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Supermercado familiar

História de: Angelina Aparecida Ciaramicoli Galassi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/08/2008

Sinopse

Indentificação. Descrição do pai, trabalhador da lavoura e, da mãe, comerciante. Falecimento dos pais. Casamento precoce e vida difícil na lavoura. Mudança, a contragosto, com o marido para Campinas. Dificuldades iniciais e falta de água. Início do boteco do marido, com produtos trazidos de fazendas. A freguesia e expansão do negócio. Chegada dos grandes supermercados. Falecimento do marido. Decisão de continuar os negócios, com a participação dos filhos. Abertura de outras lojas. Modernizações estruturais e variedade dos produtos oferecidos. Treinamento de funcionários. Promoções. Família e vida atual.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Sou Angelina Aparecida Ciaramicoli Galassi, nasci em Amparo no dia 27 de fevereiro de 1937.

FAMÍLIA
Meus pais são José Ciaramicoli e Araceli Subires Ciaramicoli. Meu pai era italiano e mamãe espanhola. Não lembro dos meus avós porque quando cresci já não os tinha. Eu perdi meus pais quando era muito nova e lá na lavoura era tudo diferente. Com 12 anos perdi minha mãe e com 16 perdi meu pai. Meus pais trabalhavam na lavoura e minha mãe era comerciante também. Minha mãe tinha uma loja em Amparo. Quando foi na Revolução de 1937, destruíram a loja dela, mas o consulado espanhol conseguiu reconstruir tudo pra ela. Ela tocou a vida, tinha três filhas e depois ela ficou viúva. Foi então que meu pai apareceu e eles começaram a namorar. Quando eles casaram, o meu pai era sitiante, ela veio morar no sítio. Meu pai também já tinha outra família, eram nove filhos, mas tinham ido todos para São Paulo. As filhas da minha mãe já estavam todas encaminhadas na cidade, em Amparo, e daí ela foi morar com meu pai lá na lavoura, no sítio nosso. E daí foi que acontecemos nós, os quatro irmãos. Nós somos em dois homens e duas mulheres. Eu tenho uma irmã que não trabalha no comércio, mas outro irmão trabalha. E tenho um irmão que está conosco, que trabalha conosco no mercado. O caçula.

MIGRAÇÃO
Foi assim, meu pai ficou muito doente também. A minha mãe tinha morrido primeiro e meu pai ficou muito doente. Meu pai estava desenganado pelo médico. Eu tinha um namoradinho, ia com ele lá em casa e meu pai falou assim: “Olha, vocês não tem mãe, vocês não tem pai, que já vou morrer, estou doente, estou desenganado” – ele estava muito ruim – “quero chamar esses moços porque se eles quiserem casar acho bom vocês casarem.” Eu falei: “Meu Deus, mas casar” Nós nem sabíamos nada. Então eu e a minha irmã nós casamos. Eu tinha 18 anos. Minha irmã também casou. Quando eu casei fui morar com a família de meu marido – eram colonos em uma fazenda – e de lá foi a vida, trabalhando, trabalhando. Só que meu marido gostava muito de negociar. Nós íamos para a roça às oito horas da manhã, voltávamos às quatro horas e eu ia cuidar da casa, cuidar da criação, que ele comprava muito. Ele ia fazer horta e ia plantar tudo que precisava plantar de verdura, depois ele ia na colônia vender. Ele trocava por frango, por galinha. Todas aquelas coisas que ele negociava. E eu junto, sempre trabalhando junto. Depois nasceu meu primeiro filho, eu tinha quase 20 anos. Eu sei que daquela fazenda nós fomos pra outra. Já estava com três filhos, nessa fazenda o menino estava engatinhando, e nós tínhamos uma plantação de arroz. Meu marido comprou um barzinho na beira da estrada e fizemos a plantação de arroz; estava muito linda, maravilhosa. Ele tinha um compadre que montou um barzinho em Campinas. Na fazenda não estava bom, estava muito puxado. Um dia deu uma tempestade e acabou com todo o arroz, com a plantação. Daí, meu marido disse: “Eu não vou mais trabalhar na roça, eu vou para Campinas.” Nossa Eu chorava muito porque como eu ia para Campinas? Eu não conhecia nada... Ele veio, ficou uma semana na casa do compadre, padrinho do meu filho, e lá ele começou. Fazia as coisas à noite, de madrugada. Meu filho levantava, meu marido ficava à noite então eu ia cuidar. Era aquela correria pra ir pra escolinha, corria. Não tinha água lá em cima, porque era uma rua só. Era de terra, não tinha nada, não tinha casa. A prefeitura colocava água numa caixa para o lado de cima da rua, mas não deixavam nós pegarmos. Uma vez eu peguei água lá, eu saí tão preocupada – eu era nova, com medo. E o carro veio, eu olhei para o lado, quando vi o carro estava em cima. Eu joguei os baldes todos, voltei chorando. As crianças ficaram sem almoço. Meu marido chegou e eu falei: “Olha, não dá para ficar aqui, não tem água. Hoje aconteceu isso e isso.” Nós não tínhamos dinheiro, mas tinha um poço no fundo do quintal. Tinha um vizinho nosso, ele era poceiro. Ele veio fundar o poço pra nós. Naquele tempo, nós pagávamos dia dez. Pagamos, meu marido era muito certinho, fazia controle, procurava comprar mais a dinheiro. Foi muito gostoso o nosso trabalho ali. Não sabia se a era feliz ou infeliz, porque nem dava tempo de ver o que era aquilo. Era só trabalhar, trabalhar, trabalhar.

COMÉRCIO
Tinha um senhor que ia levar bebida no barzinho que era aqui de Campinas. Ele falou que tinha um botequinho, uma portinha que vendia banana, pinga, essas coisas, e o cara queria vender. Meu marido veio... Naquele tempo, ele tinha quatro mil réis de criação, vendeu tudo, acabou com tudo. Veio para Campinas, negociou, depois foi buscar a mudança e nós mudamos. Mas era muito precário, muito precário. Eu sofri muito porque vim com três crianças, o pequeno estava engatinhando. E lá na roça nós sofremos muito, dentro dessas lavouras, eu e meu filho mais velho. Quando ele veio para Campinas, esse daí já era mais grandinho, nós começamos lá no boteco. Só que a casinha, ele estava aumentando, meu marido precisava dormir debaixo do encerado, não tinha água... Era muito ruim o negócio de água porque tinha que buscar na Mina do Sapo e era um sufoco. E também levar as crianças na escolinha ali embaixo... Foi muito difícil. Muito difícil E meu marido saia cedo e voltava tarde porque ele ia... Naquele tempo tinha muita mercadoria nas fazendas e ele ia buscar a criação, trazia planta, o homem punha lá. Banana, vendia muito, vendia bastante. Começou a pegar freguesia e fomos aumentando, aumentando. Isso foi de 1965 até 1990. Era no bairro de São Vicente. Nesse período aconteceu muita coisa, problema de doença. Meu filho de onze anos começou a ficar no barzinho trabalhando. Ele me ajudava; meio dia ia na escola e meio dia trabalhava. Eu não deixei de dar estudo pra eles, educação, tempo pra eles. Iam à escola, tudo aquilo. Quando já estava começando a melhorar, nós começamos a comprar os terrenos em volta, já estava ficando grande. Passado um tempo, em 1990, meu marido estava muito doente, nós estávamos tentando reformar a casa em cima; pra nós mudarmos pra cima, pra abrir toda a frente, e ele estava muito doente. Eu estava trabalhando também na casa. Sempre trabalhando. Nisso tudo meu filho mais velho casou – e nessa confusão de vai e vem, de aumenta, de corre, ele doente – nisso veio uma firma no São Vicente, uma rede de supermercados grande, veio um e depois veio outro mercado, uma rede. Então meu marido faleceu. Fiquei desnorteada, não sabia o que fazer; se ia embora, se não ia, se ia dar pra tocar. Começamos. No começo foi muito choro, muito desespero, muito sem saber como fazia, eu falei assim: “Agora precisa pegar e juntar com esses meninos e começar a trabalhar.” O meu filho estava na política, era vereador, o Natal; meu caçula também ajudava ele. Fizemos uma reunião e resolvemos. “Você vai ficar com o trabalho, vai ficar com o comércio do seu pai, nós vamos nos unir, vamos trabalhar.” Ele falou: “Vou preferir tocar o comércio que o pai deixou.” Está bom, aí começamos a trabalhar, trabalhar, trabalhar. Eu tinha uma freguesia muito boa, muito boa mesmo. Não tinha nada ali. Às vezes, as pessoas chegavam: “Ai, Angelina, eu não tenho nem alho lá em casa.” Naquela época não tinha e, às vezes, eu tinha, ia lá repartia com elas, fazia maior amizade. E quando veio o Carrefour, além de nós estarmos desesperados, todo mundo falava que íamos fechar. Os clientes desciam e voltavam com a sacolinha. Mas chegava ali na porta eles não queriam entrar. Eu ia de encontro a eles, pegava a sacola e guardava pra eles: “Nada disso, se você veio aqui, acho que veio atrás de alguma coisinha. Você vê o que quer, você compra, e o que você achar que compensa vai comprar lá. Não tem problema nenhum. Eu também estou fazendo assim, eu estou vendo onde está mais barato pra por aqui, pra comprar.” E isso foi, dia a dia, mês a mês, e eu ali no batente, cedo, à noite. Podia ser a hora que fosse, eu estava lá.

FAMÍLIA
Eu vim pra Campinas com três filhos. Depois nasceu o caçula que é o João Carlos. Começamos a trabalhar, tinha o pequenininho para cuidar. E eu tinha um filho, o Antonio Pedro que não se ajeitava de ficar ali preso. Eu falei: “O que vou fazer com esse menino? Não posso deixar na rua.” Eu coloquei ele de guardinha, ele trabalhava, era uma graça. Tinha um senhor... Porque eu tinha uma amizade com o povo e ele veio: “Dona Angelina, deixa o Pedro, ele não gosta de ficar aí, deixa o Pedro trabalhar comigo de servente de pedreiro.” Falei: “Nossa, não seu Zé Não é muito peso?” “Não, dona Angelina, é mais pra me ajudar e tal.” Eu deixei. Era até pra ser um profissional. Mas a roupa vinha muito suja e eu não agüentava lavar a roupa; a roupa dele de barro e eu achei melhor ele não trabalhar. Depois ele cresceu mais e acabou ficando junto comigo trabalhando. Evoluiu. Quando ele casou, ele casou novo, nós tínhamos uma chácara e ele já cuidava dessa chácara para o pai. Quando ele casou, o pai era vivo, ele falou que queria ter um comércio dele. O pai falou: “Vai montar seu comércio” Ajudou e até hoje ele tem comércio, tem comércio de bebida no atacado. Ele vai muito bem. E os três estão comigo lá: o João Carlos, o Sebastião, que é o terceiro, e o Natal, que é o mais velho. Esse que foi vereador.

INFÂNCIA
Da minha infância eu não tenho muito que falar. Porque na infância, lá no sítio, brincava, era aquela vida. Aquela brincadeirinha de pular corda... Agora, sair meu pai não deixava. Passear, ir numa missa, nada. Nós pulávamos corda, brincava de boneca. Fazia pouca coisa porque meu pai quis que nós fossemos trabalhar muito cedo na lavoura. Tinha poucos amiguinhos, mas tinha. Porque era sítio. Sítio é um aqui, outro lá pra frente, tinha na escolinha. A escola era só até o terceiro ano, lá na roça. Como a minha mãe era dona da loja em Amparo, a dona que ficou, ficou minha madrinha. Eu fui fazer o quarto ano lá. Fui a única que conseguiu fazer o quarto ano. Foi gostoso, foi bom. Mas eu sentia falta da mãe. Eu ia final de semana, não era longe.

CIDADES / CAMPINAS / SP
Em 1965, eu vim para Campinas. Passamos pela cidade e fomos para o bairro de São Vicente. Era praticamente uma fazenda, porque não tinha nada naquele tempo, eram algumas casas, tinha uma igrejinha e lá que o pessoal ia estudar. Era praticamente uma fazenda, eu estranhei muito, sofri muito porque não tinha água. Porque no sítio tinha muita água, aquelas minas de água, que eram maravilhosa. Eu estranhei muito. Fiquei uns seis meses sem água. Na esquina onde eu moro tinha um armazém grande, que depois fechou, foram todos embora. Depois também eu montei o mercado, mas esse armazém grande ficou muito tempo lá. Eles vendiam de tudo, era uma coisa grande. As pessoas compravam lá e também compravam no meu, quando foi formando. Eu vendia na caderneta, naquele tempo, coisas de saco: arroz, feijão, sal. Vendia na caderneta. Depois foi melhorando, veio outro mercado... Eu tenho paixão por comércio. Se eu pudesse voltar no tempo, ficar lá com meus clientes, meus funcionários, os fornecedores, que também eu comprava, ajudava a pagar. Nossa, eu gostava muito mesmo. Eu não cansava, eu não tinha horário. O mercado era na fazenda. Na rua, sabe esses leites, que vinham naquele tambor grande? Os donos da fazenda, os funcionários traziam todos ali. E ali os caminhões, os funcionários vinham buscar, para levar. Era numa estrada.

CASAMENTO
Meu marido era lá da fazenda mesmo. Era da outra fazenda. Depois que nós ficamos conhecendo tudo. Ele era da fazenda, mas nós éramos do sítio. Acabamos nós conhecendo. Foi legal, mas nós não tínhamos muito tempo. Porque meu pai deixava, mas depois que ele viu que eu estava namorando, ele já logo quis que eu casasse, uma passagem meio rápida. Foi assim. Teve missa, teve aquela quermesse. Foi aí que eu com minha irmã conhecemos eles, começamos a namorar, namorar tinha que ir em casa, ficar lá sentado com os pais.

TRANSPORTE
Nós vínhamos pra Amparo desde a fazenda. Cheguei a viajar de trem, um pedacinho assim. Era gostoso, muito gostoso. Sei lá se é porque eu era jovem, misturava, gostava.

FUNCIONÁRIOS
Quando meu marido faleceu, nós continuamos ali. Eram poucos funcionários. Acho que uns dez funcionários. Ia aumentando, conforme precisasse. Depois nós compramos, ali na Saudade, uma loja que tinha tido um negócio de falência. Ela fechou e nós compramos ali. Meu filho caçula ficou, “vamos comprar, vamos comprar.” Eu era muito medrosa nesse tempo, eu chorava muito quando era para fazer as coisas. Tinha muito medo de conta, de não poder pagar. Eu era assim, porque meu marido não gostava muito de contas. E eles não. Eles queriam por a cara. Eu falei: “Não, pára com isso” E eles: “É porque a gente tem que crescer.” E quando abrimos em Saudade, já fomos aumentando os funcionários, outra loja. Ali nós começamos a ir melhor, estava com a estrutura melhor. O caçula já tinha evoluído muito. Foi 1990, foi logo que meu marido... Foi 1992, 1993. Hoje acho que está quase... Entre funcionários... Nós temos muita gente que trabalha terceiro, parte de segurança, parte de limpeza, tem mestre de obras, tem eletricista, tem pedreiro. Nem sei quanta gente, acho que dá quase 400 funcionários.

COMÉRCIO EM SOUSAS
Passados uns anos, nós inauguramos outro supermercado. Fica na Suleste. Depois começamos a pensar em Sousas porque em Sousas não tinha ninguém. Começaram a falar pra ele – o João Carlos ia muito pra Sousas – e começaram a falar pra ele, porque ele faz muita amizade, porque não iria montar um comércio em Sousas, aquela coisa toda. Essa conversa ficou quase um ano. Ele ficou amigo de um médico que disse que queria construir uma loja pra nós. Nossa, eu ficava assim: “Ai meu Deus, mais uma loja” E construiu uma loja maravilhosa pra nós lá em Sousas. Nós abrimos e estamos muito bem. Agora, o dono do prédio comprou outro terreno, outra parte grande, construiu, e nós vamos inaugurar até o final do ano. A outra parte, que abre toda a loja, ela fica bem maior, bem mais bonita. Vai ampliar, vai modernizar. Os móveis já estão comprados, os balcões. Vai ficar muito bonita. Além disso, nós crescemos muito, nós fizemos um prédio atrás, na mesma loja de São Vicente, elas são alugadas, o prédio mesmo é salão de São Vicente. Onde eu comecei. Ali nós fizemos um prédio de três andares e compramos todo o redor, as casinhas. Só que nós fizemos cada negócio para os moradores de lá que você não acredita. Nós demos uma casa maravilhosa em Valinhos, pra uma – agora ela é minha amiga, nós saímos juntas às vezes – casa muito maravilhosa em Valinhos. Demos um sobradinho pra outro cliente. Tinha outra, que era uma mulher que era como uma irmã minha, ela era muito... Ela me ajudou em tudo ali. Quando meu filho foi vereador, eu não tinha noção, ela me ajudou, me preparou. Porque era uma coisa. Como que poderia ver um filho meu vereador? Eu ficava preocupada com aquilo, ela me ajudou muito. Só que ela morava em uma casa que – ela pagou aluguel muito tempo – fala usucapião. Meu filho mais velho foi até o dono, negociou, resolveu, pagou uma parte, não sei lá como foi. Mas ela tem um big de um casarão lá no bairro. Faz tempo isso. Todos e mais alguns inquilinos que tiveram a oportunidade de ter o que é deles foi muito bom, muito caprichado. Nós sempre quisemos fazer o melhor.

DESAFIOS
O maior desafio foi quando veio o Carrefour na minha porta. Eu chorava à noite. Eu olhava a minha loja parecia que não tinha ninguém, eu ficava doente. No outro dia eu ia trabalhar. Porque eu fui uma pessoa que mais quis ficar lá. A família queria se mudar, eu muito preocupada. E eu naquela paixão com os clientes, pelo bairro, por aquela lojinha. Aquela coisa de fazer acontecer. Eu quis ficar lá. Eu sofri muito. Ali foi pesado. Eu acho que foi muito atendimento. Carisma. Procurar sempre o melhor para o cliente: “O que você tem? O que você não tem?” E buscar, levar na casa: “Amanhã vou te entregar.” Fazer assim, o que se podia e o que não se podia para o cliente. E eu era muito enérgica com limpeza, eu lavava aquilo, eu limpava, eu encerava. Você não acredita no que eu fazia. Eu gostava muito. E depois meus filhos, que eu não faço nada sozinha, eu ia junto com eles. Eles são muito trabalhadores, muito honestos. Para nós não tinha hora. Mesmo quando meu marido... Antes dele falecer, ele ficava. No final de semana tinha um barracão lá que tinha baile. Como não tinha nada no bairro, o pessoal ficava todo lá, ia todo ali. Ele amanhecia lá. De manhã, ele vinha dormir e eu entrava. Ajudou bastante também. Vendia bebida, salgadinho, essas coisas. O pessoal ia dançar, ia beber.

FUNCIONÁRIOS
Eu naquele tempo gostava só de trabalhar com as meninas. Me sentia bem com aquela moçada comigo. Aquele tempo ainda tinha uma menina que mora no bairro, tem uma família maravilhosa. Ela juntava os sacos de arroz. Eu tinha uma que era açougueira e a outra que fatiava a carne. Mas ela desossava boi, mesmo. Ela está numa rede no Rio de Janeiro, uma rede muito famosa. Cada vez que ela vem, ela fala que vai ver a mãe dela que sou eu, e faz uma festa. E não deixa de vir me ver. E meus funcionários, hoje têm mercado de trabalho. Eu ensinava. Eu era enérgica, mas nós éramos todos amigos. Eu gostava de trabalhar com elas, não tinha dificuldade. Mas depois começou a evoluir muito. Aí eu vi que já não dava mais. Essa moça foi fiscal de caixa, foi mudando. Até que depois ela casou, foi cuidar da vida dela, foi para o Rio de Janeiro. Cada um foi e vieram outros. Mas começou tudo mais prático, mais fácil.

MODERNIZAÇÃO
Naquele tempo servia no balcão, pesava e servia. Depois começou a modernizar. Depois eu comecei a colocar... Minha lojinha, minha mercearia era assim, tudo nas prateleiras direitinho. O cliente entrava lá, pegava. Já começou a melhorar muito. Já havia os açougueiros, depois, bem para frente já começou a vir carne embalada, Mas eu tenho ainda hoje o balcão que fatia bife. Porque o cliente é muito fiel a carne fatiada na hora. Ele chega, nós temos peças. Balcão muito grande, tudo na bandeja, fatiadinho na hora. Nós temos fregueses de vários tipos: um quer de um jeito; outro quer de outro. Deixamos a vontade do cliente. Ele escolhe o que ele quer. Houve muita modernização. Nós colocamos código de barras. Fomos pioneiros ali no bairro. Inclusive a rede grande não tinha e nós implantamos. E depois nós fomos modificando muito os balcões, reforma de loja, carrinho, estacionamento, treinamento para os funcionários. Nós temos o pessoal do RH [Recursos Humanos]. Tem a pessoa especializada em treinamento. Ou é ela mesma ou vem de fora. Nós temos a sala, acabou de entrar já providencia vale-transporte, uniforme, faz a entrevista. Primeiro ela entra, ela conhece toda a loja, lá na matriz. Depois ela faz a triagem, tudo direitinho, depois ela vai para o treinamento, depois ela vai para loja. Se é das outras lojas, chegando lá, vai a moça do RH, ela apresenta para o gerente e ela e o gerente acompanham na loja toda, vê todo os setores, conhece toda a loja, os funcionários da loja. Ela entra já mais a vontade; não entra muito constrangida. Cada setor tem uma recomendação: o açougue é fazer como o cliente quer; se ele quer a carne mais fina, ele tem o direito de escolher; se ele quer que tire uma gordura da carne, então tira. Ele é o cliente, ele precisa ser atendido do jeito que ele quer. O açougue é isso. Não gostamos de fila. Os frios, tanto temos para fatiar na hora, como o frio fatiado. Como o açougue, também tem. Daí: “Ah, essa mortadela é boa?” “Ah, se a senhora quiser experimentar.” Dá uma fatia, ela experimenta. A padaria é um detalhe, eles tem que estar sempre atentos; a gente vai assando o pão, coloca ali direitinho, mas sempre vai acabando. Já vai chegando os clientes, sem perceber, “Dona, já está saindo o pão quentinho, a senhora quer o pão?” Aquele atendimento mais vip para as pessoas. A mercearia é diferente. Na mercearia ele não tem muito contato com o povo. Mas, a mercearia é assim, você sabe que você entra na loja e, às vezes, encontra dificuldade pra achar uma mercadoria. Vai até o repositor e o repositor não pode falar, apontar o dedo, “está lá”. Ele tem que acompanhar o cliente, ir ao setor e mostrar a mercadoria. E o hortifruti é outro treinamento. Ele deve estar atento se a mercadoria está boa, se a mercadoria está fresquinha. Ele perceber ali o cliente. Às vezes, o cliente tem dificuldade para escolher uma fruta, ele não sabe o nome, não vê direito o preço. Ele que está atento ali pra falar com o cliente. E o caixa é onde o cliente acaba ficando mais nervoso, agitado, ali. “Ah, vai ter que por no carrinho, vai ter que pagar, levar.” Fazer compra é complicado pra mulher de hoje em dia, que é muito corrido, ali sempre tem as meninas, tem os pacoteiros. Estão sempre ali, têm fiscais, tem a moça de frente de caixa que é a responsável. Todos estão sempre por ali, auxiliando, atendendo. Nós tentamos fazer assim. Nós temos um papel, um papelzinho que fica dentro de uma urna, para os clientes falarem com a família Galassi. Eles escrevem que eles querem melhorias, do que ele gostou, não gostou, se queria outra mercadoria, se foi bem atendido, se não foi. Uma vez por semana, meu filho lê tudo e passa para o gerente, encarregado, comprador. Depende do que acontece.

ORGANIZAÇÃO
As compras já estão tudo certinho, cada mercadoria no seu lugar. Já vem certo. A mercadoria chega é só colocar certinho. Às vezes, se quiser uma mudança, “ah, vou fazer uma pilha”, uma coisa diferente, tem a pessoa certa que vai lá com o gerente e monta direitinho. Tem o comprador, o gerente de compras. “Negociou uma mercadoria com preço melhor.” Vai fazer a conta disso, daquilo. As pessoas, a ação, que é o cara do marketing também, que ajuda a ver as faixas, os cartazes.

PROMOÇÕES
Hoje em dia a promoção funciona muito bem. Liquidações, nós não temos muito, não somos magazine, forte, pra falar: “Vou liquidar uma geladeira, uma roupa, isso aqui.” Nós somos um mercado muito de alimento. Fazemos os preços e vendemos. Às vezes, colocamos... Tem um leite aqui, tem pouco já vou queimar; ou um arroz. Nós trabalhamos muito assim, também. Nós temos o jornalzinho direto na loja. Nós soltamos um jornal no domingo à noite. No domingo à noite que vai até terça-feira à noite, que é o cestão. Sempre tem uma carne junto, ovos, um leite, um pão; produtos de mercearia junto com hortifruti. O nosso hortifruti é muito bom, inclusive é um dos meus filhos que compra os produtos. É o meu terceiro filho, faz muitos anos que ele faz as compras. Agora tem os caminhões, tem os funcionários, mas ele não deixa de ir junto. Ele vai porque ele escolhe a mercadoria à vontade. Quarta-feira termina essa promoção. Quando é quinta-feira sai outra promoção, até quinta ou sexta têm a promoção da loja, os cartazes. Que é carne, bebida, lingüiça, todas essas coisas, que são para o final de semana. O folheto é mais forte. E tem o folheto de fim de mês também, com as compras. Nós trabalhamos também bastante com promoção.

CLIENTES
Os meus clientes da loja do Jardim São Vicente são bastante fieis. Nas outras lojas, como nós ensinamos e demos muito treinamento, eles fizeram toda a freguesia. Já tem a freguesia lá, que a fiscal já conhece, a pacoteira. Tem todo um trabalho bonito, que você chega lá e fica admirada. A freguesa, às vezes, tem algum probleminha, mas nada de mais, eles atendem muito bem, graças a Deus. Pelo menos eu não tenho reclamação.

FORMAS DE PAGAMENTO
No bairro, nós ficamos conhecidos. Eram sacos de alimentos e vendíamos na caderneta pra aqueles clientes. Vendia, recebia direitinho, muito gostoso, não tinha problema, não tinha nada, só que depois foi evoluindo. Depois veio o convênio, veio o ticket, veio o cartão, vieram as firmas que faziam boletos. Até hoje, tanto jeito de pagamento À vista, também. Hoje eu vendo bem à vista. Hoje tem muitos cartões, convênios. Eu pego cheque pré-datado também. Para 40 dias, já está tudo certinho. O ano inteiro, os clientes já sabem. Inadimplência, não vou dizer que não tem, sempre tem. Nós trabalhamos diferente com o cliente. Você pode pegar o cheque, mandar para o banco, porque é calçado o cheque, nós não ficamos com nada, tudo vai direto para o banco. Fica lá. Primeiro nós trabalhamos assim, o banco colocava o cheque e reapresentava o cheque. Quando nós ligávamos para o cliente, o cliente falava: “Poxa, já reapresentou, atrapalhou minha conta e tal.” Começou a ficar uma coisa meio chata. Conversamos com o pessoal do banco. Agora faz assim: nós temos uma menina que cuida disso, o cheque vai para o banco, fica lá. No dia, ele é apresentado, no fim do mês, depende das datas. Só que se voltar um cheque, o banco não reapresenta mais, nós não autorizamos. E nessa volta do cheque vem direto para o nosso comércio. E lá tem uma menina que liga para os clientes. Muito educadamente, fala que deu problema com o cheque, que ele voltou. Qual o dia que poderíamos colocar o cheque? Alguns falam, “tal dia você pode depositar” e outros falam, “ah, não dá para eu te pagar aí?” Muito pouco, mas nós acertamos lá, sem problemas.

PROPAGANDA
Já fiz muita propaganda. Fiz televisão, fiz jornal, fiz rádios. Geralmente, é mais com o jornalzinho. A publicidade sempre é boa. Depende da sua estrutura para pagar uma televisão, para pagar outra coisa. Sempre nós fazemos alguma coisa, diferente. E às vezes nós paramos. Naquele tempo não se estruturava muito em televisão. Depois, pra frente, colocamos várias vezes. Conforme ia dando certo.

LIDERANÇA
Eu visito as lojas diariamente. E, falar que eu fico muitas horas aqui, não Porque nós temos uma equipe muito boa, que são os gerentes, minha família. Mas eu visito as lojas sim, até porque se eu não for, os funcionários começam a reclamar: “Ah, dona Angelina, a senhora sumiu, a senhora faz falta.” Porque eu sou muito amiga deles. Até às vezes eu brinco: “Oh, cuida disso daí, heim Que a mãe aqui fica muito brava. Cuidado com o pessoal.” “Ah, dona, pode deixar, já vou arrumar, já vou guardar.” Sabe essas coisas de limpeza? Que eu sou muito... Pego no pé. Eu não posso mais ficar muito no turno. Eu tenho minha vida agora, tenho que cuidar da minha saúde. Tenho neto, tenho bisneto.

FAMÍLIA
Meus filhos casaram e só tem um solteiro. Tenho uma neta que acabou tendo quatro nenês, porque teve dois gêmeos, duas meninas gêmeas. Eu sou avó de quatro bisnetos e tem um do mais velho, um meninão grandão, também muito bom. E agora tem um pequenininho, do caçula, é um amor de menininho. Esse que eu estou curtindo mais agora. Todos trabalham. As mulheres também, minhas noras trabalham. Elas trabalham em outras áreas. São professoras, outra trabalha em uma multinacional. Outra cuida da casa, dos pagamentos do marido, que ela quer para fora. Todas trabalham, me dou muito bem, não me dão trabalho. Fico muito feliz com isso tudo, não tenho problemas.

SUCESSO
Segredo do sucesso? (risos) Acho que é o trabalho, a dedicação, o amor. Ter essa família, gostando do comércio. Muito trabalhadeira, não tem vício em nada. Porque você precisa ter paz pra trabalhar. Se você não tiver paz, amor no coração, fé em Deus, acho que nada vai para frente. É complicado. Tem que pensar nisso.

FUTURO
Agora está na minha família. Mas cada vez nós pensamos em melhorar sempre mais para o cliente. Talvez aumentar uma loja. E ir tocando, fazendo o melhor que se pode. Ir reformando, arrumando, fazendo o melhor para os funcionários. Já estão com alimentação, já estão com convênio médico. Duas lojas, agora falta a outra de alimentação. Alimentação que eu falo é tipo comida. Eles tomam café, pão, leite manteiga de manhã, à tarde tem tudo. Nós fazemos a comida e eles comem mesmo no lugar. Estamos começando agora. Pensar um pouco no funcionário também. Porque o funcionário, se não for ele, como é que tocamos? Nós valorizamos muito, damos muita atenção. Essa semana eu estava falando: “Graças a Deus, como nossos funcionários antigos estão melhorando de vida.” Porque há um tempo, quando eu comecei, se um pintava um quarto vinha falar para mim. Eu lembro até hoje Agora não dá mais pra entrar na vida deles. Mas sempre nós sabemos: “Fulano comprou um carro; o outro está construindo uma casa; o outro está com os filhos fora estudando.” Nós ficamos muito felizes.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Hoje está ótimo, muito bom Campinas está ficando maravilhosa. Só que tem muito concorrente. Você vê está abrindo mercado Nós temos que continuar, porque se você for correr, sair daqui para ir lá, você vai ficar a vida toda. Porque todo lugar está abrindo comércio, abrindo mercado, abrindo lojas. Então não tem por onde ficar indo. Onde eu tinha minha primeira loja, está lá. Agora nós reformamos toda a loja. Está bonita a loja. Graças a Deus, conseguimos dar outra cara na loja.

LIÇÕES DO COMÉRCIO
A lição para mim foi muito boa. Eu gosto, sou apaixonada, se pudesse começar de novo começaria. Mas foi uma lição muito boa, porque eu criei uma família maravilhosa, que não dá trabalho, estão todos lá trabalhando. Não querem mais que eu trabalhe. Foi uma lição muito boa. Foi duro criar eles aonde eu criei, num bairro, sem estrutura pra nada. Mas meu marido era muito bravo, ficava em cima, não deixava criança... Tinha que estudar, tinha que trabalhar. Foi uma lição muito boa.

MEMÓRIA DO COMÉRCIO DE CAMPINAS
Eu acho maravilhoso, vocês me chamarem Eu sempre fui uma mulher de trabalhar muito, eu não dou entrevista, eu não falo em público, nada. Só falo muito com os funcionários. Eu estava meio ansiosa, meus filhos: “Mãe, imagine, vai sim, gostoso, você vai conversar lá.” Eu digo: “Eu vou sim”

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