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História

Surfando com os irmãos

Sinopse

Nascido em Santos. Formou-se em Engenharia. Ingressou na White Martins aos 26 anos. É Gerente de Tecnologia de Aplicações.

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História completa

P/1 – Em nome da White Martins, agradecemos a sua presença, Paulo. É muito importante você estar aqui conosco.

 

R – Obrigado a vocês pela oportunidade.

 

P/1 – Para começar, por favor, o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Paulo Sérgio Bon, 19 de novembro de 1960, em Santos.

 

P/1 – O nome dos seus pais.

 

R – Luís Carlos Moura Bon e Vilma Jacob Bon.

 

P/1 – E o nome dos seus avós?

 

R – Por parte de pai, Edinéia Moura Bon e Júlio Bon.  Por parte de mãe, Amélia Jacob e Giuseppe Jacob

 

P/1 – Conta um pouco da história da sua família?

 

R – Apesar de muita gente pensar que meu sobrenome é alemão, sou descendente fundamentalmente de italianos. Eu tenho, também, bisavós portugueses e um espanhol. Basicamente, a minha família tem uma descendência mais forte de italianos por parte dos bisavôs.

 

P/1 – Você sabe a história de como eles vieram para o Brasil?

 

R – Não, eu não sei da história. Os meus bisavós vieram de navio, eram imigrantes, para trabalhar na lavoura, mas os avôs ___________________ [corte no áudio]... Mas eu não conheço em detalhes a história. 

Eu conheço a história da minha esposa, que, de certa maneira, participou de toda a minha vida profissional. Ela tem um avô que adorava contar histórias de quando os pais dele vieram para o Brasil. O avô da minha esposa contou que ele foi uma das pessoas que contribuiu para trazer os primeiros caminhões à diesel, à gasolina para o Brasil. Por intermédio de uma empresa americana, ele trouxe esses caminhões e, na época, os amigos dele, no Brasil, falavam que ele era louco e que esse projeto de caminhões era natimorto, porque no início de 1900, 1902, 1903, as carroças-de-boi eram muito mais viáveis tecnicamente e economicamente... A realidade mostrou que não foi bem assim, que o projeto do caminhão era bastante interessante e que foi muito bem sucedido.

 

P/1 - E seus pais são de Santos?

 

R - O meu pai nasceu em Ribeirão Preto, a minha mãe é de São Paulo. Eles foram morar em Santos e eu nasci em Santos, então, sou caiçara.

 

P/1 - E como é que eles se conheceram? Você sabe?

 

R - Eles se conheceram na escola, começaram a namorar no ginásio, depois, no colegial e se casaram. Basicamente, a história é que eles se conheceram e começaram a namorar na escola e vieram até hoje.

 

P/1 - E o que eles fazem em Santos? O que fizeram no passado?

 

R - O meu pai sempre trabalhou com vendas e a minha mãe trabalhou muito pouco, mas trabalhou com vendas também, em Santos. Eles decidiram mudar para Santos porque ele teve uma oportunidade para vender e, depois, pegou a gerência de uma loja de sapatos em Santos, e ficou como gerente por alguns anos. Quando eu completei dois anos, eles se mudaram para São Paulo e eu vim junto, porque não tinha condição de viver sozinho em Santos.

 

P/1 - Você tinha quantos anos?

 

R - Dois anos. Eu nasci em Santos e aos dois mudei com os meus pais para São Paulo e praticamente passei a minha vida toda em São Paulo, com exceção de quatro anos em que eu vivi e morei no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Eu ia te perguntar da infância caiçara... Mas você não vai saber muito (risos).

 

R - Na realidade, eu não tive uma infância de caiçara, mas eu tive e, ainda tenho, muita vivência com a praia. Vou vários finais de semana durante o ano para a praia. Costumo praticar esportes na praia, eu gosto muito de nadar, de surfar, de pegar sol. Hoje, eu pego sol de maneira responsável, com protetor solar. Antes, eu não usava. Mas eu adoro muito praia. Eu sou e me julgo uma pessoa bastante caiçara.

 

P/2 – Então, na sua infância, mesmo morando em São Paulo, seus pais iam para a praia? Iam para Santos?

 

R - Iam. Na realidade, sempre tiveram o hábito de ir á praia. Seja alugando ou em imóvel próprio, em casa ou em apartamento na praia. Havia o hábito de descer para a praia, seja Santos, seja Ubatuba, seja Litoral Sul ou mesmo no Rio de Janeiro, na época em que eu morei lá. O hábito de ir à praia sempre me acompanhou. Sempre gostei muito de praia, como também gosto muito de campo. A minha família também gosta muito de praia e gosta muito de campo, mas o nosso hábito maior é de ir à praia. Porque é o lugar de onde venho, o lugar em que me dou bem, que eu gosto e sinto muita falta. Até chego a ficar meio chateado, se passo dois, três finais-de-semana sem descer para a praia.

 

P/1 - E você lembra onde vocês moravam em São Paulo, na sua primeira infância? Como foi?

 

R - Lembro, lembro bastante bem. A primeira casa em que moramos por muito tempo, era no bairro do Jabaquara, na Zona Sul. Naquele bairro, ainda garoto, muito novo, eu tive a oportunidade de acompanhar a construção do metrô, das primeiras estações do metrô. Eu morava bem próximo, a quatro quadras do terminal Jabaquara. Nós acompanhamos muito. Na época, não havia aquelas perfurações que hoje são feitas para canalizar ou para passar toda a linha do trem. Na época, era feita por escavação, muito diferente do que é hoje. Existiam centenas de máquinas que cavavam, caminhões que levavam a terra e que iam preparando toda a linha do metrô e eu tive a oportunidade de viver essa fase em que o metrô de São Paulo começou. Só foi possível ser feito esse metrô usando escavadeiras para a retirada de terras, que são utilizadas até hoje. Mas, hoje, é feito sem a percepção da comunidade. A comunidade, hoje, participa, sabendo que estão perfurando embaixo da terra onde ela está pisando, mas, naquela época não era assim. Naquela época não se perfurava, escavava-se a terra e era muito mais visível e muito mais sofrido o processo de preparação da linha do metrô, o processo de edificação da linha do metrô. Toda a montagem da linha era muito mais visível aos olhos da comunidade, das pessoas que estavam na rua.

 

P/1 - Você lembra do seu cotidiano. O que mudou? O que você podia e o que não podia fazer mais?

 

R - Eu lembro algumas coisas interessantes do meu cotidiano. Eu lembro muito dessa época em que morávamos perto da estação Jabaquara. Diuturnamente os caminhões saíam com a terra, levando terra da escavação do metrô e as escavadeiras sem parar, ficavam trabalhando, uma atrás da outra. 

Outro fato curioso, saindo do Jabaquara e indo mais para o Planalto Paulista [bairro próximo ao Jabaquara, na zona sul de São Paulo], próximo de onde morávamos, em uma rua bem próxima, paralela onde hoje é a avenida dos Bandeirantes. Na época em que foi feita a avenida dos Bandeirantes, eu tinha os meus dez, talvez um pouco menos, nove anos e estávamos jogando futebol em um campinho que era nosso, no bairro, da molecada. Esse campinho estava atrapalhando os tratores que estavam fazendo a terraplanagem para preparar o asfalto da avenida dos Bandeirantes, próximo do aeroporto [Congonhas], um pouco mais ao lado do Jabaquara. O motorista do trator veio pedir para que nós parássemos o jogo porque ele queria passar a máquina escavadeira. Eu estava jogando com mais uns cinco, dez amigos e disse que não, que ele não iria parar. Aí ele falou: "Como que eu não vou! Vocês são um monte de meninos, moleques. Eu vou parar, estou trabalhando, tenho que passar aqui, vocês estão me atrapalhando.” "Não, não, você vai esperar, se você quiser passar, você passa. Mas você vai esperar a gente vai terminar o jogo e depois você vai passar". Ele ameaçou ir com a máquina para cima e eu fiquei na frente. Hoje, eu sou mais calmo, naquela época eu era meio bravo e falei: "Não, o senhor não vai passar". E ele ameaçou vir com o trator e eu não deixei, até que ele desistiu, disse que iria tomar um lanche e a hora que ele voltasse não queria ver mais ninguém lá. Quando ele voltou, realmente, nós não estávamos mais lá, nós tivemos de ir para a escola e acabamos liberando para que ele fizesse a avenida dos Bandeirantes. E hoje, a avenida dos Bandeirantes passa em cima daquilo que foi o nosso campinho de futebol. Eu me lembro muito bem dessa cena, foi uma cena bastante engraçada, em que os meus amigos, no início, acharam que eu estava sendo meio louco e ele, pacificamente, esperou que nós terminássemos o jogo e aí fez a terraplanagem da avenida. Hoje, não tem a menor condição, exceto Natal, Final-de-ano, época que não tem ninguém. Mas hoje não há a menor condição de jogar futebol ali. Aí seria um louco realmente. 

 

P/2- Que idade você tinha nessa época?

 

R - Eu devia ter uns nove ou dez anos. Eu imagino que até tivesse menos, uns seis anos mais ou menos, porque aos dez anos, eu fui morar no Rio de Janeiro. Então, naquela época, eu devia ter uns seis, no máximo, sete anos.

 

P/1 - Você lembra o que mais o bairro ganhou ou perdeu com essa mudança?

 

R - Ganhou muito em acesso. O acesso para chegar ao bairro, não diria que era muito difícil, mas melhorou muito, foi um ponto positivo. Com o passar do tempo, o trânsito foi piorando, foi aumentando muito. O acesso foi uma coisa que melhorou, o trânsito foi uma coisa que piorou. Sem dúvida nenhuma, a poluição, o ruído e a poluição atmosférica também... Hoje os controles são muito maiores, tanto do ponto de vista de ruído e principalmente de emissões gasosas, então, eu diria que hoje, aparentemente, não está tão ruim como esteve naquela época. Mas eu acho que se colocar na balança, foi legal, foi bem melhor para o bairro.

 

P/1 - Mesmo que vocês tenham perdido o campinho... (risos)

 

R – É, tivemos de fazer outro campinho e, provavelmente, alguém, muito depois do meu tempo também foi até lá e destruiu nessa evolução da cidade. As coisas vão acontecendo assim, melhoram sob uma série de aspectos e pioram sob uma série de outros aspectos. Mas campinho nós arrumamos, sempre tem um espaçozinho. Eu gostaria, hoje, de ter tempo e condições de jogar mais, praticar mais esporte do que eu pratico, porque eu gosto muito de esporte, adoro esporte, gosto bastante mesmo.

 

P/1 - E daí você começou a estudar já nesse bairro, a tua primeira escola foi lá? Você falou que mudou para o Rio...

 

R - A primeira escola foi o jardim de infância e o pré-primário, era uma escola de padres que ficava próximo dessa casa, no bairro do Jabaquara. Depois, eu me mudei para outra casa, perto da avenida dos Bandeirantes, e para outra escola que eu não lembro o nome agora, já no antigo primário, que era o equivalente aos quatro primeiros anos do Ensino Fundamental.

 

P/1 - Então você lembra um pouquinho dessa escola, dos professores, dos colegas?

 

R - Eu lembro, lembro muitas coisas. Lembro que eu tinha muitos amigos, muitas amigas. Eu sempre gostei muito de estudar. Qualquer matéria, qualquer assunto para mim é interessante. Eu sempre fui muito assim. Até alguns amigos meus falavam que era “CDF” e, de certa maneira, eu dava risada com isso, porque tirava mesmo notas boas e gostava muito de todos e todo mundo, aparentemente, demonstrava gostar de mim. Às vezes, tenho de ser honesto, eu passava cola para muita gente. Às vezes, também, para ser bastante honesto, eu pegava cola de alguns, mas sempre gostei muito de estudar, sempre gostei da vida escolar, tanto é que adoro estudar idiomas, fiz duas faculdades. Graças a Deus, eu gosto muito de estudar. 

 

P/2 – Fiquei curiosa. Todo mundo sabe que há vários processos para fazer a cola, então...

 

R - Você quer saber as técnicas que eu usava?

 

P/2 - Quais eram as suas técnicas preferidas?

 

R - Para passar ou para receber cola?

 

P/1 - (Risos) Os dois.

 

R - Para passar, eu não sei se isso é muito certo, mas eu vou abrir o meu coração aqui para vocês, tá? Eu fiz um colégio, que eu não vou citar o nome, em que as provas eram, na sua grande maioria, testes. Eu sentava sempre nas primeiras carteiras e o pessoal todo atrás sabia que eu ia passar cola. O que eu fazia? Sempre no final da prova, nos dez, quinze, vinte minutos finais da prova, eu deixava a caneta cair e fazia sinais que já eram combinados. Por exemplo, se eu coçava atrás da orelha a primeira questão era “A”; se eu coçava o punho, a segunda questão era “C”; se eu deixava a mão direita cair, a terceira questão era “E”; se eu voltava era “A” na quarta e assim por diante. Coçava o colarinho era “C” e assim por diante. As pessoas atrás pegavam a cola e mudavam algumas questões para não dar muito na vista. Mas não me orgulho de fazer isso. Na minha visão de moleque, de certa forma irresponsável, fez com que eu conquistasse muitos amigos. Eu sentia que, apesar de tudo, eram amigos verdadeiros, pessoas com quem eu me dava muito bem, mas ajudando ou atrapalhando, na realidade, essas pessoas...

 

P/2 - Paulo, você estava falando das colas, mas, no final, isso dava confusão? 

 

R - Houve algumas vezes. Na minha percepção de garoto, de moleque, embora de certa maneira irresponsável, eu percebi que as confusões foram bem gerenciadas pelos professores na época em que isso aconteceu. Outras vezes tentamos colocar panos quentes e, em alguns casos, pessoas saíram machucadas nessa história, mas, sem se machucar muito. Acho que, mais do que justamente, alguns alunos, inclusive eu, se deram mal. Uma vez, até fui ameaçado de ser jubilado. Em função disso prometi parar, parei por algum tempo, mas depois, a vida seguiu... Mas eram coisas de garoto. No passado, quando moleque, não admitia que fazia, mas fazia. Hoje, eu admito que fiz, mas não recomendo a ninguém que faça igual. Mas é a minha vida, fazer o quê? Não dá mais para apagar coisas do passado.  Em função das colas, dessas brincadeiras sem muita graça, fui capaz de fazer amigos. Também fiz amigos de uma série de outras maneiras. Então, acho que aquele estigma de um cara “CDF” até se diluía de certa forma com isso. Mas fiz, tenho de assumir que fiz, não tenho orgulho disso, muito pelo contrário. Às vezes, serve para dar risada, depois de um chopinho, de uma cervejinha, mas não recomendo aos meus filhos que façam. Embora eu já tenha contado essa história para eles, mas eu não recomendo que eles façam a mesma coisa. Às vezes, eles até me cobram isso... Graças a Deus, tenho dois filhos que são nota dez, são até muito mais responsáveis do que o próprio pai. Eu deixo a mãe fora disso, porque ela também é bastante responsável. Eles dizem que não fazem a mesma coisa que eu fazia, mas eu finjo que acredito... Mas dos meus filhos, realmente, não tenho nada do que me queixar, adoro os dois e acredito que eles não fazem isso. 

 

P/1 - E isso foi ainda em São Paulo? Na primeira fase, você sempre estudou na mesma escola?

 

R – Não, eu estudei em várias. Várias, não digo, mas ao longo de toda a minha vida escolar até entrar na faculdade, estudei em pelo menos umas quatro, cinco escolas. A primeira foi o jardim de infância e pré-primário, na realidade, foi a única em que eu não colei ou não passei cola. Depois, eu passei um pouquinho, mas, também, não era tanto assim. Mas como eu gostava muito de estudar e as pessoas me pediam, eu nunca negava. Nunca negava também não é verdade, às vezes, eu negava por uma circunstância. Não dava e pronto. Quando eu sentia, quando eu sentia que estava minimamente seguro, eu passava alguma cola. Já mais velho, no antigo colegial, eu passava mais cola, até porque eram testes, então, eram provas mais fáceis de passar cola. Mas, deixa para lá, vamos mudar de assunto (risos).

 

P/1 - Você falou que mudou para o Rio?

 

R – Na época, eu mudei, meus pais foram morar no Rio. Meu pai teve uma oportunidade boa profissional e foi morar no Rio de Janeiro. Naquela época, eu tinha de dez para 11 anos e nós moramos lá dois anos. Eu estudei em um colégio muito bom no bairro de Jacarepaguá. Gostei muito de morar no Rio de Janeiro naquela época, como moleque. Tive bons amigos também, outros que me provocavam pelo fato de eu ser paulista e, às vezes, eu não gostava muito a íamos decidir de outra maneira. Como eu falei, hoje, sou bem mais calmo, mais centrado. Mas, no começo, eu era, às vezes, meio esquentadinho. Então, morei no Rio, tive bons amigos, foi uma vida muito boa, um tempo muito legal no Rio. Gostava muito da escola e do bairro em que morava. Nós íamos à praia, na Barra da Tijuca [bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, próximo a Jacarepaguá], onde não tinha praticamente nada naquela época. Era 1971, 72, não havia nada na avenida das Américas. Tudo o que existe hoje na Barra da Tijuca, praticamente 100% era mato, um mato baixo. Mas foi uma época muito legal da minha vida.

 

P/1 - Conta um pouco mais então. Então, essa mudança não foi traumática para você?

 

R - Eu costumo dizer que, para mim, nada é traumático. Acho que consigo de certa maneira viver bem em qualquer lugar. Em Santos, onde vivi até os dois anos de idade, eu não me lembro, mas dos bairros em que morei em São Paulo e no Rio de Janeiro sempre tenho boas lembranças. Tenho muito poucas lembranças que não me agradam. Eu gostei muito de morar Rio de Janeiro. Como nós morávamos bem perto da praia, íamos com frequência para lá. Gostava e continuo gostando muito de praia, sempre gostei de ir à praia, pegar um sol, praticar esportes... Eu tenho boas lembranças do Rio de Janeiro, boas lembranças mesmo. Eu até fui uma vez...  Esse é um fato bastante curioso.  Pelo fato de ter nascido em Santos, sempre torci pelo Santos Futebol Clube e, na época, tinha o Pelé. Eu tenho dois irmãos, o mais velho e o mais novo. Um é um ano e meio mais velho e o outro um ano e meio mais novo, uma escadinha lá em casa de três filhos homens, não torcedores roxos, mas santistas de fato, vamos dizer assim. Na época, eu tinha dez, o irmão mais novo com nove e o mais velho com 11, 12 mais ou menos. Quando nós nos mudamos para o Rio, o meu pai falou: "Olha, aqui no Rio vocês podem continuar sendo santistas, mas, pô, seria legal vocês escolherem um time aqui do Rio de Janeiro". E quem é carioca, ainda mais que tenha mais ou menos a minha idade, lembra disso. Nós três escolhemos. Eu fui o “cabeça” da escolha. Falei: "Ó pai, aqui o time mais popular é o Flamengo e aqui nós vamos ser Flamengo." "Então está bom, está definido, vocês três aqui são Flamengo, então, eu vou levar vocês três no Maracanã e vou comprar a bandeirinha". Comprou bandeirinha, bonezinho e faixa do Flamengo. Nós fomos ver o clássico carioca, Botafogo e Flamengo. O resultado foi seis para o Botafogo e zero para o Flamengo. Meu pai saiu com três garotos super tristes, com bonézinho, bandeirinha, faixinha e toalhinha do Flamengo e com seis a zero na cabeça. Os três muito bravos, tristes, fomos para casa.  Na semana seguinte, o Santos foi para o Rio jogar contra o Botafogo e, na época, o Pelé ainda jogava no Santos. Meu pai nos levou e era um clássico da época. Santos e Botafogo eram os melhores times do Brasil. O Santos ganhou do Botafogo, se não me engano, de dois a um. Meu pai falou: "Agora, o Santos veio aqui no Rio e se vingou em cima do Botafogo, pelo que fez com vocês na semana passada. E o Pelé ajudou nessa vingança". São coisas curiosas da época que eu me lembro bem. Esses episódios que foram muito legais, muito marcantes.

 

P/1 - Você falou das vezes em que ia à praia. Com quem você ia à praia e como era ir à praia, já que não havia nada? Vocês levavam alguma coisa?

 

R - Era com o meu pai, a minha mãe e os três moleques. O meu pai colocava os três moleques no banco de trás, a minha mãe, levava um isoporzinho com um guaraná, uma coca-cola, uma cerveja e íamos para a praia. Chegávamos na praia. Às vezes, ficávamos só nós na praia na Barra da Tijuca. Bastava não fazer muito sol e não aparecia ninguém na praia. Então, a Barra da Tijuca era uma praia quase que particular. Era bem interessante. Hoje, quem vê a Barra da Tijuca do jeito que ela é e lembra-se de como era na década de 70, vê que é uma coisa bem diferente. Não existiam alguns quiosques. O paulista costuma chamar de quiosque, mas o carioca usa muito trailer. Na Barra da Tijuca, a cada um quilômetro, havia um trailer que vendia cachorro quente, guaraná, cerveja e era o que nós comíamos, porque não tinha restaurante, não havia absolutamente nada na Barra da Tijuca.

 

P/1- Foi aí que você começou a surfar?

 

R - Não, eu comecei a surfar na praia de Bertioga, no litoral norte de São Paulo. Era 1973, quando meu pai já havia construído uma casa lá Bertioga e a praia também era praticamente deserta. Um belo dia, nós três, eu e os meus dois irmãos, vimos umas pessoas surfando, falamos com o meu pai e ele falou: "Ah, vai até Santos". E deu o dinheiro. Nós três compramos uma prancha e voltamos com a prancha de ônibus para os três surfarem. Fazíamos fila, um entrava no mar e os outros dois ficavam na beirada do mar esperando o que terminasse para trocar a prancha. Uma prancha para três irmãos e nós fazíamos o revezamento da prancha. Começamos a surfar em 1973, 74 e, até hoje, nós três surfamos. O meu irmão mais velho é o que surfa melhor, o mais novo surfa quase que tão bem quanto o mais velho e eu fico ali surfando de vez em quando, mas eu gosto ainda de surfar até hoje. E cada um, hoje, tem sua prancha, até mais do que uma prancha. É um hobbie, um esporte que eu ainda gosto bastante. Meus irmãos são muito mais apaixonados, mas eu gosto bastante de surfar ainda.

 

P/1 - Como era a relação de vocês? São três com idades muito próximas. Como que sua mãe não ficava doida na infância?

 

R – Isso é uma coisa bastante curiosa também. Minha mãe realmente aparentava sofrer algumas vezes, porque nós, de vez em quando, até brigávamos, de um dar soco no outro. Eu sempre me dei muito bem com os meus irmãos e a recíproca também é verdadeira, então, nunca foram brigas violentas, mas como toda família, as brigas aconteciam e, às vezes, como acontece normalmente com homens, quando ocorrem brigas, às vezes, parte para a agressão física. Às vezes, a minha mãe tentava apartar, não conseguia e o meu pai trabalhando. Ela usava uma técnica. Hoje, ela confessa que usava a técnica do desmaio. Ela simulava um desmaio e a briga acabava na hora. É uma técnica muito, muito efetiva, funcionava sempre. Eu me lembro da minha mãe ter desmaiado na minha frente ou, supostamente desmaiado, umas três ou quatro vezes. Ela falava assim: "Ai eu vou desmaiar..." E desmaiava. Nós três acreditávamos que ela desmaiava de verdade. Talvez, até uma das vezes, ela tenha desmaiado de verdade. Não sei, mas ela usava a técnica de desmaiar.

 

P/1 - Como vocês descobriram que era mentira?

 

R – Porque, logo depois, quando tudo parava, ela acordava de novo. Nós íamos ajudá-la e em pouco tempo ela: "Não, eu estou bem, estou bem, mas pelo amor de Deus parem de brigar! Não briguem mais". Aí, parávamos de brigar. Mas era uma técnica que ela, como mulher, usava, porque não dava para bater nos três. Até uma certa idade, ela conseguia nos separar fisicamente. A partir de um certo momento, ela passou a separar usando mais o emocional. Voltando para o surfe, se me permite, teve um episódio curioso. Comecei a surfar com os meus irmãos mais ou menos em 1973, na praia de Bertioga e continuei surfando. Pela White Martins, empresa em que trabalho, eu, já como profissional, mudei com a minha família, os meus dois filhos e a minha esposa, para o Rio de Janeiro. O primeiro bairro em que moramos foi a Barra da Tijuca, depois, no Recreio [dos Bandeirantes], na zona oeste do Rio de Janeiro] e eu surfava muito. Uma vez, fiquei sabendo que na praia de Grumari [na Barra da Tijuca], que, até hoje, é uma praia ainda bastante deserta em comparação com as outras praias do Rio, estava tendo um campeonato de surf, o Campeonato Brasileiro de Surf. Eu peguei os meus filhos e a minha esposa, todo mundo no carro, e fomos ver o campeonato. Campeonato bem legal e a Federação Brasileira de Surf montou, atrás da praia, uma edificação provisória onde fizeram o Museu do Surf, só para o evento. No intervalo do campeonato, eu entrei com a minha esposa e os meus filhos, para ver o museu por dentro.  Minha esposa começou a dar risada, porque ela viu uma prancha exatamente igual a que eu tenho até hoje no Museu do Surf, dizendo que aquela era uma prancha dos irmãos Twins, que são irmãos gêmeos de Santos, que na década de 1970, em 1972, 73, 74, faziam e comercializavam pranchas em Santos. A minha esposa falou: "Ó, você já virou peça de museu". O que não deixa de ser uma verdade, aliás, é a absoluta verdade, porque a minha prancha estava no museu. Mas, mesmo assim, eu não desisti, continuo tentando até hoje, né?

Tem outro fato. Um dia, na Barra da Tijuca, fui surfar bem cedo, porque a molecada lotava a praia e eu não conseguia descer uma onda para surfar. A molecada começou a chegar, a chegar e eu tentando surfar. Eles deixavam que, de vez em quando, eu entrasse em uma onda. Porque se eles não deixarem, eu, já na minha idade, não consigo mais entrar na onda. Eles têm de deixar porque são muito mais rápidos. Comecei a conversar com a molecada e, uma hora, um deles falou assim: "Olha, à tarde nós vamos surfar lá na prainha, você não quer ir junto?" Eu falei assim: "Não, não, eu estou em uma idade diferente. Vou primeiro terminar aqui, depois, eu vou para casa, vou comer uma feijoada, tomar uma caipirinha e vou dormir e vocês vão surfar na prainha. Estou fora dessa aí, porque não dá mais". Mas o surf era e ainda é muito legal para fazer amizade. Sempre gostei muito de praticar esporte e vou continuar. Até o tempo que eu conseguir, vou continuar.

 

P/1 - Paulo, deixa eu ver se entendi bem. Você falou que foi para Bertioga, na mesma época você estava no Rio... Até quando você ficou no Rio?

 

R - Eu morei no Rio, como profissional da White Martins, durante três anos.

 

P/1 – Mas durante a sua infância, que você havia falado...

 

R - Na minha infância, eu morei dois anos, em 1971 e 1972. Tinha dez e 11 anos nessa época. Como profissional, eu morei de 2000 a 2002, mas já em outra condição, claro. Fui transferido para São Paulo com a família, continuei a trabalhar na White Martins, e voltei para a vida que havíamos deixado aqui. Quando nós fomos para o Rio, tínhamos uma casa aqui, que deixamos fechada. Nós voltamos para a mesma casa, onde moramos até hoje. Foi uma ida e vinda completa, saímos de São Paulo, fomos para o Rio e voltamos para São Paulo. Foi só um giro pela Rio-Santos ou pela Dutra

 

P/1 - Mas só para não confundirmos, você está falando de quando você já trabalhava na White?

 

R - Isso.

 

P/1 - Na sua infância, você morou no Rio dois anos e voltou para São Paulo?

 

R - Sim. Foi muito parecida a história. A única diferença é que, na primeira vez, fui acompanhando a família e, na segunda vez, eu fui levando a família. Mas foi uma história muito parecida. Saí de São Paulo com os meus pais, fui para o Rio, moramos lá por dois anos e, depois, voltamos para São Paulo também.

 

P/1 - Voltaram para o mesmo bairro?

 

R - Ah, voltamos para o mesmo bairro, a mesma coisa. Nós voltamos a morar na mesma casa, que, hoje, é um salão de cabeleireiros. Era um bairro mais residencial e virou mais comercial. A casa em que morávamos, hoje, é um salão de cabelereiros e o quarto em que eu dormia, hoje, é o quarto das noivas. Vocês querem curiosidades, eu tenho curiosidades...

 

P/1 - Você falou do seu pai. Vocês se mudaram por conta do seu pai?

 

R - Ele trabalhava em uma indústria farmacêutica, teve uma oportunidade para trabalhar em outra indústria farmacêutica no Rio e nós fomos com ele. Foi diferente da minha história, na qual eu saí de São Paulo e fui para o Rio pela White Martins e voltei a São Paulo também pela White Martins. Mas foram histórias muito parecidas. Eu tive a oportunidade de viver as duas versões de uma mesma história. Uma acompanhando a família e outra levando a família.

 

P/1 - E a sua juventude em São Paulo, como foi?

 

R - Eu gostei muito da minha juventude em São Paulo. Embora tenha sido muito mais durante a semana já que nos finais de semana, íamos muito à praia, como eu falei. Mas eu gostei muito da minha juventude. Sempre fui, pelo menos, procurei ser uma pessoa muito centrada. Sempre gostei de estudar, nunca fui daqueles de pegar carro do pai e sair correndo, nunca fui de consumir drogas, nem de beber muito álcool, nunca fumei. Algumas pessoas, amigos, chamavam-me de certinho. Mas eu gostava muito de ir ao cinema, gostava muito de ir ao teatro. Às vezes, não tinha dinheiro para ir ao teatro, mas ia ao cinema. Raramente, poucas vezes, eu fui a campos de futebol, mas gosto muito de futebol. Foi uma infância normal, sem muitas histórias esquisitas, estranhas ou diferentes para contar, mas foi uma infância e adolescência muito felizes. Eu tenho memórias de São Paulo muito boas. Nunca fui uma pessoa de ir muito ao Centro da cidade, mas vejo, hoje, diferenças muito grandes em relação ao que era o Centro da cidade de São Paulo na época em que era garoto e ao que é hoje. Sempre vivi muito mais nos bairros, mas é nítida a diferença da cidade de São Paulo da década de 1970 e hoje. Então, há coisas muito melhores, hoje, mas também tem coisas, comparativamente com aquela época, que são muito piores...

 

P/ - E a faculdade, como foi passar na faculdade, como foi o processo de vestibular? Pelo jeito foi fácil, você era CDF...

 

R - Eu não vou dizer que foi fácil, mas, também, não vou dizer que foi difícil. Eu estudei para isso, tinha uma meta. Eu lembro que, na época, meu pai falou algumas vezes com a minha mãe e eles não percebiam que eu escutava. Ele estava preocupado com o preço das faculdades, porque como éramos em três, ele não teria dinheiro para pagar a faculdade para os três ao mesmo tempo, porque a diferença de idade era muito grande. Naquela época, falei para mim mesmo: "Eu vou entrar em uma faculdade boa, uma faculdade de preferência que não tenha que pagar”. Esse era o presente que eu poderia, na época, dar para mim e para o meu pai. Foi uma meta que eu coloquei na minha vida e eu fui atrás dela. Sempre fui CDF e, outra vez, digo que não me arrependo e também não me orgulho disso, mas a minha maneira, a minha decisão em relação à vida, sempre foi a de me dar bem com o meu próprio esforço. Eu direcionei os meus estudos para entrar na faculdade e entrei. Entrei em uma boa faculdade, fiz dois cursos universitários e estou feliz comigo porque eu gosto de estudar e, até hoje, eu gosto de estudar. Só gostaria de ter mais tempo para estudar. 

Mas não foi difícil entrar, porque eu foquei. Acho que quando focamos alguma coisa na vida, via de regra, é muito mais fácil de atingir a meta. Se você focar e concentrar esforços no teu objetivo, você o consegue com mais facilidade, porque você não perde o foco e não se desvia daquilo que se propôs a fazer. Eu acho que entrei bem, gostei muito de ter feito a faculdade, fiz muitos amigos, fiz amigos inclusive entre os professores e tenho boas lembranças até hoje. Inclusive, hoje mesmo, eu falei com um professor da época da faculdade, que já está com 80 e poucos anos, extremamente ativo e muito boa gente, muito boa gente. Essas lembranças são muito legais de ter na cabeça. 

Tive um professor na faculdade que, na época, tinha uma doença, um tumor, que praticamente o condenava. Era um professor de Manutenção e, na época, estava estudando japonês aos 82 anos. Uma vez, diante de um pessoal na classe, um amigo meu, não lembro quem era, perguntou: "Professor, mas por que o senhor, com 82 anos, com uma doença séria, difícil de tratar, o senhor ainda vai estudar japonês?" Ele falou assim: "Porque eu sempre desejei na minha vida aprender japonês e eu vou conseguir ir embora sabendo falar japonês". É um exemplo também. Eu vejo como um exemplo de foco e de determinação. Era o que ele queria, acho muito lindo, aliás, esse tipo de coisa. É uma maneira de ver a vida que nos incentiva a viver melhor, dá uma força para todos nós a vivermos melhor. Se cada um tivesse uma meta, por mais que fosse encarada pelo resto da sociedade como uma meta maluca, aquela pessoa, tenho certeza, que vive melhor. São momentos legais da faculdade que eu lembro, muito bons. Eu gostaria de voltar um dia. Alguns amigos diziam: "Eu quero ficar na faculdade a vida inteira". Não é bem o que eu pretendo, mas tem gente que gosta do ambiente de faculdade. 

 

P/2 – Qual era a faculdade?

 

R - Na USP [Universidade de São Paulo]. Por exemplo, eu tinha amigos que eram do centro acadêmico e falavam que gostavam tanto daquela vida, que queriam continuar o resto da vida sendo alunos. Também é uma maneira de ver, mas não é a maneira que eu escolheria para mim.

 

P/2 – Faculdade de Engenharia na USP?

 

R – Eu fiz faculdade de Engenharia na USP e fiz Administração de Empresas também. A vida acadêmica ou a vida, na época, de estudante era uma vida que eu gostava bastante e que, de certa maneira, procuro manter contato.

 

P/1 - E como foi entrar na faculdade, era aquilo que você esperava?

 

R - Eu não tinha grandes expectativas em relação à faculdade. Entrei na faculdade com 18 anos. Eu entrei na faculdade já com uma experiência, o meu irmão mais velho já tinha entrado e ele já dizia para mim que a faculdade era assim: “Você pensa que depois que você passou no vestibular daí para frente tudo é moleza, mas não é bem assim”. De certa maneira, ele já trouxe os meus pés para o chão em relação à faculdade. A faculdade não era mais fácil do que o colegial e, sim, mais difícil. A faculdade também não vai garantir a você conseguir um bom emprego, a não ser que você se esforce para isso, não? Eu não tinha expectativas, nem depois que entrei na faculdade, achava que, daqui para frente, a minha vida seria uma folga só. Como também não tinha expectativas de que já que eu entrei na faculdade, daqui para frente, a minha vida vai ter um emprego garantido e vou me dar bem o resto da vida. Eu acho que para entrar e sair da faculdade e para continuar caminhando na vida, você precisa estar determinado. Às vezes, pode dar certo, às vezes, pode dar errado, mesmo com a determinação. Mas se você não estiver determinado, você não deu o primeiro ou os primeiros passos. Esse é o meu modo de ver. 

Quando entrei na faculdade, já tinha uma visão de que as coisas não seriam fáceis e não foram. Tinha também a visão de que quando eu saísse da faculdade, as coisas continuariam não sendo fáceis. Mas a vida só é bela porque existem diferenças de pensamentos, porque existem diferenças de preferências, de gostos e porque existem mil oportunidades. Você pode se embrenhar pela oportunidade que você decidir se embrenhar, escolher o caminho que você decidir pegar, mas pegue-o com vontade e tente não olhar para trás, para aquilo que você deixou, se você deixa muita coisa para trás. É como jogar a semente. Você joga a semente e deixa. Se a semente florescer, está ótimo, se não florescer, não floresceu. Mas não fica olhando para trás, olha para frente.

 

P/2 - E em relação ao país, naquela época, você tinha alguma consciência da sua inserção como adulto em um país como o Brasil, o que significaria ser brasileiro?

 

R – Eu, na época do Médici, claro, eu não estava na faculdade ainda. Eu era bem mais novo na época da ditadura, não tinha uma noção muito clara das coisas, mas havia primos do meu pai que participaram e eu ouvia quando eles iam fazer visitas ao meu pai, à minha mãe, lá em casa, e contavam. Eu, como garoto de nove anos, dez anos, participava de certa maneira disso. Mas eu tinha uma visão bastante míope do que era a realidade política do Brasil naquela época. Quando eu entrei na faculdade, as coisas já tinham mudado um pouco, a Ditadura era bem mais, vamos dizer assim, suave. Então, já se permitiam greves, algumas coisas que na não aconteciam época da ditadura mais intensa, mais aguda. 

Eu lembro que entrei na faculdade com uma expectativa muito grande de ter aula e começaram as greves. O pessoal da Escola de Engenharia era meio contra as greves, porque a grande maioria queria ter aula e o pessoal de outras cadeiras da Universidade de São Paulo era favorável e nos forçavam a entrar em greve. Até que uma vez, houve um conflito entre faculdades da mesma universidade. Era algo como: “Bom, se eu não quero participar da greve, eu não vou participar. Você participa”. Havia conflitos sobre integrar-se ou não à greve. Mas já havia uma flexibilidade, naquela época, de ter greves, protestos, passeatas... Apesar de ainda ser uma época de ditadura, mas já era bem mais suave.

Mas, respondendo à sua pergunta melhor, eu não tinha uma visão política muito clara. Fui me aproximando mais da vida política do país com o passar do tempo, até porque, na época em que era garoto, antes de entrar na faculdade, não se podia falar muito abertamente de política, sem ter os cuidados devidos daquela época. Mas diz-se muito que o pessoal de Exatas, da Engenharia, normalmente, naquela época, não se envolvia muito em política. De certa forma, acho que era uma verdade. Tinha suas exceções, é claro, mas em regra geral, era mais ou menos isso que acontecia. Mas eu, de alguma forma, procurava me informar sobre política.

 

P/1 - E porque Engenharia?

 

R - Eu sempre gostei muito de todas as disciplinas. Claro que havia disciplinas que eu gostava mais e outras menos, mas as que eu gostava mais eram Física e Matemática. Engenharia tem muito a ver com Física e Matemática. Gostava de Química, mas não era das minhas preferidas, então, procurei seguir Engenharia porque, na época, a faculdade da moda era Engenharia. Então, eu decidi fazer Engenharia porque era a moda e por convicção, escolha própria. Posso dizer que se, na época, entrei meio que na onda das pessoas que decidiram fazer Engenharia, hoje, eu continuo nessa onda com prazer, o mesmo prazer que eu tinha naquela época. Eu gosto de Engenharia, sempre gostei e não me arrependo. Acho que me dou relativamente bem com isso.

 

P/1 - E na faculdade você tinha algum gosto por alguma matéria específica? Você já caminhava para alguma direção?

 

R – Tive. Eu fiz Engenharia de Produção e, depois, Engenharia Sanitária e Ambiental. Aliás, muitas das pessoas que se formaram comigo, foram trabalhar em instituições financeiras, que não é essencialmente uma profissão da Engenharia, mas por terem feito também a modalidade de Engenharia de Produção. Mas eu fui para a indústria. Eu... Esqueci a pergunta, desculpa.

 

P/1 - Se tinha alguma disciplina que você gostava mais? Se você estava direcionando para alguma área...

 

R - Tinha. Na Engenharia de Produção tinha uma cadeira que eu gostava muito e, na realidade, eu nunca usei depois de me formar. A matéria chamava-se Pesquisa Operacional. O que faz uma Pesquisa Operacional? Tentando resumir e sendo claro, é um conjunto de técnicas, usando Estatística e outras ferramentas, que ajudam a calcular, por exemplo, qual é o número ideal de boxes em um caixa de supermercado. Por exemplo, são nove, dez, 11, 12, 13, 14? Qual é o número ideal de boxes, qual é o número ideal de caixas ao meio-dia, à uma hora, às duas horas, às três horas, às dez horas, no período de pico, na véspera de Natal... É uma disciplina dentro da faculdade de Engenharia de Produção que ajuda ou ensina como dimensionar o número de boxes de caixas de mercado ou o número de boxes de pedágio em uma estrada. Uma autoestrada que tem quatro pistas e tem tantos carros passando por unidade de tempo qual é o número ideal de boxes. Nós calculamos a fila, até quanto vai a fila, quantos carros e qual é a distribuição do pedágio... É uma matéria meio maluca, mas sempre achei muito legal, muito emocionante de você conseguir olhar, calcular e responder: "Olha, para essa estrada aqui nove pedágios é o ideal. Não façam dez, nem oito, façam nove, porque aí vocês estarão otimizando”. Vocês, no caso, empresa, empreendedor, vão otimizar o investimento naquela estrada, porque nunca, por exemplo, uma pessoa vai esperar mais do que vinte minutos para pagar um pedágio. Isso só iria acontecer em época de Natal, por exemplo, véspera de Natal, véspera de Réveillon. É uma maneira de determinar o número otimizado de caixas de supermercado, de caixas de pedágio e assim por diante. Pode parecer sem graça, mas, para mim é um negócio interessante. Acho que nunca usei essa técnica, mas, até hoje, lembro mais ou menos de como é que se calcula esse tipo de coisa. Às vezes, quando estou em um supermercado e vou parar em um caixa, eu penso assim: “Pô, esse caixa deve ter sido bem dimensionado, mas precisa ter a pessoa do caixa recebendo”. Porque não adianta também só ter o número de caixas, precisa das pessoas para receber o teu pagamento no caixa. Mas isso é coisa de maluco e como eu sou meio maluco, eu gosto dessas coisas.

 

P/1 - E você fez algum estágio, monitoria na faculdade?

 

R – Eu fiz. Basicamente, tive três fases da minha vida profissional. A primeira, por necessidade, claro, por interesse em começar ganhar dinheiro, foi logo que entrei na faculdade, comecei a dar aulas de Física, Química e Matemática para alunos do colegial. Depois começaram a pedir que eu desse, também, aulas de Português, Geografia e História, que eram matérias em que eu não era um grande entendedor, mas eu me virava. Então, comecei a dar aulas, fiquei até o terceiro ano de faculdade dando aula para alguns alunos. Aulas avulsas, aulas de reforço.

Depois, já no segundo, terceiro ano da faculdade, eu entrei no estágio, em uma empresa que, hoje, se chama Asea Brown Boveri, a ABB [empresa multinacional que atua no setor de tecnologias de energia e automação]. Orgulho-me muito daquela época, era muito próxima da minha casa. Fiz um estágio emocionante na linha de fabricação e de produção de hidrogeradores e turbogeradores, que até hoje funcionam em Itaipu, Tucuruí e outras usinas hidrelétricas pelo país. Fui efetivado, trabalhei mais de quatro, cinco anos na Brown Boveri, na linha de produção de hidro e turbogeradores. Depois, saí e fui para a White Martins que é empresa em que trabalho hoje. Então, tive a fase de professor avulso, seguida da fase de estágio em uma empresa de mecânica pesada e, depois, em uma empresa química como a White Martins.

 

P/1 - E você tinha uma ideia do que que era a cadeia do gás na faculdade, o que era esse universo do gás? O que era a White Martins?

 

R - Eu conhecia a White Martins, mas não tinha uma ideia muito clara. É claro que em hospitais, essas coisas, sabemos que o oxigênio é usado para tratamentos. Mas eu não tinha uma visão muito clara de em quantas aplicações tinham os gases produzidos pela White Martins. Hoje, eu tenho uma visão muito mais clara do que eu tinha época. 

Quando eu deixei a Asea Brown Boveri e fui para a White Martins, eu não tinha noção de que, por exemplo, uma série de comidas e alimentos é congelada em nitrogênio líquido, que o oxigênio é usado para fornos de combustão, o nitrogênio em tratamento térmico, o oxigênio e o CO2 [gás carbônico] são usados para tratamento de água de efluentes, o nitrogênio é usado para encher pneu. Há dezenas de aplicações de gases industriais que, hoje, eu enxergo, e participam do meu dia-a-dia, mas que, na época, eu não tinha noção. E isso é uma coisa na White Martins que me traz muita alegria em trabalhar: não existe, pelo menos, até hoje, não existiu um dia igual ao outro, nesses quase 25 anos que tenho de White Martins. Todo dia é diferente, todo dia fala-se e vê-se coisas, aplicações diferentes. Isso é muito motivador para quem gosta de um dia diferente do outro, não gosta das atividades corriqueiras ou iguais, então, isso é uma coisa que me motiva muito. 

Outra coisa que me motiva muito é que em boa parte da minha vida profissional, trabalhei com aplicações de gases industriais, oxigênio, CO2, ozônio para tratamento de água e de efluentes, basicamente, para o meio ambiente. Todos nós sabemos a importância que o ambiente tem na vida de todo mundo. É muito gratificante, para mim, profissional e pessoalmente, ver que um efluente que a empresa X gerava e era, por exemplo, azul, com alta carga de matéria orgânica, extremamente poluente do ponto de vista de nutrientes e ia para o rio, hoje, a White Martins tem ajudado muito a tratar aquela água para que ela seja descartada no rio ou seja reutilizada de forma ambientalmente muito mais correta. E eu me envolvo nesse tipo de aplicação já há, praticamente, 18 anos e, até no dia-a-dia, nas conversas em jantar, nos finais de semana com a família. Quando a minha filha tinha uns dez anos, hoje ela tem 16, um belo dia jantando, ela falou assim: "Pai, eu tomei uma decisão.” "O que foi filha?" "Eu vou me inscrever no Greenpeace." "Ah, legal, né! E como é que faz isso?" "Não ____________________ [corte no áudio] tal, precisa pagar lá no cartão de crédito o negócio." "Ih... Não vai dar certo isso aí". Até hoje, ela é inscrita no Greenpeace, escreve para o Greenpeace, participa e se envolve muito em assuntos de meio ambiente. Por uma iniciativa dela com dez, 12 anos, eu não lembro exatamente a data, ela se envolve em questões ambientais até hoje. De certa maneira, eu, como profissional e como pessoa, acho que eu estou dando uma contribuição para o mundo que ela vai viver daqui a pouco, ou que ela já está vivendo. Ela pegou carona nesse ideal, nesse idealismo. Acho que não é idealismo, é um ideal mesmo de dar a contribuição dela também. Então, eu acho isso muito legal do ponto de vista profissional e do ponto de vista de família. 

Falando em união entre família e profissão, família e empresa, eu sempre fui assim. Sempre ouvi falar e sempre levei isso muito a sério na minha vida tentar conjugar, combinar a vida profissional com a vida de família. Então, eu tento fazer o melhor possível. Às vezes falho, sem dúvida nenhuma, mas eu tento fazer esse link de, ao mesmo tempo, fazer com que um lado participe do outro no dia-a-dia. Porque, afinal de contas, das horas que eu vivo, durante o dia, metade estou com a empresa e a outra metade, em média, estou com a família. Se eu não contar para a família o que acontece na empresa e se eu não contar para a empresa o que acontece na família, um não fica sabendo do outro. Então, eu tento trazer uma coisa para dentro da outra sem confundir as coisas. 

Quando eu fui convidado para fazer o filme dos cem anos da White Martins, eu achei legal porque no ano que vem a White Martins fará cem anos de existência. É um número, mas, como engenheiro e como pessoa, como ser humano, não dá para desligar o número da emoção. Ano que vem, eu terei 50 anos. Eu faço o seguinte pensamento: são cem anos de empresa, 50 anos de vida e 25 anos de empresa e 25 anos de casado. Como eu olho para tudo isso? Eu vejo o seguinte: a minha mulher me conhece, no mínimo, metade da minha vida, há 25 anos, um pouco mais. Ela me conhece, participa da minha vida diretamente e eu da vida dela há 25 anos, ou seja, metade da minha vida. Eu participo 25%, ou seja, um quarto da vida da White Martins. Eu tenho dado a minha contribuição nesses 25 anos, que é um quarto da vida da White Martins. Os meus 50 anos de vida são 50% do tempo de vida da White Martins, então, eu participei direta ou indiretamente de metade da vida da White. Participei diretamente de um quarto da vida da White e não dá para desfazer, desligar ou não considerar esse link entre a vida da família, a vida pessoal e a vida da White. Mas, ao mesmo tempo, precisamos ter um certo controle e sabedoria para não deixar as coisas se sobreporem umas às outras de maneira que uma coisa afogue a outra. 

Mas esse número, para mim, marca muito. São 25 anos de casado, 25 anos de empresa, 50 de idade, cem anos de empresa. São números redondos... Não vou falar que serão bodas, mas, de certa maneira, serão... E isso muita gente fala, talvez eu repita, talvez não, mas a empresa por si só não é nada. A empresa são as pessoas que estão nela e, sem dúvida nenhuma, se não houvesse as pessoas, a empresa não existiria. Não dá para separar as pessoas da empresa. Empresa é uma pessoa jurídica, as pessoas são pessoas físicas que, na realidade, fazem com que a empresa exista. As pessoas são o sangue que corre nas veias da empresa. É um sangue bom, porque, se não fosse, ela não teria cem anos. Muito pouca gente vive até os cem anos e só aquele que tem a saúde boa, que tem o sangue bom é que vai viver os cem anos. Se a empresa conseguiu viver por cem anos, é porque tem sangue bom e nós somos esse sangue. Para mim, é, sem dúvida nenhuma, um privilégio trabalhar nessa empresa, viver nesse país. Porque eu sou brasileiro até o fim, eu me orgulho muito do país. Sinceramente, eu vejo os defeitos que o país tem, mas vou muito lá para fora e tenho a possibilidade de ver os defeitos, os prós e os contras que os outros países têm. Então, se comparamos o nosso país com outros países, é difícil achar o nosso país pior. Muito brasileiro diz que é, mas não é, seguramente, não é. Então, eu tenho muito orgulho de ser brasileiro e de ser parte da White Martins. E tenho muito orgulho de ter a família que eu tenho...

 

P/1 – Vou voltar um pouco a como se deu essa união. Você começou a trabalhar e iniciou o seu casamento. Como foi a entrada na White Martins e o seu casamento? Mas pode começar falando de como foi a sua entrada na White. 

R - Eu me casei pouco tempo antes, menos de um ano antes de entrar na White Martins. Foram decisões de mudança de vida, claro, com bastante consciência, pesando prós e contras, mas nós decidimos nos casar e, depois, eu decidi mudar de emprego. Tenho excelentes memórias do meu primeiro emprego. Como falei, só trabalhei em duas empresas. A primeira empresa era excelente, muito legal, não me arrependo nem um pouco de ter trabalhado lá, fiz excelentes amigos. Foi uma época em que, com muita proximidade, eu me casei e mudei de emprego. Foi uma época de mudanças...

Na entrada da White Martins, eu tinha 26 anos e até o terceiro mês, tinha muita insegurança se a decisão havia sido correta, O que eu pensava: "Pôxa, será que eu não vou me arrepender, né, de ter saído de uma empresa e ido para outra?" Hoje, eu digo aos meus filhos para tudo o que você decida fazer na vida, não desista antes do terceiro mês. Decidiu fazer academia de ginástica, não desista, não se dê o direito de desistir antes do terceiro mês. Depois que passa o terceiro mês, em via de regra, você já tem mais maturidade, mais vivência e conhecimento para saber se o que você decidiu foi certo no seu modo de ver ou foi errado. Se foi incorreto, não tenha dúvida, trate de tomar outra decisão. Mas o que aconteceu comigo foi mais ou menos isso, eu passei pela dúvida: “Pô, será que foi certo, será que eu fiz errado, tal”. Hoje, digo para você, sob dois aspectos: primeiro, eu acho e sinto que o que fiz foi certo, mas eu não tenho certeza, porque outras pessoas chegam para mim até hoje e dizem: "Pô, mas e se você tivesse ficado lá?" Eu falo: "Não adianta, eu já joguei a semente para trás e agora não vou ver se daria ou não daria, se deu ou não deu fruto". Não adianta olhar para trás. Acho que a decisão minha foi certa, eu vejo que ela foi certa, sinto que ela foi certa, mas seria melhor ter escolhido outro caminho? Eu não sei e também não me interessa saber. O que interessa é seguir em frente.

 

P/2 - Mas o que estava acontecendo na época que fez com que você tomasse essa decisão? 

 

R - Na realidade, na época, a decisão foi muito por uma questão de salário e também de não querer repetir o dia-a-dia. No outro emprego era uma repetição, dia após dia do que eu fazia. Eu procurava e sempre gostei muito de ter dias diferentes e o que me chamou a atenção foi a possibilidade de trabalhar com algo que me permitiria fazer funções ou executar tarefas diferentes a cada dia. Foi isso que me atraiu e também um pouco o salário... Mas foi uma decisão focada, basicamente, nessas duas colunas: procurar algo novo que me motivasse mais a fazer coisas diferentes ou que me possibilitasse fazer coisas diferentes no dia-a-dia e, também, uma questão de salário.

 

P/2 - Mas havia a possibilidade de perceber isso antes de entrar na White Martins?

 

R - Na entrevista houve essa possibilidade, pela conversa que eu tive com a pessoa que me entrevistou. Acreditei no que a pessoa me falou e, claro, ela não me enganou. O que eu vivi do dia que entrei até hoje foi mais ou menos o que ele falou. Não havia repetição no dia-a-dia na função que eu exerci na época. Isso me agradou, decidi em função disso e aconteceu. 

 

P/1 – Qual era o seu trabalho quando entrou na White?

 

R - Eu comecei a trabalhar em uma fábrica com o Planejamento de Orodução, que era o que eu fazia na empresa anterior. A diferença é que era uma fábrica para aplicar gases, seja nitrogênio, hidrogênio, oxigênio, argônio, CO2, todos os gases industriais e alguns gases especiais. Era uma unidade fabril que produzia equipamentos para tratamento térmico, para congelamento de alimentos, para queimadores de fornos, moagem de borracha, tratamento de água e de efluentes, tratamento térmico, fabricação de motores, para uma série de finalidades. O oxigênio, por exemplo, os fornos de combustão de vidros trabalham com equipamentos que atingem uma temperatura de 1700 graus. Do lado onde produzíamos os queimadores para fornos de vidro que alcançavam 1700 graus, nós produzimos também os tanques, os túneis de congelamento de hambúrgueres, por exemplo, que trabalham a 192, 200 graus negativos. Um equipamento sendo fabricado ao lado do outro: um equipamento que trabalha a 200 graus negativos e outro que trabalha a 1700 graus. Um dia, acompanhava o congelamento da empresa X e, outro dia, estava mexendo com fornos de vidros em uma empresa que tem um forno que trabalha a 1700 graus. É claro que eu não entrava no forno, mas eram estímulos diferentes, algo que eu achava muito legal. Um dia, eu trabalhava tratando esgoto com oxigênio puro e, no outro dia, estava mexendo com hidrogenação de margarinas. Realmente, era um dia diferente do outro, o que é uma coisa que, para mim, como profissional sempre me atraiu. 

 

P/2 - Na Engenharia não há alguma disciplina parecida com esse tipo de trabalho? 

 

R – Há as disciplinas de Mecânica, de Elétrica, que são voltadas para a fabricação de equipamentos, instrumentos, elementos de máquinas. Há outras disciplinas que são relacionadas a Metalurgia que falam muito sobre materiais. Existem disciplinas que falam sobre aplicações de materiais de componentes, de peças, como fabricá-las, como produzi-las, de que tipo de minério é necessário, que enfocam esse tipo de coisa. Por exemplo, o material que eu usava para fabricar um queimador que vai a 1700 graus, é um material específico, diferente do material que é fabricado para congelar borracha ou para moer borracha a 190 graus negativos. Os materiais são diferentes, a maneira de projetar é diferente. Não era eu quem projetava, mas me envolvia na engenharia daquilo, participando diretamente ou ouvindo as pessoas falarem. Às vezes, eu não entendia nada, mas eu participava.

 

P/1 – Você, então, começou trabalhando com equipamentos e como foi essa trajetória na White? Você mudou muito de setor?

 

R – Sim, mudei bastante. Posso dizer que 50% da minha carreira, metade do tempo em que estou na White Martins, eu me envolvi em atividades técnicas, de projeto, fabricação, produção e instalação e na outra metade fiquei ocupando funções mais comerciais, de negócio e de gerenciamento, o que para mim também é muito legal, muito satisfatório. Não foi sempre a mesma coisa. Parte do tempo em atividade técnica e a outra parte em atividade comercial. Eu gosto muito de responder, quando alguém me pergunta: "Ah, você é só técnico, é essencialmente técnico?" "Não, eu sou e me sinto bem e gosto da parte técnica. Eu também sou e eu também me sinto relativamente à vontade na área de negócios". A diversificação que me foi possível ao trabalhar na White Martins é muito gratificante e eu gosto muito.

 

P/1 - E hoje você trabalha com aplicações, é isso?

 

R - Hoje, depois de cinco anos em Gestão de Negócios, Gestão de Empresas, voltei a trabalhar em área técnica e eu gosto muito dessa área. Tenho um relacionamento frequente com as outras empresas do grupo no exterior, com o pessoal da Ásia, da Europa, da América do Norte, o que, para mim, é uma novidade. Eu já tinha essa relação técnica e, às vezes, falava de negócios com o pessoal de fora, mas não era tão freqüente. Hoje, é muito mais frequente. É uma coisa que me agrada, porque é uma experiência nova, estou aprendendo e gostando muito de fazer isso. Hoje, eu sou essencialmente uma pessoa em uma função de área técnica.

 

P/1 - E o que seria isso?

 

R - É na área de tecnologia para tratamento de água. Estamos com alguns projetos muito interessantes focados no reuso de água, projetos que envolvem tecnologias de última geração, como membranas de ultrafiltração, microfiltração, nanofiltração e osmose reversa, combinada com alguns gases industriais como oxigênio, ozônio. São casos em que pegamos um efluente de uma indústria ou efluente sanitário, tratamos com essas tecnologias com a finalidade de que esse efluente, uma vez tratado, seja reutilizado em uma aplicação industrial, como, por exemplo, para torres de resfriamento, caldeiras, irrigação de grama, uso em vasos sanitários, lavagens de carros, lavagens de pátios... São combinações de tecnologias que existem no mercado com tecnologias de aplicação de um gás industrial, visando uma aplicação em reuso de água. Com isso, a água potável que era usada para alimentar caldeira, alimentar um forno ou uma torre de resfriamento, passou a ser usada para aplicações mais nobres como, por exemplo, o consumo humano. E a água que era jogada no rio, hoje, é usada para aplicações menos nobres como em uma caldeira, uma torre, um vaso sanitário... É uma atividade essencialmente técnica, de desenvolvimento tecnológico e de suporte ao negócio, no sentido de convencer o cliente de que tecnicamente aquela solução é boa para o negócio dele.

 

P/1 - Você consegue fazer um histórico de como a White Martins começou a investir nesse segmento?

 

R – Consigo. A Praxair, nos Estados Unidos, que é a White Martins 100%, começou a trabalhar forte nesse mercado na década de 1950 com tecnologias, por exemplo, chamadas Unox (?), que existem até hoje. A White Martins entrou com mais força nas décadas de 1970, 80, passando a desenvolver e vender tecnologias para o mercado para tratamento de águas e de efluentes. Até posso dizer que, hoje, a White Martins é, em nível global, uma das empresas do grupo que tem mais força e mais conhecimento técnico no segmento de meio ambiente, no tratamento de água e de efluentes principalmente. Então, hoje, a White Martins tem patentes no nome dela, exporta tecnologias para clientes da Ásia, da Europa, da própria América do Norte. A White Martins na Espanha e na Itália tem muita força nesse segmento. A White Martins, a Praxair, aqui no Brasil, é uma empresa que detém muita tecnologia no segmento de tratamento de água de efluentes. Então, respondendo de forma resumida a sua pergunta, a empresa começou na década de 1950, 60, na época, eu ainda não tinha nascido e, depois, no final da década de 1970, começou a investir mais forte e começou a produzir tecnologias e gerar tecnologias. Criar tecnologias e vender as tecnologias e os processos para o mercado.

 

P/2 - Qual foi a demanda que fez com que a White Martins na década de 1970 pudesse participar desse processo?

 

R - Eu enxergo dessa maneira. Acho que o mundo, talvez, tenha começado a perceber que a água era um bem escasso, não era infinito. O Brasil começou a perceber mais essa realidade nas décadas de 1970 e 1980. E não diferentemente, a ficha também caiu para a White Martins de que ela poderia ajudar no aspecto do meio ambiente e podia ganhar dinheiro com isso. Ela começou a trazer tecnologias já existiam lá fora para o Brasil e desenvolver tecnologias próprias no Brasil, visualizando um mercado que, na época, passava a ser cada vez mais visível como um mercado crescente. 

É comum ouvir dizer que a água é o petróleo do futuro. Está certo? Na minha visão a frase está certa, só que eu acho que ela precisa ser corrigida. A água é o petróleo da atualidade, então, hoje, qualquer um de nós consegue de certa forma viver sem petróleo, mas não consegue viver sem água. Haverá muitas dificuldades em viver sem água, então, isso começou a ser percebido fortemente pelo mercado nacional e também pela White Martins que está inserida no contexto do mercado nacional, no final da década de 1970, começo de 1980, de que era um mercado interessante e a White começou a investir em tecnologia.

 

P/2 - Porque existe também uma relação com energia?

 

R - Sem dúvida, água e energia estão sempre ligadas um ao outro, não tem como separar, água e energia estão sempre muito ligadas. Água, energia e meio ambiente são três assuntos que não podem ser separados um do outro. Falando em energia, voltando para o aspecto da White Martins como empresa de gás, sem dúvida nenhuma, o hidrogênio é a energia do presente e do futuro. Podemos criar hidrogênio ou separá-lo a partir da molécula de água. O hidrogênio como forma de energia é um excelente combustível e vem da molécula de água. Até sob a ótica da molécula, por si só, energia e água estão ligados, sem dúvida nenhuma.

 

P/2 - Como isso impacta a sua maneira de trabalhar?

 

R - Você diz sob o aspecto ambiental da minha função? É uma coisa que me satisfaz muito, até pelo impacto que eu criei ou ajudei a criar na minha família. Seria pretensão dizer que eu criei. Eu ajudei a criar esse impacto, essa consciência ambiental que eu sinto fortemente que os meus dois filhos e a minha esposa têm. Então, é claro que a sociedade ajuda muito nisso, mas o fato de eu ser um profissional ligado às atividades de meio ambiente, acho que acendeu mais a luz. Posso dar exemplos. 

Uma coisa que o brasileiro tem que eu acho que é muito maior do que há no exterior, pelo menos nos países que tive a oportunidade de conhecer. É a consciência e a força para se adaptar e se motivar a mudar em algumas situações. Quando houve no Brasil o problema do apagão, eu cansei de levar bronca dos meus filhos que passavam por um quarto e falavam assim: "Pai, você saiu do quarto e deixou a luz acesa". É uma consciência ambiental que a geração deles tem muito mais forte do que a minha geração e essa consciência é fruto, claro, da realidade ambiental de hoje que é muito mais critica do que na época que eu tinha a idade deles. É fruto da pressão da sociedade. Por isso e também pela profissão que eu tenho de lidar com o meio ambiente. A consciência dos meus filhos é uma coisa que me agrada muito e me motiva a trabalhar nesse segmento. 

Vemos exemplos, hoje, como o uso do cinto de segurança. Antes, quem usava cinto era taxado pela sociedade como um cara diferente, ridículo, bobinho... Passou um certo tempo, quem não usava cinto que era taxado e visto como um irresponsável, uma pessoa que não se preocupava com segurança e tal... Hoje, a maior parte das pessoas é incapaz de sair de casa e entrar em um carro sem pôr o cinto. É como se sentissem nuas, então, a mudança da consciência, vem passo a passo, dia-a-dia. Então, a contribuição que eu imagino estar dando é trabalhar com uma área ligada ao meio ambiente para a conscientização da minha família, na qual eu tenho uma influência mais direta. Acho até que do ponto de vista ambiental, eles são muito mais conscientes do que eu. Várias vezes, recebo lições deles em relação às coisas que eu faço, como, por exemplo, até para provocar a minha filha, após terminar de tomar uma garrafa de água, jogo-a na calçada só para ver a reação dela. Imediatamente ela dá bronca e me obriga a ir lá e pegar a garrafa. Teve um dia que eu fiz isso em um shopping center para brincar com ela, tomei uma água e joguei. Ela morrendo de vergonha veio e deu uma bronca: "Pai, não faça mais isso!”. O segurança do shopping, vendo que eu tinha feito aquilo, veio e também me deu bronca. Só que eu fiz para provocá-la, porque eu iria pegar a garrafa de volta e jogar no lixo. Eu fiz só para forçar a reação dela, ela me deu bronca, o guarda ficou emocionado com a bronca dela e eu quase fui preso por uma atitude irresponsável. Mas a consciência que eles têm hoje é uma coisa que me satisfaz muito.

 

P/1 - A gente está falando de consciência. Como é que você, na sua área, trabalha com os clientes a questão de consciência, o convencimento de trabalhar com o reuso de água, tratamento de efluentes? Como é isso no seu dia-a-dia?

 

R - Eu mencionei que eu tenho um envolvimento, às vezes, maior, às vezes menor, mas eu estou há 18 anos trabalhando com questões técnicas e comerciais de tratamento de água, de efluentes e meio ambiente. Eu sinto o seguinte: a consciência das empresas antes, assim como na sociedade, era muito menor há 20, 18, 15 anos do que é hoje. O que faz as pessoas mudarem? A consciência, mas em uma velocidade que não acontece como nós gostaríamos que acontecesse. A pressão de órgãos ambientais como CETESB [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo] e NEA [Núcleo de Educação Ambiental - ?], no Rio de Janeiro, são muito importantes, mas que, em função da dimensão do mercado e do número de indústrias, essa pressão muitas vezes é ineficaz ou muito pouco eficiente. A pressão da sociedade acontece com muito mais força, no meu modo de ver, contribui muito mais do que a autoconsciência, que é uma ferramenta, e do que a pressão de órgãos de controle ambiental. A pressão da sociedade é muito mais eficaz. 

Hoje, por exemplo, se eu tenho uma indústria têxtil e a minha indústria joga corante no rio e uma hora o córrego está vermelho, noutro amarelo, no outro dia é azul, no outro dia é verde e assim por diante. Há uma senhorazinha, que está aposentada e que ninguém sabe que ela existe, e uma hora ela puxa uma bandeira e diz assim: "Pô, o meu córrego quando eu era, morava aqui antes dessa empresa estar aqui era sempre límpido e sempre bonito". Ela consegue com uma força incrível movimentar toda uma sociedade para forçar aquela empresa, muito mais do que o órgão de controle ambiental conseguiria, a se movimentar para efetivamente tratar aquele efluente e não poluir mais o córrego da senhora que mora ali ao lado. A força que a sociedade tem é muito grande do ponto de vista de controle ambiental. É muito mais eficaz e muito maior do que a força das agências de controle ambiental e muito maior do que a força da autoconsciência. Porque a autoconsciência vem, mas... Eu acho que as pessoas, às vezes, refratam e não querem ver: "Ah, porque vou investir nisso se eu posso investir em outra coisa?” ou: “Por que eu vou jogar o papel no lixo se o meu vizinho joga no chão?" Não é bem assim, mas já foi muito pior. Acho que hoje, ainda vemos, infelizmente, pessoas abrindo o vidro do carro e jogando lixo, garrafas fora, mas com muito menor frequência do que se via há dez anos.

 

P/1 - Você acha que a White Martins, como empresa, consegue dar exemplo nesse sentido? Você está trabalhando com isso, mas percebe que a própria empresa consegue dar o exemplo de preocupação ambiental?

 

R - Sem dúvida nenhuma, a empresa sempre visa o lucro, o que é natural. Não podemos também tampar o sol com peneira, a empresa visa o lucro porque a subsistência dela depende do lucro, mas é muito diferente a empresa trabalhar o meio ambiente, porque vai melhorar o aspecto social. Então, ela contribui para isso, às vezes mais, às vezes menos, mas está ganhando dinheiro com aquela atividade. Existem outras empresas que têm atividades muito diferentes e estão fazendo programas sociais, programas de inserção da sociedade dentro da atividade que ela faz.

Posso dar um exemplo em que eu tive a felicidade de participar várias vezes. Existe um programa na White Martins chamado de Programa Verde White. É uma associação, claro, ao fato da White Martins ter o logotipo verde. Foi feita essa associação e criado um programa, que eu acho muito feliz, chamado Verde White. O que faz esse programa? Esse programa tem diversos ramos, mas, basicamente, convida classes de escolas para fazer visitas às empresas para as quais trabalhamos. Por exemplo, uma empresa têxtil aceitou a vinda de uma determinada escola convidada. Então, nós alugamos um, dois ônibus, pegamos essas crianças na escola, as levamos até o cliente e mostramos o que nós fazemos: "Olha, quando sai da fábrica o efluente sai aqui. Está vendo ali, ele está azul, hoje. Agora vamos ver depois que saiu da estação de tratamento de efluentes". Aí todo o grupo vai junto, claro, com a devida segurança. São crianças, os professores, algumas mães e pais participam do programa. Mostramos o efluente sair da fábrica e o efluente, depois de tratado na estação de tratamento, sendo descartado no rio. O grupo vê, depois, o efluente saindo límpido, claro e sendo descartado no córrego. Eu participei de vários eventos como esse e, uma vez, tive a felicidade de uma mãe de um dos alunos, que deveria ter sete, oito anos no máximo, ter virado para mim e dito: "Olha, a casinha que eu morava é na margem desse córrego que vocês estão jogando efluente. Quando eu morava lá, quando eu tinha a idade dela, esse córrego era límpido. Depois, ele começou a ficar cada dia de uma cor". Por isso que eu citei há pouco o exemplo da cor. "Hoje, eu reconheço, que o córrego está exatamente do jeito que estava antes, então eu estou muito feliz. Eu estou muito feliz de ter hoje a condição de os meus filhos viverem ao lado de um córrego, de um rio que tem exatamente a mesma água clara que tinha há dez, 15 anos atrás”. Então, é uma maneira muito inteligente, e, mais do que inteligente, acho que muito produtiva de inserir a sociedade, a comunidade do entorno daquela empresa, que é uma empresa têxtil, com a comunidade da White, com a comunidade local. Todo mundo fala que as empresas servem pessoas. A empresa está como pessoa jurídica, é de pedra, não tem sensações, não tem emoções, mas as pessoas que estão dentro dela têm emoções e as pessoas que por ela são servidas também têm emoções. A empresa não tem como viver sozinha, vive pelas pessoas ou em função das pessoas, a quem ela serve e só funciona porque existem  as pessoas dentro dela que fazem o seu sangue circular. Não há como desassociar uma coisa da outra... Não só a White Martins, mas há uma série de outras empresas que têm programas inserção social e ambiental excelentes, que eu acho que muito legais.

 

P/1 - Você falou da comunidade, mas e o governo, como vocês lidam com as leis ambientais de cada localidade? Pressiona também de alguma forma, atrapalha ou não o trabalho?

 

R - Não, não atrapalha. Existem leis, que no meu modo de entender, são super dimensionadas, mas quem sou eu para julgar? Outras que são subdimensionadas, mas fundamentalmente, mais importante que a lei, é a tentativa de fazer a lei ser cumprida. Volto a fazer um comentário que eu fiz há pouco. Há três maneiras para que uma empresa se movimente, assim como uma para pessoa física: a autoconsciência faz com que você se movimente em função de uma causa ambiental; a pressão de órgãos ambientais e a pressão da sociedade. O exemplo de pressão da comunidade: você joga uma garrafa, alguém te critica, você assume aquela culpa ou aquela falha, e vai lá e corrige, pegando aquela latinha ou garrafa e a jogando no lixo; a outra maneira é a lei, uma vez que ela se faça cumprir ou que alguém faça com que ela seja cumprida: jogo uma garrafa no chão, ninguém reclama, mas o guarda vem e aplica multa, então, ele faz com que eu me adeque a uma legislação ambiental para que eu não seja mais multado. E existe a consciência, eu não jogo, porque não quero jogar, pronto.

Eu tenho a visão de que os órgãos ambientais em nenhum momento atrapalham. Ajudam, porque normalmente trabalham tentando seguir a regra, a lei. Muitas vezes eles, na minha visão, até por não haver gente suficiente para abordar todas as empresas, eles se preocupam mais com um do que com outro, mas por uma questão de prioridade. Outras vezes eles não estão preocupados com nenhum dos dois, porque estão olhando para trás ou estão olhando muito mais para frente... Mas atrapalhar, não atrapalham. Eu só acho que eles poderiam ser e deveriam ser mais eficazes no controle, porque escrever a lei é fácil, mas fazer com que a lei seja cumprida é outra coisa. Agora dessas três ferramentas que são a autoconsciência, a pressão de órgãos ambientais, é a pressão da sociedade a mais forte. Na questão ambiental e em qualquer coisa na realidade, mas, principalmente, na questão ambiental é muito mais forte.

 

P/1 - Você pode dar algum exemplo dessa relação. Como é chegar a tal cliente porque o governo aplicou uma multa e a White Martins teve que atuar ali...

 

R - Tem vários exemplos e eu não vou citar nomes, mas há situações em que fomos chamados pelo cliente porque ele estava com alguém do órgão de controle ambiental governamental dentro da fábrica e precisava ter uma solução o mais rápido possível para um determinado problema. Nós fomos chamados, então, para contribuir e conversar com o pessoal do controle ambiental, dizendo: "Olha, tudo bem. Eles têm esse problema aqui, mas nós temos uma solução. Se a gente der tempo ao tempo, nós podemos trabalhar junto com o cliente para solucionar o problema que existe". Às vezes o cliente escapou da multa, às vezes, o cliente não escapa de uma multa, o que é justo ou injusto, não vem ao caso, mas o cliente nos procurou. Algumas vezes nós procuramos o cliente e percebemos que ele não estava nem aí. O tempo passava e ele lembrou que nós existíamos por um motivo qualquer, pressão da sociedade ou pressão de órgão de controle ambiental e voltou a nos procurar. Mas nós já tínhamos feito um contato antecipado há dois, três, quatro anos atrás, então ele se lembrou de nós. E existem outros casos em que nós fazemos uma apresentação técnica e o cliente não sabia, por exemplo, que usar ozônio para desinfectar é melhor do que outros processos alternativos e que ele se conscientizou e falou: "Olha, eu quero mudar o meu processo, porque ambientalmente estou vendo que é o mais correto". 

Então, temos os três casos: os casos em que nós procuramos o cliente; os casos em que o cliente nos procura e os casos em que há um contato entre cliente e a White Martins, aquilo fica no nada e, daqui a pouco, vem à tona de novo e o negócio acontece. São as três situações mais comuns. Por pressão ambiental, às vezes, acontece. E não são poucas vezes, são muitas vezes.

 

P/1 - E a White Martins consegue estar ligada em tudo isso, consegue resolver esses problemas ou existe alguma especificação? Chegou algum caso em que disseram: "Ah, isso nós não conseguimos resolver, ainda não podemos...”?

 

R - Sem dúvida, há alguns casos em que a White Martins não tem tecnologia suficiente para resolver, existem limites para as coisas. Temos tecnologias para resolver problemas específicos e são muitos. Diria que nós temos tecnologias bastante variadas para aplicar em uma ou outra situação, mas não para todas. Em algumas situações, se nós não temos a tecnologia, mas nós sabemos o que é necessário, tentamos nos associar e resolver o problema do cliente. Agora há outros casos em que, por exemplo, existe um determinado composto que está poluindo a água que é extremamente recalcitrante. Recalcitrante é o composto que é muito difícil de ser tratado. Nesses casos, a White Martins não tem a tecnologia para solucionar aquele problema, não conhece no mercado aquela tecnologia, porque, na realidade, ela não existe ainda, então nada é feito... Mas são muito poucos casos. Eu diria que, hoje, existem soluções dentro da White e muitas soluções fora da White, que possibilitam tratar praticamente de qualquer tipo de efluente. Claro que, às vezes, fica muito mais caro do que o cliente gostaria, mas as tecnologias em si existem. Essas tecnologias que eu citei há pouco, como microfiltração, ultrafiltração, nanofiltração e osmoses reversas, são tecnologias em que o último passo, a osmose reversa, coloca a água praticamente em uma condição de potabilidade. Na realidade, ela fica mais pura do que uma água dita potável, é H2O pura. Então, para bebê-la você tem colocar alguns sais que são necessários ao organismo. Quando você trata a água, tira tudo o que tem de ruim nela e tira também tudo o que tem de bom nela para o ser humano. Para colocá-la em uma condição de potabilidade, precisa adicionar algumas coisas que você retirou. É o último estágio do tratamento, ou seja, tecnologias existem, associando gás, aplicando gás industrial ou não, mas as tecnologias existem. 

É questão de associar a tecnologia para tratar o tipo da água que você tem, o efluente, o tipo do esgoto que tem para aplicação e a finalidade que você quer dar à água: se é descartar no rio, tecnologias mais simples; reusar em um vaso sanitário é um pouquinho mais complicado; para regar grama de jardim é um pouquinho mais complicado;  para colocar em torre de resfriamento, em prédios de apartamentos, shoppings, fábricas é mais complicado; para colocar na caldeira complicou mais ainda e se é para o ser humano beber aí é mais complicado ainda. Mas a tecnologia existe.

 

P/1 - Por que jogar em um rio é mais fácil?

 

R - Porque o processo para o descarte no rio é muito menos complexo do que para beber aquela água. Se a empresa tem um efluente e quer, hipoteticamente, destinar a água para que pessoas bebam, o tratamento tem de ser muito melhor do que seria se o efluente fosse descartado no rio. Para o descarte da água em um rio ou lagoa, a legislação pede uma determinada qualidade de água. Para descartar, por exemplo, em um manancial de água que vai ser usada para consumo humano, a qualidade da água tem de ser mais alta, a potabilidade dela precisa ser mais alta ainda. 

A legislação pede níveis de qualidade de água, níveis físicos, químicos e biológicos de acordo com a destinação que você quer dar àquela água. Consequentemente, dependendo do destino que você queira dar à água, o custo é maior ou menor, as tecnologias são mais ou menos avançadas. 

 

P/1 - Você pode nos falar algum caso de parceiro da White ou fornecedor no seu segmento. Houve o caso da Neotex [empresa de consultoria energética e ambiental], que a White comprou. Poderia citar outros casos para soluções ambientais?

 

R - Há uma série de fornecedores de equipamentos, fornecedores de processos, fornecedores de tecnologia com os quais a White Martins se associou buscando maior conhecimento e maior envolvimento nos temas ambientais. Tendo esses fornecedores como simples fornecedores, fazendo um desenvolvimento conjunto de tecnologias, mas, via de regra, sempre visando a aplicação de um gás.

A White Martins, por exemplo, consegue com o oxigênio puro, sozinho, tratar biologicamente o efluente, mas associado a uma membrana de ultrafiltração, trata muito melhor aquele efluente do que trataria só com o oxigênio puro. É uma fusão de tecnologias e uma fusão de conhecimentos e de Knowhow, de expertise entre empresas de segmentos diferentes, mas que se completam. A White Martins sempre buscou isso, da mesma maneira que busca muito o trabalho com universidades para desenvolvimento de tecnologias. Temos trabalhos com universidades em vários estados do país, que nos ajudam a desenvolver tecnologias para tratar efluentes, para tratar água e não só a água e o efluente. Eu tenho falado muito em água e efluentes, mas, nos diversos segmentos. Tratamento térmico, combustão, indústrias metalúrgicas, indústrias de vidro, congelamento, processamento de alimentos, bebidas, em todos os segmentos a White Martins atua de uma forma a desenvolver tecnologias para vender um gás e atua junto com as empresas no dia-a-dia.

 

P/1 - Paulo, qual é o principal desafio que você tem hoje no seu dia-a-dia? E que desafios a White Martins ainda tem pela frente no segmento ambiental?

 

R - O grande desafio que eu vejo, hoje, com pessoa e profissional, é a oportunidade que eu tenho hoje de trabalhar com países no mundo todo. Para mim, é muito motivante, muito desafiador. Às vezes, é até muito engraçado, porque, às vezes, fazemos reuniões em que uma parte fala inglês, outra fala chinês, outra português, a outra espanhol, a outra fala italiano e tentamos nos comunicar. É um negócio, é uma coisa bacana. Trocando tecnologias, trazendo tecnologias de fora para cá e exportando tecnologias, conhecimentos daqui para fora.

Outro desafio, também do ponto de vista e como a empresa, é que sinto hoje que a White Martins em determinadas aplicações, de certa maneira, afastou-se do mercado, por uma questão estratégica ou por uma questão de lucratividade ou por uma questão até, às vezes, de esquecimento do potencial de um mercado, que já foi um mercado bom no passado e está sendo retomado. Então, buscar e voltar a trabalhar com mais força nesses mercados é um desafio grande que eu vejo dentro da ótica da White Martins como empresa no Brasil. Dou alguns exemplos. 

A White Martins durante certo tempo, de 1980 até praticamente final dos anos 90, ficou muito voltada para aplicações de oxigênio em tratamentos biológicos. Em 1994, 1995, 1997, para cá se afastou, por uma série de questões, desse mercado, voltando-se para o CO2 e a neutralização de efluente. Hoje, está voltando a trabalhar no mercado, no seu espectro mais amplo, ou seja, está voltando a trabalhar no tratamento primário que são as aplicações, por exemplo, de CO2 para neutralização, no tratamento secundário, que são as aplicações de oxigênio para tratamento biológico e na etapa terciária do tratamento, que são os polimentos, em que é usado o ozônio para oxidação ou desinfecção ou remoção de couro ou oxidação direta de efluentes mais difíceis de serem tratados. Resumindo aqui o meu discurso, a White ficou uma boa parte do tempo focada muito mais no meio do tratamento, ou seja, no tratamento biológico, até mais recentemente estava mais focada em uma ponta, que é o tratamento com CO2 e, hoje, está voltando a focar o segmento todo com o CO2, o oxigênio, O2 e o O3 que é o ozônio. Está trabalhando nos três aspectos. Particularmente acho isso muito inteligente, muito interessante e motivador, e permite fazer muito mais negócios do que a White Martins vinha fazendo até hoje. E, consequentemente, contribuindo para o meio ambiente muito mais do que vinha fazendo até hoje. 

A cada dia que passa, o meio ambiente é um tema cada vez mais importante, então, afastar-se desse mercado nem pensar. Tentar entrar cada vez mais nesse mercado, acho, é a estratégia correta. Este é o maior desafio que eu tenho, ajudar de alguma maneira a White Martins a fazer isso. Motiva muito porque, de certa maneira, é uma novidade, para mim, trabalhar no dia-a-dia com o mercado do mundo inteiro, tentando trazer e levar tecnologias daqui para fora. São as duas maiores motivações que eu tenho hoje.

 

P/1 - E o que você acha da White Martins estar completando cem anos? Você consegue dizer alguns marcos? 

 

R - Eu consigo, sem dúvida nenhuma. Acho a White Martins uma empresa muito diferente. Tenho, claro, só 25 anos, um pouco menos, mas vou completar logo os meus 25 anos de companhia. O que eu consigo, claro, é olhar para os últimos 25 anos da White. Não consigo olhar os 75 anteriores, a não ser pelo que eu já li, desde a época que George White, o inglês, e o [Domingos] Bebiano Martins, português, vieram ao Brasil. O português com um pouco mais de dinheiro, o inglês com um pouco mais de conhecimento. Eles tiveram a feliz ideia de juntar o sobrenome de um com o sobrenome do outro e criou-se a White Martins há cem anos. 

Só nesses últimos 25 anos, a empresa mudou muito na sua cultura, no seu jeito de ser, no seu profissionalismo. Uma série de mudanças extremamente positivas. Outras foram também positivas, mas muito sofridas. A White Martins é uma empresa que mudou muito sem dúvida nenhuma. Quando eu entrei há 25 anos, era uma empresa de forte capital nacional, era uma empresa muito mais familiar na sua essência. Hoje, é muito mais profissional, é uma empresa de capital estrangeiro com muito mais força do que o capital nacional. Mas são etapas diferentes de uma empresa. 

Eu vejo que precisamos ter na maior parte das situações da vida, talvez em todas elas, o ponto de equilíbrio, o máximo de equilíbrio possível, mas a beleza da vida está nas suas diferenças. Teoricamente ou tecnicamente, eu não sou nem muito favorável a radicalismo para um lado, nem radicalismo para o outro. Não estou falando de política. A empresa precisa visar lucro, mas não só lucro. Precisa visar a parte humana, mas não só a parte humana. Precisa ponderar e equilibrar suas forças. É algo que a gente que nós, como seres humanos, precisamos fazer também. Então, sinto que a empresa melhorou muito nesse aspecto, melhorou realmente muito. O funcionário, hoje, é visto de uma outra maneira, porque a sociedade também pressiona, porque a sociedade passa a ver as pessoas dentro da companhia de outra maneira. Antes, a mentalidade de quando comecei a trabalhar era a seguinte: "Ah, eu quero é ganhar dinheiro". E a empresa pensava assim: "Ah, não me importa muito o funcionário, mas eu tenho que produzir e tenho que levar". Foi o que aconteceu na Revolução Industrial e o funcionário não importava muito. Ao longo do tempo, a coisa mudou. Só que estou falando em 1910, na Revolução Industrial. No fundo, foi quando a White Martins começou. Então, imagino o quanto deve ter mudado de dois funcionários, o George e o Bebbiano, que fundaram a empresa, até hoje. Mas eu consigo enxergar os 25 últimos anos e a mudança foi muito grande. Uma empresa mais familiar, administrativamente falando, para uma mais profissional, muito mais focada, hoje, na contribuição que a empresa pode dar à sociedade do que há 25 anos.

 

P/1 - E o que você acha de contar a história da industrialização do Brasil e a história da White por intermédio de um projeto de memória em que os colaboradores vêm aqui e contam as suas histórias?

R - Eu acho legal. Sinceramente, recebi esse convite, há um mês e meio, dois meses. Quando você me ligou, eu já tinha esquecido que, um dia, seria convidado, e teria de vir aqui para fazer esse depoimento, entrevista. Então, nem me preparei, até porque não precisava me preparar para contar 25 anos de história. O que eu consigo lembrar, conto, o que não conseguir, não conto, sem procurar inventar muito. Só um pouquinho, mas sem procurar inventar muito... Eu acho super legal, falei lá em casa e o pessoal ficou interessado. Falaram: "Traz uma fita, deixa eu ver e tal". 

Mas eu vim, como, na minha visão, acho que deveria ter vindo. Para abrir o coração e falar o que eu penso mesmo, sem ficar fazendo caras e bocas, fazendo tipo. Para contar o que aconteceu comigo. Eu acho super legal, até porque ajuda a reviver aquilo que já passou e lembrar, talvez, os erros que foram cometidos para não cometê-los mais. Lembrar das coisas boas que fizemos, para incentivar a fazer mais e tocar a vida para frente. Eu acho legal, é um momento de parada. Embora, o tempo da entrevista seja bastante grande foi uma experiência bem vinda, porque força, de alguma maneira, a parar, relembrar e contar. Sinceramente, nunca pensei que fosse passar por algo desse tipo, mas estou gostando. Pode continuar...

 

P/1 – (risos) Estamos finalizando... Você já respondeu a outra pergunta que eu iria fazer, sobre o que achou de participar.

 

R - Eu já me antecipei? Mas você sabe que ser mal-educado, às vezes, e ter consciência disso é uma boa. Mas eu me entusiasmo, acho que no diálogo, acabei respondendo perguntas que eu achei que iriam surgir. Então, eu me antecipei. Mas é um prazer, não tem problema, não. Se tiver mais perguntas pode fazer...

 

P/2 – Conta, então, aquela história do relógio da Praça da Sé.

 

R - Foi uma coisa que também eu não esperava. Talvez, ninguém ou muito pouca gente na White Martins estivesse esperando na época. Mas a Praxair, empresa-mãe da White Martins, é americana, e fez uma coisa muito legal. Há aproximadamente uns cinco anos, a Praxair fez, também, o seu centésimo ano de aniversário. Naquele momento, todos os funcionários, sem exceção, todos os funcionários, do mundo inteiro, na Índia, na China, na Coreia, na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, no México, em todos os países da América do Sul, receberam um relógio que, por coincidência, é o relógio que eu estou usando hoje. É uma forma de lembrar do ser humano, muito mais do que a gratificação, é a lembrança de que a pessoa é uma parte importante da empresa. Não que ele não seja útil para não perder o horário. Mas não é esse motivo principal, pelo menos, eu imagino que não seja esse. Então, a empresa fez um agrado aos funcionários participantes desses cem anos, além de outras comemorações. Mas, hoje, quando você olha nos pulsos das pessoas da White, eu diria que a grande maioria usa o relógio todos os dias. Todo mundo tem relógios iguais, mas como ele é bonito e agrada a todos, é super bem vindo. Eu achei super legal. Não estou dando nenhuma sugestão para que a White Martins faça o mesmo agora, mas temos dois pulsos. Se der outro relógio também não é má ideia. Mas é só uma brincadeira...

 

P/1 - Está bom. Queria falar mais alguma coisa que não falamos?

 

R - Não, eu queria agradecer muito a oportunidade que a empresa e vocês estão dando de ter essa experiência. Acho legal isso. Vocês foram muito simpáticas, não fizeram perguntas muito delicadas, até porque se fizessem eu iria falar que eu esqueci a resposta e não iria responder. Mas eu agradeço a vocês pela oportunidade.

 

P/1 - Não foi um relógio, mas foi uma conversa dos cem anos.

 

R – Foi, claro.

 

P/1 - Está jóia. Obrigada, Paulo.

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