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História

Tem umas mudanças que você simplesmente deixa acontecer

História de: Aroldo Oliveira Rocha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/10/2015

Sinopse

Aroldo Oliveira Rocha é natural de Itambé, Bahia, nascido em 1958. Perto da sua casa tinha um rio, com muitas praias de areia branca, onde ele e os irmãos se divertiam na infância. Com pouco mais de 12 anos, ele se mudou com toda família para um acampamento operário de uma fábrica nos arredores de Brasília. A realidade mudou brutalmente e ele já começou a trabalhar ainda na infância em uma pedreira, e nunca mais parou, como ele próprio revela.

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História completa

Nasci no dia 21 de março de 1958, em Itambé, Bahia. Na cidade onde a gente morava tinha um rio muito grande perto, o Rio Pardo, e a nossa vida era essa, colégio e o rio, e o trabalho também diário, ajudar em casa. Meu pai falava: “Ninguém vai pro rio”, só que quando ele ia trabalhar, a gente fugia e ia para o rio. Um dia eu fui só para o rio, aí banhei. Tinha praias de água doce, muito bonitas, aquela areia bacana. Eu, molecão, desobediente aos pais, nesse dia paguei caro, porque eu fiquei banhando e esqueci do horário de voltar pra casa. Quando lembrei, eu tinha que subir correndo, dava meio quilômetro, a distância, uma ladeira bem forte. Quando eu ia, estava saindo uma caminhonete. Falei: “Eu vou pegar uma carona nessa caminhonete”. Na traseira da caminhonete pra levar pra cidade, tinha uns três tamborzões de ferro, de 200 litros. O motorista descuidou, quando ele ligou a caminhonete, eu pulei na tampa traseira e vim agachadinho... menino é traquina mesmo, né? O motorista subiu a ladeira, quando chegou no meio da subida, a caminhonete pediu marcha e ele botou uma marcha forte; quando ele arrancou pra frente, os tambores vieram pra trás e pegaram minhas mãos. Eu quebrei os dedos tudo, machucou tudo e eu caí no meio da poeira. Quando eu acordei, eu já estava em casa, alguém me pegou lá, porque eu desmaiei, aí levaram pra casa. Quando eu cheguei em casa, a coisa foi feia. Porque, primeiro, eu desobedeci, me machuquei, me ralei todo. Antes de eu ir para o médico, ainda levei uma pisa, uma surra! Porque não tinha dessa, apanhava mesmo. Isso ficou na minha história, uma lembrança que eu nunca esqueço, de desobedecer ao meu pai.

  Quando nós fomos ficando mais adolescentes, meu pai vendeu a fazenda, vendeu o gado, vendeu tudo e comprou casas na cidade [para viver de aluguel]. Comprou umas três ou quatro boas e comprou uma para nós morarmos. Os aluguéis naquela época eram mixaria, terminou ele indo trabalhar para os outros em fazenda mesmo, quem era patrão passou a ser empregado agora. Mas o meu pai adquiriu uma doença lá no campo nos anos 70 e foi da Bahia pra Brasília, foi a razão de nós virmos, porque ele veio doente e a irmã dele não deixou ele voltar mais.

  Meu pai mandou buscar a família, que ele achou trabalho na Cimento Tocantins, foi o início da fábrica nos anos 70. Então nós viemos da Bahia direto para morar no acampamento da Tocantins.

Eu estava com 11 anos, estudava, tinha o colégio dentro da fábrica, tinha tudo. Pra nós que erámos criança parecia um sonho, nós não estávamos entendendo nada. Tem umas mudanças que você simplesmente deixa acontecer, mas você não entende. Para nós tudo era moderno, era diferente, os amigos, todas essas coisas eram muito novas. Aqui era só mato, deserto e pedra e mais nada. Pra mim foi outro mundo, estranhamos muita coisa. Depois, meu pai saiu da empresa Tocantins e foi trabalhar na Pedreiras Planalto, já era outro acampamento.

  Foi na Planalto o meu primeiro trabalho, nessa época não tinha fiscalização pra criança não trabalhar. E cada funcionário ganhava pelas caçambas de pedra que enchia. Aquele caminhão vinha, pegava a caçamba e dava um vale pra ele, esse vale é que dava o direito do salário no final do mês, então nisso trabalhavam os homens e as crianças, meninos de 12, de 10 anos pra frente. E nós mesmos quebrávamos as pedras, enchíamos caçamba, recebíamos o nosso vale e no fim do mês tínhamos o nosso salário, vinha num envelopinho igual ao envelope dos adultos. Depois nós passamos a ter gosto pelo trabalho, porque o gostoso era trabalhar, receber o dinheiro como criança e ajudar em casa. Com meu dinheiro, eu comprava as minhas roupas, comprava meu sapato, que na época tinha muito aquela moda do sapato alto, calça boca de sino, o emblema do cavalo de aço na perna, vixe, isso aí era uma vaidade! E eu comecei a trabalhar nas fábricas. Trabalhei na Cimento Tocantins, na Cimento Ciplan, na Engesp, então nunca parei de trabalhar, fiz curso de Mecânica Industrial. Só que atualmente eu não estou atuando nessa área, hoje eu trabalho na administração pública, na Secretaria de Obras de Brasília, desde o ano de 94.

  Eu saí da Planalto já com uns 19 anos, porque esse acampamento também foi extinguido, eles venderam pra Engesp, nós viemos trabalhar na Engesp, só que já compramos uma terra em que moramos ainda hoje, no Engenho Velho, Bananal, desde 82. O Bananal até hoje é bom, é muito gostoso de morar, porque tem rio, tem córrego e é aquele clima muito de interior.

  Quando eu mudei pro Bananal, nós passávamos por dentro d’água, botávamos umas pedras e pisávamos de pedra em pedra, e quando o rio enchia, ficava um pessoal de um lado e outro do outro, ninguém passava. Pegava a água no córrego, carregando lata nas costas. Depois nós começamos a comprar bomba à gasolina pra jogar água, botava a bomba motor no rio e encanava a água pra casa, aí as coisas já foram melhorando. Nos anos 85 para os 90, nós conseguimos uns fios de energia, uma rede com o Mundo das Tintas, com o Seu Vicente. Era só o bico de luz, não dava conta de tocar bomba e nem certos aparelhos. Hoje uma boa parte do Bananal é asfaltado, nós temos linha de ônibus que passa na porta da minha casa, tem água potável na torneira. E essas conquistas foram todas por intermédio de reuniões da associação. Sempre gostei de estar nas reuniões, de participar, até de opinar.

  Trabalhei a vida toda, eu nunca enriquei e não vou enricar mais, então não adianta você pensar só em ter as coisas. Eu não tenho esse conhecimento total, mas o que é bom você tem que levar para os outros e eu tenho um sonho de evangelizar. Eu sou um pastor itinerante, não o que dirige igreja, porque eu ainda estou na atividade de trabalho de governo. Sou um pastor supervisor do campo da nossa igreja, um representante do nosso pastor presidente.

  São muitas coisas que temos a reivindicar e registrar, mas o que eu quero deixar registrado é que ser entrevistado hoje foi uma das coisas que me marcaram na vida. Foi uma coisa muito importante para a nossa localidade, para minha vida, porque vai ficar na história. Eu sei que meus netos, um dia, vão me ouvir falando um pouco da minha história, que eu nunca falei para nenhum deles o que eu estou falando aqui.

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