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Tem que fazer o que gosta

História de: Aparecida de Fátima dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/10/2014

Sinopse

Aparecida de Fátima nasceu em São Paulo e cresceu na Zona Leste, no bairro da Penha. Ela trilhou caminhos inusitados: foi mãe solteira muito jovem, quando decidiu adotar uma criança, cursou Artes Plásticas e hoje trabalha com reciclagem de resíduos industriais. De forma pouco linear, Fátima, como gosta de ser chamada, estudou e buscou uma profissão, casou e perdeu entes queridos.

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História completa

Meu nome é Aparecida de Fátima dos Santos, São Paulo, dez de março de 1959. Meu pai, filho de português, o nome dele é Francisco dos Santos, ele nasceu em Bariri, interior de São Paulo. Minha mãe é Osalina Giacomini dos Santos, filha de imigrantes italianos, nasceu em Bariri, São Paulo. Como eles eram filhos de imigrantes, eles vieram pra trabalhar na lavoura. Então eles trabalhavam na lavoura de café. E vieram pra São Paulo, eu estava prestes a nascer. Eu tenho duas irmãs e dois irmãos. Então fui criada em São Paulo, cresci na zona leste de São Paulo, na Penha, brincando na rua, naquela época brincava-se na rua. Na época era um bairro tranquilo, não tinha edifícios, eram só casas, algumas casas. Tinham muitos loteamentos ainda vazios, então tinha bastante opção de brincadeiras na rua, na vizinhança, porque eram poucas casas, não era uma quantidade grande como hoje que não tem um espacinho. Não. Tinha bastante espaço, então brincavam todas as crianças da rua, brincavam juntas. Tinha a hora do dia, depois da escola, que ia todo mundo pra rua brincar, as brincadeiras tradicionais. Era bem interessante, bem gostoso. Minha mãe que cozinhava e cozinhava bem. Então massas... Bom, italianos, né? E a gente tinha um quintal muito grande e nesse quintal tinha um pomar. Então tinha sempre as frutas da estação, então tinha bananas. Sempre tinha. Mas não era uma penca de banana como a gente compra hoje na feira ou no mercado, era um cacho inteiro da banana. Então tinha banana, tinha... Então na época da fruta, comia-se tudo daquela fruta: geleia da fruta, o doce da fruta, a fruta, o suco da fruta, então era tudo. Naquela época não se tinha também a quantidade de industrializados que tem hoje, era uma alimentação bem natural. Tinha horta também, comia-se o que tinha na hora, comia-se o que tinha no pomar, na fruta, e comia os cereais que eram comprados no mercado, a carne, o leite, que também eram comprados no mercado. E era interessante, porque o quintal da casa era muito grande, então tinha umas galinhas. Era uma extensão como se fosse ainda o interior. Tinha o pomar, tinha a horta... Hoje, inclusive, essa casa nem existe mais. Existem várias casas nesse mesmo local onde só tinha a casa onde nós morávamos.

Eu comecei a me alfabetizar com o meu irmão mais velho, que ele já estava fazendo o primeiro ano, o segundo ano, e ele estava se alfabetizando. E como tinha horário pra fazer lição, eu ficava junto fazendo lição. Então eu via ele fazendo e ficava perguntando, e ele ia me falando. Então eu comecei meio que me alfabetizar junto com ele. Aos sete anos, quando eu fui pra escola, porque naquela época não tinha creche, pré-escola. Não, você ia direto pra primeira série, aí você começava o processo de alfabetização. E quando eu fui, eu já conhecia todas as letras, já fazia junção, porque eu tinha vivenciado isso na hora de fazer lição. Porque lá era tudo na baciada, os filhos: hora de fazer lição, ia todo mundo fazer lição, hora de brincar, ia todo mundo brincar, hora de almoçar, ia todo mundo, então era tudo junto. Então eu meio que já conhecia as letras. Mas me alfabetizei mesmo aos sete anos, quando fui pra escola. Fui uma estudante medíocre, tirava as notas ali... Na primeira fase, eu tirava sempre notas muito boas. Na segunda fase, já foi piorzinho, fui uma estudante medíocre, tirava basicamente pra passar de ano. Na segunda fase, inclusive, eu gostava muito de esportes, então eu jogava muito. Eu cheguei até perder um ano de tanto jogar, porque eu não saía da quadra.

Nunca falei “eu quero isso, eu quero aquilo”. Eu sempre tive muita vocação para as artes, isso desde criança. Então eu gostava muito de artes, eu lia bastante, eu gostava demais. Eu lia muito, ouvia muita música, então eu gostava muito de artes. Eu ouvia bastante música e eu gostava muito de... O balé, no final da adolescência, que eu comecei a fazer balé, porque sempre gostei muito de artes, de dançar, de música. Sempre gostei bastante. Gostei bastante de cinema. Então eu sempre era voltada para as artes, porque eu gostava bastante. Tanto é que depois eu acabei fazendo Artes porque eu achava que a gente tinha que fazer o que gosta, na verdade. Bom, até hoje eu acho que tem que fazer o que gosta mesmo.

Como eu sempre gostei da parte de artes, eu fui fazer Artes Plásticas, eu tinha 19 anos. Então tinha a Faculdade de Belas Artes em São Paulo, que na época era na Luz. Eram grandes mestres, aprendi muito lá. E eu fui fazer faculdade de Artes, fiz os quatro anos, aí fiz bacharelado em pintura. Eu fazia de manhã, naquele frio, o inverno era bem rigoroso, eu tomava chocolate com conhaque de manhã pra poder esquentar um pouco, pra pode esquentar as mãos, não ficarem tão duras. E era gostoso. Fiz a faculdade, no bacharelado em pintura eu curti bastante, gostei. Gostei muito do curso.

Eu fui fazer um estágio numa fábrica de tinta no ABC. E nesse estágio, eu descobri que eu nasci pra ser peão. Foi bem interessante, porque aí eu comecei a trabalhar com restauro. Então restauro, a gente estudava muito materiais, porque você tinha que analisar o material, produzir um material semelhante pra poder restaurar a peça, a obra. E foi bem legal. Eu me apaixonei pelo chão de fábrica. Nossa, eu queria trabalhar na fábrica, direto na fábrica. Mesmo assim, eu não consegui dar andamento nesse trabalho, porque depois, quando eu acabei a universidade, eu não conseguia trabalhar em novas fábricas. Porque como uma indústria vai admitir uma pessoa pra trabalhar na fábrica sem nenhuma experiência e com uma faculdade de Artes Plásticas? “Olha, eu não tenho como encaixar você. Se fosse uma faculdade de Arquitetura, Engenharia, já estava direcionada. Agora, Artes? Sabe, a fábrica não tem um local, uma posição pra você na indústria com a Artes”. Eu acabei a faculdade e comecei a me envolver com educação ambiental. Eu fui trabalhar numa editora, então eu desenvolvi um trabalho com essa editora de educação ambiental e era uma coisa que não tinha no Brasil. Produzíamos materiais de educação ambiental e programas de educação ambiental, o público era crianças e jovens. E aí eu comecei a fazer cursos fora, de meio ambiente. Eu comecei a descobrir um universo totalmente novo. E era também um universo que estava começando. Então, por exemplo, quando eu comecei a Faculdade de Artes, eu trabalhei um pouco em rádio fazendo locução, então eu pinguei aqui, ali, durante esse período. Mas era tudo muito curto, o mercado era muito limitado. Então eu fiz uma série de coisas durante o período da faculdade, que nada vingou. Comecei a tocar baixo, toquei baixo, fiz uma série de coisas assim, nada engrenava. Quando eu comecei a conhecer esse universo do meio ambiente, foi que começou a tomar volume, porque era uma coisa que estava começando, no Brasil não tinha nada ainda. Tudo que tinha, a gente estudava lá fora e trazia aqui dentro pra poder passar. Eu fiz quatro pós-graduações em meio ambiente. Eu fiz uma pós-graduação aqui, fui a primeira turma do PECE (Programa de Educação Continuada), da Escola Politécnica de São Paulo, de Gerenciamento Ambiental, que foi um curso de dois anos bem interessante, bem abrangente. Fiz outro também na FAAP, também foi a segunda turma da FAAP de Gerenciamento Ambiental e de Risco. Também foi um curso bem interessante, voltado mais pra indústria. Eu comecei a fazer esses cursos de especialização, aí a minha ex-cunhada falou: “Vamos trabalhar junto”. Falei: “Vamos”. Começamos a trabalhar. Um amigo nosso chegou, falou assim: “O que você entende de reciclagem?”. Eu falei: “Olha, reciclagem em nível artesanal, eu entendo bastante; em nível industrial, não muito, mas é uma coisa que eu gostaria muito”. Ele apresentou a Suzaquim, que era uma fábrica de óxidos metálicos, que fazia lá os óxidos e os sais metálicos a partir de matéria-prima nobre, metal extraído da natureza. Ele falou: “Olha, o que você acha de oferecer pra eles a fazer os mesmos óxidos e sais metálicos a partir de resíduo industrial?”. Eu falei: “Nossa!”. Aí eu fui aprender, eu estudava dia e noite sem parar, pra poder fazer esse trabalho, porque só de falar, eu já me apaixonei. Eu já tinha essa empresa de restauro, que era a Faarte, aí nós mudamos o escopo social dela pra trabalhar com representação comercial, pra fazer toda a parte comercial dessa empresa. A empresa já existia, mudamos o escopo dela e começamos a trabalhar. Então a gente captava os resíduos no mercado pra fazer. Então eu participei de toda a redescoberta da Suzaquim. Fiz o licenciamento, foi bem conturbado o licenciamento, porque era uma coisa inovadora, que ninguém ainda tinha feito. Eu levei uns dois anos pra colocar o nome da Suzaquim no mercado. Então fomos buscar no mercado os geradores desses resíduos pra poder fazer a reciclagem lá. Em 79, saiu a primeira legislação pra reciclagem de pilhas e baterias, que foi a resolução do Conama 257. O Conama é o Conselho Nacional do Meio Ambiente. Só que quando o Conama lançou a 257, começou a sair na mídia que não existia reciclador de baterias aqui no Brasil, que iam mandar pra França. Eu falei: “Como não existe? Olha, eu tou aqui, eu já faço isso há dois anos”. Tinha assim aqueles grupos de estudos, palestras, eu ia falava assim: “Me põe para o final”. Todo mundo falava: “É, só que não sabemos como vamos recolher, não sabemos como vamos reciclar, o código de nota que vai usar pra fazer o transporte do produto pós-uso”. Eu já tinha isso tudo em procedimento, porque eu já fazia isso há dois anos. Hoje reciclamos resíduo industrial sólidos, resíduos líquidos, pilhas e baterias.

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