Busca avançada



Criar

História

Técnico na (agri)cultura de Maués

História de: Ernandis Pereira Barbosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

O processo de produção do guaraná, principal cultivo de sua terra de origem, Maués, no Amazonas, faz parte da história de Ernandis Pereira Barbosa. Foi no guaranazal do avô que ele aprendeu a lidar com o fruto e a moldar o sonho de trabalhar, quando adulto, com técnicas agrícolas. Ele revive essa trajetória todos os dias, ao acompanhar profissionalmente os lavradores das comunidades locais e, todos os anos, durante a festa do guaraná, em novembro, na qual é responsável por demonstrar a produção para o público. Além de ser técnico em agricultura, Ernandis revela, em seu depoimento, ser também especialista na cultura popular amazônica. Ele fala do hábito de tomar a bebida e das muitas histórias que vivenciou por ali, envolvendo botos, jacarés gigantescos e figuras sobrenaturais.

Tags

História completa

O meu nome é Ernandis Pereira Barbosa. Nasci em Maués, no dia 26 de janeiro de 1968. Os meus pais todos são filhos de Maués mesmo. Meus avós, eles todos eram daqui mesmo, descendentes geralmente de portugueses e indígenas. Por parte da minha avó, não sei se era Sateré-Mawé, mas sempre ela falava para a gente que era descendente de índios. Eu não sei te informar se eu sou descendente de Satarés-Mawés, mas tudo indica que sim.

Meus pais sempre foram agricultores, sempre trabalharam na agricultura para sobrevivência, sempre foi aqui, sempre foi assim. Com guaraná, sempre foi com guaraná, com mandioca, sempre trabalhando com esses produtos.

Eu estudei até a oitava série. Daí eu fiz um minivestibular, passei. Porque naquele tempo existia Técnicas Agrícolas. Eu via aquilo, os meus professores darem, a gente tinha uma horta na escola. Meus pais eram agricultores, sempre trabalharam com isso, meus avós, que eu morei muito tempo com eles. Daí aquilo foi me induzindo àquela profissão que eu queria. Fui para uma escola federal. Só que lá era sistema fechado, e já fui para Manaus estudar.

Em Manaus, eu passei 14 anos. Depois fui trabalhar no município de Coari, Tefé, trabalhei nesses municípios também. Eu fui, passei esse tempo todo, 14 anos, fora. Quando voltei, a cidade estava muito abandonada, não tinha crescido nada. O que me levou a vir para Maués foi um prefeito que trabalhava aqui, ele tinha um projeto, ele já tinha trabalhado no Idam [Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas]. Ele andava nos municípios desenvolvendo um programa agrícola. Daí ele me trouxe para implantar no município de Maués. Foi por meio do qual eu vim, fui um dos primeiros técnicos a ser contratado por ele na Secretaria de Produção.

A Secretaria de Produção em que eu trabalho, hoje, tem um quadro profissional muito grande, que, só em técnicos, nós somos num total de 14 profissionais. Isso quer dizer, o município foi bem dividido com esse programa agrícola, que o prefeito fez esse trabalho para dar oportunidade para o produtor. As mudas são doadas, a assistência é doada, tudo é de graça. Temos comunidade longe. Só um exemplo, Paracunim são mais de 14 horas, no barco do técnico você demora isso tudo. Como também tem comunidade perto aqui, que é só atravessar o rio.

Eu sei todo o processo do guaraná. O trabalho, hoje, todo técnico profissional é bem capacitado. O que a gente faz hoje? A gente acompanha o produtor desde a escolha da área até a colheita, até a torrefação, até a venda dele, que é a indicação para compra na AmBev.

Eu aprendi com o meu avô, comecei com ele bem cedo, bem novo mesmo. Ele morava, tinha um terreno aí também no Pupunhal. Daí ele nos ensinava, ele levava a gente para o guaranazal. Naquele tempo, era assim, as pessoas mais velhas ensinavam mesmo, tinham uma paixão pela agricultura, diferente dos jovens e das pessoas de hoje. A gente tenta colocar na cabeça que é bom ele investir na agricultura, que ele vai ter bom lucro. Naquele tempo eles trabalhavam por amor. A produção de guaraná de Maués era muito grande. Depois caíram os preços.

A festa do guaraná é um evento bonito que nós temos aqui, sempre nas últimas semanas de novembro. Nós temos uma praia bem limpa, maravilhosa, na qual se reúne o prefeito, um evento para reunir as comunidades, as pessoas, os turistas. É realizado na praia o evento, sempre tem atração de fora, sempre tem a lenda do guaraná. Você tem ali um barracão para lhe mostrar todo o processo, o guaraná é dado para você de graça com mel, com mel de cana, com mel de abelha, com várias misturas, para você provar que o guaraná pode ser tomado de várias maneiras. Todo ano, sou um dos responsáveis pelo barracão do guaraná. O barracão é um barracão que a gente monta na praia mesmo, que vai todo o processo. Leva desde a planta, daí a gente faz, tem a colheita, tem a lavagem, tem a secagem no forno, tudo ao vivo. Vem pilar, vem moer tudinho.

Tomo guaraná. Todo dia. Só de manhã, porque eu não tenho o costume de tomar café. De manhã, é o guaraná que eu tomo. Ele me deixa ativo o dia todinho, porque eu sou energético. Eu geralmente tenho aquela colher de chá, eu tomo uma colher cheia com um copo mais ou menos de 160 mililitros. Tomo geralmente sem açúcar, que ele faz mais efeito ainda, que ele fica bem forte.

Quando você anda fazendo manejo florestal, tem que identificar todas as árvores, tem que olhar, tem que ver. Às vezes, aparece do nada cada coisa que tu fica impressionado. A gente tem um barquinho, naquele tempo era dirigido na popa. Eu vinha, eu sempre ando com o Novo Testamento, um livrozinho, só ando lendo nas minhas viagens. Sozinho, sempre só eu e Deus. Eu vinha lendo, eu vinha do Pupunhal, atravessando para o Limão, e o rio bem calmo. Sem mais nem menos, eu vinha lendo, quando eu vi um barulhão, emergiu. O nosso barco tem 12 metros. Olhou um bicho tão grande, que só dava para ver a parte do olho dele, aquela montanha, e o final dele. Mas ele era maior do que o barco da gente, muito grande. Depois fui conversar com as pessoas que moram lá há muitos anos, eles dizem que tem um jacaré muito grande nessa boca aí, a Boca do Limão, que já apareceu para vários pescadores. Isso que eu tinha visto. O rio estava bem calmo, dava para ver aquela coisa grande do olho, bem grande. A nossa canoa tem 12 metros, ele era maior do que a nossa canoa. E aí você vê muita coisa. Às vezes, do nada apareciam aquelas ondas, parece que passou um navio, sabe? Não era nada, só levava teu barco lá em cima, como se tivesse alguma coisa, mas não tinha nada. Então, eram coisas impressionantes que aconteciam com a gente nessas viagens.

Isso é real, porque a gente morava numa casa lá no Limão, de noite tu via os botos subirem mesmo para andar, a casa ficava a poucos metros da beira, de você ver eles andarem mesmo. Tinha a casa do técnico lá, que eu mandei fazer, meio longe do rio. Mas tu vias eles andarem tudinho, assoviarem tudinho. E eu dormia sozinho. Lá tinha, porque aparecia muita coisa. Aparecia um cavalo sem pescoço num campo grande de futebol. Lá tem tanta coisa, que eles falavam, e eu dormia sozinho. Eu disse: “A única coisa que isso pega é no pé da gente.” Às vezes, a gente não conta para as pessoas porque elas nunca vão acreditar. Mas são muitas coisas reais que acontecem nesse tempo de extensão que a gente tem, já muitas e muitas coisas mesmo.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+