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História

Taquaritinga

História de: Joaquim Palomino Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/01/2017

Sinopse

Família de origens espanhola e italiana. Casamento dos pais. A casa onde morava, como a avó controlava as coisas e os empregos de seus familiares. A cidade de Taquaritinga, a escola e o início do trabalho em um hotel. O comércio em Taquaritinga e os momentos de lazer nos fins de semana, destacando a importância da praça e do circo. O emprego na usina de álcool e ida para Araraquara em busca de melhor emprego. Trajetória profissional até chegar no hotel. As funções exercidas no hotel e o perfil dos clientes. Como conseguiu se tornar dono do hotel. Como conheceu sua mulher e os locais que frequentavam na época de namoro. Os filhos. O trabalho no hotel e dos hóspedes. Modernização do hotel e lições do comércio.

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História completa

P/1 – Bem Senhor Joaquim, para começar, diga seu nome, o lugar onde nasceu e a data.

 

R – Eu me chamo Joaquim Palomino Rodrigues, sou natural de Taquaritinga, Estado de São Paulo, nasci no dia 2 de dezembro de 1932.

 

P/1 – Nossa! No ano da Revolução?

 

R - É. Minha mãe se assustou porque quando terminou a Revolução, quando saíram os fogos, aí eu nasci.

 

P/1 – Pode me dizer o nome dos seus pais e se lembra onde nasceram?

 

R - Meu pai, Félix da Cruz Palomino, nasceu na Espanha, eles vieram fugidos da Espanha e chegaram em Taquaritinga.

 

P/1 – Eles quem? Ele e os pais dele?

 

R - E os pais dele.

 

P/1 – Ele veio com que idade?

 

R - Ele veio com uns sete anos da Espanha.

 

P/1 – E eles fugiram do quê?

 

R - De navio.

 

P/1 – Sim. Mas qual era o motivo, você sabe?

 

R - Não. Naquele tempo, parece que era uma doença que tinha dado na Espanha e eles falaram que tinha que fugir e fugiram. E os meus pais chegaram em Taquaritinga. Mas tem uma coisa, quando eles chegaram em Taquaritinga, porque o nome verdadeiro do meu pai não é Félix da Cruz Palomino e sim, Félix Marmol. Quando eles chegaram em Taquaritinga o cartório mudou o nome deles.

 

P/1 – Por quê?

 

R - Porque achavam que Palomino vinha de Paloma e era da Espanha. Aí, cada neto que nascia eles registravam como Palomino e nossa família ficou sendo Palomino.

 

P/1 – E na verdade era Marmol?

 

R - Marmol Cruz. Félix da Cruz Marmol.

 

P/1 – E acabou esse nome?

 

R - E acabou. Não, acabou uma parte e tem um tio que ficou chamando... tendo o nome certo dele. É coisa de família quando muda... aproveita, sempre, o registro do outro, né? Naquela época, era comum aproveitar o registro. Então, aproveitava o registro de tudo.

 

P/1 – E da história do seu pai, o senhor conhece alguma coisa, por que eles foram para Taquaritinga especificamente?

 

R - Não sei porque, eles não contavam, porque eles falavam muito em espanhol e a gente quase... aquela época eu não entendia muito. Mas contava que chegaram em Santos e foram embora para Taquaritinga e lá ficaram.

 

P/1 – E foram fazer o quê quando chegaram em Taquaritinga?

 

R - Bom, quando chegaram em Taquaritinga eles eram... ele era menino ainda, o meu avô ia trabalhar de pedreiro e a família toda quase seguiu o meu avô. Então, o meu pai foi pedreiro, e. hoje é motorista, né, naquela época ele era chofer. Então, meu pai era chofer de caminhão, e...

 

P/1 – Quer dizer, primeiro ele foi pedreiro...

 

R - É, pedreiro. Depois ele foi motorista, aí ele trabalhou, depois quando cresceu foi fazendo mais coisas. Mas sempre nessa atividade de pedreiro e motorista, era a paixão dele.

 

P/1 – E agora é a sua mãe, como ela chamava?

 

R - A minha mãe chama-se Edith Palomino.

 

P/1 – E o nome de solteira dela, qual é?

 

R - É Mourão. Edith Mourão Rodrigues.

 

P/1 – Então, ela é também de origem espanhola?

 

R - Não, italiana.

 

P/1 – Ah, é. E o senhor conheceu seus avós maternos?

 

R - Conheci, do meu pai conheci os dois e da minha mãe conheci só a minha avó.

 

P/1 – Eles eram de que cidade?

 

R - A minha avó era da Itália mas eu não sei dizer de que cidade.

 

P/1 – A sua mãe nasceu onde?

 

R - Em São Carlos.

 

P/1 – E como foi que o seu pai conheceu a sua mãe, o senhor sabe?

 

R - Meu pai conheceu a minha mãe assim. Eles moravam em São Carlos, mas foram morar numa cidade que se chamava Fazenda Jaguaripe, parece um nome assim. E eles trabalhavam, porque o meu pai trabalhava de motorista e a minha mãe também trabalhava na roça, naquele tempo trabalhava tudo na roça. E o meu pai é gêmeo com um irmão dele, e a minha mãe namorava o meu tio e casou com o meu pai

 

P/1 – Como foi isso?

 

R - Porque se confundia... os dois eram parecidos. Então, é essa coisas que eles contam lá, contavam, né “Pois é, você namorava... paquerava o meu tio e foi casar com o meu pai, é.”

 

P/1 – Eles eram pobres, como era?

 

R - Não, eles eram pobres mesmo, eles não tinham nada, eles viviam na roça. Trabalhava na roça, um catava algodão, o outro também trabalhava de pedreiro, mas sempre humildes, não tinha...

 

P/1 – Trabalhava para alguma fazenda?

 

R - Para as fazendas, é. Eu sei que o dono da fazenda, dessa Jaguaripe, foi prefeito em Taquaritinga, mas nem sei em que época, porque era a história que eles contavam para a gente.

 

P/1 – Então eles se conheceram, acabaram casando, e foram morar onde?

 

R - Morava em Taquaritinga. Essa casa em Taquaritinga ainda existe, é da família ainda. Todos os netos nasceram lá nessa casa e aí saía, cada um ia para a sua casa.

 

P/1 – E o senhor tem quantos irmãos?

 

R - Eu tenho quatro irmãos. Eu e mais três.

 

P/1 – Sei. E nessa casa, na época, o senhor nasceu quando? Mil novecentos...

 

R - Em 32.

 

P/1 – O senhor é filho mais velho ou filho mais novo? O senhor é o mais velho da família?

 

R - Não, o mais velho da família é o meu irmão, que nasceu em 31.

 

P/1 – E como era na casa da sua... quando o senhor era pequenininho, o que o senhor lembra? O seu pai trabalhava no quê?

 

R - Meu pai trabalhava de moto... ele tinha um caminhão. Ele tinha um caminhãozinho, chamava naquela época Ramona. É um caminhão Ramona e que ele ia fazer transporte de algodão para a cidade, ele ia levar da fazenda para a cidade. E eles viviam disso aí mesmo, de transporte. E a minha mãe trabalhava em casa, era mais do lar. Sabe, essa famílias estrangeiras quando chegavam, eles ficavam todos morando juntos, era que nem... tinha que morar todos juntos, a casa era muito grande e cada um tem o seu quarto.

 

P/1 – E quem morava na sua casa?

 

R - Nessa minha casa morava... não era a minha casa, era a casa de meus avós. Então, os filhos casavam e a minha avó obrigava morar na casa, porque naquele tempo quem mandava na família era a minha avó. A minha avó... eu lembro bem, porque eu sei que era ela que coordenava. Então, todos os filhos trabalhavam, levavam o dinheiro para ela e ela que distribuía, que comprava os alimentos e fazia tudo.

 

P/1 – Ah, é?

 

R - É. Então tinha... era ela que achava que tinha que comprar as roupas, ela que ia comprar roupa, ela tinha que comprar, o que tinha que fazer é só ela que comprava.

 

P/1 – E todo mundo comia junto, como é que é?

 

R - É, a sala dela era enorme, então, todos tinham que comer juntos. E nós estudava, ia tudo para a escola, mas era tudo ela que coordenava. Ela que dava mensalidade, taxa escolar que tinha que dar. E meu avô não, coitado, meu avô depois ficou surdo e não tinha atividade nenhuma, ele ficou trabalhando junto com a gente, com a família toda.

 

P/1 – Mas o que ele fazia, ficava em casa?

 

R - É, ajudava na atividade de pedreiro. Quando algum dos filhos pegavam uma construção, ele ia ajudar. Depois, veio a época da estrada de ferro, aí, sim, todos os parentes meus foram trabalhar na estrada de ferro.

 

P/1 – Como é que foi isso? Quando chegou a estrada de ferro? O senhor lembra?

 

R - Não. Quando eu era menino, já tinha a estrada de ferro. Era a E.F.A. que passava por lá, então, o emprego melhor que tinha era pedreiro ou motorista ou tinha que trabalhar na estrada de ferro. O meu pai que só quase não seguiu a carreira de ferroviário.

 

P/1 – Por quê?

 

R - Porque a paixão dele era guiar... ele tinha o caminhão dele. Então ele tinha o caminhãozinho dele que fazia o transporte. Como hoje tem essas grandes potências, ele era potência, naquela época, com o caminhãozinho dele.

 

P/1 – E a cidade de Taquaritinga, nessa época, ela era pequenininha? Grande?

 

R - Não, a cidade era pequena. Tinha o quê? Quatro... cinco mil habitantes, por aí. Depois foi crescendo.

 

P/1 – A casa de vocês ficava onde?

 

R - Ela ainda continua. Ela continua na Rua dos Domingues, no final da Rua dos Domingues era, a última casa da Rua dos Domingues era nossa. Hoje já tem mais quarteirões, né? Mas continua sendo uma das últimas. Depois de lá, quando o meu pai resolveu sair de casa e ir embora, então, ele já foi trabalhar por conta dele numa fazenda. Então ele foi trabalhar numa fazenda perto de São Lourenço do Turvo, depois ele saiu de lá e foi trabalhar, na época que ele resolveu trabalhar por conta, ele foi ser carvoeiro. Carvoeiro é, na época que tinha gasogênio, que não tinha gasolina nem álcool naquela época era gasogênio, meu pai fazia carvão de lenha em fornos ou oleiras. Foi aí que ele começou a ficar independente.

 

P/1 – A ficar?

 

R - Largou da família toda, a família dos pais...

 

P/1 – Ah, tá. Ah, ficar independente.

 

R - Ficou trabalhando por conta dele, mas era muito triste, era trabalhoso porque, trabalhar de carvoeiro era muito difícil. Hoje tem máquina, mas naquela época não, tinha que ser tudo... conhecer a cor da fumaça, quando o carvão estava bom ou não. E minha mãe ajudava ele nesse trabalho. E nós éramos meninos. Então, o único que ficou com o meu pai foi o meu irmão mais velho e eu continuei com a minha avó na cidade, porque eu tinha que estudar, eu fiz o primário só. Até o quarto ano, eles agüentaram.

 

P/1 – Todos os irmãos fizeram o primário?

 

R - Todos os irmãos.

 

P/1 – E o senhor ficava estudando na casa de sua avó?

 

R - É.

 

P/1 – O senhor lembra alguma coisa da escola? Era um lugar bacana?

 

R - É, em Taquaritinga existe essa escola ainda, a professora minha morou aqui em Araraquara, faleceu há pouco tempo. Então, era muito bom, era muito bom mesmo, essa escola. Mas era, sabe, você tinha que aprender só até o primário, porque depois, não tinha condição de continuar estudando. Cada um tinha que se virar, trabalhar e acertar sua sua vida porque não tínhamos condição de ficar estudando.

 

P/1 – Lembra na sua casa, essa coisa de precisar trabalhar e se tinha algum problema de comer ou se não chegou até isso, sempre tinha comida?

 

R - Ah, sempre. Sempre tinha sim.

 

P/1 – O que se comia?

 

R - Era simples, era mais arroz, feijão ou macarrão, naquela época não tinha geladeira, então a geladeira, quando eles matavam algum porco, comprava algum pedaço de porco, então eles tinham que derreter a banha e pôr a carne dentro da banha para não estragar. Então, tirava de vez em quando um pedaço daquela carne da banha para fazer para os netos dela, para os filhos. Mas trabalhava, comia ovos, lingüiça, carne de porco, mas era todos os dias.

 

P/1 – Todos os dias era o quê?

 

R - Todo dia mais era batatinha, ou então, mandioca, arroz, feijão e mandioca.

 

P/1 – Quem cozinhava?

 

R - Minha avó. Minha avó que gostava de cozinhar, então, cada nora da minha avó tinha uma atividade. A minha avó ia para a cozinha, outra arrumava a casa, outra tinha que lavar roupa, era comunitário o negócio lá. Moravam todos juntos, mas cada um tinha que fazer um trabalho. Porque eles comentavam que a avó, que era espanhola, a vida tinha que ser assim. Não podia casar e sair fora, como sai hoje.

 

P/1 – E tinha briga?

 

R - Não, não tinha briga. Eles eram muito unidos, né? A minha avó era muito enérgica, ela tomava conta mesmo.

 

P/1 – E com vocês, com os netos, ela brincava ou ela não prestava muita atenção?

 

R - Bom, na família, todos falam que eu era o paparicado. Tinha um monte de neto, mas diz que o único paparicado era eu. Eu não sei o por quê, mas eu sempre, e falam até hoje ainda, quando nós estamos reunidos, assim: “É, você que era o único paparicado, porque, não sei.” Então, eu não sei o que ela via.

 

P/2 – E como era a casa onde morava?

 

R - A casa, na época era uma casa muito bonita, porque era uma casa muito grande, entendeu? Tem doze, treze cômodos. A única coisa que se sentia dificuldade era tomar banho era. o banheiro separado, o chuveiro, esquentava água no fogão punha na... um subia, colocava em cima do tanque, que fica em cima da, aí tinha que tomar banho aí, no chuveiro, mas era esse chuveiro. E o banheiro era fora, também. Era no quintal. Porque aqui dentro ainda não tinha esgoto, então, era fossa, você tinha que usar a fossa. Mas como era muito grande o quintal, também, então tinha essa facilidade.

 

P/2 – Tinha árvores, frutas?

 

R - Tinha, tinha muita frutas, você calcula, naquela época já tinha macieira em casa. Macieira, pé de... como é que chama... pitanga, tinha muita coisa, tinha figo da Índia, naquela época, figo da Índia parecia flor é onde dava, era a flor que dava o figo, né? Aquele figo da índia, fico aí admirado de ver, nós tínhamos lá, à vontade. Tinha muita planta, tinha muita árvore fruteira, árvore de fruta, também.

 

P/1 – Mas, senhor Joaquim, nós estávamos lá e o seu pai virou carvoeiro e saiu de casa.

 

R - É, ele foi morar na fazenda.

 

P/1 – Ele foi morar na fazenda e o senhor ficou na casa do sua avó.

 

R - Fiquei.

 

P/1 – Os seus irmãos também?

 

R - Não, só eu. Aí eles foram, depois o meu pai já foi mudando, foi para uma cidade mais próxima da cidade. Porque Taquaritinga era longe. Hoje é perto, mas naquele tempo era muito distante, porque não tinha estrada. Era mais caminho só.

 

P/1 – E aí, o que aconteceu? O senhor terminou seus estudos na quarta série, né?

 

R - É, como diz “Tirou diploma.” Aí tirei diploma, quando tirei diploma fui trabalhar, aí comecei a trabalhar num hotel. Trabalhei pouco tempo no hotel.

 

P/1 – Em que hotel o senhor trabalhou?

 

R - Trabalhei no Hotel Central..

 

P/1 – Aonde é?

 

R - Em Taquaritinga. Mas foi assim, seis meses, oito meses, por aí. Porque tinha que começar alguma atividade, né, porque tinha que ganhar o dinheiro porque a avó queria que ganhasse. Então, primeiro, aos domingos tinha que engraxar sapato, porque eu tinha a caixinha de sapato, era engraxate. Tinha que engraxar nas feiras livres e voltava tinha que dar o dinheirinho para ela. E depois eu fui para, quando meu pai foi, depois, trabalhar numa fazenda próxima a Taquaritinga, que hoje é até comentada, estas fazendas Contendas, era uma usina de álcool. Naquela época. Fazia álcool de milho. Depois, fui para lá, aí pedi emprego e trabalhei na usina também. Comecei o meu trabalho, mesmo, numa usina de álcool. Essa usina fazia álcool de milho, depois transformou em álcool de mandioca, depois álcool de cana. Daí fiquei trabalhando lá até 59, por aí.

 

P/1 – O senhor estava me contando que foi trabalhar numa usina, eu queria que lembrasse... em Taquaritinga tinha um hotel, o senhor trabalhou num hotel. Que mais tinha de comércio na cidade?

 

R - O comércio era pouco, as casas comerciais... a cidade era muito pobre, era mais sitiante que freqüentava a cidade. Mas nós tínhamos sim, tinha o hotel, porque passava a estrada de ferro, tinha cidade que era freqüentada por viajantes também. Nós tínhamos um bom cinema que era o Dom Pedro, hoje diz que restauraram, faz tempo que eu não vou lá. Praças, tinha duas belas praças, uma da igreja e outra praça que era muito bonita também que é o encontro do pessoal dos sítios que reunia aos sábados e domingos nessa praça.

 

P/1 – Então, sábado e domingo o programa era ir para a praça?

 

R - Ah, era ir para a praça. Ou ia para a praça ou ia para o circo.

 

P/1 – Tinha circo?

 

R - Naquela época tinha muito circo na cidade, saia um e entrava outro.

 

P/1 – O senhor lembra a primeira vez que foi ao circo?

 

R - A primeira vez que eu fui no circo foi divertido. Foi divertido, porque o circo estava cheio e eu não sabia que aqueles efeitos de raio e chuva era provocado pela folha de zinco, né? Depois que a gente fica grande que sabe o que é isso daí. Mas naquela época eu não sabia, ouvi trovão, raio e achava que era de verdade, está caindo lá Aí nós estávamos no circo assistindo uma peça “Cabocla Teresa”, então estava todo mundo lá no circo e tal e quando um dos artista entrou para matar a Teresa, aí levanta uma platéia e diz assim: “Você não mata ela porque ela é mulher, mata eu que sou homem”, então aquilo foi uma correria dentro do circo. Isso foi uma coisa que gravou, eu tinha sete anos, oito anos. foi, assim, uma correria danada dentro do circo. Então são as passagens que... mas tem...

 

P/1 – Quer dizer, vinha um circo atrás do outro

 

R - Ah, sim, tinha muito. Porque naquele tempo chamava-se... quando o circo vinha, não era assim de bicho como hoje tem, era teatral.

 

P/1 – Ah, eram peças de teatro.

 

R - Era peça de teatro, tinha toda peça de teatro. Então, a única diversão era essa, passear na praça e ir na...

 

P/1 – Então ia para a escola e de tarde fazia o quê?

 

R - De tarde a gente... eu gostava muito de ir na igreja. Eu ia muito na igreja, também, sabe?

 

P/1 – A sua avó era muito religiosa?

 

R - Era, então: “Vocês têm que ir à igreja.” Então a gente ia lá para ajudar o padre a fazer alguma coisa. Naquela época, a gente sabia... saía na cidade distribuindo santinho, então você tinha que ir nas casas e tal e convidando para ir na igreja. Era essa a atividade da gente.

 

P/1 – Agora tinha um lugar onde comprar comida, um armazém? Era o senhor que fazia as compras para as crianças ou era a sua avó?

 

R - Não, não.

 

P/1 – Como funcionava?

 

R - O armazém, quem fazia a compra no armazém era um tio que eu tinha. Esse tio era encarregado de fazer as compras. Então, quando chegava no domingo é que ele ia para o armazém e fazia as compras. Mas tinha alguns armazéns perto de casa.

 

P/1 – E para se vestir, quem comprava as roupas para vocês?

 

R - Aí era a minha avó. Aí era para a gente ir na loja, escolhia...

 

P/1 – A loja era na cidade mesmo?

 

R - Na cidade.

 

P/1 – Como se chamava? O senhor lembra?

 

R – Nós tínhamos a Casa Vitória que era a casa que mais minha avó gostava de fazer compra. Na Casa Vitória, nós tínhamos também a Casa de Dois Mil Réis. A Casa de Dois Mil Réis era bugiganga, né? Então, não tinha esse negócio de presentinho, não, que você ganhava brinquedo, presente, nada, dia de ano, dia de Natal e aniversário, não tinha isso daí. Nós tínhamos direito de ir ao cinema, na matinê, nós íamos no cinema só na véspera de Natal ou na véspera de Ano Novo, porque você pagava entrada e tinha sorteio de brinquedo. Então, a gente ganhava, tinha muito disso, da gente ir lá e... eu não me recordo quando terminou a guerra, em que ano foi que acabou a guerra, que nós estávamos dentro do cinema e aí foi anunciado que tinha acabado a guerra.

 

P/1 – 45.

 

R - 45, né? 45 acabou a guerra, aí foi aquela festa. Estava todo mundo assistindo o filme e acabou.

 

P/2 – Que filme o senhor via? O senhor lembra?

 

R - Não me lembro. Eu sei que era seriado, como novela hoje, naquele tempo era seriado. Você terminava, parava, para você voltar no próximo domingo à tarde. Seriado lá do... nem me lembro do que era.

 

P/1 – E durante a guerra, o senhor lembra de alguma coisa ou era muito pequeno?

 

R - Não eu era pequeno mas eu tinha um tio que ele era muito curioso, entende? Então tinha uns mapas e aí toda noite reunia nessa salas, punha o mapa em cima da mesa e aí que eles iam ver onde é que estava atacando. Porque ouvia no rádio... naquela rua, só a minha avó que tinha um rádio, radinho pequeno, então anunciava e eles iam ver onde é que estava atacando, onde que a guerra estava, onde não estava. Então entre eles lá, que a gente ouvia os meus tios comentando.

 

P/1 – Mas eles torciam para algum lado? Como era?

 

R - Não. Eles não queriam que chegassem essa guerra no Brasil. Deve ter passado alguma coisa na Espanha, na época, porque... para ficar tão apavorado assim, né?

 

P/1 – E com a família da sua mãe, o senhor teve muito menos contato, né?

 

R - Foi menos contato porque eles moravam em Araraquara. A minha mãe era de Araraquara, meus avós ficaram em Araraquara. E nós ficamos em Taquaritinga. E era distante para vir, então, não tínhamos condição de virmos visitá-los sempre. A minha mãe passava, às vezes, até anos sem ver a mãe dela, porque não podia... não tinham dinheiro para vir. O contato que tinha depois sim, quando nós crescemos tivemos mais contato com a família daqui.

 

P/1 – Senhor Joaquim, vamos voltar, o senhor foi trabalhar numa usina de álcool ou açúcar.

 

R - É de álcool.

 

P/1 – O senhor tinha quantos anos essa época?

 

R - Tinha 13 anos, 14, por aí. 13 ou 14 anos. É porque o meu pai trabalhava nessa usina, então, foi pedido para o gerente e ele autorizou. Não podia trabalhar, mas ele autorizou eu trabalhar. Aí eu fui trabalhar nessa usina que primeira fazia álcool de milho, depois passou, transformou em álcool de mandioca, depois que veio a cana. Mas sempre trabalhando com álcool.

 

P/1 – O senhor trabalhava na terra, cortando a cana?

 

R - Não, eu trabalhei na usina mesmo.

 

P/1 – Ah, é?

 

R - É, trabalhava na usina, tinha um setor de fermentação, que eu era... tinha 14 anos parece... 14 eu já tomava conta do setor de fermentação.

 

P/2 – O que é, como funcionava?

 

R - Funcionava assim Porque tem um processo para fazer o álcool, né? Então o que acontece? A mandioca ela mói e o caldo da mandioca é que ela vai ser cozida e depois ela vai para um processo de fermentação, que é a fermentação de milho. Põe o milho, depois quando o milho começa nascer, para crescer o milho, eles moem e faz a fermentação. E eu era desse setor da fermentação. E nessa mesma fazenda que hoje, ela apareceu na televisão muito tempo, essa casa eu fui auxiliar do mordomo da casa. Isso com 14 anos.

 

P/1 – Como era isso?

 

R - Era assim, essa fazenda é uma que apareceu na novela agora, do “Rei do Gado”, então a Globo contratou essa casa e fez a casa do Berdinazzi, naquela época eu já trabalhava, então, como os fazendeiros vinham e se reuniam em alguns setores, esse era um ponto de São Paulo até Araraquara, até Taquaritinga, só tinha essa casa. Tinha aeroporto, tinha tudo. Era parente do Adhemar de Barros, Luís de Barros, então, eles se reuniam nessa casa , que é uma beleza. E eu tinha paixão de trabalhar nessa casa que eu via, aí eu fui lá me oferecer para o mordomo. O mordomo ainda existe, né? Eu fui lá e me ofereci se ele não queria um auxiliar para limpar, ajudar a carregar os pratos, trabalhar na cozinha. Aí ele falou “Tá, eu vou pedir para o chefe te colocar.” E eu fui trabalhar lá.

 

P/2 – Isso na época que o senhor trabalhava na usina?

 

R - Trabalhava na usina, é. Porque quando chegava visita, que não era sempre, era por mês que eles chegavam, eles iam lá me buscar e eu ia lá trabalhar na fazenda. Mas era um lugar muito lindo e é ainda. Muito lindo, muito lindo. Eu me sentia bem porque o meu pai trabalhava lá, o meu tio trabalhou, o meu irmão trabalhava, eu trabalhava, minha irmã trabalhava, todo mundo trabalhava nessa fazenda. Que nas fazendas é assim, eles vão arrumando lugar, né? Tendo, eles vão dando oportunidade. Mas eu não ia para a roça, não. Eu já ia direto ou na usina ou na casa.

 

P/1 – E quanto tempo ficou trabalhando nessa fazenda?

 

R - Acho que um ano... quase dois anos. É 13 anos, 15, 16 anos por aí... eu saí. Aí que eu vim embora para cá.

 

P/1 – O senhor veio sozinho ou não, veio com a família?

 

R - Eles vieram... meus pais vieram para cá e eu fiquei na fazenda, eu não queria vir embora. Aí eu fui morar com uma família lá na fazenda. Fiquei morando com essa família, pagava mensalidade para eles e ficava lá com eles, morando lá. Morei com eles mais um pouco tempo, porque o meu pai veio antes. Eu fiquei, era um ano e meio depois, porque passou um ano e meio, dois anos que eu vim sair.

 

P/1 – O seu pai veio para cá por que ?

 

R - Porque achou que aqui tinha mais futuro. Que ele ia arrumar um emprego melhor. Veio já para trabalhar de pedreiro também e tinha mais condição. Taquaritinga era muito pequena, não tinha serviço para todos, né? Ele já queria, veio para cá e começou trabalhar.

 

P/1 – E aí, o senhor chegou...

 

R - ...Rio Preto que também era pequeno na época, que meus tios trabalhavam nas estações de estrada de ferro, então a gente ia fazer visita e eu ia sempre com a minha avó. Aí a gente passava por lá. Quase sempre eu morei com a minha avó ou com esta família, com os meus pais mesmo eu morei pouco tempo com eles. Tanto é que quando eu vim para cá, para Araraquara, eu também não fui morar com meus pais.

 

P/1 – Ah, é?

 

R - É. Logo em seguida arrumei emprego no hotel e morava no hotel, morei no hotel.

 

P/1 – Então o senhor chegou aqui e já foi arrumar um emprego direto?

 

R - É quando cheguei aqui fui trabalhar... quando cheguei em Araraquara fui trabalhar na Nestlé, o primeiro emprego m foi na Nestlé, depois fui trabalhar no Clube Araraquarense, depois que eu fui para o hotel.

 

P/2 – Quantos anos o senhor tinha quando foi trabalhar na Nestlé?

 

R - 16 anos, por aí. Que já em seguida, quando saí da fazenda, vim para cá, já fui trabalhar na Nestlé. Lá trabalhei pouco tempo.

 

P/2 – Por quê?

 

R - Eu trabalhei numa seção que se chama Seção da Lataria, é terrível. Até hoje você fala assim... quando converso com algumas pessoas da Nestlé, com toda essa tecnologia, eles ainda continuam trabalhando com o garfo. Garfo é um negócio de pegar as latinhas, você fica zonzo de ver tanta latinha na sua frente. Latinha do leite condensado.

 

P/1 – Mas tem que o quê? Pegar a latinha assim...

 

R - É, a latinha corre, vazia, ela corre numa esteira, quando enrosca, você tem que pegar e colocar um garfo grande. Garfo é um negócio comprido, cheio de dente, aí você tem que pegar e colocar no lugar. E deixa a gente meio zonzo.

 

P/1 – Da Nestlé o senhor foi para...

 

R - Trabalhei pouco tempo, aí tinha uma opção interessante, na época eu estava procurando emprego, era menino de tudo então, o Graciano estava montando uma usina aqui de açúcar, que é a Maringá, então, naquela época estava procurando uma pessoa que trabalhasse em usina e ele me levou, até.. O senhor Graciano não falava com ninguém, e ele foi me buscar na minha casa e me levou lá na usina, para começar a trabalhar. Então eu tinha três opções: ou ia trabalhar na usina, ou ia trabalhar no laboratório da Nestlé, ou ia para o hotel, tinha três empregos. Aí optei pelo hotel.

 

P/1 – Por que o senhor optou pelo hotel?

 

R - Não foi bem eu que optei pelo hotel, quando fui pedir emprego no hotel, eu ganhava 300 mil réis por mês, aí o hotel me ofereceu 150. A pessoa que tinha me indicado para o hotel, fui lá e falei com ele, que era o ex-gerente do hotel que tinha saído. Aí falei para ele: “Pôxa vida, eu ganhava 300 mil réis, fico numa miséria danada, vou ganhar 150?” Aí ele falou assim: “Acontece o seguinte, você vai indo para uma escola, você está saindo de uma empresa, que tem só pessoal braçal, que é diferente e você vai indo para uma escola, onde é uma cultura diferente. Você tem tendência para este trabalho, você deve aceitar.” “É uma diferença muito grande”, eu falei. “Mesmo assim acho que você tem que aceitar.” E aceitei. Fui no hotel, quando chego para pedir emprego eu falei com o dono do hotel, um senhor muito simpático e tal, de terno branco “Só se você começar amanhã.” Eu falei: “Pois, começo amanhã, só que eu não tenho roupa.” Eu falei: “Não tenho roupa, a minha roupa é essa daqui calça de brim, listada e caqui e o sapatão, o que o senhor acha?” “O senhor começa assim mesmo.” Aí comecei.

 

P/1 – O senhor começou fazendo o quê?

 

R - Eu era... hoje eles chamam de arrumador, naquele tempo era quarteiro. Quarteiro é quem arruma a cama e limpa, só que eu quando cheguei falei: “Eu não vou trabalhar de quarteiro a vida toda, vou é dar um jeito de trabalhar de garçom também.” Porque gostava de fazer isso, aí fui, eu tinha que levantar de manhã, fazer o meu serviço e fazer o serviço dos outros, ajudar. Não era para trabalhar mas eu ia fazer. Aí eu ia para o meu setor que era quarteiro, arrumar quarto. Quando eu terminava de arrumar o quarto, descia para a portaria para ajudar carregar mala, levar, porque eu estava precisando de dinheiro, o que ia fazer, 150 era muito, e aquele tempo dava muita gorjeta, cada mala que você carregava ou agradava o hóspede, caía sempre uma gorjetinha, né? E eu fazia isso, ficava o dia inteiro na porta do hotel. Acabava o meu horário, mas eu ficava na porta do hotel, então, carregava as malas e fui...

 

P/1 – E o hotel ficava sempre cheio?

 

R - É porque naquela época, não existia outro hotel, era só o São Bento, o Grande Hotel e o nosso, nosso., o Hotel Municipal e vivia sempre cheio porque era pouca acomodação na cidade e era muita gente chegando. Porque aqui era peão. Araraquara era uma cidade de peão. Então, quem vinha de São Paulo, tinha que parar aqui para continuar ou Catanduva, ou Ibitinga, ou Itápolis, que era feito de jardineira na época, não era ônibus, era jardineira. E quem ia para Tabatinga, também tinha que demorar para ir para Tabatinga, então a gente ficava peão aqui em Araraquara. Tinha muito movimento.

 

P/1 – E os clientes nessa época eram homens, mulheres? Quem é que eram os hóspedes?

 

R - Não, era mais homens, muito difícil ver uma mulher. Isso quando entrei no hotel. Mas o movimento do hotel era mais viajante, viajante de laboratório, quando vinha algum comerciante. era muito pouco.

 

P/1 – Viajante era representante para falar com os médicos?

 

R - É, só com os médicos, porque era muitos laboratórios. Então eles davam muito trabalho, vinha muito, não tinha assim, como hoje é professor, executivos, algum viajante ainda aparece no hotel.

 

P/1 – Ah, é?

 

R - Tem, tem ainda. Viajante de tecido, viajante de tecido quando ele vinha para Araraquara ele ficava 15, 20 dias, porque tinha que visitar todos os comerciantes da cidade. Naquele tempo era mostruário, tinha que abrir as malas e mostrar todos os tecidos, hoje é mais fácil.

 

P/1 – Como funcionava? Eles mostravam o tecido, pediam tecido, voltavam depois para mandar a encomenda.

 

R - É, fazia o pedido do que eles iam precisar, aí eles mandavam. Ainda existe alguma loja aqui em Araraquara que compra tecido assim fechado, mas é uma loja ou duas só que tem.

 

P/1 – Mas na época não tinha essa loja?

 

R - Na época tinha mais lojas, não tinha roupa feita, tudo tinha que comprar e mandar fazer. Mesmo para o hotel, mesmo para a gente, era tudo roupa... você tinha que comprar só o tecido.

 

P/1 – Então nessa época o senhor está no hotel, o senhor é quarteiro, seu trabalho era então arrumar os quartos.

 

R - Arrumar os quartos, é. Passar escovão, limpar e arrumar as camas.

 

P/1 – E isso na época não era feito por mulher?

 

R - Não, era por homem e era mais os quartos, naquele tempo não tinha banheiro, todos os quartos, só tinha um banheiro no fundo do corredor. Aí você tinha que ficar lá toda hora limpando, porque saía um, entrava outro, você tinha que estar sempre de olho para deixar sempre em ordem.

 

P/1 – E o senhor ficou morando no próprio hotel?

 

R - É, quando fui para o hotel, quando cheguei no hotel, era um casal e uma filha e a filha estava namorando, aí ela saiu, logo em seguida entrei em março, em setembro ela casou-se e ficou o casal e eu só. Quando eu trabalhei de quarteiro, eu trabalhei de quarteiro um mês só. Eu entrei dia 3 de março de 51, no dia 1.º de maio de 51, já fui passado a gerente do hotel. Então trabalhei só um mês. Esse mês que eu fiquei lá, mostrei o trabalho meu, o que eu gostava de fazer, limpar, atender o pessoal, carregar, servir o salão, que aquele tempo tinha restaurante que servia o café, almoço, jantar e eu estava sempre, não saía do hotel, vivia no hotel. Aí o dono do hotel falou: “Por que você vai ficar indo para a tua casa à noite e vindo de manhã, você passa a morar aqui no hotel.” Porque cheguei exatamente numa hora em que eles estavam passando uma crise, que tinha morrido um filho de 19 anos e a filha tinha saído, casou-se, então entrei como se fosse filho deles.

 

P/1 – O senhor tinha, mais ou menos, que idade?

 

R - Eu tinha 17 anos, 18 anos.

 

P/2 – E o filho do dono do hotel?

 

R - É, com 19 anos, ele estava fazendo engenharia em São Paulo. Veio passear em Araraquara, sentiu mal e morreu aí. Mas não conheci, conheci só a filha mesmo, quando cheguei só tinha o casal e a filha. Aí ele me puseram, deram o quarto do filho para mim. “Você vai ficar nesse quarto, você vai ficar aqui.” Aí passei a morar... por isso que eu falei que morei pouco tempo com meus pais. Que quando eles vieram para Araraquara eu vim atrás mas já fui direto para o hotel e lá fiquei.

 

P/1 – E os seus pais, nessa época, estavam fazendo o quê?

 

R - Ele era pedreiro. Meu pai era pedreiro. Meu pai quando chegou em Araraquara e o meu irmão, os dois eram pedreiros, eles começaram construir e vender casa, tiveram uma crise muito forte, na época, perderam tudo e eu é que ganhava o meu dinheirinho e ajudava a sustentar a minha casa. Aí o meu irmão foi embora para Santo André, lá ele casou-se, em Santo André não foi feliz também. Ele teve um problema de família, morreu minha cunhada com raiva, eu te falei aquelas coisas.

 

P/1 – A situação foi ficando difícil? O que aconteceu?

 

R - É, a situação ficou difícil por quê? Nós estávamos muito bem, o meu irmão tinha conseguido construir a nossa casa que já era a nossa casa e depois ele foi construir com sócios outras casas, o sócio disse que fugiu e perdeu dinheiro, ele perdeu tudo, o meu irmão perdeu o caminhão, perdeu a casa, nós ficamos morando de favor novamente, então aí, teve mais, meu pai desesperou também, veio a falecer. E eu fiquei tomando conta da minha mãe e meus irmãos. Aí cada irmão teve que se virar. Um foi trabalhar num lugar, outro foi trabalhar em outro. E fiquei tomando conta da minha mãe, eu morava no hotel e a minha mãe morava num quarto que aluguei para ela.

 

P/1 – E o senhor nessa época não tinha casado, não?

 

R - Não. Aí eu tinha que começar a gozar a vida, lutar, trabalhar e entrei no hotel, morei no hotel 19 anos, solteiro. Eu só me casei com 38 anos. Não sei se é porque arrumei a mulher certa ou se tinha que ser aquele o meu destino. Tem o destino, né? Namorei muitas moças, mas, todas elas continuam sendo minhas amigas, são amigas da minha família, amiga inclusive da minha mulher, essas minhas ex-namoradas. Mas tudo...

 

P/1 – Mas o senhor era namorador?

 

R - Não vá dizer namorador, eu gostava de ter contato, conversar com o pessoal, dançar, bater papo, aí a vida mudou porque, já era gerente do hotel, já era melhor, né? Já podia freqüentar bar, podia freqüentar baile. Mas até então, o que tive que fazer? Eu tive que trabalhar no hotel o dia inteiro, às nove horas pegar o meu paletó branco e trabalhar no clube, servir os outros no clube, festa de casamento, eu era maitre, com 19 anos já era maitre no hotel, de restaurante. Para ganhar o meu dinheiro, tinha que ganhar.

 

P/1 – Porque enquanto o senhor estava no hotel, nessa época, não ganhava muito dinheiro não, né?

 

R - Não ganhava, era muito pouco. Depois sim, aí foi mudando tudo... as coisas. Foi bem, depois, fiquei trabalhando um pouco com o pessoal do hotel. A dona Leatrice, que era filha do dono do hotel, saiu para casar, aí morreu o senhor que era o dono do hotel, seu Lastiri, como eu já estava na gerência do hotel, já tinha prática com hotel, a dona do hotel achou melhor eu continuar, ficar tomando conta para ela, né? Aí ela tornou-se minha mãe, e eu filho dela, porque as minhas coisas que tive, contava para ela, eu não ia contar para a minha mãe, porque eu estava desligado da minha mãe. É longe, então eu desabafava com ela, ela era a minha mãe, eu contava as coisas para ela e ela também comigo. Porque nós ficamos filho e mãe. Quando ela ficou doente, muito doente, aí sim, passou a ser mais a minha mãe mesmo, porque eu tinha que levar ela no hospital, eu tinha que levar ela no médico. Porque, sabe essas senhoras antigas? E elas não, imagina eu sentar no quarto e ver uma senhora de camisola, não tinha, mas não, era o filho dela, eu podia entrar, ajudar dar banho nela, não tinha nada, eu era o filho dela. Foi aí que criou-se mais amor entre eu e ela e ficamos., e eu fiquei lá com ela. Aí quando ela morreu, o hotel voltou para a Leatrice, a dona Leatrice que era filha dela.

 

P/1 – E aí?

 

R - Aí eu depois de dez anos, mais ou menos, fui tocando o hotel normalmente, dava satisfação para o Dr. Jorge Afonso que era o marido da dona Leatrice, dava satisfação, eu dava satisfação para ele. Eu tinha que apresentar as contas.

 

P/2 – O senhor foi tocando como gerente?

 

R - Como gerente, fui tocando como gerente. Aí um dia ele resolveu, disse que teve reunião com a família, depois de uns oito ou dez anos, teve uma reunião com a família, ele já tinha seis filhos, e tinha já quatro genro e tinha mais não sei quantos netos, então ele reuniu toda a família e eu carreguei toda a moçada, todos estes moços, foi tudo criado por mim, eu era como se fosse tio deles, tudo que eles precisavam eu ia lá atrás buscá-los, levá-los. Aí eles se reuniram e chegaram a falar que eu estava no hotel, porque eu não tinha muito contado com o Jorge, ele não falava com a gente, só muito distante e tal, aí ele ligou lá pra mim e disse: “Olha! nós resolvemos ontem no jantar, tivemos um jantar ontem e eu chamei os filhos e os genros, e perguntei: “ quem é que queria o hotel, quem é que ia para o hotel?” Então eles, em comum acordo falaram que: “Não, o dono do hotel já está no hotel, não tinha que ir ninguém mais prá lá.” Aí ele falou assim: “Então, a partir de agora, você vai no escritório, encerra toda a atividade da Leatrice e o hotel é seu.” Então recebi como doação, isso já fazia 35 anos que eu estava no hotel. Quando eu estava me aposentando, pedindo a aposentadoria, ele deu o hotel. Em 84, nós tivemos uma fase também difícil. Por que? Eu comprei, eu tinha um carro, esse carro foi apreendido porque era roubado e eu não sabia, aí o delegado falou que eu era receptador e eu não era, porque eles me conheciam na cidade, passou, minha mulher tinha terminado a faculdade, ela falou: “Quem se forma, não tem que continuar, ela era bancária, “vou sair do banco.” Saiu do banco, ficamos sem dinheiro, sem carro.

 

P/1 – Sem o emprego dela?

 

R - E eu empregado do hotel, ganhando aquela... mais ou menos, né? Aí em 84 e mais de 84 veio toda essa surpresa, em seguida. a dona Leatrice doou o hotel para mim, ela e o Jorge Afonso. Minha mulher conseguiu emprego, ela fez um curso e passou de Fiscal de Trabalho, aí a vida voltou outra vez. São fases.

 

P/1 – Isso que ano foi?

 

R - 84. Aí que foi...

 

P/1 – O senhor estava contando que ela ficou com o senhor como uma mãe e depois lhe deram o hotel , como foi, conta essa história para a gente, todo esse processo?

 

R - Bem, quando a dona Ritinha ,que era dona do hotel, que era uma senhora assim, minha mãe e mãe de Araraquara inteira. Se você perguntar dela na cidade, eles vão te falar: “Ela é uma santa.” Aí ela ficou muito doente e eu acompanhava em todos os lugares, aí ela veio a falecer. Quando ela faleceu, o hotel voltou para a Leatrice porque a Leatrice era a dona, passou ser a dona do hotel e o Jorge Afonso, que era marido dela. Aí eles ficaram alguns anos sem aparecer e fui tocando o hotel normalmente, foi quando...

 

P/1 – E o senhor era o gerente?

 

R - Eu era o gerente do hotel.

 

P/1 – Como era o seu trabalho? O senhor que administrava as contas, como era?

 

R - Tudo. Eu administrava, fazia tudo, eles deram carta branca, como diz, né? Então, fazia, podia contratar, mandar embora, fazia recebimento, depósito de banco, tinha liberdade total. Se estava precisando pintar o hotel eu pintava o hotel, precisava comprar alguma coisa eu comprava não tinha., então eu só mandava a requisição e mandava falar o que eu estava fazendo. Aí foi quando, depois de muitos anos que o Jorge ficou lá, acharam que não queriam mais continuar com o hotel e reuniu a família dele, aí já era a família do Jorge, e ele ligou para mim lá no hotel e falou: “Olha, Joaquim, nós tivemos reunidos ontem e resolvemos, a família, ” Perguntei quem era que queria ficar com o hotel” , “ Não, o dono do hotel já está lá dentro do hotel, que é o Joaquim, então o hotel pertence ao Joaquim.” Então, a família resolveu isso e eu estou transmitindo isso para você. Pode ir no escritório, você transfere todos os bens da Leatrice para você e você é o dono do hotel.” “Tudo bem.” Aí fui no escritório, falar com a contadora, ela falou “Ah, Joaquim. Será?” Eu falei: “Olha, a senhora liga para lá.” Porque não foi na mesma hora, fiquei esperando, aí ele me deu tudo o que eu tinha que ter; na quarta-feira, na quinta-feira, na sexta-feira, no sábado, na segunda-feira criei coragem e fui lá no escritório...

 

P/2 – O senhor demorou tudo isso para ir?

 

R - É.

 

P/1 – O senhor ficou... o que o senhor sentiu?

 

R - É muita emoção, né? Porque se você compra um bilhete, você está tentando ganhar um bilhete, se você compra qualquer coisa você está tentando, agora, o hotel não, eu era empregado deles e de repente fala que vai doar o hotel. Eu fiquei... a emoção tomou conta, eu não tinha forças inclusive de ir tocando o hotel. Aí fui lá, no escritório e falei com a contadora, a contadora ligou no escritório e disse: “Não, é isso mesmo, é para encerrar a atividade e pôr tudo no nome dele.” E foi. Mas você sabe que, voltando um pouco o que aconteceu com o hotel, quando foi inaugurado o Hotel Eldorado, o dr. Israel que é o dono da Tecnohotel, porque o Hotel Eldorado é Tecnohotel, ele chamou e falou assim: “Você foi escolhido para ser o gerente desse hotel.” Então, inaugurando um hotel daquele tamanho, perto do Municipal, novo, fiquei muito emocionado também. porque recebi um convite do proprietário do hotel, aí falei assim: “Temos que falar em parte financeira.” Eles me ofereceram dez vezes mais do eu ganhava. Aí me tomou conta, não sabia se ficava com o meu coração ou com o dinheiro, ou com a razão, como diz. Aí fui e falei, tinha uma pessoa aqui em Araraquara que era o dr. Hilton Lupo, que era muito amigo na época e nós éramos diretor junto no clube, e fui falar...

 

P/2 – O senhor era diretor no clube?

 

R - Era. Aí fui falar com o dr. Hilton, falei: “dr. Hilton, recebi um convite desta forma, o que o senhor acha, heim?” Aí ele disse assim: “ Você tem que falar com o Jorge, que é o dono do hotel, mas, ele vai te responder que você não vai sair do hotel, ele não vai te aumentar o ordenado, ele vai te convencer e você vai continuar no hotel.” Eu falei: “Mas, puxa, por que o senhor acha, a diferença de salário é muita.” Ele disse: “É a diferença de um tratamento, da família com você é outra coisa. Lá você vai ser um funcionário do hotel e você está sendo tratado como da família.” Aí fui falar com o Jorge e o que ele falou, o outro repetiu: “Não, você não vai sair, o hotel não tem condição de te pagar mais, mas você., talvez, você poderá ser o dono do hotel um dia. Por que não? Então você tem essa opção para você ver o que você quer. Se você acha que você deve ir para lá, você recebe um abraço, se você acha que deve ficar no hotel, você vai receber dois abraços. E você está ganhando um irmão, que sou eu.” Que era o Jorge. Então foi aí que começou, continuei trabalhando no hotel normalmente, como empregado dele. Depois de alguns anos que ele me chamou e falou que eu era... Então deixei de receber o convite do outro hotel e fiquei nesse. Então, foi graças a esse... graças à Deus de eu ter confiado no dr. Hilton e o Jorge ter dado essa força.

 

P/2 – E no coração... o senhor acabou seguindo...

 

R - Acabei seguindo o que achava que realmente era aquilo que queria. Eu queria ficar no hotel que era meu. Sentia... já trabalhava sozinho, já tomava conta sozinho, não tinha que dar satisfação para ninguém, então, você toca o negócio à vontade.

 

P/1 – Como o senhor aprendeu a tocar um hotel assim? Da onde que veio tudo...

 

R - Você sabe o que acontece? Quando você trabalha com amor, aquilo que você quer realmente fazer, então você consegue. Porque é o que eu queria, eu gostava do hotel, sabia como tratar, então fui aprendendo. Como falou para mim o gerente, aquilo era uma escola e é essa escola que aprendi, que foi., os hóspedes me ensinaram a trabalhar.

 

P/1 – O que é o segredo de trabalhar bem num hotel?

 

R - O segredo de trabalhar bem no hotel, é você ter dedicação, saber atender as pessoas, você ser sempre, não ser superior ao hóspede, ser sempre antes do hóspede, então, acho que é isso que tem que fazer, é uma dedicação total para ter o sucesso.

 

P/1 – E até o seu jeito de atender ficou conhecido, assim, na cidade? O pessoal freqüentava o hotel, o pessoal voltava? Quem eram os hóspedes?

 

R - Ah, nós tivemos muitos, hóspedes demais. Então, todos hóspedes para mim são hóspedes importantes. Da mesma forma que trato o hóspede que fica no quarto, o hóspede no apartamento de luxo. Para mim, são todos iguais, então a gente procura dar esse tratamento ao hóspede, o que atrapalha um pouco, às vezes, é um funcionário que não está muito bem, mas você tem que ensiná-lo também a ser da mesma família. Você tem que pôr o hóspede como se ele pertencesse à família. Porque o hotel não é um hotel grande, é um hotel médio, mas ele não é tão comercial, ele é mais familiar. Então, o que acontece? Você coloca o hóspede sempre... ele é o principal para você. Eu faço isso, o hóspede é o principal para mim, ele que toca o hotel. Quando o hóspede vai reclamar, não aceito aquilo como reclamação, aceito como sugestão, como colaboração. Porque ele está colaborando comigo. Eu não enxergo tudo, então o hóspede, chega, reclama e aceito, tenho que acertar, conversar com ele, e ver se tem condição de melhorar o que ele está reclamando. E quando reclama é porque alguma coisa está errado. E tem, também, os que fazem elogios, né? Esse é o pagamento maior que a gente tem. Então, quando o hóspede faz elogio: “Olha, o teu hotel é maravilhoso e tal”, isso me empolga muito, porque é a única coisa que tenho, é aquilo lá, então, o hóspede falando, quando ele é sincero que fala mesmo, fico feliz. Porque daí você sente o astral elevado, fica todo...

 

P/2 – Deixa eu perguntar uma coisa que estou curiosa, a sua mulher, o senhor conheceu no hotel também?

 

R – Não. Não, a minha mulher é interessante...

 

P/2 – Mudou de assunto.

 

R - Não é , é interessante. Minha mulher era funcionária do Banco Auxiliar e o gerente do Banco Auxiliar morava comigo, que foi, por sinal ele hoje é meu compadre, é meu amigo, mas ele sumiu, sumiu de uma forma que ninguém sabe onde ele está. Mas o que acontece? Naquela época ele era o gerente mais novo que chegou em Araraquara, ele era mocinho de tudo e ele já era gerente do banco, e minha mulher era funcionária do banco. Aí eu ia toda tarde no banco, não ia lá para depositar, ia lá para ver a moça, né?

 

P/1 – Por que? O senhor achou ela bonita?

 

R - É, sei lá. Eu tive tanta namorada e ela foi diferente. Aí cheguei, olhei., olhava para ela... não deu a mínima. O gerente do banco falou assim, chamou do lado e falou assim: “Se você vem aqui no banco para começar a paquerar as moças, você não vem mais aqui, heim.” E falei: “Você larga disso daí que...” Aí começamos a brincadeira, mas foi uma coisa curiosa, porque fui., ele pediu para eu fazer um favor para ele em Matão, levar um dinheiro lá, e fui, peguei o carro e fui em Matão com um amigo. Mas chegando lá em Matão roubei uma flor de um jardim de lá, sabe? Aí trouxe, ele falou: “Caiu do carro no caminho...” Parei, peguei a flor e trouxe, cheguei lá no banco, o que fiz? Fui lá e chamei ela do lado e dei a flor para ela. Ela falou: “O que você está querendo com isso daí?” Eu falei: “Nada. Não estou querendo nada.” Mas você sabe que o nosso namoro foi muito interessante... E eu não tinha carro, então era o motorista dele, enquanto eles paqueravam de um lado, eu paquerava do outro, estava aquela coisa, então, todo dia no jornal, ele não tinha o que pôr então ele punha assim: “Joaquim com fulana de tal.” E todo dia eu saía com uma fotografia diferente, todo dia era uma moça diferente, cada festa era uma moça, eu não levava a mesma moça, como ia apresentar a moça na festa, né? Aí quando fui falar com a Mirna: “Deus me livre! Eu não quero saber de você, não. Namorar por quê?” Aí começou, sabe? Ela não queria saber de mim. Aí um dia cheguei e falei “Vamos jogar um boliche?” “Se você tiver coragem de jogar um boliche você vai me buscar na minha casa.” Aí pronto, taí a moça que está difícil.

 

P/1 – Aí o senhor encantou, né?

 

R - Aí encantei. Fui lá na casa dela buscar, sozinha, subiu no carro, falei: “Êpa, tá bom! Tá bom demais.” E fui e ela falou “Você pode fazer o favor de passar em tal lugar?” Passei no Colégio Progresso, que tinha as moças todas internadas aí, elas moravam aí. Abriu a porta e me encheu o carro de moça. Então hoje ela comenta: “Pensa que você tá... você estava com outros pensamentos, né?” “Até que eu fui trazer essa moçada tudo junto com você no seu carro.” Aí fui lá para o baile com aquela trempa de moçada, e tive que pagar tudo aquilo, sabe. Falei “Tá bom.” Aí quis mostrar que eu era, era o... aí fomos. Passou um dia, dois dias, três dias e nada, falei: “Pôxa vida!” Aí, ela começou diminuir as amigas, passou para quatro, para três, para dois, até confiar e sair comigo, mas então, não queria saber, não. Eu vinha no banco: “Pode voltar.” Eu achava tão fácil com as outras, né? Porque sempre fui um namorado diferente, não tinha horário para buscar a moça e sempre gostei muito de restaurante, não era de sair para ir no cinema, no jardim, não gostava. Então, a gente ia para o restaurante e ficava lá sentado, conversando, tomando, se ela bebia alguma coisa ou não bebia, porque não gosto de beber.

 

P/1 – Não?

 

R - Não. Eu só tomo água ou refrigerante. Então, elas falavam: “É, você está com arte, por que você não bebe?” Eu falei: “Eu não bebo porque não gosto.” Então nunca bebi.

 

P/1 – E que restaurante o senhor gostava de ir?

 

R - Aqui tinha, naquela época, que comecei namorar a Mirna, nós tínhamos Restaurante Internacional, que hoje é Restaurante do Sul. O Restaurante Internacional, foi montado aqui em Araraquara para ter infra-estrutura, também, porque os rotarianos resolveram fazer, aquilo lá é do Rotary, então, era um restaurante internacional, mesmo, era um restaurante fino. O maitre era muito amigo da gente e ele ligava: “Olha Joaquim, vem sentar, fazer pelo menos uma salinha, ver alguém sentado, e entra”. Porque ninguém ia no restaurante.

 

P/2 – Por quê?

 

R - Porque era muito fino.

 

P/1 – O pessoal ficava com medo?

 

R - É com medo, achando que era muito caro e tal, porque os pratos deles era tudo, então ele era muito bom papo, não tinha o que fazer, saía do hotel e ia para lá. Aí ficava à noite conversando com ele lá, até onze horas, meia noite. Ele era um maitre muito eficiente, ele fazia uns pratos deliciosos, sabe? Então ele falava: “Ah, vem aqui.” E a gente ia lá para bater papo com ele, ficava lá, ou a gente ia para o 22 de Agosto, dançar.

 

P/1 – 22 de Agosto era um clube?

 

R - É clube ainda. Aqui tem um Clube 22 de Agosto.

 

P/1 – Por que 22 de Agosto?

 

R - Porque é o dia do aniversário da cidade, foi fundado no dia do aniversário da cidade. Que a cidade fazia aniversário em vinte e dois de agosto. Aí sim, depois, quando foi fundado um clube aqui na cidade, o Clube Náutico, aí comecei levar a Mirna lá. Tinha fundado o clube aqueles dias, sabe, e lá era assim, tinha uma regra violenta, não podia levar moça, não podia... só podia ser casal, tudo cheio de coisa, sabe? E comecei levar moça, eles me chamaram lá, porque o título não vendia para solteiro, só para casado.

 

P/1 – E o senhor conseguiu um título?

 

R - Eu consegui esse título assim. Quando foi o lançamento, entrei com a proposta, fui recusado e não falava porque. Eles não têm obrigação de falar. Aí, saiu a segunda leva, entrei novamente, recusado novamente. Aí fui lá falar com o presidente “Presidente, o que acontece?” Ele, como passou ser muito amigo “O que acontece? Você é muito namorador, você vai encher meu clube todo dia com uma moça diferente e você é solteiro, não pode. Mas nós vamos dar um jeito.” Aí deram um jeito. Quando fundaram o clube, foi feito um restaurante de tábua, muito antigo assim, e levei a Mirna, primeira vez que levei a Mirna lá no clube. O presidente foi lá na mesa e falou assim: “Amanhã você faz o favor de me procurar na minha casa comercial” , que é o Palácio da Borracha. Eu falei: “Ué, senhor Armando, por quê?” “O senhor me procura lá.” Aí fui lá no dia seguinte, na segunda-feira. Ele disse: “Olha, o negócio é o seguinte, o clube foi fundado para casais, com muito respeito, e você já levou uma moça, amanhã você leva outra moça, depois de amanhã você leva outra moça, e como é que faz?” “Não, não é assim, também. Eu estou namorando essa moça, agora é sério o negócio.” “Sério o negócio? Então é o seguinte, a partir de hoje você é diretor social do clube. Eu quero ver você levar outra mulher lá.” Entrou a força, né? Mas, foi assim que acertei e comecei a freqüentar com a Mirna o clube e tal. Mas a Mirna é completamente diferente da...

 

P/1 – Como é que ela é?

 

R - Ela é uma mulher diferente, por quê? Porque quando entrei no social, no clube, e hotel, me dá toda essa liberdade de eu chegar e cumprimentar, ela viu como trato as pessoas, não só hóspede, então, não sei, sinto um carinho diferente. Então chego lá, beijo ela: “Olá, tudo bem?” “Tudo bem.” É tratamento meu já, sei lá. A Mirna, também é a mesma coisa, sei lá, no clube, todo o pessoal me beija lá, porque é um cumprimento que eu acho afetivo, eu acho, e ela nem se importa. Meus amigos passam na rua e beijam ela e não tem nada, então nós não vemos, como tem pessoa que acha que beijo é, né, acho um cumprimento muito...

 

P/1 – Mas ela se importa ou não se importa?

 

R - Não, não importa.

 

P/1 – Ah, então ela é uma mulher bacana, assim?

 

R - É, ela não se importa.

 

P/2 – Não existe aquela coisa do ciúmes?

 

R - Não, nada. Acho que foi um cumprimento muito... não tem. E aí foi, o namoro foi seguindo, namorei seis anos e o pai dela...

 

P/1 – E ela trabalhava esse tempo todo?

 

R - A Mirna trabalhava no Banco Auxiliar, depois, nós casamos.

 

P/1 – Aí o senhor parou de namorar?

 

R - Não, é interessante que quando nós namorávamos, ela estudava no IEBA e o IEBA tinha uniforme, saia azul e tal, eu fui brinquei com ela o negócio de uniforme, né, “Nossa, esse vestido curto com estas pernas e tal.” E ela pegou e falou: “Tá, não vou estudar mais.” Então, ela parou de estudar, mas aí apareceu o Madureza, que hoje é vestibular, naquele tempo era Madureza e ela fez. Ela foi fazer Madureza, passou e entrou na faculdade e aí nós casamos. Resolvemos casar: “Vamos casar.” Num mês resolvi casar, namorei seis anos e resolvi casar num mês. Ah... ficar perdendo tempo. Eu tinha uma casa construída na Fonte, estava a casa fechada. Então, nem ficamos noivo nem nada, nem falei com o pai dela que ia casar, nada. “Que tal se a gente casar daqui um mês?” Ah aprontei o papel...

 

P/1 – Mas o que deu na sua cabeça para casar num mês?

 

R - Não sei. Foi que achei tanto tempo, né, ficar junto, ir pra lá e pra cá, ir pra lá e pra cá, então, vamos ficar logo juntos de uma vez, casa e... Aí ela foi fazer faculdade. Ela fez faculdade e trabalhava no banco. Ela trabalhava...

 

P/1 – Depois de casada?

 

R - Depois de casada. Ela ficou muito tempo, nós casados e ela trabalhando no banco. Aí ,teve dois filhos. Antes de ter os filhos, todas as noites a gente se encontrava, eu esperava ela sair da faculdade e a gente ia para o Restaurante Dom Manoel, que era o único que tinha aqui na cidade, o Dom Manoel era muito gostoso, que é hoje na Integração, então toda a noite a gente ia lá, encontrava e depois ia para a casa.

 

P/1 – Vocês jantavam juntos, então, no restaurante?

 

R - Junto, é. E os professores, amigos, os advogados, estavam todos juntos.

 

P/1 – Ela estudou o quê?

 

R - Direito.

 

P/2 – Aonde que ela estudou?

 

R - No São Bento. Era o São Bento, agora é Uniara. Aí ela se formou, quando se formou, se formou com dois filhos. Eu tomava conta dos filhos e ela ia estudar, voltava e foi assim. Depois nasceu mais dois filhos, nós temos quatro filhos, dois homens e duas mulheres e graças à Deus o Joaquim, meu filho, já fez Faculdade de Turismo, tem uma agência aqui em Araraquara. O Douglas agora resolveu estudar, foi fazer vestibular em São Paulo e passou na Faculdade de Hotelaria, em São Pedro, já vai seguir o pai. E tenho uma filha que se formou em História, é professora de História e tenho uma caçula com 19 anos, que está estudando, ainda fazendo o colegial.

 

P/2 – E o senhor tem neto?

 

R - Não, nenhum deles casaram. O Joaquim está com 28 anos e não quer casar, taí, namorando, vai seguir o pai, porque também demorei muito tempo, casei com 28 anos... com 38 anos.

 

P/1 – O senhor começou a namorar ela, então, o senhor tinha 32.

 

R - 32.

 

P/1 – Quando o senhor ganhou o hotel, quantos anos o senhor tinha?

 

R - Já tinha... faz 14... 84, faz quinze anos, né? Há quinze anos atrás, 67... 52. É mais ou menos essa época. É o que te falei, que 84 surgiram todas...

 

P/1 – 84 foi o ano que tudo...

 

R - É, acho que graças a Deus tudo deu certo, sorriu, mês de maio.

 

P/1 – Senhor Joaquim, agora vamos voltar um pouquinho para trás, para o senhor contar mais sobre quando o senhor começou no hotel, o senhor falou que o hotel teve três fases. E essas fases tem a ver com o tipo de hóspedes que teve no hotel? O que foi a história dos hóspedes no hotel?

 

R - É porque, o hotel é o seguinte. Quando cheguei aqui em Araraquara, no hotel, ele era um dos melhores hotéis da cidade, mas era ainda popular porque não tinha banheiro, todos os quartos eram quartos comuns. Em 60, foi transformado em banheiros, colocaram os banheiros, só que naquela época de colocação de banheiros não foi muito bem estudado, quer dizer, foi feito os banheiros, mas sem um requinte total. Eu falo requinte hoje, porque, naquele tempo gostei. Fiz o banheiro no quarto, ficou um apartamento. Então, depois teve a fase de trocar os móveis, porque o hotel estava com os móveis antigos e o pessoal vinha e falava que não ficava no hotel porque era muito antigo, porque tinha inaugurado um hotel próximo do nosso. Então, esse hotel, os hóspedes foram todos para lá porque ficou somente aquele hóspede tradicional mesmo, aquele que gostava do hotel e vinha porque tinha., nós tivemos uma fase, uma época, em que tinha aí uns vinte hóspedes que você sabia a hora que ele ia chegar, o dia que ele ia chegar e o dia que ele ia sair.

 

P/1 – É mesmo? E o que eles vinham fazer na cidade?

 

R - Viajante de laboratório, vendedores de ferro, tinha, todas as atividades. Então a gente já sabia o trem, porque aquela época tinha o trem. Então sabia a hora que o trem chegava e sabia a hora que ele ia chegar, tinha já a marca, não precisava nem marcar na agenda, porque ele vinha mesmo. Esses ainda ficaram algum tempo, depois foram...

 

P/1 – Vendedores de tecidos o senhor falou também, né?

 

R - É.

 

P/1 – E de coisas de alimento, gente para comerciar café, também, não?

 

R - Não, a comercialização de café foi anterior. Antes de eu chegar no hotel, porque antigamente fazia., o hotel da cidade foi construído exatamente para receber os compradores e vendedores de café. E mais era de Santos que o pessoal vinha para Araraquara. Esse não foi o meu tempo.

 

P/1 – Foi de que época, isso?

 

R - Essa época é de 30, 32, 35, porque aqui era região de café, tanto é que esse hotel foi construído para ter infra-estrutura na cidade. Os políticos que vinham para Araraquara, sentiam falta do quê? Falta de hotel e de outra atividade. O que seria? Hotel, o clube e o Teatro Municipal, que era tudo numa praça só. Então o Teatro Municipal tinha as grandes companhias que vinham para cá, para o teatro, o clube já do lado, que recebia todo o pessoal e o hotel que era um conjunto.

 

P/1 – Tudo foi construído na mesma época?

 

R - Na mesma época.

 

P/1 – Para dar essa infra-estrutura para o café?

 

R - Para o café. Então, as famílias vinham para Araraquara, as famílias ficavam no hotel e os senhores saíam fazer compras ou degustação de café, o sabor.

 

P/1 – E quando o senhor chegou no hotel, o tipo de hóspedes já eram esses viajantes.

 

R - Já era diferente. Já eram os viajantes de laboratório, viajante de tecidos como te falei, tinha mais, e outros comerciantes que vinham para a cidade fazer negócios. A Nestlé tinha inaugurado, vinha muito representante, pessoal da Nestlé trabalhar. Vinham todos os suíços, ficavam no meu hotel.

 

P/2 – O senhor falou assim, os políticos, as grandes peças que ficavam também, o pessoal também ficava no hotel?

 

R - É.

 

P/2 – O senhor lembra de personalidades que chegaram a ficar no hotel?

 

R - Bom, na minha época em que estive no hotel, estava passando por Araraquara, quem passou por aqui foi o Fernando Henrique Cardoso, ele namorava a dona Ruth que morava pertinho aqui, morava perto do hotel, uma quadra do hotel. Essa sim, eu conheci. O Juscelino Kubitschek, quando veio fazer a campanha dele, também. O Jânio Quadros, Adhemar de Barros, Laudo Natel, o Tenório Cavalcanti, que era terrível, andava com uma capa e com a Lourdinha, que era o revólver dele. Esse sim, quando chegou no hotel, todo mundo desesperado: “Olha aí, quem está chegando.” Então, são os políticos que a gente conhecia, que fiquei conhecendo na época, né? Esse pessoal tive oportunidade de falar com eles. E de companhia de teatro, vieram muitos aí, o Procópio Ferreira.

 

P/1 – E o pessoal ficava no hotel, também?

 

R - É. Porque não tinha outro lugar para ir.

 

P/1 – Quer dizer que esse é o primeiro hotel da cidade?

 

R - Não, não é o primeiro, ele foi um dos primeiros grande, porque tinha menor, o São Bento, o Grande Hotel e mais três hotéis que tinha na cidade que foram demolidos antes da construção desse aí. Porque esse hotel, começou a construção dele em 15, em 19 foi inaugurado, na frente tinha um hotel. D’Oeste, parece. Eu vi isso na fotografia, agora há pouco tempo. Mas, esse era o hotel mais fino que tinha. Então você vê, desde futebol, quando a Ferroviária foi campeã e entrou na primeira divisão, vinham os grandes times e tinha que ficar no hotel, não tinha como, eles chegavam aí e tinha que aceitar. Imagina, esse hotel, se ele é bonito hoje, imagina 50 anos atrás. Ele era lindo, devia ser lindo, mas tinha muitos que não queriam ficar, jogador de futebol, principalmente, que era muito exigente, naquela época, entrei em 51 no hotel, 51, 52 começou a evolução da hospedagem desse pessoal. Quando anunciava que tinha baile de São Pedro no Clube Araraquarense, o hotel ficava lotado.

 

P/1 – O pessoal vinha de onde?

 

R - Vinha de São Paulo.

 

P/1 – Vem de São Paulo?

 

R - De São Paulo para ver esse baile. Era um baile famosíssimo, então, o hotel já estava reservado todinho, mesmo porque, já vinha a orquestra que ia tocar aqui, porque não tinha como voltar. Hoje eles vêm e voltam, não é? A orquestra quando é daqui de perto, São Paulo, porque antes não, antes só falava “Orquestra do Rio de Janeiro, orquestra de São Paulo.” Então, vinham aquelas orquestras, tinham que ficar. Hoje ainda tem algumas que ficam, alguns que vêm de cidade mais distante 1 ainda fica, mas já dividido, hoje tem o Eldorado, tem mais outro hotel. Então dividiram o de orquestra, mas... Mesmo assim, ainda no Teatro Municipal de hoje tem peças que o pessoal fica no hotel. A semana passada mesmo, recebi onze pessoas do teatro, foi a peça “Noviça”. Sábado agora, recebo o pessoal da Espanha, um show que vai ter da Espanha, então, eles vão ficar no hotel. Tem uns que gostam do estilo do hotel, acham que o pessoal vai ficar bem e vai. Você vê, a Faculdade de Filosofia, que trazem todos os palestrantes aqui ou que vão fazer parte da mesa julgadora, fica no meu hotel, porque eles sabem que chegam lá e vão se sentir bem. É, tem hóspede de todo nível, né? Tem umas moças também, né?

 

P/1 – Como é que é?

 

R - Tem umas moças do Museu, também. Não sei porque gostaram do hotel. Não sei se gostaram, mas estão lá comigo.

 

P/1 – O senhor disse que começaram a modernizar o hotel, mudou os móveis do hotel e agora o senhor está retomando, tem um museu no hotel. É da sua cabeça isso?

 

R - É. Foi, mas sabe como foi? Quando nós tiramos os móveis, aqueles móveis antigos, passamos descartáveis, porque um arquiteto chegou e disse: “Olha, se você não modificar, você perde todo o hóspede.” Aí modifiquei, dei os móveis antigos, troquei por móveis descartáveis e agora depois de muito tempo nós estamos fazendo o restauro nos apartamentos. O que aconteceu com o restauro? O restauro foi um negócio muito curioso, porque eu estava no hall do hotel e apareceu duas moças e queriam conhecer o hotel, aí vamos lá conhecer o hotel. Mostrei o hotel e tal ela falou assim: “O hotel é muito lindo, a arquitetura é muito maravilhosa, mas você não acha que está faltando alguma coisa no seu hotel?” Eu falei: “Realmente está faltando, está faltando um toque feminino.” Você tinha que falar isso para ela porque eram duas moças, tinha que falar, né? “É que estava faltando um toque feminino aqui, precisa dar né, porque é só eu de homem aqui, não entendo nada disso aqui.” Aí ela falou: “Então, você está falando com a pessoa certa, nós somos arquitetas de Campinas e estamos passeando aqui”. Que por sinal, são duas moças fabulosas, elas são como se fossem da minha família, entraram já, que é a Denise e a Inês. Estas moças foram embora, não falaram mais nada, despediram e foram embora, depois de um mês e meio, dois meses, vieram e me chamaram lá no meu escritório e falaram assim: “Escuta, você topa fazer alguma coisa no hotel, se nós apresentarmos um projeto?” Eu falei: “Depende do projeto.” Mas eu não calculava que ia ficar desse jeito. Então, ela me mostrou o projeto, achei muito lindo o projeto, ela falou: “Então, vou chamar alguém, vamos começar, para depois entrar numa parceria.” Porque com o tombamento do hotel, que agora é tombado pelo Patrimônio Histórico. E o prédio não pertence a mim, o prédio pertence à Prefeitura.

 

P/1 – Ah, é?

 

R - É, o prédio é da Prefeitura.

 

P/1 – Por que o prédio é da Prefeitura?

 

R - Porque foi a Prefeitura que construiu na época em que precisava de infra-estrutura para a cidade.

 

P/1 – Então, só um minutinho, a Prefeitura construiu, e porque o hotel era do Jorge Afonso?

 

R - Não. A concessão. A concessão do hotel. Você para montar, você pega o prédio e monta. Nós temos um hotel aqui da cidade, também, que é da Prefeitura. o Eldorado é da Prefeitura. Aí vem uma empresa e monta, então ela é a proprietária do hotel, locatária da prefeitura.

 

P/1 – Entendi.

 

R - Eu sou locatário do prédio, mas os móveis e bens são todos meus.

 

P/1 – Tá.

 

R - Então na época que construiu, a Prefeitura teve que construir o hotel, o teatro e o clube. Agora o clube já é doado para a cidade. Aí, essas moças vieram e mostraram o projeto e gostei do projeto e é isso que nós estamos fazendo no hotel. Então, quando foi tombado pelo Patrimônio Histórico, nós temos condição de conseguir algum patrocínio, é o que nós vamos tentar. A gente foi junto com a Prefeitura para ver se a gente faz. Porque a Prefeitura tem uma diretoria que toma conta dos bens dela, que é a S.A. Então eu não falo com a Prefeitura, falo com esta diretoria, que tem presidente e tal, e esse presidente é que faz essa ligação. E ele concordou, em parte, me ajudar... em fazer este restauro, porque o restauro fica muito caro, é muito difícil e é muito demorado. Tanto é que nós estamos já um ano e pouco e conseguimos fazer só três apartamentos. Porque você tem que ir atrás dos móveis, de tudo, é restauro total.

 

P/1 – O restauro é refazer o hotel como ele era antes? Essa é a proposta?

 

R - Esta é a proposta. Mas, por enquanto, dentro dos apartamentos, que não pode mexer. Agora com o tombamento não pode mexer na estrutura mais, né? Mas tem coisa que tem que mexer, porque tem que voltar o que era o hotel, a porta, a entrada, aquelas coisas. Mas isso aí nós vamos devagar. Eu, se continuar firme... a gente daqui a pouco não tem... então, o que acontece? A cidade vai ficar recebendo hóspede de toda a categoria, para voltar. Porque estou sendo um pouquinho, tiraram o meu hotel da rota do hóspedes, por quê? Tem o Eldorado, tem outro hotel... então o meu ficou... como ficou? Médio. Com este restauro, o que nós vamos fazer? Com este restauro, nós vamos trazer as pessoas, resgatar a memória da cidade. Então, o que você?... pega uma jovem aí, “O que era um hotel antigo e bonito?” Ela vai lá ver o restauro. Ela vai querer ficar lá no hotel para ver como é o hotel. Não é? Então, essa é a proposta das moças, dos arquitetos comigo e eu com a diretoria.

 

P/1 – E o senhor está procurando uma parceria para financiar o restauro?

 

R - É. essa parceria é mais é patrocínio. Tem empresas que vão ver o que está sendo feito, como está aplicando... que nem um showroom, eles não colocam um showroom, as peças e tal e mostram para o pessoal, o pessoal compra porque viu e achou bonito, então ela vai ver o showroom funcionando. Não é isso? Então o hotel está funcionando, a pessoa começa a ver as peças e tal e a empresa se interessa. É o que nós vamos atrás agora, porque, sozinho é difícil.

 

P/1 – Esses quartos que o senhor já fez, o senhor fez sozinho?

 

R - Esses três quartos fiz sozinho. Três, não, quatro. Tem três apartamentos e um quarto. Então, o que tem? Eu tenho um quarto no hotel que é exatamente o que era antigamente, não tem banheiro, mas já tem. tem televisão, né? Aquele tempo não tinha televisão. Mas é um quarto com cama patente, com móveis antigos, esse está quase terminando, fiz por minha conta sozinho. E é difícil. O retorno, se eu aplicar tudo isso, o retorno não é para já. Esse retorno é para alguns anos. Mas tem uma coisa, daqui a quarenta anos, você vai no hotel e é a mesma coisa; é essa beleza que você vai ver hoje. Porque não tem como mais, é piso hidráulico, é as peças, são tudo muito assim, um trabalho muito...

 

P/1 – A parte financeira do hotel administrar, ele melhorou, piorou, como é que mudou?

 

R – Olha, nós tivemos uma época, quando passaram o hotel, eu falei em 84 passaram o hotel para mim, como é que foi? A coisa foi tão perfeita e tão boa que troquei todos os móveis, coloquei toda televisão nos apartamentos, fiz uma série de coisas e sobrava dinheiro, e a diária é “x”. Hoje o hóspede, quando entrou o Collor que falou: “Vocês têm que regatear, regatear, regatear...” foi aí que começou o negócio, o hóspede aprendeu a negociar. Então ele chega no hotel, antes ele perguntava: “Tem lugar?” Hoje não, ele pergunta: “Quanto é?” Então, é uma diferença, porque se tem o lugar você dá o lugar e acabou, você faz a ficha e lança a diária. Hoje não, hoje você tem que, então, nesse apartamento restaurado, não. O hóspede entra: “Adorei, vou ficar nesse.” Não pergunta quanto é. Também, é claro, que você não explora, tem a diária fixa dele, né? Mas o hóspede se sente bem, é aquilo que ele quer e pronto. Esse restauro vai ser importante e o retorno não vai ser fácil, vai demorar. Mas fiquei 48 anos desse jeito, posso ficar restaurado mais 48 sem ganhar. Aí mudo lá para o 138 e está ótimo (risos). Não é isso?

 

P/1 – O senhor estava começando a contar uns casos que aconteceram no hotel, consegue lembrar de algumas histórias? Uma era de futebol.

 

R - Do futebol. O futebol, passaram muitas equipes lá com nós, sabe? Palmeiras, na época do Palmeiras. São Paulo, Corinthians e tal. Mas uma passagem interessante foi quando nós tínhamos aqui em Araraquara uma ala esquerda muito formidável, era Bazani e Boquita. Mas quem era o bom jogador? O Bazani que era o craque que era o camisa 10, Aí vem o representante do Corinthians aqui, autorizado a fazer compra do Bazani. E não sei como foi lá no hotel, como foi a transação que teve, antes dele comprar o Bazani ele comprou o Boquita. E o cara ligou para São Paulo: “Tá fechado o negócio, grande negócio.” “O que foi?” “Fechamos com o Boquita” O cara lá também não entendeu e ficou por isso. Ele veio comprar um jogador e levou outro, aí teve que voltar e buscar o 10 mesmo, que era o Bazani né? Porque chegou lá e o técnico, era Senhor Osvaldo Brandão, falou: “Mas não mandei comprar esse jogador, mandei comprar outro.” Aí teve que comprar a ala, porque já estava comprado mesmo. Então teve que levar os dois, levou o Bazani e o Boquita e essa transação foi feita no hotel, no salão de refeição, porque naquela época nós tínhamos restaurante, depois nós fechamos o restaurante, e agora nós reabrimos novamente. Reabrimos novamente para dar conforto ao hóspede, mas lá no hotel, naquela época, foi feito casamentos finíssimos, teve jantar, teve até o jantar de políticos, teve aqui no hotel. Banquete.

 

P/1 – É? De que político que teve, o senhor lembra?

 

R - Eu não me lembro, teve um almirante aí, não me lembro qual é o nome, tinha até inclusive os cardápios feitos, tenho lá guardado algum cardápio, mas esse cardápio é de 45, eu não estava no hotel ainda. Tem lá, dos políticos que passaram por lá.

 

P/1 – O senhor tem lembrança assim do dia que deu mais confusão, que tinha muito hóspede, alguma coisa assim que o senhor ficou bem nervoso para resolver lá no hotel?

 

R - Bom, tivemos uma porção. Teve uma época aqui, chamava-se época da Madureza, que eu ainda falei que minha mulher fez Madureza. Madureza, vinha alunos de todo lugar, aí dava confusão porque todo mundo queria dormir no hotel e não tinham lugar, então, eles invadiam, sabe? Você tinha que ficar na portaria, que um avisava o outro “Pode subir, entrar tal hora que não tem nada, não.” Então, no quarto de um dormia três, quatro, cinco no chão. E daí, eu ia fazer o quê? Não tinham onde dormir, tinha que tomar banho. Eu não punha segurança, na época, no hotel. Então deixava o pessoal à vontade. Naquela época, veio a Hebe Camargo aí “Ah, o senhor tem que dar um jeito.” Ela me deu um perfume de presente para arrumar um lugar para uma sobrinha dela. Então, são passagens que a gente... Quanto faz, vinte, trinta anos por aí, então, teve também essa fase, mas nunca teve no hotel muita confusão, não. Não teve muita...

 

P/1 – E quando começaram abrir outros hotéis começou a rarear os hóspedes do hotel?

 

R - Sim, porque você sabe, o bolo foi dividido. Por enquanto, a parte era só minha, hoje é todos, né? Todos os hotéis têm hóspedes, embora tenha aumentado o número de pessoas que tem ido para Araraquara. Mas o pessoal vem, tem um nome novo, então a pessoa chega lá e vê um nome diferente. “Vão lá prá esse nome novo.” Tanto é que o nome fantasia do nosso hotel não mudei ainda, não vou mudar, porque vou bater nesse nome mesmo. É Municipal, é Municipal, porque podia mudar, então, vamos dizer, coloco um nome completamente diferente, a pessoa chega lá e vê “Nossa, vou chegar lá e ver um hotel cheio de vidraças e alto, aí chega no meu hotel e vê uma coisa diferente, aí ele foi levado pelo nome. Então, nós estivemos pensando, também nisso daí, mudar o nome fantasia.

 

P/1 – Quantos hotéis tem hoje na cidade?

 

R - Grande, hotel grande, tem só quatro na cidade e pequenos têm bastante, pequenos têm uns dez. Tanto é que agora vai ter Jogos Abertos e pertenço ao Sindicado dos Hotéis, Bares e Similares, e nós tivemos fazendo levantamento, o que é que podia acomodar. Porque não é só as acomodações, que vêm 145 cidades para cá. Com mais de 15 mil pessoas. Então a preocupação do Sindicado dos Hotéis, é o seguinte... é ter infra-estrutura para esse pessoal todo, é bar, lanchonete, restaurante, é hotel, então nós estamos preocupados com isso daí, nós estamos vendo o que é que podemos oferecer. Então, cada hotel mandou uma relação do que é que ele pode acomodar. Porque a delegação vai para os colégios, colégio particular e colégio do estado, mas vem a família e a família tem que ficar em algum lugar. E as equipes boas, as equipes fortes que sabem que vão chegar e ganhar, eles não ficam em alojamento, eles ficam em hotel, porque são pagos, patrocinados pelas grandes empresas, então, eles vêm para ganhar mesmo, eles não vêm para, então eles ficam bem alojados, né? E nós tivemos que oferecer essa hospedagem para o pessoal.

 

P/1 – É paga essa hospedagem ou é...?

 

R - É tudo pago.

 

P/1 – O tipo de sócio hoje em dia é, vem para jogo, que mais? Tem ainda muito viajante, qual é o tipo de hóspede que tem no seu hotel hoje em dia?

 

R - Tem, nós temos diversos, porque, nós temos professores das faculdades, nós temos alguns viajantes, tem pessoas que vêm fazer algum tipo de comércio na cidade, mas tem vindo, sim. Tem, tem dado... não dá 100%, como era antigamente, mas hoje com 50%, 40%, 90, 60%, 70... o que quer dizer 60%, 70%? A lotação do hotel existe para apartamento de uma cama, de duas camas e de três camas. Então, quando diz 100% é quando de três é três, quando de dois é dois. Agora, tem dias no hotel que não faz isso daí, o apartamento de dois pode ficar um, ele não tem companheiro, vai ficar sozinho, vai pagar o valor de uma pessoa só, que é ainda o tipo antigo. Que o tipo moderno de hospedagem é assim: o apartamento tem duas camas, se você ficar sozinho, você paga duas camas, se você ficar em dois é o mesmo valor, então, não tem diferença. Isso são redes grandes que é comercial mesmo, já sabem... o pessoal que sai para... os executivos que saem para essas cidades, já sabe que vai pagar isso daí. Então, você sai numa excursão, já sai de pacote fechado, já sabe que vai ficar dois no apartamento, se ficar um, vai pagar dois. O nosso hotel como é mais familiar, doméstico, ele não. Tem dia que tem apartamento de três camas, chega uma pessoa só, não está lotado o hotel, é amigo da casa, é freguês da casa, você não tem... não pode recusar, você tem que dar o apartamento e cobrar uma pessoa só. É esse sistema do meu trabalho no hotel. Aquilo que você perguntou: “Como é que a gente cativa o hóspede?”. Então, se eu fosse um comerciante daqueles durão, eu não. Você chegou sozinho, não tem. Não tem, então não pode. Tem que acomodar o hóspede, tentar deixar ele bem acomodado. E quando não tem lugar, ligar para outro hotel melhor e solicitar, e quando ele faz reserva antecipada e não tem condição de dar lugar aqui naquele dia, aí você liga para um hotel do mesmo nível, você paga a diária no outro hotel e recebe do hóspede, aqui. Então, é esse tipo de trabalho que a gente faz.

 

P/1 – E isso é o que cativa o...

 

R - É, isso cativa o... porque você vê... você é uma hóspede, você chega no hotel, você está acostumada naquele hotel, você reservou, ou não reservou e chegou sem reserva e não tem lugar, a nossa função não é falar para você: “Está cheio, está lotado o hotel.” Não. Estamos com o hotel lotado, mas nós vamos tentar um lugar melhor. A gente liga para outro hotel, fala para não receber tal conta, pede para o sujeito vir pagar aqui no hotel. Mesmo que te cobre um pouco mais, mas a gente cobra a mesma diária do outro hotel. Então é, acho que é um trabalho que a gente faz, isso daí. Então, o que acontece? Quando pega funcionário que não estão preparado para isso eles não... agora, quando estou na portaria, que eu fico quase 24 horas por dia lá, trabalho, por isso que é hotel pequeno, mas que me dedico esse trabalho.

 

P/1 – Como é o seu dia-a-dia hoje, senhor Joaquim?

 

R - Meu dia a dia é chegar no hotel às sete horas da manhã, ficar até ao meio dia, ir almoçar, voltar a uma hora e ficar até seis, sete, oito, nove horas. Eu gosto do hotel, sabe? Eu vou ficar em casa vendo o quê? Televisão? Ou vendo o quê? Nada. Então fico aí no hotel, tem dia que tem 60 hóspedes, então tenho 60 livros. São 60 pessoas da minha família, que converso com todos eles e tem assuntos diferentes de todos os jeitos e passa a hora, do que ficar em casa vendo televisão, ou vendo novela, qualquer coisa assim. Sábado, domingo, tenho hora de lazer também, saio, viajo, tenho o clube, freqüento o clube, também sábado, domingo, à noite às vezes saio com a minha mulher, vou pescar.

 

P/1 – À noite?

 

R - À noite, então. Vou lá no clube pescar. Nós estamos preparados para ir no baile, eu falo: “O que você prefere, baile ou pescar?” “Pescar.” Aí a gente vai pescar.

 

P/2 – E a sua mulher vai junto com o senhor?

 

R - É eu que vou junto com ela, é ao contrário.

 

P/1 – E no hotel, ela já trabalhou, trabalha?

 

R - Não. No hotel, como você falou que tinha que contar coisas curiosas, né? No hotel é assim, quando a dona Leatrice, o Jorge passou o hotel para mim, não sei se me empolguei, falei qualquer coisa... falei para ela assim “O hotel é nosso, não é meu só, é nosso, só que palpite aqui, não.” E ela falou que não ia nunca mais... não ia dar palpite no hotel e realmente não deu. Por isso que nós nos damos bem. Porque ela podia querer saber o movimento, ela podia querer saber quem estava hospedado no hotel, ou deixar de estar. Então, dou cortesia para quem quero, quando o hóspede chega lá, ou é homem ou é mulher, seja o que seja, eu não... ela não sabe do movimento nenhum, ela não participa... ela não participou do hotel.

 

P/1 – E ela trabalha?

 

R - Ela trabalhou de Fiscal do Trabalho, por alguns anos, aposentou-se, embora achasse que não devia aposentar porque era muito nova, tinha que trabalhar mais. Levantou o escritório dela, ela tem um escritório de advocacia. Então, ela faz as coisas dela, não é forçado que ela tem que ir, ela vai porque gosta também. Ela não é caseira, não gosta de trabalhar em casa, mas gosta de fazer o que ela faz, ela gosta.

 

P/1 – E o hotel, então, é do senhor? O senhor que toca ele?

 

R - O hotel, eu tinha colocado o Joaquim e o Douglas junto. Mas o que acontece? O Douglas foi para a faculdade e o Joaquim foi para a agência de turismo dele. Então, mais daqui dois anos, quando o Douglas terminar a faculdade, que a Faculdade de Hotelaria, em São Pedro, é só dois anos porque é tempo integral, é como diz: gramática e prática, tem que trabalhar, ele trabalha lá, ele vai trabalhar. Por isso, que quando a pessoa sai dessa faculdade ele sai um verdadeiro hoteleiro, porque quem não sabe fazer, não sabe mandar. Então a pessoa tem que saber fazer. Que nem eu, sei fazer, limpo desde banheiro até a gerência, tudo faço no hotel e o que ele vai fazer lá nessa faculdade é isso. Então ele vai varrer quintal, vai limpar banheiro, ele vai trabalhar na portaria, na recepção, na gerência, trabalha na cozinha. Ele vem, apto a fazer qualquer serviço dentro do hotel. Espero que quando ele venha., como falou o professor do Joaquim quando terminou a faculdade, diz para ele o seguinte: “Você deve trabalhar no que é seu, sem ganhar nada e não trabalhar para os outros ganhando muito.” Então pode ser que esse professor também ia falar para o Douglas: “Vá para o teu hotel, trabalhar por tua conta.” Como fiz, o meu caso também. Não tive uma oferta? Tive uma oferta, mas eu optei pela outra. Então ganhei menos, mas trabalhei no que é meu. É a mesma coisa o Douglas, ele pode aceitar trabalhar no hotel dele sem ganhar muito, ou ser ambicioso e ir para um lugar grande. Quem sai dessa faculdade já sai com hotel... Transamérica, Maksoud, porque eles já têm uma lista. O professor lá, quando o aluno é bom, ele já está com o emprego garantido e o Douglas, tenho certeza que ele vai ser convidado, porque ele, além de ter qualidade ele gosta, ele e apaixonado por hotel. Então por aí você vê, a pessoa que tem vontade de fazer o que ele gosta de fazer, ele vai em frente. Tanto é que ele está na faculdade, ele discute com o professor. Então o professor outro dia falou: “Você entrou outro dia na faculdade.” Ele fala: “É professor, mas o senhor não está falando a coisa certa para nós.” Então você vê que ele gosta e eu ficava muito em cima dele, não dava colher de chá, não: “Você tem que ficar oito horas aqui dentro do hotel... quer ganhar? Quer ganhar salário? Você vai ganhar salário, mas vai trabalhar oito horas.” É por isso que acho que as coisas caminham por aí.

 

P/1 – E o Joaquim, o senhor acha que vai vim também, voltar para o...?

 

R - Não, não volta. O Joaquim tem a agência dele e já está botando na cabeça que tem que ser eco-turismo, já está passando por dificuldade agora, mas acredito que ele saia bem. Porque a agência dele é pequenininha, bonitinha e é por aí que ele começa, jovem, tem muitos hoje está cheio de jovens que quer ir para coisa diferente, quer fazer trilha, quer fazer rappel, quer fazer descida das águas das quedas não sei das quantas. Quer dizer que ele está dentro disso daí. E ele faz, ele sai todo domingo.

 

P/1 – Senhor Joaquim, o senhor tem também lá no hotel uma barbearia, foi o senhor que colocou a barbearia lá?

 

R - Não, quando foi inaugurado o hotel, foi inaugurado um cafezinho do lado, que está fechado hoje, mas está para reabrir. Um cafezinho, que no contrato que a Prefeitura fez com os condôminos, foi assim, você não pode mudar de atividade, então tinha um barzinho, lanchonete, não pode ter outro, só um. Aí o salão de barbeiro, que hoje é cabeleireiro, que é mais chic, então tem o cabeleireiro, tem o hotel e na esquina era um bar, por sinal, uma bar muito lindo, não existia nem em São Paulo igual. Era comentado demais, era fotografado. Só eu que não tenho fotografia dele, quando desmancharam. Quando mudou o critério do aluguel do prédio, aí passou S.A., S.A., a Prefeitura passou uma diretoria e essa diretoria, então agora é hora de começar a desabafar um pouco dos negócios. Essa diretoria... foi feito um contrato e nomearam um presidente, cujo presidente, ele chegou e queria derrubar o hotel. Ele ia derrubar e vender para o Banco do Estado, foi quando a dona Ritinha, bateu os pés e falou: “Não, não me interessa sair daqui do hotel, eu tenho contrato e vocês vão cumprir o contrato comigo.” “Está bem, então quando vencer o contrato a senhora vai perder o estacionamento” que hoje nós não temos mais o estacionamento, é uma faixa só. “A senhora vai perder a esquina”, que é o bar “e vai tirar a barbearia e o cafezinho, a senhora vai ficar com o hotel. Você é hoteleira, só.” Como ela estava no desespero e nós também falhamos em não procurar as autoridades competentes na época para brigar nesse ponto, não. Aceitou essa imposição do presidente. Aceitou essa imposição, aí virou uma bagunça, porque aquela esquina que hoje faz parte do prédio e agora com o tombamento do Patrimônio Histórico, talvez volte a restaurar o que é. Então as portas do bar eram altas, hoje é quadradinha, quebrou, tirou a arquitetura do prédio, ali foi boate, já foi boteco, já foi agência de turismo, já foi agência de ônibus e agora puseram Departamento do DAE. Departamento do DAE não tem nada a ver com a arquitetura e o que era a esquina. Porque eles esqueceram dessa parte. Nesse contrato, nessa construção do prédio era isso daí que era para ser feito: café, barbearia, hotel e um bar. Tanto é que eu tinha pedido para devolver aquele setor, para fazer um piano bar ali na esquina. Que é o que tem que ser, um piano bar, um bar bem bonito. Agora, puseram um Departamento de Água e Esgoto, na esquina. Isso daí são coisas, por exemplo, eu estou lá dentro há 48 anos, vejo o que é que está acontecendo e não posso falar nada. Quer dizer, não tem uma pessoa com sensibilidade, que tem que chegar lá e perguntar como era isso daí. Não precisa nem perguntar para mim como era, tem fotografia daquilo. Vamos restaurar, vamos deixar bonito essa esquina, vamos deixar a rua mais alegre. Como está acontecendo aqui na nossa Rua Nove de Julho, as casas antigas bonitas, tacaram um painel do tamanho de dois metros e tanto de altura, todo iluminado, ah! que é isso? E eu não sou de Araraquara, mas morro por Araraquara. Gosto de Araraquara. E o cara não pergunta nada disso, então, nós não temos aqui na cidade arquiteto, nós não temos prefeito, que vê uma coisa dessas e tivemos aqui... E Araraquara é feliz, porque teve só prefeito bom, mas cada um peca de um lado, vai fazer o quê? Então, não pode ver tudo, também, né? Essa que deixaram alugar aqui para um local DAE, Departamento de Água e Esgoto, no centro da cidade, num prédio do Patrimônio, daí não, não acho.

 

P/1 – Tá certo.

 

R - Então, são coisas que tem que ter pessoas com sensibilidade, sei lá, ou vereador, ir lá e brigar. Já viram que derrubaram o Teatro Municipal daqui. Não deixar destruir o que nós temos de bonito.

 

P/1 – Senhor Joaquim, nesses 48 anos que o senhor está no hotel, o que o senhor mais aprendeu? E o que o senhor tomou como uma lição de comércio, desse tempo todo...?

 

R - E agora? Eu não sei porque, vivo tanto o hotel que não sei nem como te responder isso. Porque são 48 anos que foi., foi indo, foi indo, foi indo no hotel e... é não sei.

 

P/1 – Então vamos pensar para o futuro, o que o senhor tem como sonho ainda de realização?

 

R - Bom. De realizar no hotel?

 

P/1 – O que o senhor achar mais importante para o senhor.

 

R - Não porque, graças a Deus, cheguei até aqui e acho que estou realizado, não financeiramente, mas comigo mesmo, com o que tenho no hotel, acho isso uma realização já perfeita. Mas eu também, como vivi no hotel e vivo o hotel, eu acho que é terminar aquilo que comecei agora. Então, acho que se terminar o hotel, deixar uma casa que imponha a cidade, que o pessoal chega e... vai chegar em Araraquara, não quero que fale: “Ah, fui na casa do Joaquim.” Não é a minha casa, aquilo é um hotel, é uma casa da cidade, aquilo é um Patrimônio de Araraquara. Então, a pessoa tem que sair daqui dizendo que esteve em Araraquara, num hotel diferente, uma coisa linda e sair por aí afora falando, fazendo a promoção do que é que ele viu, que esteve no hotel. Então, é um trabalho que a gente começa pensar, né? Pensando para o futuro isso aí.

 

P/1 – Eu tenho certeza que o senhor vai realizar.

 

R - Espero que sim.

 

P/1 – Bom, senhor Joaquim, muito obrigada. O senhor quer dizer mais alguma coisa no seu depoimento?

 

R - Não, acho que só agradecer vocês porque foi demais, não esperava que isso fosse assim, porque a gente vai pra frente, volta para trás, a gente vai falar uma coisa, se empolga e adianta, mas achei assim, não esperava essa entrevista assim. Sinceramente... e é isso que tenho para vocês.

 

P/2 – Muito obrigada, senhor Joaquim, pela entrevista.

 

R - Obrigado vocês.

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