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História

Também arriscando a vida por um mundo melhor

História de: Luiz Tenório de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/05/2019

Sinopse

Sua infância oscilou entre brincadeiras no rio, convivência com 11 irmãos, perigos da revolução e dificuldades da crise econômica. Cedo, enveredou pelos caminhos do movimento sindical. Militante do “Partidão”, dirigente sindical. Ajudou a fundar o DIEESE. Preso e condenado pela ditadura militar. Hoje, em plena atividade, torce para que a atual geração continue o processo de construção de um mundo melhor.

História completa

P/1 – Então a gente vai começar pela identificação do senhor. Qual o seu nome completo?

 

R – Luiz Tenório de Lima.

 

P/1 – Qual o local e data do seu nascimento?

 

R – Eu nasci na cidade de Palmares, em 23 de junho de 1923. Palmares, Pernambuco.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?

 

R – Francisco Tenório de Lima.

 

P/1 – Como era o cotidiano na sua casa, na sua infância? O senhor lembra? Pode falar um pouco para a gente como era o cotidiano, a sua casa?

 

R – Ah, sim. A minha casa era geminada e meu pai, a essa altura, tinha comércio de cereais na cidade de Palmares. Ele tinha um box dentro do Mercado Municipal, e o depósito era a casa geminada onde a gente nasceu, onde ele fazia o estoque dos produtos que vendia, não é? Então, era a casa... Na rua Coronel Austriclínio - nunca vou esquecer esse nome - número 65, em Palmares. E a infância, foi a infância de todo garoto daquela época. Nós éramos ainda 11 irmãos, e a nossa mesa completava-se com a minha mãe, meu pai - aí eram 13 - a minha avó materna, 14; um tio que trabalhava com o meu pai, irmão da minha mãe, 15; e mais um outro filho adotivo que meu pai tinha, éramos 16. E, às vezes, um convidado ou outro, eram 17 pessoas para uma mesa só, porque naquela época era comum as famílias se juntarem. Então, quer dizer, no interior, era possível fazer... A família se juntava, almoçava em hora certa, todos juntos; jantava em hora certa, todos juntos, e tinha ainda o hábito - como somos católicos apostólicos - a gente rezava o padre-nosso antes de começar a refeição, todos de pé, para depois começar a refeição. Era assim que a gente tinha esse hábito. Com relação ao... À rotina, a gente tinha a obrigação de dormir às oito horas da noite, estar recolhido dentro de casa. Era uma cidade do interior, é claro, não era uma cidade... A cidade de Palmares era uma cidade do interior, mas os filhos todos, às oito horas da noite tinham que estar recolhidos; eles podiam aprontar o que quisessem, isso até esse horário fora de casa, aí, às oito horas tinha que comparecer e se preparar para dormir e se recolher. Essa era a rotina. A gente ia ao cinema - tinha um cineminha lá a que a gente ia. A gente gostava muito, e muitíssimo, de jogar futebol. Eu fui um bom meia-esquerda naquela época, na infância e na juventude. E a vida era isso. Tinha o rio Una, que é o rio que cruza a cidade e ali ainda a gente tomava banho, a gente nadava, aproveitava as enchentes de inverno. Chovia, a gente tirava a roupa, saía tudo pelado, então a molecada gostava disso, tomava banho na rua, tomava banho de chuva na rua, brincava um com outro, pulava... Essa coisa. Era uma rotina, era uma vida agradável, apesar de a cidade não oferecer muitas opções. Mas as opções estão no sistema em que os filhos são criados, não é? A harmonia era uma coisa fundamental para nós, entre irmãos. E o meu pai, apesar de não ser uma personalidade política, ele era um ser político como todos os seres humanos, mas ele não tinha sequer, eu diria assim, a certeza de que estava fazendo política. Porque o Lênin dizia que todo homem é político, e o pior político é aquele que faz política sem saber para quem. Muito bem. E ele fazia uma política de harmonia dentro de casa. Nós, os irmãos, vivíamos num verdadeiro comunismo. Em que sentido? Um irmão não podia pedir dinheiro emprestado para o outro; se um tinha... Entendeu? Se um tinha e o outro precisava, então: “está aí”. Não ia cobrar nunca, e vice-versa. Roupa, todas as roupas eram mais ou menos iguais, porque a diferença de um para outro era de um ano, então um usava a roupa do outro. Enfim, havia essa harmonia, essa vida assim, vamos dizer, muito fraternal. A família descaracterizou um pouco, a nossa... A nossa infância, não é? A escola, aos seis anos... Ah, aos seis anos fazia a primeira comunhão, nós tínhamos aula de catecismo, frequentávamos a igreja, fazíamos... Íamos à missa todos os domingos e aos seis anos fazia a primeira comunhão, a comunhão com aquela roupa branca, aquela vela com fita, muito bonito, não é? Era uma... Vamos dizer assim, era um momento muito agradável, muito gratificante para a criança e os pais ficavam felizes de levar o filho à igreja, bem-vestido, de terninho branco, especial para fazer a primeira comunhão. Então essa era a nossa infância. Claro, também nós tínhamos as brigas de rua, isso todo moleque que se preza faz, não é? Tinha briga de rua com os vizinhos, com outro e tal, o moleque que se metia, a gente não podia ser menos do que o outro. Nós éramos proibidos de brigar na rua, mas também era proibido  apanhar na rua de qualquer moleque. Se chegasse em casa dizendo que apanhou e não deu dez porradas no outro, aí ia ser castigado. E foi... Foi essa linha assim de ensinamento que nós recebemos. Um ambiente muito bom. Aí, essa minha irmã, que eu falei, que é freira lá no Nordeste, lá na cidade de Bom Conselho - é da terra do Pedro de Lara... Eu estive lá há um ano e pouco, ela foi a nossa primeira professora, não é? As primeiras letras, aquela coisa, ela que nos educou. E havia isso, o filho maior, o irmão maior ser responsável pelo menor, pela formação do menor. Então dava uma assessoria, uma assistência, cuidava e tal, em cima dos princípios, de ensinamentos cristãos, da igreja, da fraternidade. Esse foi um momento assim de infância que marcou muito, entre outras coisas. E uma coisa que, em 1930 - e aqui é uma passagem também da infância, que foi também muito marcante - a revolução de 1930, chefiada pelo Getúlio Vargas. Invadiu... Os revolucionários de Getúlio Vargas, da Aliança... Aliança Tenentista, não é? [CANTANDO] “Salvai, salvai, gaúchos e mineiros, paraibanos da Aliança Liberal, 40 milhões de brasileiros de um jugo tirano e brutal.” Era a Aliança Liberal. [CANTANDO] “Salvai, salvai a Aliança Liberal.” Nós aprendemos aquilo, e moleque você sabe como é [RISOS]. As forças armadas da revolução ocuparam a cidade e a gente o que fazia? A gente ia brincar nas trincheiras, ia pedir aquelas balas já usadas para fazer canivete... Enfim, a gente usava para fazer essa brincadeira. De repente, houve um tiroteio na cidade, não sei por que, quem foi que atacou quem, sei que um sargento morreu, foi tiroteio para todo lado. E o meu pai - e eu me lembro como se hoje fosse - disse: “Entra todo mundo!” Nossa casa era muito grande e comprida e tinha uma rampa assim para chegar na cozinha. Aí ele: “Todo mundo lá para a cozinha, pode deitar aí porque não sabemos o que vai acontecer.” E ele ficava na calçada fazendo discurso contra o Getúlio, entendeu? Porque ele era amigo do prefeito. Inácio de Miranda era o prefeito, ele era amigo do prefeito, e nessa condição, por lealdade dada ao amigo, ele também não aceitava a revolução de 1930 e fazia discurso correndo todos os riscos. E é um pouco assim... Então, dessa passagem eu me lembro muito [RISOS]. E a gente tinha dois irmãos - Pedro... Era o Pedro principalmente, que chegou em casa correndo depois do tiroteio e se encontrava na rua, na escola, não sei onde, isso era perto da hora do almoço, ele veio correndo, apavorado por causa dos tiros, essa coisa toda. Então 1930 foi isso, a gente sentiu muito isso, e aí nós criamos... Veio a chamada “Crise de 1930”, e aí foi para todo mundo, sobrou para nós todos - a família e nós.                                                                                                        Meu pai vivia desse comércio muito pequeno de cereais lá no mercado, e as coisas se complicaram. E aí a dificuldade financeira, a dificuldade interna até em casa, porque nem sempre a gente tinha o almoço garantido ou a janta garantida naquele período de 1930, 1931, 1932. Foi um negócio terrível, terrível. Mas o meu pai era um homem que tinha muita, vamos dizer assim, muita iniciativa, tinha uma personalidade muito forte e muito confiante em si mesmo, achava que essas coisas a gente superava e tal. Ele fazia amizade muito boa com todo mundo, e nisso aí nós atravessamos essa crise. Nesse momento ele inventou de plantar arroz, plantar feijão, milho, num sítio perto da cidade. O dono da fazenda lá era um amigo dele e cedeu para ele, aí eu ia aprender... Eu, com aquela idade, oito anos, sete anos, ia para lá com ele, acompanhava... Eu e mais dois ou três aprendemos a plantar feijão, a plantar milho, a plantar mandioca, a fazer farinha. É um negócio assim divertido, e a gente comia lá mesmo. Você acha... Qual era o almoço? Era um feijão cozido com um pedaço de jabá, quando a gente conseguia, ou então mandioca. E o prato era um cavaco, era umas peças de cavaco assim, era quase que um coxo, e ali a gente se alimentava. E de noite tinha ainda que carregar para casa, carregar para casa gravetos e coisas como lenha, combustível lá, para em casa fazer alguma coisa. Então, foi um período muito complicado esse período dos primeiros anos de 1930. Depois veio a revolução, e isso aí eu me lembro bem, veio o levante de São Paulo, o Getúlio tinha força, e aí veio o levante de São Paulo contra, exigindo - como é que se diz? - a nova... Uma nova constituição contra a ditadura do Getúlio, porque ele subiu pelas armas e ele só podia se impor mesmo pelas armas naquela ocasião. Por quê? Isso eu lembro bem. Ele contrariou os cafeicultores, que eram os donos da economia, os produtores de café e exportadores, produtores de matéria-prima, exportadores, os produtores de cacau. Enfim, todo o setor agrícola e o latifúndio que dominava o poder, ele teve que enfrentar para poder superar as forças, não é? Nós já tínhamos um começo de industrialização no país, havia usinas de açúcar... Pernambuco se caracterizava porque era o maior produtor de açúcar do país, eram produtos de exportação, enfim, a economia girava em torno dessas coisas. E dentro da cidade de Palmares, dentro... Nas nossas... Vamos dizer assim, dez ou 20 ou 50 metros da casa onde a gente morava na cidade, o canavial da Usina 13 de maio tinha uma usininha bem perto ali, não é? Chegava dentro da cidade. E aquilo era uma fonte também de emprego. Muito precária, mas era. E eu me lembro do meu irmão, trabalhava lá. O Pedro? Era. Foi o irmão que conseguiu trabalhar lá na usina, e naquele tempo era interessante porque o irmão, o filho menor, ele pegava o salário que ganhava, trazia e entregava aos pais. Quem administrava o salário da gente, dos menores, eram os pais, a gente não tinha... Mas, a gente fazia aquilo como uma coisa tão natural que dava até alegria trazer essa coisa para casa. E eu me lembro que durante essa crise, chegou um momento em que a usina não podia pagar os empregados. E sabe como pagava? Com açúcar, produto para a pessoa pegar e vender na feira. Mas vender para quem, se estava tudo complicado? Era a forma de... “Bom, vocês olhem, o que eu tenho aqui é produto. Vocês valem tanto, vocês levam e vão vender aí nas feiras, nas casas, sei lá.” Vivemos um período tão grave assim, tão grave assim, também é uma coisa que marca a infância, não é? 1932 foi aquela revolução, São Paulo se levantando, e eu me lembro muito bem do recrutamento de nordestino para formar nas fileiras das tropas getulistas em defesa da revolução, contra o separatismo que São Paulo queria realizar. Essa história é conhecida, vou repetir o que está documentado e todo mundo sabe. E aí recrutava muita gente, e eu me lembro bem que tinha um engraxate que tinha o apelido de Chico Piaba, e ele foi recrutado, ele veio... Veio para São Paulo junto com outros tantos, recrutado e tal, mas ele voltou depois que São Paulo se rendeu, depois da vitória de 9 de julho, ele voltou e tem piada desse tipo, que se contava lá: que ele chegou todo feliz da vida porque a nossa cidade não tinha água encanada, não tinha nada. Ele levou uma torneira aqui de São Paulo. Ele disse... Ele chegou na casa dele: “Milagre, agora é que nós vamos ter água dentro de casa!” E aí enfiou a coisa... Entendeu? Enfiou a torneira na parede, chamou todo mundo para ver que agora... Era a torneira, porque não tinha água mas ele pensava que a água era a torneira que gerava, quer dizer, contava até isso, e ele pegou a torneira, ficou decepcionado. Tem coisas assim que são coisas da passagem da infância da gente, não é? Então a gente não consegue esquecer. Bom, mas aí as coisas cresceram, meu irmão mais velho, o Valdemar, passou a trabalhar... Primeiro ele passou a trabalhar numa farmácia local - tinha duas ou três farmácias - ele passou a trabalhar numa, se tornou prático de farmácia naquele período e por aí ele evoluiu. Também jogava futebol e foi recrutado para jogar na Usina Santa Terezinha, aí ele arranjou um emprego no laboratório da Usina Santa Terezinha e ele foi arrimo de família por muito tempo, ajudava a família com isso. Lá na Usina Santa Terezinha ele ficava mais ou menos há uns 19, 20 quilômetros da cidade de Palmares. E nós esperávamos dele a ajuda que vinha. E meu pai não parava de trabalhar. De repente - e aí vai uma outra coisa - ele, meu irmão, trabalhando na farmácia ainda, ele... Eu acho que foi em 1934, ele jogou no bicho, numa centena ou numa dezena, e ganhou um dinheiro, naquele tempo bastante significativo, que deu para o meu pai. Era assim, a família era o pai, o chefe, acabou. A gente não fazia nada sem passar por ele. E com esse dinheiro, o meu pai comprou uma padaria na cidade de Palmares e aí nós aproveitávamos as tardes para vender pão, pão que era chamado pão sovado. Era um pão doce com essa coisa toda, bonito, que a gente saía com tabuleiro de madeira na cabeça, dois ou três... Eram os meus dois... Eu, o Francisco e o José, os três irmãos mais novos, e a gente saía vendendo aquilo pela cidade, naquele tempo por uma ninharia e tal. Era uma maneira de ajudar em casa e também servir. Mas o pior é que nós aprendemos a fumar. Nessa casa que nós tínhamos como armazém, a casa geminada nossa, nós entramos um dia, pegamos cigarro na padaria sem ninguém ver, é claro, roubamos o cigarro e fomos atrás da casa para fumar. Nós três ficamos atrás daquela casa, que era armazém, e começamos a fumar. Eu me lembro... Eu, por exemplo, fiquei tonto, quase vomitando, porque aprendendo a fumar assim na marra. O meu irmão também. Aí, o meu pai descobriu, abriu aquela porta, mas nós tomamos uma sova de correia, que é inesquecível, não é? Uma surra dessa, porque a gente foi pego fumando cigarro roubado. Primeiro porque estava fumando. Porque filho, naquela época não fumava na frente do pai, só fumava... Mesmo sendo maior, só fumava escondido por uma questão de respeito. Naquela época, os filhos somente nas cidades, Nordeste, naquela região... E nós tomamos uma surra muito grande e tal. E aí então, as coisas foram se “amoldando”, nós fomos crescendo, fomos para a escola, passamos a fazer o curso primário lá, passamos a nos completar. Aí o meu irmão se mudou; mudando ele, aí outros irmãos se mudaram. Outro irmão largou tudo, veio para o Rio de Janeiro - o Pedro, que era o mais dinâmico, o mais bravo, o mais brigador - foi-se embora para o Rio de Janeiro. Do Rio de Janeiro veio para São Paulo, e enquanto isso a gente se virava por lá. Eu comecei a trabalhar na usina, aí virei... Virei praticamente um quadro profissional, depois de quatro anos de trabalho na Usina Santa Terezinha, e aí foi quando eu vim a conhecer... Eu tinha dois químicos que eram os meus chefes e, ao mesmo tempo, meus professores; por sinal, dois químicos russos. Um era assistente do Instituto do Açúcar e do Álcool - Sérgio Lebedeff - e o outro, Anatoli... Eu não lembro do segundo nome, mas eram dois químicos russos que tratavam... Eram responsáveis pela produção, pela técnica... Eram o (espírito?) da usina que, na época, era a maior do Brasil. Uma refinaria de álcool, uma destilaria de álcool que era também a maior do Brasil naquela época, e nós aprendemos aí, vivendo com ele e aprendendo com ele. Muita coisa a gente aprendeu mais ou menos na marra porque ele não queria ensinar. Por que ele não queria ensinar? Era natural. Porque a gente era muito curioso, e aí a gente... Meu irmão, que era mais velho, o Valdemar, orientava. Muitas vezes a gente via, quando eles faziam aqueles cálculos de análise... Porque éramos nós que apanhávamos as amostras de produto, manipulávamos, fazíamos análise, e o resultado ficava documentado de polarímetro, teor uma de sacarose, teor outro disso, teor outro daquilo, e com aquilo eles faziam os cálculos para chegar aos resultados: como ia render, o que devia render, o açúcar no bagaço, perda disso, perda daquilo... E a gente ia aprendendo. Mas ele pegava aquilo e rasgava e jogava, e a gente, muitas vezes, depois que ele saía, ia no lixo, pegava aqueles pedacinhos todos, emendava, punha num papel e ia aprendendo, na prática, aquilo que ele não ensinava. Mas muita coisa ele ensinava mesmo, os dois ensinavam para a gente, até porque precisavam da nossa colaboração. Nós fomos, quando em mil... E aí eu vou falar de como eu saí dali. Em 1944, em plena guerra...

 

P/1 – Que o senhor saiu da usina?

 

R – Hein?

 

P/1 – O senhor saiu da usina nessa época?

 

R – Hein?

 

P/1 – Em 1944, o senhor saiu...

 

R – 1944.

 

P/1 – ... Da usina de álcool. 

 

R – Eu fui... Eu fui levado para Sergipe por um químico, filho de russos. Já não eram mais esses dois, porque esses dois, acho que as pessoas que eram proprietárias da usina conseguiram dispensá-los utilizando... A prática dos que trabalhavam com esses químicos. Um era o meu irmão, o Valdemar, e o outro era um amigo do meu irmão, que também trabalhava e se especializou nisso. E o Pessoa de Queiroz, ele era irmão do Epitácio Pessoa de Queiroz, da família Pessoa de Queiroz, Presidente da República, ele era muito... Dizia: “Olha, aqui é o seguinte: com esse pessoal aí, vocês têm que tomar o que eles têm e ensinar o que eles já sabem, porque aqui nós temos que... Não podemos estar pagando esse salário.” E dispensou. E a coisa continuou muito bem conosco. Um químico recém-formado, filho de russo também, de judeu russo, morava em Recife, veio trabalhar. E aí, trabalhando conosco, não sei por quê, ele acreditou muito em mim e investiu muito em mim. E quando ele foi trabalhar em... No estado de Sergipe, da família Prado Franco... A família Prado Franco montou a primeira destilaria de álcool a litro, álcool absoluto, no estado, na cidade de Laranjeira. Aí ele se lembrou de mim, veio com o usineiro e mais um engenheiro técnico lá, sócio do engenheiro que foi governador de Sergipe, o Maynard Gomes, e chegou lá, me convidou. Disse: “Olha, você vai trabalhar lá, você vai ganhar bem, você tal, tal, tal.” Eu não podia perder essa oportunidade. Saí, fui para Sergipe; dali fui para Sergipe, contratado. Quando cheguei lá, já estava contratado para trabalhar na refinaria... Na destilaria de álcool. Era a primeira destilaria que tinham montado no estado de Sergipe. Naquele tempo, era um negócio fabuloso porque era combustível para guerra, para ajudar durante... O uso do combustível. Muito bem. E aí, eu me lembro como hoje. Sabe quantos anos eu tinha? Vinte anos. Aí, quando os diretores da Usina Prado Franco me apresentaram: “Mas é uma criança! Que idade ele tem?” “Ele ainda não tem 21 anos.” Mas aí, esse químico, era... chamava-se Jaime Kischner - eu me lembro - disse: “Não, por esse aqui eu respondo. Ele vai ficar aqui sob a minha responsabilidade.” Até porque o Jaime Kischner era o... Já era o químico assistente da cooperativa dos usineiros do estado do Sergipe. Felizmente eu tive muita sorte, deu tudo certinho, eu tive que participar. E aí é interessante, eu tive que participar da montagem - porque a destilaria ainda estava em fase de montagem - mas eles queriam antecipar a minha presença para me familiarizar com o pessoal, acompanhar a montagem da refinaria e me preparar para depois assumir. E foi o que aconteceu. Alguma coisa assim, rapidamente. Eu me identificava muito com os trabalhadores, fumava muito, gostava, batia papo... Porque eu também aprendia alguma coisa de montagem, de negócio de mecânica, de mapa, e aquele negócio de planta. Aprendi a fazer solda elétrica, eu gostava, não é? E aquele entusiasmo, eu vestia macacão - comprei um macacão, andava de macacão, de gorrinho, e entusiasmado. Qual era o meu entusiasmo? Meu entusiasmo era a União Soviética combatendo os alemães, entendeu? A União Soviética era a vanguarda da luta contra o nazifascismo no mundo. Ela estava na Aliança, mas era vanguarda. E nós aprendemos a querer bem, e aquela realização, aí começamos a aprender a... Como é que se dizia? A admirar a União Soviética. Mas eu já vinha estimulado pelo Partido Comunista sem eu saber. Na usina, eu assisti a uma primeira greve; antes de sair de lá houve uma greve e puseram todo mundo para a rua, mas eu não sabia que tinha Partido Comunista, nunca tinha ouvido falar nisso, e os que foram denunciados, o foram como comunistas. Aí, a primeira vez eu vi isso. E eu vi aquela greve, os patrões fizeram tanta violência, jogaram as famílias, tiraram das casas e levaram para os canaviais, largaram em qualquer lugar, demitiram todo mundo. E aquilo marcou muito, aquele choque de classes, que eu não sabia o que era, mas, instintivamente, eu me incorporei àqueles acontecimentos. Quando eu cheguei em Sergipe, eu tinha aquela vida do admirador dos comunistas, não é? Então eu saí, é o comunismo mesmo, aí li aquele livro, me deram aquele livro do Jorge Amado - Cavaleiro da Esperança - e pronto. Quando acabei de ler, fiquei por aqui mesmo. E o diretor, usineiro Prado Franco - é um homem que chegou a ser governador de Sergipe, a família Prado Franco era a família mais poderosa do estado – ele, um dia, chegou... Eles tinham entusiasmo pelo meu trabalho, mas um dia ele me chamou assim: “O senhor não vai poder continuar assim, o senhor se mistura com trabalhador, o senhor acende cigarro com eles, o senhor prosa com eles, o senhor usa macacão.” Aí, ingenuamente, eu disse: “É o estilo soviético.” [RISOS] Ingenuamente eu dei essa resposta. Eu, com entusiasmo, mas ele deve ter ficado apavorado. Mas mesmo assim ele me tolerou e eu fui muito bem-sucedido no empreendimento, não é? Uma refinaria que tinha sido comprada com a garantia... Montada com uma garantia de produzir oito mil litros de álcool por dia, eu consegui, com o que eu já sabia, com o meu conhecimento e minha experiência e minha audácia, eu consegui elevar essa produção ao dobro, para 16 mil litros por dia. Aí eles não sabiam como me tratavam mais, não é? Quer dizer, eu fui dobrar a perspectiva deles de lucro, de dinheiro, de tudo, e naquele tempo não se acumulava produto porque os caminhões faziam fila, faziam fila esperando para encher e... E eu me lembro aqui de um episódio, que eu vim encontrar aqui em São Paulo um dos maiores consumidores ou compradores do álcool que a gente fabricava. Era Paes Mendonça, dono do Eldorado, dessa rede do Eldorado, supermercado Eldorado. Naquele tempo, eles tinham um armazém. Naquele tempo não existia supermercado em Sergipe, na cidade de Itabaiana, mas eles tinham a mesma coisa sem saber o que era: era um armazém que não tinha tamanho e que vendia de tudo, desde uma agulha até peça de automóvel, colchão, carne, açúcar, fumo, leite, álcool, cachaça... É naquela... Era, na prática, o embrião, na maneira deles. E aqui eu vim encontrá-los, aqui já com os... Como é que diz? Os grandes empresários de supermercados. Um de Sergipe, Itabaiana... Então, aquela vida foi muito boa. Numa época em que eu tinha, olha, 20, 21, 22, 23, 24, 25... Imagina que vida era aquela, com todo o poder na mão, salário que eu não sabia como gastar. Mas aí houve a desdita: o meu irmão mais velho morreu. Aí, a minha família reduzida à minha mãe; minha irmã Elizabete, ainda hoje está viva, mora aqui na Saúde; a minha irmã Francisca, a caçula; e a minha avó materna, eu consegui levar para Sergipe. Ficaram... Eu passei a ser arrimo e sustentar a família, não é? Foi um negócio bom e nós tínhamos a oportunidade de conhecer, viajar o estado, ir lá e aqui. Eu trabalhava 12, 14 horas por dia, porque eu era a única pessoa que entendia do funcionamento, preparação, a realização e tal, e eles precisavam muito de mim, e eu trabalhava até 18 horas por dia. Primeiros dois meses de funcionamento, o engenheiro que ficou responsável de entregar a coisa em ordem teve um problema lá. Teve um problema e aí eu senti que não ia funcionar, era de noite, eu disse: “Olha, vamos parar aqui.” “Mas o quê? Vamos parar? Nós que temos a responsabilidade.” Aí eu peguei o meu paletó, digo: “Ó, eu vou para casa dormir. Você assume. Não vai funcionar.” Ele se bateu até as sete horas da manhã, falou: “Você tinha razão. Qual é o problema?” Eu digo: “Eu não vou te entregar o ouro, não é? Você é engenheiro, eu não sou.” E consegui resolver o problema indo para Aracaju na mesma hora comprar peças que eu achava indispensáveis, que ele não tinha, para limpar permanentemente os condensadores. Porque o álcool, ele evapora. Você prepara o mosto, e aí o mosto fermentado tem lá sete, oito, nove, dez por cento de álcool, você leva para ele ser cozido e evaporar numa grande coluna e o vapor que sobe é o álcool. Ele tem que passar por um condensador refrigerado que imediatamente ele se condensa e vira álcool, essa coisa toda. Mas aí estava rejeitando, o condensador, ele não dava... Não dava vazão e a pressão podia até correr o risco de explosão. Mas eu já conhecia o esquema, fui, comprei as escovas necessárias e tal, chamei o engenheiro lá da mecânica, eu disse: “Prepara assim, assim, assim.” Pôs quatro pessoas para... E daí para a frente, ninguém segurou. Aí eu virei um deusinho na produção, entendeu? Quer dizer, então esse sucesso todo na minha vida, muito pela audácia. Eu aprendi a ser audacioso. E eu digo sempre: eu só acredito que morri... Ainda hoje eu digo isso, mas as pessoas vêm me perguntar: “Por que você não fica velho? Eu lhe conheço há 30 anos, é a mesma coisa. Por que você não fica velho?” “Porque eu não tenho tempo para isso.” E digo sempre... É uma piada, mas é uma piada que me agrada. Eu só acredito que morri no dia em que eu ler em todos os jornais a notícia de minha morte. Aí eu acredito que morri. Então, essa audácia... Até porque eu não tenho compromisso com a morte, não tenho. A gente pode... Sei que ela vai nos trair, mas me pega de surpresa. Então, toda essa questão que me levou a esse ponto... Mas, em Sergipe, eu tive também um... Vocês podem me interromper, fazer pergunta, eu estou divagando aqui, mas vocês podem fazer pergunta.

 

P/2 – Ah, eu vou fazer uma pergunta, então.

 

R – Fica à vontade, senão a gente fala sozinho.

 

P/2 – Então vamos entrar, assim, mais na época do DIEESE. Em 1956, o senhor compôs a diretoria do DIEESE.

 

R – Ah, vamos chegar lá.

 

P/2 – Como foi esse processo?

 

R – Vamos chegar lá. Eu vou encurtar esse trajeto para chegar ao DIEESE.

 

P/1 – Mas, assim... Porque o senhor trabalhou no setor do álcool e do açúcar. Para chegar no DIEESE, o senhor mudou de setor, foi parar no de laticínios. Como foi essa transição?

 

R – Bom, é o seguinte: em Sergipe houve um entrevero, eu larguei a empresa, em 48 horas deixei tudo lá e deixei os homens em pânico. “O senhor é louco, vai fazer isso com a gente, não sei o quê.” “Está resolvido, vocês não respeitaram a minha autoridade.” E aí... Mas eu pus a empresa, as máquinas todas como se zero estivessem. Cada um que venha e as regule. Levaram dois meses para voltar a funcionar, mas isso é outra coisa. E aí vim para Sergipe como um louco, saí dali com a família, 48 horas depois eu estava viajando para Pernambuco de volta. Em Pernambuco eu não consegui emprego, porque o mercado estava muito saturado, a indústria de Pernambuco já era o mercado, o profissional já era... Ah, não tinha espaço. E eu tive que ficar muito tempo desempregado, corri para São Paulo, e aí sim, aí em São Paulo é que eu entrei para o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Laticínios, porque era laticínios e continua sendo laticínios, café e açúcar. Eu entrei já porque eu tinha... Em Sergipe eu tinha sido eleito presidente do sindicato lá dos trabalhadores do açúcar e do álcool, e no dia da posse, o Dutra não decretou o especial e interveio em todos os sindicatos do Brasil? Por coincidência, era o dia em que eu ia tomar posse como presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Açúcar e do Álcool do Estado de Sergipe. Ali foi a minha primeira associação, meu primeiro partido. Aí, de Sergipe, nessa briga toda, eu vim a Pernambuco, fiz aí nos anos de 40 e de 50, praticamente… Em Pernambuco não achei emprego, aí peguei lá... Como é que chama aquilo? Aquele ita, não é? Que vinha do Nordeste. Naquele tempo, não vim de ‘pau-de-arara’ ainda não, era 1950 mais ou menos, arranjou... A minha mãe arranjou um dinheirinho emprestado lá com as amizades dela e nós viemos aqui para São Paulo, onde eu já tinha esse irmão Pedro, ele me recebeu muito bem. E aqui haja se bater para arranjar emprego, é a coisa mais horrível do mundo. Eu aparecia nas portas das fábricas pedindo um lugar para ser varredor. Porque eu não podia... Eu saía lá do Cambuci, onde o meu irmão me hospedava, saía a pé para procurar emprego na Móoca, aqui, ali, o meu ponto de referência era o Banco do Estado, que, naquela época, era o prédio que você avistava de qualquer lugar de São Paulo. E ali, nessa direção, eu voltava a partir do Largo São Bento, isso pegando bonde que ia para o Cambuci, e aí é onde eu ia me hospedar. Mas dali uma semana, duas, eu já não sabia mais o que fazer, e isso a maior parte do tempo eu andava a pé porque eu não tinha 50 centavos, naquele tempo, para pagar o bonde e um real para pagar... Não era real, era cruzeiro. E um cruzeiro para pagar a condução de ônibus. Então, era um negócio acachapante. Porém, meu santo sempre foi forte, eu sempre fui daqueles que só acredita na derrota depois que me vencem, eu não entrego os pontos. Meu irmão mais jovem, que já morreu, Francisco, tinha uma amizade muito boa no Instituto do Açúcar e do Álcool, ele sabia fazer muito boas relações, me apresentou ao delegado do Instituto do Açúcar e do Álcool dizendo a situação, minha profissão. Falou: “Olha, um pedido seu, a gente vai ver. Deixa aqui o currículo que, geralmente, os usineiros procuram aqui profissional como você.” Olha, menos de uma semana depois chegou no cortiço, onde morava o meu irmão, um contínuo da Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo... Naquele tempo, o contínuo, o boy,  ele andava fardadinho, de boné, muito roupa... Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo bateu lá, entregou uma carta, que eu fui ver, era um convite para comparecer ali nas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, no Viaduto do Chá, onde era a sede do Banespa – bom, agora, Prefeitura. E aí: “Olha, o senhor está aqui, tem uma recomendação aqui do Instituto, nós precisamos de um químico e nós estamos precisando lá em Minas Gerais. O senhor... Mas o senhor tem que se submeter a um teste, porque nós estamos dispensando o outro químico, é um italiano, mas tem um francês e um brasileiro também concorrendo no teste. Nós vamos fazer teste.” Fazer o quê, não é? Para quem queria varrer rua já... [RISOS] uma perspectiva dessas, não deu outra. Uma semana foi de fazer teste. “Agora o senhor aguarda o resultado das Indústrias Francisco Matarazzo.” Uma semana depois, recebi um recado, “compareça e tal.” E eu lá: “Olha, o senhor foi aprovado. Passou no teste.” Aí, isso... “E quanto é que o senhor quer ganhar?” E isso é interessante, para você ver como eu sou um... Aventureiro por natureza, não é? “Eu não sei quanto é que vocês estão pagando ao outro químico, qual é o estilo.” “Ah, nós pagamos tanto.” Naquela época, pagavam mais ou menos, para esse químico que ia sair, mais ou menos uns dez, 12 salários-mínimos, comparando na época. E eu que trabalharia em qualquer lugar por um salário-mínimo aqui em São Paulo para poder sobreviver... “Mas quanto? E vocês vão mandar um químico desses embora? Por esse preço eu não trabalho!” É muita... É [RISOS] uma aventura, não é? Depois de tudo. Aí, discute, discute, discute, eles me pagaram o dobro, fizemos um contrato, e aí eu saí como magistrado. Bom, “nós temos pressa.” Aí eu comecei a trabalhar. “Nós temos pressa porque lá está tudo em ordem para começar. A safra de açúcar tem data para começar, você sabe disso, não é? Por causa do inverno, por causa disso, daquilo, nós temos pressa e tal. O senhor pode viajar quando? Dá para viajar amanhã, depois de amanhã?” “Não, não é assim, não. Eu tenho um bocado de coisa aqui em São Paulo para acertar.” Aí eles perguntaram: “Qual é o tempo?” “Ah, me dá pelo menos oito dias.” “Mas é...” Me deram quatro. Aí foram lá: “O senhor vai precisar de algum dinheiro para resolver...?” “Vou precisar. Vou precisar para resolver aqui algumas coisas e tal.” “Passe no caixa e aí vê o quanto o senhor quer.” Aí telefonaram para o caixa, e lá eu tirei já a metade do primeiro salário. Olha, foi festa que ninguém acabava mais! Fui embora para lá, fui embora para lá, e lá também, em Minas Gerais, na cidade de Engenheiro Dolabela, no Vale do Jequitinhonha, as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo tinham uma fábrica de álcool, açúcar e éter, que foi aí que eu conheci esse negócio. Mas o de imediato era o açúcar, eu consegui sucesso, tive sucesso, deu tudo certinho.

 

P/1 – Deixa ele trocar a fita. Vamos só dar uma continuidade. Então o senhor conseguiu o emprego lá no local. E foi a partir daí que o senhor começou a ter também uma atuação sindical, quando o senhor conseguiu esse emprego?

 

R – Olha, a ação sindical - eu já expliquei - começou em Pernambuco. Foi interrompida, em Sergipe eu retomei, como eu já disse, fui presidente do sindicato e fui... E fui - como é que se diz? - destituído no dia de tomar posse, lembrando que já em Pernambuco eu... Aos 16 anos eu já era delegado sindical, para que não se confunda a história e dizer que o sindicalismo nasceu em São Bernardo. É uma... vamos dizer assim, é uma agressão à história. Eu não vou contar a história agora, mas eu já... Com 16 anos eu era delegado sindical. Então, a minha vida sindical começou por ali, passou por Sergipe, nas condições que eu disse. Quando chegou em Minas Gerais, realmente estava tudo pronto para começar e tinha um grande aparelho que se chama clarificador. É um grande aparelho que as usinas de açúcar têm que ter, rotativo, para decantar o pau, o caldo da cana, para poder submetê-lo à transformação em melaço, de melaço para cristal, de cristal para refinado. Mas aí, eu pedi para entrar quando isso estava pronto: “Eu quero dar uma olhada.” “Pode”. Aí pegamos uma lanterna, macacão, e entrei no aparelho, que era muito grande, tinha uns 12 metros de diâmetro por 11 de altura, um negócio assim. Aí eu fui, passei duas horas verificando, saí, dizendo: “Olha, está tudo....” Para os engenheiros foi uma bênção, porque tinham assinado, liberado, eles que montaram, o aparelho foi comprado no Canadá, eles que montaram e deram já como liberado, pronto para funcionar. Eu digo: “Eu não assumo.” “Não assume por quê?” “Porque não vai funcionar, vai dar prejuízo à firma e eu não quero assumir esse compromisso.”  “Mas foram os engenheiros canadenses que fizeram aqui, sem medo, trabalhando, eles liberaram...” Eu disse: “Está bem, chame-os para eu dizer para eles porque é que não funciona.” Aí foram chamar o superintendente, engenheiro superintendente das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, um húngaro, chamava-se Kassinsky. Ele chegou, 24 depois ele estava lá. Aí nos reunimos: “Mas o senhor pode contestar um trabalho pelos melhores especialistas, responsáveis da fábrica no Canadá, que vieram montar aqui?” “Não, o senhor quer ver comigo, eu contesto. Se eles quiserem assumir, o prejuízo não é meu, o prejuízo é da firma.” Aí ele era baixinho também. “O senhor vai entrar também.” Aí ele entrou no aparelho por uma portinhola assim, olha para um, olha para o outro, aí ficamos lá, rodamos uns 20, 30 minutos. Quando saiu, ele disse: “O senhor tem razão.” Aí perderam mais 15 dias e o engenheiro remontando as coisas. E só autorizaram... Ela só funcionou quando eu disse: “Agora vai.” Quer dizer, essas coisas dependem muito de sorte, também tem isso. Porque podia não fazer nada disso e fracassar no primeiro impacto, e podia pôr a culpa no outro. “Mas o senhor é que é o responsável.” Bom, então tudo isso foi muito bom. Aí as coisas deslancharam, os Matarazzo me tratavam ‘assim’. E lá é interessante, era num vilarejo, lá onde estava a usina de açúcar, álcool e fábrica de éter, aquela coisa toda, e tinha engenheiro de todo lado, para tudo tinha engenheiro de fora, de São Paulo principalmente, contratados aqui como eu fui. Engenheiro agrônomo, engenheiro mecânico, engenheiro superintendente, que era um austríaco, o Crivelli, químico, com doutorado, não sei... Superintendente e toda a equipe de profissionais especializados eram contratados aqui. E aqui eu vou interromper rapidamente para dizer o seguinte: aquele pessoal todo humilde, mas como todo mineiro e todo caipirão, um dia... Nós tínhamos uma casa onde uma cozinheira especial fazia comida para nós e cuidava da mordomia nossa, por conta da empresa. E tinha uma outra casa onde a gente... Onde a gente se hospedava. E... Mas nós éramos tratados ‘assim’, todo mundo era chamado “doutor Fulano”, “doutor Valdo”, “doutor Luiz”, “doutor Tenório”, “doutor não-sei-quem”, e uma mulher do povo, lá da área de serviço, falou para outra: “É interessante, mulher de São Paulo só pari doutor!” [RISOS] Gostou dessa? Quer dizer, então o povo é muito vivo, não é também como a gente pensa que eles são, trouxas. Bom, aí à base desse sucesso, eu consegui uma coisa... Aí sim, aí foi a minha primeira façanha. Preposto da firma, eu tive que aceitar uma consulta, eu não sei, eu lá não podia me identificar como militante do Partido Comunista, que eu já era, eu já vim de Sergipe com esse galardão, mas não podia me identificar. E alguém me procurou, um operário me procurou, não sei se foi alguém do Partido que me conhecia, recebeu a orientação e me procurou para dizer a atuação deles, o salário atrasado, uma dificuldade muito grande, a usina em pleno funcionamento. “Puxa, como é que nós vamos fazer?” “O senhor sabe, tal, nós queremos... Nós estamos pensando aqui em fazer uma paralisação.” Primeira vez que essa palavra surgia naquela empresa do Matarazzo. Eu olhei para um lado... “Você ficou louco?” “Não, doutor, o senhor sabe...” “Eu acho que alguém o indicou. E eu, primeira coisa, eu não posso participar disso porque eu sou o preposto da firma. Olha, você quer fazer uma greve?” “É.” “Você tem quem participe com vocês?” Ele falou: “Tem.” “Então, primeira coisa, vocês têm muita razão.” Eu e ele só dentro, trancado dentro do laboratório. “Vocês têm muita razão. Tem que fazer mesmo. É assim, é assim.” Orientei do jeito que o diabo gosta. E não é que no outro dia parou tudo? Mas foi um negócio lindo. E quem era o cabeça? E não tinha sindicato, não tinha nada, como é que isso aconteceu? Aí veio o superintendente... Parou porque estava com três meses de salário atrasado, nas vésperas do Natal... O superintendente, esse doutor Alexandre Maravilha Crivelli - parece que eu o estou vendo, era uma pessoa simpática, falou: “Como é que nós vamos fazer? Esse setor é novo! Como nós vamos fazer?” Eu digo: “Como nós vamos fazer? Olha, a lei pune o estrangeiro responsável pelo não cumprimento da legislação brasileira, e é o que o senhor está fazendo aqui. O atraso de pagamento é falta grave perante a lei. O senhor pode ser [RISOS] expulso do Brasil a qualquer momento por conta disso.” “E o que é que eu devo fazer?” “Olha, Matarazzo, o senhor vai lá em Montes Claros,” – Montes Claros era a cidade mais próxima, onde o Banco do Brasil tinha... Montes Claros era a cidade central ali daquela região – “Vai lá e levanta o dinheiro com o banco e traz o dinheiro para fazer o pagamento do pessoal e aí, seguramente, eles vão ficar felizes.” Aí ele, naquela mesma madrugada, pegou o carro dele, com o motorista, a equipe, foi para lá e voltou com as malas cheias de dinheiro, não é? Porque aí ele sacou o dinheiro em nome da empresa que ele representava, era o Matarazzo. Aí ele chegou, disse: “Agora está tudo em ordem. Vamos começar o pagamento para o pessoal. Então o senhor anuncia.” Aí anunciou, foi uma festa que não acabava mais, e aí a vitória foi tão grande que os trabalhadores passaram... E se entusiasmaram, porque a vitória abria condições para outra luta. E não é que eles queriam preparar a segunda greve? Mas entre uma e outra, veio a polícia política de Belo Horizonte... Essa é muito interessante, vieram cinco investigadores de Belo Horizonte, chefiados por um delegado, para fazer um levantamento para descobrir quem era o responsável pela greve, os cabeças, para serem punidos, essa coisa toda. E olha que coincidência: como nós éramos da administração, eles tinham que almoçar com a gente, conversar com a gente, ouvir a gente. Aí eles começavam a falar por que estavam fazendo, o que eu achava e tal, cada um pegando informação, e eu só dando saída para tudo, não é? “Nós temos que localizar o cabeça, nossa missão aqui é essa, assim.” Eu disse: “Olha, eu não identifico cabeça. Houve um descontentamento geral, eu acho que não tem cabeça nisso, isso eu posso avisar o senhor, é a responsabilidade... E, de repente, eles não aguentaram ficar... Chegar em casa, às vésperas do Natal, sem ter dinheiro para comprar comida para os filhos por falta de pagamento, então foi uma revolta natural.” Eles ficaram nove dias investigando, voltaram sem arrumar nada, nada vezes nada. O que aconteceu? Nesse ínterim, eu consegui orientar a formação de um sindicato, mas sempre falando para o cara: “Se você não guardar segredo, o primeiro a ser denunciado e entregue à polícia é você, porque você vai pôr tudo a perder.” E o cara manteve a palavra, organizamos o sindicato, o sindicato foi reconhecido, foi uma coisa linda, no Vale do Jequitinhonha, na terra do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos, o Zé Pereira. Até hoje eu falo isso para ele: “Para sair um sindicato na sua área foi preciso que eu trabalhasse lá para o Matarazzo.” Ele fica todo feliz, porque ele é de lá, é uma das áreas mais miseráveis do estado de Minas Gerais. Muito bem. Aí, na segunda greve, já o sindicato formado, veio a mesma equipe ou outra equipe, não me lembro, vieram fazer o mesmo trabalho de levantar quem era o cabeça. Mas, dessa vez, eles foram até certo ponto... Fingiram que não entenderam nada, que não apuraram nada. Eu sei que uma semana depois eu recebo um telegrama do Matarazzo pedindo a minha presença aqui na Matriz, assuntos de meu interesse [RISO]. Aí, claro... Fui, não é? Aí avisei o pessoal: “Estou viajando, estou indo, dificilmente eu voltarei, porque o Matarazzo não mandou me chamar por acaso. Está tudo em ordem do ponto de vista da produção, dos resultados. Me entregaram.” “ É o seguinte, ‘seu’ Tenório, o senhor foi ótimo, o senhor tem sido um milagre para nós, só que a empresa resolveu...” Aquela diplomacia que a gente já... Já tentaram por aí. “Então nós vamos romper aqui o contrato.” Eu olhei para ele. “Não, não, não. O senhor fica tranquilo que o senhor vai receber até o último tostão.” Faltava um ano e meio para terminar o contrato. “Vai receber até o último tostão, inclusive com as percentagens asseguradas no documento.” Olha, eu recebi um montão de dinheiro, mas um monte de dinheiro, e eu não sabia o que fazer. Aí vinha um bocado de amigos: “Compra uma frota de automóveis! Compra uma granja! Não sei o quê...” Mas eu já estava impregnado pelo vírus do socialismo e do comunismo. “É, não quero ser capitalista, não.” E comecei a gastar o dinheiro, porque a essa altura a minha família já estava em São Paulo, comecei a gastar o dinheiro, e tentando achar emprego, não achava, e o dinheiro foi indo, foi indo, eu sei que chegou um momento em que eu consegui um emprego num armazém distribuidor Cirus, que era na rua Borges Figueiredo, onde está a União dos Refinadores, famosa já naquela época, tinha quatro mil trabalhadores. Mas a refinaria... Armazém distribuidores Cirus era uma refinaria de açúcar, com torrefação e moagem de café, uma coisa assim. Eu consegui, vim pelo jornal e me apresentei, fiz o teste e, na hora, me contrataram. Aí respirei aliviado, não é? “Agora sou gente outra vez, estou empregado.” E primeira iniciativa: saber qual é o sindicato que representa esse setor. Aí me disseram: “É o comerciário.” O comerciário era... Já era ali na rua Formosa. Eu fui lá, sem conhecer ninguém, fui pedir explicação, porque eu queria me associar. Então essa empresa, esse setor, não recolhia para nós; recolhe para um, você procura, para cá não é... Aí eu consegui, dentro da mesma empresa, saber onde era o recolhimento, portanto, onde o sindicato... O Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Laticínios, [TOSSE] Produtos e Derivados. Do açúcar, torrefação e moagem de café de São Paulo, a sede era na rua... Uma travessinha ali perto do mercado, travessinha da Florêncio de Abreu, agora não vem à cabeça, mas o Romeu Tuma se lembra lá dessa rua. É verdade! Aí eu me apresentei lá no sindicato, meio desconfiado, meio sem jeito e tal, porque eu entrei no sindicato... Coitado! era um nordestino atrasado – atrasado politicamente, e também culturalmente. Era semianalfabeto e era um homem entregue, assim, ao comando da Federação aqui de São Paulo, Federação dos Trabalhadores de Alimentação, que manipulava o sindicato. Era um homem de confiança do Consulado Americano, era um homem de confiança da Confederação e desse sistema anti social que já existia na época. Mas ele me recebeu, mandou fazer a minha ficha, e eu fui, e eu fui, fui participando de reunião, de assembleia, e fui meandro, com muito jeito, porque eu sabia que ali o terreno estava minado. Eu sei que acabou ele engolindo uma proposta minha, nossa! E ele dizia... Porque ele era anticomunista declarado e era estúpido, tinha cara de cachaça naqueles bares ali da rua da Cantareira, por ali,  não é? Dinheiro dos trabalhadores, ele gastava assim, não prestava conta, e ele... Tinha assembleia em que ele punha o revólver em cima da mesa. Imagina! “Comunista aqui que abrir a boca, eu dou um tiro!” Era um clima assim. E eu não queria levar um tiro, eu queria cumprir a minha função. Resultado é que eu acabei sendo eleito... Imagina, quando o Pacto de Unidade Intersindical estava sendo fundado, eu consegui que a assembleia dos trabalhadores aprovasse a participação do sindicato, e eu era o representante no Pacto de Unidade Intersindical, o primeiro pacto de unidade intersindical aqui em São Paulo. Isso foi muito gratificante, e foi uma aprendizagem. E era aquela beleza, era luta, era barulho, e eu... Logo, logo, é claro, eu trabalhando na firma, a firma desconfiou da minha atividade, mas aí eu tinha já... Ah, não! Aí veio a eleição. Vindo a eleição, eu me elegi na chapa de oposição a esse cidadão, não é? Organizamos uma chapa e eu me elegi  tesoureiro do sindicato – eu não podia ser presidente num primeiro momento, mas tinha um cara arrojado lá, que trabalhava aqui no açúcar, e que virei presidente, fizemos aliança e tal. Aí já tínhamos cobertura política do deputado do PTB, do João Goulart, deputado João Batista Ramos. E ele ajudou a gente inclusive a... Abriu a porta da rádio, a rádio Piratininga, que era aqui na Praça do Patriarca, onde é hoje aquele Banco de Boston. Aquele banco ali era uma casa térrea e tinha a rádio Piratininga. E ali tinha um programa - “Rotativa no Ar” - comandado pelo deputado... Na ocasião, presidente... O deputado era presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, companheiro José Freitas Nobre, uma figura muito conhecida na política, foi muitos anos líder do PMDB, era uma figura extraordinária. E ali, ele... Abriram o microfone para nós, ganhamos as eleições. Ganhamos as eleições, e aí nós fomos denunciados, antes das eleições, porque eu já estava entrosado no Pacto, nós já estávamos lutando pela Lei Orgânica da Previdência Social, eu já estava... Movimentava para lá e para cá e já comecei a aparecer muito. Mas até então, eu não era identificado no meio sindical como militante comunista, não era. Era o Tenório, o Tenório do Laticínios, essa coisa toda, não ia além disso. E nós tivemos um momento em que a lei orgânica – isso é bom também registrar – a Lei Orgânica da Previdência Social, que estava em debate no Brasil inteiro... Nós realizamos... Levamos três anos debatendo a lei orgânica e realizando assembleia, conferência, encontro, essa coisa toda, para transformá-la num projeto com a nossa participação, as nossas opiniões, que resolveu ser o que foi, não é? A lei mais avançada de Previdência Social que o mundo já conheceu está aqui no texto da lei orgânica, que a ditadura militar acabou. E eu tive a glória e a honra de participar disso, não é? É claro que eu era um coadjuvante, as grandes estrelas, como Roberto Morena, Dante Pellacani e tantos outros dirigentes internacionais de renome, já comandavam tudo isso. Mas eu consegui me inserir, eu consegui ser utilizado, eu consegui aprender e me inserir nisso, e nisso comecei também a aparecer assim como... Como pessoa importante no movimento sindical. E o que eu quero dizer com isso? Na rádio Piratininga houve uma entrevista, o João Batista... Esse deputado João Batista Ramos, junto com o Freitas Nobre, convocaram a gente para entrevista sobre a lei orgânica. É também um dado que eu faço questão de documentar. Discutindo a lei orgânica, eu propus, pela primeira vez na lei orgânica, o auxílio-reclusão. Não constava de nenhuma proposta e a lei orgânica já estava em fase, praticamente, de ser transformada em projeto de lei. “Auxílio-reclusão por isso e isso...”, e o João Batista ouviu com interesse: “Isso é uma coisa interessante.” “Um pai de família comete um crime, comum ou não, e a família  fica... Ele vai para a cadeia e a família fica desamparada, a troco de quê? Muitas vezes ele não é o culpado do crime que cometeu, porque essa é uma questão de classe, essa classe dominante...” Aí, quando eu falei, eles parados, disse o João Batista: “Aqui não é lugar de filosofia marxista! O senhor já quer dar lição?” Eu: “Não!” Mas afinal de contas, esse projeto... Essa coisa passou na lei orgânica, passou na lei orgânica, consta da lei orgânica, que foi um sucesso no Brasil inteiro. E durante a vigência da lei orgânica, eu desafio alguém a provar que houve um desvio de dinheiro, houve uma falcatrua, houve uma sonegação, porque a administração era colegiada. Em todas as instâncias estavam os representantes dos trabalhadores, “eleitos” nas assembleias por nós: um representante do governo, indicado pelo governo – que, aliás, era um grande aliado nosso, o Juscelino, e depois o João Goulart – e representante dos empregadores, também eleito pelas instituições dos patrões, do sindicato da federação dos patrões. Então isso funcionou com muita eficiência. Você vê aí, o Sindicato dos Bancários tem aqueles conjuntos especiais lá no Anhembi, lá na entrada da rua... Avenida Santo Amaro, ali no começo da Anhembi, e aí surgiram hospitais especializados, por conta de uma aplicação de dinheiro que era controlada. Então, essa coisa, a lei orgânica, para mim foi muito gratificante. Pode falar, pode fazer pergunta.

 

P/1 – Foi nessa época que surgiu a ideia do DIEESE?

 

R – Vamos chegar lá. O DIEESE passou por todo um sistema de preparação. Ele não surgiu de um estalo, não, ele foi fruto de toda uma acumulação de aprendizagem. Então, nós fizemos o Pacto de Unidade Intersindical, e, dentro do Pacto de Unidade Intersindical é que começou com cinco sindicatos: Gráficos, Metalúrgicos, Marceneiros, Têxteis e Vidreiros. Esses foram cinco sindicatos que fundaram o primeiro Pacto de Unidade Intersindical na rua... Ali na rua... Aquela rua ali do Parque Dom Pedro, frente para a Assembleia. Agora fugiu, deu branco, aquela rua é muito conhecida. É rua dos Cerealistas! É, você já acertou, é isso mesmo. Então, naquela rua era uma casa baixa, de um sócio, onde funcionava o sindicato. O sindicato se transformou em sede e dali nós começamos a “mandar brasa” em tudo. E todas as nossas lutas sindicais durante esse período, as lutas reivindicatórias, elas encontravam a barreira de como seguir aquilo e provar que era aquela percentagem que os trabalhadores reivindicavam - não tinha como, não tinha um auferidor. O único em que a justiça se baseava – aí vamos chegar ao DIEESE... – era uma comissão do Ministério do Trabalho, a qual não tinha a nossa presença nem participação, e a Secretaria de Abastecimento de São Paulo, comandada por Ademar de Barros, e o secretário era o João Acioli, um advogado até do Sindicato dos Têxteis. Então, esses dois dados nunca... E é natural, nunca conferiam com aquilo que a gente achava que era custo de vida. E nós nos batíamos... E nós só  levávamos alguma vantagem quando fazia aquele tipo de greve enfrentando polícia, enfrentando todas as dificuldades para fazer uma greve, como fizemos em 1953, a chamada “Greve de 700 mil trabalhadores.” Então surgiu a ideia da gente criar o nosso próprio organismo de levantamento de custo de vida. Aí fui eu, como secretário do Pacto; foi o Salvador Romano Lossaco, presidente do Sindicato dos Bancários – aqui eu rendo a minha homenagem, porque sem ele não teria existido o DIEESE; foi o Remo Forli, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos – eram os dois maiores sindicatos da época, os mais combativos eram esses dois; nós, do Laticínio,  não éramos numericamente tão expressivos, mas, politicamente, éramos pesos-pesados. Enfim, nós somamos cinco sindicatos e começamos a trabalhar dia e noite. Mas era até meia-noite, uma hora, duas horas da manhã elaborando, pesquisando, estudando, e um dos homens-chave nisso aí chamava-se – que os bancários, depois que a CUT chegou, nunca mais reconheceram – Salvador Romano Lossaco, que não era do Partido Comunista, pelo contrário, era um anarquista nato, mas uma fidelidade de classe e uma competência para ficar do nosso lado que era impressionante. Nós fundamos o DIEESE. Fundamos o DIEESE e pusemos: Departamento Intersindical de Estudos... De Estatística e Estudos Socioeconômicos. Antes, era só Departamento Intersindical de Estatística. Aí, um jornalista chamado Xavier Toledo - era um jornalista de um jornal que não existe mais, aquele jornal, o Correio Paulistano, trabalhava na Câmara, acompanhava a gente, era um simpatizante - ele disse: “Olha, vocês têm que acrescentar, em vez de ‘Estatística’, você pôr ‘Estatística e Estudos Socioeconômicos’, porque vocês abrem a perspectiva de se tornarem um instituto.” E nós incorporamos essa sugestão. Ficou DI-E-ESE. Foi um negócio muito bonito, foi uma vitória grande, e do DIEESE participaram apenas, no começo, aqueles sindicatos que não concordavam com o pacto de unidade, que já era majoritário e era... Tinha, abertamente, a hegemonia dos comunistas; embora, é claro, não tivesse 100% de gente comunista lá, mas a maioria dos sindicatos que acompanhavam o pacto de unidade tinha a hegemonia do Partido Comunista. Então, alguns dirigentes sindicais e alguns sindicatos mais conservadores, mais retraídos, não entravam no Pacto. Foi também um caminho que nós descobrimos para trazê-los para participar da luta conjunta. E se entusiasmaram, por isso formaram... Além dos cinco, depois vieram os outros, que constam da Ata - mais ou menos 19, eu não lembro assim de cabeça - mas constam da Ata de Fundação. Primeiro técnico do DIEESE – desculpa, está lá escrito, é só ir lá e procurar, eu não lembro o nome – que foi contratado, ele era um homem alienado.  Politicamente alienado. Mas veio como técnico, era um economista qualificado, não sei o quê, mas pouco estava ‘se lixando’ para o objetivo da classe, que era um confronto. Nós tivemos o cuidado de manter sempre o DIEESE como instituição técnica. Nunca aceitamos... Inclusive eu era... Achei ruim, como dirigente do Partido Comunista – que eu já era, naquela época, do comando municipal do partido - reagi e não permiti, como os outros companheiros não permitiram, que um partido comunista instrumentalizasse o DIEESE, fizesse dele um... Digamos assim, um trampolim político para certas ocasiões. Nós nunca fizemos isso, para garantir a unidade daqueles que vinham com o DIEESE. Esse técnico fez um bom trabalho nos primeiros 20, 40 dias. Quando nós apresentamos o primeiro resultado, assustou a Federação das Indústrias, presidida na época pelo Antônio de Visatti, o homem dos calçados. Ele era um industrial italiano, industrial de calçados, e ele que era o presidente da Federação das Indústrias, cuja sede é aqui no Viaduto Maria Paula, ali... Pertinho aqui da Praça João Mendes. Eles se mancomunaram, estudaram, chamaram esse técnico, triplicaram o salário que nós tínhamos estabelecido, que era o que a gente podia pagar. O cidadão não deu para a gente nem bom-dia, nem boa-tarde, caiu fora. A gente ficou sabendo que ele já estava lá e que ele não ia mais voltar para o DIEESE... Deixou a gente “pendurado na broxa”, como se diz na gíria. Então, o Partido Comunista, que tinha presença em todas as Universidades, em todos os jornais, em toda parte – eu não vou... É só olhar aqui que vocês conhecem essa influência daquele período – através do Câmara Ferreira, que era o jornalista responsável pelo jornal O Hoje, do Partidão, era o assistente dos universitários e localizou o Albertino Rodrigues. Era um companheiro... Ele era professor da PUC – da PUC ou da Getúlio Vargas? Isso não é importante... – e era militante do partido. Também era aquele homem muito sereno, muito discreto, não era assim “queimadão.” Ele veio, o Câmara Ferreira o trouxe, nos apresentou, nós o acolhemos. Ele então deu estrutura - estrutura do ponto de vista técnico, funcional - e começou o trabalho. E o trabalho, aí ninguém segurou mais. O momento em que nós apurávamos... Apuramos um resultado, e a Federação das Indústrias, para desmoralizar a gente, apresentou um resultado maior de custo de vida para desmoralizar o DIEESE, pensando que a gente ia morder a isca. Aí, nós fizemos uma reunião de emergência e concluímos o seguinte: “Vamos lançar uma nota que o certo é o nosso, mas pelo tempo que eles nos enganaram, nós aceitamos receber os dados que eles estão dando, e vamos exigir. Mas os dados reais são esses; esses que eles estão apresentando nós queremos porque é muito maior o prejuízo que eles têm nos dado através dos anos. Então, o nosso dado é certo, para não abrir mão.” Com isso, nós não mordemos a isca, e com isso o DIEESE se credenciou. E aí já foi assinado um convênio com a CEPAL, esse organismo das Nações Unidas para a América Latina. E aí o DIEESE começou com uma credibilidade crescente e uma equipe que foi se revezando até chegar o golpe de 1964. E no golpe de 1964, eles, os militares, intervieram em tudo: grêmios estudantis, eles destruíram; sindicato, não precisa falar porque vocês conhecem a história. Eu, de uma vez só, perdi o mandato de presidente da Federação dos Trabalhadores da Indústria de Alimentação do Estado de São Paulo; presidente do nosso Sindicato de Laticínios – presidente licenciado, mas era presidente, porque estava exercendo; diretor da CNTI; diretor do DIEESE; tudo isso eles caçaram de uma vez e me caçaram também os direitos políticos por dez anos. Essa violência, todavia, não chegou ao DIEESE. Eles não tinham como justificar uma intervenção no DIEESE, embora tenham assustado todo mundo, ameaçado, e o Albertino teve que se mandar para Portugal, entendeu? Foi trabalhar em Portugal, porque o clima, a pressão era muito grande, a perseguição, as ameaças. Aí foi quando entrou... No lugar do Albertino entrou o Walter... Não, entrou a Lenina.

 

P/1 – Lenina.

 

R – A Lenina, companheira inclusive que era uma especialista em Economia, foi assistente do Delfim Neto, era uma pessoa de grande... Como se diz? De grande qualificação profissional. Em seguida, o Walter Barelli. E aí as coisas começaram a caminhar; mesmo dentro da ditadura nós reagrupamos, e com o DIEESE nós conseguimos realizar muita coisa, realizamos inclusive estudo para o MIA. Vocês já ouviram falar no MIA? Movimento Intersindical Anti-arrocho, fundado por nós, nós na clandestinidade, porque a lei salarial que os militares estabeleceram, ela só reajustava o salário na média dos últimos três anos. Não era o salário... O desgaste de um ano. Não, era a média dos três anos, que era para rebaixar o salário. Era uma lei terrível, mas que tinha que prevalecer; foi a ditadura que estabeleceu através de um Ato. E nós conseguimos aglutinar o movimento sindical em função disso, o DIEESE prestando os seus serviços de assessoramento, auxiliando com dados, com informações, mas politicamente nós fazíamos na clandestinidade e legalizamos, viemos para a rua, apoiados pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, presidido... Tiro o chapéu. Quem não gostasse, como dizia o Porfírio da Paz, “fica um a menos.” Presidido pelo Joaquinzão, que todo mundo aí, os invejosos, os inconsequentes, os irresponsáveis, chamam-no de “pelegão.” Não foi. Não foi. Quando o Joaquinzão... Desculpe eu dar este depoimento, porque a história merece respeito. Quando o Joaquinzão assumiu a interventoria... Foi interventor do Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos, porque ele não tinha nenhum vínculo com, vamos dizer assim, com o Partido Comunista, nem com a esquerda. Pelo contrário, ele sempre foi a oposição a nós, mas aquela oposição honesta, séria. Era um grande líder, tanto é que provou que foi capaz. Chegou em Guarulhos, a primeira coisa que ele fez... Naquele tempo, nós já tínhamos, vou repetir, delegados sindicais nas grandes empresas, era uma escola de quadro que a gente fazia cursos e o diabo. E a polícia vinha em cima - Polícia Militar; o Exército, com aquela Comissão de Investigação... Joaquinzão, a primeira coisa que fez foi pegar a lista de todos esses delegados, empacotar e entregar na mão do companheiro de confiança do partido. Disse: “Leva daqui, que a ditadura, os militares não vão ter acesso a essa lista.” Isso foi muito usado pelo Joaquim, e a mesma coisa ele fez aqui em São Paulo quando foi interventor aqui em São Paulo e, concomitantemente, ele atuou conosco e, na prática, ele liderou o Movimento do Anti-arrocho, o MIA, que incorporou os bancários, incorporou os metalúrgicos... Nós chegamos a reunir 47 sindicatos dos mais expressivos nessa luta, já de cara contra a ditadura, aberta. E o Joaquinzão, como interventor do sindicato, assumindo a liderança dessa briga. Então, tem que prestar. E foi a partir daí que nós nos firmamos outra vez dentro dos sindicatos, politicamente, para poder enfrentar a situação. O DIEESE dando a sua contribuição, nós participando com muita coragem, e eu apresento a minha homenagem a todos aqueles companheiros que tombaram, que se arrebentaram na luta. Eu tive o esquadrão da morte na minha casa, eu tive a minha prisão preventiva decretada por quatro vezes até que pego, por sinal no dia do AI-5, que era uma reunião do partido ali na rua Santo Amaro. Eu tinha documento... Eu tinha um jeito de viver na clandestinidade até onde pude, é claro. Aquele dia... Eu fui preso como delinquente, porque nós saímos da reunião, ali era meia-noite mais ou menos, no dia do AI-5. E por que estávamos reunidos? Porque o comitê dos aeronautas... Comitê do partido nos aeronautas, eles eram dirigidos diretamente pelo Comitê Central, eles não tinham ligação com os estados, até porque é uma categoria nacional e não interessava que fosse conhecido nos estados. Eles pediram uma reunião com o partido para saber o que fazer a partir daquele Ato, e a pessoa designada para responder nessa reunião, para falar nessa reunião, em nome do partido, fui eu. A reunião era ali na Santo Amaro, na esquina da Santo Amaro com a Maria Paula, aquele prédio grande, na casa de um comandante. E a conversa era: “O que fazer agora? Qual é a orientação do partido?” Então nós discutimos todas as possibilidades e a orientação de como se comportar até nova palavra de ordem. Aí isso demorou e tal, e eu fui me preocupando porque a reunião estava demorando muito e, sabe como é, a gente não tinha experiência de clandestinidade. “Olha, vocês estão correndo risco, todos vocês aqui e eu também. Nós não podemos vacilar, não. Vamos direto e tal. Vamos encerrar, vamos acertar.” Acertamos o que tinha que acertar. Aí eu desci, porque na reunião clandestina do partido, há... Havia e deve haver ainda - não sei onde tem partido ilegal - havia alguns critérios chamados de segurança e de conspiração. Por exemplo: o dirigente, ele só chega depois que a reunião está montada; todo mundo chegou porque está garantido que a reunião está sem perigo. E ele é o primeiro a sair, tá certo? E assim, o primeiro que sai é o dirigente máximo, para que não corra o risco de ser preso e dar com a língua nos dentes, pôr em risco toda a reunião. Então eu saí primeiro, desci, veio um jovem que estava também na reunião, disse: “Olha, Tenório, eu estou com o carro aqui embaixo, eu te levo, aproveita a carona.” E ele era do partido, um cara de confiança, não era... Então vamos embora. Agora, qual foi a loucura? A loucura é que ele... O rádio estava dando a notícia, a cada minuto, e ele começa, ali na Maria Paula, meia-noite e meia, tudo escuro, fila de carros parados de um lado e de outro, e ele liga o carro e começa a procurar notícia. Eu disse: “Vamos sair daqui.” Quando eu estou falando isso, vem uma radiopatrulha procurando... Dessas que procuram puxador de carro, essa coisa toda. Se aproximou do carro, olhou e disse: “O que é que há?” “Não, nós estamos saindo.” A polícia engoliu e eu disse: “Vamos sair rápido daqui.” Não deu outra. Imediatamente a radiopatrulha, vamos dizer assim, andou cem metros e aí começou a voltar de marcha-a-ré. Eu digo: “Estamos perdidos. Liga o carro, e para todos os efeitos você...

 

FIM DO CD 1/2

 

R – “... Nós vamos em cana, só que você vai dizer que me encontrou aqui por acaso, no bar, tomamos um café e que você me conhecia da campanha eleitoral, porque eu fui candidato a deputado e fui eleito lá no aeroporto, fiz campanha lá e fiquei conhecido por você.”

 

P/1 – Eu estou curiosa para saber.

 

R – Bom, então, como eu continuo, estava no carro, a radiopatrulha veio de marcha-a-ré e aí ficou paralela com o carro e começou a exigir informação, documento, tal. O rapaz, muito inexperiente... Eu já o tinha orientado que, no caso de desastre, ele teria que se comportar como uma pessoa que me conheceu no aeroporto, quando eu fiz a campanha para deputado. Eu estive várias vezes pedindo votos lá, fiquei conhecido, e, por acaso, nos encontramos aí e tomamos um café ali no bar e estávamos saindo para casa, nada mais do que isso. Por aí você não precisa dizer mais nada, o resto eu seguro. Muito bem. Não deu outra. A polícia chegou: “Documento!” O rapaz era tão ingênuo, que qualquer um malandro... Malandro, não, qualquer um normal, faria o seguinte: “Não, sem problema.” E começava a procurar. E ia no porta-luvas, e aqui e ali, não é? Não, ele imediatamente diz: “Não, eu não estou com documento. Eu estou sem o documento.” Era o necessário, o suficiente para a polícia levar. Aí ele disse: “Mas o carro é seu?” “Não, é de meu cunhado, é que eu estou comprando o carro.” Uma conversa de ladrão de carro mesmo, não é? E não era nada disso, ele estava falando a verdade. E aí a polícia: “Ah, vem cá. Você está com conversa furada.” Dois – eram três na radiopatrulha – dois o pegaram, arrancaram para empurrá-lo para dentro da radiopatrulha, e naqueles... Um minuto, um minuto e meio, a minha cabeça funcionou a duzentos por hora. “O que fazer? O que fazer? Corro, pulo, não pulo? Fico aqui e espero ele me levar?” Aí eu cheguei à conclusão rápida: vou pular! Porque a conclusão era a seguinte: se dois estão segurando um, não vão soltar para correr atrás de mim. Ledo engano! Eles seguraram o cara... O cidadão, e outro sacou, puxou o revólver e começou a dar tiro. “Pega! Pega!” Numa hora daquelas, na rua Santo Amaro, e eu cruzando os carros assim. Passava por um, passava por outro, os carros parados e aqueles gritos e aqueles tiros. Eles não... Polícia é polícia, não é? O que aconteceu? Quando eu virei para sair na rua Maria Paula, ali veio uma malta de ‘tira’, porque eles trabalham mais ou menos organizados, não é? Ah, me cercaram assim. Olha, o primeiro safanão que eu levei assim, no pé do ouvido, como se diz, acho que subi mais ou menos uns 60 centímetros do chão. E fazia aquele “mmmmmm”, o ouvido fez assim, eu caí, e os caras: “Tá seguro! Tá seguro! Roubando carro!” Me jogaram dentro da radiopatrulha e me levaram. Qual era o meu medo? O meu medo era que eu estava num apartamento, sabe onde? Ali na rua... Aquela rua onde era a antiga USP, onde era o prédio antigo da USP...

 

P/1 – Maria Antônia?

 

R – Isso! Estava alojado ali num apartamento cedido por um comandante da “aeronauta” - aeronauta civil - que ele era... Entregou orientando, discreto e tal: “Fica lá, ninguém vai mexer com você.” Que era a segurança que eu tinha para poder... Aí eu fui ver um nome qualquer lá, o zelador engoliu. Ele avisou: “Não, é meu filho, vai passar uns dias aí.” O zelador engoliu, deram um nome qualquer, mas eu estava com as chaves do apartamento no bolso. E como sair disso? Pensei duzentas vezes enquanto eles me levavam, e eu tentando convencê-lo: “Olha, não faça isso. É um rapaz de família. Vamos até a casa dele. Vocês vão perder tempo.” E a pretexto de... Era a maneira de subornar, de tapear, era dar algum dinheiro. O dinheiro que eu tinha, não me lembro, era muito pouco, era uns cem reais talvez. “Mas aí a gente paga a gasolina, não tem problema, vocês não perdem tempo.” Aí o que estava do meu lado disse: “Eu até concordaria com o senhor, mas esse negrinho que deu os tiros no senhor aí, que atirou, ele não vai aceitar nada disso. Ele está louco da vida para lhe acertar. Está puto da vida porque o senhor tentou fugir.” Nisso aí, conversa vai, conversa vem, eu consegui tirar a chave do apartamento e jogar assim... Porque com a chave, assim, eles não iam abrir... Quantos milhares de apartamentos tem em São Paulo? Eles não iam acertar qual era o apartamento. Aí eu soltei no assoalho da perua. Eles iam encontrar a qualquer hora, mas e daí? Aí eu precisava confessar, mas isso aí era um outro lance. Mas, pelo menos, num primeiro momento, salvava. Mas acontece que eu estava com uma conta de luz, que eu tinha acabado de pagar, no bolso do paletó. Bom, conclusão, quando eu cheguei no DI, ali na rua Brigadeiro Tobias - ali era o Departamento de Investigações da Secretaria de Segurança - eu cheguei... O tal investigador que tinha dado os tiros estava espumando de ódio. “Ó, doutor, olha aqui o que nós pegamos! Olha aqui, estavam ‘puxando’ carro lá na rua Santo Amaro. E tal...” E era um plantão permanente, tinha muita gente sentada no banco ali esperando a hora de ser ouvido e de ser encaminhado para onde devia ser. Aí pegaram o meu documento e eu estava com nome certo, não estava com nome trocado. O delegado pegou, olhou, foi no computador. Ah, quando ele viu o nome, o delegado pulou meio metro de alegria. “Vocês não sabem o que vocês fizeram. Vocês pegaram o homem mais procurado pela polícia de São Paulo e do Brasil. Nós pensávamos que esse homem estava exilado lá, escondido com o João Goulart no Uruguai, e esse homem aqui, nas barbas da gente, dando sopa! Vocês estão promovidos! Vocês não sabem!” Aí deu o nome, deu um pouco da biografia. “Essa peça é importante!” Aí o meirinho ficou todo feliz. “Ah, doutor. Tá bom. Deixa ele aí, e amanhã...” Eles queriam que eu fosse lá para o porão do DI porque aí eles iriam me pôr no pau-de-arara, judiar, fazer o que eles queriam. “E amanhã, a gente...” O delegado: “Não, a responsabilidade minha é muito grande, esse homem é muito importante, esse homem está sob a responsabilidade da...” – como é que chama? – “da Justiça Militar. Eu não quero brincar com isso, não. Ele vai agora... Eu vou entregá-lo ao DOPS.” Que era o Departamento de Ordem Política. “Eu tenho que entregar.” Aí ele fez um B.O. e tal, o cara se condoendo: “Mas deixa ele ficar só hoje aí.” “Vai para o DOPS.” Eu e o outro, juntos, não é? Então algemaram outra vez, chega lá no DOPS já estavam o chefe do DOPS e cinco delegados. Eles avisaram e já foram me esperar lá. “Êh... O senhor deu tanto trabalho para nós! Felizmente o senhor caiu como um patinho! O senhor sabe que o senhor está com quatro prisões preventivas decretadas?” “Você já aproveita e decreta mais uma! Cinco! Já estou aqui mesmo.” Ele deu uma gozada assim. Eles, no primeiro momento, respeitaram e tal, me puseram numa cela, e a partir daí... Sabe em que cela eu fui colocado? Na cela de onde tinha saído, há três dias, o Caio Prado Jr. O Caio Prado Jr. também esteve lá, preso, e eu fui para essa mesma cela que estava livre para isso. Fiquei lá com o rapaz, orientei o rapaz e, a partir daí, eu fiquei 40 dias. Para concluir, fiquei 40 dias incomunicável. Incomunicável! Quando eram 11 horas, meia-noite, aí abriam a porta da cela, e dois ‘tiras’, com metralhadora, me acompanhavam, me levavam para uma sala especial lá, num andar superior do DOPS, com gravadores, delegados e investigadores para interrogar. Claro que aquela presença armada, tudo, era para apavorar. Eles estavam matando gente, todo dia, de qualquer jeito, e eu consegui, equilibradamente, ir levando a coisa, mas sempre, modéstia à parte, com altivez. Porque se eu desse alguma demonstração de paúra, se eu fizesse alguma declaração que eles pediam… “Você entregou o primeiro, agora vai até o fim”. Aí você ia para a tortura para entregar o resto, não é? “Eu não sabia de nada, eu vivo a minha vida, vocês estão sendo arbitrários.” “Mas o senhor está clandestino este tempo todo aqui no Brasil, fazendo subversão...” E essas coisas todas. Eu sei que, durante 40 dias, eu fiquei incomunicável, e ameaças eu tive de todo tipo, não é? Umas porradas, umas coronhadas... “Você vai para o pau-de-arara!” Mas não me levaram, tá certo? Alguns choques que deram, mas eu consegui me manter. Teve uma hora que, aí, eu tremi na base. Minha mãe tinha, naquela época, uns 70 anos ou mais, um pouco mais, já estava traumatizada de tanta coisa. E os caras: “Sabe, nós vamos trazer a senhora sua mãe aqui e nós vamos torturar o senhor na frente dela.” Aí você treme na base, não é? Aí eu pensei, eu disse: “Eu não acredito que vocês sejam covardes a este ponto. Mas se fizerem, façam e vocês vão responder pelo crime que vocês vão cometer.” Perdido por perdido, perdido e meio! O que eu ia fazer? Pelo amor de Deus! “Mas esse cara é fraco mesmo, vamos bater nele que ele vai entregar.” “Pode trazer. Se vocês são covardes, façam. Eu não acredito que vocês sejam covardes a este ponto.” Bom, finalmente, aquela acabou escapando. No fim, foi quebrada a tal incomunicabilidade, e eu fiquei esse período... Mas antes de quebrar a incomunicabilidade, vamos dizer assim, uns oito, dez dias antes, às dez horas da noite chegou uma visita toda especial: um oficial da Aeronáutica e um oficial do Exército, acompanhados do chefe do DOPS. Careca, parece que eu o estou vendo. E o delegado responsável pela investigação, responsável pelo documento, pelo depoimento, junto com o chefe do DOPS, mais um delegado e essas duas personalidades. Abriram a cela, entraram. “’Seu’ Tenório, nós chegamos aqui porque esse aqui é fulano de tal...” É, não deu nome... “Esse aqui é oficial da Aeronáutica, esse aqui é um oficial do Exército. Eles vieram aqui porque eles não aceitam o seu depoimento. O senhor falou aqui esse tempo inteiro; segundo eles, o senhor não disse nada. Não tem nada que se aproveite no seu depoimento. Eles não aceitam e eles vieram aqui para conversar com o senhor, porque... Eles vão levar o senhor lá para o DOI-CODI.” Naquele tempo, você lembra, não é? O DOI-CODI pegava e matava, não dava satisfação a ninguém. E foram conversando: “Nós estamos acompanhando a sua vida aqui, o senhor tem... Na cela, o senhor tem rádio, o senhor pega a rádio central de Moscou.” E pegava. “O senhor ouve a BBC de Londres. O senhor faz palestra aqui com os presos. O senhor faz proselitismo e agitação aqui dentro.” E foi enchendo, foi enchendo. Eu disse: “Olha, eu não faço. Eu não faço agitação aqui dentro.” Escuta que arrogância a minha. “Quem está fazendo agitação, desde o Oiapoque ao Chuí, neste país, é o Partido Comunista, o Partidão. E está fazendo na clandestinidade, e vocês sabem que isso vai virar, nós vamos sair na crista da onda.” Acredite se quiser, a reação do delegado-chefe. Olhou assim, disse: “Mas o senhor é testemunha que eu nunca bati em comunista aqui.” [RISOS] Você entendeu? Acreditaram, quer dizer. “O senhor é testemunha. Está bem, mas depois a gente conversa.” E os caras foram embora. E o delegado os levou até a porta e voltou: “Olha, o senhor está brincando. Esses homens levam o senhor para o DOI-CODI e o senhor vai ver. Aqui nós propomos, mas lá eles vão lhe torturar até a morte.” “Vamos fazer um acordo. Eles podem fazer o que quiser. Eles estão com o poder na mão, podem fazer. Agora, quem vai responder pelos crimes são eles, não sou eu. Porque atrás vem a classe operária aí, disposta a retomar a linha de combate e assumir o poder neste país.” “Não, ‘seu’ Tenório, vamos fazer o seguinte: a gente rasga esse seu depoimento, o senhor faz um depoimento muito mais curto, conciso, assina e nós livramos o senhor desse perigo. Não fica melhor assim para o senhor?” Eu digo: “Fica. Quer dizer que nós podemos rasgar? Pode rasgar, mas nós tiramos uma xerox antes, porque eu vou dizer a mesma coisa” [RISOS]. Com isso, eu consegui ganhar tempo lá dentro desse clima de terror. E dias depois, essa minha irmã que é freira lá no Nordeste ainda, está com setenta e... Acho que 88 anos, ela aparece no DOPS. Conseguiu uma visita, conseguiu através de meu advogado, doutor Aldo Lins e Silva, que era um dos advogados... Era da família Lins e Silva, do Evandro, aquela coisa... Conseguiu e veio me visitar. Aí o carcereiro chegou assim, disse: “Olha, tem uma freira aí, diz que é sua irmã, mas tem hora para visitar o senhor.” Comunista desses, perigoso, não é? Comunista nessa situação, vem uma irmã freira? Aí foi um papo, olha, coitada, ela fazia tanta... “Mas, por quê?” “E, olha, em primeiro lugar, irmã Beatriz, eu quero manifestar o meu agradecimento por tudo que você fez por mim, pelo que você está fazendo agora. É realmente um gesto que é coisa de nordestino, a solidariedade da gente nordestina é uma coisa muito séria, mas tudo o que eu fiz, tudo o que eu estou fazendo, foram vocês que me ensinaram. Não é amar o próximo como a si mesmo? Foi o que nós fizemos: lutar pelos humildes, pelos injustiçados, pelos trabalhadores. Não é esse o ensinamento de Cristo? Não foi isso que você me ensinou no catecismo? Não foi isso que eu aprendi, e não é isso que eu estou fazendo?” Quase que eu a recrutei lá, não é? [RISOS] Ela saiu muito encorajada, tinha uma personalidade muito forte. Olha, a partir dali começou... Queriam me transferir de prisão. Um dia, me pegaram às duas horas da madrugada, meteram dentro de um camburão, saíram pela garagem do DOPS, tudo isso... Para me intimidar: metralhadora e tal, num camburão fechado. “Vamos dar uma volta, vamos dar um passeio!” E eles tiravam os caras assim para matar. Foi o que fizeram com o Marighela para depois dizer que resistiu à prisão, não é? Aí eu já não senti mais a certeza de que eu ia voltar. Mas fazer o quê? Já estava... Aí eu tive a sorte que um papel e lápis que eu tinha... No escuro, eu consegui um pedaço de papel, escrevi... Não sei se escrevi para alguém ler, ou se alguém leu ou não leu, mas a gente usa todos os recursos que tem. Escrevi: “Sou Luiz Tenório, preso político do DOPS. Estou sendo tirado agora, às duas horas da madrugada, pelos fundos da garagem para ser assassinado. E os companheiros que tiverem oportunidade - qualquer pessoa - denunciem isso, logo que pegarem esse papel.” Seria um milagre achar um na avenida Tiradentes - eu estava indo em direção à avenida Tiradentes. Joguei, foi uma tentativa, não é? Daquela história da Madre de Calcutá, que você conhece aquela frase famosa dela, conhece? Que ela dizia: “Eu, o que faço é uma gota; mas sem essa gota, o oceano ficaria menor.” Quer dizer, a gente faz o que está ao alcance. Muito bem. Mas isso... Então, chegava a um momento... Quer dizer, não é bom aqui a gente resolver esse problema. Eles na cabine e eu vim, resolveram fazer aquilo, entendeu? Para apavorar, para criar pânico. “Está na hora de ‘apagar’ esse...” Mas aquilo, eles não tinham ordem para “apagar”, então tinham que voltar. Na outra semana, nada mais do que o bispo Dom Acácio Brandão, o bispo vem me visitar. Aí a coisa mudou mais ainda. “Bom, mas o bispo?” Concederam a entrevista, ele veio, conversamos muito, ele disse: “Olha, minha presença aqui, ‘seu’ Tenório, é que o senhor escreveu uma carta para irmã Beatriz” – eu fiz uma carta para ela, justificando tudo isso, está no livro, acho que está nesse livro a carta – “e nós recebemos essa carta. Essa carta, ela passou para nós, essa carta foi lida na Conferência dos Bispos e eu recebi a missão de vir ouvir o senhor, trazer solidariedade e tal.” Foi só ele sair, dois dias depois, sabe o que fizeram? Me tiraram do DOPS, e o boato que corria era o seguinte: a Igreja trama a fuga do Tenório. Então, dois dias depois me levaram para o quartel do Rio Branco - do Barro Branco, ali, da Polícia Militar, para trocar de... Para dar mais segurança, não é? O quartel da Polícia Militar. Então, fui para lá. Mas chegando lá, olha a sorte, os ‘tiras’ que me levaram, apresentaram o documento do comandante a um coronel da Polícia Militar. Recebeu assim: “’Seu’ Tenório? O senhor é meu parente! Sou da família Tenório também! Ah, vamos ser amigos aqui.” Aí a conversa já virou toda a meu favor. Na palavra dele, ele realmente foi um cara muito democrata, não permitiu nada além do que um tratamento respeitoso e tal. Mas também durou pouco, porque de todo lado tem espião, não é? Foi uma semana, me levaram... Aí sim, para um quartel do qual existe, até hoje, a carcaça ali no Parque Dom Pedro - 4º Batalhão de Infantaria do Exército. Ali foi... Ali era provocação, uma em cima da outra. Estava preso comigo um japonesinho que eles mataram, que o chamavam de Ho Chi Minh, um cara valente. E a coisa ali, aquele pessoal do Exército ali... A gente só saía para receber uma visita com uma metralhadora nas costas. É coisa para a gente sentir... Desarmado, na mão deles, eles faziam isso. E um dia veio... Eles vieram trazer o almoço, e o almoço era entregue pela janelinha da grade da cela. Aí o japonês disse assim: “Eu quero sair para lavar a mão. Fui à privada agora, não vou comer sem lavar a mão.” Aí o guarda: “Mas o senhor não vai sair, porque nós não vamos permitir.” “Então, enfia essa linguiça naquele lugar, seu filho dessa, seu filho daquela!” E aí o japonês virou fera, não é? Virou fera. Aí veio o... Como é que chama isso? O oficial de dia, que é o chefe do quartel naquele dia. “Opa! Você subiu, perdeu muita coisa, mas vai aproveitar.” “Perdeu muita coisa para vocês. Eu não sei se está valendo, não. Vocês estão tolerando é porque vocês têm bom coração.” Aí veio o oficial, disse: “O que é que o senhor está pensando?” Mas esse japonês era louco. “Senhor, nós estamos lhe tratando aqui com tanto...” “Eu não pedi para vir para aqui, vai tratar assim a puta que te pariu!”, disse o japonês. “Eu não estou aqui... Não pedi para vir para aqui, não. Vocês são covardes, são golpistas.” Bom, no fim, arrumaram um jeito de tirarem ele de lá e o mataram numa rua de São Paulo. Saiu na imprensa, dizendo que ele fugiu e reagiu à polícia, reagiu à prisão. Então, vivi também ali esse momento mas também tive momentos muito, mas muito marcantes na cela do DOPS. Vou contar um minuto para não perder esse episódio. No DOPS, eu recebia a comida também num prato de lata, com uma colher enferrujada, era feijão com arroz e um pedaço de salsicha, era esse tipo de comida assim. E um dia – que nós estávamos incomunicáveis – chega um cidadão assim numa janela daquelas e bate assim: “Seu Tenório...” Aí eu ouvi, escutei. “Olha, ninguém nos ouvindo não, viu? Eu sou seu amigo. O senhor não me conhece, mas eu era da Usina de _______, quando o senhor fez aquela greve e nós ganhamos nosso aumento de salário. O senhor foi o melhor amigo dos trabalhadores. Se o senhor tiver algum recado para o seu advogado, o senhor prepara aí que eu levo.” Foi aí que quebrou a incomunicabilidade. Eu fiz um bilhete com o endereço do Aldo Lins e Silva, ali na rua Xavier de Toledo. Ele levou lá, ninguém sabia que eu estava preso e onde estava. O Aldo, com aquele bilhete, foi no Tribunal Superior Militar e quebrou a incomunicabilidade, está entendendo? Quer dizer, um episódio assim tão gratificante, mas tão bonito na vida da gente, dá tanta coragem para a gente continuar... Então, são essas coisas que a gente, às vezes, recebia visita, mesmo no DOPS... “Ó, coitado!...” Aquelas pessoas, principalmente mulheres solidárias, militando, as pessoas anônimas. “Puxa, como é que pode fazer isso? O ‘seu’ Tenório é uma pessoa boa, é inocente.” Eu digo: “Não, inocente não! Inocentes são eles que não sabem o preço que vão pagar por causa dessa covardia, dessa prisão.” Aí, tinha também um preso comigo, que era dirigente da Federação, ele dizia assim: “Não, são uns covardes, uns bandidos, não sei o quê!” Bom, mas a pedra-chave era eu. Aí me levaram para o quartel do Barro Branco, do quartel do Barro Branco me transferiram para ali. Eu digo: “Eu estou perdido! Onde é que eu vou parar?” No fim, sabem para onde me levaram? Para a Casa de Detenção. Ali no Carandiru tinha cem mil presos políticos. Todos os crimes enquadrados no Código Civil e Penal e muitos outros que não tinham nem como enquadrar, tão hediondos eram os crimes. E a gente saía junto para tomar banho de sol. Aí eu fiquei muito famoso, fiquei conhecido. “Olha, aquele cara é o ‘quente’.” Os bandidos diziam assim: “Aquele cara é o ‘quente’. Aquele cara está com 30 anos aí, condenado a 30 anos,” Porque eu já tinha sido julgado. Aí eu passava no banho de sol, eles passavam: “Bom dia, seu comunista.” Eles tinham um respeito! “Bom dia, seu comunista!” Eles tinham um respeito muito grande porque eu disse, numa reunião do chefe da cadeia, o tal Fernando Fernandinho, que era diretor da prisão, eu disse coisa que nenhum preso podia dizer, porque senão, se dissesse, estava perdido. Eles metiam numa cela isolada e matavam o cara, como mataram muitos assim. E eu disse coisa para eles que os outros ficaram felizes por dentro, entendeu? E ficaram gostando de mim porque eu tinha essas atitudes. Então aí, nós encontramos a coisa difícil, mas super difícil foi na Detenção, a ponto de receber... Por exemplo, eu recebi, num Natal... Bom, primeiro, vinham as visitas, e dia de visitas era um dia horrível. Revistavam as pessoas de qualquer jeito. Vocês sabem o que é revista na prisão comum, não é? Eles revistavam também a visita do preso político, e eu não vou descrever porque vocês sabem o que eles são capazes de fazer, não respeitam nem homem, nem mulher, nem ninguém. Aí, a minha irmã, a minha mãe vinham me visitar, eu disse: “Não.” Falei com meu advogado: “Fala com a minha irmã.” Dei os telefones. Não vão visitar até resolver que o dia de visita seja outro, porque eu não vou aceitar isso. Aí conseguiu que tinha um dia por semana que a minha visita era feita num dia separado do dia da visita comum, porque era no domingo. Mas um dia de domingo eu recebi um presente na minha cela que eu fiquei: “O que é isso?” Uma caixa de bombom com uma carta e mais não sei o que era ali dentro. Tinha uma camiseta bonita e dizia o seguinte: “Meu caro Tenorinho, vim aqui hoje e não tive a sorte de vê-lo.” – porque foi num dia comum de visita – “mas vai aqui o meu abraço, tá tá tá...” Peguei a caixa e ela vinha de uma loja da rua Augusta. Apesar de que não vai passar pela rua Augusta para comprar presente para ninguém. Fiquei... E estava escrito lá: “Rada.” E eu fiquei três, quatro dias até que o advogado me visitou, falei com o advogado, o advogado disse: “A Rada é a mulher do Cláudio Abramo.” Você vê? Tem uns negócios, tem coisa assim que a gente não vai esquecer nunca e que o povo... Isso é o espírito de solidariedade do povo. Cada pessoa dessas representa um sentimento de nobreza do povo brasileiro. Na minha opinião, não é um negócio individual, não. É o reflexo de um sentimento de nobreza, de grandeza do povo, e de coragem do povo brasileiro. Eu tive várias demonstrações desse tipo. Em uma ocasião eu recebi, ainda na Detenção, uma revista de presente. Revista para preso era proibido, porque naturalmente as revistas traziam fotografias, vamos dizer assim, eróticas, e era proibido, porque aí excitava os presos, então a revista era proibida no geral. Eu recebi uma revista, não me lembro que revista era, e o carcereiro não me entregou, tomou da visita. Tá bom. Aí, quando o Aldo, o advogado foi lá, que ele era muito corajoso, valente, ele disse: “Olha...” Aí o Aldo foi lá no diretor e disse para ele: “O que você está pensando? Eu vou entrar com uma representação no Tribunal Superior Militar, e você vai pagar por essa arbitrariedade. A lei não autoriza isso. Vou te denunciar.” Aí ele se preocupou muito, me chamou quando o Aldo foi embora, me devolveram a revista quando Aldo foi embora, ele mandou me chamar na sala dele. “’Seu’ Tenório, falei com seu advogado. O Aldo é meu amigo, fomos formados na mesma faculdade. Fala para ele não fazer isso. Sou amigo dele. O que o senhor quiser aqui, fala comigo, não sei o quê...” Claro que ele não ia falar isso para o Aldo e ia perder tempo comigo, só sei que as coisas melhoraram a partir daí.

 

P/1 – O senhor tinha sido condenado a 30 anos. Quanto tempo o senhor ficou na prisão?

 

R – Três anos e alguns quebrados, mas era a soma também de outras prisões que eu tinha. Porque eu tinha também outras prisões que somavam algum tempo, prisões temporárias tipo subversão por greve, essas coisas todas, e já estava mais ou menos cadastrado e conhecido.

 

P/1 – E nesse meio tempo o DIEESE continuou funcionando?

 

R – Continuou funcionando, felizmente continuou funcionando. E a minha Federação, a Federação que eu presidia, a Federação dos Trabalhadores de Alimentação, estava sob intervenção dos “gorilas”. Eles mandaram uma junta governativa indicada pelos patrões. A mesma coisa o sindicato. Acredite se quiser: um presidente do sindicato da bebida, que era um homem Mantovani... Isso é muito interessante. Ele era um homem apático, não participava de nenhum movimento, nem do Pacto, nem do DIEESE, porque ele era um homem que queria estar sempre distante. Ele era funcionário da Antártica, queria estar sempre distante para ficar bem, não ser molestado. Mas ele reagiu nessa coisa aí e um dia mandou... Pediu um contato comigo. Eu digo: “Contato comigo é na cadeia.” Mas aí... Foi antes de eu ser preso, agora eu me lembro. Foi na clandestinidade. Ele teve coragem, porque naquele tempo eu dava uma carta assim para um dos meus auxiliares para pôr nos Correios, o cara, a primeira coisa que fazia era pegar um lenço: “Põe aqui.” Então punha a carta no lenço para não deixar sinal digital, tamanho era o terror, o medo. Teve funcionários da Federação que foram presos, espancados. Coitados! Nunca foram comunistas, nunca se comprometeram conosco. Teve um que era até um leitor do Estadão, um homem de direita, servidor da ex-diretoria, mas um homem honesto. Quando o prenderam, disseram: “Olha, o senhor vai assinar isso aqui: ‘Tenório tinha não sei quantas amantes, Tenório tinha dinheiro no banco tal, o dinheiro de tal, tal coisa, o Tenório é comunista...’” Aí o cidadão, com 65 anos, chamava-se José Barcelos... E quando eu cheguei na Federação, a primeira coisa que o Partidão falou foi: “Tira aqueles pelegos, aqueles traidores...” Falei: “Não, não vou mandar ninguém embora, não. Se não for por servidor, ninguém vai ficar.” “Ah, mas para que vão servir aqueles pelegos?” “Bom, vão servir...” Não deu outra, não tirei. Quando os caras foram presos, um desses, Zé Barcelos, que era o mais velho, o mais responsável, técnico, chamado a assinar um documento com essa denúncia, dentro do DOPS ele disse:  “Eu não assino. Eu sei que vocês torturam, batem. Vocês podem me torturar, bater e me matar. Eu não assino.” Que o Tenório desviava dinheiro da Federação, aquelas coisas todas. “Eu não assino porque este homem... Que ele é comunista eu não preciso assinar porque o mundo todo sabe. Ele nunca negou isso. Mas foi quem melhor zelou pelos interesses da Federação. Dinheiro da Federação, ele era muito rigoroso em tudo. As despesas da Federação, tudo, tudo, tudo, muito criterioso. E eu não vou fazer uma coisa dessas. Vocês podem condená-lo como comunista, como corrupto, não, porque eu não assino.” Então, teve gestos dessa natureza. Isso tudo ficou guardado na memória da gente para sempre, e a certeza de que o povo é capaz de fazer muito. O DIEESE, nesse período, continuava na mão do Walter Barelli. Já continuava na mão do Walter Barelli, foi crescendo, foi se consolidando, tinha uma equipe, formou um sistema que vocês todos conhecem, o Brasil inteiro respeita, o mundo respeita. Estudo do DIEESE é citado e respeitado em qualquer parte do mundo. Por quê? Porque se transformou num elemento sério. E eu considero o DIEESE... Para vocês verem, eu considero o DIEESE senão a maior realização do movimento sindical na segunda metade do século XX, porque está provado aí, está provado que o trabalhador é capaz de construir quando lhe dão oportunidade. E por isso a gente nunca perdeu a esperança de, um dia, ver as coisas diferentes. Ontem, eu estava assistindo a uma reportagem de Cuba, quer dizer, por causa da doença do Fidel Castro passaram várias cenas da Revolução Cubana e tal. E um discurso do Chê, não é? Coisa emocionante. Onde ele dizia: “Vale a pena arriscar a vida lutando por um mundo melhor.” E se nós não lutarmos por um mundo melhor, não cai do céu! E aí eu sou de família católica apostólica romana e me lembro de que há uma frase na Bíblia que diz: “Faz por ti que Deus te ajudará.” Cada um de nós tem que fazer por nós mesmos, não esperar que caia pronto do céu. Então é... E tudo isso que eu falei até agora, eu sei que já estou cansando aqui a minha plateia dileta, mas eu sinto que posso e continuo podendo dar uma contribuição. Enquanto energia me sobrar, eu utilizá-la-ei para quê? Para continuar a ser útil. E eu não preciso de tutor para continuar o que eu sempre fui. Um dia, o Roberto Freire quis... Inventou um outro partido por cima do Partidão, num carreirismo, num oportunismo, tanto que agora ele está recebendo o respaldo, o troco, não é? Está abandonado. Ele não se elege nem vereador em Pernambuco mais porque o povo não é trouxa. Um dia, eu encontrei com ele, ele era senador, e ele foi membro da comissão executiva do Comitê Central comigo. Mas quando eu já estava em liberdade, depois da anistia, essa coisa toda, eu encontrei com ele: “Ô, Tenorinho, que bom te encontrar, rapaz! Ah, você sabe...” E aí começou a contar a história: “Porque você é uma figura nacional, internacional, você é um homem de prestígio, não sei o quê... Você tem que vir conosco! Você tem que estar conosco, Tenório!” “Olha, Roberto, quando da minha juventude, o símbolo do imperialismo para nós era a Coca-Cola. Nós éramos contra os imperialistas porque nós éramos pela paz, nós éramos por uma política socialista, nós éramos pelo avanço social no mundo, e o símbolo daquela época, aqui no Brasil, era a Coca-Cola. Mas você acha que agora eu vou passar para a Pepsi?” Ele ficou louco, porque o dele não era PPS? Aí ele deu uma risadinha: “Mas você nunca tem...” “E, olha, Roberto, vou lhe dizer aquilo que eu já disse aqui. Eu, para continuar sendo o que sempre fui, não preciso de tutor, não. Porque eu entendo que a gente...” Isso não quer dizer que a gente está sempre certo. Não, eu não tenho essa pretensão de que eu sou infalível, que eu sou o cara que tudo que faz é certo. Não tenho nenhuma pretensão. O que eu faço, eu estou convencido de que estou fazendo certo. Sabe, eu cometi muitos erros. Agora, o que eu posso dizer é o seguinte: eu posso ter errado muito no varejo; agora, no atacado eu não errei não. Eu não errei porque eu estou... Hoje eu sou uma pessoa que, em qualquer sindicato do Brasil, de qualquer corrente política, eu sou aceito e recebido como um companheiro, um amigo, um dirigente sindical, a quem se pede informação, gosta de ouvir, gosta de fazer... Enfim, no Brasil inteiro. Não tem um sindicato nem Federação nem Confederação neste país onde o Tenório não seja, vamos dizer assim, acolhido quando chega como um companheiro de luta, um companheiro respeitado, um companheiro digno, e isso é gratificante, e eu não vou mudar agora, até porque não dá mais tempo de mudar, não interessa mudar. Então, tem que ser coerente sem, contudo, deixar de... E eu digo isso sempre nos meus encontros, nas minhas conferências, nas minhas manifestações por este Brasil afora. Semana passada estive em Salvador; uma semana atrás eu estava no Rio; já há três semanas eu estava em Juiz de Fora; há um mês eu estava em Recife. Isso não significa que o Tenório parou no tempo: “Ah, o Tenório é o nosso professor, é o mestre.“ “Companheiro, eu sou ainda um aprendiz, porque a pessoa que pensar que já sabe tudo, está perdido. Está perdido.” A vida é uma aprendizagem permanente. É claro que 65 anos de militância política e sindical ininterruptos - porque nem a ditadura interrompeu, como vocês já viram aqui - tem mais informação, acumulou mais informação e conhecimento. Tem uma experiência acumulada. Mas o mundo é dinâmico, a situação evolui. Se você pensar que já sabe tudo e que as coisas são do jeito que você começou, você também não pode nem contribuir. Eu procuro me inserir, me atualizar e sinto que estou atualizado. Não tenho medo de dizer isso não. Eu sinto que estou atualizado. O que a tecnologia, a ciência aconteceu, e avançou em favor de quem? Essa é a pergunta. Avançou em favor dos detentores do poder. Na globalização, a gente entra com as pessoas, vocês entram com a corda.

 

P/1 – Para “estar fechando”. O que o senhor achou de participar desse projeto, “Memória do DIEESE – 50 Anos”?

 

R – Olha, eu acho que, para mim, é uma homenagem à minha geração. Eu, aqui, eu diria, como alguém já disse em certa ocasião, não me lembro se foi o Otávio Mangabeira quando voltava do exílio, frase de um desses políticos da revolução de 30 que, voltando do exílio, ele dizia... Essa frase ficou gravada em mim, não é? Eu acho que o homenageado aqui não é o Tenório. O homenageado aqui é a minha geração. Eu sou apenas... Tento ser e vou tentar honrar sempre esse mandato, de ser o porta-voz de uma geração que marcou a história, que fez história e está fazendo história. E sua semente está sendo... Vamos dizer, germinando com o mesmo vigor com que a gente sempre fez, ou como é o caso do DIEESE. O DIEESE não é uma instituição para ficar aqui, não. O DIEESE tem futuro, e tem futuro para qualquer, eu diria, estágio de evolução social neste país, e tenho certeza de que os trabalhadores deram essa contribuição. Não é por acaso que o DIEESE é prestigiado como é no Brasil inteiro. Eu agora, quando estive em Salvador, dois dias de seminários da Federação Nacional dos Frentistas, debatendo o problema do combustível no país, o presidente do sindicato de lá e mais dois ou três vieram me abraçar. “Mas que alegria conhecer o senhor pessoalmente, porque aqui nós assistimos a uma palestra do DIEESE, e a figura central de referência foi o senhor.” Então, o DIEESE é um mensageiro não do Tenório, mas daquilo que o movimento sindical implantou e faz crescer e germinar com frutos positivos. É verdade, é isso que eu vejo, não tem... O que é que eu vou pedir mais para o movimento sindical nessa altura dos acontecimentos? Sou um homem realizado. Só que eu não sou um homem que me dou por satisfeito. Eu continuo rebelde, eu tenho a minha convicção... Às vezes, eu perco noites de sono. O que está acontecendo no mundo, eu não aceito. O que está acontecendo no Brasil, eu não aceito. A guerra imperialista... Nós estamos à beira de uma terceira guerra mundial. Eu não sei se eles vão parar onde estão. Eu acho muito difícil, porque quando imperialismo em crise, no fim, como todo império, a economia deles está esfarelada. Aliás, o Lênin chamava a atenção, na sua sabedoria e na sua pesquisa científica, de que a política é a expressão concentrada da Economia. A política do Bush é de uma Economia globalizada, em crise e sem saída. Pode ser que, no desespero, eles vão ao Irã, vão à Síria, e daí para a frente, ninguém sabe o que pode vir mais. Então me preocupa. Acho que o movimento pela paz, nós devemos encabeçar já, porque a gente faz aquilo que pode. Não é isso? A gente faz aquilo que pode. Acho que é necessário que os povos se levantem, e o povo não é coisa abstrata. Eu acho que lideranças, tanto dentro dos Estados Unidos como em qualquer país do mundo, e no Brasil, devem buscar um caminho para manifestar coletivamente seu repúdio a esse tipo de coisa, porque está se tratando das nossas vidas, das nossas famílias, do nosso futuro. E de tudo que nós fomos capazes através desses quinhentos anos. Eu digo: para nós brasileiros, e para o mundo inteiro, tantos milhares de anos, que nós fomos capazes de construir, criando sociedades novas, criando... Porque é a alegria de uma família construir a sua casa, construir o seu lar, ver nascer seus filhos, educar, adorar... De repente, vem a bomba americana, mandada por Israel, e destrói a família, destrói a casa, destrói tudo que foi o objetivo de sua existência e a razão de ser de sua existência. É o filho órfão ou o pai com filhos assassinados; a mãe sem filho ou o filho sem mãe. Isso é uma selvageria. Eu não sei... Eu acho que selvageria é pouco, a expressão... Isso é crime, é genocídio. E um dia, ainda... Eu não quero morrer sem ver o Bush num tribunal prestando contas, metido numa camisa de força e prestando contas por essa política que ele comanda no mundo, impondo a vontade de uma civilização que está na cabeça dele. Não é o que o povo americano quer, e tenho fundadas esperanças - como dizia o meu amigo Tancredo Neves - tenho fundadas esperanças de que, dentro dos próprios Estados Unidos, haverá manifestação capaz de mudar o rumo desses acontecimentos. É isso que estou...

 

P/1 – Que mensagem o senhor deixaria para a equipe do DIEESE?

 

R – Olha, para o Museu da Pessoa, não é? É isso?

 

P/1 – É.

 

R – Então, como eu estou falando, o que é que eu digo? Qual é a mensagem que eu deixo? A mensagem que eu posso dizer é que vocês estão de parabéns. Se vocês conseguiram fazer e seguir aquela linha do DIEESE... O que quer dizer isso? Somar os valores, construir a história, criar a estrutura de uma cultura que o nosso povo é capaz de valorizar, integrar a sociedade tendo a fraternidade como bem comum, e isso eu acho que o Museu... A mensagem que eu deixo, que eu espero, é que contribua para isso. Eu estou vendo aqui uma equipe de jovens e, olha, a nossa esperança é a juventude, porque nós somos materialistas. Não vamos pensar que nós vamos ficar eternos e nós somos os bons. Não. Bom é o que vem depois de nós para fazer crescer mais ainda o amor à sociedade, a fraternidade, a igualdade, como foi a palavra de ordem da Revolução Francesa, não é isso? Egalité, fraternité et liberté. Allons enfants de la patrie! Obrigado a vocês. Eu estou à disposição, confiante, me sinto muito feliz com este momento, e ainda a minha mensagem, ela se acentua na esperança de que vocês sejam a continuação do processo de construção de um mundo melhor. Essa é uma contribuição que... É uma contribuição que vai ajudar a gente a marchar nesta direção. A geração nova... Eu quero apenas, se me permitirem, e a história parece que vai me permitir, eu servi como um elo de transmissão entre a minha geração e essa geração responsável por este país. E “pajalta” – está em russo; “por favor”, em russo, é “pajalta.” “Desfidania” – até à vista. Agradeço a vocês tudo isso que vocês fizeram, e estou à disposição no meu escritório. Alguma coisa que eu já escrevi, o nosso site, que vocês já têm na mão e já... Olha, não é qualquer um, não. Trezentos mil internautas nos acessam! Não tem um jornal... E quem acessa esse site nosso, com a especificidade dele, a definição, é porque gosta da mensagem; e se gosta, divulga; e se divulga, nós estamos dando também, por esse caminho, a nossa contribuição, que também serve para o Museu da Pessoa, não é? Eu acho que tem muitos valores ainda que vocês precisam incorporar nisso. Eu acho que vocês podiam, entre outras personalidades... Eu acho que uma figura que não pode ficar de fora é o Aldo Lins e Silva. Foi um dos homens que mais lutou contra a ditadura e arriscou tudo para ser um guardião e um defensor da liberdade democrática e a constituição do estado de direito. Eu citaria, também, um doutor... Arouca, ex-juiz do trabalho, foi advogado meu e companheiro de toda essa trajetória da nossa vida. Então, é a soma desses valores que, às vezes, estão... Caem no esquecimento, que podem trazer muita coisa boa para a gente. Certo?

 

P/1 – A gente tem que agradecer muito, muito, muito a sua participação no nosso trabalho, no Projeto DIEESE. Nós estamos muito orgulhosos de poder compartilhar da sua fala, das suas experiências e do seu depoimento.

 

R – Obrigado.

 

P/1 – Muito obrigada.

------   FIM DA ENTREVISTA  -----

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