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História

Tempero sustentável, cozinha de amor com sabor

História de: Morena Leite
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2019

Sinopse

Morena Leite foi criada em Trancoso, na Bahia, entre concepções de vidanatural e práticas sustentáveis. Bem pequena, já ajudava no restaurante da família, revelando vocação e talento impressionantes para a gastronomia.Mandada estudar fora, concluiu o curso superior mais afamado emgastronomia e confeitaria – o Cordon Blue. Há 21 anos brilha em São Paulocom o Capim Santo, que traz na origem o DNA de sua família. Como tambémse impõe pela qualidade e originalidade em outros espaços, dentro e fora deSão Paulo. Idealizou o Instituto de mesmo nome, através do qual já formou etransformou mais de mil jovens. Em sua trajetória de conquistas e realizações,há o momento de ser a mãe de verdade, presente e amorosa.

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História completa

Meu nome é Morena Leite, sou canceriana, do tipo carente, nasci em São Paulo, no ano de 1980. No final da década de 70, meus pais mudaram-se para Trancoso, na Bahia. Chegaram lá num Gurgel, com um saco de arroz integral, adeptos da comida macrobiótica, entusiasmados com a questão da sustentabilidade, dispostos a fundar uma comunidade hippie. Eu, nascida em São Paulo, cheguei lá com menos de um ano; lá aprendi a andar, a falar. Não demorou muito e meus pais, que tinham suas respectivas formações – ele, Administração; ela, Arquitetura – integraram-se ao espírito do lugar: passaram a fazer e vender pão integral; transformaram a preferência pela macrobiótica num ponto de encontro, e daí num restaurante, e montaram uma pousada. Moravam em casa de pau a pique, que eles fizeram; usavam fogão a lenha, plantavam o que comiam; enfim, uma existência baseada na sustentabilidade.

Eu, de meu turno, logo cedo me mostrei diferente da maioria dos que me rodeavam: eu era determinada, meio agitada, focada em crescer e “conquistar o mundo”. Portanto, nada a ver com o perfil contemplativo daquela comunidade. Mas com valores de inclusão social, de luta pela preservação e sustentabilidade do planeta, bem presentes. Comecei a ajudar no restaurante da família e logo ficou claro que eu tinha um dom. Pessoas aconselharam minha mãe a que eu saísse, fosse estudar fora. E assim aconteceu: fui estudar na Inglaterra.

Eu, desde pequena, gostava de observar as pessoas. De entendê-las. Quando me disseram que a Antropologia se prestava a estudar o ser humano, eu decidi que seria antropóloga quando crescesse. Ocorre que, estudando na Europa, sozinha, e em contato com várias nacionalidades, eu descobri que o que as pessoas comem – seus hábitos alimentares – falam muito, também, sobre elas. Desse período, Paris foi a maior revelação: percebi, então, que a França “respira gastronomia, culturalmente”. 

Então, eu costumo dizer que o meu encantamento com a gastronomia veio, primeiro, por essa questão de identidade de um povo. E depois, pelo sabor da comida propriamente dito. Porque o que eu acho importante sair da cozinha não é, exatamente, um prato bem feito, cheiroso, saboroso. É tudo isso, mas que traga, também, o ambiente em que foi feito: a reunião harmônica de pessoas; a soma das mesmas visões de mundo e de vida; o amor entre elas e, principalmente, a oportunidade de aprender a trabalhar em equipe.

Bom, mas aí eu fiz o Cordon Blue Grand Diplôme. Ou seja, um curso superior de gastronomia e confeitaria. Voltei para o Brasil, trabalhei um tempo com minha mãe, escrevi o primeiro de meus livros, intitulado Brasil, Ritmos e Receitas, e recebi a incumbência de continuar o trabalho da minha mãe aqui em São Paulo: foi então que surgiu, há vinte e um anos, eu praticamente uma menina, o Campim Santo. Hoje são dois, trezentos funcionários, sendo noventa em cozinha, e um projeto de alcance social, conduzido pelo Instituto Capim Santo.

O trabalho passou a ser tudo – de bom e de ruim – para mim; meu remédio e meu veneno. E isso graças à forma compulsiva como passei a encará-lo e executá-lo. Em detrimento, inclusive, da maternidade. Como minha mãe, de certa forma, havia feito lá atrás, e eu lembro de que muito me ressenti desse “abandono”. Não queria o mesmo para minha filha, então com sete, oito anos. Resolvi iniciar, com ela, o que chamo de “um ano sabático”. Fomos morar no exterior, só eu e ela. Ela estudando, eu trabalhando, a gente bem agarradinha. Com tempo para ela. Eu devia isso a ela. E em determinado tempo, conhecemos um lugar maravilhoso – escola de bambu no meio da floresta – que eu entendi como refazendo o caminho de meus pais lá na utopia de Trancoso, nos anos 70. E aí, fomos morar em Bali. 

A Indonésia é muçulmana, mas Bali , em si, é hindu; mas um hindu meio espírita, tem uma coisa muito forte, meio candomblé assim. Tem oferendas o dia inteiro.

Voltamos ao Brasil em janeiro deste ano, continuo tendo uma agenda intensa, mas essa viagem pelo mundo, com minha filha, foi, enfim, uma maneira de afirmar que a compulsividade é minha característica como gestora, executora, coordenadora, sei lá, assim como a capacidade de dar um tempo em tudo, se necessário, para acarinhar a cria, para ter com Manuela um “encaixe” assim, muito forte, como tivemos nesse ano sabático. Agora, na sequência do meu trabalho com a gastronomia, foram surgindo oportunidades de promover transformações nas vidas das pessoas através de cursos de capacitação gastronômica. E eu fiz questão de não desperdiçar essas oportunidades, mas, ao contrário, de aproveitá-las. Hoje, já são cinco cozinhas com essa destinação, uma delas no Capim Santo. Hoje, inclusive, o Instituto Capim Santo é guiado por outras mãos – que as minhas já estão muito, muito ocupadas – mas isso é possível porque…

…  a gente planta uma sementinha, ela vira uma árvore, essa árvore começa a dar frutos, esses frutos começam a cair e aí, sozinhos, caem na terra, que chove, que molha, que saem outros frutos. (…) a gente já formou acho que mais de mil jovens.

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