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História

Tarde com sabor de docinho de coco baiano

História de: Aristides Theodoro da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2014

Sinopse

Aristides Teodoro é um escritor e poeta nordestino que mora em Mauá. Migrou com a família de Utinga, na Chapada Diamantina, para Mauá quando ainda era criança. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa ele conta a origem de sua família, a vinda para Mauá e o envolvimento com a literatura. Fala sobre a Livraria Gazeau, lugar frequentado por ele na juventude e sobre a correspondência que trocou com Jorge Amado durante muitos anos. Descreve o primeiro trabalho no jornal Gazeta do ABC onde começou como office-boy. Aristides recorda a fundação do Colégio Brasileiro de Poetas juntamente com mais 10 escritores, os livros que publicaram e o fim do grupo. Ele recorda o início no Jornal da Manhã como cronista e por fim fala da intransigência religiosa do pai.

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História completa

Meu nome completo seria Aristides Teodoro Palmeira da Silva, o meu pai eliminou Palmeira e eu faço questão de tirar o Silva, porque eu não sou descendente de presidente, parente de presidente. Nasci em 27 de novembro de 1937, em Utinga, que é uma pequena cidadinha no interior da Bahia. Meu pai chamava-se Cosme Teodoro Palmeira da Silva e nasceu numa região que chamava-se Morro do Chapéu, também na Chapada Diamantina baiana.  E minha mãe nasceu em Utinga, onde eu nasci também. O meu pai é descendente de portugueses, meu pai inclusive era branco, e minha mãe filha de índio e negros. Saí de lá nos anos 50 e cheguei aqui, meu pai comprou uma chacrinha em Mauá, Mauá pertencia a Santo André na época, aquilo tudo era mato e não valia nada, o meu pai comprou porque nós morávamos no Ipiranga e uma renca de filhos, e meu pai não podia pagar o aluguel, então era pedreiro, comprou aquele pedaço de terra e nós fomos morar em Mauá.

Eu não tenho alfabetização, nenhuma escolástica, pra dizer que eu não conheço escola, eu faço palestras em faculdades, em escolas, etc, mas eu só li. Ali na Praça da Sé, junto da igreja, tinha uma livraria, chamava-se Gazeau, era um francês, e tinha um dos maiores sebos de São Paulo. Nós trabalhávamos a semana toda e aos sábados íamos no Gazeau comprar uns livrinhos que o Mário Graciotti publicava no passado, chamava-se Clube do Livro, e nós comprávamos aqueles livrinhos ruins. O Gazeau passou a gostar tanto de mim que, o meu dinheiro era curto, eu comprava esse livro e ficava doido por esse outro, e ele dizia: “Leve, meu filho, e a semana que vem você me paga”.  Eu conheci o Jorge Amado, conheci e nos tornamos, não quero dizer que fui amigo de Jorge Amado, não, o ano passado, por ocasião dos cem anos do Jorge, o Museu de Mauá fez uma homenagem ao Jorge Amado e expôs 19 autógrafos e cartas que o Jorge mandou pra mim.  Eu sempre escrevi e uma vez eu publiquei um texto de sertão, um continho sobre sertão, e mandei pra ele, eu li toda a obra dele e tenho toda obra dele, mandei pra ele e ele mandou este livro pra mim, dedicado, diz assim: “Para Aristides Teodoro”, eu sou péssimo pra ler letra manual: “Agradecendo o envio dos contos e desejando-lhe sucesso, Jorge Amado, Salvador, 1971, li os contos, você tem jeito, o que precisa é trabalhar com dedicação”. Foi através disso, e ele de uma bondade extrema, ele publicava a capa do último livro que ele publicou, ele publicava num cartão de natal e me mandava aqueles cartões de natal, de vez em quando eu mandava um troço pra ele, ele me mandava uma carta. Só que eu peguei tudo isso e doei ao Museu de Mauá e simplesmente desapareceu de lá, eu tenho só os livros autografados, tenho 19 livros autografados por ele, que foram expostos durante um mês do Museu de Mauá. E fiz também uma palestra sobre ele num ginásio de Santo André, fiquei chocado, num ginásio de elite, e quando eu cheguei as paredes estavam forradas por fotografias minhas e das capas dos livros de Jorge Amado, está até aqui as fotos, está por aqui as fotos. Foi assim que eu conheci o Jorge Amado.

Eu comecei a trabalhar com nove anos. Meu pai lia muito, meu pai era um homem culto, cultíssimo. Eu tinha um amigo e o amigo trabalhava em jornal chamava-se Filadelfo, ele que me levou e me apresentou na redação. Assim, mais ou menos, que eu comecei a trabalhar. Chamava-se Gazeta do ABC. Eu entrei lá como office boy, mas como eu era feio, saía os bonitos, eu lavei banheiro, eu fazia maços de jornais e amarrava maços de jornais, trabalho praticamente braçal. Eu trabalhei pouco tempo, saí, me arrumaram outro emprego numa fábrica no Ipiranga, ali perto da Presidente Wilson, e eu trabalhei um certo tempo lá. Um desses amigos nossos criou uma coluna num jornal de Santo André, depois que eu saí do jornal, chamava-se A Baronesa, uma coluna, e nós tínhamos um grupo de poetas, que esse grupo, nós fomos os primeiros elementos a criar grupos de poetas na região, isso foi nos anos 60, antes da ditadura um pouquinho, 58 mais ou menos. Nós criamos um grupo de poetas, chamava-se Colégio Brasileiro de Poetas, dez sujeitos, dez elementos, nós publicamos três antologias. A primeira chamava-se Dez Poetas em Busca de Um Leitor, que é baseado numa peça do Pirandello, depois publicamos outro que chamava-se Revoada de Pássaros Negros e terminou com outra antologia, o Útero da América. Durou 20 anos o grupo, depois de 20 anos o grupo cresceu muito, eram dez, depois cresceu, 60 pessoas, aqueles últimos que entraram no grupo, tinha alguns sujeitos ricos, e aquilo era novidade, todo mundo queria ver o seu nome em letra forma. Aqueles elementos entraram no grupo, muitos deles não sabiam ler, não sabiam gramática, mas tinha dinheiro, e eu corrigi uma vez um, nós estávamos publicando uma antologia e eu corrigi a gramática de um desses elementos. Quando corrigi o cara virou um bicho, virou e moveu um processo contra mim, eu recebi duas cartas do advogado dizendo que se eu não comparecesse lá, poderia acontecer coisas drásticas comigo, eu fiquei desgostoso com aquilo e deixei de ir ao grupo e o grupo faliu. Faliu e nós passamos a trabalhar por conta própria, vamos se dizer, a Iracema e os outros dispersaram. Surgiram outros grupos no ABC na época, mas elementos que tinham mais arrogância do que literatura, também a gente não ficou, e ultimamente é que nós nos unimos a um grupo de Santo André, que ajudamos a fundar, e outro de São Caetano, esses grupos funcionam muito bem até hoje. O Colégio Brasileiro de Poetas, quando o grupo surgiu, foram os anos 50 e pouco, naquele período da ditadura nós nos reuníamos num bar que tem lá, que chamava-se Bar do Hugo, e nós tínhamos quase que cadeira cativa, nós íamos todo domingo no bar bater papo, mas falava quase que em off, porque não podia falar, era ditadura.  

O meu pai era pedreiro, e como meu pai construiu uma fábrica, eu trabalhei de pedreiro, eu trabalhei em fábrica, eu trabalhei em uma série de coisas. Até que uma vez, como eu já, eu vinha trabalhando em jornais, publicando em jornal, uma vez eu cheguei num jornal onde eu colaborava, no jornal, e o dono gostava muito dos meus textos, me elogiava: “Você escreve muito bem, menino” e coisa, eu estava lá já há um certo tempo. E um dia eu cheguei e ele falou: “Teodoro, você caiu do céu”, eu digo: “Por quê?”, “Porque o Carlos morreu”, que era um redator do jornal: “E eu quero você aqui”, “Mas, Severino, eu não sou jornalista”, “Não me interessa, você não é jornalista, mas sabe escrever”. Então é que eu comecei no jornal como profissional e ganhando, entrei no jornal ganhando dinheiro. Chama-se Jornal da Manhã, fica aqui no início da Avenida Ipiranga, existe até hoje o jornal. Eu fiquei uns oito anos mais ou menos. Quando eu saí de lá, eu aposentei quando eu saí de lá, eles informatizaram, quando começaram a informatizar o jornal, ele não precisava daquele monte de gente. O jornal era um jornal pequeno, eu fazia três artigos por dia, eu fazia um que chamava-se Minhocão, que era futrica, política, eu gostava muito, sempre gostei muito de artes, de literatura, poetas, pintores, cantores, eu falava ali. E como eles compravam a matéria do Estadão, do Globo etc., aquilo chama-se cozinhar matéria, eu cozinhava uma matéria sobre economia, que não manjo nada de economia, era mais ou menos isso que eu fazia. E faço uma coluna na Voz de Mauá há 30 anos, nessa revista que eu estou lhe mostrando aqui, eu faço essa coluna há 30 anos, eu gosto de escrever muito sobre personalidades. Meu primeiro livro, eu detesto, chama-se Dandaluanda, só é bonito o título, e era um livrinho de poesias medíocre ao extremo, é tanto que eu não quero ver aquilo jamais publicado, reeditado. Depois eu publiquei outro, que chamava-se Colégio Brasileiro de Poetas, Seus Fundadores, Associados e Outros Escritores da Cidade, esse foi patrocinado pela Prefeitura de Mauá. E vieram outros livros, que eu tenho 16 livros, 15 publicados.

Eu sou filho de protestantes, meus pais eram da Assembleia de Deus, e meu pai era um homem culto, mas depois que se tornou protestante, meu pai involui, só sabia falar de Bíblia e nada mais, como os meus livros era dentro da nossa casa, a casa tinha crescido, mas ele não queria os livros, porque eu era um filho desviado, era a ovelha desviada, que só lia hereges etc., eu não queria nada com a Bíblia, eu detestava aqueles sermões dele, eu detestava. Então ele fez uma casinha pra mim no fundo da casa pra tirar o herege de dentro de casa e colocar lá, como o troço era um negócio insalubre e lá eu dormia e lia, eu coloquei esse nome de toca, isso é pejorativo, toca é um buraco. Só que eu gostei do nome e parece que caiu no gosto dos que me conheciam, eu comprei uma casa, que é onde eu moro hoje, e coloquei o nome de Toca Filosófica. É uma casa grande, eu moro nos fundos, eu já comprei assim, quando eu comprei, é um elemento que ia de São Caetano, que comprou a casa em Mauá, não gostou da casa porque ele não acostumou, Mauá era uma cloaca na época e São Caetano era bem melhor, então ele vendeu aquilo a preço de banana.

Nós temos um grande Secretário de Cultura no ABC, talvez um dos melhores das sete cidades, um tal de Salles, esse cara foi candidato a prefeito, perdeu, candidato a deputado, perdeu. E como o PT é que ganhou lá, mas o PT sozinho não ganhava, e como ele perdeu, foi obrigado a fazer união lá, e o PT ofereceu: “Que cargo você quer pra você ficar aqui comigo?”, era preciso negociar, ele disse: “Eu quero a Secretaria de Cultura” e doaram a Secretaria de Cultura pro cara. Ele pintou as casas de cultura na cidade, estimulou a cultura, que esses recitais que nós fazemos lá foi ele que fez, e levou o Ariano Suassuna pra fazer uma palestra no teatro, e o Ariano foi e fez uma palestra, cabe 700 pessoas no teatro, tinha gente encostada nas paredes. O povo gritava, chorava, delirava, falava o nome do cara, uma coisa terrível, e ele levantava e fazia assim com os braços, podre, podre, tanto é que morreu um dia desses, as mãos todas, podre, mas eu nunca vi tanto dinamismo naquele tipo e foi que o Suassuna me ganhou. Pra mim um dos maiores oradores que eu já vi, e olha que eu tenho visto bons oradores por aí a fora, depois que eu aposentei eu só faço isso, eu viajo. Fui no Rio de Janeiro, fomos a Brodowski ver o Portinari, o grande Portinari, eu só faço, ultimamente só ando atrás de cultura, me digo assim, um caixeiro viajante da cultura, só faço isso, faço palestras em escolas, pago. Esse Secretário de Cultura de Santo André, ninguém faz isso, ele nos paga pra gente fazer palestra em escola, você faz a palestra hoje, ele te paga amanhã.

Meu pai era um homem fanático, de um fanatismo tão extremo, por exemplo, eu vou contar um caso pra mostrar o fanatismo do cara, ele tinha aquele terrenão imenso lá, nós oito filhos, minha primeira irmã casou e quis construir no terreno, porque tinha terreno de sobra, ele não aceitou: “Não, eu tenho outro plano pra esse terreno, não quero que você construa aí”, minha irmã foi, comprou uma casa. Outro irmão meu, que é o Sigismundo, um sujeito fantástico, uma das grandes figuras que eu conheço no mundo, esse cara e minha mãe, um grande sujeito, casou, quis construir, ele não deixou. Até que um dia chega um sujeito de gravata etc., bonitão, e estica uma linha lá, um prego, bate um prego lá e outro lá e divide o terreno no meio, e meu irmão diz: “O que é que o senhor vai fazer aí?”, “Eu vou fazer uma igreja pro Senhor Jesus”, “Meu pai lhe deu isso aí?”, “Deu e eu vou construir”, disse: “Ah, não constrói, não, não constrói de maneira nenhuma, nós somos oito filhos, meu pai não deixou nenhum construir aqui, e o senhor vai construir uma igreja aqui? Não”. Meu pai ficou p. da vida, vendeu o terreno e foi embora pro Nordeste e eu disse a ele, disse isso a ele, quando ele saiu, quando ele saiu, eu disse: “Pode ir, se você for e der certo lá, tudo bem, e se não for, não me procure, que eu não sou seu filho”. Então esse aí o meu pai. Foi pra Sergipe, nós somos da Bahia, mas ele comprou uma fazendinha em Sergipe, ele vendeu aí, comprou lá, ainda bem que deu certo, viveu 98 anos, deitou e morreu. Casou-se pela segunda vez, tem um filho com essa segunda mulher. Minha mãe morreu com 70 anos, mas um filho atrás do outro, minha bisavó, por exemplo, morreu com 50 e poucos anos, teve 22 filhos, descrevo aqui nos meus contos. Praticamente eu reconto o que o meu pai contava, o que meu pai contava era a história da família, garimpos, que ele trabalhou lá na Chapada Diamantina, valentia, vaqueiros. Eu conto o que ele me contava, é tanto que eu não conheço o Nordeste e nem a Chapada Diamantina, mas eu leio tudo, sou muito bem documentado do que digo, eu leio tudo o que acontece na minha região na Chapada Diamantina e conheço sem conhecer, conheço os garimpos, como é que se processava o diamante, o ouro.

Menina, o meu sonho é viver, eu já até marquei o dia da minha morte, eu quero morrer no dia 27 de novembro de 2037. Quando os relógios baterem a meia-noite eu posso apagar. Sobre o depoimento, eu não quero dizer que foi um dos melhores momentos da minha vida, não foi, eu tenho tido bons momentos na vida, mas, menina, eu incluo entre um dos grandes momentos da minha vida. E o que eu gosto muito, eu gosto de chamar de docinho de coco baiano, essa tarde foi uma tarde com sabor de docinho de coco baiano.

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