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História

Tensão e Tesão

História de: Maria Rosa de Oliveira Magalhães Pinto
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/12/2021

Sinopse

Maria Rosa descreve a rotina de trabalhar embarcada numa plataforma de petróleo na Bacia da Campos, local predominantemente masculino, a P23. Exerce a profissão de enfermeira e conta alguns fatos que presenciou trabalhando na plataforma, como o naufrágio da P36.

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História completa

Projeto Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Maria Rosa de Oliveira Magalhães Pinto Entrevistada por Cláudia Fonseca Macaé 04 de junho de 2008 Código: MBAC_CB028 Transcrito por Denise Yonamine Revisado por Valdir Canoso Portásio P/1 – Maria Rosa queria começar a entrevista com você nos dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R - Maria Rosa de Oliveira Magalhães Pinto, nasci no Rio de Janeiro no dia 22 de janeiro de 1964. P/1 – E esse Magalhães Pinto tem a ver alguma coisa com aquela família do Magalhães Pinto ou não? R – Não, são dos meus casamentos anteriores. O meu nome de batismo é Maria Rosa de Oliveira, aí o Magalhães é do meu primeiro casamento e o Pinto do meu marido atual. P/1 – Qual é a sua formação Maria Rosa? R – Eu sou técnica de enfermagem do trabalho, exerço essa função aqui na Petrobras. Sou fisioterapeuta e faço um MBA [Master of Business Administration] em Cosmetologia. P/1 – E você entrou na Petrobras quando? R – No dia 03 de janeiro de 1994. P/1 – Em 1994. R – É. P/1 – Como é que você entrou? Você fez concurso? R - Fiz concurso. Bom, a história foi assim: eu já tinha sido contratada pela Petrobras em 1988, 1989. Gostei do tipo de trabalho, mas aí meu contrato acabou, eu fui pro Rio de Janeiro e fiz um concurso pra Petroflex, né. Passei pra Petroflex, mas eu queria voltar a embarcar. Então eu tive que fazer um novo concurso e aqui estou. P/1 – Quer dizer que nessa primeira fase que você trabalhou na Petrobras você também trabalhou embarcada? R – Trabalhei embarcada. P/1 – Como é que é essa experiência? Uma mulher trabalhando embarcada? R – É diferente, né? Porque você fica confinada, você fica longe da sua família e eu já tinha um filho. Eu tinha um filho e era muito mais complicado ainda administrar isso, mas consegui administrar isso longe. E aí eu achava que dava certo, não gosto do trabalho convencional, não gosto de levantar, pegar condução, trabalhar, não gosto desse trabalho administrativo, gosto de um trabalho mais dinâmico e trabalhar embarcada é assim. P/1 – É assim, né? O pessoal costuma dizer que existe a tensão pré-embarque e você passou por isso Maria? R – Tensão pré-embarque e tensão pós-embarque. P/1 – Pós-embarque também? R – É, porque você sai do convívio da sua família, do convívio dos seus amigos, do que você gosta muito de fazer e tem que encarar outra realidade, um lugar de perigo eminente, de muita responsabilidade e eu trabalho com pessoas, eu trato da saúde das pessoas, então é muito mais complicado. P/1 – Quando você fez o concurso você já veio direto aqui pra Bacia de Campos? R - Já, eu fiz o concurso pra Bacia de Campos. P/1 – Era um concurso específico então? R - Um concurso específico, pra trabalhar embarcada, ou em terra, ou os dois. P/1 – Tá, e você mudou, você morava em Macaé ou não? R – Não, eu moro no Rio de Janeiro, sou carioca, continuo tendo residência no Rio de Janeiro, eu me casei com um macaense e a gente divide as duas cidades, eu fico um pouco em Macaé e ele fica um pouco no Rio de Janeiro. P/1 – Você hoje trabalha embarcada ou não? R – Continuo trabalhando embarcada, trabalho na P23. P/1 – Em quais plataformas mais você trabalhou? R – Ah, eu fui volante, então eu trabalhei em inúmeras. Trabalhei em Vermelho 1, Vermelho 2, Vermelho 3, Cherne, Namorado, Garoupa. A primeira plataforma que eu embarquei foi Garoupa. P/1 – É a mais marcante? R – É a mais marcante, mas a plataforma atual também, é pelo tempo que eu já estou. P/1 – Hoje você está na? R – P23. P/1 – P23? R – É, e vai fazer dez anos este ano que eu estou na P23. P/1 – E me diz uma coisa Maria Rosa, como é que esse convívio numa plataforma que tem pessoas de vários lugares do Brasil, essa diversidade, como é isso, o relacionamento com os colegas? R – Bom, em relação à Maria Rosa acho que isso é muito bom, porque eu me deixo aberta pra essas coisas, pra ir conhecer o lado deles, a cultura deles, né, a gente acaba tendo um relacionamento bom, porque eles também se permitem quando eu permito isso, a me conhecer melhor, entendeu? Isso com muito respeito, né? E a gente acaba sendo um pouco família, isso acaba passando pra casa, hoje alguns conhecem filhos, mulheres, entendeu? Já vieram mulheres de amigos e ficaram na minha casa, filhos ficaram sob a minha responsabilidade, é um intercâmbio, né? P/1 – Isso, é! R – É um intercâmbio. P/1 – E é gostoso esse contato, né? R – Bastante, eu acho que isso aí é que é o tesão de estar embarcada, ter esse intercâmbio. P/1 – Você é uma pessoa extremamente bem-humorada, quer dizer, esse bom humor também ajuda a enfrentar esse tempo de embarque? R – Bastante, bastante. Mas eu tenho os meus momentos negativos, tenho os meus momentos de mau humor, de tristeza, de sofrimento, mas aí a gente resolve, nada que uma ida pro camarote um pouquinho, respirar fundo, fazer alguma coisa de que gosta, sabe, e volta lá... P/1 – O que você faz pra relaxar quando você está embarcada? O que você gosta de fazer? R – Bom, o que eu gosto de fazer, eu gosto muito de ler sobre a parte nova da minha profissão agora, o MBA, né, e eu gosto muito de ler sobre cosmética, sobre beleza. Bom, eu gosto também de conversar, aí eu ligo pros meus amigos da mesma área que estão um pouco afastados e a gente troca algumas bolinhas lá, a gente conversa alguma coisa. P/1 – Tem momentos, então, efetivamente de solidão? R – Bastantes, bastantes, a gente tem momentos de solidão, mas a gente tenta resolver isso, né, liga pra casa, a gente tem essa facilidade hoje de ligar pra casa, de mandar um e-mail e de falar com quem a gente está com saudade. P/1 – Legal. E, Maria Rosa, nesse seu tempo de embarcada, de Bacia de Campos, os equipamentos com os quais vocês trabalham ou mesmo na tua área específica isso mudou muito? R – Mudou bastante, mudou bastante. P/1 - Você acha que mudou pra melhor? R – Mudou pra melhor. P/1 – Por quê? R – Por exemplo, quando eu embarquei pela primeira vez, a nossa enfermaria tinha basicamente os instrumentais e uma maca e medicações, né, e contava com o nosso conhecimento, mais com esse conhecimento, com o estudo e com a sua experiência em hospitais, essas coisas todas, né? E hoje não, hoje a gente tem muito equipamento, hoje a gente tem os desfibriladores, o telecárdio, os aparelhos de pressão mais novos, né, tem uma série de coisas. P/1 – Como é que é formada a sua equipe? Tem um médico? R - Nós somos três técnicos de enfermagem, nós fazemos o rodízio 14 por 21, um rende o outro, nós temos os médicos em terra, nós temos a videoconferência. P/1 – Videoconferência? R - É, quando a gente tem alguma dificuldade, a gente entra com a videoconferência, mostra a lesão do empregado e a gente tem um feedback melhor. P/1 – Realmente. Teve algum momento crítico, em que você ficou muito preocupada, alguma coisa que também tenha marcado nesse aspecto? R - Ah, tive! Tive um óbito a bordo, isso foi muito complicado apesar de todos os colegas que estavam ao meu redor terem feito o curso de primeiros socorros e terem me dado um apoio, mas a gente não conseguiu vencer a morte, porque realmente era um caso muito complicado, nós tivemos um traumatismo craniano também que foi um trabalho em equipe muito bonito e que a gente conseguiu vencer a morte, né, tirar essa pessoa desse trauma e ele está bem demais . Tivemos outros casos também com resultados positivos, tivemos que conviver com o afundamento da P36 que marcou muito, muito, sempre que falo eu me arrepio toda, porque eu lembro de tudo. P/1 – Como é que foi, já que você lembra? Onde você estava? R – Estava na plataforma do lado, estava numa plataforma do lado... P/1 – Dava pra ver? R - Dava, a gente trabalhou num campo, né, a gente trabalha num campo aonde nós vimos a 36 chegar. Preparamos o campo pra ela, vimos chegar, nós participamos daquela alegria toda, aquela plataforma enorme, aquela vitória toda e daí a gente viu... a gente foi acionado, né, no momento da tragédia e a gente viu. A gente estava um pouco longe nesse momento que a gente foi fazer outro trabalho, mas aí a gente navegou pra bem próximo e aí a gente viu toda tragédia, né, o afundamento dela em si, ela indo embora. P/1 – Então vamos falar de uma grande alegria desses anos todos. R – Uma grande alegria? Bom, foi ter conhecido meu marido na Petrobras, meu atual marido na Petrobras. P/1 – Como é que ele chama? R – Dejair. P/1 – Dejair? R – Técnico de segurança. P/1 – E essa é a grande alegria? R – Essa foi uma grande alegria, outra grande alegria foi conhecer as pessoas que se tornaram meus amigos, que eu espero nunca mais perdê-las. É uma grande alegria. Ser mulher na Petrobras e passar por algumas coisas que a gente passa e saber que a gente tem uma empresa que permite que mulher seja mulher de toda a sua forma é muito bom também. E eu consegui isso numa situação complicada que teve comigo, mas a empresa ficou totalmente do meu lado, deu toda a ajuda possível. P/1 – Que legal. O que você pensa sobre o futuro da Bacia de Campos? R – Que que eu penso? P/1 – Quando a gente olha pra frente, o que você pensa que será da Bacia de Campos? R – Eu acho que a Bacia de Campos continuará sendo a Bacia de Campos só mais evoluída, com muita gente nova trabalhando lá, com muita gente nova aproveitando o que nós fizemos no passado. P/1 – Bacana. E Maria Rosa tem alguma história, algum causo pra contar assim engraçado? R – Tem muitos! Tem muitos. P/1 – Um só porque a gente tem tempo curto... R – Bom, vou contar da gatinha. P/1 – Isso, essa é bacana. R - Era uma gatinha mesmo, não uma gatinha mulher, uma gatinha animal. Bom, eu estava na enfermaria e acontecia uma troca de turma, né, e nessa troca de turma eu estava descendo pra vir pra terra quando o nosso Gplat [Gerente de Plataforma], na época, o Ratto, rato com dois ‘t’, Ratto sobrenome, e Ratto tava descendo e quando a aeronave começou a decolar, caiu um gatinho, uma gatinha do trem de pouso. “Segura! Segura!” Um animalzinho e aí pega o gatinho e o piloto não quis levar o gatinho, não tinha como levar um gatinho, um animalzinho no meio das pessoas. Bom e aí manda o gatinho pra onde? O gatinho vai pra enfermaria e o gatinho chegou lá, era uma gatinha, é uma gatinha, eu acho [risos], mas não sei que fim levou a gatinha. E aí a gatinha chegou com muita fome, muito assustada, suja, ferida, então a gatinha tomou banho, foi aquecida, foi alimentada com leite na seringa e foi assim apadrinhada, amadrinhada e ganhou o nome de Shakira. P/1 – Shakira? R – É, só que a gente não podia ficar com a Shakira a bordo, não é permitido, né, esse tipo de coisa a bordo, animaizinhos. E aí a gente não queria que a Shakira descesse, fosse embora, voltasse pra terra, mas a Shakira estava apavorada e aí a gente teve que mandar de volta. Esse foi um fato assim... P/1 – E ninguém nunca soube como ela foi parar lá? R- Não, a gente imagina que ela tava no aeroporto e foi caminhando, procurando alimento, até que achou um lugar quentinho pra ficar e ficou. P/1 – Bacana. Maria Rosa pra você o que é ser petroleira? R - Caramba, um orgulho! Porque eu escolhi a Petrobras, né, eu tive essa satisfação, eu quis ser petroleira, eu quis ser técnica de enfermagem da Petrobras e eu quis trabalhar embarcada. Então eu corri atrás desse sonho, e pra mim tem sido muito bom, né? Eu já tive outras oportunidades, já tive uma oportunidade com o mesmo salário pra trabalhar em terra, trabalhar com a família, mas não era um trabalho pioneiro na época, né, não era um trabalho que me enriquecia, que me dava tesão, é uma palavra que eu gosto muito de usar, porque sem tesão você não trabalha, né, sem vontade e trabalhar embarcada, ser petroleira é um motivo de muito orgulho. P/1 – Legal. O que você acha do Projeto Memória, ouvir os trabalhadores? R – Eu acho dez! Eu acho que isso aí vai valorizar muito os trabalhadores, que têm muita história pra contar, histórias tristes, histórias bonitas, histórias alegres, né, mas isso faz com que ele se sinta valorizado e saiba que participou dessa história toda aí da Bacia de Campos, da Petrobras, dos 30 anos, né? P/1 – Legal, então Maria Rosa, muito obrigada pela sua entrevista, foi ótima. R – Obrigada. ---Fim da Entrevista---
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