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História

Teatros por todos os lados

História de: Astrid Maria Kraml Theil
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2020

Sinopse

Seu depoimento revela que o edifício Copan é o retrato da cidade, onde identidades são construídas na reciprocidade do uno e múltiplo. Espaço de pluralidade, de diversidade, de amizades e parceria duradouras. Teatros e gastronomia. Contar a história do Copan é a valorização da voz da moradora na construção da memória do prédio.

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História completa

P/1 – Boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 - Por favor, seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Astrid Maria Kraml Theil. Eu nasci em Porto Alegre, no dia 6 de agosto de 1938.

 

P/1 – Dona Astrid, a senhora é moradora aqui do centro, já fez uma entrevista aqui com a gente e hoje em particular nós estamos pegando o depoimento dos moradores do centro. Então eu gostaria que a senhora contasse pra gente como é que é morar no centro de São Paulo?

 

R – Eu acho que morar no centro é como morar em outro lugar qualquer, ou em qualquer outro bairro. Os problemas são similares, mas tem muitas facilidades, desde meios de transporte, lojas, restaurantes, teatros em grande quantidade, etc. E isto é então é uma vantagem. Tem uma biblioteca aqui que é a Mário de Andrade. Tem muitos recursos no centro de São Paulo e que se você souber aproveitar... Se você pensar que eu moro no edifício Copan, e que em volta três quarteirões você tem: o teatro Itália, o teatro Hilton, o teatro Sérgio Cardoso, o teatro ali da Nestor Pestana, que agora me fugiu o nome, o Teatro Municipal, você já vê a riqueza do que existe muito próximo. E quando eu digo três, quatro quadras, é aquilo que você pode andar a pé pra chegar nos lugares. E isto é um negócio muito raro. Só mesmo numa grande cidade, e você morando no centro, isso é possível. Por outro lado, você tem uma quantidade absurda de restaurantes de boa qualidade, você tem alguns parques mais ou menos bem cuidados, mas você tem muitos recursos. E isso é uma coisa que me agrada. Eu não morei sempre em São Paulo, embora eu tenha morado em São Paulo mais de 2/3 de minha vida, ou em torno disso. Eu acho que em nenhum outro lugar, que não o centro, a gente tem tantos recursos tão próximo. Então, me agrada muito. E quando eu voltei pra São Paulo, depois de ter morado 10 anos em Santos, eu fiz questão de morar o mais próximo possível do trabalho, porque eu já tinha viajado a vida inteira pra trabalhar. Viagem mesmo. E não me agradava continuar fazendo isso, porque a perda de tempo é cada vez maior. Então, morar no centro, você pelo menos está equidistante de tudo. E isso é muito agradável.

 

P/1 - A senhora morando aqui no centro da cidade, e principalmente num edifício que tem mais de 5 mil moradores, a senhora conseguiria falar pra gente de um personagem bem característico? Ou especificamente de onde a senhora mora, do Edifício Copan, ou mesmo do centro.

 

R – Eu acho que no momento, a gente não tem nenhum personagem pra falar, porque o personagem mais conhecido, ou que tinham atitudes mais exóticas, não estão mais com a gente. Então, o Plinio Ramos morou muitos anos conosco lá no prédio. O Cacá Rosset morou no prédio. O Paulo Autran há muitos anos atrás morou lá. Nós tínhamos uma beata crônica, que se vestia de Nossa Senhora e saia fazendo discurso pelo meio da rua, que morava no prédio. Então, esses pra mim são personagens que chamam a atenção e que fazem parte da história do prédio.

 

P/1 – E hoje não tem mais esse tipo de personagem, que chame a atenção?

 

R – Tem outros personagens, mas esses não merecem muito a gente mencionar. O que eu acho que tem de memória é o Plínio, que morreu há pouco tempo atrás, e ele morou até o final da vida dele, lá. E ele passou pelas diversas fases dele. Ele passou pela fase de introversão, a fase do Tarô, a fase em que ele resolveu se civilizar, e aí ele passou a se vestir bem, e tudo o mais. Mas isso são fases de uma pessoa que é famosa que é citada na dramaturgia nacional, por exemplo. Eu acho que o Copan se caracteriza por algumas coisas que são muito interessantes do meu ponto de vista. Primeira coisa é que é uma cidade grande ou média pelo menos. Transitam pelo prédio mais de 10 mil pessoas por dia, e você encontra todos os tipos de pessoas. Você encontra desde as pessoas mais simples e mais humildes, que não só transitam como moram no prédio, até pessoas que tem um poder aquisitivo muito alto, que tem renome e coisas desse tipo.  E, eu acho que a grande característica do Copan é que cada bloco é um conjunto individual. Eu sempre digo que o Copan é uma grande junção de aldeias. São aldeias. Mas o Copan tem por exemplo, uma característica que eu acho muito interessante, e que eu gosto muito, que é um lugar que você pode conhecer pessoas que fiquem teus amigos, por exemplo. Que frequentem a sua casa. E, especificamente no bloco onde eu moro, claro que tem algumas pessoas envolvidas nesse processo que são de outros blocos, mas a gente na realidade somos uma grande aldeia. Aquela que faz docinho e leva pra vizinha. Se alguém estiver doente, você vai lá ajudar, vai tomar conta, vai dar injeção, vai visitar. E isso torna a vida, numa cidade que nem o Copan, muito agradável. Claro que cria alguns problemas [risos] também.

 

P/1 - Mas existe um relacionamento grande?

 

R – Existe. Tem pessoas que pela sua própria natureza, não se relacionam com ninguém, ou porque estão de mal consigo mesmas, ou porque não é de sua característica. Mas se a gente quiser fazer alguma coisa, a gente tem que se relacionar e ter uma vida agradável muito mais. Vou citar o exemplo de uma senhora, que hoje deve estar com 80 e poucos anos, mas que durante pelo menos durante os últimos 10 anos, todo final de tarde ela ia visitar minha mãe, que também não está mais aí. Mas todo fim de tarde, lá pelas seis horas, ela ia lá em casa, ficava uma meia hora e depois ia embora. E estas coisas, acabam sendo muito agradáveis. Não que a gente não tenha problemas. Claro que tem. É o retrato da cidade.

 

P/1 – Uma cidade em miniatura.

 

R – Não.

 

P/1 – Nem tão miniatura.

 

R – Nem tão miniatura, mas é uma cidade. Então tem pessoas com quem você se dá mais, tem pessoas com quem você se dá menos, mas de maneira geral, as pessoas que tem uma vida comum, normal, elas participam, elas se relacionam pelo menos superficialmente, e isso é muito bom. Elas se respeitam, o que é mais importante ainda. E eu acho que a gente tem também uma característica muito nossa, que é o fato de que, há vários anos atrás - isso já começou há uns sete aos atrás - a gente se uniu, as senhoras. Eu não fazia parte desse grupo nesse tempo, mas minha mãe fazia, e eram pessoas um pouco mais idosas. Não muito, mas um pouco mais idosas que se uniram e foram atrás de apoio, pra mudar a administração do prédio, por exemplo. Tivemos sucessos e tivemos insucessos, mas com certeza, quando nós fizemos o segundo grande movimento, ambos tiveram sucesso, não com o resultado final esperado, necessariamente, o primeiro não foi bem como a gente tinha esperado, mas efetivamente, quando a gente resolveu que agora está na hora de dar uma outra virada, nós voltamos a nos reunir, e demos a virada. E é a virada que hoje está permitindo a gente ter a remodelação, o projeto de reformas, e tudo o mais. E a própria imagem do edifício, que muitas vezes foi considerado um edifício treme treme e coisas desse tipo, pra uma imagem que é respeitada inclusive no mundo inteiro. E que mais do que isso, e acho um ponto positivo, que foi o de ter reconquistado por exemplo, pelo que está sendo feito dentro do edifício, do próprio projetista do prédio, que é o Oscar Niemeyer, que tinha rejeitado a obra pelas mudanças que foram feitas dentro do edifício, alterando seu projeto inicial, e que hoje efetivamente está absolutamente de acordo, e apoiando as mudanças que a gente pretende fazer, pra ganhar um pouco mais de proximidade com esse projeto inicial. E isso é um trabalho de grupo, onde cada um desempenha um papel. Eu acho que este é um exemplo que merece ser reconhecido. Se você levar em consideração que já faz seis anos ou mais, que todo ano vem um grupo de estudantes de arquitetura de uma universidade da Alemanha pra visitar o Copan.

 

P/1 – Já se tornou um fenômeno nacional.

 

R – Não. Ele sempre foi, por causa da forma dele, que chama muito a atenção, mas eles vem pra ver um tipo de construção que não é habitual lá. Porque a Alemanha tinha muitos prédios belíssimos, e muitos deles foram destruídos na guerra, alguns restaurados outros não, mas a construção deles, de maneira geral, é uma construção mais “bocão”. Não tem essa característica de linha arrojada, de coisas desse tipo. Hoje já tem mais, mas até alguns anos atrás não tinha. E mais do que isso, dessa universidade mesmo, vem gente do Japão pra visitar o Copan. Vir do Japão pra São Paulo pra visitar o Copan, é alguma coisa. Vem dos Estados Unidos. Esta semana, por exemplo, um professor dessa universidade da Alemanha esteve aqui, e veio por conta própria porque os alunos dele vem há seis anos e ele pessoalmente não conhecia. Vem sempre outros professores acompanhando os alunos. E ele vai fazer um projeto grande, que eu não sei os detalhes, mas ele disse: “ Eu quero morar aqui.” Então, esse trabalho é alguma coisa que merece respeito, que com certeza não é fácil, é extremamente desgastante, mas que é o resultado do trabalho de um grupinho de pessoas que estão afim de revalorizar as suas propriedades e o próprio centro.

 

P/1- Está certo. Dona Astrid, o que a senhora achou de ser convidada pra vir dar um depoimento, e esse depoimento ter virado parte de uma exposição, e agora a senhora está aqui, nessa exposição, falando dessa participação?

 

R- Olha, eu acho que é extremamente interessante. Eu acho que uma das coisas que falta no Brasil, de maneira geral, é memória. E o que se está fazendo aqui, no Museu da Pessoa, na realidade é criar, ou tentar levantar uma memória, que no futuro vai ter muito mais valor até do que tenha hoje. Eu acho que as vezes, pode não ser a coisa mais agradável você ficar dando entrevista toda hora, mas com certeza a gente se sente bem, a gente se sente envaidecida porque é um reconhecimento de alguma coisa que está acontecendo. Não é de graça que a gente fica e está participando. Eu acho que faz parte desse contexto todo que eu mencionei antes. 

 

P/1 – Todo esse trabalho que está sendo feito, com certeza.

 

R – E teve aqui, especificamente, algumas coisas muito interessantes. Hoje é a quinta vez que eu estou vindo aqui. 

 

P/1 – É a quinta semana de exposição.

 

R – Então praticamente uma vez por semana eu tenho vindo. Ou pra trazer amigos pra verem, ou pra vir no concerto de piano que inaugurou o auditório, que estava maravilhoso, ou então até por causa de querer ver mais alguma coisa que não teve oportunidade de ver. Eu acho que é extremamente agradável. Mas o fato que eu queria contar é o seguinte: tem dois episódios da mesma realidade que a gente está vivendo. Existe uma senhora, que é a moradora mais antiga da Av. São Luís. Acho que o nome dela é Hebe ou qualquer coisa assim. Eu já a encontrei aqui num domingo que eu estive aqui. Ela estava com outras pessoas e foi muito engraçado, porque nós nunca nos falamos. A gente já deve ter se visto dezenas de vezes, mas nunca nos falamos. Eu tenho uma vaga lembrança que o nome dela era esse, porque eu já vi reportagens com ela na televisão algumas vezes. Mas com certeza, eu nunca fui apresentada pra ela. Eu nunca bati papo com ela. E eu encontrei ela aqui nesse domingo, e nós estávamos saindo ela me deu um adeusinho lá fora, na rua já, e disse: “ Oh Astrid, eu vi tua fotografia, gostei. Foi legal.” Ela sabia meu nome, o que é um negócio assim inaudito em São Paulo. Não é comum isso acontecer. E ela se dirigiu a mim como se fosse uma pessoa muito próxima. E a gente nunca tinha falado. E continuou não falando. Tchau, tchau, pronto acabou. E esta semana, acho que foi antes de ontem. No Copan tem um café, dentro, próximo lá do bloco onde eu moro. Tinha um rapaz que eu também nunca vi na minha vida, que com certeza já me viu várias vezes. Eu sou muito conhecida no Copan, não só por morar muito tempo, mas por fazer parte da administração, onde eu sou presidente do conselho. E ele se dirigiu a mim:” Oh Astrid, fui lá no Banco do Brasil e vi...Que legal.” Reconheceu, Não sei quem é ele. Então, tem um pouco disso também. Teve reportagens que foram feitas aqui no dia da inauguração, que amigos meus de São Paulo e de fora de São Paulo, vieram pra mim dizendo que tinham visto a reportagem, que tinham achado super legal. Então, essas coisas são agradáveis obviamente. O que a gente espera é que isso não se deteriore com o correr do tempo, ou perca o pique. 

 

P/1 – A gente vai fazer de tudo pra que...

 

R – Não aconteça. 

 

P/1 – Tá certo, dona Astrid, a gente agradece muito a sua participação, esse retorno da senhora aqui, essa assiduidade da senhora, trazendo amigos, e esperamos encontra-la todo fim de semana aqui.

 

R – Vamos ver. Não necessariamente no fim de semana. 

----------FIM da ENTREVISTA---------






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