Busca avançada



Criar

História

Tecendo sucesso e sustentabilidade

História de: Josefa Menezes de Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/01/2021

Sinopse

Doença do pai. Mudança para Aracaju. Trabalho no supermercado e no Banco Real. Loja de confecção. Traição e divórcio. Criação de livraria e falência. Aulas de artesanato e costura para a comunidade. Sustentabilidade e fonte alternativa de renda. Fundação da Casa do Artesão. Busca por patrocínio. Impacto na sociedade. Crescimento da Associação.

Tags

História completa

Projeto Instituto Camargo Correa

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Josefa Menezes de Andrade

Entrevistado por Márcia Ruiz

Socorro, 14 de Abril de 2011

Código: ICC_HV019

Transcrito por Paula Leal

Revisado por Luana Baldivia Gomes

 

P – Boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P – Josefa, eu queria que você dissesse seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Josefa Menezes de Andrade, mas gosto de ser chamada como Cris, certo? Data de nascimento é 25 de junho de 1959 e a cidade, Nossa Senhora do Socorro, Sergipe.

 

P – Por que você gosta de ser chamada de Cris?

 

R – Porque é um nome, um apelido que já vem de longo tempo, desde a minha infância – da minha infância não, da minha adolescência – que eu nunca gostei de ser chamada como Josefa, e aí as colegas inventaram esse nome e aí ele pegou e ficou até hoje, até minha própria mãe às vezes me chama de Cris [RISOS].

 

P – Cris, qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai se chamava Emanuel Francisco de Menezes e minha mãe Josefa do Espírito Santo.

 

P – Você pode falar um pouquinho mais alto, Cris?

 

R – Sim.

 

P – O que seus pais fazem ou faziam, Cris?

 

R – Meu pai era comerciante, ele trabalhava no mercado central vendendo cereais, né, feijão, farinha, essas coisas. Minha mãe, dona de casa.

 

P – E você tem irmãos?

 

R – Tenho.

 

P – Quantos?

 

R – Eu tenho três irmãos homens e três irmãs, quatro comigo.

 

P – E você é a mais velha?

 

R – Das mulheres eu sou a mais velha.

 

P – E na escadinha dos meninos e meninas você é o quê, a primeira, a segunda...?

 

R – Juntando, eu sou a segunda.

 

P – Tá. E me fala uma coisa, como é que era o cotidiano na sua casa quando você era pequena? Como é que era, você se lembra da sua casa?

 

R – Lembro, eu tinha uma vida, assim, não era uma vida a mil maravilhas, né, mas a minha família tinha uma classe média na época, uma classe média que hoje seria uma classe média alta, então, graças a Deus, eu tive uma infância boa, mas devido à doença que meu pai tinha, meu pai sempre foi uma pessoa muito doente, então na medida do tempo foram se agravando as doenças que ele tinha, porque não era uma enfermidade só, então tudo aquilo que nós tínhamos financeiramente foi-se embora porque ele gastava tudo que tinha com remédios, com consultas, naquela época tinha muito assim de dizer “Olha, em Salvador tem um médico que pode dar jeito no seu problema”. Então às vezes não se tinha mais o dinheiro, então ele vendia algo que nós tínhamos e ele ia para Salvador. Então com isso, quando ele chegou a falecer, nós ficamos só com a casa que nós morávamos, foi a única herança que meu pai deixou para a família, foi a casa que nós morávamos.

 

P – E Cris, me fala uma coisa, que tipo de doença que ele tinha?

 

R – Meu pai tinha diabetes e erisipela, né, ele sofreu muito, muito mesmo com essa erisipela, e ele também tinha bursite. Então quando essas doenças atacavam, atacavam tudo de uma vez só, e aí era um Deus nos acuda em casa, né, pra gente poder levar ele para o médico, para poder chamar o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] para poder levar ele até o hospital, era tudo que nós proporcionávamos a ele, era tudo particular, né, para poder ter uma qualidade de atendimento melhor, então foi assim a nossa vida até o dia que Deus levou ele.

 

P – E Cris, vamos voltar um pouquinho, você falou que você nasceu aqui.

 

R – Não, eu nasci na cidade de Campo Brito, aqui no Estado de Sergipe.

 

P – E seus pais também eram dessa região?

 

R – Sim, os dois.

 

P – E como é que eles vieram aqui para essa região de Aracaju?

 

R – Eles vieram para Aracaju porque o sonho da minha mãe era sair de lá de onde ela nasceu, porque era um município muito pobre, muito pobre mesmo, e como meu pai trabalhava aqui, ou seja, ele trazia o cereal que era feito lá, que era plantado e colhido lá no interior, ele revendia aqui na cidade de Aracaju. Então meu pai vivia mais aqui do que praticamente lá em Campo do Brito, e como o sonho da minha mãe era sair de lá, ele achou por bem trazer a família para morar aqui em Aracaju.

 

P – E você tinha quantos anos?

 

R – Quatro anos de idade.

 

P – E você lembra da casa onde você morou em Campo de Brito ou não?

 

R – Não, não.

 

P – Mas essa casa que você veio morar aqui em Aracaju você lembra como é que era?

 

R – Lembro, lembro porque a gente passou 23 anos morando nela.

 

P – E como é que era essa casa, e em que bairro que era?

 

R – No bairro Dezoito do Forte, em Aracaju, era uma casa de esquina, como essa aqui. Na frente meu pai colocou uma mercearia, porque, como minha mãe não trabalhava fora porque ele não deixava – ele morria de ciúmes dela, então não deixava ela trabalhar fora –, então ele colocou uma mercearia, que naquela época a gente chamava de bodega, né, hoje se chama de mercearia, então ele colocou uma mercearia para ela tomar conta, era assim, na frente, e na parte dos fundos eram três quartos, que era onde nós dormíamos, uma sala, a cozinha e no fundo era a garagem que meu pai... Na época ele tinha um automóvel, que na época era um jipe.

 

P – E como é que era o cotidiano dessa casa com sete crianças, seu pai, sua mãe e ainda a bodega, como é que era esse cotidiano?

 

R – Era um cotidiano meio agitadozinho, porque a gente não era flor que se cheirasse [RISOS]. A gente brincava, e a gente brincava mesmo, a gente se divertia mesmo, entendeu? A convivência nossa com nossos pais, graças a Deus, nunca tivemos problemas, assim, que chegasse a chamar atenção, entendeu, apesar dos problemas de saúde de meu pai, mas a gente teve uma convivência muito amigável, muito boa mesmo.

 

P – E como é que era esse cotidiano, assim, você falou que vocês brincavam muito. Do que vocês brincavam, onde vocês brincavam?

 

R – Em casa, dentro de casa, na rua não.

 

P – Vocês não brincavam na rua?

 

R – Não, porque minha mãe não deixava a gente brincar na rua, então a gente brincava dentro de casa, a gente ia para a escola, quem estudava de manhã ia de manhã, quem estudava a tarde ia à tarde, e de noite a gente sempre estava todo mundo junto, né, então aí foi, na época em 1971, se não me falha a memória, foi quando a TV Sergipe, que é a retransmissora da TV Globo, inaugurou aqui em Aracaju o retransmissor dela e meu pai comprou uma televisão e não era televisão colorida, mas existiam umas telas, né, umas telas grandes, coloridas. Meu pai comprou uma tela dessa e colocou na frente da televisão, pronto, ninguém queria mais sair da frente da televisão, porque era um show [RISOS] toda noite quando se ligava a televisão. Isso foi até os meus 14 anos. Com 14, quando eu... Eu não tinha 14 anos ainda, incompleto, as coisas lá em casa já começaram já a fracassar, e eu sempre fui uma pessoa que sempre gostou de trabalhar, eu fui trabalhar fora, em um supermercado, ainda sem experiência nenhuma na vida. Eu fui trabalhar em um supermercado chamado Supermercado Paes Mendonça, que hoje é o Supermercado Bom Preço, e estudava à noite. Trabalhei nesse supermercado durante quatro anos e quatro meses, sempre estudando à noite, e foi quando eu fiz um curso, né, para trabalhar no Banco, no Banco Real. Eu passei no curso, continuei estudando à noite, saí do supermercado e fui chamada pelo Banco. Trabalhei no Banco durante sete anos e três meses, e quando eu estava para ser promovida para gerente eu pedi demissão porque eu tinha casado e aí eu não queria mais trabalhar para ninguém, eu queria trabalhar para mim mesmo, eu queria montar meu próprio negócio, e aí eu saí do Banco e montei uma loja de confecção e aí começou a minha vida de comerciante.

 

P – Vamos voltar um pouquinho só lá para sua infância, você falou que você estudava, estudavam todos no mesmo colégio, que colégio que era esse?

 

R – Não. Eu e minha irmã, logo atrás de mim, a gente estudava no Sesi [Serviço Social da Indústria], que no caso é o Roberto Simonsen, não é isso? E dois irmãos meus, o mais velho e o outro estudavam em uma escola municipal pertinho de casa, os outros dois não estudavam ainda porque eram muito pequenininhos, na medida que foram crescendo foram para as mesmas escolas que a gente estudava.

 

P – Então as meninas estudavam nesse Sesi...

 

R – E os meninos estudavam em uma escola municipal.

 

P – E o Sesi era um curso, ele tinha um curso profissionalizante?

 

R – Não. O estudo fundamental, só.

 

P – E aí quando você foi trabalhar no supermercado você foi fazer o quê, Cris?

 

R – Na época eu entrei no supermercado como caixa, depois eu fui promovida a chefe de seção, e depois eu fui promovida a subgerente, que na época... Hoje não existe subgerente, hoje são encarregados de frente de loja, naquela época era subgerente, na época que eu estava exercendo a função de subgerente foi quando eu fui chamada pelo banco.

 

P – E por que você quis trabalhar no banco?

 

R – Porque era uma coisa melhor, entendeu, não ia se comparar eu trabalhar no banco a trabalhar no supermercado, tinha tudo a ver também com aquilo que eu estava estudando, porque eu estava fazendo ciências contábeis então tinha tudo a ver trabalhar no banco com aquilo que eu estava estudando, com aquilo que eu gostava realmente de fazer, que era Ciências Contábeis.

 

P – Alguém te influenciou para fazer Ciências Contábeis?

 

R – Absolutamente não, era um gosto meu mesmo, próprio, porque eu sempre, desde pequenininha como minha mãe, meu pai colocou a mercearia para minha mãe então eu era a mais atrevidinha, eu era sempre quem tomava conta, era sempre quem tomava frente, né, para vender, para receber, para contar dinheiro, ah, eu adorava contar dinheiro na mercearia [RISOS], e aí eu fui crescendo com essa mentalidade de trabalhar, produzir para poder ter, eu sempre pensei dessa forma, eu só tenho se eu trabalhar.

 

P – E quando você começou a trabalhar no banco e surgiu a oportunidade de você ser promovida, por que a decisão de sair, foi só por causa do casamento ou teve um outro motivo?

 

R – Não, primeiro porque eu já estava saturada, porque na época que eu trabalhava no banco não existia regras de horário, ou seja, eu entrava no Banco oito horas da manhã e, com a medida que eu fui crescendo de cargo, eu não tinha horário para sair, tinha dias... Eu cansei de me esconder dentro do banheiro, dez horas da noite eu dentro da agência trabalhando com o pessoal que fazia compensação de cheques, é, me escondia dos fiscais do Ministério do Trabalho que faziam ronda à noite... Então eu cansei de me esconder dentro do banheiro, porque era um trabalho escravo mesmo, por quê? Na época não tinha computador, na época não tinha e-mail, na época não tinha muitas coisas que hoje existe, a maior facilidade, na época era tudo de malote, você tinha que mandar a superintendência regional do Banco Real aqui em Sergipe... Não era em Sergipe, era na Bahia, era em Salvador, então tudo que era feito nas agências do Banco Real aqui em Sergipe era enviado por malote para Salvador, então o movimento diário tinha que estar pronto no mesmo dia para que o malote no outro dia estivesse lá na superintendência. Então isso foi me desgastando muito, desgastando, desgastando, a cobrança era demais, entendeu, e os recursos eram de menos que o Banco oferecia, então aí eu achei que eu já estava na hora de eu bater minhas asinhas por conta própria. 

 

P – E por que você escolheu uma confecção, para montar uma loja de confecção, por quê?

 

R – Porque a princípio era uma coisa que... A gente vai muito por moda, por tendência, entendeu, então como eu tinha facilidade, eu conheci alguns representantes de moda, né, de confecção, e aí fui eu conversando com eles, e eles abriram as portas das fábricas para eu comprar. Então eu vi que ali era uma boa oportunidade para eu dar início ao comércio que eu tanto sonhava, entendeu, aí abri em uma casa juntamente com outra irmã minha, a que vem atrás de mim, em uma casa dela no conjunto chamado Bugio, a gente montou lá a sociedade e abrimos essa confecção, entendeu?

 

P – Ela vendia, vocês faziam as peças ou vocês compravam de outras confecções?

 

R – Não, a gente comprava da fábrica, comprava já pronto e revendíamos.

 

P – E como é que era o nome dessa sua irmã?

 

R – Josineide.

 

P – E aí, como é que foi esse negócio, como é que foi a experiência?

 

R – Ah, gente, foi uma experiência ótima, né, primeiro porque eu cheguei à conclusão que sociedade não presta, mesmo que seja com família não vale a pena. Segundo que me ensinou muito, né, como lidar com gente de uma forma diferente do que eu tinha aprendido a lidar, com gente de supermercado, cliente de supermercado, e cliente de Banco, era totalmente uma clientela diferente da clientela que eu tinha na loja, então foi mais um aprendizado para mim. Então eu procurei aprender tanto em termos de contato com pessoas como até mesmo com comércio, como lidar com o comércio, comprar, vender, cobrar, pagar, entendeu? E depois de três anos que eu estava nessa sociedade, eu resolvi, justamente porque não estava dando certo a sociedade, eu resolvi montar uma confecção, eu peguei a minha parte da sociedade, aluguei um imóvel, porque eu morava em um apartamento, coloquei duas máquinas de costura e comecei a costurar, fazer modinha, e com um ano depois eu já estava com cinco máquinas, e daí eu fui evoluindo, evoluindo, a ponto de nesse espaço que eu aluguei não ter mais condições da gente permanecer, porque ficou pequeno.

 

P – E você trabalhava com que tipo de roupa?

 

R – Modinha.

 

P – Mas feminina, masculina?

 

R – Feminino e masculino, adulto e infantil, eu mexia com tudo, tudo eu fazia um pouquinho. Aí eu solicitei à Codise [Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais de Sergipe], que é o órgão que está, inclusive, né, nós pleiteamos o terreno aqui na frente, eu solicitei à Codise, na época estava em construção o distrito industrial aqui da Nossa Senhora do Socorro, eu solicitei à Codise um galpão, e depois de uma análise técnica que a Codise fez eles me cederam um galpão onde eu abri uma confecção aqui e aí eu parei de fazer modinha e passei só a fazer fardamento industrial. O nome da fábrica era Talita Confecções, eu cheguei ao ponto de ter 25 funcionárias diretas e dez indiretas, né, passei, no caso, cinco ou seis anos, não estou bem certa, foram cinco ou seis anos trabalhando com essa confecção, mas aí nessa época, como eu já estava casada, eu não tinha o apoio do meu ex-marido, eu não tinha o apoio dele para nada porque ele tinha uma loja de vender peças de automóvel, então ele não se ligava, não se envolvia com nada daquilo que eu fazia, ele apenas me dava um apoio, assim, quando eu precisava de algum recurso que eu não tinha, que estava precisando com urgência, ele me cedia, entendeu? Mas assim, apoio moral de estar lá dentro me ajudando a fazer, a resolver, a buscar... Eu viajava muito para comprar tecido, para entregar mercadoria, ele não me ajudava em nada disso, e aí chegou a um ponto de eu acabar... Acabei porque eu sozinha não estava aguentando porque, também, depois de dois anos que eu casei eu tive um filho, e o meu filho é especial, ele tem Síndrome de Cornelia de Lange, então ele estava ficando mais na mão de empregadas do que na mão da própria mãe, e ele estava sendo muito judiado porque, apesar de ele ter nascido com nove meses, nasceu com dois quilos e duzentos e cinquenta gramas, bem miudinho, bem miudinho mesmo, então quem me socorreu na época foi minha mãe, que ficou com ele, tanto que até hoje minha mãe não desapega dele de maneira nenhuma. Hoje ele está com 23 anos, mas tem uma idade mental de uma criança de cinco anos, então aí eu resolvi que eu ia dar mais atenção ao meu filho do que aquele negócio estressante que estava acabando comigo, mas nem assim eu deixei de continuar no negócio. Aí eu fui trabalhar com meu ex-marido, foi a pior coisa que eu fiz na minha vida, foi deixar de trabalhar sozinha para trabalhar junto com ele. Como eu estava lá dentro ele se aproveitou dessa oportunidade de eu estar tomando conta e aí ele passou a andar mais na rua do que propriamente dentro do negócio dele, ou seja, ele andava atrás de mulheres e eu era quem tomava conta do negócio, e esse foi um dos motivos que veio a ocorrer a nossa separação.

 

P – Cris, você tava falando que quando você foi trabalhar com seu marido não deu muito certo e aí vocês acabaram se separando, e aí, o que você foi fazer da vida, como é que se deu isso?

 

R – Aí, o que foi que aconteceu? Quando eu me separei dele, até o dia que eu estava com ele nós tínhamos uma vida financeira ótima, né, eu tinha carro, ele tinha carro, nós tínhamos uma casa própria, ele tinha o próprio negócio dele, só que quando eu resolvi me separar dele, botei minhas coisas em cima do carro, peguei minhas três malinhas de mão que eram meus três filhos, aluguei uma casa e fui-me embora, porque eu não estava suportando mais aquela situação porque a partir do momento, eu sempre dizia isso para ele: “Você pode arranjar quem você quiser lá fora, só não me arranje filho.” Porque se ele não estava cuidando dos filhos legítimos do casamento dele, como é que ele iria cuidar de uma criança que ele estava tendo fora do casamento? Ou talvez ele viesse a cuidar melhor dos que estavam fora do que daqueles do legítimo casamento. Foi quando um certo dia ele me apareceu com dois filhos, quer dizer, não foi ele quem apareceu, foi ela que apareceu com dois filhos, um no braço e um na barriga, aí eu cheguei e achei que ali era a gota d’água, e não tinha condições mais da gente continuar. Com isso o que foi que aconteceu? Ele tirou tudo aquilo que era meu, ele tirou de mim, ou seja, era para ter vendido a casa, ter dado meus cinquenta por cento, cinquenta por cento dele, o carro, tudo aquilo que nós tínhamos, o que foi que ele fez? Eu acho que ele já estava prevendo isso, porque há muito tempo que eu vinha ameaçando ele de me separar, a loja eu não sabia, mas a loja que ele tinha era no nome de um primo dele, só a casa que ele me deu a metade, mas a metade do que ele achou que deveria me dar, mas como eu, graças a Deus, sempre fui uma pessoa de cabeça em cima do pescoço, que nem todo mundo que tem cabeça em cima do pescoço realmente usa para o que presta, eu sempre procurei fazer aquilo que realmente viesse a ser o melhor para mim e para os meus filhos, eu aproveitei aquele pouquinho que ele me deu e abri um comércio aqui em Socorro, eu já tinha vindo morar aqui então abri uma loja, um espaçozinho aqui no Conjunto João Alves e coloquei uma livraria, eu não sabia nada de livro, a única coisa, quer dizer, nesses termos técnicos, né, de vender livro, de saber autor, de saber várias coisas que requer um dono de livraria saber, eu não sabia de nada, mas como naquela região ali tinha muitos colégios particulares então aí me veio a ideia de colocar uma livraria e papelaria, eu aluguei esse espaço, me lembro como hoje, eu fui no centro de Aracaju e comprei em um atacadão lá 24, um pacotinho assim, 24 caixas de lápis de cor pequeno, comprei uma caixa de lápis grafite com 144 lápis dentro dessa caixa, comprei uma caixa de borracha de apagar, daquela de cabeça, comprei um pacote de cadernos daquele pequeno espiral com 24 cadernos, foi essa a mercadoria que eu botei na prateleira que tinha na minha loja.

 

P – E como é que foi?

 

R – Fui em todos os colégios, porque eu sou uma pessoa que gosto muito de fazer amizades, então eu fui em todos os colégios, procurei fazer amizade com todas as donas de colégio e levar a ideia para elas de que se não era viável se ter ali no conjunto uma livraria, porque iria ajudar os pais, ao invés dos pais pagarem passagem, porque época de comprar livros você sabe que é a maior muvuca, então ao invés de eles terem essa muvuca, essa coisa toda de ir lá para o centro de Aracaju, eles teriam a comodidade de comprar aqui no próprio conjunto pelo mesmo preço que estavam comprando lá. Aí elas perguntaram “De que forma a gente vai fazer isso”, eu digo “Você vai pegar a sua lista de material escolar...” Isso foi no final do ano, em outubro mais ou menos, “Eu vou mandar fazer um carimbo com o nome da livraria...”, né, na época foi Livraria Shalom que eu abri, “Mandei fazer um carimbo com o nome e o endereço da livraria, e você vai carimbar todas as vias que você distribuir. Aquele pai que vier aqui matricular o filho você vai pegar uma lista dessa e vai dar para ele. Não que você vai induzir ele a ir lá, mas você vai dar a ele como opção para ele ter o seu material em uma livraria aqui pertinho dele.” Elas gostaram da ideia e aprovaram, então eu andava carimbando em todos os colégios isso e aí, graças a Deus, não parava de chegar gente na época, né, de finalzinho de dezembro até meados de março do ano seguinte não parou de chegar gente para comprar livros, então todo dia, eu e Vanísia, porque eu chamei ela para vir me ajudar porque a gente já se conhecia, a gente era muito amiga, minha mãe já tinha adotado ela como filha dela porque minha mãe gosta muito dela, aí chamei ela para vir me ajudar e ela vinha me ajudar, porque como eu não podia pagar um funcionário então ela me ajudava indo nas editoras buscar os livros que os pais chegavam lá e compravam, entendeu? E aí foi passando de ano em ano, ela também me ajudando, ela fazia os trabalhos dela em casa de artesanato, ela fazia biscoitos para vender e eu estava lá na livraria, e aí ela me ajudava lá na livraria e passamos anos e anos e aí foi crescendo, crescendo, crescendo... Foi quando ela se separou do marido, só que a situação dela ficou mais crítica do que a minha porque, no caso, ela tem quatro filhos e ela trouxe com ela os quatro filhos, como o marido dela não quis vender a casa, né, porque foi ela que saiu de casa, ele queria que ela voltasse para casa e ela não quis, e não tinha como bancar uma casa, como bancar alimentação, ou seja, bancar a subsistência dela e dos quatro filhos, eu perguntei a ela se ela não queria dividir comigo uma casa e todas as despesas dos sete filhos, que eram três meus e quatro dela. Ela topou e aí a gente uniu o útil ao agradável, a gente dividia todas as despesas, aquilo que eu pagava duzentos eu passei a pagar cem e ela pagava cem. Aí tanto ela me ajudava, e na época ela estava dando aula em escola, aí ela tanto dava aula como me ajudava na livraria, aí nós nos juntamos, compramos um terreno, uma casinha, um pequeno cubículozinho aqui no conjunto chamado Albano Franco, aí a gente se mudou para lá, e eu perguntei a ela se ela não queria comprar separado, um pedacinho para ela e eu comprava um pedacinho para mim, mas aí o dinheiro na época não deu para a gente fazer isso, porque ou ela levantava uma parede e eu levantava outra, de qualquer maneira as duas iam ficar no olho da rua, então a gente preferiu ficar juntas, né, construir um só espaço, a gente comprou esse espaçozinho ali, construiu esse espaçozinho ali no Albano Franco, continuamos trabalhando com a livraria, ela continuou trabalhando com artesanato e continuou dando aula nas escolas. Foi quando Deus abriu as portas e nos mostrou este espaço. Na época isso aqui era uma casa comum, então tinha uma dívida junto à Cohab [Companhia de Habitação] do pessoal que morava aqui que também tinha problemas com o marido, e minha mãe morava logo aqui na esquina e ela, muito amiga da minha mãe, passou para minha mãe o desejo de sair daqui e ir para uma casa onde ela não viesse mais a ter aquela obrigação de pagar as mensalidades que ela pagava aqui para a Cohab. Minha mãe falou comigo, eu vim, falei com ela, levei ela lá na casinha que nós tínhamos, ela gostou e nós viemos para cá. Aí fizemos a troca. Na época o dinheiro que nós passamos para ela foi quinhentos reais, assim mesmo nós pagamos parcelado esses quinhentos reais e viemos para cá. Aí a livraria que era lá no Conjunto João Alves nós colocamos aqui e passamos a morar aqui também, certo, e com o tempo, ela fazendo os artesanatos dela, dando aula nas escolas como ela dava, aí chegou também uma época que também a livraria passou a não dar mais certo porque, como a gente não era registrado, não tinha como receber os pagamentos com cartão, então a gente vendia muito fiado, mas com nota promissória, e aí a gente começou a tomar calote. Era um calote atrás do outro. Coisas, Márcia, de eu passar, chegar semana e eu passar semana inteirinha caminhando para o Fórum de Pequenas Causas para tentar receber aquilo que nós tínhamos vendido. Aí conversamos, eu conversei com ela, aí chegamos à conclusão de que a gente tinha que partir para outra coisa. Como ela já estava dando aula na comunidade e a comunidade procurava muito ela, né, tinha grupos de pessoas que se formavam e vinham atrás dela para ela dar cursos, e ela dava muitos cursos de graça, ela fazia muito, assim, coisas assim, doações mesmo do que ela fazia, né, porque ela se doava mais do que recebia, né, aí a gente resolveu, por que dar na comunidade se a gente tem um espaço tão grande aqui, se a gente poderia aproveitar para fazer isso, mas de uma forma que também viesse beneficiar a gente? Porque a gente não tinha outros recursos, a gente não tinha fonte de renda nenhuma, nem eu tenho fonte de renda fora o meu trabalho nem ela ficou com fonte de renda nenhuma. Aí na época a única fonte de renda que nos sustentava era a pensão do meu filho, porque meu filho é aposentado porque é especial, porque nem a pensão meu marido ficou dando, a gente começou a brigar na justiça, eu brigava de um lado com meu marido e ela brigava do outro lado com o ex-marido dela para poder ter a pensão, e aí a gente trouxe esse pessoal para poder dar curso aqui dentro e foi assim que a gente começou isso aqui.

 

P – E desses cursos, que cursos eram esses que vocês davam e onde vocês conseguiram tecido, essas coisas?

 

R – Cursos de boneca de pano, cursos de vassouras de palha, cursos de chapéu de palha, aí foi quando a gente foi conhecendo outras pessoas que se aliaram à gente. Tem um rapaz de lá dos Parques dos Faróis que é quem faz esse trabalho aqui com palha, ele se juntou à gente para nos ajudar também. A gente arranjava cursos para ele e aí ele vinha dar aqui, e aí ele pagava o espaço que ele usava para poder dar esse curso. Ela deu muito curso de gesso, né, de peças em gesso, ela deu muito curso de flores de papel, de artigos feitos com folhas reciclável, entendeu, garrafa, bancos de garrafa PET [Polietileno tereftalato], todo esse tipo de curso a gente deu aqui, até que chegou um dia da Prefeitura aqui de Nossa Senhora do Socorro, na gestão do Prefeito Zé Franco, é, a Assistente Social, dona Marta Rego, ela nos procurou, nos convidou a ir até lá na Prefeitura e nos fez um convite, nos fez uma proposta. Na época estava uma briga tremenda do Estado, né, do Governo com o pessoal que trabalhava no lixão daqui de Nossa Senhora do Socorro que era ali na Piabeta, um outro bairro daqui, um outro Conjunto, é na Piabeta, então existia um lixão lá que estava sendo condenado severamente pelo Ministério Público, então ela queria tirar esse pessoal de lá, do lixão, mas esse pessoal não poderia ficar ocioso, eles tinham que ter algo que pudesse ser remunerado para que eles não voltassem para o lixão, então ela fez essa proposta de tirar essas cinquenta pessoas que estavam lá no lixão, botar aqui dentro, na época a gente já tinha como Associação, não era registrada mas a gente tinha como Associação, e formar essas pessoas dando a elas uma qualificação, de acordo com a aptidão de cada um, para poder ter como se sustentar e não voltar para o lixão. Então nós perguntamos a ela de que forma nós seríamos beneficiadas, porque a gente não poderia abrir a nossa casa e botar cinquenta pessoas aqui dentro simplesmente por botar. Então ela ofereceu o quê? Ela ofereceu uma cesta básica para cada pessoa que viesse fazer o curso, quinzenalmente nós também seríamos beneficiados com essa cesta básica, todo o material, toda a matéria prima que nós fossemos usar com essas pessoas a Prefeitura era quem ia dar, e ela iria nos dar uma espécie de gratificação por aquele trabalho que nós íamos realizar. Nós aceitamos. Esse pessoal veio para cá, nós formamos grupos de acordo com a aptidão de cada um e aqui nós formamos um grupo com bordado, né, frente e verso. Nós formamos um grupo de crochê. Nós formamos um grupo de vassouras de palha, tanto palha para varrer a casa como palha para a gente fazer aquela coisinha de imã de geladeira, né, eram umas vassourinhas pequenininhas que a gente colocava um imã de geladeira e vendíamos a um real cada uma. Nós formamos um grupo de pessoas que faziam trabalhos com garrafa PET e um outro grupo, que agora não estou bem lembrada, mas foram cinco cursos que nós promovemos aqui para essas pessoas. E depois do tempo que a Prefeitura nos deu, que foram três meses de curso, essas pessoas receberam as cestas básicas, recebiam quinzenalmente as cestas básicas, a gente recebia um valor de trezentos reais mais uma cesta básica e depois de três meses essas pessoas saíram. E a gente procurou saber se essas pessoas tinham voltado para o lixão, e ficamos sabendo que, dessas cinquenta, dez por cento tinha voltado, porque não se achou capaz de dar continuidade ao curso que nós promovemos e achavam que ganhavam mais catando aquilo que eles encontravam no lixão para sobreviver. E aí nós continuamos dando curso aqui dentro. Aí foi quando surgiu a ideia de, além desses cursos que Vanísia já dava, né, de todos esses cursos que a gente promovia aqui dentro, a gente começar na parte da costura com os trapos. Na época a Vanísia tinha uma máquina doméstica, uma Vigorelli antiga daquelas máquinas pretas, e aí eu consegui com a pessoa que fazia fardamentos escolares uns retalhos de malha, porque eu já tinha visto um bichinho desse, um trapo desse, então eu me achei capaz de fazer, e disse “Vou começar por aqui”, e aí comecei a perguntar – eu pergunto, a gente só sabe das coisas perguntando – onde era que se adquiria malha, onde era que se vendia aquele produto, de que forma era vendido, se era por peso, se era por unidade, quanto era o quilo que era vendido. Procurei me informar, né, de todas as formas, e comecei eu mesma a costurar. Não sabia nada de máquina, mas a precisão é que faz o ladrão, como se diz o verbo popular, então aí eu comecei a costurar. 

 

P – Conta um pouquinho: essa ideia do trapo surgiu porque você viu alguém fazendo isso? Como é que foi?

 

R – Não, surgiu mesmo da necessidade da gente criar algo para que viesse a suprir as necessidades financeiras que nós tínhamos na época, porque realmente nós estávamos passando por uma dificuldade triste, triste mesmo, mas a gente nunca perdeu a esperança, a gente nunca perdeu aquela vontade de ajudar, a gente sempre recebeu as pessoas aqui na porta, sempre as pessoas que nos procuravam nós atendíamos com a maior boa vontade. Às vezes as pessoas chegavam aqui para fazer curso, chegava um grupo, me lembro que às vezes chegavam pessoas aqui, cinco ou seis pessoas, geralmente mulheres, tudo mulheres, aqui para fazer algum tipo de curso e às vezes ficam quatro, cinco, às vezes uma só ficava fazendo e as outras tudo olhando porque às vezes nós não tínhamos material para que todas pudessem fazer e aí surgiu, “Temos que fazer algo que venha suprir as necessidades.” Por quê, Márcia? Nós não tínhamos, a gente procurou, vai dizer “Por que você não procurou os órgãos Municipal, Estadual, Federal?”. Nós procuramos o Municipal, o Estadual não porque nós não éramos registrados como Associação, mas o Municipal nós procuramos só que a gente não tinha retorno nenhum porque, infelizmente, eu não sei em outros Estados, mas aqui no nosso estado as Prefeituras, a Secretaria de Ação Social, elas trabalham muito com a miserabilidade das pessoas, quanto mais miserável você for aí é que eles gostam de ter lá na porta deles. Então a gente não aprova esse tipo de ajuda, esse tipo de trabalho, porque a gente sabe, a gente acredita que todo ser humano é capaz, ele só precisa de uma oportunidade para desenvolver aquela capacidade, aquela intuição de que ele tem algo, que ele sabe que tem o potencial, mas que ainda não teve a oportunidade de desenvolver. Então aí foi quando eu vi um trapinho desse em um posto de gasolina, e aí eu passando pelo posto eu vi o trapo e aí eu fui... O rapaz, o bombeiro lá, ele estava colocando a gasolina e ele colocava o trapo aqui na mão e colocava a bomba na mão para colocar no tanque de combustível para que não respingue o combustível na pintura do carro. Eu me aproximei, pedi ao rapaz para ver um, ele me mostrou e eu olhei e vi que aquilo era muito fácil de fazer, então aí foi quando eu comecei a pesquisa, procurei, eu já conhecia uma pessoa que fazia fardamento escolar e procurei ela para saber o que era que ela fazia com aquele resíduo, ela disse que jogava fora, então eu pedi a ela, ela me deu, nós tínhamos uma máquina Vigorelli aqui pretinha, ela é doméstica, manual, e aí eu comecei a fazer. Enquanto Vanísia estava fazendo os artesanatos dela eu comecei a fazer os trapos e aí eu comecei a fazer, quando tinha uma certa quantidade – que eu nem me lembro quantos quilos tinha no saco –, eu fui aqui no supermercado, uma mercearia que tem aqui na esquina e pedi para pesar, porque nem balança nós tínhamos. Pedi para pesar e aí saí para vender. E aí eu comecei a fazer comércio com isso aqui, e isso aqui foi que passou a sustentar o artesanato, a matéria prima, foi isso aqui. Eu com o dinheiro disso a gente comprava o material, porque as pessoas que batiam aqui na porta da gente para aprender algo que pudesse vir a lhe dar um sustento ou até ajudar a complementar aquilo que ela já tinha como sustento material, né, eram pessoas humildes, pessoas que às vezes não podiam tirar um real, por incrível que pareça, pessoas que não tinham um real para nos ajudar às vezes a comprar uma fita, uma agulha, um cone de linha, então foi isso aqui que ajudou o artesanato a seguir em frente e, graças a Deus, depois de uns seis meses a gente já teve condições de colocar uma pessoa para aprender a fazer isso para que eu pudesse ir para a rua vender aquilo que aquela pessoa estava fabricando.

 

P – E onde você vendia isso?

 

R – Eu vendia isso aqui em lojas de ferragem. Essas lojas de ferragens geralmente vendem muito para Petrobrás, Petromisa, Vale do Rio Doce. Nessa época a Petrobrás usava demais isso aqui, e aí eu vendia muito para elas.

 

P – Mas para fazer o quê?

 

R – Limpar óleo, limpar motores, entendeu? Isso aqui, feito como está aqui, que tanto a frente como o verso dele é de malha, malha de algodão, ele tem um poder de absorver o óleo cem por cento, tanto óleo como água, como tinner, ele tem o poder de absorver cem por cento. Quando ele é feito de tecido, tecido misturado, algodão com sintético, aí se reduz para cinquenta por cento, ele não tem um poder de absorver tão bom, mas a gente faz de acordo com o pedido do cliente. Atualmente nós estamos fazendo esse daqui para posto, porque ele absorve bem o combustível, e fazendo para essas lojas de ferragens, pois ela absorve bem o óleo. E estamos fazendo um outro tipo de trapo, todo branco, tanto a parte da frente como a parte do fundo, e o cheio dele, todo branco, todo de malha, cem por cento algodão. Aí você pode até me perguntar “É para hospital?”, não, é para uma fábrica de móveis, porque eles usam isso aqui para limpar o móvel depois que a peça está pronta, para limpar o tinner que eles passam no móvel para dar aquele lustre. Aí eu perguntei “Por que todo branco?”, eu perguntei para o cliente, eu precisava saber por que ele estava me encomendando uma coisa que eu nunca tinha feito. Ele disse que esse daqui, por exemplo, ele pegou um desse colorido e disse “Quando eu colocar o tinner aqui em cima essa tinta vai soltar toda, quando soltar tinta ele vai manchar o móvel, então é por isso que eu só compro ele todo branco.” Ele é um pouquinho mais caro do que esse. Esse hoje nós estamos vendendo a um real e vinte o quilo, o quilo que corresponde de dez a doze trapinhos, mas graças a Deus a gente começou aqui um contrato com um cliente, e hoje a gente já tem cerca de vinte clientes fixos que todo santo dia me ligam querendo trapo, e quando eles compram, não compram um quilo, não compram dez quilos, eles compram de quinhentos a mil quilos por semana.

 

P – Quantas peças você faz por semana?

 

R – Em peças não, eu faço por semana de quinhentos a oitocentos quilos.

 

P – E isso dá mais ou menos quantas peças?

 

R – Ah, isso aí você tem que pegar oitocentos vezes doze, entendeu?

 

P – Aí toda essa ideia de se fazer esse trapo foi por uma forma de manter vocês, mas também para poder manter os cursos que vocês davam para pessoas pobres da comunidade?

 

R – Exatamente. Porque, Márcia, nessa época tem pessoas que de repente poderiam pensar “Pô, você está em uma situação.” Porque eu sou franca em dizer, a gente, teve época de a gente passar fome mesmo, eu, Vanísia e nossos filhos, a gente passava fome mesmo. Aí você chega “Você passava por esse tipo de situação e ainda recebia as pessoas que chegavam na sua porta pedindo ajuda?”. A gente recebia, sabe por quê? Porque na minha mente, na mente de Vanísia, aquelas pessoas eram quem sustentavam espiritualmente a gente, eram quem dava forças para a gente. “Poxa vida, a gente está em uma situação dessa e ainda vem alguém atrás da gente pedir ajuda?”. Isso só fazia com que a gente se fortalecesse cada vez mais, ter ânimo cada vez mais no dia seguinte de manhã cedo para se levantar e começar um novo dia. E foi assim que a gente chegou onde nós estamos hoje.

 

P – E me fala uma coisa, Cris, como é que, você falou dessa... que você pegava os retalhos dessa fábrica que fazia os fardamentos, e aí como é que foi evoluindo a questão dos produtos? Como é que foram surgindo os produtos, e aí como é que vocês começaram a adquirir os produtos?

 

R – Pronto. Aí é incrível. Quando essa pessoa daqui do bairro viu, né, porque eu sempre estava lá na casa dela pegando os retalhos que era para ela jogar fora, quando ela soube que a gente estava vendendo esse produto, ela passou a não jogar mais fora, ela já passou a vender. Como nós precisávamos, nós passamos a comprar dela. A gente comprava a vinte centavos o quilo e vendíamos a sessenta centavos o quilo, certo? Aí com o aumento dos pedidos, porque as pessoas passaram a gostar, porque isso aqui é difícil de se encontrar, nem todo mundo faz isso, não é pela dificuldade no fazer, é a dificuldade em encontrar o resíduo para você confeccionar, é, foram crescendo os pedidos, porque um foi falando para o outro. Um dono de loja foi falando para o outro “Olha, eu tô adquirindo com uma moça assim, assim, assim...” Eu sempre tinha um celular, né, foi quando inventaram o celular, a gente comprou um tijolão desse tamanho assim, Motorola, que era uma sensação na época, aí a gente sempre recebia uma ligaçãozinha pedindo, a gente sentiu a necessidade de correr atrás de outras pessoas que também pudessem nos fornecer. Em Aracaju existem muitas confecções de camisa de malha, então a gente passou a ir atrás dessas confecções, dos retalhos, dos resíduos que elas tinham, só que elas não jogavam fora, elas vendiam, então a gente comprava esses resíduos, pegava um taxi, lotação, o que era mais barato a viagem de lá para cá, a gente enchia o taxi e trazia até aqui para poder confeccionar o trapo.

 

P – E como é que vocês foram evoluindo em termos de produto? Aí como é que foi essa coisa de vocês, a Vanísia continuou dando cursos?

 

R – Vanísia continuou dando curso de artesanato, a gente continuou assistindo as pessoas que vinham aqui, aí é sempre aquela ideia, sabe, porque eu me sento na máquina para fazer um trapo e aí a imaginação começa a fluir, né, porque eu estou aqui na máquina, mas eu vejo tanta gente quando ela está dando o curso, tanta gente na minha frente necessitando de algo que realmente viesse alavancar a vida financeira daquela pessoa, e eu disse “Peraí, a gente tem que fazer alguma coisa a mais.” Aí eu comecei a cortar modinha, né, eu convidei, quer parar?

 

P – Deixa eu parar um pouquinho.

 

R - ... Então, aí eu sentia a necessidade de a gente fazer algo a mais, sempre mais. Que a gente pudesse atender mais pessoas, né, aí foi quando nós conseguimos com alguns contatos, que a gente estava na rua, a gente estava batalhando o dia todinho, para lá e para cá correndo, falando com um e falando com outro. A gente conseguiu uma cesta básica para um, a gente conseguiu um kit de primeiros socorros para outro, aparecia gente aqui para a gente levar para o hospital. Aí foi quando meu ex-marido resolveu me dar uma quantia do dinheiro que ele tinha para me dar. Acho que bateu na consciência dele e ele resolveu me dar, e aí o que foi que eu fiz com esse dinheiro? Eu ao invés de jogar aqui dentro da Associação eu comprei um carrinho velho, na época, um Del Rei ano 1980, aí eu comecei a entrar em contato com umas amigas minhas que eu conhecia que eram costureiras, e aí eu comecei a cortar as modinhas. Foi quando a gente comprou a nossa segunda máquina profissional, máquina reta profissional. Aí começamos a fazer umas modinhas, começamos a vender, aí eu comecei a vender por aqui mesmo no bairro, as pessoas que estavam fazendo aqui comigo levavam, vendiam às amigas, sempre estava entrando um recursozinho, e esse recursozinho eu sempre multiplicava, multiplicando, multiplicando, o carrinho velho que eu comprei você via bastante a gente bater às sete freguesias, atrás de um, atrás de outro, vendia, levava um saco de trapo, já vendia duas, três camisas, duas, três blusas. Vanísia ia nas escolas que ela dava aula e já vendia às conhecidas dela. E aí a gente foi evoluindo, compramos a nossa terceira máquina e continuamos nesse segmento. Vanísia continuava dando cursos, eu continuava fazendo trapo e ao mesmo tempo fazendo um pouquinho de modinha, e aí a gente foi conseguindo parcerias, mas parcerias nossa aqui, nada relacionado a órgãos públicos, pessoas que se sensibilizavam pelo nosso trabalho e aí vinham, nos procuravam e diziam “Olha Vanísia, olha Cris, se você quiser eu posso dar uma hora, duas horas de aula.” Oxe, é claro que a gente aceitava, aceitava até meia hora se a pessoa quisesse vir dar, e aquelas pessoas que melhor se saíam naquilo que estavam dando, que fosse de trapo, que fosse de costura, a gente reaproveitava e já ficava aqui trabalhando com a gente. Aí a gente foi e comprou uma máquina overlock semi industrial, velha, deu um trabalho horrível, a gente gastou mais em conserto do que o próprio dinheiro que a gente pagou por ela para poder fazer os acabamentos, porque era necessário se fazer, aprimorar o acabamento das roupas, mas a gente trabalhava, consertava, e fomos evoluindo, evoluindo, até que um dia, em 2009, Vanísia estava aqui dando um curso de artesanato, eu estava costurando, chegou um carro, parou aqui na porta, e aí se identificaram como sendo do Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] de Aracaju e queriam conversar com a gente. A gente abriu o portão, eles entraram e aí começaram a conversar com a gente, na semana seguinte, procurando saber da Associação, como que ela funcionava, como ela não funcionava, e até esse determinado tempo nós ainda não tínhamos conseguido alguém que pudesse vir a patrocinar o registro da Associação, nem tínhamos conseguido o valor necessário para se registrar a Associação. Aí eles voltaram na semana seguinte. Quando voltaram na semana seguinte já foi o Sebrae junto com o Instituto Realice, que foi o Instituto encarregado pelo Instituto Camargo Correa de fazer a pesquisa aqui em Socorro de uma Associação que eles pudessem vir a beneficiar, então Alice veio, fez a entrevista com a gente, o pessoal do Sebrae já tinha feito a entrevista, depois ficamos sabendo que assim que eles entraram no carro eles decidiram que, por todas aqueles que eles tinham ido visitar, a nossa seria beneficiada por esse projeto do Instituto Camargo Correa. 

 

P – E Cris, o que esse projeto, na verdade, trouxe de benefício para a Associação?

 

R – Tudo de bom, tudo aquilo que você puder imaginar. Vamos pelo começo, ele começou logo bancando o registro da Associação, porque ele também não poderia nos agraciar com esse projeto sem o registro, sem o CGC [Cadastro Geral de Contribuinte]. Então ele bancou o projeto, sem ter assinado nada ainda, ele bancou a abertura, né, do registro da Associação. Mediante disso foi assinado um contrato entre a Associação Casa do Artesão, que na época nós já tínhamos dado esse nome, o Sebrae Sergipe, o Sebrae Nacional juntamente com o Instituto Camargo Correa. O Sebrae Sergipe ficou encarregado de ser o gestor desse projeto, só que passou-se um ano e nada o Sebrae fez, porque tudo aquilo que nós fomos orientadas, tanto eu como Vanísia, fomos orientadas a recorrer ao Sebrae dentro do projeto, em benefício da Associação, mas não fomos atendidas.

 

P – Tipo?

 

R – Precisávamos de cadeiras, porque na época a gente não tinha cadeira para oferecer ao pessoal que vinha fazer o curso, o pessoal sentava era no chão mesmo, ou em umas cadeiras, eu acho que nós temos duas aqui que podemos mostrar, que Vanísia encontrou na rua, nas portas, para o carro do lixo fazer o recolhimento e a gente trouxe para cá, e aí a gente recuperou elas com papel jornal, a gente trançou o papel jornal, fez trançinha e fizemos o assento e o encosto dessas cadeiras. Fora isso nós não tínhamos cadeiras para oferecer para o pessoal. Nós procuramos o Sebrae para promover, para trazer uma pessoa para dar um curso de corte e costura, que a gente não tinha conseguido isso gratuitamente, mas o projeto abrangia, eles disseram que não podia. Nós pedimos as cadeiras, eles disseram que não podiam comprar porque tudo tinha que ser dentro do planejamento do Sebrae junto com as outras Associações que eles tinham lá, quando na realidade não era nada disso, porque o projeto do ICC era totalmente independente dos projetos que o Sebrae tinha. Nós pedimos outros materiais aqui que estavam dentro do projeto, como maquinário mesmo nós pedimos, não podia. Enfim, passou-se um ano e nada foi feito, a Associação não foi agraciada em uma agulha pelo Sebrae dentro do projeto Tecendo Inclusão. Tudo isso, o Instituto Camargo Correa ficava sabendo porque nós entrávamos em contato com ele. Nesse meio tempo, no fundo daqui da casa, nós morávamos aqui, da metade para a frente a gente usava como Associação, da metade para trás nós morávamos aqui. Nessa época os quatro filhos de Vanísia tinham ido morar com o pai e eu fiquei com os meus três filhos. Uma das minhas filhas, a do meio, eu tinha adotado ela com 24 dias de nascida, logo depois, uns três meses depois eu peguei gravidez da minha terceira filha, ela foi também morar com o pai, porque era um desejo dela morar com o pai, então aqui no fundo tinha um portão bem grande onde além da casa eu ainda guardava o carrinho velho que eu tinha comprado para poder dar assistência para a Associação. Roubaram. Entraram aqui de noite, vasculharam tudo, levaram um bocado de coisa daqui. No outro dia quando a gente abriu, abriu não, quando olhou para o portão estava lá um rombo tremendo, dois caras que entraram e fizeram a festa aqui dentro. Mas a gente continuou firme. Comunicamos isso ao Sebrae e o Sebrae disse que não podia fazer nada pela gente. Entramos em contato com o seu Jair no Instituto Camargo Correa, ele ficou horrorizado, porque a gente não teve assistência nenhuma por um projeto que já estava sendo assinado e por uma coisa que nós já tínhamos que ser beneficiadas, porque o recurso do ICC já estava depositado na conta do projeto pelo Sebrae, então ele começou a tomar as providências. Ele veio aqui em Aracaju, foram feitas várias reuniões, Casa do Artesão, (Tavequis?), com a Dona Lilian que é uma pessoa maravilhosa, você vai conhecer ela amanhã, foi uma pessoa, assim, que nos ajudou tremendamente, uma coisa que não era função dela se envolver nesse projeto, como ela disse várias vezes para a gente que a função dela é gerenciar a (Tavequis?) e apenas apoiar naquilo que no caso a pessoa responsável pelo RH [Recursos Humanos], que era quem ficou responsável por esse projeto, levasse a ela que ela poderia resolver, mas não se envolver diretamente. Ela não, ela fez o contrário com a gente, ela se envolveu diretamente no projeto, ela nos ajudou tremendamente, ela sempre estava presente nas reuniões, Casa do Artesão, Sebrae, Sebrae Nacional, Sebrae Aracaju porque era a Dona Francisca que representava o Sebrae Nacional e o Instituto Camargo Correa, ela sempre estava presente, a dona Lilian. E eram feitas reuniões e mais reuniões até um dia que o Sebrae daqui de Sergipe simplesmente chegou para o Instituto Camargo Correa, na pessoa de seu Jair, chamou ele em um canto e disse “Acabe com esse projeto com a Casa do Artesão porque isso aí tem tudo para dar errado. Se é um projeto que eu já peguei aqui dentro do Sebrae que tem tudo para dar errado, é esse projeto que vocês querem financiar. Eu tenho um projeto em uma cidade aí tal que vocês podem injetar esse recurso que vocês vão ver um resultado melhor.” E seu Jair foi taxativo em dizer “O projeto é da Casa do Artesão e vai continuar com a Casa do Artesão, porque eu acredito nas meninas.” Essas foram as palavras de seu Jair. Eu fico assim, de uma certa forma emocionada pela confiança, pelo acreditar no nosso projeto, um trabalho que nós estávamos desenvolvendo aqui dentro. E aí se acabou, ele conversou com a gente e nós achamos melhor acabar, cortar a parceria com o Sebrae. Consequentemente saindo o Sebrae Sergipe sairia também o Sebrae Nacional, e aí foi de se pensar quem seria o gestor desse projeto, porque ele não poderia, o Instituto Camargo Correa não poderia transferir os recursos diretamente para a Associação, tinha que haver um gestor. Como nós já tínhamos conhecido Alice, que ela já tinha vindo aqui fazer a entrevista e foi através dela que foi escolhida a Casa do Artesão, nós sugerimos para ele que esse gestor fosse ela.

 

P – Do Instituto Realice?

 

R – Do Instituto Realice. E aí foi conversado lá em São Paulo no Instituto Camargo Correa e foi feito o convite para ela, ela de uma certa forma depois nos informou que ela relutou em aceitar, não porque ela não confiasse na gente, mas pelo fato de ela estar com muito serviço, com vários projetos, desenvolvendo vários projetos dentro do Instituto que ela é coordenadora, mas mesmo assim ela aceitou, e a partir do mês de janeiro, do mês de abril de 2010 o projeto Tecendo Inclusão em Nossa Senhora do Socorro da Casa do Artesão deslanchou de uma forma, assim, maravilhosamente satisfatória.

 

P – O que melhorou?

 

R – Melhorou em tudo, porque ela é uma pessoa que deixou a gente livre para trabalhar, livre para gerenciar a Casa do Artesão, e ela atrás, a gente gerenciava aqui e ela nos gerenciava. Então foi através dela que nós adquirimos sessenta por cento do maquinário que nós temos aqui dentro hoje, foi através do Instituto Realice, porque ela confiou naquilo que nós passávamos para ela, eu ligava para ela “Alice, a gente está precisando de uma máquina overlock industrial porque nós estamos com esta demanda de pedidos”, porque aí nós já começamos a trabalhar com este supermercado, que foi através do Instituto desse supermercado que veio conhecer as Associações daqui da região e chegou até nós, e gostou do nosso trabalho, da nossa proposta de trabalho, e nos convidou a fazer essa bolsa. Nós fizemos, mas até aí a gente não confiava muito não. Fizemos, fomos depois de seis meses, é hoje, amanhã para aprovar e nada, mas depois de seis meses eles ligaram pra gente aprovando a bolsa e daí sim, aí a gente deslanchou a trabalhar, e de lá para cá, graças a Deus, a gente foi evoluindo com outros produtos, a gente foi desenvolvendo outros produtos, a gente foi diversificando, né, os itens fabricados pela Associação, a gente foi ficando conhecida por várias outras pessoas, não só aqui em Sergipe, mas a gente está sendo conhecida, o nome Casa do Artesão cada dia que passa, graças a Deus, tem se fortalecido no Estado da Bahia, no Estado de Alagoas, no Estado de Pernambuco, e agora no Estado do Ceará.

 

P – Cris, me fala uma coisa, essas bolsas que vocês fazem são as ecobags, né, que são vendidas no supermercado. E como é, que supermercado é esse que vocês colocaram?

 

R – No Supermercado G Barbosa.

 

P – E hoje vocês vendem, qual o volume que vocês vendem para eles, em termos de sacolas?

 

R – No começo, o primeiro pedido que nós recebemos foi de cinco mil bolsas, nós passamos cerca de três semanas para confeccionar essas cinco mil bolsas. O tecido foi fornecido pela (Tavequis?) e o valor desse tecido que nós confeccionamos essas cinco mil bolsas foi enviado pelo Instituto Camargo Correa, foi o Instituto Camargo Correa que bancou a compra desse tecido. Foram três mil metros na época que nós compramos o tecido de algodãozinho cru para confeccionarmos essas bolsas. Nós passamos três semanas para confeccionar essas cinco mil bolsas, nós só recebemos esse dinheiro com 120 dias porque a lógica, a lógica não...

 

P – A política?

 

R – A política da empresa é pagar com 120, comprar, vender a vista, mas só pagar com 120 dias. Mas, mesmo assim, porque era um desejo, era um sonho nosso entrar nessa rede como fornecedoras a gente aceitou. A gente foi, assim, não é criticada, não, mas a gente foi bombardeada, tanto eu como Vanísia fomos, assim, bombardeadas pelo pessoal do Instituto Camargo Correa, pela (Tavequis?) e pelo Instituto Realice, pela loucura que nós estávamos cometendo, mas a gente honrou com a nossa palavra e a gente sustentou e entregamos a mercadoria, e passamos 120 dias sem receber. Durante esses 120 dias nós continuamos fabricando para eles, porque aí passou a ser de 30 em 30 dias que a gente entrega três mil bolsas para eles.

 

P – Hoje vocês estão entregando três mil bolsas?

 

R – Mensal, ou seja, todos os meses nós temos três mil bolsas para receber do G Barbosa.Aí a 15 dias atrás eu novamente coloquei a cabeça para funcionar, em cima dessas bolsas, e verifiquei que a gente começou a vender em maio do ano passado, foi o nosso primeiro pedido que entregamos, só tem um modelo, só tem um desenho, um silk, as pessoas já estão enjoadas de ver, eu pensei, então porque não fazer, né, porque não fazer uma sacola diferente. Aí o que foi que eu pensei, primeiro o que eu vou fazer? Eu vou sugerir ao Instituto G Barbosa uma forma da gente vender mais bolsa, porque três mil bolsas para o Estado de Sergipe que tem 125 lojas, para o Estado de Alagoas, eu não sei quantas lojas tem mas deve ter muitas, para o Estado da Bahia, para o Estado de Pernambuco e agora para o Estado do Ceará é muito pouco três mil bolsas, então eu disse “Vamos fazer uma coisa, né, uma forma de vender mais bolsas.” Então eu sugeri para o Instituto G Barbosa de colocar duas promotoras, duas pessoas dentro do supermercado que elas pudessem abordar o cliente que está ali na fila do caixa para que ele venha a adquirir as nossas bolsas, mas não era induzir o cliente, porque induzir o cliente não é coisa correta, né, você forçar o cliente, não é por aí, mas você levar até o cliente que você tem a opção de ajudar o meio ambiente não levando a sacola plástica para casa, que quando, na maioria das vezes, você chega com um pacotezinho de margarina, outra sacolinha com um litro de leite, outra sacolinha com um outro objeto, ali já foram três ou quatro sacolas que você não vai usar essas sacolas em casa, você deixa tudo e daqui a pouco ela está no ralo do esgoto da sua casa, então de que forma você pode ajudar o meio ambiente? É você adquirindo uma sacola retornável. Agora, caso você não queira adquirir, ou não possa naquele momento adquirir aquela sacola, você tem a opção de levar a caixa de papelão, mas deixe a sacola plástica. Ele adorou a ideia, então aí nós treinamos duas meninas, é, eles próprios é quem escolheram as lojas, tem uma loja no Shopping Jardim e uma loja no Shopping Rio Mar, então foi nessas duas lojas que nós iniciamos o trabalho com essas duas promotoras, então a partir do momento que elas duas começaram a trabalhar cresceu cerca de trinta por cento o volume de vendas dessas sacolas nessas lojas do supermercado, a ponto do próprio diretor comercial do supermercado pedir, perguntar para o Instituto, para o coordenador do Instituto G Barbosa se seria possível que a Casa do Artesão colocasse mais uma ou duas promotoras em outras lojas do grupo. E aí eu disse que nós poderíamos até fazer isso, portanto nós faríamos uma contraproposta. Eles perguntaram qual era essa contraproposta. A contraproposta que eu fiz para eles foi a seguinte: nós faríamos um sacolão, uma sacola maior do que essa que nós estamos fazendo hoje, e no fole dela de cima, passando por baixo até o outro lado, a gente forrasse ela com banner, tem muitas empresas por aí que usam os banners para fazer suas propagandas e depois daquele período pega o banner, enrola e joga no canto, aí a gente vai lá e recolhe, tem um bocado de banner aí. Então esse banner, além de estar ajudando o meio ambiente, né, a ideia é sempre essa de ajudar o meio ambiente, ele ainda ajudaria o próprio cliente quando ele fosse comprar alguma coisa gelado, então ele colocava nesse sacolão e ele não iria molhar a sacola, não iria danificar, e a gente colocaria um outro silk diferente, então aquele cliente que já adquiriu essa bolsa que tem hoje, que está sendo vendida hoje, ele já teria uma opção de adquirir aquela outra maior, e de uma outra forma. Adoraram. Graças a Deus eles adoraram, aprovaram, nós estamos já ensinando uma outra menina que vai trabalhar em uma outra loja dessa rede, é uma loja do (Ipem?), em frente à Faculdade Tiradentes, e eles estão trabalhando na parte do silk, o setor comercial está lá fazendo, criando um código para essa outra bolsa, para que na próxima semana já seja enviada para a Casa do Artesão um pedido, também, dessas bolsas. Então a gente vai passar a vender, ao invés de três mil, a gente vai passar a vender seis mil mensal, só para essa rede.

 

P – E essa parceria com o... Qual o papel do Realice além de ser gestor? Ele ajudou também vocês a criarem logos, essas coisas todas ou não, Cris?

 

R – Ela está ajudando agora enviando essa designer, então essa designer já veio aqui conhecer Sergipe, conhecer a região, né, conhecer a Casa do Artesão, qual está sendo hoje a função da Casa do Artesão, de que forma a Casa do Artesão causa impacto na sociedade de Socorro, para que ela pudesse montar uma linha em cima dessas conclusões que ela viesse a tirar, e aí quando foi nessa segunda-feira ela veio, esteve no começo de março, agora ela voltou já com essas ideias que ela já está trazendo para a gente já em formas de ecobag, em formas de nécessaire, em forma de produtos novos para serem confeccionados pela Casa do Artesão.

 

P – Cris, me fala uma coisa, você falou que aqui eram dadas as aulas antes, hoje, assim, a gente olhando o ambiente ele tem muitas máquinas, você tem hoje 22 meninas fixas trabalhando aqui.

 

R – Exatamente.

 

P – Onde são dados os cursos agora?

 

R – Nas comunidades, como agora de tarde mesmo, ela foi dar um curso lá na Igreja Católica aqui da Piabeta, que é um outro conjunto, hoje à noite ela vai dar um outro curso lá em uma escola municipal, que já é em Aracaju porque é depois da ponte, mas faz parte de Socorro, essa escola faz parte de Socorro apesar dela ser lá em Aracaju, e ela presta curso aqui no Sesc [Serviço Social do Comércio]. Hoje de manhã ela já foi dar curso lá no Sesc, justamente por falta de espaço aqui, uma coisa que vai ter no galpão novo, um espaço só para cursos.

 

P – E esse galpão... Vamos trocar a fita, já estamos acabando, tá?

[TROCA DE FITA]

 

P – Cris, me fala uma coisa, qual o sentimento que vem com essa nova etapa do grupo, como é que está essa coisa, qual é a sensação que você tem com esse projeto, é, qual é a sua sensação?

 

R – A sensação é a melhor possível, porque eu lhe digo uma coisa do fundo do meu coração, se o Instituto Camargo Correa não existisse hoje na nossa vida, na minha vida, na vida de Vanísia e consequentemente na vida das meninas que hoje estão aqui, nós não estaríamos mais aqui, porque eu não sei se nós teríamos força para continuar da forma como nós estávamos, sem apoio de ninguém, sem consciência humana daquelas pessoas que podiam nos ajudar mas que quando aparecia alguém para nos ajudar era sempre atrás de algo em troca, e a gente nunca foi favorável a isso.

 

P – Me fale uma coisa, Cris, vocês conseguiram um terreno agora para a construção de um galpão, isso está ligado ao projeto?

 

R – Sim. Sim, foi através de dona Lilian, é, dentro do projeto existia uma verba para compra de um galpão ou de um espaço, ou de um terreno onde pudéssemos construir um galpão, porque isso aqui é minha casa, a gente teve que alugar uma casa para ir morar para poder sair daqui com o tempo, que foi crescendo, graças a Deus foi crescendo, então a gente não teve mais condições de continuar morando aqui, então a gente alugou uma casa, e aí hoje a gente mora de aluguel,  Vanísia continua morando comigo e aí a gente divide tudo, divide as nossas despesas. Aí dentro desse projeto com esse valor não se encontrou um terreno que a gente pudesse comprar e que sobrasse alguma coisa para a gente construir. A gente foi atrás de algo que estivesse já pronto, o valor era exorbitante, muito além do que a verba que estava destinada dentro do projeto para a compra desse galpão. Então dona Lilian, né, da (Tavequis?), teve a ideia de falar com o superintendente da Codise porque ela conhece muito ele, porque a fábrica de tecido... A Codise está muito ligada à fábrica.

 

P – A Codise o que é?

 

R – A Codise é um órgão do governo ligado às empresas, né, às indústrias, melhor dizendo. E aí ela conversou com o seu Anselmo, o ano passado era ele o superintendente, da viabilidade, não foi nem do terreno, da viabilidade da Codise nos ceder um dos galpões, que tem tantos galpões aqui fechado, e aí ele perguntou para quê, então aí ela foi e levou até ele o nosso projeto, e ele perguntou assim “Por que vocês querem um galpão, né, daqueles, se vocês podem construir um galpão? Por que não construir?”, ela disse: “Mas nós não temos o terreno.” Ele disse “A gente cede o terreno e vocês constroem”, ela disse “Pronto, se for dessa forma a gente topa.” Só que na Codise não existe essa política de se ceder terreno  para Associações, a política da Codise é ceder terrenos para indústrias, né, porque ali vai gerar milhões e milhões de empregos, a Associação não gera emprego, a Associação é uma formadora de mão de obra, mas se abriu uma grande exceção dentro da Codise através dele, seu João, com a parceria de dona Lilian, e se foi conseguido esse terreno entre uma empresa e outra que vai ser construída aqui, porque todo esse terreno aqui na frente vai ser um parque industrial de Nossa Senhora do Socorro, aí entre uma empresa, ele abriu a planta dessas indústrias aqui em cima da mesa dele para que todas nós pudéssemos ver e ele disse “Olha, entre essa empresa e essa daqui vai se abrir uma lacuna onde esse pedaço aqui de terreno vai ser para a Casa do Artesão.” E é justamente aqui nessa esquina, o terreno é de frente para essa avenida e o fundo para a outra rua que está sendo aberta aqui do lado, então até nisso nós, graças a Deus, fomos beneficiadas, nós vamos ter duas entradas e ao mesmo tempo duas saídas para o galpão. Então aí a Codise pediu um projeto técnico econômico financeiro, um projeto arquitetônico, e então a Codise nos passou qual seria a metragem do terreno e em cima dessa metragem nós contratamos dois especialistas, um técnico para fazer o projeto técnico econômico financeiro e um arquiteto para fazer o projeto arquitetônico. Foi feito dentro do prazo estabelecido pela Codise, que ela nos deu um prazo, foi feito e apresentado para a Codise esse projeto, todo o procedimento legal nós já encaminhamos, porque nós encaminhamos esse projeto arquitetônico para a Energisa, para o Corpo de Bombeiros, para a Companhia de Saneamento e para a Adema [Administração Estadual do Meio Ambiente], que é o projeto que regulamenta a área ambiental. De todos eles, que pelo tempo já foi aprovado, só é uma questão de dias para recebermos o protocolo de liberação, mas no final desse mês de abril, todo final de mês existe uma reunião dos conselheiros da Codise onde são apresentado os projetos das indústrias para serem liberados e daí encaminharem, né, as procedências para construção dos galpões, e o nosso já está na pauta da reunião do Conselho Deliberativo da Codise para esse mês de abril. Ele passando pelo Conselho, que praticamente já está passado porque pelo que eu fui informada dentro da Codise quando esse projeto... quando qualquer projeto chega na mão dos conselheiros é porque já passou por todos os departamentos legais, então praticamente já está aprovado, é só uma questão formal. Ele saindo do Conselho Deliberativo ele vai para o Conselho Jurídico da Codise para que seja formatado o contrato, porque não vai ser de graça, nós vamos pagar alguma coisa pela aquisição desse terreno. Enquanto o processo do contrato está sendo elaborado, nós podemos encaminhar um ofício para a Codise pedindo que eles venham demarcar o terreno, então a Codise vem, demarca o terreno, e nós podemos cercar o terreno todo e aí começarmos a limpá-lo, porque até a própria CODISE faz a limpeza do terreno. Ela faz toda a parte de drenagem do terreno para que aí a gente possa começar a construir.

 

P – Cris, o que você faz hoje dentro da Associação, você tem uma função específica?

 

R – Sim e não. Eu sou uma pessoa, eu sou muito irrequieta, sabe? Às vezes minha mãe diz assim “Ah, é porque você quer fazer tudo de uma vez.” Não, é porque eu sou irrequieta mesmo, se eu estiver aqui fazendo esse trapo, acabou-se o trapo para eu fazer e eu tenho aquele cadeado ali para pegar para pintar ou para ajeitar alguma coisa, eu me levanto da máquina, vou e faço. Dentro do projeto a minha função é secretária e tesoureira, Vanísia é a presidente, certo? Mas aqui dentro eu faço tudo de um pouco, como Vanísia faz também tudo de um pouco aqui dentro. Aqui dentro eu costuro quando posso, e quem compra material sou eu, quem vende sou eu, às vezes quem vai entregar – eu já entreguei muito, muito mesmo, hoje em dia a gente já tem condições, graças a Deus, de contratar um carro que faz frete com dois senhores, que têm caminhõezinhos pequenos que fazem o frete para a gente, então não preciso mais sair daqui com carrinho velho carregando mercadoria para entregar, eles fazem o frete, e faço a parte de secretariado e a parte de tesouraria.

 

P – E para você hoje quais são as coisas mais importantes?

 

R – A coisa que mais me dá prazer aqui dentro?

 

P – É, na sua vida hoje, não necessariamente aqui.

 

R – É ver que eu estou tendo hoje a condição que eu tanto almejei na minha vida de poder ajudar mais pessoas, de ver pessoas saindo como você viu agora de tarde, com um sorriso aqui, porque essas que estão aqui hoje fixas, a que menos está recebendo por mês está recebendo quatrocentos reais, a que mais está recebendo está recebendo seiscentos reais.

 

P – São quantas meninas fixas?

 

R – Vinte e duas.

 

P – E você também tem, fora essas 22, vocês ainda têm fora também que não são fixas?

 

R – É, tem no todo são 80, só que essas que não são fixas são justamente as pessoas que dão auxílio à Vanísia nas comunidades dando cursos. 

 

P – E elas recebem também?

 

R – Elas recebem como oficineiras, Vanísia instrui elas para serem oficineiras, aí, aquelas que melhor se saem a Vanísia recruta para ajudá-la nessas comunidades como oficineiras, aí elas recebem por hora aula.

 

P – Qual o seu sonho hoje, Cris?

 

R – O meu sonho é ver aquele galpão pronto, e pessoas sendo cada vez mais beneficiadas, pessoas realmente carentes, pessoas que não se contentam em somente receber uma bolsa família, pessoas que almejam chegar a ter um padrão de vida melhor do que o que está tendo hoje.

 

P – E Cris, como é que foi contar a sua história, um pouco da sua história para a gente, esse bate papo que a gente teve?

 

R – Olha, foi bastante interessante porque por incrível que pareça é a primeira vez que eu estou contando essa história, porque na realidade essa questão de holofote assim eu sempre deixei mais para a Vanísia, sabe, a artista da Associação é ela, eu deixo sempre para ela os holofotes, sabe, mas foi um prazer imenso poder conversar, poder passar, que eu tenho certeza que outras pessoas vão ouvir, muitas pessoas vão ouvir essa nossa história, e eu tenho certeza que dessa nossa história vão poder tirar alguma coisa que venha a lhe ajudar ou esclarecer, ou, não sei, de alguma forma essa pessoa vai ser, também, beneficiada por alguma coisa que ela ouviu aqui de mim.

 

P – Eu queria agradecer em nome do Instituto Camargo Correa e em nome do Museu da Pessoa a oportunidade de ter falado com você. Meus parabéns pela sua história, muito obrigada.

 

R – Muito obrigada também.

 

-- FIM DA ENTREVISTA --

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+