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História

"Tenho 41 anos, nascido e criado na favela"

História de: Aquiles Silva de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

Primeira lembrança de sua vida. A relação com os pais e o amor pela avó paterna. Infância na Vila Penteado e o gosto pelo futebol. A mudança do barraco de madeira para uma casa de concreto. Chegada na Zaki Narchi e suas impressões. Primeiro emprego como office boy na Ana Rosa. Os passeios pela cidade de São Paulo e as idas ao cinema. Os times de futebol da Zaki Narchi. A importância da Casa Amarela através dos tempos. O trabalho na estamparia e os ‘bicos’ como pedreiro e montador de eventos. Início da paternidade em sua vida. Trabalho na Biblioteca São Paulo e retorno aos estudos. A relação com os filhos. A criação da Escolinha de Futebol da Zaki Narchi. A eleição para associação de moradores e seus projetos culturais e esportivos. Principais transformações na comunidade Zaki Narchi e os acontecimentos mais marcantes ali. Seus sonhos pessoais e para a comunidade.A importância da Zaki Narchi em sua vida. 


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História completa

P/1 – Vamos começar.

 

P/2 – Então, pra começar, a gente queria que você falasse o seu nome.

 

R – Meu nome é Aquiles Silva de Souza.

 

P/2 – E qual é a sua data de nascimento?

 

R – 29 de maio de 1980, tenho 41 anos.

 

P/1 – E o local?

 

R – Nasci na Cachoeirinha, no Hospital da Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, mesmo.

 

P/2 – E, Aquiles, queria que você fechasse os olhos e tentasse resgatar a sua primeira lembrança da vida.

 

R – Olha... posso abrir os olhos agora? A minha primeira lembrança, isso eu vou colocar até no meu livro, quando eu for escrever o livro da minha vida, um dia eu vou escrever. A primeira lembrança que eu tenho na vida, é do meu pai, quando era criança, de um para dois anos, ele sempre me levava assim, na ‘cacunda’, sabe? A gente fala em casa, na ‘cacunda’. Só que meu pai bebia, ele era alcoólatra, nessa época. Aí, a gente saía da Cachoeirinha, da favela da Divinéia, ia pra favela da Vila Penteado andando, ele me levava da casa da mãe dele pra minha casa, todos os dias ele fazia esse percurso. Me levava pra lá, pra ficar com ela, pra ele trabalhar e me buscava à noite, só que quando ele chegava à noite, ele já estava bem “pra lá de Bagdá”. Mas isso daí é passado, ele parou de beber, venceu o álcool e, graças a Deus, está bem melhor agora. Essa é a primeira lembrança que eu tenho.

 

P/2 – De quantos anos?

 

R – De um para dois anos, assim, de dois para três, vamos colocar assim. É, eu creio que seja isso mesmo que é uma lembrança ruim, né? E uma boa, que eu tenho, também dessa época, foi que a gente morava num barraco e mudou para uma casa, de 1983 para 1984. Aí, foi a nossa primeira casa de bloco, minha primeira lembrança boa da vida.

 

P/1 – Quais eram os nomes dos seus pais?

 

R – Os nomes dos meus pais são Ivonete Félix da Silva e José Jesus de Souza. Os dois estão vivos ainda, graças a Deus.

 

P/1 – E como você os descreveria?

 

R – Assim, como pessoa?

 

P/1 – É.

 

R – Minha mãe é uma ‘supermãe’, acho que não existe mãe no mundo melhor do que a minha, de verdade. Até hoje, eu estou morando com eles, há um tempo agora, porque eu me separei. E a minha mãe é aquela mãezona, que acolhe mesmo. Tem quatro filhos, um é adotivo. E sempre foi ‘do lar’, só uma época, no passado, quando meu pai saiu de casa, que ela teve que trabalhar, mas foi por pouco tempo, graças a Deus. Ela sempre foi ‘do lar’, sempre foi aquela mãe que acolheu, sempre batalhadora e sempre teve ali, pra acudir os filhos. Do lar mesmo, total. É mais ou menos assim. Guerreira, de fé.

 

P/1 – E o seu pai?

 

R – Meu pai é um cara mais atrapalhado na vida. Acho que a maioria dos homens. É um cara sem estudo, não é letrado, não teve nada de estudo, estudou até a terceira série. Veio da Bahia, criou os onze irmãos que ele teve, ele, como mais velho, criou os outros onze, que nasceram depois dele, juntamente com a mãe. Não teve muito tempo pra estudar e acho que por esse motivo, ele se tornou alcóolatra logo cedo, na vida. Mas conseguiu vencer o álcool por muito tempo, não sei se ele usava mais drogas, porque eu era muito criança na época. E sempre foi trabalhador. Um dos exemplos que ele nos deu, embora fizesse muita coisa errada, ele sempre trabalhou, nunca gostou de roubar nada de ninguém. Então, eu acho que é o mais certo, ele sempre cobrou o estudo da gente. Enquanto ele estava próximo ali, ele cobrava o estudo. Quando ele se afastava um pouco, não tinha como, mas quando estava próximo, ele sempre tentou nos dar uma direção boa, pra mim e pros meus irmãos. Então, assim, eu acho que o que eu e os meus irmãos carregamos dele, é isso: ele não pôde educar muito bem, por não ter recebido uma educação, foi criado sem pai também. Mas o pouco que ele deu, nos direcionou, porque nenhum dos filhos foi pro lado errado, todos têm a sua vida, graças a Deus. Então, é isso: meus pais são guerreiros e vencedores, contrariaram as estatísticas da vida. E é isso aí, eu agradeço.

 

P/2 – E os seus irmãos, como é a relação com eles?

 

R – Ah, meus irmãos, a gente tem uma relação bem assim... eu tenho um irmão que é adotado e esse irmão foi adotado quando eu já saí de casa, que eu saí de casa muito jovem, aos dezoito anos eu já fui pai. Então, saí de casa e a minha mãe acolheu esse menino, que era da família da minha mulher. Então, não tenho muito contato com ele como irmão, eu ajudei na criação dele de um a dois anos, porque ele é irmão da minha mulher... é sobrinho da minha mulher. Então, a gente o acolheu quando ele chegou, porque a mãe dele, a gente foi buscar na Cracolândia. Aí, o pegamos com três dias e com um ano, ele foi morar com a minha mãe e com o meu pai. E nesse um ano, eu saí de lá. Então, não tive muito contato, estou tendo agora. Nos últimos seis meses, a gente está tendo uma convivência legal, é um moleque gente boa, mas com os outros dois, eu tenho um irmão que tem trinta e oito... trinta e nove, fez agora e tem um que tem trinta e três, é o meu xodó. É mais novo que eu, então eu que ajudei a criar também. A gente tem uma convivência super boa, uns moleques todos bons. Cada um tem a sua profissão, casados, seus filhos. E é tudo bem, graças a Deus, são do bem, são moleques bons e é isso.

 

P/1 – E como você descreveria a sua relação, tanto com os seus pais e com eles, assim, com a sua família, em geral?

 

R – A gente é uma família unida, hoje mesmo almoçamos juntos, todo mundo, às vezes, a gente consegue fazer esses encontros. Embora eles morem na casa deles, mas é próximo, não é muito longe. Então, eles sempre estão passando lá, meu irmão é motorista de aplicativo também, passa lá pra almoçar, quase todos os dias. Então, a família está sempre unida, convivência cem por cento. Toda família tem aquela pimentinha ali, aquela discussãozinha de vez em quando, mas no normal, né, é um tanto normal. Mas todo mundo é amizade total, a família é de verdade, cada um acolhe o outro.

 

P/1 – E você sabe a história dos seus avós?

 

R – Olha, a minha avó foi alcoólatra, a mãe do meu pai foi alcoólatra, é a única que eu tive convivência, até os oito anos. Foi a minha maior perda até hoje. Porque ela me criou, como eu falei pra vocês, meu pai levava de manhã e me buscava à noite. Então, eu sofri pra caramba quando eu perdi minha avó, foi a maior perda da minha vida, assim, porque Deus é muito justo comigo, muito bom comigo, eu não tenho muitas perdas, na realidade. Tive ela, tive minha cachorrinha e alguns tios que eu também não tive muito contato. Então, sempre quando eu falo dela, eu me emociono um pouquinho, porque faz muito tempo, mas foi muito presente na minha vida.

 

P/2 – Como era a convivência de vocês?

 

R – Ela que cuidava de mim, provavelmente até 1986 porque, de 1986 a 1987, ela ficou muito ruim. Ela teve essa doença que a bebida dá. Então, quando ela morreu, eu era muito jovem, eu tinha seis, sete anos. Mas ela era como se fosse a minha mãe, meus pais saíam para trabalhar, eu ficava com ela o dia todo. Era eu, mais dois tios eu tinha, que eram da minha idade também, na época, um faleceu já, há muito tempo também. E outro, a gente ainda tem bastante contato. Mas a minha avó era tudo de bom na minha vida assim. (risos) Tudo de bom. Foi a única que eu conheci. A mãe da minha mãe eu não conheci, o pai da minha mãe também não. E o pai do meu pai, meu pai nunca conheceu também. Então, não tenho muito o que falar também. Mas muito bom, obrigado por fazer eu lembrar da minha avó. (risos) É isso. 

 

P/2 – Os seus pais nasceram aqui?

 

R – Não, minha mãe é pernambucana, lá de Camaragibe e meu pai é da Bahia, Jacobina.

 

P/1 – Você sabe por que eles vieram?

 

R – Todo mundo vem em busca de um futuro melhor, né? São Paulo, naquela época, eu creio, nos anos 1980, 1970, acho que todos os nordestinos queriam vir pra cá, pra fazer vida aqui e voltar pra lá. Mas esse era o sonho dos nordestinos, até hoje eu creio, da maioria dos nordestinos. Então, por isso eles vieram. Na realidade, eu creio que os pais deles os trouxeram pra cá. Creio que deve ter sido assim, não porque eles quiseram, mas porque vieram, se instalaram numa comunidade, que era a Divinéia, que é a favela ali, próximo a Inajar, ali, não sei se vocês conhecem. Se instalaram lá, que nem todo o pobre, aí foram fazendo vida ali. Minha avó, a mãe da minha mãe, tinha uns terrenos lá em Recife. Então, ela veio pra cá, conquistou uma coisinha e voltou pra lá e construiu. Aí, quando ela faleceu, minha mãe voltou pra cá de novo. Agora, a mãe do meu pai era muito sofrida, ela já era velhinha, uma vida muito sofrida. Então, eles já sofreram mais, muito mais. Mas, enfim, eu não sei muito da história deles, só desse contato com a minha vó mesmo, paterna.

 

P/1 – Você sabe como seus pais se conheceram?

 

R – Foi nessa comunidade que eu falei pra vocês, lá na Divinéia. Pelo que meu pai conta, minha avó, por ter uma ‘condiçãozinha’ melhor do que meu pai, não queria que a minha mãe ficasse com ele, internou minha mãe duas vezes no internato, naquela época minha mãe falou que tinha muito disso. Internou minha mãe duas vezes e minha mãe, nessas saídas, idas e vindas, conseguiu ficar com o meu pai. Parece que engravidou, antes de me ter, ela engravidou duas vezes, de gêmeos e depois engravidou de mais um, mas perdeu os dois filhos, perdeu as duas gravidezes, e após essas duas aí foi a minha, foi a que vingou, graças a Deus. E é isso, acho que eles se conheceram assim, teve esse problema familiar aí que eu acho que quase todo mundo tem, também.

 

P/1 – E quando você era pequenininho assim, você lembra de comidas, de cheiro e data comemorativa da sua família?

 

R – Eu vou falar de mim assim, ó: tenho uma mania até hoje, quando eu vou no mercado, eu compro muito Danone, porque quando eu era criança, meu pai comprava aquele tablete de seis, sabe? (risos) Nós éramos três filhos, minha mãe e meu pai, cinco. E, como eu era o mais velho, eles deixavam eu fazer os meus gostos, mais. Então, eu ganhava dois e cada um ficava com um. Era um por mês, entendeu, no pagamento só. Minha lembrança é muito Danone, eu sou viciado. Então, eu compro muito, para os meus filhos, eu deixo muito Danone pra eles, porque é uma coisa que eu tenho da infância, mesmo. McDonald’s eu já vim conhecer já era grande, eu já era grande, já deveria ter uns oito anos. E aniversário eu acho que eu vim ter só depois de casado, que a minha ex-mulher fez pra mim o meu primeiro aniversário e já tinha filho e tudo, já. (risos) E é isso. (risos) Então, isso são vários da comunidade que são assim, não é só eu, não. Hoje em dia está um pouquinho melhor, mas é quase todo mundo, é difícil ter uma festa de aniversário, noventa por cento das crianças.

 

P/1 – E você sabe a história do seu nascimento?

 

R – Ah, não vou poder te falar muita coisa sobre isso, não. Assim, eu tenho uma história, que nem eu te falei: minha mãe ficou grávida duas vezes, perdeu gêmeos, nasceu e faleceu, depois morreu, mais uma gravidez perdeu, aí nessa gravidez ela fez o quê? Ela e o meu pai fizeram uma promessa pra Nossa Senhora Aparecida, para ir lá durante cinco anos, se o próximo filho vingasse. E aí eu vinguei, eu tenho essa lembrança, de sempre ir lá, nas excursões que minha família fazia pra Aparecida todo o ano, pra acender uma vela do meu tamanho, até uma certa idade, entendeu? E eu também pago essa promessa hoje com o meu filho.

 

P/1 – E você sabe por que é que você chama Aquiles?

 

R – Sei, sim. Muitas pessoas acham que é por causa do filme lá, Tróia lá, aqueles da Grécia. Mas não é não, é por causa da luta livre. Meu pai assistia luta livre nos anos 1980 e tinha o Aquiles, tinha vários outros, mas ele gostava do Aquiles, não sei, acho que o Aquiles era meio mau. (risos) Aí, ele foi e me deu o nome de Aquiles por isso, mas não tem nada a ver com Tróia, não. (risos)

 

P/1 – E, Aquiles, pensando... você nasceu onde, qual bairro?

 

R – Na Nova Cachoeirinha, zona norte, São Paulo.

 

P/1 – E pensando, no primeiro bairro que você tem lembrança.

 

R – Vila Penteado, foi onde eu vivi até os meus onze anos e dez meses, por aí.

 

P/1 – E como era a casa?

 

R – Eu morei quatro anos num barraco, esse barraquinho foi veneno, mas depois a gente passou pra uma casa. Meu pai parou com a bebida, conseguiu comprar uma casa. Ele tinha um trabalho e conseguiu, nessa casa, fazer um barzinho. Então, foi aí que a gente começou a ter uma vida melhor. Nós tínhamos uma casa boa de bloco, nossa, era muito boa, era muito “top”, não era grande, né? Mas aí eu já tinha meu quarto, eu e meus irmãos tínhamos um quarto pra nós três, tinha o quarto do meu pai e da minha mãe. Começou a ter aquela divisória, porque o barraco era só um vão pra todo mundo. Foi aí que começou a melhorar.

 

P/1 – E o barraco era como?

 

R – Madeira, madeira, madeira, madeira, esgoto passando do lado e como é na favela, normal.

 

P/2 – Que lembrança você tem dessa época?

 

R – Pouca, que nem eu te falei, eu lembro muito dessas rodas de bebida que meu pai fazia assim com os amigos, sabe? Esse negócio que eu também devo ter feito com a minha filha, sabe, de levar os amigos em casa pra tomar uma cerveja, eu fiz com cerveja mesmo. Meu pai, naquela época, os caras faziam um churrasquinho, aquela carninha ali, aquele bacon ali, aquele toucinho com uma cachacinha, com uma 51, uma “pituzinha”, aí.... a lembrança, infelizmente, é só essa, porque a gente, quando é criança, não sai muito pra rua. Eu vim sair pra rua, assim, ser solto, mais quando eu fui morar nessa casa, porque tinha um córrego muito próximo à minha casa, quando era barraco. Então, se vacilasse, caía e ia dar prejuízo. (risos) Então, minha mãe e meu pai me deixavam trancado, porque eu só estava lá mais à noite, de dia eu ficava mais na minha avó. Então, quando eu fui pra casa, não, aí eu já fiquei mais solto. Era no mesmo local, tipo cem metros mais pra frente, entendeu? Mas já era um outro espaço, ali já eram mais casas de blocos, já era mais habitado, mais luz, um pouquinho mais longe do rio. Então, ali já foi melhor um pouquinho a convivência de vida com os amigos e tal, rua também, começou a sair mais, ficar mais danado (risos) e é isso.

 

P/1 – E você lembra como era a sua infância, na Vila Penteado?

 

R – Olha, a minha infância foi a melhor, pra falar a verdade, porque, quando eu adquiri uma certa idade, eu pude começar a sair. Meus pais começaram a me deixar solto, criança na favela é solta, né? Não tem frescurinha de não pode isso, não pode aquilo, vai adquirir bactéria, vai lá. Então, era solto: bicicleta, todo tipo de brincadeira que você imaginar, brincadeira de taco, futebol, ‘mana mula’, pique-esconde. Então, brinquei muito, muito, eu fui privilegiado, eu passei por tudo isso. Minha filha já não passou por isso. Porque a minha filha, sei lá, eu acho que eu fui um cara muito ‘besta’ na criação dela. Eu tenho uma filha de vinte e dois anos e ela já não teve essa infância, de ficar solta na rua, eu sempre prendi mais porque, enfim, infelizmente, da minha época pra época dela, mudou muita coisa, principalmente essa exposição das menininhas engravidarem cedo. Então, eu e a mãe dela a prendemos muito mais. Então, ela não aproveitou quase nada do que eu aproveitei, eu aproveitei muito a minha vida. E eu quero tentar proporcionar pelo menos trinta por cento pro meu filho, agora, que tem quatro anos, vai fazer cinco. Quero que ele faça essas brincadeiras, por isso que a gente não deixa parar a nossa atividade lá na Zaki, nossos projetos. Por isso que a gente tenta dar uma direção diferente pra molecada: o que muitos não tiveram, agora vai ter lá, vai ter que ter, que a gente está implantando mesmo, a gente está mudando a visão, vamos mudar mesmo, a criançada vai ter esporte, cultura e lazer. Não vai ser que nem um filho de um rico tem, mas que vai ter ali a opção para eles escolherem quais caminhos eles vão ter. O que nós não tínhamos, eles vão ter, com fé em Deus, isso falando agora, como associação. (risos)

 

P/1 – E como era a vizinhança, lá na Vila Penteado?

 

R – Favela, né? Tráfico, evangélico, idoso, jovem, tudo junto. Eu tenho quarenta e um anos, sou nascido e criado na favela, na periferia. A gente conhece do mais idoso ao mais jovem. Do bandido ao mocinho, do que virou polícia ao bandido, o que é bandido até hoje. A convivência é normal, porque a gente sabe entrar e sabe sair também. Eu, graças a Deus, nunca fui envolvido com a criminalidade, sempre trabalhei, tenho vários registros na minha carteira pra comprovar, nunca precisei fazer nada de errado pra ninguém, não que eu entenda, mas assim, a comunidade tem de tudo, você tem dois caminhos, você escolhe qual quer. Eu, graças a Deus, tive a educação dos meus pais e pude escolher, optar por um lado, embora o traficante venha oferecer, mas a gente teve como discernir, porque a gente teve educação. Mas eu entendo muitos que a gente perde, por exemplo, na escolinha, muitos que, em vez de estarem lá treinando conosco, estão traficando, a gente sabe que a mãe não deu atenção, o pai também está preso. Às vezes, estão o pai e a mãe presos, quem cria é a avó e a avó já cria quatro, cinco. Então, é assim, a comunidade é assim, a minha história é igual de vários lá e você vai ver de tudo, infelizmente. Mas essa criança que consegue sair, sair, não entrar nesse caminho, ela sai muito melhor, muito mais treinada do que uma criança que mora num bairro mais nobre. Infelizmente a gente vai ter aquela criança que vai entrar pro tráfico, vai virar ‘cracudo’, infelizmente tem isso, mas isso é a periferia, é isso.

 

P/1 – E quais brincadeiras eram as suas favoritas naquela época?

 

R – Sempre fui do futebol. Sempre gostei de futebol, sou apaixonado, queria ser jogador quando moleque, mas não me dediquei muito e acho que eu nasci até com um pouco de dom, mas tem que ter o dom e a força de vontade, dedicação. E nessa época eu já falei, fui pai novo, aos dezoito anos. Eu tenho um amigo que virou jogador, jogou até na Seleção Brasileira, Ricardo Oliveira. E ele ia lá em casa, seis horas da manhã, chamava lá, minha mãe abria: “Meu, ele está dormindo, acabou de chegar”. Tipo: saía da casa da minha namorada quatro horas da manhã e ia pra casa dormir. E ele não, ele se dedicava, treinava pra caramba, levantava seis horas da manhã, cem chutes pra um lado, cem pro outro, tanto é que ele alcançou tudo que ele alcançou, graças a Deus. E eu não, não tinha o foco, né? Então, eu gosto mais de futebol, sempre me dediquei mais pro futebol, essa foi a brincadeira que eu mais gostei. Quando criança, que nem eu falei, aquelas brincadeirinhas: mana mula, gostava muito de andar de bike também, skate andei uma vez e caí, me machuquei, já não quis mais. (risos) É isso, era mais futebol mesmo, minha vida é futebol e está sendo futebol, né? Agora vai mudar um pouquinho.

 

P/1 – Você tinha bastante amigos?

 

R – Sempre tive, sou um cara com bastante amigos, colegas. Amigos, amigos, são poucos, mas colegas, eu tenho muitos, muitos, muitos, devido a esse futebol, então. Joguei na várzea muitos anos. Então, desses quatro cantos de São Paulo, eu conheço pessoas, graças a Deus, eu não tenho problema com ninguém, entro e saio em qualquer lugar, a qualquer momento, graças a Deus.

 

P/2 – E o que mudou na sua vida, quando vocês mudaram de casa?

 

R – Do barraco pra casa? Então, começou a evoluir. Creio que: quando o meu pai bebia, ele não guardava dinheiro, por isso morava num barraco. E, do barraco, acho que ele diminuindo com essa bebida, ele e minha mãe trabalhando, conseguiram conquistar, comprar essa casinha, deve ter sido com muito sofrimento. Aí dali, ele fez esse barzinho que eu falei, um botequinho, que ele atendia ali, era um pontinho que, desde criança, quem atendia era eu. Então, ali começou a dar uma qualidade de vida um pouquinho melhor, né? Não era muito, mas tinha uma bike, meu irmão queria um videogame, ele teve um “videogamezinho”, um “Atarizinho”, na época, um pouquinho mais de qualidade. Eu morei na Vila Penteado até 1992. Minha mãe e meu pai, nessa época... minha mãe vinha pra Casa de Detenção vender refrigerante, bolo, bala pras famílias dos presidiários e dava muita grana aquilo ali, muita grana, a prima da minha mãe que a levou. Aí, dali, meu pai arrumou um problema na Zaki, lá no Penteado, arrumou uma briga lá, até hoje eu não sei porquê, que eu era criança ainda. E a gente saiu de lá, a gente vendeu lá e veio morar na Zaki Narchi, foi aí que conheceu a Zaki. Cara, que bagulho louco, né? Quando eu cheguei na Zaki, assim, foi uma visão do inferno, desculpa a palavra, que ô lugar feio que era a Zaki Narchi, nossa, vocês passaram já na rua de trás lá, alguma vez? Eu vou levar vocês lá um dia, está da mesma maneira agora, lá. Mudaram, fizeram uma mudança, ficou bonita e agora ficou feio de novo. Cara, mas a Vila Penteado, pra mim, que nem eu falei pra vocês, eu morava em casinha já. Então, tinha aquela visão bonitinha. Quando eu cheguei, que eu vi só barraco, aquele montão de barraco, eu nunca tinha visto “nóia” na minha vida, assim. “Nóia” é uma pessoa que usa crack, eu nunca tinha visto lá no Penteado, na minha vida, nunca tinha visto ninguém usar crack na minha frente. Lá na Zaki Narchi era tudo exposto, assim, um monte de “trombadinha”, sabe? Cara, foi um choque pra mim, foi um choque a transição. Depois de um tempo, eu já estava ali envolvido com todo mundo, porque é que nem eu falei pra você: faço amizade muito fácil. E nessa época, meu pai não tinha, não estava com a estabilidade de novo, ele tinha arrumado uma amante, que foi por causa dessa amante que a gente saiu de lá. Então, ele começou a dar problema de novo, nessa época. Aí, foi aonde que ficou ruim um pouquinho, mas depois melhorou de novo, a gente vai falando aqui. Muita coisa. 

 

P/2 – Antes de saber um pouco mais sobre essas impressões da Zaki, como era lá no bar, você atendia as pessoas?

 

R – Ah, era um botequinho, na realidade, não era um bar. Era um espaço, creio eu, de dois por um e meio. Ele colocou ali umas pinguinhas, umas garrafas pra vender umas doses, bala, salgadinho e era eu que atendia, eu que atendia. Ele saía pra trampar, minha mãe ficava fazendo as coisas dentro de casa e eu ficava ali trampando, eu que sempre que fui o caixa. Com oito anos, eu já andava uns três quilômetros pra fazer depósito, entendeu, no Bradesco, meu pai também não tinha muito estudo, né, só a terceira série. Então, ele me ensinava, era eu que fazia tudo, mais velho, ele arrancou o meu couro durante muito tempo, acho que por isso que eu saí cedo de casa também. (risos)

 

(25:22) P/2 – E você lembra de alguma história marcante dessa época, no bar, assim, com algum cliente?

 

R – Eu vou te falar, tem várias, né? Sabe que em boteco acontece de tudo, né, mano, acontece de tudo. O que é que você quer escutar, quer que eu fale uma com sangue ou uma sem sangue? (risos)

 

(25:38) P/2 – A que você quiser.

 

R – Eu vou falar uma com sangue, então. Foi a primeira morte que eu vi na minha vida, foi a primeira morte, assim. Tinha um cara lá na quebrada que ele era colega de todo mundo, mas o que é que acontece? Ele roubava as pessoas, entendeu? Ele roubava as pessoas, ele sempre ficava ali, toda tarde eles iam pro boteco do meu pai, do lado do boteco do meu pai tinha outro boteco, tinha um snooker. Eles ficavam ali jogando, tomando cerveja, tomando um negocinho. Aí, esse cara roubou o açougue, o açougue do cara que ele roubou era de um cara da favela, né, do dono da favela. Só que ele não sabia, né, mano. À noite, “fia”, não deu outra, os caras o esperaram chegar na frente do boteco, quando ele chegou na frente do boteco, pegou pelo braço, levou pra trás do barraco e já era. Ali é mais ou menos assim, toda favela tem um local que acontece mais ou menos um assassinato, entendeu? Principalmente no início dos anos noventa e anos 1980 e ali, próximo à minha casa, do outro lado do rio, era onde que aconteciam as execuções. Aí, pegaram e o levaram, não vi matando, mas eu vi aquela chama saindo, plaft. Essa foi uma das histórias muito loucas. E uma história boa que a Erundina passou lá, a Erundina era prefeita na época e ela passou pra canalizar o rio, ela passou lá no boteco do meu pai, eu lembro que tirou até uma foto lá e nós estávamos lá na frente. Essa é uma história bacana, assim que, se procurar em alguns lugares aí, pode até achar a foto, na favela da Vila Penteado, é isso. E eu aprendi a jogar muito snooker lá, também. (risos)

 

P/2 – E aí, como foi chegar na Zaki?

 

P/1 – É, então, foi tenso, que nem eu te falei, lá tinha “trombadinha”, tinha a ‘porra’ toda, desculpe a palavra. Muito diferente, assim, foi muito diferente. No dia que a gente chegou, a gente ficou cinco horas para entrar no nosso barraco, porque o cara que vendeu o barraco pro meu pai tinha um problema lá com o dono da quebrada, que tinha que pagar um dinheiro e não tinha pagado. Então, o cara queria receber o dinheiro do meu pai, do barraco, pra deixar nós entrarmos. Cinco horas depois resolveram, a gente entrou, já era umas dez da noite, caímos pra dentro do barraquinho, um barraco muito bom, que a gente morava... Nessa época, eu esqueci de contar que a gente foi da Zaki, do Penteado pra Zaki, antes disso a gente foi morar em Recife, a gente ficou quatro meses em Recife. Deu uma louca no meu pai, que eu acho que foi esse problema que eu te falei, da amante dele, ele vendeu tudo que a gente tinha lá no Penteado e a gente foi morar em Recife: os três filhos, minha mãe e ele. Chegou lá, ele construiu um bar lá em Recife, uma casa pra gente morar, no terreno da minha mãe e veio embora. Nos deixou lá, “fia”. (risos) Minha mãe guerreira, ficou, tentou daqui, tentou dali, três meses arrumou dinheiro com um e com outro, voltou, voltamos todo mundo. Chegamos aqui, encontramos o meu pai na casa da amante, eu fui buscar meu pai todo arrebentado, todo quebrado. Eu levei de um lado e a amiga da minha mãe do outro, ela disse que ele não aguentava nem andar, que ele tinha tomado um cacete por causa dessa amante dele aí ‘desgramada’, desculpa mais uma vez, eu tenho raiva dela quando eu lembro. E acabou vendendo tudo, quando a gente voltou pra cá, a gente voltou, a gente morava num cubículo de novo. Regredimos, regredimos tudo de novo. E por essa amante aí, eu creio que, devido aos problemas que ela arrumava pra ele e ele pra ela, a gente saiu de lá e foi pra Zaki. Aí, sim, que começou a história da Zaki. E aí, eu vou falar pra você: eu tinha doze anos, com treze anos eu já comecei a fumar cigarro, já andava com os “trombadinhas”, já ia pedir no McDonald’s. Eu nunca fiz nada de errado, de verdade, mas, eu conheci os dois lados, entendeu? E essa foi uma parte ruim também da minha vida, porque essa época meu pai voltou a beber, ele ficava três meses fora, três meses em casa, batia na minha mãe, até que eu cresci um dia e falei pra ele que ele não ia mais bater na minha mãe, porque eu cheguei, ela estava com o olho roxo. Aí, eu quase briguei com ele, só não briguei porque minha mãe e minha mulher grávida, na época, não deixaram. Mas aí foi no dia que ele parou de beber de novo, que aí ele me agrediu nesse dia, ele me agrediu, me deu um tapa na cara. Aí, eu falei pra ele, depois que ele se acalmou, quis conversar comigo, eu falei pra ele assim: “Caraca, velho, você que me ensinou que homem não apanhava na cara, me deu um tapa na cara, tirou a minha dignidade”. De verdade, ele caiu no chão ajoelhado assim, chorou, chorou, chorou, pediu desculpa. Depois disso, graças a Deus, ele não bebeu até 2019, aí 2019, agora, está tomando uma de novo. (risos) Mas agora ele está bem moderado, de verdade, agora sim. Meu pai já está “coroinha”. “Coroinha”, não, sessenta e sete anos, eu acho... sessenta e sete, sessenta e quatro, mas ele fica pensando: “Vou morrer já”, porque ele fuma muito, agora voltou a beber, está meio baqueado, fica falando toda hora: “Vou morrer, vou morrer” e tal, mas é um cara gente boa.

 

P/1 – É isso que a gente quer ouvir, mesmo. (risos). Estava pensando...

 

P/2 – Queria saber o que você fazia na Zaki, na infância, quais eram as brincadeiras, se eram as mesmas, ou se mudou?

 

R – Assim, a Zaki... ó, vou falar pra você, é aquilo que eu te falei, o futebol sempre foi o que eu mais gostei de fazer, assim e lá na Zaki, a gente tinha muito lugar pra jogar bola, a gente tinha um espaço que chamava Fupe que, meu, tinha uns sete espaços para jogar lá, sete quadras que tinham lá.  E era do lado, era só atravessar a Zaki Narchi, do outro lado da Zaki, tinham as escolas. Então, a gente jogava muita bola mesmo, jogar bola, polícia e ladrão, brincadeira de polícia e ladrão também, a gente fazia uns revolverezinhos com uns prendedores, colocava um ferrinho, teve gente que quase até ficou cega por causa disso, mas essas brincadeirinhas mesmo de moleque, ia pra lagoa, dar uns “tibuns” de vez em quando, caçar os preás, fazia isso mesmo, brincadeira de menino.

 

P/1 – E era num barraco que você morava?

 

R – Sim, sim, barraco, eu cheguei na Zaki em 1992, era barraco ainda. Começou a fazer os prédios de 1994 para 1995, lá.

 

P/1 – E daí, como é que foi esse processo?

 

R – Da transição? Então, eles fizeram os alojamentos ali próximos na região, do outro lado da Zaki, no morro, fizeram vários alojamentos, aí iam deslocando, aos poucos. Ia pro alojamento, limpava aquele espaço ali dos barracos, levantava o prédio, aí vinha do alojamento, aí outra equipe lá pro alojamento, foi assim, durante de oito a dez anos, creio eu, que foi até terminar tudo, até finalizar os alojamentos. Era normal. (risos) 

 

P/1 – Se você lembra do Aquiles nessa época.

 

R – Então, assim: em 1995 eu arrumei o meu primeiro trabalho registrado já, aos catorze anos meu pai fez eu tirar a carteira de trabalho já porque, assim, se ele não fizesse isso também, ele ia perder, porque como como ele ficava fora, não vinha pra casa, esse tempo que ele ficava fora, quando ele voltou, eu estava fumando a primeira vez, estava fumando. Chegou outra vez, ele me viu dando uns “doizinho” no “beck”. Então, ele falou: “Meu, tem que colocar esse moleque pra trabalhar.” Eu já trampava com a minha mãe, nos finais de semana já, lá na penitenciária, da detenção, naquele trabalho que eu te falei, de alugar roupa, vender ali pras famílias dos presidiários. E arrumei um trampo na Vila Mariana, na Ana Rosa, na realidade, meu primeiro trampo, com quinze anos. Aí foi diversão, foi quando ficou bom pra mim. Trabalhei de office boy, na época, 1995, aí que eu comecei a conhecer pessoas, (risos) mas eu já comecei a namorar também, nessa época. Quando eu comecei a namorar, eu tinha quinze anos também, vacilei, mas não vem ao caso. (risos) E é isso, aí começou a ficar bom, pra falar a verdade assim, eu não brinquei muito não, não tive muita infância, a minha infância foi até os catorze mesmo, depois comecei a trabalhar, comecei a fazer outras amizades e era mais papo de trampo, de rolê e é isso.

 

 P/2 – Como era esse trabalho da sua mãe? Como fazia?

 

R – Era aos finais de semana, sábado e domingo, esse trampo lá na penitenciária. A gente saía quatro horas da manhã, a gente alugava uma carroça do amigo que pegava papelão, ele fazia o carreto pra nós. Levava o nosso material até a penitenciária, chegava lá, a gente montava a nossa banca, fazia um espacinho fechadinho de um por um, ali, pra pessoa que quisesse alugar, por exemplo: você vai num presídio, se você não tiver com a roupa adequada, se você for com a roupa da cor do preso, você não entra. Aí, você vai lá nessas bancas, que fica ali ao lado e eles te alugam uma roupa ou um calçado, que tem certo calçado também que não pode entrar, porque você pode acoplar alguma coisa lá dentro. Então, você vai lá e aluga um calçado. Você chegou pra visitar e não levou nada, você vai lá e compra um refrigerante, compra uma bala. Tudo o que podia entrar pra dentro do presídio, a gente vendia ali, entendeu? E tipo: naquele valor bem caro mesmo porque, assim, era pra gente ganhar uma grana mesmo. Então, vendia, era o dobro do preço e eles gastam mesmo, porque geralmente quem vai visitar os presos têm uma condição, pra falar a verdade. E o pessoal está ali desde às quatro da manhã, cobrava, sim, um pouquinho a mais e, graças a Deus, vendia tudo, ajudava bastante na renda. Era assim esse trampo.

 

P/2 – E de office boy, como que foi?

 

R – Era de segunda-feira à sexta-feira, eu entrava às oito, saía às cinco. Muito massa, comecei a conhecer São Paulo. Naquela época, de office boy, os caras pagavam pra nós irmos de táxi, nós íamos de “busão”, nós íamos andando. Ali eu comecei a ter noção do que era o nosso estado, pelo menos o município. Era louco, maravilha. Comecei a conhecer a [avenida] Paulista, 24 de Maio, a Galeria. Então, show de bola.

 

P/2 – Que lugares da cidade te marcaram?

 

R – A Galeria [do Rock] os cinemas também, porque eram muito baratos naquela época, ali. Você assistia dois filmes, por um real, na época. (risos) Então, era bom pra caramba, tinha até uns privezinhos, (risos) com todo o respeito. Mas era muito bom, a Galeria, a Avenida Paulista, assim, foi uma coisa que eu sempre ouvia as pessoas falarem, Vale do Anhangabaú também, tinha umas queimas de fogo no Ano Novo. Então, esses espaços aí conhecidos, de São Paulo, a gente gostava. E Ana Rosa ali, a Vila Mariana também, que eu andava tudo ali fazendo entrega, conheci bastante lugar ali. Isso em 1995.

 

P/2 – E você lembra do primeiro dia?

 

R – Eu lembro, porque foi um amigo meu que me levou. Era numa gráfica, era numa gráfica. Então, além de eu fazer as entregas, quando não tinha entrega, eu ficava ajudando a ficar imprimindo os fotolitos lá. Confesso que não lembro mais como fazia, é muito tempo, é muito tempo, mas eu dava uma ajudinha lá. Mas o primeiro dia foi bacana, você fica ansioso, porque eu não conhecia nada, nada, nada, tinha que trabalhar com o guia, (risos) um guia na mão. Aí o menino começou a me ajudar, o meu amigo Flávio, agradeço muito a ele, se um dia ele vir isso. Da hora o Flávio, me deu minha primeira oportunidade de trabalho. Então, foi “show de bola”. Eu trabalhei pouco nesse trampo, mas foi libertador, foi muito louco.

 

P/2 – Quanto tempo você ficou?

 

R – Eu fiquei seis meses nesse primeiro trampo, depois eu arrumei um outro, comecei a trabalhar com eventos, fazer montagem, ganhava melhor, trabalhava mais, mas ganhava melhor, conhecia mais lugares. Aí, eu comecei a conhecer outros estados e aí vai, foi muito bom também essa passagem.

 

P/1 – E você lembra o que você fez com o seu primeiro salário?

 

R – Oxe, eu ganhava muito pouco, ganhava muito pouco, esse trampo de office boy, eu ganhava cem reais. Desses cem reais, eu lembro que eu tinha que tirar dezoito pra passagem e acho que vinte e oito ou trinta reais pro ‘rango’, sobrava acho que cinquenta, sessenta reais, se eu não me engano. Aí, eu dava um pouquinho em casa e ficava com pouquinho. Mas dava pra fazer os rolezinhos no final de semana, mas eu lembro que eu ajudava em casa, um pouquinho também.

 

P/2 – Quais eram os rolês?

 

R – Meu, a gente tinha uma balada que chamava Birinight, era no final da Zaki Narchi, de frente ao aeroporto e o Campo de Marte ali, na curvinha assim, aonde que foi o Negritude Júnior depois, de cabelereiro. Antes era Birinight ali e tinha muitos bares ali. Naquela avenida ali, eram muitos bares na noite assim: de quinta-feira para sexta-feira, de sexta-feira para sábado e de sábado para domingo, era bombado. Então, a gente começou ali, depois Santana Samba, Sunset, que virou Bahamas. Fui também.... como é o nome daquele? No Centro Clube da Cidade, óbvio que todo menino de favela queria dar um raspão no Clube da Cidade, pra conhecer. Projeto Radial, zona leste no Tatuapé. Tio Sam também, Dramaticallis, isso é tudo balada de preto, viu? (risos) De periferia a maioria, mas são essas baladas aí. Eu era moleque, viu, eu era moleque, por exemplo, no Projeto Radial, tinha a matinê, porque nós entrávamos na matinê, catorze, quinze anos. (risos) Aí, num certo horário, eles saíam com a lanterninha, pá, pá, pá, procurando, pra ver quem tinha menos de dezoito. “Documento”, quando ele via, percebia que tinha menos que... ah, mano, eu levava o registro. (risos) Eu levava o registro todo remendado, não dava nem pra ver qual era a data de nascimento. “Senhor, por favor”, vai, pegava: “Sai”. Você só ficava se tivesse o RG, só o RG, eu levava o do registro, porque o meu registro era todo remendado. Então, não tinha como ver as informações. (risos) Tempo bom, eu creio que o Ed deve ter falado isso também, o Ed na entrevista dele, porque a gente fazia muito isso. Desculpa, pode mandar.

 

P/1 – E você, voltando um pouquinho, lembra qual é a sua primeira memória da escola? Aquiles, você lembra qual é a sua primeira lembrança da escola?

 

R – Lembro, sim. Nunca gostei da escola, pra falar a verdade, eu nunca gostei. Hoje me arrependo, assim, com quarenta e um anos, olhando lá pra trás, eu me arrependo, porque era um tempo que eu tinha que ter aproveitado muito melhor. Mas a primeira lembrança não é nem na escola, é no pré. Eu passei pelo pré, Anita Garibaldi, lá na Vila Penteado, passei pelo pré-escola, foi muito bacana, mas eu chorava muito. Eu lembro que meu pai me levava na garupa da bike, eu chorava demais, que eu não gostava de ficar, ficava ali ó, eu creio que eu ficava umas duas, três horas chorando. Na escola não, na escola eu já era mocinho. Eu lembro que eu tinha muita dificuldade pra aprender, eu não gostava, eu creio que eu devo ter déficit de atenção, deveria ter, na época, porque eu era muito ansioso assim. Meu, eu não gostava, pra falar a verdade. Mas, assim, com o tempo eu fui me adaptando, fui melhorando, eu estudei até a quinta série, até a sexta série, na realidade, lá no Penteado, que foi quando a gente mudou. Aí, até ali eu estava indo bem, mas quando eu cheguei na Zaki Narchi, já era. Aí, eu estudei mais cinco meses só, depois. Na realidade, eu nem fui esses cinco meses, eu ‘cabulei’ e cheguei pro meu pai, falei: “Ó, não quero mais estudar”, foi onde meu pai falou: “Vai trabalhar, então” e é isso. Aí, eu vim terminar os meus estudos em 2013, que aí eu entrei na Biblioteca de São Paulo, aí a gente entrou lá primeiro com um trampo pra fazer a segurança, aí eles viram que a gente tinha um potencial para exercer a função que todo mundo exercia, às vezes, até melhor que alguns ali. Então, eles falaram: “Meu, termine os estudos, pra vocês começarem ganhar oportunidade”, aí eles cobraram da gente e foi onde eu estudei, eu e o Ed entramos na escola, fizemos o supletivo um ano, até a oitava. Aí, finalizamos a oitava, aí eu fui e fiz Enem no mesmo ano. Aí, no Enem eu consegui uma pontuação, mas no outro ano, de 2013, eu fiz de novo o Enem, nem passei pelo ensino médio, já peguei meu diploma. Aí, agora estou fazendo Radio agora, tô fazendo Radiologia, fé em Deus eu acabo, daqui um ano e meio ainda, (risos) mas eu acabo, vai melhorar tudo.

 

P/2 – E na escola ainda...

 

R – Desculpa, é que eu falei demais.

 

P/2 – Não, não, fica tranquilo.

 

P/1 – Quando você era pequeno, assim, nessa mudança da infância pra adolescência, você costumava pensar assim, que tinha alguma coisa que você queria ser, quando crescesse?

 

R – O primeiro sonho era ser jogador, mas uma coisa que eu falava muito também é que eu queria ser médico, isso daí se perdeu...

 

P/1 – Aquiles, ainda na infância, na escola, teve algum professor que foi marcante pra você?

 

R – Eu tinha uma professora de Ciências que eu não vou lembrar o nome dela, mas ela era uma professora muito boa, assim, no que ela fazia, ela tinha um carinho especial.

 

P1 - Tinha alguma professora que te marcou, durante a infância?

 

R – Eu tinha uma professora de Ciências que ela era muito boa no que fazia, mas eu não vou lembrar o nome dela. Mas a professora que me marcou mesmo, foi a professora Geralda, era professora de Geografia, era muito boa também, mas ela marcou porque, naquela época, alguns professores tinham uma régua desse tamanho assim, de madeira. Quando alguém falava alguma coisa dentro da sala, na aula dela principalmente, levava uma reguada daquela, levava uma reguada daquela. Se um dia alguém ver essa reportagem, alguém da minha sala, vai lembrar disso, poxa, porque ela era muito brava e ela levava todo mundo ali na rédea, na rédea, de verdade. Professora Geralda, ela deve estar bem velhinha, já.

 

P/2 – Você já levou?

 

R – Não, nunca levei, eu não fazia muita bagunça, não. Eu vim fazer bagunça depois de grande já, quinta, sexta série. Terceira, segunda e primeira, era mais quietinho. É isso.

 

P/1 – E tem alguma história marcante da época da escola?

 

R – Ah, meu, vou falar de um ‘cacete’ que eu levei na escola. (risos) Uma vez eu apanhei na escola, foi a única vez que eu apanhei na minha vida, pra falar a verdade, foi essa. Meu, por exemplo, que nem eu falei pra vocês: na quinta série eu já era mais ‘saidinho’. Então, arrumava umas briguinhas aqui, era líder da sala e tal, eu creio que eu devo ter batido em alguém, meu. Mas uma certa tarde, eu entrava das três às sete da noite, eu estava de costas, eu e um amigo, conversando assim, pensa que não, eu só senti aquele negócio nas minhas pernas, puhhhhh. Eu subi, caí. Quando eu caí, levantei, assim, já levantei de novo, quando eu levantei, foi outro, puhhhhhh. Pá, no chão, eu levantei de novo, o cara me deu três, três “rodos”. Aí, no terceiro, ele falou: “Vai, levanta”, eu: “Não vou levantar, não vou levantar mais, porque você quer me bater”. Ele era maior que eu. “Bate nos moleques de novo, que você vai ver”, eu era folgadinho mesmo. Depois disso, foi um aprendizado muito grande pra mim, porque depois disso eu comecei a respeitar mais a molecada e mudou a minha vida na escola, pelo menos. (risos) Não levei mais uma com ninguém. Essa é uma história que não é legal de contar, mas que aconteceu, né? Ah, e a primeira vez que eu assisti um filme também, no cinema, foi na escola, assisti Ghost, Do Outro Lado da Vida. Esse filme foi muito bacana, foi marcante, na época.

 

P/2 – E como foi esse dia?

 

R – Ah, a escola bombou. A gente não tinha acesso ao cinema naquela época, né? Foi o que essa época? 1989, 1990, Ghost, cara e era sucesso no cinema, sucesso, aí a diretora inventou de fazer isso, fez uma quatro sessões, eu acho, pra todo mundo assistir. Mas lotou e foi no final de semana ainda, foi bacana, foi bacana, de verdade. É o que eu mais lembro, assim.

 

P/1 – Queria te perguntar do cinema mesmo, que você falou que ia no cinema...

 

R – Ah, esses do Centro, né?

 

P/1 – É.

 

R – Levei minha namorada lá, minha primeira namorada, que foi minha esposa. A gente ia bastante nesse cinema, que era barato, né? Era barato e o acesso era de boa. Então, a gente ia, de vez em quando, creio que não deve ter mais agora lá no Centro não, faz tempo que eu não vou pra lá. Mas era muito bom naquela época, ia lá, assistia dois filmes, acho que era por um real, na época ou era dois reais. Então, era lotado.

 

P/1 – Você lembra qual filme, assim?

 

R – Eu assisti o filme do Sylvester Stallone, O Especialista, o nome, assisti esse filme lá. Esse foi um filme que me marcou muito. Tipo assim: eles passavam um do momento, da época e um mais antigo. Eu lembro que passou O Especialista e Bruce Lee. Bruce Lee também era um filme muito bom, na época. São esses dois filmes, eu assisti lá. Assisti umas duas, três vezes, viu? (risos) Não foi uma só, não. É porque era luxo, cinema era luxo. É isso.

 

P/1 – E, nessa época, você falou que tinha namorada...

 

R – Eu conheci minha... vivi vinte e seis anos com uma pessoa, a gente se conheceu, eu tinha quinze, ela catorze, a gente separou agora, no início do ano. Não deu mais, a gente teve dois filhos. Então, ela foi minha namorada desde essa época aí, ela que eu levava nesse cinema. (risos)

 

P/2 – Como vocês se conheceram?

 

R – Na Zaki mesmo, através de futebol, porque as meninas... a gente tinha... assim, a gente jogava fora e gostava de marcar jogo, as meninas iam conosco: “Tem time feminino aí?” “Ah, tem umas meninas, vamos fazer um jogo” “Ah, então vamos fazer”. Então, nós levávamos já um masculino e um feminino. Aí, em 1998 a gente montou um time: eu, Ed e Vagner, a gente começou a treinar as meninas, a gente ia jogar no Colorado do Brás, que era a escola de samba na época. Aí, era uma guerra boa. Era todo mundo amigo, mas quando se encontrava pra jogar, eram seis jogos assim: quatro de homens e dois de meninas. Mas era uma batalha, era uma batalha. Com homem, a gente jogava bem contra eles, dava um jogo bom. Das meninas, as meninas deles abraçavam as nossas. Aí, as meninas falaram: “Vamos treinar, vamos montar um time”, montamos um time, eu não sei se eu vou ter foto, mas eu creio que tenha, creio que tenha foto dessa época. Mas era muito massa, era muito massa, era muito massa. Foram cinco anos legais, que a gente foi curtindo essa onda, desses jogos, depois cada um foi pro seu lado. E eu e o Ed ainda continuamos, até hoje a gente tem a escolinha, mas aí perdemos o time das meninas, porque casaram, tiveram filhos e tal, cada uma foi pra sua. Mas até hoje a gente ainda continua com os meninos e tem o time das meninas, mas não as mesmas da antiga. Agora são as menininhas que vão entrando na escolinha e vão participando.

 

P/2 – Vocês tinham quantos anos, quando montaram?

 

R – Quando eu e o Ed resolvemos montar mesmo, eu creio que a gente tinha uns dezoito. Eu tinha dezoito, acho que ele vinte, ele é dois anos mais velho que eu. Assim, mas era uma coisa desorganizada. A escolinha mesmo, a escolinha, veio nascer agora em 2014, 2015, se eu não me engano, porque é quando tem documento mesmo, de escolinha. Dessa época de 1998, a gente tem algumas fotos, quando a gente ia pro rolê e tirava a nossa, mesmo, não de time, que era um documento pro futebol, que era da escolinha, não. A escolinha, mesmo, documentado, Instagram, tem acho que de 2014, 2015 pra cá, aí tem o trabalho feito lá, sendo feito até agora e é isso.

 

P/1 – Nessa época, que você estava na adolescência, indo pros dezoito, já tinha a Casa Amarela, né?

 

R – Sim, sim, mas eu não fazia parte nenhuma ainda.

 

P/1 – E você ia?

 

R – Sim. Assim, a Casa Amarela sempre foi um símbolo da quebrada porque morreu alguém? Faz o velório na Casa Amarela. Vai casar alguém? Faz a festa na Casa Amarela. Ah, é festa do fulano? Vai lá na Casa Amarela. Teve época que cobraram a taxa, teve a época que foi liberado, teve a época que não liberava pra nada. Agora não, agora, se precisar, a gente libera também porque a gente acha que tem que ser da comunidade. A gente quer fazer uma capelinha para fazer os velórios e tal, do lado, pra não usar a sala que faz uma atividade, fazer o velório. Mas enquanto não acontece, não faz a capelinha, ainda continua acontecendo tudo lá. Mas eu conhecia, eu confesso que eu não frequentava muito, só quando os meninos iam jogar uma bola lá, que a gente dava uma passada lá. 

 

P/1 – E você lembra de... assim, a gente estava entrevistando, pessoas mais velhas, o ‘seu’ Adão...

 

R – Sim.

 

P/1 – Você lembra do ‘seu’ Adão, dessa época?

 

R – Sem dúvida, o ‘seu’ Adão era um dos líderes da comunidade: o ‘seu’ Adão, Baltazar, ‘seu’ Joaquim e tantos outros lá, foram referência pra nós. Não foram um show de referência, porque não tem como ser um show de referência na Zaki Narchi, porque o contra é muito mais que o a favor, lá. Então, qualquer um, pra se fazer um trabalho, vai se encontrar dificuldade lá. E eu creio que o ‘seu’ Adão, por não ter um conhecimento, as pessoas o enganavam fácil. Então, eles eram manipuláveis, naquela época. Então, por isso que a gente não viu um trabalho social legal, igual a gente está podendo fazer agora. Mas eles são as nossas referências. A gente faz porque eles faziam naquela época. O pouco que eles faziam, deu direção para alguns. Eles cuidavam, eles tinham um time Cingapura, que lá chama Cingapura, tinham o time dos “cingapuras”, eles levavam uma molecada pra jogar com outros “cingapuras” naquela época, não sei se o governo ajudava ou não. Mas vinha um ônibus lá, pegava a molecada, eu participava não jogando, mas eu ia ver a molecada jogar e era muito bacana. Então, o ‘seu’ Adão, assim, eu tenho muito carinho por ele, é um “coroa” muito bacana, pelo menos comigo. Não sei o que você vai escutar dos outros, mas de mim, é nota dez. E jogava uma bola comigo também, “coroa saúde”, aquele “coroinha” ali, viu? (risos) Vamos lá.

 

P/2 – E depois de trabalhar de office boy, o que você foi fazer?

 

R – Ó, eu trabalhei de office boy, depois eu comecei a trabalhar nas montagens, porque nessa época era época de Exército. Então, não tinha como registrar carteira, na minha época, em 1998. Eu tinha esses trabalhos informais. Trabalhei na montagem, aí com dezoito anos, que a minha ex-mulher engravidou, eu arrumei um trampo numa estamparia. Eu ganhava muito bem nessa estamparia, eu ganhava três salários, nessa época. Só que eu trabalhava muito também, eu trabalhava dezesseis horas por dia. Eu entrava às quatro da tarde e saía às sete da manhã, só que era de segunda-feira à sexta-feira. Eu trabalhava a semana toda e no final de semana eu curtia, né, meu. Foi muito bom, foi uma experiência muito boa nesse trampo, embora eu tenha tomado um “chapéu”, que a firma faliu, ninguém recebeu nada, mas foi um trampo também que me deu uma condição financeira. Trabalhei dois anos lá. No primeiro assim, “cê” é louco, eu fiz coisas que eu nunca tinha feito nada na vida. (risos) Aí, começaram as coisas boas, que acho que meu terceiro salário, eu peguei a minha namorada na época, falei: “Vamos lá no shopping”, nossa Senhora! Você imagina: você com três salários, compramos roupa, eu nunca tinha feito aquilo na minha vida. Comprei três salários de roupa e dei pra ela. (risos) Foi muito “top”, foi libertador, (risos) da hora.

 

P/2 – Que outras coisas vocês fizeram?

 

R – Ah, eu já trabalhei muito, ó, até os dezenove e meio nesse trampo aí, depois desse trampo eu saí. Aí, não tinha nada de trampo nessa época, eu fui quebrar parede, meu, eu quebrava, trabalhei umas quatro semanas abrindo porta de Banco. (risos) É, cara, pra ganhar o mínimo possível, vinte e cinco reais por dia. Esse aí foi um trampo que eu trabalhei quatro semanas, porque eu fechei com o cara e não tinha como voltar atrás, ele me pagou antes. Foi muito esperto ele, ele me pagou antes, eu falei: “Não, beleza, eu vou”. Estava precisando, tinha que comprar leite pra criança, essas coisas, fraldas, tudo. Aí, fechei um trampo com ele no escuro, meu Deus do céu, foram as quatro semanas mais difíceis da minha vida. Eu fiz quatro portas, abri quatro portas de Banco, ali da Caixa Econômica, dos bancos. A gente entrava na sexta-feira à noite, quando fechava a Caixa Econômica e saía no domingo de madrugada, pra eles voltarem na segunda, pra começar a trabalhar. E foram umas quatro semanas tensas. Esse é um trabalho que eu não quero lembrar, o trabalho mais duro da minha vida. Depois trabalhei de ajudante de pedreiro com o meu pai, mas era muito mais leve, até que, em 2004, eu entrei na Minas Goiás, que é uma transportadora, depois passei pra Rodonaves. Aí, eu passei três anos na Rodonaves, 2007. Depois da Rodonaves, trabalhei na Alimix, fui encarregado na Alimix, conferente, depois fui encarregado. Aí, da Alimix, em 2010, saí em 2011, aí entrei na Biblioteca. Saí da Biblioteca em 2015 e comprei um caminhão, aí falei: “Agora eu vou querer ser empreendedor”. Aí, comprei o caminhão, não deu certo, aí vendi o caminhão e depois comprei um carro, fui trabalhar de aplicativo também, não deu certo. Aí, acabei me separando agora, vendi o carro, aí aluguei um carro agora, tô trabalhando de aplicativo e dou aula no clube de manhã, no Clube Jardim São Paulo, dou aula pra molecada, de futebol, um projeto chamado ____ e é isso.

 

P/2 – Dezoito anos. Você trabalhava, teve filho e inventou de dar aula na escolinha? Começou a fazer, montou um time?

 

R – Sim, é assim: o time a gente sempre teve, sempre teve, em quebrada tem muito time de futebol. Todo mundo quer ter um time de futebol ou todo mundo quer ter a sua marca, entendeu? Então, sempre vai ter um time ali, pra você participar. Quem mora lá, sempre vai participar, sempre vai ter a sua equipe, entendeu? Se dividem, a quebrada se divide em várias equipes. Por exemplo, a Zaki Narchi: tem Nego Nego, Charlotte, 39 da Norte, tem os Bichos da Zaki, tem vários, cada um quer colocar a sua marca. Por exemplo: se você quiser, morador de lá, você vai e monta a sua marca. Ah, a “Luísa Z”. Você é a “Luiza Z”, você chama os seus amigos, faz ali vinte, trinta camisas, já era, tem a sua marca. Dali já vai sair um time de futebol, é certeza, certeza. Se for só mulher, vai sair um de vôlei e tal. E assim vai proliferando, a quebrada é assim.

 

P/2 – E como foi se tornar pai?

 

R – Cara, foi difícil. Inexperiência total, mas, quando eu fiquei sabendo, ela estava com dois meses. Ela me contou, aí no mesmo dia a gente contou pra mãe dela e contou pro meu pai. Aí a mãe dela falou: “Arruma suas roupas e pode ir embora”, meu pai falou assim: “Aqui só tem homem, sem chance, não quero mulher”. Aí, beleza, eu saí pra trampar, porque eu trampava naquele trampo de três salários, muito bom, eu falei: “Vou ver se eu pego um empréstimo do patrão, pra alugar um barraco, né?” Aí, quando eu voltei, já tinha... essa época era dos alojamentos, ainda. Já tinha o alojamento que a avó dela tinha uma influência na quebrada, já tinha arrumado um alojamento pra nós. Foi tudo muito rápido. Eu não queria ter casado, creio que nem ela. Mas já nos colocaram dentro do barraco e falaram: “Agora vocês se viram”. Aí foi: um deu uma cama, outro deu um guarda-roupa, outro deu a televisão. Eu saí do trampo, depois de uns sete meses, não tinha nada, eu peguei a geladeira, o fogão e o bujão, aí assim a gente foi vivendo. Graças a Deus, hoje, nós deixamos o apartamento lá pros filhos e já era, conseguimos conquistar pelo menos o ‘apê’.



P/2 – Mas como foi esse momento da vida, quais foram os desafios, os aprendizados?

 

R – É tudo novo, né? Ser pai é difícil pra caramba, (risos) ainda mais com responsabilidade, é mais difícil ainda. Graças a Deus, assim, eu não posso me queixar, não. Tive muita dificuldade, mas também muitas pessoas ajudaram a gente a mãe dela, principalmente. Meus pais também não puderam. A avó dela, o padrasto dela na época, o finado José. A gente foi muito acolhido, muito acolhido, para que a gente conseguisse suportar aquela convivência, porque nós éramos dois meninos mesmo, de verdade. A gente era muito criança, mas estamos aí, graças a Deus, superamos e temos dois filhos: tem a Kauane, de 22 anos, ela é técnica veterinária, fé em Deus vai se formar logo, logo. Vai se formar, não, vai entrar na faculdade logo, logo. Tem o Joãozinho, que vai fazer cinco anos agora, que é o meu xodó, meu pedaço e é isso. João e Kauane, o nome dos meus filhos e o nome da minha ex-mulher é Cátia.

 

P/1 – E como é a relação hoje, com eles?

 

R – Muito boa, muito boa, meu filho, por exemplo, estava na minha casa, ele fica comigo na semana, minha filha e minha ex-mulher trabalham. Então, ele fica na minha casa, aí ela chega, ela o pega, ela chega quatro horas. Aí, quando eu chego, dez, onze horas da noite, eu vou lá, o pego e levo pra casa de novo. Parte da tarde, ele fica com a mãe e os finais de semana que ela está de folga, que ela folga um final de semana um sim, um não e eu fico com ele a maioria do tempo, por enquanto, enquanto está essa bagunça de trabalho. Mas eu queria que os dois morassem comigo, pra falar a verdade, creio que isso vai acontecer um dia, quando tiver condições, nos próximos dois anos, eu creio que isso deve se realizar. E é isso, a convivência é boa, a convivência com a mãe deles é boa. A gente tenta ser o mais convivente possível, com a nossa situação e estamos em transição ainda, sabe, transição de verdade. Foi ruim, porque são vinte e seis anos. Foi ruim pros dois, mas infelizmente estava mais difícil junto. A gente escolheu se separar.

 

P/1 – E quais são os momentos da sua relação com o seu filho, o que vocês gostam de fazer juntos?

 

R – Ah, se você olhar o meu Instagram, você vai ver que o meu Instagram, acho que noventa por cento dos momentos são com ele. Quando eu tô em casa, a gente anda de skate, meu filho anda de skate já, ele tem quatro anos, mas ele anda de skate. A gente anda de skate, eu de long, porque eu não sei andar de skate. Ele anda de skate, a gente anda muito de bike, vai no parque, passeia muito. Ele gosta muito de jogar futebol também, (risos) tomara que seja bom também. A gente passeia bastante, anda muito, fica bastante tempo junto. Agora, nesses momentos não, porque como eu tô agora em dois trampos, está tomando muito o meu tempo. Ainda tem a Associação e tem o curso. Então, eu estou muito ausente, mas durante o dia, eu passo duas, três vezes na minha casa ali, pra pelo menos estar trinta, quarenta minutos com ele assim, sabe? E à noite, ele dorme comigo. Mas meus pais, graças a Deus, estão sendo maravilhosos, nessa parte. Meus pais já ajudaram a criar muito minha filha também, porque minha mulher também não tinha estrutura e eles deram liberdade para que a gente pudesse sair. Então, ela também foi muito criada por eles e foi muito também. Então, bastante atividade, a gente tem um contato bom, eu diria.

 

P/2 – Como foi a criação da sua filha, um pouquinho mais. Vocês conversavam bastante, tinha bastante participação?

 

R – A gente sempre conversou muito, eu sempre fui o melhor amigo dela, durante muito tempo. Só que chega um certo momento que a menina vira adolescente, né? Aí, já fica tudo mais difícil: o diálogo, os ideais já são outros, os pensamentos já são outros, tem coisas que é muito difícil a filha falar com o pai, pelo menos... não que a minha filha tivesse problema comigo, mas um certo momento, ela se fechou. Eu creio também que eu não fui, nessa transição dela de menina para adolescente, para jovem, eu também confesso que eu não fui um bom pai nessa época, porque eu conheci as drogas nessa época também. Nossa, o meu casamento e da minha mulher ficou muito conturbado. Então, como é que eu posso dizer? Eu me ausentei muito, com a minha família, de um período de seis, sete anos, assim. Nunca fui aquele cara de ser um “nóia”, mas, assim, eu usava droga. Então, quando eu não estava trabalhando nos finais de semana, eu ia jogar bola, tomava cerveja e ficava usando droga. Quando você está drogado, você chega em casa, você não tem como dar uma atenção pra ninguém. Você dá uma atenção, o que é a atenção: “Oi, pai, tudo bem?” “Ó, filha, toma dez reais aqui, vai brincar” e acabava indo fazer outra coisa. “Toma cinco reais, toma dois reais”. Dez é mentira também, que nós não tínhamos, naquela época. (risos) Mas era assim, era mais ou menos isso. Então, não tinha uma atenção, era meio que uma compra. E, às vezes, hoje a gente conversa muito, a gente é melhor amigo de novo. Então, ela chora quando eu comento, falo nessa parte, eu vejo sair lágrimas dos olhos dela, falo: “O pai foi muito ausente no momento que você precisou bastante, que era primeiro namorado e tal”. E, assim, eu fiquei muito triste com ela, porque eu sempre falei pra minha filha: “Filha, se você quiser namorar, você namora em casa. Não quero ver você na escada”, porque eu e a mãe dela ficávamos muito na escada, entendeu? Eu falei: “Não quero ver você na escada, não quer ver você na rua. Quer namorar, quer transar mesmo, vai pra dentro de casa, meu”. Meu sonho pra minha filha, eu falei pra ela: “Eu quero pagar o seu primeiro hotel com o seu namorado, quando você fizer dezoito anos”, esse era o meu sonho, pra ela ‘se perder’ com dezoito, mas infelizmente ela não quis e ela não me contou, essa é uma das tristezas que eu tenho com ela, já resolvido hoje em dia. Mas, assim, eu queria muito ter participado dessa parte da vida dela, mas eu confesso que eu não sei se eu estava preparado naquele momento. Então, assim, foi uma parte ruim da minha vida com a minha filha, mas eu creio que eu vou recompensar isso nos próximos anos.

 

P/2 – E como foi sair desse momento?

 

R – Cara, na realidade, o adicto é todo dia, é uma luta. Você nunca está limpo. A sua mente sempre, em um momento vai voltar e vai pensar naquela parada ali. Então, é por hoje. Então, eu tô vencendo hoje, eu já não sei o amanhã. Está sendo muito difícil, é muito difícil. Você sair das drogas, não é fácil pra ninguém. São poucas as pessoas que conseguem e a gente está aí no dia a dia, batalhando. Já tentei sair várias vezes, já tive várias recaídas. Então, eu não falo hoje em dia que eu parei, só falo que hoje eu estou limpo. Hoje eu estou limpo, mas amanhã eu não sei. Então, está sendo ainda, é um processo, processo que eu creio que um dia eu vou poder falar isso, mas não agora, agora eu sou muito fraco ainda.

 

P/1 – E, voltando um pouquinho pros seus trabalhos, você tem, assim, momentos marcantes? Você contou um pouco de todos os trabalhos que você fez, mas você tem algum momento, assim? Qual você gostou mais?

 

R – Olha, sou bem sincero: o único trabalho que eu gostei de trabalhar na minha vida foi trabalhar na Biblioteca de São Paulo, porque lá eles davam liberdade pra gente fazer o que quisesse. Uma, que quando eu cheguei lá, eles falaram assim: “Meu, pode ler o que você quiser”, eu não tinha contato com livro. Então, quando eu cheguei lá, comecei a ler, ler, ler, ler, confesso que não absorvia nada, mas li muitos livros, li muitos livros. Com aquilo ali eu aprendi um pouco mais a fazer uma leitura, a ler em voz alta. Então, aprendi muita coisa ali. Aprendi, eles me deixaram contar história, fazer contação de história, eles me colocaram num projeto pioneiro na biblioteca, que eles trouxeram uma pessoa lá dos Estados Unidos para passar o trabalho, que se chamava Bebelê. Eu fui o primeiro homem que fiz, então foi muito louco. Então, eu me pintava de palhaço pra trabalhar. (risos) Quer trabalho melhor que esse? Trabalhava com autistas, pessoas com deficiência, tinha uma galera que ia lá do Creci. Cara, contar história pra aquela molecada era a melhor coisa do mundo, “véi”. Então, era uma coisa atípica assim, imagina: o cara que quebrava parede, arrombava cofre, aí contava a história sem saber nada e eles falavam: “Meu, vai lá, mano. Você não sabe, mas você vai aprender a fazer”. Isso, pra mim, foi muito marcante. Então, foi o único trabalho que eu gostei de verdade, o único foi esse. E quando eu fui fazer uma montagem em Santos, porque a gente foi trampar com a rapaziada lá toda. Esse episódio eu posso dizer que foi muito bom, que a gente foi em quinze homens trabalhar lá em Santos, fazer uma montagem no Sesc e a gente ficou onze dias trabalhando lá. Vixe Maria! Então, era trabalho e praia, trabalho e praia. São as duas coisas marcantes que eu tenho, mas trabalho, o único que eu gostei mesmo foi esse.

 

P/1 – Você contou que você viajou duas vezes esse ano?

 

R – Viajei, esse ano, é. Regional, São Paulo mesmo. Mais algumas cidades do interior.

 

P/1 – E tem alguma marcante, além de Santos?

 

R – Ah, meu, em fui em várias praças, durante um tempo eu fiz montagens de praças, de instrutor de palcos em praças. A gente, infelizmente, chegava a montar e ia embora. O show ficava pra depois que eu ia embora. Então, era um trabalho muito monótono, mesmo: chegar, montar e sair fora. (risos) Então, era só o básico, mesmo. Então, não tem nada que me marcou, não, só as viagens mesmo. As viagens no caminhão, isso daí é perigo, acidente.  Mas é tudo, acho que tudo normal.

 

P/1 – E como foi pegar estrada, com o caminhão?

 

R – Tenso, tenso, eu confio em mim dirigindo, em você eu não confio. (risos) O rapaz, o senhor que trabalhava com nós, ‘seu’ Firmo, que Deus o tenha, trabalhava eu, ele e meu pai uma época, a gente ia nos interiores de São Paulo. Eu não lembro qual a empresa, se eu não me engano era a Riachuelo, eu sei que era uma empresa que eles pagavam pra montar uns palcos. Eles faziam umas exposições e um show, mas eu não vou lembrar qual empresa. Eu fiquei uns três meses com eles, tipo, a gente ia só nos finais de semana: sexta-feira, sábado e domingo, saía pra fazer essas montagens. Aí, depois, no outro final de semana, ia e recolhia. Tem uma história que a gente... creio que os três dormiram, aí bateu um retrovisor no outro, um caminhão no outro, assim, foi tudo muito rápido. Aquele dia ali foi Deus mesmo, né? Acho que a gente acordou com o barulho, vrrrrrrrum, não sei se foi retrovisor, se foi lateral, sei que foi o momento de mais tensão da minha vida, foi aquilo ali. (risos) Foi muito tenso, que eu fiquei tremendo uns três, quatro minutos. Mas, de resto, só isso mesmo. De resto, normal. 

 

P/2 – E na biblioteca? Contação de história, como que era, era pra criança?

 

R – Sim, o Bebelê era de crianças de zero a três anos, mas tinha contação de histórias de crianças que era livre, pra quem quisesse. O Bebelê era um horário certo, marcado. Assim, no sábado, tinha aos sábados, a parte da manhã, que era no parque, pro público e à tarde dentro da biblioteca mesmo, num espaço reservado. E, na semana, porque já fazia parte da programação também, da biblioteca, na semana de terças-feiras e quintas-feiras, se eu não me engano. Aí, tinha um certo horário ali, que era 45 minutos de contação de história, aí tinha uma equipe, eu fazia parte dessa equipe, sem saber nada, mas eu tentava lá. Bacana, foi muito doido.

 

P/2 – E tinha alguma história que você sempre gostava de contar?

 

R – Cara, eu tinha um livro lá, um livro que eu, pra falar a verdade, assim, eu contava essa história não pras crianças. Esse livro é um livro infanto-juvenil, mas ele é um livro que, eu creio, ele serve para todas as pessoas, de todas as idades. É o Livro da Linha da Vida. Eu não vou conseguir contá-lo, porque ele é um livro de imagens, você não fala, entendeu? Você vai só abrindo as imagens pra pessoa. E no final é muito triste, é um livro muito triste. Ele é o livro todo feliz, mas chega no final, que é o fim. É o fim da vida. Esse é um livro muito marcante que eu fazia, eu fazia leitura ao pé do ouvido, porque também tinha na biblioteca. Às sextas-feiras, uma hora por tarde, tinha leitura ao pé do ouvido, aí a gente tinha que escolher um livro, eu fazia sempre esse, que era muito bacana, muito “show de bola” mesmo, o Livro da Vida.

 

P/1 – Como que era essa leitura ao pé do ouvido?

 

R – Você escolhia, você pegava um livro, escolhia uma frase ou uma parte dele, um poema, um de poesia, você lia pras pessoas. Chegava na pessoa, a abordava, pedia pra ler uma parte do que você queria, ali, se ela concordasse, você lia pra ela. Tem livros que dá pra você ler todo, que nem esse que eu tô falando, ele é muito rápido, dois minutinhos você o folheia todinho, por isso que eu o escolhia. Pra não chegar lá e falar só uma parte aleatória e a pessoa ficar “boiando” ali. Então, o preferia, que era muito mais fácil, mais simples e eu falava bem pouco também. (risos)

 

P/2 – Como foi voltar a estudar, nessa época?

 

R – Cara, difícil, né? Porque, assim, eu estudei até 1995, até 1995, creio ou 1994. Então, eu voltar depois, em 2012, a gente voltou a estudar. Então, confesso que eu já não me lembrava muito, já estava desadaptado. Mas eu sempre fui um cara curioso, né, meu. E também, a escola não exigia muito também, não exigia muito. Foi o que nos ajudou também, bastante, a finalizar. Era conturbado, porque tinha que trabalhar, tinha que estudar, mas foi de boa, foi de boa, dos males o menor. Eu agradeço muito por eles terem cobrado isso da gente, é isso.

 

P/1 – E lá você trabalhava com o Ed?

 

R – Sim, sim, eu entrei lá através do Ed, na realidade. O Ed foi a primeira pessoa do projeto, que eles queriam, porque a biblioteca procurou a gente, não pra trabalhar de atendente, eles procuraram a gente porque tinha alguns problemas com os moradores, que eles achavam que eram moradores, mas eram moradores de rua, no caso. Aí, um certo dia, foi um moleque lá e quebrou o computador, aí eles foram lá na comunidade, falar com a gente. Aí, não acharam, pediram pra gente ir lá, a gente foi lá: “Então, meu, algum de vocês queria trabalhar aqui e tal, pra dar essa força pra nós, essa segurança, esse olhar mais da comunidade?” Beleza, eu estava trabalhando, ele falou: “Meu, eu vou”. Ele entrou, seis meses depois entrou mais uma amiga e um amigo e um ano depois eu entrei, eu saí do meu trampo e entrei lá. Aí, fiquei lá quatro anos, quase. Eu sempre tive essa vontade de querer ter o que é meu, entendeu? O Ed está lá há onze anos já, o Ed é guerreiro demais. Eu não consigo ficar todo esse tempo trabalhando pros outros, eu quero trabalhar no que é meu, eu quero fazer a minha herança crescer. Então, por esse motivo que eu saí de lá, mas, assim, não sei, creio eu se tivesse uma oportunidade de voltar, eu voltaria, porque é muito bom trabalhar lá, muito bom, de verdade. Era muito bom, não sei agora, (risos) mas se for pra fazer a mesma coisa, é muito bom.

 

P/2 – Como surgiu a ideia de montar a escolinha?

 

P/1 – Então, na realidade, a gente sempre fez, só que era uma coisa assim, que não tinha uma cobrança nem nossa, ninguém podia cobrar nós, nem nós podíamos cobrar a criançada pra vir treinar, entendeu? O que é que a gente fazia? A gente fazia aos sábados ou domingos, um futebol de manhã, com eles. Isso foi durante muito tempo, essa transição, de 1998 até 2010 por aí, a gente fazia esse negócio: “Ah, é final de semana? Vamos treinar”, a molecada: “Vamos treinar no final de semana, montem os times aí, a gente pega vocês”. A gente só fazia esse trabalho mesmo de organização, separava os times, arrumava uma medalha, um troféu, apitava os jogos, mas não era uma cobrança, um preparo físico. Só que chega um momento que a gente conseguiu um parceiro, um parceiro que, na época, queria ser deputado, vereador, não sei, ele falou: “Meu, eu vou dar um uniforme pra vocês. Vou dar uma bola, vou dar uns cones, vocês começam a escolinha, mano. Porque, se eu ganhar, no futuro, eu vou ajudar vocês. Monta a escolinha, eu vou investir em vocês”. Era o que a gente queria escutar, né? Poxa, a gente faz o bagulho de graça, está certo que não tinha responsabilidade. Se o cara puder nos ajudar, investir, formar jogador, imagina: a gente já viajou. Formar jogador, nossa! Aí, começamos e estamos aí, até hoje. O pessoal agora, graças a Deus, tem bastante visibilidade, né? A pandemia foi muito ruim, mas ela deu muita visibilidade pro nosso trabalho lá na comunidade e as pessoas estão confiando mais em nós. Então, isso está sendo muito bom, estão vindo muitas pessoas procurar pra nos ajudar, vocês são uma delas.

 

P/2 – E como funcionam os treinos?

 

R – Os treinos funcionam de segunda-feira a quinta-feira, das sete às nove da noite, depois que a gente sai do trampo, é lógico. De início, era eu e o Ed, depois foi eu, o Ed e o Ninho. Aí, o Ninho foi embora, ficou eu e o Ed durante mais um tempo, aí depois conseguimos o Vagner e o Rafa, que ficaram conosco bastante tempo. O Rafa é o menino que eu apresentei pra vocês. O Rafa saiu, porque ele vai estudar, vai fazer outras coisas agora, o Vagner está com a gente ainda. Agora, a minha ex-mulher, a Cátia, também dá treino pras meninas, porque eu acho que quem dava treino pras meninas era eu, mas esse contato feminino é muito melhor, mulher com mulher, porque elas perdem a vergonha, acabam não fazendo um exercício direito, não fazendo uma coisa, porque é com homem, tem medo de colocar uma perna aqui, outra perna ali. E o contato, mesmo, até pra falar assim, você vai poder falar com ela melhor do que eu sobre umas vestes e tal, a maneira dela se portar, a educação e tal. Aí, a gente tentou e conseguiu uma mulher agora, pra dar treino e tem o professor Alexandre também, que é novo. Eu, o Ed e o Vagner, agora, ou seja, cada um vai um dia só. Antes o que eu e o Ed fazíamos todos os dias, agora a gente só vai um dia, dividiu para todos os professores. Um dia para cada, aí ficou perfeito. E se vocês quiserem, um dia, conhecer, estão convidadas, tá bom?

 

P/2 – E como foi se tornar professor?

 

R – Eu não sou professor assim de carreira. Sou professor da favela, né?  O que eu aprendi durante todo o meu tempo jogando nos times aí, treinando em alguns times, a gente tenta passar pra eles. Assim, a gente é até falho em muitas coisas, assim, porque, por não ter esse estudo mesmo. Mas eu creio que a gente mais ajuda, do que atrapalha. Eu creio que é mais favorável, do que desfavorável, a situação. Espero um dia me formar também, ser professor de Educação Física, mas esse é um projeto para daqui a dez anos, mas eu vou chegar lá ainda.

 

P/1 – São crianças de todas as idades?

 

R – Sim. No início, o projeto era de cinco a dezoito, mas tem algumas crianças de cinco, seis anos, que não são focadas. Elas não conseguem ainda focar no treino. Então, acaba atrapalhando as outras. Então, a gente, esse ano, depois que voltou a pandemia, colocou de sete a dezoito. Dezoito porque a gente tem, não sei se vocês já ouviram falar, num campeonato que tem em São Paulo agora, que se chama Taça das Favelas, quem faz é a Cufa. Esse projeto tem crianças de dezoito anos, que participam. Então, a gente começou a treinar algumas crianças de dezoito anos, para que eles participassem nesses projetos também. É isso.

 

P/2 – Como é que foi a retomada da associação? Mais atividade, engajando a Zaki, o pessoal?

 

R – Ainda não acontece lá, pra falar a verdade, a situação do pessoal ser fechado com a associação. É assim: a gente é cinco lá, que são fiéis, que quando dá, está lá fazendo o trampo mesmo de associação. Mas a gente precisa muito das pessoas, para que nos ajude. Eles, infelizmente, não confiam no trabalho, porque outros trabalhos passados também já foram desonestos, assim, sabe? Não fizeram um trabalho social legal, estavam se aproveitando do espaço de associação. Então, as pessoas têm essa desconfiança. Agora, agora que a gente está lá, a gente está conseguindo trazer a comunidade para nós, porque eles estão vendo o trabalho, às vezes, quando não vê também, criticam a gente. A gente sabe como é que é, infelizmente, mas agora está saindo um trabalho. Então, aos poucos estão vindo: um mês chega um, outro, “eu posso fazer alguma coisa pra ajudar”. Eu creio que nos próximos três anos, porque agora, quando acabar a pandemia mesmo, vai deslanchar a coisa, porque a gente precisa de uma reforma lá. E a gente está quase fechado, essa reforma. Assim que reformar, que vai dar um up no espaço, aí sim as pessoas vão ver a mudança, de verdade. Eu creio que esse visual, a reforma da casinha vai dar esse visual pra eles, embora nesse tempo de pandemia, a gente já doou mais de quatro mil cestas. Já doamos não, desculpa, já repassamos, quem doa são os grandes, lá. A gente só repassa. Mais de quatro mil cestas, então a gente está fazendo um trabalho “top”, “top”. Na associação que existia antes, lá, eu nunca doei nada, pra falar a verdade. Não a do ‘seu’ Adão, a outra. A do ‘seu’ Adão é de antes, ainda. E a última que teve lá ficou sete anos e nunca fez nada lá, nunca fez nada na comunidade, só tinha o ballet lá, que mesmo assim, também, não sei como funcionava. E agora vai sair. O pessoal está precisando, está esperando, quer que acabe a pandemia, os professores, para virem dar aula de capoeira, muay thai, boxe, karatê, creio eu que a gente vai ter atividade a semana inteira, na casinha. Nos próximos dois anos, eu creio que a gente vai estar em outro nível lá, nos próximos dois anos, porque ainda faltam algumas coisas também, como documentação, a gente é uma associação nova, tem alguns processos que precisam de cinco anos de documentação, para que você tenha liberação do governo e tal. Isso está dando algum problema, mas creio que nos próximos dois anos a gente vai conseguir bastante parceria, pra colocar pra andar esses projetos aí.

 

P/2 – E você percebe alguma mudança, pensando nos seus alunos, assim?

 

R – Sem dúvida, sem dúvida, a gente já ganhou vários, a gente já ganhou vários, também já perdeu alguns, porque é o processo, que eu nem falei lá no início: o tráfico funciona próximo. Então, a concorrência é grande. Por exemplo: tem um aluno lá, que agora está fazendo o tráfico, ele era aluno até um dia desses, tem dezoito anos, por quê? Infelizmente não tem um pai próximo, a mãe é guerreira, a mãe é guerreirona, trabalha de manhã, de tarde e de noite, mas se o moleque não tem uma pré-disposição para querer fazer o bem, cara, é uma concorrência difícil também, o traficante chega lá na Zaki, ô, o cara chega lá com um... vamos colocar um carrinho mais ou menos aí, de cento e cinquenta mil reais, o cara chega com um “bucho” de dois mil reais, o cara, às vezes, chega até com duas mulheres no carro. Então, cara, como é que o cara vai trabalhar, pra ganhar mil e duzentos reais por mês, sendo que ele pode ganhar dois mil e quinhentos na semana ali, numa bolsa, só vendendo droga? Ele vai correr um risco, mas é um risco mínimo, o risco dele é mínimo, de ir preso ali. Então, a concorrência é surreal, “véi”. Muitos vão querer pegar aqueles dois mil e quinhentos ali: “Ah, vou fazer uma semana só nesse trampo aí, depois eu vou sair fora”. Aí, quando os dois mil e quinhentos caiu no bolso, já era, já era, você nunca mais vai querer parar, porque é muito fácil ganhar dois mil e quinhentos reais. Então, a gente perde muito também, mas já ganhamos vários, já ganhamos vários, já tiramos vários de lá. Então, é isso que nos fortalece, no dia a dia.

 

P/2 – Pra você, qual é a importância de fazer, de pensar nessas atividades... pensando até no seu filho, você falou que ele acaba sendo um super incentivo. Qual é a importância, pra você, de tocar esses projetos e fazer a casinha criar novos projetos, novas atividades?

 

R – Assim, eu faço isso daí porque quando eu era criança, eu sempre vi pessoas fazendo. Então, isso foi fundamental, para que eu fizesse agora. Outra coisa é que pra meus filhos tenham essa opção. Poxa, cara, eu cresci lá na Vila Penteado, eu não sei se vocês, que são um pouquinho mais velha que ela, se vocês lembram do Circo Escola, do Orestes Quércia. 1986, 1985, se eu não me engano. Isso aí foi um diferencial na minha vida, fiz artes plásticas, fiz circo, mano, eu fiz muita coisa, fiz teatro, nossa. Então, isso mudou pra mim, sabe, me deu outro patamar, outro pensamento: “Cara, eu posso chegar lá longe”. Teve, não sei se você lembra também, a Eco 92, a Eco 92 foi um evento que aconteceu no Rio de Janeiro ou na Bahia, se eu não me engano. Os circos-escola, todos foram pra lá, as equipes que montaram as suas apresentações e foram pra lá. Eu fiquei querendo muito ir nessa Eco 92, cara, eu tinha doze anos. E o pessoal da equipe de capoeira, meus amigos foram e eu não fui, porque eu não era tão bom na época e era mais novo também. Então, o bagulho dava: “Caramba, conhecer o Rio de Janeiro”. Foi no Rio de Janeiro, porque eles vieram com a foto do Cristo. Cara, todo mundo de agasalho, bonitinho. Então, aquilo ali fazia nós pensarmos em novos horizontes, entendeu? E aquela época também não tinha tanto tráfico que nem hoje, mas é isso. Eu faço pra tentar dar uma vista diferente da que eles têm no dia a dia ali, ruim. Então, a gente tenta mostrar um futuro melhor para eles, palpável na realidade, porque tem coisas que a gente olha, mas não consegue alcançar. Ali, o que a gente tenta fazer, dá pra alcançar. É isso.

 

P/1 – E olhando, assim, dando uma reflexão, da Zaki da sua infância, pra hoje, quais as principais transformações que você vê, assim?

 

R – Olha, da minha época de criança, o que é que acontece? Quando eu cheguei na Zaki, naquela época o índice de homicídio era muito grande. Por quê? Vou explicar por quê: por que naquela época não existia o que existe agora, que é o PCC. PCC, querendo ou não, controla todas as comunidades. Ninguém mata, ninguém morre, se eles não deixarem. Naquela época não, naquela época a gente tinha o Beco da Morte, não sei se alguém que veio aqui já falou do Beco da Morte. Muitas pessoas tinham que pular os corpos quando... isso daí era de verdade, não é assim: uma vez por mês, era muito normal isso. E agora não, agora qualquer pessoa, qualquer pessoa, você, se quiser chegar na Zaki três horas da manhã, ninguém vai fazer nada com você, ninguém vai tocar em você, dentro da Zaki. Mas, se você sair da Zaki, aí você já corre perigo, porque na região ninguém está seguro. Mas dentro de uma comunidade, hoje em dia você tem mais “segurança”, entre aspas. Naquela época não, naquela época ninguém... como se diz? Era terra de ninguém, na realidade. Se você vacilasse, o cara vinha, tomava seu tênis e te matavam. Hoje em dia, não. Se ele fizer isso, ele vai morrer lá na frente, dois dias depois. Então, o que melhorou foi isso.

 

P/1 – E como é, você falou de segurança, essa tensão dentro da Zaki Narchi e o entorno, assim, é super... a gente foi lá, tem várias polícias em volta, né? 

 

R – Complicado.

 

P/1 – Como é que é essa tensão, existe uma tensão?

 

R – Muita tensão, muita tensão. Agora que inventaram o Pix, agora tem o sequestro do Pix, né? Então, agora os policiais chegam lá com dez viaturas. Chega a milhão mesmo, por quê? Porque o celular da vítima acusa que está lá dentro. Se a coisa está lá dentro, os caras entram daquele jeito. Agora está muito ruim morar na Zaki, em questão dessa parada aí de Pix, eu acho que deveriam acabar com esse negócio, porque está muito perigoso. Mas a polícia sempre foi muito hostil na comunidade, sempre foi muito hostil de verdade, mesmo. Ano passado, eu estava dando treino pra molecada, chegou um “polícia”... não é que chegou um “polícia”, eles vieram correndo atrás dos meninos, das biqueiras. Os meninos, como é ali próximo, os meninos correram. E eu estava dando treino pra molecadinha, de sete a doze anos. Eu tampei a molecadinha, porque os moleques passaram correndo no meio da quadra, eles vieram. Cara, de verdade, quando eu tampei a molecada assim, eu falei: “Calma, que eu tô dando treino”. Ele chegou, ele cuspiu na minha cara. Ele cuspiu na minha cara de verdade, mano. Depois disso, eu não consegui conter as pessoas, porque todo mundo começou a atacar pedra neles, mas eles não respeitam mesmo, infelizmente. Já foram muitos policiais educados na comunidade assim, de falar: “Meu, nós estamos fazendo o nosso serviço, só nos respeita aí, fala seu nome e tal”, mas 70, 80% vai pra esculachar, porque todo mundo é igual ali. Todo mundo... se você não tiver com a roupa diferenciada... e eu já vi isso porque, às vezes, eu coloco uma roupinha mais ou menos, assim, eu vejo que é diferente comigo. Por mais que eu seja preto, mas eu sei trocar uma ideia, eu sei falar com rico, eu sei falar com pobre. Então, eu sei falar com o “polícia” e sei falar com o bandido. Então, quando eles me abordam, eu sou super educado, porque eu sei que ele está fazendo o trabalho dele ali, entendeu? Eu tento ser o mais educado possível, mas infelizmente, tem vezes que a gente não consegue nem ser educado, porque eles já chegam com essa hostilidade toda. Então, é difícil, mas a gente entende, a gente mora na comunidade, isso aí a gente tira de letra. (risos)

 

P/2 – Quais são os maiores desafios?

 

R – Como pessoa ou como comunidade?

 

P/2 – Pode ser os dois.

 

R – Como comunidade é isso: trazer as pessoas pra gente, que as pessoas acreditem no nosso trabalho, fazer as pessoas acreditarem em nós, porque a gente já deu prova disso, que a gente não está ali pra sacanear ninguém. Poxa, a gente está ali, a gente está muitos anos sem ganhar nada, sem ganhar dinheiro, até hoje nunca ganhamos nada, entendeu? Nós não temos nem uma conta de Banco ainda, se vocês querem saber. A gente vai ter que criar agora, porque devido a esses contatos que estão chegando, a gente vai ter que criar. Mas tudo que chega pra nós como doação, a gente pergunta: “Você quer doar o quê? Você quer doar na parte do futebol? Você compra bola. Você quer doar na parte de contação da história, que o menino faz lá no final de semana? Você compra uns fantoches, você compra uns tecidos”, a gente sempre pede material. Mas, assim, sempre tem essa desconfiança, infelizmente, das pessoas, que são as pessoas que cresceram conosco. Conhece minha pessoa, conhece minha índole, mas ali na associação começa a duvidar de mim, por causa de uma cesta básica. Então, é isso que eu queria que fosse melhor, que as pessoas evoluíssem. E, como pessoa, eu quero terminar meus estudos. Quero, no futuro, falar como um professor de Educação Física, assim, com a molecada, pra dar uma direção melhor ainda pra eles, tentar melhorar cada vez mais os meus exemplos, tentar aperfeiçoar melhor em tudo e é isso. Ser uma pessoa melhor, é isso.

 

P/1 – Aquiles, e como foi essa retomada da associação?

 

R – Pós-pandemia?

 

P/1 – Não, desses dois anos.

 

R – Ah, não, a associação, eu creio que ela tem três anos, ela vai fazer três anos esse ano, se eu não me engano é no início do ano. Então, a gente começou a associação, a gente fundou a associação, com as papeladas, mas o nosso trabalho era mais com a escolinha. E a associação tinha outras pessoas, que trabalhavam na Casinha. Aí, a gente teve que criar uma eleição na comunidade, para que as pessoas votassem, para eleger se iam querer o trabalho que estava ou o trabalho que estava por vir, que era o nosso. Aí, a outra equipe que criou está chapa. Aí, fizemos essa eleição da comunidade, a gente ganhou de lavada. O pessoal teve dezoito votos acho, a gente ganhou com seiscentos votos, assim. E pra você ver, ó, nossa comunidade deve ter cinco mil pessoas, foram por volta de setecentas pessoas fazer uma votação dessa aí, que é pra mudar a comunidade, no meu ponto de vista, uma situação dessa. E as pessoas não aderem.

 

P/1 – Eu queria saber também como é que foi esse processo de... por que você acha que as pessoas escolheram vocês?

 

R – É, porque eles já viram esse trampo que a gente fazia, né? [Trecho retirado a pedido do entrevistado] Mostrando isso, as pessoas vieram pro nosso lado também, isso está melhorando no dia a dia.

 

P/1 – E daí você acha que ainda é difícil conseguir a confiança, mas...

 

R – É o trabalho, é um processo. Assim: é que eu não gosto de ficar falando do trabalho que já foi, eu quero falar do meu, mas as pessoas nunca viram trabalho nos anos passados. Então, elas ficam meio com o ‘pé atrás’, mesmo. Então, eu creio que, nos próximos anos, quando ver tudo acontecendo, criando vida, que a gente vai dar vida pra aquele espaço ali. Já tem vida, a gente vai dar mais vida ainda, aí as pessoas vão se chegando aos poucos e creio que o trabalho vai ser bom. Se vocês quiserem fazer uma visita lá, a gente vai fazer uma festa agora, no Dia das Crianças, a gente vai fazer uma festa lá. Se vocês quiserem, estão convidadas, se quiserem ir também. Vai começar das nove da manhã e acho que vai até umas oito da noite, que a gente vai levar até uma atração musical lá muito boa, que é um cantor de rap das antigas, Ndee Naldinho. Se vocês quiserem ir, comparecer, fiquem à vontade. Desculpa, propaganda, merchandising.

 

P/1 – (risos) Então, eu queria saber se você consegue pensar quais são os momentos, os acontecimentos mais marcantes que você vivenciou, na Zaki?

 

R – Os acontecimentos mais marcantes, isso vai ter documentário também: foi quando o pessoal queria nos tirar dos prédios, isso foi uma guerra, na realidade. Foi uma guerra, a gente teve que guerrear com eles, na realidade, porque começaram a falar muito e tal, que tem gás. Aquela região foi toda construída em cima de um lixão, o Shopping Center Norte, na realidade, os bem antigos falam que é mentira. Era uma parte só que era o lixão, que é a parte que é uma empresa bem grande lá, chamada Braspress, tem uma parte do Center Norte. Na Zaki Narchi não tinha lixão, os mais antigos falam. Mas, assim, como a gente é a parte mais fraca e o dono daquele complexo ali sempre quis tirar ali o pessoal da Zaki, até porque o pessoal ia lá incomodar muito no shopping, ia não, vai até hoje, incomoda muito lá no shopping. Então, eles queriam tirar mesmo ali, é mais fácil, né? É mais fácil tirar, do que tentar educar. Então... desculpa, fugiu o raciocínio agora, desculpa. 

 

P/1 – Não, eram exatamente os principais acontecimentos, aí você estava falando...

 

R – Desculpa, voltando, é. Então, a respeito, devido a esse gás, eles tentaram nos tirar, eles fecharam o Shopping Center Norte durante um tempo, depois eles falaram, vieram com a conversa que talvez ia ter que tirar todos os moradores da Zaki, pra fazer alguns estudos. Mas a gente sabia que, se todo mundo saísse, ninguém nunca mais voltaria pra lá, porque depois que saiu, já era. Como é que você vai fazer pra voltar? Ia ter que brigar com a polícia. Então, a gente foi pra rua, nós fizemos manifestação, tacamos fogo na rua, foi uma coisa ruim. Sim, eu concordo, não era pra gente ter feito aquilo, a gente tem sempre que tentar se organizar, tem sempre que tentar se organizar, chamar a atenção com paz, mas se a gente não tivesse chamado a atenção da maneira que foi naquela vez, a gente teria sido expulso do nosso espaço. Então, esse acontecimento marcou muito mesmo, assim, sabe? De verdade mesmo, não foi uma vez só não, foram algumas vezes, se não me engano foram três, quatro vezes, que a gente teve que ter esse embate aí, com polícia e alguns órgãos do governo, da prefeitura, não sei agora, mas isso marcou bastante. 

 

P/2 – Queria saber como é o trabalho feito no coletivo, assim, com a união de vocês lá dentro.

 

R – É, então, ainda estamos criando uma equipe ainda. A gente não tem uma equipe formada ainda, temos algumas pessoas que vão lá esporadicamente, no tempo que pode, não tem, a gente não tem um salário pra pagar pra uma pessoa só ficar lá e falar: “Ó, a gente tem horário da manhã, até tal hora”, a gente não pode fazer isso ainda. O Ed, às segundas-feiras, ele não trabalha na biblioteca, ele fica lá o dia inteiro. Eu, por exemplo, de quinta-feira, tenho rodízio do carro. Então, eu vou pro clube, depois eu vou pra lá. A Fernanda, todos os dias entrega as marmitas, porque a gente entrega trezentas marmitas por dia. Então, a Fernanda vai pra chegar lá às dez, recebe as trezentas marmitas e faz a entrega dessas marmitas, até meio dia e assim a gente vai indo. À noite, vem o professor dar o treino, às vezes, dá uma organizada na sala, é tudo muito inicial ainda, o trabalho assim, que nem eu te falo: se remunerado as pessoas não querem ajudar, imagina sem uma remuneração. É muito difícil, é muito difícil, infelizmente.

 

P/2 – E, Aquiles, quais são os seus maiores sonhos, pensando individualmente e para Zaki?

 

R – Ah, pra Zaki é conseguir fazer essa parada que eu te falei: nosso sonho lá, como professores da escolinha, é formar jogadores. Lógico que a gente quer formar cidadãos, mas nosso sonho é de formar jogador, aí você fala: “Poxa, cara, aquele ali saiu da escolinha”, entendeu, assim como projeto. A gente tem esse sonho maior. E, como associação, é conseguir encher ali de projeto, que nem eu te falei: mudar a direção das pessoas, assim: “Ô, tô precisando fazer um curso, vamos lá na Casinha. Ah, tô precisando fazer uma atividade, vamos lá na Casinha. Ah, o idoso está com problema, vai lá na Casinha, que ele vai ter uma solução”. Tudo que procurar, vai procurar A Casinha. No futuro eu quero que seja assim, nós queremos. Eu, Ed, Elis e o resto do pessoal, mas a gente sabe que é bastante trabalho, bastante trabalho duro, a gente passa por muitos perrengues, porque não tem essa parada de salário, mas vai dar certo, vamos chegar lá.

 

P/2 – E sonhos pessoais?

 

R – Ah, pessoais, eu quero casar na igreja ainda. (risos) Me separei agora, mas no futuro eu quero casar na igreja, (risos) isso é um sonho de mamãe. Quero terminar agora esse meu curso de Radio, quero finalizá-lo com êxito. Quero fazer Educação Física ainda e fazer uma pós em Psicologia. Esses são os meus sonhos como acadêmico. E quero... e tenho um sonho, pra morar, pra viver depois dos meus sessenta anos, eu tenho uma vontade muito grande de morar lá na Ilha de Itamaracá, que é lá em Pernambuco. É o lugar que eu fui algumas vezes e me apaixonei, a gente está tentando comprar uma casinha lá pro futuro, eu e a minha família, pra morar lá, na minha velhice e é isso.

 

P/2 – Se você pudesse... pensando aqui no bate-papo que a gente está tendo, qual que é a importância, o que a Zaki representa na sua história?

 

R – A Zaki é a minha história. A Zaki é a minha história, noventa por cento das coisas que eu vivi foram lá. A gente corre pra tudo que é lado, pra tentar levar o nome da nossa quebrada, assim, para elevar o nome, do lado bom, né? Porque a Zaki é muito famosa pelos seus problemas, né, meu? E a gente não, a gente quer mostrar o outro lado da Zaki. É o lado das atividades, dos caras que correm atrás da parada lá mesmo e faz o bagulho e é isso, a gente vai conseguir, tenho certeza.

 

P/2 – E você gostaria de acrescentar alguma coisa que a gente não tenha perguntado, muito importante pra você ou deixar alguma mensagem?

 

R – Ah, meu, eu queria agradecer, primeiramente, não tem mais nada muito importante, vocês perguntaram bastante coisa, eu acho que eu falei a minha vida inteira. Eu queria agradecer, mesmo. E falar pra quem assistir isso aí, acreditar, “véi”, que sonhos são alcançáveis sempre, só buscar.

 

P/1 – E o que você achou de ter dado essa entrevista?

 

R – Ah, fiquei bem nervoso. Tentei passar uma tranquilidade, a maior tranquilidade do mundo, mas o meu corpo estava até tremendo aqui, em alguns momentos, de verdade. Mas foi muito bacana, assim, eu já saio daqui muito melhor, pra falar com outras pessoas depois.

 

P/2 – E de lembrar, né, da sua vó...

 

R – Sim. Então, esses momentos foram muito bacanas, mesmo. De verdade, fazia tempo que eu não falava sobre a minha vovozinha e vocês fizeram eu lembrar e foi bacana.

 

P/2 – Última coisa: eu queria muito saber como é que foi o seu primeiro aniversário.

 

R – Ah, o meu primeiro... com festa? Ah, eu já tinha vinte e poucos anos. Já tinha minha filha e tudo. Foi “show de bola”. Eu sempre tive vontade, mas nunca falei assim, uma vez eu comentei com a minha ex-mulher, eu falei: “Caramba, nunca tive um aniversário. Meu irmão mais novo que eu, já teve”. (risos) Mas foi muito bom, foi muito bom assim, eu fiquei muito feliz mesmo, de verdade. E grato, né, por ter tido uma pelo menos. Só ficou nesse, mesmo. (risos)

 

P/1 – Foi uma surpresa, ou não?

 

R – Não, não foi uma surpresa, não. Assim: foi uma coisa de momento ali mesmo, o pessoal se juntou num dia ali, fez o bolo, comprou os refrigerantes, mesmo, só pra marcar, porque na minha casa, antigamente eu fazia muita bagunça, na minha época ruim de vida. Então, foi esse pessoal aí que se organizou e fizeram, mas foi legal o momento, foi bacana.

 

P/2 – Aquiles, muito obrigada.

 

R – Obrigado vocês.

 

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