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Teatro, parte de mim

História de: Juliana Pedroso Sanches
Autor: Grupo XIX de Teatro
Publicado em: 27/07/2017

Sinopse

A lua de mel reforça a paixão pelo que faz: após o casamento, Juliana parte com o Grupo XIX para a França. Com o espírito livre desde criança, Juliana sempre deu mostras de que faria de tudo para realizar seus sonhos. Na faculdade, se desdobra entre trabalho, curso de Rádio e TV durante o dia e Teatro à noite. Mas o que era pra ser já estava escrito: no curso de comunicação, conhece Lubi, que a convida para participar da peça Hysteria, a que originaria o Grupo XIX de Teatro. É quando se inicia uma jornada de descobrimento, amizade e muita paixão.

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História completa

Quando eu era pequena, minha mãe ficava em casa com a gente. Quando eu devia ter uns seis, sete anos, meu pai abriu uma pizzaria, aí, desde então, ele só teve restaurante. A pizzaria era no bairro onde morávamos em São Bernardo. Lembro sempre: a vida da minha mãe e do meu pai sempre foi muito conturbada financeiramente.

 

Naquela época, a gente morava de aluguel. O dono da casa era amigo da nossa vizinha, e eu lembro várias vezes ele indo à noite visitar a vizinha e a minha mãe apagava todas as luzes da casa com medo de ser cobrada e ficava com uma vela no quarto, contando história pra mim e pro meu irmão, pra ninguém chorar, porque era casa geminada, se alguém chorasse, ia dar pra escutar! Quando a minha mãe voltou a trabalhar, eu já tinha uns 15, 16 anos, melhorou muito a nossa situação.

 

Nunca brinquei muito de boneca, sempre tive brincadeira de menino: correr, pular muro. Eu morava perto de um bairro que já tinha sido muito rico, mas estava em decadência, então muitas casas estavam abandonadas. Meu irmão sempre foi meio carregado, ele não gostava muito dessas brincadeiras, até que ele pegou gosto também! Sempre brinquei com um monte de gente, mas o Rodrigo brincava com pessoas de ruas que eu nem sabia que existiam!

 

Desde pequenininha, sempre estudei em escola pública, eu fiz EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil], depois eu fiz Escola Estadual, depois eu fiz ETE [Escola Técnica Estadual], tudo pública. Na EMEI eu fiz balé. Eu nunca quis ser bailarina, queria ser professora de balé! Tinha um lugar no bairro que tinha uma cancha de bocha com uma sala. Os meninos não gostavam muito, mas eles todo ano iam, eu obrigava, eles iam, meu irmão fazia, eles gostavam porque era uma bagunça: eu dava aula pra eles! Eu era bem líder desde pequena, mas acho que sempre fui meio mandona.

 

Mais tarde, entrei numa Escola Estadual no Taboão ao lado da favela. A escola tinha grade, era um ambiente meio opressor, mas aí já me acharam parecida com uma professora, então todo mundo me conhecia! Eu me sentia importante na escola. Então, na quarta série, comecei a passar cola, a me socializar. Tinha uma professora que a gente gostava muito, a Dona Sônia, que teve um problema de saúde e foi afastada. Um dia, nós fomos todos juntos para a casa dela a pé! Eu tinha dez anos, mas tinha que atravessar avenida! Fizemos um mutirãozinho de umas dez crianças pra levar flores pra ela.

 

Na quinta série, algum professor falou assim: “Alguém quer fazer uma peça do Dia das Crianças?”, aí eu formei um grupo de teatro com duas crianças da sexta série que queriam participar. Isso era muito chique, porque eu era a diretora da peça e estava na quinta série!

 

Depois da sexta série, comecei a me diferenciar um pouco das pessoas porque comecei a tentar conversar mais com o fundão... Só que ainda num lugar deslocado nesse grupo, porque eu não tinha uma dupla. Acho que acabou sendo bom, porque eu acho que eu desenvolvi uma autoconfiança, sozinha, eu não tinha nenhum grupinho.

 

Na oitava série, uma greve parou a escola por quatro meses. Então minha mãe me colocou numa escola particular pra eu terminar o estudo. No final do ano, como todo mundo, prestei vestibulinho da Escola Técnica. Passei em Desenho de Projeto Mecânico! Comecei a fazer o colegial normal de manhã e a ETE à noite, que era muito mais legal! Na ETE eu descobri que tinha um curso de Teatro, só que na unidade de Santo André! Fui participar lá por dois dias, até que eu consegui levar o professor para a minha ETE. Aí fundou um grupo super forte e cada vez mais eu não queria fazer a escola técnica, só queria ficar fazendo teatro.

 

O professor de teatro me dava os papéis bons e eu comecei a perceber que podia estudar mais aquilo. Aí o que aconteceu? Não queria fazer o quarto ano da ETE, porque eu já tinha feito um estágio de dois meses, onde fingia que ia ao banheiro, mas dormia, porque, gente, não tinha o que fazer lá, eu só olhava para o cara, não punha a mão em nada e eu odiava também. Era uma firma de um amigo do meu pai. Aí eu vi que eu nunca ia fazer aquilo na vida mesmo!

 

Quando eu fiz 16 anos, minha mãe voltou a trabalhar em escola, na Jean Piaget. Ela tinha que fazer a decoração da sala, ia dar aula pras crianças que ficavam no integral e eu fui com ela durante todo janeiro pra ajudar a montar sala, aí me chamaram pra ser assistente de sala, não dela, de outra professora do integral, dos pequenininhos. Foi meu primeiro emprego!

 

No final do ano, prestei Artes Cênicas na USP. Eram só 15 vagas. Não passei. Ao mesmo tempo, estava fazendo um curso no Jean Piaget de Teatro e todo mundo foi prestar Fundação das Artes de São Caetano, Teatro, e eu prestei também! E passei! Mas meus pais falaram: “Pra fazer Teatro e morar aqui, você vai ter que fazer uma faculdade de outra coisa, não existe fazer faculdade de Teatro”, então prestei a faculdade nesse outro ano e fiquei em terceiro lugar na Metodista de Comunicação Social, Rádio e Televisão. Era o dia inteiro: de manhã Rádio e TV e, à noite, Teatro. Na Metodista tive a primeira grande experiência de grupo, foi onde eu tive pela primeira vez uma dupla, que foi quando eu conheci o Lubi e o Fabiano.

 

Aí eu fui trabalhar na TV Bandeirantes num programa que chamava Falcão na contramão, com o Falcão. Sabe aquele Falcão do girassol? Ele. Depois, logo a Bandeirantes me chamou pra um monte de coisa: assistente de produção, depois produtora. Super gostava, super rolava. Mas aí eu fiz uma transição, arranjei uma amiga pra morar comigo na Liberdade, comecei a fazer o projeto da Hysteria, de sábado e domingo a gente se encontrava e trabalhava no Teatro Popular do SESI e dava aula de dança no Célia Helena duas vezes por semana.

 

Quem me indicou pra trabalhar no Teatro Popular do SESI foi o Fabiano, também da faculdade, o Lubi, que nunca me viu em cena, me chamou pra fazer o processo já do Hysteria, então eu falo assim, que a faculdade, não pelo curso, mas pelo encontro, foi muito um divisor de águas, cada um me indicou pra uma coisa.

 

O XIX começou primeiro com a peça Hysteria, em 2001. Dois anos depois, em 2003, nós fizemos um projeto pela prefeitura que chamava Formação de Público, que nós apresentamos o ano de 2000 inteiro de terça a domingo nessa peça, então foi formação de grupo, que a gente brinca! Era uma peça muito tranquila, ao mesmo tempo que era esse boom, era um boom o tempo todo você conversando com pessoas. Parece que você continuava pesquisando, que o processo não acabava. Quando Hysteria começou, tinha 40 minutos. Hoje, a peça tem uma hora e 40 e não aumentou nada de texto, o que aumentou foram esses espaço pra conversa na peça, foi uma tranquilidade nossa de como é que eu conduzo, mas abro pra esse diálogo, como é que eu conduzo, pra onde, porque tem um lugar pra se chegar, tem um roteiro, tem um lugar, mas como é que eu conduzo esse processo, essa experiência? Hygiene foi quase o contrário, porque Hygiene a gente tinha muito material. O começo da peça tinha três horas de material levantado!

 

Quando começou Hysteria, eu conheci meu marido, nós começamos a namorar, meus pais se mudaram pra Santa Catarina, comecei outra profissão. Foi indo tudo meio junto! Quando eu tive a síndrome do pânico, foi o ano que eu casei e foi o ano do processo do Hygiene e foi o ano também que a Hysteria foi pra França. Tudo nesse mesmo ano! Então foi um ano de muito sucesso da Hysteria, no sentido de: “Nossa, não acredito que a gente está fazendo quase três meses de temporada na França”, uma coisa mega, eu medicada e no meu primeiro ano de casada!

 

No momento, a nossa sede era lá no Sítio Morrinhos, onde a gente apresentava todo dia Hysteria. A gente já queria estudar casa, nosso tema. Fomos pra vários momentos: dessa questão da casa meio simbólica, do sótão, do porão, mas começamos a estudar na história do Brasil, parecido com a Hysteria, essa normatização, patologia, quase um lugar da mulher, do que que era, o final do século XIX, começo do século XX na questão da habitação.

 

Aí saiu na capa da Revista da Folha, a frente da escola da Vila Maria Zélia, masa gente estava: “Ah, vamos primeiro na Vila dos Ingleses!”, erramos o caminho e aparecemos aqui na frente da Vila Zélia. Quando chegamos, tinha a cancela, mas o segurança falou: “Pode entrar, lá no fundo tem uma associação!” Chegamos na associação e demos de cara com o Hélio e a Kika, que tinham ido assistir Hysteria lá no Sítio Morrinhos naquela semana, estavam apaixonados: “Tem um lugar aqui, um armazém, que hoje em dia é entulho, mas e se a gente ajudasse vocês a limpar pra vocês fazerem uma apresentação lá?”

 

Fizeram uma força-tarefa, todo mundo tirando entulho, não dava nem pra ver o chão ali do armazém. Tiramos tudo, fizemos uma apresentação. Aí fomos contemplados com nosso primeiro fomento do Grupo XIX e começamos a habitar esse armazém e, nesse processo, descobrindo a vila inteira. Até que recebemos um convite pra Hysteria ir pra Londres, então a gente tinha também que aprender inglês pra fazer a peça e estávamos no ano do processo do Arrufos. Nesse meinho, eu engravidei do Chico.

 

Isso foi em julho, agosto. No ano seguinte, tinha um projeto grande do Hysteria fazer 68 cidades no Brasil, aí foi esse ano que eu fiz: eu casei, fiz a lua de mel com o XIX, viajando com o Hysteria. Nasceu o meu filho, toda a minha licença maternidade foi também com o XIX, viajando com o Hysteria! Quando o Chico fez 40 dias, ele foi fazer todas as vacinas, porque no 42 nós viajamos. Durante as apresentações, eu colocava o sling no Lubi para ele segurar o Chico!

 

Cada vez mais a gente está entrando em projetos que só vão dar conta de uma coisa, acho que é mais ou menos da forma que a gente está começando, porque tem projetos que talvez tenha a cara do Armazém XIX, que é esse projeto de formação, mas tenha a cara de segurar o repertório, tem outros, entendeu? Então cada vez mais a gente tem que entender isso, mas é um processo, um processo de entender como, daqui pra frente!

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