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Temos que nos responsabilizar pelo que somos

História de: Kika (Zunilda Nanci Casas Acosta)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/05/2007

Sinopse

Kika relembra da sua família e da sua infância no campo, trabalhavam com gado e ovelhas, relembra do período em que mudou para Montevidéu para ter um estudo melhor, como conheceu o seu marido e como tomaram a decisão de voltar a morar no campo, assim foram aprendendo com os produtores vizinhos, procurando informação na biblioteca, consultando técnicos e assim foram aprendendo a trabalhar no meio rural. Conta como começou a se envolver com os movimentos de mulheres rurais, como se organizavam, se incentivaram, como criaram redes de apoio de mulheres, além de contar quais são seus sonhos pessoais e para a Rede LAC.

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História completa

 P/1 - Qual é seu nome completo, Kika?

 

R - Meu nome é... Eu vou falar em espanhol. Meu nome é Zunilda Nanci Casas Acosta, mas, realmente, para mim, meu nome é Kika.

 

P/1 - Qual o local e a data do seu nascimento?

 

R - Eu nasci em dezoito de junho de 1938, no Departamento de Lavalleja, numa cidadezinha chamada Batlle y Ordoñez.

 

P/1 - Qual o nome dos seus pais?

 

R - Ele chamava Eduardo e minha mãe Filena. Ela também não gostava do seu nome e as minhas primas e o pessoal mais próximo, chamavam ela de Tala.

 

P/1 - Você poderia falar um pouco da sua origem?

 

R - Bom, a minha família foi uma família do campo, tanto a do meu pai quanto a da minha mãe. Era uma família de classe média “acomodada”, eram trabalhadores, mas em boa situação econômica, e viviam a uns quinze quilômetros da cidadezinha mais próxima. Trabalhavam com gado, gado de corte e ovelhas, com lã. Lembro da época em que morei lá e fui muito feliz.

 

P/1 - Você tem irmãos?

 

R - Tenho uma irmã mais nova do que eu, dois anos e meio… E com gostos muito diferentes.

 

P/1 - Como assim?

 

R - Ela é uma mulher que, realmente, sempre foi como a minha mãe, muito urbana. Apesar de que nós duas viermos de uma família rural, ela não entende muito bem que eu continue no campo e que esteja muito feliz. Ela mora na cidade, mora em Montevidéu, e somos muito próximas, muito queridas. A gente se vê pouco, mas estamos sempre juntas.

 

P/1 - Você falou que a sua mãe também é urbana. Mas viveu no campo, não?

 

R - Nasceu, casou e ficou no campo, que era um patrimônio dos meus avós, até que nós chegamos na idade escolar. Então ela teve oportunidade de dizer que nós precisávamos ir para a escola; nessa região não tinha escola, então ela saiu com nós para a cidade.

 

P/1 - A família toda mudou?

 

R - Não, só minha mãe e nós duas. Meu pai ficou morando no campo. Nós íamos para lá nas férias. Eu sentia muita saudade do campo, muita. Minha mãe era uma mulher amorosa, cheia de cuidados, sensível, mas com muito medo de tudo, dos bichos, de cobras, de vaca... De tudo o que estava em volta. Realmente, eu acho, mas não tenho certeza, que ela sofria muito dessa sensação, mas superava, porque meu pai era um apaixonado pelo campo.

 

P/1 - E seu pai viveu sempre no campo?

 

R - Não. Ele mudou. Esteve lá um tempo, até que realmente não aguentou ficar longe da família. A terra foi alugada, arrendada, como dizemos no Uruguai, e ele foi morar e trabalhar em Montevidéu.

 

P/1 - Quantos anos você tinha quando foi a Montevidéu?

 

R - Quando fui embora completamente... Porque depois que minha mãe foi para Montevidéu eu ia para lá nas férias, acompanhando ela. Eu gostava muito de andar a cavalo, de trabalhar com o gado, desfrutava disso, realmente. Acho que deixei de ir, realmente, com quinze anos.

 

P/1 - Como foi sua infância nessa época?

 

R - Eu acho que, às vezes, a gente melhora as coisas, mas fui muito feliz. Sim, muito feliz. E há coisas que lembro como especiais. Meu pai saia para a lavoura… Nós, no Uruguai, temos um pássaro chamado Tero, que põe uns ovos que eu gostava muito. Meu pai ia para a lavoura e trazia ovinhos de Tero para que eu comesse. Na minha lembrança, eram deliciosos e eu sei que são muito gostosos. Para mim, era como ganhar um brinquedo ou um presente. Tinha uns empregados que já estavam trabalhando para meu avô há muitos anos e tinha um que eu lembro que chamava ele de “Índio”. Ele ia até o povoado e sempre trazia um presente. Lembro, também, as noites de inverno, não muito inverno, porque tinha milho e tinha um fogão – que era um a lenha – e o “Índio” vinha à tardinha tomar chimarrão e fazia os milhos para mim, colocava nas brasas do fogão e assava para mim… Eu desfrutava disso como se fosse ganhar a maior delícia do mundo. E, realmente, lembro dele com muito carinho.

 

P/1 - Nessa época sua mãe e sua irmã ainda estavam lá?

 

R - Sim, sim, elas estavam lá. Na verdade, isto que estou contando também vale para a minha irmã, porque sempre estávamos juntas; quer dizer que nós duas vivemos uma etapa que, para mim, foi muito linda.

 

P/1 - E vocês ficavam no campo, brincavam no campo, como era o trabalho? Vocês se envolviam no trabalho? 

 

R - Eu gostava muitíssimo de andar a cavalo, de acompanhar o meu pai. Outro dia estava lembrando que eu gostava de assumir a tarefa do campo de qualquer jeito…  

Meu pai sempre esteve feliz de ter duas filhas mulheres, nunca demonstrou… O uruguaio, principalmente no meio rural, é bastante machista, eu diria até que muito, mas nunca senti isso do meu pai. Sempre senti que ele estava feliz de ter a nós, mulheres. E, eu não sei se era por isso ou porque realmente eu gostava, mas eu tentava cumprir com essas tarefas que eu sabia que ele gostava de fazer comigo. Andava muito a cavalo com ele, trabalhávamos com o gado, separávamos. Lembro que às vezes saia galopando atrás de algum animal e ele ficava preocupado: “Não podes fazer isso, o animal pode te machucar, pode te fazer mal.” Mas eu gostava de fazer e eu, além disso, sabia que podia fazer. Desfrutei tanto... Mas não lembro de tudo isso com saudades e, sim, com alegria. Com muita alegria.

 

P/1 - E ele tratava com esse afeto a sua mãe também? Como era a relação dos dois?

 

R - Sim, porque era diferente. Meu pai era um homem carinhoso, mas era forte, tinha caráter. Minha mãe era muito especial, porque era uma mulher extremamente doce. Às vezes, eu confundia submissão com falta de caráter, porque ela sempre estava procurando agradar, mas ela sabia muito bem o que queria e eu fui aprendendo isso com o tempo. Era uma mulher extremamente doce, sempre buscava a negociação com a família. Porque eu também, quando fui maior, não quando era pequena, tinha o meu caráter e deixava meu pai saber disso. E ela sempre estava aí, como negociando, no meio, porque se minha mãe ficava brava comigo, ficava mal e eu também ficava mal. Nenhum dos dois gostava de discutir ou brigar, mas se achávamos que tínhamos razão, nós duas defendíamos nossa razões e discutíamos…

 

P/1 - Sua irmã e você eram parecidas nesse jeito?

 

R - Não, minha irmã era diferente. É diferente. Não sei, ela tem uma vida diferente, também porque a vida deu a ela outro marco e, pessoalmente, eu acredito que vivendo situações similares às dela, teria sido mais independente.

Às vezes, eu reclamava com ela: "você não tem por que não definir essa situação", mas a vida era dela…

 

P/1 - Kika, a família tinha uma relação com vizinhos, como era?

 

R – A minha casa era muito visitada. Era a casa velha, como a gente chamava ela, porque era a casa dos meus avôs, uma casa com paredes de pedra, que agora já teria uns 130, 140 anos. Era muito visitada, visitada por parentes, pelos amigos dos meus pais. Era muito comum dizer: “O fulano de tal vem aí, vamos matar um bezerro”. E a gente matava um animal, como se fosse uma galinha. Hoje, quando eu lembro disso, me pergunto se a gente podia tanto, porque realmente…

E depois, tinha o pessoal que era empregado. Meus avôs maternos foram recebendo os filhos dos escravos que os seus avôs tinham e eu me criei junto com eles, como parte da minha família. Sempre estivemos muito cercados por pessoas, mesmo vivendo num lugar que era longe de outros povoados; e isso que nessa época não existiam estradas, eram só trilhas.

Eu lembro que um dos filhos dessas pessoas, de nome Antônio, ia até a estradinha, voltava correndo e dizia para a minha mãe: “Madrinha, madrinha, está vindo um carro, está vindo um carro, está vindo um carro”. Era como se ele dissesse: “Um disco voador, um disco voador!” Era assim, todo um acontecimento. Porque, realmente, o lugar estava longe de qualquer parte.

Mesmo assim, eu nunca sentia essa solidão que as pessoas falam. Nunca senti isso. Nunca. Realmente, sempre estivemos acompanhados. Meus avós moraram com a gente muito tempo. Meu avô, lembro dele como uma pessoa de respeito, sim, mas muito afetuoso. Meu avô sempre tinha os bolsos cheios de balas, sempre. A vovó era uma pessoa com um caráter excepcional, uma mulher forte, muito miudinha, mas muito forte. E esteve perto de nós por muito tempo, morreu com 102 anos.

 

P/1 - 102?

 

R - Sim. É muito interessante, porque ela viveu bem durante todos esses anos, mas quando começou a ver pouco e a escutar pouco, teve um momento, quando ela tinha 102 anos, em que disse: “Já está na hora de morrer”. E um mês depois, ela morreu. Eu sempre achei isso fantástico, dá para ver a energia que ela tinha e como estava disposta. Energia, porque não consigo pensar como foi que ela determinou uma coisa dessas e, em um mês, morreu.

 

P/1 - E como foi a mudança para Montevidéu?

 

R - Fomos primeiro para a casa de uns familiares da minha mãe. E entramos no colégio das freiras… Eu entrei primeiro e a minha irmã ainda era muito pequena para ser recebida lá. E, bom, meus pais foram procurando um lugar para morar e eu… A verdade é que eu não lembro dessa primeira etapa do colégio de freiras como uma coisa muito traumatizada, porque meu pai ainda não tinha vindo completamente para Montevidéu. Penso que essa transição me ajudou, porque eu ia lá nas férias. Não lembro como ruim a etapa da vinda para Montevidéu, porque sempre pensava que era uma coisa transitória. E a família, tanto da minha mãe quanto do meu pai, eram famílias grandes, as duas. E sempre, também, estivemos rodeados de pessoas, nunca nos sentimos sozinhas em Montevidéu. E era uma família que vinha toda do campo, então sempre tínhamos uma ou outra pessoa que nos vinculava de algum modo.

Para mim, talvez, essa separação aconteceu mais quando meu pai resolveu vir de vez. Um ano, fomos para Batlle y Ordoñez, onde eu nasci. Estivemos numa escola, para liquidar todas as coisas e que meu pai também fosse para Montevidéu. Não lembro… Eu sentia que não estava em lugar nenhum, não estava no campo, nem na escola, que era o meu objetivo… Essa é a época em que… É uma coisa que preciso agradecer, não lembro nenhuma etapa da minha vida em que eu diga “que horrível”. Não sei se é falta de consciência ou se é uma benção, mas realmente não lembro de nenhuma etapa assim da minha vida. Essa etapa é a que eu lembro com mais – eu chamo assim, porque não sei como denominar – instabilidade, em que estive mais incômoda.

 

P/1 - Fazer novas amizades, o fato de você ser do campo... Enfim, não teve problema de adaptação, por exemplo, na escola?

 

R - Não, na escola não. A minha etapa mais traumática, em relação ao ensino, foi no Colegial… Eu fui uma adolescente muito indisciplinada. Meu pai começou a trabalhar no Banco República e ele era controlador de cereais, ele tinha que controlar a quantidade de cereais. E ele viajava muito, viajava, inclusive, para a Argentina e muito dentro do Uruguai e a minha mãe ficava sozinha com nós. E enquanto meu pai não estava, ela mais ou menos dava um jeito. Eu imagino que diziam que eu era rebelde, coitada da Filenita, dizia a família.

Eu não queria ir para o Colégio e fazia corpo mole, coisa que nessa época não dava nem para imaginar. Quer dizer que eu, apesar de fazer corpo mole, conseguia render para poder passar de ano. Na verdade, a gente também mudou nesse meio tempo, mudamos de casa e tinha um colégio de freiras que eram terrivelmente disciplinadas. Para mim, daí sim foi um choque muito importante entre a disciplina delas, que era muito rígida, e a minha forma de ser. Eu discutia com elas, uma coisa que não era bem-vista, e chamavam minha mãe para dar queixa. Minha irmã estava no mesmo colégio que eu, mas ela não tinha nenhum problema. E, finalmente, um dia a diretora disse para minha mãe que era melhor ela procurar outro colégio para mim… Pelo visto, elas não queriam me expulsar, mas também não queriam me suportar. Isso estava muito claro.

 

P/1 - O que você questionava na escola?

 

R - Nada. Eu tinha uma espécie de enfrentamento; se eu entendia que uma situação não era justa, eu dizia; e isso, nessa época, não era muito frequente. Era muito estranho.

 

P/1 - Quantos anos você tinha nessa época, Kika?

 

R - Nessa época, eu devia ter quinze, dezesseis anos. E terminei o Colegial com outras freiras, porque minha família era católica e eu não podia ir para outro lugar, tinha que ir nas freiras. Também não me arrependo dessas situações, porque elas me deixaram uma fé forte, fizeram com que eu tivesse uma fé crítica. E acredito que é muito necessário para nós, católicos, ter uma visão crítica das nossas hierarquias eclesiásticas.

 

P/1 - Então você acha que fé crítica foi influência de quem?

 

R - Tem que ter sido… Essas freiras eram muito mais liberais, eram dominicanas espanholas que, apesar de que a gente pensa que nessa época ainda estava o Franco, as freiras que vinham, e vinham muitas da Espanha... Mas nada disso dava para a gente sentir. Era um colégio muito livre, tinha espaços muito abertos, com parques; foi um colégio que eu desfrutei muito. E foi lá que terminei o Colegial.

 

P/1 - E era um colégio só de mulheres, de meninas?

 

R - Só de mulheres. Nessa época, os colégios eram só de mulheres ou de homens. Mas acho que, de algum jeito, eu não sei como, essas freiras devem ter dado elementos para que eu fosse vendo a minha fé de outra maneira, colocando a fé em outro lugar, que não era dentro da igreja de todos os domingos para rezar, mas nos lugares em que realmente acredito que Cristo gostaria que estivesse (risos).

 

P/1 - Sua mãe e sua avó eram religiosas?

 

R - Eram. As duas eram religiosas.

 

P/1 - E, além da escola, viver na cidade, como era? Você saía, passeava, ia em festa?

 

R - Sim, tinha amigas. Nessa época as festas mais comuns eram os aniversários de quinze anos. Todas nós preparávamos... Meu pai, nessa época, marcava muito a minha vida com seus ciúmes de pai, estava tudo bem enquanto não houvesse namoradinhos, nem nada. Lembro que para os meus quinze anos eu ganhei de presente um par de sapatos com um saltinho assim e ele disse: “Até os dezoito anos você não vai usar esse sapato”. E o meu pé crescia, e eu ia morrer na espera e não ia poder calçar meus sapatos de salto alto. Então eu saia da minha casa para encontrar minhas amigas, para passear, e levava numa sacola os sapatos de salto alto; saia da minha casa com sapatos sem salto, virava a esquina, trocava de sapatos e saia. E voltava para casa de novo com os meus sapatos baixinhos.

Mas, o meu pai… Eu penso, em outras coisas era um homem liberal, falávamos muito de política com ele, de política partidária. Com ele e com os meus tios. Meu pai tinha sete irmãos e lá em casa se falava muito de política. E, é muito curioso, meu pai pertencia a um partido e minha mãe a outro. Em geral, nessa época a mulher assimilava a orientação partidária do marido, mas minha mãe votava em quem ela achava e meu pai também votava em quem ele achava. E ele tinha muito carinho pelo seu partido até que, numa ocasião, o partido tinha candidatos que ele não gostava.

 

P/1 - Qual partido?

 

R - O Partido Nacional era quase como se fosse o partido do meu pai. Os homens tinham um emblema branco que dizia algo assim como “probidade em cima e regozijo embaixo”. Ou seja, que os homens tinham que ser muito respeitadores e com muita moral para que houvesse alegria no povo. Eu gostava muitíssimo disso. Contudo, o partido Colorado, na etapa do presidente José Batlle y Ordoñez, que é da minha cidade, fez mudanças sociais muito importantes. 

Quer dizer que eu meio que estava entre “San Juan e Mendoza”, nem cá, nem lá. Mas esse era o ambiente da minha casa, que eu considero um ambiente muito livre em um país em que essas coisas eram muito rígidas; as famílias eram Brancas, ou as famílias eram Coloradas e isso de trocar de partido era quase um pecado mortal.

Então, eu fui criada nesse ambiente; e o meu pai, além disso, era muito aberto. Minha mãe também, apesar do seu jeito muito moralista, tanto que, às vezes, eu até digo “moralina”, mas era muito tolerante com determinadas situações. Mas, com nós, meu pai não era tão liberal assim, principalmente comigo, que era a mais velha; depois, minha irmã já teve o caminho mais facilitado. Mas, na verdade, percebo que isso foi uma das coisas que influenciou muito para que nós tivéssemos esse jeito muito liberal de pensar: foi a formação que recebemos em casa.

 

P/1 - Vocês, na sua casa, já discutiam a questão da mulher?

 

R - Não. Isso não, nem se sonhava. Tinha certas coisas... Por exemplo, quando fui mais adulta e tinha uns dezenove ou vinte anos, comecei a fumar. Tinha uma tia, irmã do meu pai, que fumava; isso também não foi uma bandeira só minha, era uma bandeira que eu peguei de outra mulher. E essa tia também era uma mulher muito liberal, uma mulher muito livre, muito livre para se expressar e o ambiente com ela era muito bom.

 

P/1 - É irmã da sua mãe essa tia?

 

R - Não, era irmã do meu pai. A única irmã do meu pai. As irmãs da minha mãe eram mais como ela, foram todas mulheres e foram criadas muito mimadas, muito atendidas, muito protegidas.

 

P/1 - Kika, e os namorados? Como você conheceu seu marido?

 

R - Eu tive alguns namorados, não fui uma mulher de encontrar, como a Verônica, um único homem para ficar noiva. Nessa época a gente tinha noivo. Mas eu acho ótimo ter tido oportunidade de conhecer rapazes diferentes, de saber que nem todos os rapazes, só por serem bonitos, eram bons caras. A gente foi aprendendo a dar valor a outras coisas além daquelas figuras lindas que apareciam no baile e me tiravam para dançar.

E do meu marido, eu sempre digo a mesma coisa: eu não voltaria a casar, mas se fosse casar de novo, casaria com ele mesmo. Ele dá risada, sempre digo isso, mas é verdade. Não casaria de novo, porque a convivência é difícil. E aprender a conviver quando, na verdade, a gente pode ser dono dos próprios atos, é uma coisa que... E se eu fosse homem, também não, porque os homens costumam casar muito mais do que as mulheres depois que ficam sozinhos. Acho que eles não sabem viver sozinhos. Isso tudo está muito claro para mim.

O fato concreto é que conheci meu marido através de uns amigos. A gente se encontrou num dia, por acaso, e estivemos noivos seis anos. Seis. Foi uma etapa muito linda, uma etapa de noivos maravilhosa, irresponsável, sem preocupações, só de encontros, de ficar lindos para nos encontrar. Eu acho que essa é uma etapa que a gente tem que aproveitar muito e bem. E nós casamos depois de noivar seis anos. Eu tinha 24 e ele também. Antes de casar, um ano antes, ele trabalhava em um estabelecimento da família, um comércio que tinha madeiras, artigos sanitários, tinha tudo de material de construção. Ele gostava muitíssimo de sair para o campo, acampar, caçar e pescar, todo esse tipo de vida. Bom, nós conversamos e decidimos que iríamos morar no campo. E procuramos durante um ano. Os pais de Rodolfo eram pessoas que estavam numa posição econômica muito boa e nos deram um apartamento de presente quando resolvemos casar. Vendemos o apartamento para poder comprar um pedaço de terra. Primeiro, nós pensávamos: Vamos fazer criação de galinhas. Depois vamos fazer criação de porcos. Não encontrávamos nada para estar mais ou menos perto da família. No final, uma pessoa ofereceu uma terra e nós fomos ver e tinha uma leiteria instalada, para produção de leite. O fato concreto é que foi lá que o meu marido e eu fomos parar, sem saber nada de produção de leite. Eu sabia alguma coisa de criação de gado, pela experiência familiar. O meu marido não sabia nada de nada. Mas nós queríamos morar no campo. Tinha uma casa muito, muito modesta... A verdade é que não tinha banheiro nem cozinha, essa casa, pelo visto as pessoas que moravam lá não precisavam. E nós compramos a leiteria e construímos um banheiro, uma cozinha, fomos morar na casinha e eu gostava muito dela.

Nós dois havíamos morado em casas boas, mas se a intenção era morar ali e se essa era a nossa casa, então a gente tinha que gostar dela e assumir ela como a nossa casa. Então, ele dizia: “Não convide o pessoal para vir, olha só onde a gente mora”. Eu dizia: “o amigo que quiser vir, virá, e vai se sentir bem, porque vem nos visitar. Se for para olhar onde a gente mora, é porque não é tão amigo assim e vai parar de vir”. Os amigos sempre mantiveram contato.

A única coisa que nós perdemos foi a luz elétrica, que não tinha nessa zona. No começo, também não tínhamos água corrente que chegasse em casa. Mas eu sempre digo que dou graças a Deus por essa oportunidade. Isso me ensinou a viver sem essas coisas e no dia em que tivemos elas de volta fiquei tão contente... Como se nunca tivesse tido antes.

Nós tínhamos lampiões a querosene para iluminar. Um dia, começamos a limpar em volta da casa, a tirar coisas, e começamos a encontrar uns lampiões e uns aquecedores para cozinhar que estavam enterrados – nessa época chamavam isso de “primus”. Tinha uma espécie de beiradinha de suporte, que servia para aquecer comida, coisas.

Fui e perguntei para uma das pessoas que tinha ficado trabalhando conosco, porque realmente não sabíamos quase nada do trabalho, e disse e ele: “Negro, o que aconteceu aqui que tem tantos lampiões e tantos ‘primus’?" E ele disse: “Aí? Porque Juan - que era o anterior dono da casa - jogava eles fora quando incendiavam". Daí para frente, eu comecei a tirar eles de casa para acender... Pelo menos não vou ter que jogar fora.

E desse jeito fomos fazendo nossa vida, aprendendo a trabalhar, meu marido é um homem inteligente. Aprendendo dos produtores vizinhos e procurando informação na biblioteca; ia a muitos lugares, consultava técnicos e fomos aprendendo a trabalhar assim, numa área que era absolutamente desconhecida. Eu adoro, porque é complicado, todos os dias aparecem coisas novas para resolver. O dinheiro entra graças ao leite, mas sai com os insumos. Muito dinheiro. Então a gente sempre tem que estar fazendo equilíbrio. Eu lembrava que a agropecuária era, para mim, uma coisa mais periódica: cada tanto tempo tinha que fazer tal coisa, cada tanto, tinha que fazer tal outra. Mas não era esse trabalho de todos os dias, o dia todo. As vacas são ordenhadas duas vezes por dia. É uma coisa dinâmica... Eu adorava e adoro. E os anos foram passando assim e tivemos nossas filhas. Lindas filhas.

 

P/1 - Vocês trabalhavam sozinhos?

 

R - Se trabalhávamos sozinhos? Não, tínhamos outras pessoas. Quando nós compramos o campo, a condição que havia para que nos entregassem, porque talvez nós teríamos feito outra coisa, mas a condição era comprar a terra e o gado. Havia uma pessoa que estava aí. Era uma ótima pessoa; eu sempre perguntava para ele: “Por que você não compra a terra?” Há muitos anos que ele estava aí e eu não gosto de pensar que estou tirando a terra de ninguém, me coloco no lugar dessa pessoa. E perguntava, mesmo antes da gente fazer o negócio: “Por que o senhor não compra a terra?” “Não”, ele dizia: “Se eu não posso alugar depois, não quero comprar”. Era uma espécie de capricho, porque, depois, ele saiu daí, foi embora e montou casa em outro lugar. E esse lugar sim ele comprou. Então nunca entendi muito bem qual era o mecanismo que fazia ele agir desse jeito.

Fomos entrando na produção, fomos criando nossas filhas, até que elas também começaram a estudar e teve uma etapa em que, bom, precisavam ir para a escola e, depois, nós aspirávamos que elas fizessem o colegial, e se queriam seguir uma carreira, que seguissem. A escola rural dessa zona era muito limitada. Foi uma etapa bem complicada.

 

P/1 - Com suas filhas?

 

R - Sim, com as filhas. Se nós levávamos elas até a escola, no centro da cidadezinha, era como ter que viajar todo dia pela estrada, para levar e trazer as meninas. Então minha mãe dizia: “Por que você não traz elas para Montevidéu e elas vão para a escola?” Para mim foi muito difícil essa decisão, e para o Rodolfo também. Foi muito difícil para nós porque havia uma espécie de dualidade nisso. Eu queria que elas aprendessem a gostar do lugar que era o nosso lugar. E achava que era bom mandar elas para Montevidéu, pela sua formação.

Então, a opção foi levar as meninas na segunda-feira para Montevidéu e trazíamos de volta na sexta-feira. No meio da semana um de nós ia até lá para estar com elas, para que elas sentissem que estavam acompanhadas. Minha mãe era uma avó maravilhosa. Tão maravilhosa que acho que ela mimava demais as meninas. Sim, porque fazia todas as vontades delas. Mas acho que isso também foi bom para elas, porque aprenderam a saber que não se pode ter tudo e que essas outras coisas são como presentes. São coisas que se ganham por uma determinada situação. Acho que tenho umas filhas ótimas.

 

P/1 - Kika, seu marido viveu sempre na cidade. Fico curiosa para saber sobre essa mudança, no início sem luz elétrica, sem água corrente. Você havia vivido no campo... Fale um pouco disso.

 

R – Eu acho que o meu marido estava decidido a levar isso adiante, por fazer desse lugar o que ele foi querendo, foi construindo. Isso deixava ele muito empolgado. Saia de madrugada para trabalhar a terra. A leiteria evoluiu muito. Quando nós chegamos lá, só havia dois pedaços de terra plantados, o resto era tudo com uns arbustos que nós chamamos de chirca.

Para começar a trabalhar, um ia na frente com o cavalo e o outro atrás, com um trator, que nós compramos com o presente de casamento… Quando casamos fizeram um presente coletivo e nós, com isso, compramos um trator e uma excêntrica. Grande presente, não? E na frente do trator ia um cavalo, porque aquilo era uma espécie de matagal, baixinho, mas não tão baixo para deixar ver o chão. E fomos meio que transformando o sítio.

Era fantástico ver ele semeado e tudo verde. Era uma maravilha. Ver crescer as plantas que tínhamos posto na terra. Era e é uma maravilha. Eu desfruto muito isso e penso muito nos meus netos, gostaria muito que eles tivessem apreço pela terra. Quanto mais o tempo passar, acho que mais valiosa vai ser a terra. Este mundo vai, como dizemos no meu país, “como louco numa descida”. Vai atropelando e massificando. E viver assim, na natureza, podendo olhar para ela, vendo o céu, é uma maravilha. É um presente que tem que aprender a desfrutar.

 

P/1 - Kika, e o movimento de mulheres? Como você entrou? Como começou?

 

R - Começou quando eu passei a me vincular com as mulheres da região. Meu marido entrou numa organização gremial e nós estávamos sempre juntos. Esse grêmio tinha sua sede em Montevidéu, então ele ia para Montevidéu e eu ia visitar minha mãe e minhas filhas. As reuniões eram nas terças-feiras. As meninas tinham ido na segunda e eu aproveitava esse dia, visitava elas, conversava com elas, estávamos juntas e, depois, ia encontrar com ele nesse grêmio.

E o meu marido e eu conversávamos muito, discutíamos muito os pontos de vista que tínhamos e defendíamos. Às vezes nós coincidimos, outras não; em todos os terrenos: na política, na educação, na produção, em todos os temas. Eu acho que é por isso que estamos há tanto tempo juntos. Realmente. 

E nós conversávamos muito sobre a atividade gremial dele; e quando eu ia buscar ele, encontrava lá com outras mulheres e, depois, eu voltava para minha região e conversava com as mulheres de lá, que também é uma zona toda vinculada com a produção de leite.

As mulheres se queixavam de uma coisa, se queixavam de outra. Um belo dia, existia no Uruguai, parece que agora vão retomar, uma coisa chamada Festa Nacional do Leite. Então junto com mais duas mulheres, também esposas de outros do grêmio, dissemos: “Por que não fazemos alguma coisa com as mulheres?” Porque com elas acontecia a mesma coisa, quando conversavam com as vizinhas, ficavam preocupadas com o andamento da cooperativa, com a produção; estávamos preocupadas com a educação, com a moradia no meio rural, como era atendida a saúde… “Por que não propomos que o grêmio faça um encontro de mulheres vinculadas com a produção de leite na Festa Nacional do Leite?” Parecia uma loucura.

Já havíamos tido relação com organizações de mulheres que, na época da ditadura, tinham estado trabalhando todos os temas de liberdades, de pessoas desaparecidas, presas. Então esses vínculos também foram nos dando motivação. Essas plumas não são nossas, não enfeitam a nós. Já estavam enfeitando outras mulheres. E foi assim que nos organizamos para fazer essa atividade. Eles aceitaram. Percorremos durante quatro ou cinco  meses, o país inteiro convidando as mulheres para participarem desse evento, que era em San José, no nosso Departamento.

Tinha chovido na manhã anterior ao evento, na madrugada, e nós dissemos: “Não vem ninguém!” Vieram 250 mulheres! Para nós foi uma surpresa, uma impressão, um impacto; para eles também. Recebemos apoio de organizações de mulheres que nos apoiaram para elaborar todo o programa que nós queríamos fazer, porque fizemos oficinas com os temas de educação, condições de vida, moradia, produção.

 

P/1 - Que mulheres, Kika?

 

R - Todas as mulheres vinculadas com a produção de leite, trabalhadoras.

 

P/1 - Mas como vocês entraram em contato com elas?

 

R - Nós fazíamos contato com gente dos grêmios que havia nesses departamentos. Por telefone, por carta, através de outras mulheres; mas achávamos que, de qualquer jeito, tínhamos que fazer o vínculo pessoalmente, por isso percorremos todos esses lugares.

 

P/1 - Você disse: “aquelas mulheres nos ajudaram a fazer a programação, uma pauta...”, quem eram essas mulheres?

 

R - Foram mulheres de diversas organizações. Uma organização de Melo, a Paulina Luci, outras de Plenu – Plenário de Mulheres Uruguaias – e muitas voluntárias. As agremiações também foram um suporte. Ainda não existia a Rede de Grupos de Mulheres Rurais e também não existia a Rede LAC. Isso foi no final dos anos oitenta, no primeiro período democrático depois da ditadura.

O que sempre víamos é que só eram tratados os temas vinculados com a produção. Quando se falava em desenvolvimento, se falava em desenvolvimento produtivo. Nunca se falava em desenvolvimento integral, que era… a pessoa que trabalha para produzir, para ter uma saúde melhor, melhor educação, para dar educação aos filhos. Nós aprendemos a dar valor ao que era a educação permanente. Queríamos muitíssimo que esse conceito fosse incorporado por todas as mulheres.

O que estava acontecendo? As mulheres tinham opinião quando estavam juntas. Quando íamos nas reuniões com os homens, não dávamos opinião. E nós sabíamos que tinham opinião, e opinião muito clara e muito concreta das coisas. Mas as mulheres não falam nessas reuniões. Quer dizer que fomos expor, junto com todo o resto dos trabalhos que tinham sido realizados, porque isso durava quase uma semana, essa Festa do Leite. Quando apresentamos todas essas conclusões, recebemos muitos aplausos. Sei lá… Do meu lado estava sentado o Ministro da Agropecuária, que eu conhecia do grêmio, e ele me diz: “Vocês trouxeram uma bomba”. Nós, bem orgulhosas, descemos e dois homens vieram e sentaram atrás de nós e disseram: “Estiveram ótimas, mas não vão convidar vocês nunca mais”. Realmente tínhamos sido muito críticas de uma quantidade de políticas, tanto governamentais como da Cooperativa. E a verdade é que não nos convidaram mais.

 

P/1 - E foi você que falou naquele momento? Você era uma das pessoas que estava falando?

 

R – Uma companheira e eu fomos as que lemos as conclusões. A partir daí, a ideia era promover o grupo. Porque não fazia nenhum sentido que isso começasse e terminasse aí. Daí foi que começou a se formar o grupo de San José, esse grupo de mulheres da área rural de San José. E depois, passamos um ano acompanhando um grupo no departamento de Florida. Íamos às cerimônias com elas. Ali, em Florida, tinha uma mulher do Plenário de Mulheres Uruguaias, que foi com elas. Fomos a outros Departamentos e, desse jeito, foram surgindo grupos de mulheres. Foram anos. Essas coisas não surgem de um dia para outro.

 

P/1 _ Foi possível depois da ditadura, né?

 

R - Sim, isso foi depois da ditadura. Não era fácil, na ditadura, a gente se mobilizar...

 

P/1 - Você, que sempre foi muito política, como foi esse período durante a ditadura? Você tomou partido?

 

R – Sem dúvida que tomei partido contra a ditadura. No Uruguai, a situação era muito urbana, o meio rural ficava bastante alheio a tudo. É claro que nas cidades do interior havia muita gente perseguida, assim como em todos os Departamentos… Desaparecidos. Mas as pessoas que viviam no campo estavam isoladas e, além disso, ouviam só a versão da ditadura, dos militares. Eu tinha a “sorte” de ir para Montevidéu e de ver outra realidade. Era terrível.

Nós íamos para Montevidéu e paravam a gente na estrada, revistavam. Era uma coisa muito estressante, as viagens. Na verdade, nós começamos a conhecer amigos, pessoas que tinham sido presas ou que estavam indo embora; foi uma etapa terrível. Além disso, você estava aí, numa reunião de família, e podiam vir e bater na porta para dizer que isso não podia, queriam saber quem era, quem estava aí.

Lembro que uma vez fomos parados na estrada e nos fizeram descer, meu marido e eu. E nós, quando íamos para Montevidéu tínhamos uma tevezinha que levávamos e trazíamos numa caixa. Então a pessoa que estava nos revistando disse: “O que estão levando aí? O que é isso?” E nós dissemos: “É uma televisão”. Então eles nos fizeram descer e ficar contra o carro com as mãos para o alto e um soldado começou a revistar meu marido, apalpando para ver se tinha armas. E depois vinha para me revistar e eu disse: “Não me toque” e o cara olhou para mim e depois para um oficial, para ver o que tinha que fazer e afinal me largaram. Eu falei assim, saiu. Mas tive muita sorte, porque muita gente, por menos do que isso, ia presa.

Em outra ocasião, nós estávamos indo para Montevidéu e perto tinha um foro militar. Então eu estava estacionando o carro e um homem quis entrar antes que eu e eu continuei estacionando o carro... Daí veio um ônibus e bateu nele. O homem desceu, o ônibus não tinha culpa, o homem tinha feito uma manobra errada. Eu desci do carro e fui embora, mas o cara viu onde eu tinha entrado e foi perguntar ao porteiro onde é que eu morava. Então veio o coitado do porteiro, branco como um papel, e me disse: “A senhora sabe, o motorista do carro me perguntou todos os seus dados”. Eu disse: “não se preocupe”. Fui até o Supremo Tribunal Militar: “Olhe, uma pessoa que saiu daqui com um carro teve uma batida com o ônibus, eu estava estacionando e ele foi perguntar ao porteiro onde eu entrei e quem era eu. Mas não precisa, porque estou bem aí na frente e, se o senhor está interessado, eu sou Fulana de tal”. E tinha um militar que morava embaixo, que era um militar da ditadura, e eu disse: “Se quiser pode perguntar ao coronel Fulano e ele vai dar os meus dados”. “Não, senhora”, ele dizia.

 

P/1 - Kika, antes desse movimento que resultou nesse grupo, você participava de alguma organização?

 

 R – Com a abertura da democracia, começaram a surgir... Não a surgir, porque esses movimentos já estavam, mas começaram a ser mais visíveis e algumas mulheres... Já nos tínhamos vinculado com essas mulheres, daí é que foi nascendo essa semente. Tudo tem o seu por quê. Nada sai do nada.

 

P/1 - E aí esse grupo se organiza, e você, na sua vida, mudou alguma coisa? 

 

R – Fui me envolvendo com o grupo, nos organizando para isso que a gente queria, para aprender, para nos desenvolver, para poder, depois, participar com mais propriedade, com mais força e com mais conhecimento. Porque uma das coisas que eram usadas para desqualificar era: “Você... Disso não sabe nada”. Com relação principalmente à produção, ao funcionamento da Cooperativa.

As mulheres trabalhavam nos sítios, mas não estavam incluídas na programação do trabalho, no projeto de produção. Essas coisas quem fazia era o técnico com o dono da casa. Na opinião deles, era inconcebível incluir as mulheres nessas propostas: o que vamos semear, onde é que a terra vai ser trabalhada, o que precisa comprar, quais investimentos vamos fazer. Começaram, nesse momento, esses pacotes tecnológicos. Os pacotes tecnológicos vinham para os países e se você não fazia aquilo, era um ignorante e, além disso, ia falir, se não trazia as sementes daqui, se não... Essas coisas todas era o que traziam os técnicos, nossos próprios agrônomos e veterinários.

Muito disso foi responsável pelo endividamento rural, e depois vieram as desvalorizações, a crise... Caiu o preço da produção. Num momento dado, o leite chegou a cair de preço em 47% e havia que sustentar esses créditos com desvalorizações importantes. Em geral, as mulheres estavam excluídas nessas propostas que eram feitas, talvez porque nós entendíamos que não precisava de tudo isso, que dava para trabalhar de outro jeito.

 

P/1 - Vocês tinham propostas para a produção, é isso que você está dizendo. Mas não eram ouvidas...

 

R – Não, porque as mulheres não participavam. Foram organizados grupos de produtores: as mulheres serviam a mesa e faziam a comida nas reuniões mensais, mas não participavam.

 

P/1 - As mulheres trabalhavam na produção, Kika?

 

R – Sim. Pode haver alguma exceção com os produtores grandes; às vezes, as mulheres trabalham do mesmo jeito, estão envolvidas. Mas, no pequeno e médio produtor, a mulher trabalha na terra.

 

P/1 - Você trabalhou na produção?

 

R – Eu trabalho na produção.

 

P/1 - Ainda hoje?

 

R – Se não trabalhasse, morreria. Sim, eu trabalho na produção.

 

P/1 - E seu marido?

 

R – Com ele, eu não estou sozinha.

 

P/1 - Mas como foi nessa fase? No início...

 

R – Não foi fácil. Estive com ele no seu período de grêmio. E era difícil para mim. No começo, tinha que fazer a comida antes de sair, deixar as coisas mais ou menos organizadas... Não foi um processo muito longo. Agora, se ele precisa resolver em casa, resolve. Se precisa se organizar, se organiza. Houve mudanças para nós dois, sim.

 

P/1 - E, nesse movimento, você disse que as mulheres não tinham voz. Como isso foi se desenvolvendo?

 

R – Nós entendíamos que tínhamos que aprender, ter um aprendizado para que a gente pudesse se defender. Porque o problema não era que não podíamos falar, era que nós mesmas tínhamos uma repressão, parecia que nos auto-vetávamos. Então começamos a participar. Fazíamos oficinas para analisar a situação que poderíamos apresentar. Havia dificuldades, principalmente no tema da produção, que era onde mais nós podíamos ter um erro que, para nós, seria imperdoável... Nos homens tudo era admitido, qualquer besteira podia ser admitida.

Sempre digo a mesma coisa: nós, mulheres, temos que prestar exame para todas as coisas e ainda tirar nota máxima. Os homens podem ser uma calamidade que ninguém leva em conta. E as mulheres, meu Deus, são apontadas com o dedo se colocam a mão no lugar errado. A verdade é que nós tínhamos clareza quanto a isso, que tínhamos que aprender o que era relacionado com a produção não tanto porque era isso que a gente vivia, trabalhava, mas a forma de dizer isso, a força para apresentar isso eram as coisas de que realmente sentíamos necessidade.

 

P/1 - E hoje Kika, como está essa relação?

 

R – Não, hoje vamos e apresentamos as coisas com segurança. Sabemos discutir os temas, defender nossas posições. Eu acho... Gostaria muitíssimo que mais mulheres se envolvessem. Mas mesmo as que não se envolvem, quando o grupo programa alguma coisa vão lá e participam, fazem suas oficinas e, então, é um passo... Não o que nós gostaríamos, mas é um passo.

Mas ainda restam mulheres que vêm e se aproximam e dizem: “Vocês que sabem falar”. E sempre dizemos: “Todas sabemos falar, só precisam dizer o que vocês querem com as palavras que têm para dizer isso”. Porque é um tema bem interessante. Em geral, o pessoal que vem “de cima” traz discursos, palavras mais enfeitadas, e acostumaram a gente que para dizer as coisas temos que ter esse estilo, e nós achamos que, pelo contrário, nós é que temos que impor este estilo, que é um estilo autêntico, legítimo, que, além disso, está relacionado com a realidade, com o que as pessoas vivem. Então elas já estão entendendo estas coisas.

 

P/1 - As reivindicações das mulheres da zona rural são semelhantes com as da zona urbana. Há um contato entre os grupos?

 

R – Sim, nós estamos numa organização chamada Comissão Nacional dos Compromissos de Beijing e nessa organização estamos mulheres das zonas rurais e urbanas. Na verdade, a gente se encontra nessas instâncias. Temos temas em comum; por exemplo, o tema da saúde é um tema em comum. Não podemos resolver esse problema da mesma maneira, é muito diferente atender a saúde nas zonas urbanas e nas zonas rurais, por mais que as duas tenham deficiências.

Na educação é igual, não é a mesma coisa resolver a educação no meio rural que no meio urbano; no meio urbano sempre há escolas próximas, chovendo ou não chovendo, vão por um caminho que está em boas condições. Não vão pelo barro, nem têm que andar um, dois, três quilômetros para ir à escola. Então nesses assuntos temos pontos em comum e temos, também, nossa diferença na solução.

E na produção é muito diferente, porque, em geral, essas mulheres, algumas são sindicalizadas. Eu acho que recém agora, de poucos anos para cá, o campo olha para os sindicatos com um pouco de curiosidade e muitas interrogações, porque antes via um pouco de revolução, de conflito e de problemas. Apesar de que os rurais têm grêmios, mas têm outras características. O concreto é que sim temos vínculos, mas não vínculos estreitos. É necessário que a gente se conheça mutuamente, porque nós achamos que trabalhamos mais, que temos mais dificuldades com uma série de coisas e quando escutamos as mulheres urbanas, as poucas vezes que temos oportunidade de escutar, vemos que elas também têm dificuldades. Outras, mas têm dificuldades. Que também têm carências, outras, mas que também são carências...

Existem trabalhos terríveis, eu tive oportunidade de ver mulheres trabalhando na pesca, nas empresas que processam peixe e é terrível; e são mulheres que moram em bairros afastados, que precisam sair de madrugada e voltar de noite. Para mim foi muito emocionante e acho que essas coisas... Seria bom que todas conhecessem e que elas conhecessem, também, como a gente trabalha no inverno, com água, chovendo, porque iria permitir que nos compreendessem melhor em algumas coisas.

 

P/1 - Kika, e como você conheceu a Rede LAC?

 

R – Conheci através do encontro de São Bernardo, esse tão bendito encontro, pelo menos por mim, porque permitiu o contato com Vanete. Vocês devem saber que Vanete é uma mulher especial. Se houvessem mais mulheres – não muitas mais, porque seria um milagre – mas se houvessem mais mulheres como ela, os movimentos de mulheres rurais teriam avançado muito.

 

P/1 - Por que você diz que ela é especial?

 

R – Primeiro, porque ela tem um conhecimento de todos os temas que fazem a mulher rural, que estão como dentro... Ela sabe como afloram. É uma mulher com uma grande sensibilidade e tem uma personalidade muito forte, que não deixa sentir mais do que contadas vezes e com muita administração por parte dela. É uma mulher excepcional, muito valiosa para o movimento, imprescindível para a Rede, pelo menos agora, tem que aparecer algum milagre. É uma mulher pela qual realmente tenho apreço por todos esses méritos... E tenho apreço como pessoa, como mulher, como ser querido. Realmente me comove, me ensina, tem coisas que é difícil explicar.

 

P/1 - E foi nesse encontro... 

 

R – Nós estávamos um pouco perdidas, as mulheres rurais. O Uruguai foi com uma delegação de diversas organizações, não éramos todas rurais. As rurais éramos pouquinhas e íamos de um lado para o outro, nós parecíamos, como dizem por aí, galinhas loucas. A gente ia correndo para um lado e para o outro. Nesse ritmo de coisas, encontrávamos coisas que jamais havíamos sonhado. Aprendemos muito da diversidade.

Esse encontro nos ensinou a falar de coisas das quais a gente não falava, como a homossexualidade. Vimos cerimônias indígenas que jamais tinham passado pelos nossos olhos. Muito impactante... Os indígenas transmitem sua fé, suas crenças. Eles são parte da terra... Acho que eles tocam, esse contato se transforma na mãe terra. Essas coisas, para nós, foram impressionantes, mas não podíamos falar dessas coisas que nós queríamos falar: qual era a nossa situação, contar como viviam as mulheres uruguaias... E lá havia outras mulheres rurais. Então apareceu esse bendito cartaz de que as mulheres rurais latino-americanas íamos nos reunir nesse lugar, nesse salão...

 

P/1 - Como se chamava esse encontro em San Bernardo?

 

R – Não lembro qual era, se era o IV Encontro Feminista de San Bernardo. Porque, na verdade, essas organizações uruguaias eram organizações feministas, que também nos ensinaram muito. Não é verdade que todas as feministas são como umas loucas desadaptadas, que é a imagem que dava a imprensa. Lembro que, além disso, perguntavam “você é feminista?” de um jeito como se fosse uma coisa ruim. Era muito chocante.

Também dentro do feminismo existe diversidade, o feminismo é um conceito dentro do qual também há diferentes formas de vivenciar isso. E algumas das companheiras que foram do Uruguai, rurais, estavam muito vinculadas com o tema do feminismo. Foi como se abrisse uma porta enorme de um mundo desconhecido, mas que existia e que tinha uma quantidade de coisas que nos tocavam, mas havia outras formas que eram impensáveis. Para nós, esse encontro foi uma coisa realmente importante.

 

P/1 - E encontraram o cartaz da oficina?

 

R – Foi fantástico. A verdade é que, no mesmo encontro, as mulheres uruguaias que vínhamos de outras organizações dissemos: “Bom, tem que fazer uma rede de grupos de mulheres rurais do Uruguai, porque é o único jeito de poder chegar bem e democraticamente organizadas”. Porque, às vezes, eu posso dizer que somos as mulheres rurais do Uruguai e não ser. Essas coisas acontecem. Assim, no mês de fevereiro do ano 91 foi constituída a Rede do Grupo de Mulheres Rurais do Uruguai.

 

P/1 - Mas quando vocês viram no cartaz que haveria uma reunião das mulheres da América Latina...

 

R – A gente entrou. Não tínhamos mais dúvidas. Daí encontramos a Vanete se preparando com algumas coisas, quase todas sentamos no chão... Porque o lugar estava como meio improvisado, mas o conteúdo foi impressionante. Além disso, encontrei mulheres de outros países. Para nós, que estávamos só começando fazia só três ou quatro anos, que estávamos dando só os primeiros passos, encontrar mulheres, e organizadas, foi muito importante. Eu sempre digo que os países – Brasil, Bolívia, Peru, esses países – têm uma organização que nós, os países europeizados, absolutamente não tínhamos. E ainda não temos, ainda não temos a força que eles têm.

 

 P/1 - E aí vocês começaram a organizar o Primeiro Encontro Internacional da Rede, o Primeiro ENLAC. Como foi essa organização?

 

R – Na verdade, isso ficou como uma proposta dessa reunião de São Bernardo. Ia ser fantástico que as mulheres rurais tivéssemos nosso encontro de mulheres trabalhadoras rurais da América Latina e do Caribe. A gente diz: “É um sonho”. Bom, é um sonho, vamos tentar tornar realidade. Sempre penso que agora está muito na moda desqualificar as utopias. Acho que as utopias são imprescindíveis para que a gente tenha essa meta que permite avançar. Eu acho que desqualificar as utopias é uma coisa calculada para que a gente não tenha metas, ideais; reivindico mil vezes as utopias.

 

P/1 - E quantas já se concretizaram, não?

 

R – A gente idealiza... Houve um espaço cheio das mulheres brasileiras pobres, digo que pobres sem que fossem nada pobres, porque têm força, poder. Mas isso pelo esforço que têm feito e que continuam fazendo. Nós compartilhamos, mas o maior esforço está colocado na secretaria da Rede LAC e são mulheres brasileiras que levam isso adiante. Nós estamos muito agradecidas.

 

P/1 - E houve esse primeiro encontro. Tem algum fato, assim, que você viveu nesse encontro, marcante, que você queira apontar?

 

R – Não é fácil dizer um, porque foram muitos instantes. A chegada, os abraços com as mulheres que a gente já conhecia... Os momentos difíceis de resolver. O encontro todo foi muito comovente. Ver chegar as mulheres. Como diziam todas as companheiras: “O mais longe que eu já tinha ido era Buenos Aires”. E no Brasil, sempre que tinham ido era por terra. Fazer uma viagem tão longa, do Uruguai até Fortaleza. Chegar em São Paulo... Eu, por sorte, na primeira viagem desci no Rio: O aeroporto é mais... Não vou dizer acolhedor, mas parece como se fossem espaços menores. Quando cheguei pela segunda vez, no aeroporto de São Paulo, fiquei apavorada com o aeroporto, com a gente. Porque realmente, quando tinha ido para Buenos Aires de avião, tinha descido por uma escadinha. Aqui, era tudo novo.

Então, quando as mulheres diziam: “Eu não posso”, a gente dizia: “Podem sim, porque todas nós conseguimos”. É assim, assim que temos que ajudar para que elas entendam que tudo que outra mulher tenha feito, elas, se quiserem, podem fazer. É fundamental que elas saibam disso. Porque nós também aprendemos isso. Ensinaram para nós, e não somos nem brilhantes, nem geniais. Somos mulheres como elas e elas têm coisas maravilhosas. As coisas que eu já aprendi com as mulheres do campo, mais humildes, mais modestas... Isso não vou conseguir aprender em nenhuma universidade, não vou aprender em nenhum lugar onde eu esteja sentada numa cadeira. Isso está aí e só precisa chegar nelas, porque são muito generosas.

 

P/1 - E do primeiro para o segundo encontro, conta um pouco do processo... Conta um pouco de como fica o movimento lá no Uruguai, da sua participação e essa relação do movimento com a Rede.

 

R – No Uruguai, houve uma espécie de decantação. Houve algumas organizações que se retiraram. Quando nós voltamos do primeiro encontro, tentamos organizar uma comissão que chamamos de Delegação Fortaleza. Foi em homenagem ao primeiro encontro, que tinha sido em Fortaleza, e parecia um nome bem significativo e, desse núcleo de organizações que estavam aí, algumas saíram. A Rede LAC é um espaço de fortalecimento das organizações e, além disso, sempre foi muito respeitosa dessas organizações e tem dado a todas o mesmo espaço. Então nós não conseguíamos entender, mas era uma decisão delas. Para nós, elas é que estavam perdendo.

Do mesmo jeito que saiam, podiam entrar, e restou um núcleo de três organizações, e fomos as que nós preparamos: a Rede de Grupos de Mulheres Rurais do Uruguai era a que convocava, porque foi isso que decidiram as outras organizações. Eram responsáveis por todo o tema do vínculo com a Rede LAC, elas se incorporavam e a gente absorvia tudo o que viesse da Rede LAC. Essas organizações fomos as que nos preparamos para vir ao segundo encontro.

Esse grupo que veio foi muito mais sólido e ficou muito mais envolvido. De fato, nos reunimos e temos procurado instâncias para difundir o que aconteceu no segundo encontro. O primeiro encontro foi muito caro por causa dessas controvérsias. Mas esse é um grupo muito mais consolidado.

 

P/1 - Esse que veio para o segundo encontro...

 

R – Sim, veio a Rede de Grupos de Mulheres Rurais. Eu falo dela primeiro, mas não quer dizer que seja mais importante do que as outras; depois veio a Cooperativas Agrárias Federadas, veio o Movimento da Juventude Agrária e veio a Federação Rural.

 

P/1 - Você disse que alguns grupos quiseram sair da rede porque achavam que a rede podia fragilizar...

 

R – Não sei, na verdade... Isso é uma impressão minha, não é uma coisa que eu tenha constatado nem tenha nunca manifestado explicitamente. Mas, de fato, nós convocávamos e elas não vinham, até que terminamos não convocando mais, porque era sempre convidar e elas não respondiam. Na verdade, se afastaram sem definição. É que a Rede é um espaço para todas as organizações, nós convidamos outras organizações que não vieram e que, para nós, eram muito importantes. Por exemplo, há uma organização de colonos, já tivemos contato com as mulheres de lá, e era muito importante que viessem. O problema, nesse caso, penso que também foi econômico. Porque nós repartimos para as organizações as passagens que tinham chegado, pedindo que pagassem 50%. Na verdade, era uma organização muito importante, mas tiveram uma situação econômica também muito difícil e não vieram. Mas, para nós, é um compromisso que elas se incorporem na Rede LAC, porque são muito representativas de um nível de produtores que estamos interessadas em ter: esses produtores que estão na terra, que colonizam, que vivem numa situação complicada, que é uma situação bastante geral. Quer dizer que para nós é uma incorporação importante.

 

P/1 - Kika, eu queria entender essa organização. Os grupos mandam coordenadores, mandam representantes? Há uma hierarquia nessas organizações.

 

R – Não, nessa organização que se fez para vir ao encontro da Rede LAC participam mulheres rurais, não a coordenadora.

 

P/1 - Não tem coordenadora, não tem…

 

R – Na Rede de Mulheres Rurais também não tem. As próprias mulheres, somos as que trabalhamos, que fazemos os contatos para os projetos etc.

 

P/1 - E quem vem para os encontros, o próprio grupo é quem indica, não dá para vir todo mundo. É dessa forma?

 

R – Por exemplo, a Rede de Grupos de Mulheres Rurais do Uruguai tem essas instâncias. Tem uma assembléia anual, a cada dois meses tem uma assembléia de delegadas e, depois, as comunicações que a gente pode ter quando se tem correio eletrônico, ou se não, falamos no telefone. Nós convocamos, se tem alguma coisa da qual precise fazer representação, quem pode ir...

 

 P/1 - Aí vão discutindo…

 

R – A gente discute nas assembléias de delegados. Coordena as coisas nas assembléias de delegados. Aí também se trocam experiências. Isso tem permitido reproduzir experiências, principalmente no tema da saúde, da educação. Foram reproduzidas experiências muito interessantes.

 

P/1 - E o que mudou no seu movimento a participação na Rede LAC?

 

R – Coisas muito importantes. Permitiu que a gente fosse conhecendo a realidade de outras mulheres da América Latina e do Caribe, uma coisa que era impensável para nós. Mas era como tocar o céu com as mãos. 

Do primeiro encontro, não havia palavras para expressar toda essa riqueza que estava se abrindo, toda essa diversidade... Era uma coisa maravilhosa. E depois, o contato ficou, as companheiras de vários países se comunicam e transmitem coisas que levam até a Rede, que compartilham. Na verdade, é um crescimento, um crescimento que, além disso, para mim, está só começando. Recém estamos percebendo a dimensão que isto pode ter. E não há que somente preservar isto, mas estimular e ajudar isto a crescer.

 

P/1 - Isso, mesmo entre um encontro e outro...

 

R – Sim, sim.

 

P/1 - Agora vocês estão se organizando para o terceiro encontro. Você quer falar um pouco desse momento? Como está? 

 

R – Nós acreditamos que temos que fazer uma análise bem profunda das coisas do segundo encontro. Analisar bem. Analisar de novo, porque já teve uma avaliação, mas eu acho que deveríamos avaliar de novo, analisar quais têm sido as nossas dificuldades. Neste encontro, é curioso, houve situações complicadas dentro da coordenação internacional e, por fora, ficou toda a participação das mulheres. Participaram maravilhosamente bem, trouxeram coisas maravilhosas e isso tornava o encontro real. Temos que analisar isso para saber onde estiveram os problemas. Porque eu sou das que acham que temos que nos responsabilizar pelo que somos.

Temos muitíssimas ilusões sobre o terceiro encontro. Primeiro, porque achamos que o lugar geográfico vai nos permitir uma maior participação, porque achamos que as pessoas que estão envolvidas na organização são responsáveis, que estão envolvidas. Principalmente que estão muito envolvidas. Às vezes, a gente é responsável de coisas muito pontuais, mas quando se tem isso lá dentro, isso que empurra a gente, quase que eu diria que estamos garantidas.

E, realmente, o que temos que fazer é revisar os temas; se bem que há temas que vamos tocar de novo, porque as coisas se repetem, infelizmente. Queria que de encontro em encontro os problemas se resolvessem e não precisássemos mais passar por isto. Vamos assumir outros e vamos ter que entrar em outros temas. Hoje mesmo, estivemos falando de alguns deles, a incorporação da mulher jovem é muito importante, muito importante mesmo. A verdade é que não é só por ter essa vitalidade, essa faísca que tem a gente jovem, mas porque daqui a pouco vão nos levar em carrinhos, como múmias.

Estamos num momento da sociedade em geral que é complicado. São mulheres que assumem compromissos com seus filhos, com suas famílias. A Verônica, por exemplo, tem quatro filhos, tem o seu esposo, trabalha na terra e trabalha numa tarefa com produtores rurais que toma muito tempo dela. E está aqui, e esteve no encontro. Ela compreendeu o sentido disto e eu me preocupo com a soma dos compromissos e dos tempos.

 

P/1 - E como se dá, porque é assim, as mulheres trazem diversos problemas, diversos contextos de outros países, e cada país resolve sua questão social de um jeito. Eu me pergunto, vocês têm uma pauta no encontro, têm uma reivindicação e têm pessoas atuando da Rede LAC, por exemplo, no Congresso, têm pessoas que levam as reivindicações?

 

R – Porque depois a gente também participa no encontro. Por exemplo, a Marcha das Margaridas, sei lá, congressos no Chile, estou mencionando assim, de memória... A gente participa nessas instâncias e também visita lugares nos quais se envolvem outras organizações. Vanete percorreu, e outras companheiras foram para outros lugares. Agora, a Rede está se promovendo assim, pode ser que amanhã a gente se organize de outra maneira.

Uma das ideias, que pelo menos o Uruguai tem como proposta, é que antes dos encontros internacionais podemos fazer encontros regionais. Já conversamos com Vanete, mas ainda não conseguimos trabalhar a ideia para ver como se concretiza, mas ela está de acordo. Porque não é a mesma coisa, você fazer um encontro no seu país e depois que o resultado desse encontro você trabalhe com a Argentina, o Brasil, o Chile, o Paraguai e o Cone Sul, que você vá deste encontro nacional para o grande encontro. Isso vai nos dar outra segurança, outra força, vamos dizer, de posições regionais. Inclusive de coisas que compartilhamos, ou não, regionalmente.

No segundo encontro, uma companheira uruguaia e uma companheira argentina discutiram pelo assunto das fábricas de papel, que era alheio a outros países que estavam lá. Se tivéssemos a possibilidade de conversar com a Argentina sobre o tema das fábricas de papel, talvez não teríamos que envolver outros países numa controvérsia que é própria, que é nossa. Talvez, se a gente trocasse opiniões sobre as fábricas de papel, porque nós também estamos preocupadas com o meio ambiente, estamos preocupadas com as fábricas de papel. Mas, de fato, nós somos um pequeno país, com muita mão-de-obra desempregada, que elas vieram, é o que se supõe, resolver, em parte... Agora há pessoas trabalhando na construção. E depois vai ter menos, porque vai haver outra instância de produção. Mas, ao mesmo tempo, estamos preocupados com a contaminação.

O que nós precisamos fazer, as organizações, é exigir dos nossos governos que seja controlada estritamente a contaminação... Ou essa empresa cumpre e se submete às normas, ou vai embora. Mas temos que resolver isso, porque eles também – os argentinos – têm fábricas de papel e, neste momento, elas contaminam muito mais do que as nossas. Porque você não pode ter morros, morros e morros plantados e o que vai fazer com essa madeira? Que levem ela para a Europa, para dar mão-de-obra para os europeus. É um assunto muito complexo, muito complexo. Ainda mais para nós, que não queremos as fábricas de papel, agora não temos mais remédio a não ser pensar que são uma necessidade. Talvez não deveríamos ter plantado, mas agora os morros já estão aí.

 

P/1 - Como você vê o futuro da Rede LAC?

 

R – Eu vejo como uma rede com possibilidades de crescer, de se consolidar, mas também com riscos importantes, porque quanto mais ela crescer, mais riscos vai ter que enfrentar com respeito a outras organizações com um perfil parecido, nunca igual, mas que podem ver na Rede LAC uma concorrência. Eu sempre digo que é incrível que a gente fale de concorrência entre nós, entre os camponeses, a gente do campo. É incrível falar de concorrência. Em algum lugar tem gente que não é rural e que tem outros interesses. Acho que a coisa é por aí. 

E não há dúvida que precisamos ficar muito atentas, saber bem quem são os nossos apoios verdadeiros, o que é outra coisa, e ser firmes. Ser firmes. E se um dia a gente precisar dizer para uma companheira: “A coisa não é por aí”, vamos dizer: “A coisa não é por aí”. A gente nunca pode dizer que não só porque sim. Se não entende, tudo bem, porque vamos ter um diálogo. E se não entende, vamos nos encontrar em outras instâncias.

 

P/1 - E seu sonho para a Rede?

 

R – O meu sonho acho que, em boa parte, é ver que ela se estende até as mulheres rurais que ainda nem sonham que existe essa organização. Não importa como elas vão se organizar, se dentro, se fora, mas que se organizem e que a Rede seja um bom resguardo para todas, onde todas possamos nos encontrar, que tenha muita gente jovem, com muita energia e comprometimento e que nós, que hoje já estamos no finalzinho, possamos ver todas elas. Porque, realmente, sempre vamos estar. Elas têm que saber disso, que se estamos vivas e precisam da gente, ou querem saber alguma coisa, vamos estar. Mas não podemos nos eternizar; não é bom, não é sadio e acho que, além disso, a Rede merece mudanças.

 

P/1 - E o sonho para as mulheres, Kika?

 

R – Independência, segurança, formação e alta auto-estima. Se a gente tem essas coisas, tem a vida por diante.

 

P/1 - E para você, qual é o seu sonho?

 

R – Bom, é continuar trabalhando na minha terra, com as minhas vacas, com o meu marido, vendo crescer os meus netos, saber transmitir para eles o amor pela terra. E para a minha organização do Uruguai, que ela cresça, que apareça, como a Rede LAC. A Rede LAC e a nossa rede, não consigo pensar numa sem pensar na outra. E, também, ver as mulheres organizadas, fortemente organizadas. Tenho certeza de que vai acontecer; leva tempo, mas vai acontecer.

 

P/1 - E como foi para você participar desta conversa?

 

R – Foi uma conversa entre amigos. Para mim não é nada difícil conversar, vocês devem ter percebido. É horrível, porque sempre tenho alguma coisa para dizer. E preciso me cuidar, porque se não atropelo os outros. Sim, preciso me cuidar, porque se não, não respeito os espaços... Outra, mais prudente do que eu, cala a boca. Preciso me cuidar, sim. Aprendi muito isso com as minhas companheiras de grupo. Elas têm me disciplinado nisso e em outras muitas coisas. Estou muito agradecida.

 

P/1 - Nós também, muito obrigada. 

 

P/2 - Em nome do Museu da Pessoa, nós agradecemos pela entrevista, muito obrigado.

 

R – Agradeço a vocês, e à Rede também.

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