do outro lado.

Eu tenho para mim uma teoria: acho que todo professor tinha que ser diretor por, pelo menos, um ano, tinha que ficar fora de sala de aula para ver como as coisas acontecem. Porque é aquilo: se você faz um trabalho e o trabalho dá certo, ele é um sucesso, ótimo, você não fez mais do que a sua obrigação. Se você faz o trabalho e alguma coisa dá errada, errou, aí vem todo mundo, não é? Mete o malho na direção: “Ah, porque a direção... Porque não fez, porque errou, porque deu errado”. Então tem isso, é difícil você lidar. Se bem que a minha equipe de professores da escola é excelente. Tem um universo de cem professores; se eu tiver cinco professores que me dão algum trabalho é muito. Os professores são comprometidos, a gente deu sorte, eu dei sorte. A minha escola é uma escola bem estruturada, o grupo é bom, até os funcionários mesmo. É que tem aquela dificuldade, de você ter que todo dia conquistar e cativar. É um trabalho constante, não é? E você não pode ser impositiva, você tem que saber pedir: “Professor!” Com jeitinho eles fazem, os professores fazem. “Professor!” É desgastante mas, enfim, são as agruras da direção. “Professor! Vamos fazer o projeto.” “Ah, não quero escrever o projeto, não.” “Mas, pensa bem, vamos fazer!” “Depois a gente faz alguma coisa, ali na frente a gente compensa, vai ser compensador, vamos tentar trocar...” Aí o professor vai, e o funcionário também.

 

P/1 - Simone, o que é um CIEP? Para quem não conhece.

 

R - O CIEP é um Centro Integrado de Educação Pública, que foi uma concepção do Leonel Brizola. Na época do governo dele, na cidade do Rio de Janeiro - eu nem entrei no CIEP nessa fase, eu ainda estava fazendo ensino fundamental, estava na quinta série, sexta série. O Leonel Brizola, um político já falecido, montou, junto com o Darcy Ribeiro, que foi o grande mentor, o educador... Foi o grande mentor da concepção do CIEP.

O que o Darcy Ribeiro pensava? Que o CIEP tinha que ser um espaço em que o aluno ficasse o dia inteiro, então ele chegaria de manhã, tomaria o café da manhã, tomaria banho, almoçaria, haveria um horário para ele descansar, para dormir, faria atividade física. Então ele passaria o dia inteiro na escola, no Centro Integrado de Educação Pública - educação em horário integral - ficaria o dia inteiro e sairia às cinco, seis horas da tarde, já de banho tomado, penteado, refeições feitas, direto para casa. A ideia é muito boa, eu acho a ideia genial. E aí se criou, o Niemeyer projetou.

A estrutura do CIEP, que é uma estrutura única, acho que tem três modelos desse CIEP - só muda, acho, a quadra, o espaço menor, dependendo, não é? São dois ou três modelos do CIEP, mas basicamente do mesmo jeito. A ideia é boa, meia parede para haver uma socialização, para haver uma integração dos alunos com os professores. A ideia é muito boa, só que na prática o que acontece é que foram trocando os governos e a coisa foi meio que... Trocou o governo, já não acreditavam naquela proposta. Parece que no início, na época do Brizola, funcionou muito bem. Depois foi havendo um desgaste e aí começou a faltar verba, a faltar recursos humanos nas escolas, porque para você fazer esse sistema de horário integral tem que ter todo um aparato humano, aparato técnico, tem que ter recurso disponível. E aí, mudou o governo: “Aquela verba não vai ser mais destinada para isso”, então... acabou. E aos poucos foi acabando, essa coisa do horário integral de educação acabou.

Eu sou... Não sou a favor do horário integral, sou a favor da educação integral, porque o que a gente tinha era assim, a educação integral: o aluno, de manhã, tinha aulas do currículo básico e à tarde tinha atividades de Educação Física, Artes. Tem que ter isso? Claro que tem que ter isso. Também nisso sou a favor da educação em horário integral. Por exemplo, você tem um aluno do terceiro ano do ensino médio - ele tem que ter tudo isso, mas também tem que ter, de repente, uma aula de reforço, não é? Então ele não tem que ter só dois tempos de Química, ele tem que ter mais tempo de Química, porque ele vai tentar uma vaga numa Universidade Pública ou tentar uma vaga no mercado de trabalho.

Eu acho que a educação integral é uma coisa mais ampla. Acho que é por aí, sim, porque a defasagem é muito grande, o tempo é curto para dar conteúdo. A gente tem esses problemas inerentes à educação pública - salário baixo, o professor fica desestimulado e aí [acontecem] muitas licenças. O aluno fica sem aula, enfim...

 

P/1 - E atualmente, como se dá a gestão dessa escola?

 

R - Nós somos três diretoras. Eu sou a diretora de Junta Pedagógica, tem a diretora-geral, tem a outra diretora de Junta que cuida mais da parte administrativa, parte funcional, parte de pessoal. E nós dividimos bem. Você trabalha bem dividido, mas a gente procura sempre estar bem informada do que a outra está fazendo, porque nós não estamos presentes o tempo todo - são três turnos, das sete da manhã às dez da noite. A gente procura sempre passar uma para a outra o que está havendo na escola. A gente se encontra, tem reuniões semanais, e eu diria hoje que a escola... É aquilo que eu falei, está mudando, o perfil da nossa escola está mudando e eu fico muito feliz por isso, em saber que tenho uma pequena parcela de responsabilidade. Eu, junto com toda a equipe de professores, de orientação educacional. A gente caminha... É aquilo que eu falei também, que a escola caminha isoladamente; na verdade, a grande realidade é assim.

A Secretaria de Educação é importante, as metas são importantes, mas acho que a escola consegue muito bem caminhar sem o auxílio da Secretaria. A gente desenvolve projetos excelentes na escola, tudo da escola. E a escola é autônoma, a escola é autossuficiente - claro, autossuficiente é exagero meu, mas a escola consegue caminhar muito bem e às vezes a gente se sente meio abandonado por conta disso. Na verdade, o governo do estado só lembra que a escola existe para criticar, por conta de algum problema que teve, para elogiar... Enfim, é inerente à educação. O importante é o trabalho que a gente faz lá dentro, que é muito bom.

A gente é uma gestão democrática; na nossa gestão os alunos estão começando a formar o Grêmio, tem duas chapas já, que vão concorrer. E acho que democracia é isso, mostrar a eles que eles têm deveres. Porque isso é importante, é o que eu falo sempre para eles. Meu lema é esse: “O mundo lá fora é cruel! Não pense que aqui na escola a gente vai ser permissiva e vai deixar vocês fazerem tudo, porque lá fora não vai ser assim.” Então, lá na escola, horário de formar é um trabalho árduo diário, até porque eu é quem cuido dessa parte e nem sempre eu estou lá, na entrada. Tem umas coordenadoras de turno, mas que nem sempre estão envolvidas. Às vezes uma falta, por conta de problemas particulares, e aí você tem aquela coisa de todo o dia.

Você também tem que ser consistente, o jovem precisa disso. Se um dia não tem ninguém para formar, eles não vão formar; tem isso, eles são adestrados, não é? Então, se você está lá todo dia… Porque tocou o sinal, eles não formam a não ser que desça alguém e fale: “Vamos formar!. Aí eles formam; se ninguém falar para eles formarem, eles não formam. Mas eu desço e falo: “Gente, vamos formar!” Todo mundo vai formando bonitinho, estão adestrados. Então, tem forma, a gente procura ser rigoroso com o uniforme, horário de entrada, a gente faz até além do que a gente tem condições de fazer.  (risos) É um trabalho, mas eu acho que é um trabalho que vale a pena, porque a gente tem sempre elogios.

A gente está cantando o hino, coisa que você não vê mais em escola nenhuma, não é? É o momento em que os alunos param e cantam. Eles ficam quietinhos, cantam o hino bonitinho na hora da forma - são 2500 alunos, imagine.

 

P/1 - O que é a forma?

 

R - Eles formam filas mesmo, por turma e turno. De manhã... Não são 2500 alunos de manhã, são cinquenta e quatro turmas com uma média de quarenta alunos, são dezoito turmas de manhã com a média de quarenta alunos. Todo esse contingente no pátio formado um atrás do outro, enfileirados, com crachá - agora o crachá já está meio que esquecido, mas no ano que vem a gente bota caderneta para eles. (risos) Eles formam para subir, chama turma por turma, mas se o professor não chegou ainda, eles saem da forma. A gente tem que preparar... Eu falo sempre para eles... Acho que a organização de uma escola começa lá embaixo; se você entra numa escola em que o aluno vem do jeito que quer - ele vai de chinelo, de sandália, de bermuda, de blusa rasgada, vai sem o uniforme, entra na hora que quer, sobe na hora que quer - a impressão que você tem do colégio é de bagunça, de desordem. Então a disciplina começa lá de baixo, a gente conversa com eles e eles entendem perfeitamente. A gente não tem problema, não tem atrito, eles entendem, eles gostam. O jovem precisa de limite, é só você mostrar a eles o porquê da gente fazer isso.

 

P/1 - Você fez um comentário bacana, que você está colocando, junto com a sua equipe, teatro, filme, que são elementos importantes, não é? Quando você estudou, você lembra de algum tipo desses recursos pedagógicos diferenciados que você tenha vivido?

 

R - Não. Eu acho que essa coisa de recursos pedagógicos, essa coisa de trabalho com projeto, é mais recente. Eu lembro de que na minha época não tinha isso. E na minha época não faz tanto tempo assim, foi década de 80, não é? Foi há vinte anos,  então não tinha isso, era realmente... Era conteúdo. Não me lembro. Filme? Acho que filme uma vez sim, foi no ensino médio, uma vez ou outra, mas era muito pontual, não era uma rotina. E hoje a educação está caminhando para isso.

É aquilo que eu falei, do trabalho que se quer da escola. O que se quer da escola hoje não é a mesma coisa que se queria da escola de vinte anos atrás. Não sei se é melhor ou pior, sinceramente. Infelizmente ou felizmente, é a mudança dos tempos. O perfil mudou, o jovem de hoje não é o mesmo jovem de vinte anos atrás. Hoje a gente concorre com a Internet, com lan house, com computador, com máquina digital, com mp4, com iPod - é uma concorrência desleal. Imagine o professor na sala, com giz, apagador e o quadro-negro, e o aluno lá pensando no MSN, no Orkut, no vídeo que ele vai baixar da Internet - é uma concorrência desleal, muito desleal. E aí a escola tem que acompanhar, a escola tem que tentar integrar, tem que tentar se modificar, e esse é o maior desafio da educação pública - não só da educação pública, da educação como um todo.  É o maior desafio você conseguir se adequar ao mundo moderno, à educação moderna. É difícil.

 

P/1 - E como o CIEP Ulisses Guimarães está lidando com isso?

 

R - Aí você esbarra em alguns problemas, porque para você acompanhar essa mudança… A primeira coisa que o professor sinaliza é salário. O salário do professor, se não me engano… Eu nem olho mais o meu contracheque mesmo, mas talvez o vencimento de um professor esteja em 516 reais, não é? O professor formado, com nível superior, pós-graduação, mestrado. Eu tenho professores na escola que têm doutorado, que estão fazendo doutorado na UFRJ - tem uma professora que fez doutorado no IME e ganha 516. Enfim, o vencimento dela é esse; existem gratificações que a gente ganha, que não são incorporadas ao salário e que o governo pode tirar a qualquer momento - trocou o governo, ele pode tirar a nossa gratificação, o que ele não pode tirar é o seu vencimento. Então, a primeira coisa que o professor sinaliza é: “Eu vou trabalhar em projetos ganhando 500 reais?” É o seu primeiro embate, é o primeiro embate que você tem que travar.

Depois você tem a falta de recurso financeiro para a escola. Existe uma verba que é destinada, mas uma verba insuficiente. A estrutura do CIEP é uma estrutura enorme, é um espaço muito grande. Você tem uma escola enorme; você tem anexo, que é a biblioteca, com um laboratório; você tem uma quadra enorme, que está depredada; você tem um espaço que é aberto.

O CIEP é todo cercado por grades, ele não tem muro; é a ideia da integração do Darcy Ribeiro e da arquitetura do Niemeyer. A escola não tem muro, é uma escola que foi feita para se integrar com a comunidade mesmo. O que acontece? A comunidade entra na escola, invade. A gente não fecha portão, o portão fica aberto para ninguém pular, para ninguém tentar arrebentar a grade. Então eles entram no final de semana, a comunidade entra, a comunidade usa a quadra, nem sempre usam da maneira adequada, depreda, picha, destrói. E aí, cadê o governo do estado para mandar uma verba extra para a gente consertar a quadra? Eu estou falando assim, isso é um problema geral da educação, não é do governo do estado. Isso é um outro problema que a gente tem: colocar em prática isso como? A gente tem que formar parcerias, o grande lance hoje na educação pública é formar parcerias, como a gente tem parcerias lá com o Instituto Telemar, uma sala de laboratório de informática. A gente começou um projeto super legal, deu muito certo os alunos usarem os computadores, muitos não tinham computador - porque a gente também tem isso, tem uma parcela de alunos da nossa escola que não tem acesso a computador. Aquilo para eles foi o primeiro contato, como foi o primeiro contato com o teatro, com a apresentação de balé. O papel da escola hoje é esse: é você socializar o seu aluno, é você mostrar ao aluno que existem ‘n’ possibilidades, que ele tem que se abrir, que ele tem que conhecer - se ele vai gostar ou não, aí é uma questão pessoal, mas ele tem que ter acesso àquilo. O papel da escola é esse: é dar ao aluno condições de ter acesso, mas para nós darmos condições ao aluno de ter acesso, a gente tem que ter um suporte. O projeto de 68, que a gente desenvolveu na escola, foi com muito amor, muito carinho. A gente convenceu todo mundo, conseguimos microfone sem fio, aquele caríssimo, com a colaboração de uma empresa, com a colaboração de fulano, do sicrano, do comerciante; tudo foi na base da colaboração. Se eu mando um projeto desses para o governo, eu não sei se vai sair, possivelmente não vai sair uma verba para me incentivar. Agora me parece que está mudando isso, eu acho ótimo, tomara! Estou torcendo para que isso aconteça, porque o papel principal da escola hoje é socializar o aluno, não é?

 

P/1 - Eu queria fazer uma pergunta. Relembrando tudo isso que você estava falando, que realmente é importante a questão dos recursos pedagógicos para a diretoria do Ulisses. Qual é a disposição de recursos pedagógicos hoje para os professores poderem usar ou mudar um pouco? O que ele tem hoje de básico?

 

R - Recurso, muito pouco. A gente tem hoje um laboratório de informática que conta com equipamento do projeto que a gente tem com a parceria do Telemar, com a Oi Futuro agora. Nós conseguimos dez computadores, remanejados de uma outra escola, de uma escola noturna que não tinha lugar para colocar os computadores. Enfim, não tinha lugar, eu consegui que fizesse o remanejamento desses computadores para atender uma escola de 2500 alunos.

Com dez computadores você não atende a uma turma de quarenta alunos, não é? Aí você tem que revezar. É mais um motivo para desestimular o professor, tem que dividir a turma; os alunos reclamam, o trabalho não rende. A gente tem esse laboratório de informática, a gente não tem um datashow, que é o nosso sonho. A diretora-geral falou que vai reservar uma verba agora, reservar um dinheiro, vai pegar e vai ver se consegue comprar um datashow. (risos) Nós temos televisão, DVD, só. Temos um laboratório de Biologia - esse foi realmente um projeto do governo do estado, foi dado para a escola um laboratório de Biologia, de Química, a gente quer ativar esse laboratório agora.

Nós temos a rádio. A rádio foi inicialmente dada, doada - não sei qual o termo específico - só sei que a gente recebeu a rádio sem saber que ia receber. Recebemos os equipamentos da rádio não completos, quer dizer, uma mesa de som com alguns canais e quatro caixas amplificadas. Foi esse material que a gente recebeu do Governo Federal. E aí nós apostamos na ideia, o governo do estado pediu para a escola se envolver e montar a rádio. Eu gostei muito da ideia, porque sempre pensei que através da rádio a gente conseguiria começar, seria o ponta a pé inicial para começar a envolver o aluno. Ele se sentir envolvido, começar a participar da programação da rádio.

A gente tem várias ideias para a rádio, só que a gente começou na base do jeitinho. A gente pegou um funcionário que fez uma gambiarra, puxou o fio, ligou uma caixa de som e as outras caixas de som… (risos) Os sons sumiram, foram roubados, a gente até fez uma ocorrência, então a gente funciona precariamente hoje. A gente gostaria de ter um subsídio maior; a gente fez um ofício para a Secretaria de Educação pedindo verba para conseguir um computador, para conseguir um equipamento de som, amplificadores melhores, mas a gente está trabalhando muito bem com o que a gente tem. Não é o ideal, mas é o que a gente está podendo fazer, e a gente tem que começar... Se for ficar também se lamuriando: “Ah, não tem dinheiro...” Não: “Gente, vamos começar com o que tem, e daí melhorar.”

A gente já conseguiu um computador, conseguimos uma verba com o BNDES - hoje em dia o segredo é parceria, você encher o saco das empresas: ”Por favor!” A gente conseguiu vinte computadores doados, estão lá. Doação também tem isso: eles não estão num estado muito bom, mas a gente consegue... De vinte, a gente consegue montar uns cinco, está ótimo. Pegamos o computador, colocamos lá na sala da rádio e o projeto da rádio está ótimo, está indo de vento e popa. Eu estou muito feliz.

 

P/1 - E o “Tonomundo”... Entrou quando? Como foi a entrada desse projeto?

 

R - A gente conseguiu a parceria com o Instituto Telemar, era o Projeto Telemar Educação - PTE. Foi o início. Foi em 2002, a gente recebeu o contato do projeto.

A gente tinha acabado de assumir a direção da escola. Houve um critério, que eu nem sei por que, mas, para nossa felicidade, a nossa escola foi escolhida - acho que por se situar em uma área carente. Escola grande...

Nós pegamos um profissional da escola que hoje não está mais lá, ele foi capacitado. O projeto é muito bom, projeto de parceria com a Universidade de São Paulo - Universidade do Futuro. Esse professor foi capacitado em São Paulo, ficou muito legal. Nesse período a gente recebeu os dez computadores; nosso laboratório estava desativado, uma outra gestão tinha tido um problema. Acho que roubaram, porque o pessoal usava e é a coisa do mau uso do bem público. Infelizmente, a falta de educação das pessoas é terrível, aí se começou a destruir a máquina. Descobriram que algumas peças foram roubadas, então o laboratório foi fechado.

Nós já recebemos a doação da Telemar, nossa parceira - Instituto Telemar, que hoje é Oi Futuro. E aí nós montamos a sala; os alunos usavam o laboratório, os professores iam trabalhar no laboratório porque tinha coisas tanto de disciplinaridade [quanto] coisas que tinham a ver com a escola do Oi Futuro, e foi muito legal. A comunidade… Como todos usavam, nós tínhamos horário para atender a comunidade do entorno da escola. Havia comerciantes que iam ao laboratório para usar, para aprender a montar folder de divulgação do “comerciozinho”. A moça que é costureira, ela quer divulgar; ela ia à escola e tinha um horário para ela. Nessa época, a gente tinha o professor lá, o professor Anderson, que fazia um trabalho excelente. Montava o layout, o panfleto, aí rodava e imprimia. Ela só ficava encarregada de tirar a xerox. Foi muito bom o projeto.

Hoje a gente está um pouco desativado por conta de alguns probleminhas nas máquinas, que vão ser trocadas em breve, mas a gente está sempre participando. Agora nós temos mais computadores na sala.

Na verdade, a intenção do projeto Oi Futuro, primeiro, era a inclusão digital, os alunos terem acesso ao mundo digital; por isso, eles escolhiam aqueles locais, até por isso a escola foi escolhida, por ser uma área carente de recursos. E aí os alunos começaram a valorizar, os próprios professores montavam aula no laboratório, naquele ambiente... Os alunos adoravam, [era] muito bom. Agora tem uma nova coordenadora do projeto, nós desenvolvemos um projeto de tirinhas, com parceria com o Oi Futuro. Ficou muito legal também, o concurso foi no início desse ano.

 

P/1 - Qual o maior desafio que você vê nesses projetos de inclusão digital?

 

R - Olha, eu diria que vão ser sempre esses, eu acho. Qualquer proposta inovadora - que não é mais inovadora, em 2002 até era, não é? “Escolas capacitando alunos, usando o laboratório de informática, trabalhando disciplinaridade, todos os alunos trabalhando disciplina em conjunto...” Hoje eu diria que o nosso maior desafio, o desafio do ensino público é você envolver o professor. Aí você esbarra no problema da falta de salário digno - aquele discurso velho mas que, infelizmente, é constante - e a falta de recursos financeiros mesmo. Você tem um laboratório, você tem que ter todo um recurso, todo um suporte, tem que haver manutenção, e isso o Instituto Telemar dá para a gente, o Oi Futuro, o projeto é completo. Agora, tem que haver um suporte, recurso humano e financeiro para você conseguir montar o projeto.

Isso não é um impeditivo da prática desse trabalho. É mais difícil, é desafiador, a gente sabe que vai ter mais trabalho, mas quando a gente consegue é muito gratificante, então isso que é o grande lance da educação, eu acho: fazer mágica com o pouco que tem, e você conseguir fazer. E você ver o produto.

Aquilo que eu falei no início: você tem 2500 alunos. “Puxa, eu não vou conseguir envolver todo mundo.” Mas, se eu conseguir envolver cinco alunos, se eu conseguir mudar a mentalidade de cinco alunos, nossa, meu trabalho está feito. É um universo novo em que você abre a cabeça daquele aluno, daquele jovem. O que ele vai fazer com isso dali para a frente eu não sei, cabe a ele descobrir, mas ele vai ter acesso. Se a gente conseguiu, a equipe conseguiu mostrar a ele que existem todas essas possibilidades, coisas que ele não conhecia, coisas que talvez ele não tivesse acesso se não fosse por meio da educação…

Do trabalho que a gente faz - a equipe toda, junto com os professores, direção, equipe pedagógica - eu acho que o que gratifica mesmo é a gente conseguir driblar todos esses problemas e no final receber os elogios dos alunos e dos professores. Nossa, não tem dinheiro que pague isso. Mas ninguém gosta de trabalhar de graça, esta é a grande verdade, fazer o quê?

 

P/1 - Simone, você é uma pessoa nova, não é?

 

R - Sou.

 

P/1 - Está há dez anos no CIEP, já está como diretora da escola, não é?

 

R - Já faz seis, sete anos...

 

P/1 - Tem uma visão muito grande de recurso, de planejamento. O que você espera para o CIEP agora, um pouco mais para frente? E o que você espera como Simone dentro do CIEP, a mudar?

 

R - Olha, o que eu espero daqui para a frente? A minha proposta, quando eu topei entrar para a direção da escola... Eu estou falando Simone enquanto diretora, estar diretora, porque o meu papel de educadora é sempre o mesmo, é conseguir passar alguma coisa para eles. Que não seja para todos de uma turma; se você passar para um, estou realizada, estou feliz.

Enquanto diretora, é um período da minha vida, é passageiro. Não vou ficar para sempre na direção e nem está em meus planos, até porque eu quero estudar.  Quando eu entrei na escola foi uma coisa que me marcou muito, observar como o aluno não tinha uma aproximação com a escola. A escola, para o aluno, era só para ele entrar, assistir a aula e ir embora. Isso era uma coisa que me incomodava, porque o aluno não tinha carinho pela escola e eu sentia falta disso. A minha proposta pessoal, da direção - das outras diretoras também, a proposta da equipe - era fazer com que esse aluno passasse a gostar da escola, que ele não torcesse o nariz: “Tem que ir para a escola estudar, assistir aula e ir embora...” Eu queria que o aluno visse a escola dessa maneira: “Puxa, hoje eu tenho que ir para a escola, porque hoje vai ter apresentação do projeto, a apresentação do grupo de teatro...”. Não é? É o diferencial! Eu queria que o aluno sentisse algum carinho pela escola, e eu acho que a gente está conseguindo. O meu trabalho não está feito - claro que não, eu seria muito pretensiosa se dissesse isso, mas acho que está começado. Eu acho que se no ano que vem eu resolver que não tenho mais o que dar na direção, se eu sair, vou achar que o meu trabalho não foi inteiramente realizado, mas acho que consegui mudar alguma coisa. Isso é o importante.

 

P/1 - E você, hoje, como é que está? Você mora sozinha? É isso?    

 

R - Não. Estou morando com a minha mãe e com a minha irmã. Eu morava com uma prima. A gente estava dividindo o apartamento, eu ia morar sozinha no apartamento, mas aí a minha mãe ficou doente, fez uma chantagem e me convenceu a ir morar com ela. (risos) Eu sou a que mais tem disponibilidade de horário. Ela está com problemas de saúde, então é aquilo: ela se sacrificou tanto por mim, nada mais justo do que me sacrificar um pouco por ela, ela merece. Então hoje eu estou morando com a minha mãe e a minha irmã novamente.

P/1 - E como é voltar a morar com a mãe e a irmã?

 

R - É tão bom morar com a minha mãe - quer dizer, é bom, mas... Não é bom completamente, mas tem muitas vantagens. Tem desvantagens, mas a gente leva. Vantagem de você ter roupa lavada, não precisa cuidar da casa, a mãe deixa tudo prontinho, não é? Porque a minha mãe é uma supermãe, cuida da minha roupa. Reclama, briga comigo, eu brigo com ela, mas a gente se entende bem pra caramba. E é bom, não é? Ter tudo fresquinho, não precisa se preocupar de pagar contas. “Ah, eu tenho que lembrar de consertar...” A gente divide bem as tarefas, é bom também. Minha mãe é super tranquila, não me cobra, não fica no meu pé. Eu já sou bem crescidinha, não é? (risos)

 

P/1 - Simone, fora da escola e fora da casa de sua mãe, que agora está voltando, o que mais você faz? Falou que está gostando de sair e descobrir a noite...

 

R - (risos)

 

P/1 - Como é que está aí?

 

R - É. Sempre gostei e gosto muito de sair, mas ultimamente eu não tenho saído muito porque vou tentar o mestrado agora no Fundão, então estou estudando, voltei a estudar. Na verdade, eu terminei a faculdade e fiz três pós-graduações. Cansei de pós-graduação, chega de pós-graduação, três é demais. Fiz uma em Marketing, fiz uma pós-graduação em Gestão na Escola Pública, fiz uma pós-graduação em Língua Portuguesa, no Fundão. E agora estou fazendo uma disciplina do mestrado de Linguística; estou como uma boa aluna, uma aluna especial, para tentar montar o projeto para o ano que vem, para apresentar e ver se vai ser aprovado.

Agora eu preciso cuidar de mim, já vi que a escola está encaminhada. Está mais ou menos no caminho, agora eu tenho que me dedicar menos, até porque eu sou jovem. Nos meus planos nunca esteve ser diretora, isso nunca esteve nos meus planos, mas aconteceu. Estou aprendendo muito, mas agora tem que abrir outros canais, senão a gente também fica muito atolada. Isso é bom para quem já está em fim de carreira, quem está para se aposentar e passa os restos dos anos lá - dez anos, quinze anos -, depois se aposenta.

 

P/1 - Eu percebi que você fala muito sobre as referências que você tem de mulheres, da sua mãe, da sua tia, da sua irmã. Alma feminista? Como é?

 

R - Eu não sei se é rotular - eu não gosto muito de rótulo - mas eu diria que não sei... Isso é uma contingência, as minhas referências foram femininas, acho que isso é bom. Talvez fosse preciso eu ter uma referência mais masculina na minha vida - acho importante, claro, talvez por isso hoje eu não pense em casar e ter filhos. Eu penso assim: para casar tem que fazer uma coisa direita, não é? Eu ainda sou daquele tempo em que “casamento é para sempre”. Nada é para sempre, mas a gente casa… Quem casa pensando em se separar, alguma coisa está errada. Eu acho que para casar... Até porque você vai ter filhos, naturalmente, e acho que a referência masculina é importante. Talvez por isso eu não pense em casar, talvez isso esteja ligado, por eu não ter tido referência masculina. Pensa bem, eu vou para não ter, então é melhor não casar.

A referência feminina é importante, eu não sei se sou feminista. Não sei, não gosto de rótulo, mas acho que a gente encara a vida de um outro ângulo. Na verdade, a alma feminina, em oposição à alma masculina… Nós somos mais subjetivas em tudo, o homem é mais racional naturalmente. Então acho que tenho um olhar mais emocional para as coisas, acho que até o fato de estar na educação... Gosto muito de gente, gosto muito de lidar com pessoa, com ser humano. Eu não saberia, por exemplo, trabalhar numa indústria automobilística, lidar com objetos. Eu não sei, eu gosto de trabalhar com gente, de olhar no olho, de ver a sensação. Às vezes a gente erra, porque lidar com ser humano é muito difícil, lógico. É muito mais fácil você lidar com um lápis, uma fábrica de lápis, fabricar lápis em série, qual o problema que você vai ter? Lidar com ser humano, que não existe a produção em série - cada um é diferente - é muito complicado, mas é legal. E o que a gente aprende... Acho que o aprendizado que a gente tem, lidando com o ser humano, para a vida, para todos os níveis de sua vida, é muito bom, eu gosto muito. E acho que é isso: a referência feminina possibilita você poder ter uma visão mais emocional. Claro que não deve ser só assim, a gente tem que ser racional também. A coisa do equilíbrio, que eu acho que todo ser humano tem que buscar e tentar se equilibrar. Então, às vezes, eu tento ser racional, vivo buscando ser racional. Acho que, às vezes, eu sou muito emotiva nos meus relacionamentos, então eu fico: “Tenho que ser mais racional, não tem que pensar com o coração, tem que pensar com a cabeça, mas só com a razão...” Essa é a minha busca. Tento ser mais racional, talvez tentando ter uma visão mais masculina das coisas.

 

P/1 - Tem alguma coisa que a gente não perguntou que você gostaria de deixar registrado?

 

R - Acho que não. Acho que o que é mais importante nesse momento da minha vida é a conquista da escola, que é uma conquista minha também. Isso é uma coisa que está me realizando muito, coisa que tem me deixado muito orgulhosa.

Ninguém é feliz o tempo todo, mas a gente tem momentos de felicidades, e esse é o momento em que eu estou muito feliz, em que eu estou percebendo que não só eu, a minha equipe que organizou, que está acompanhando o crescimento da escola, o envolvimento dos alunos; eu acho que esse desafio a gente está conseguindo vencer. Agora a gente tem outro desafio, agora é outra parte: o desafio de você melhorar os índices de rendimento dos alunos, que é um desafio grande. Agora é você trabalhar com concreto, com nota, com rendimento. O rendimento está baixo, os alunos estão com um rendimento muito baixo nas matérias; como é que a gente vai trabalhar isso? Agora é um outro desafio.

Eu falei que não ia ser mais diretora, mas... (risos) Agora que eu estou dedicada a estudar, a cuidar de mim, estou achando que não vou não. (risos) Estou achando que vou ter que me dedicar a isso, porque as notas estão baixas. Enfim, lidar com ser humano é isso, você tem um desafio a cada momento, não é?

 

P/1 - E você gosta muito, não é?

 

R - Eu gosto. Eu descobri que gosto mais... É meio que um contrassenso, não sei. Gosto mais de estar nos bastidores, eu gosto mais de estar fora da sala de aula, fazer a coisa acontecer do lado de fora. É muito interessante e eu estou gostando mais do que ficar em sala de aula.

 

P/1 - Eu ia ter que perguntar assim... Algum desafio pessoal, algum sonho almejado? A Simone fora da escola.

 

R - Fora da escola...

 

P/1 - Mas está tão...

 

R - Eu quero muito... O meu desafio pessoal agora é passar no mestrado. Tem que ser, a gente tem que tentar equilibrar. É difícil quando você tem essa visão emocional e você é pouco racional, fica difícil você equilibrar. Mas eu acho que o meu desafio maior nesse momento é o mestrado, eu tenho que focar no mestrado. Agora tem outro desafio que está surgindo, não é? Não sei.

 

P/1 - O que você achou de contar a sua história para a gente?

 

R - Nossa, gente! Eu pensei que estivesse na psicanálise aqui, um divã, falando tudo, descobrindo tudo da minha vida. (risos) Segredos que são inconfessáveis, que eu não posso contar, mas acho que falei tudo da minha vida, foi bom! Um momento de catarse, se expurgar, liberar.

Quase chorei aqui duas vezes. Eu falei que sou emotiva, mas não sou de chorar, não sou chorona. Ainda bem que… Se vocês me incentivassem, ficassem perguntando, eu ia começar a chorar aqui, ia ser uma tristeza. Foi bom. Catarse, essa coisa que eu falei para vocês de descobrir, da escola, como os alunos estão se comportando, isso é bom, me faz muito bem falar sobre isso. Porque aquilo é o profissional, a gente tem que se realizar no profissional. A gente se realiza, seja da maneira que for, dentro da sua realidade; não precisa ser professor, não precisa ser engenheiro. Se você for uma faxineira - não estou desmerecendo a profissão -, mas está se realizando no seu trabalho, puxa, que bom! Está conseguindo, é um momento de felicidade; é se realizar na sua atividade, seja ela qual for.

Quanta gente tenta? Quantos engenheiros trabalham com a engenharia e não são felizes sendo engenheiros, talvez preferissem ser palhaço de circo. Eu acho que é por aí. Falei muito.

 

P/1 - Muito obrigado por ter aberto assim a sua história.

 

R - Obrigado a vocês por terem me dado esse espaço de catarse. Muito bom, estou me sentindo muito leve.

 

P/1 - Obrigada!

 

                                    


 

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