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História

Superando as dificuldades

História de: Dircia Felisbina de Jesus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/07/2003

Sinopse

Dircia passou por muitas coisas em sua vida: da infância feliz em Minas Gerais à dispersão da família em Goiás; a vinda sem a família para São Paulo; o casamento e a posterior separação. Mesmo assim, superou as dificuldades e se considera uma pessoa feliz.

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História completa

P/1 - Bem-vinda.

 

P/2 - Olívia.

 

R - Dircia.

 

P/2 – A entrevistada de hoje é a Senhora Dircia. Por gentileza, Dona Dircia, o seu nome completo.

 

R - Meu nome é Dircia Felisbina de Jesus. Local de nascimento: Dores do Indaiá, Minas Gerais.

 

P/2 - E a sua data de nascimento?

 

R - É 4/1/32.

 

P/2 - Dona Dircia, seus pais também eram naturais de Dores do Indaiá?

 

R - Não, meu pai e minha mãe nasceram na Cava, que era uma fazenda onde a gente até uma certa idade viveu. Depois passamos a Dores do Indaiá e aos treze anos eu mudei para Goiás, que foi para Ceres.

 

P/2 - Certo! Dona Dircia, por gentileza, diga os nomes de seu pai e de sua mãe.

 

R - Meu pai chama-se Pedro Pinto Fiusa e minha mãe se chama Margarida Pinto do Camargo.

 

P/2 - E seus avós paternos, quais são os nomes deles?

 

R - Emília Elias Fiusa e minha avó... Esqueci.

 

P/2 - E os avós maternos?

 

R - Maternos, [se] chamam Maria Felismina de Jesus e Rodolfo... O sobrenome eu não me lembro.

 

P/2 - E seus avós, eram naturais de onde?

 

R - Eles são descendentes de português, os maternos, e os paternos, de italiano. Mas os meus avós já eram brasileiros.

 

P/2 - E seus pais? A senhora já disse a cidade, a cidadezinha da fazenda que a Senhora disse...

 

R – Cava.

 

P/2 - É um lugarejo próximo?

 

R - É próximo a Dores e Dores também é próxima a Belo Horizonte.

 

P/2 - Esse local, essa fazenda, pertencia a seus avós?

 

R - Meus avós maternos eram proprietários dessa Fazenda Cava.

 

P/2 - E que tipo de atividade se fazia lá? Era agricultura, era gado? A senhora se lembra?

 

R - Tinha mais gado e tinha muita plantação, mas não me lembro bem de arroz, dessas coisas… Eu me lembro muito de hortas, moinho, monjolo Essas coisas que nunca mais eu vi (risos).

 

P/2 - Me diga uma coisa, D. Dircia. Quantos irmãos e irmãs a senhora tem?

 

R - Irmãs mulheres, cinco; homens, dois.

 

P/2 - Pela ordem, os nomes deles... A senhora se lembra, dos [nomes dos] irmãos?

 

R - Lembro... A minha irmã mais velha é Maria, a segunda é Genoína, a terceira é Gesa, o quarto, José, a quinta, Ana; a sexta, Dircia... Sétima não, eu pulei uma: Maria Luíza, Orquisa e Paulo.

 

P/2 - Certo! D. Dircia, a sua casa em Dores do Indaiá… Como era a sua casa na sua infância, quando a senhora era menina? Descreva um pouquinho pra nós, como era?

 

R - Como não poderia ser de outro jeito, a fazenda era até modelo. Tinha um andar naquela época, mas a casa era de sapê, com barro como a do Grito do Ipiranga aqui em São Paulo... Era uma casa comum, que tinha tudo da época. Quando a gente foi para Dores a gente já tinha uma casa com fogão de lenha... Essas coisas, geladeira, na nossa época não existiam mesmo. Era uma casa normal.

 

P/2 - Voltando um pouquinho em casa. Essa casa, quando a senhora era menina na fazenda, ela era grande, tinha muitos cômodos, era espaçosa? Conte pra gente um pouquinho.

 

R - Era grande… Quanto aos cômodos eu não me lembro, mas era uma casa grande. A gente tinha aqueles fornos de assar pães, aquelas coisas gostosas de Minas Gerais que todo mundo sabe, com muita fartura. Nós tínhamos, plantação de... Fazíamos o polvilho, fazíamos a farinha, tinha o munjolo para cozer a farinha de milho. Fazia-se o fubá no moinho que eu disse, a horta [era] muito bonita.

Eu lembro bem de meu avô Elias. Ele era muito simpático, de olhos azuis. [Era] muito gostoso, punha a gente no colo e brincava, essa lembrança eu tenho muita! E minha avó, que eu tinha esquecido, é Luíza, a mulher do Elias.

 

P/2 - Certo... Até quantos anos a senhora morou na fazenda, em Cava?

 

R - Ah! Eu fui [embora] pequena. Com uns oito anos, por aí, eu já saí.

 

P/1 - Já foi pra Dores. A vida era gostosa, a da casa? Você gostava da casa?

 

R - Ah! Eu adorava! Era uma época muito gostosa, sabe, porque era muito saudável, tudo muito puro, tudo com muita fartura, não tinha essas malícias que tem hoje. Uma vida muito saudável! Com meus primos, que eram tudo família. Eu não vou me lembrar de todos porque é uma família bem grande, mas tem alguns primos que moram em Ermelino Matarazzo que eram da Cava também.

 

P/2 - Ah, sim, eles ainda são vivos.

 

R - São vivos, sim, em Ermelino Matarazzo.

 

P/1 - Você se lembra daquela época, quando nessa vida de fazenda, das donas da casa, do seu avô, do pai… Geralmente esse pessoal de fazenda é mais autoritário. Existia aquela coisa de a mãe só fazer aquelas coisas de casa ou tomava alguma atitude, ou tinha alguma outra atividade? Eram divididas as tarefas ou era tudo...?

 

R - A mulher… Era todo da mulher o serviço doméstico, da minha mãe. Era muito pequena, mas me lembro e o meu pai, do lado da lavoura, porque tinha muita fruta... O que eu mais me lembro, engraçado, é do gado e das hortas. Hortaliça, era muito bonito: repolho naquela época, imagina? Do moinho, que era o único que eu vi. Do monjolo [em] que a gente fazia a canjica, fazia a farinha de milho, tudo na fazenda da Cava. Tinha também uma coisa, que hoje se chama creme de leite. (risos) Nós, na fazenda, desnatávamos o leite, as latas grandes iam para a cidade grande e a gente ficava com o resto; dava para os porcos, dava pros animais.

 

P/2 - E qual era o nome, então? Se hoje é creme de leite, qual...?

 

R - Pois é, era creme de leite, só que hoje chama creme de leite! A gente mandava pras cidades grandes, os latões grandes...

 

P/2 - Isso era vendido?

 

R - Vendido, vendido.

 

P/2 - Me diz uma coisa: a senhora falou bastante sobre os primos, não é? Lá em Cava, como eram as brincadeiras com seus irmãos, com seus primos? Do que vocês brincavam?

 

R - Uma delícia. Brincava de roda, cobra-cega... (risos) As brincadeiras da época que a gente tinha. Era muito saudável. [Brincava] Muito de casinha, principalmente meu avô, que fazia mais, meu pai era mais bravo. E as primas do meu... Como que é? Do meu… Depois eu falo. Ele fazia a casinha que você cozinhava de verdade, entrava na casinha pra cozinhar. E a minha prima de Ermelino tem as panelinhas de ferro até hoje. A gente entrava dentro da casa e fazia as comidinhas nossas.

 

P/2 - Vocês tinham aquela coisa de subir em árvore, banho de rio?

 

R - Ah! Muito, muito! E tinha o córrego! Esse monjolo que estou dizendo, esse moinho, era movido a água. Era uma beleza!

 

P/2 - Saudade?

 

R - Muita, muita saudade!

 

P/2 - A senhora estava nos dizendo que a sua mãe era toda dedicada às atividades domésticas e no caso de vocês, era uma família grande. Os filhos tinham alguma atribuição, alguma responsabilidade nos afazeres da casa, como ajudar a mãe, ajudar o pai? Como era a divisão das tarefas entre os irmãos?

 

R - O meu pai era meio bravo, mas minha mãe não. Inclusive com a minha mãe, ele era bravo também. Todo mundo trabalhava, não tinha esse negócio de ser criança e não fazer. Uma levava comida no campo para quem estava trabalhando - éramos pequenas. E as maiores faziam bolo, lavavam roupa, faziam a mesma coisa que todo mundo faz hoje - com muita fartura, com muita saudade, mas tudo obedecendo rigorosamente aos meus pais.

 

P/2 - Isso, no caso de suas irmãs. E os irmãos, faziam o que?

 

R - A mesma coisa, não tinha diferença! Nós éramos iguais para os meus pais.

 

P/2 - A senhora me disse também que, por volta dos seus oito anos, veio para Dores do Indaiá. Como era essa cidade?

 

R - Era uma cidade bem pequena; até hoje é pequena. Eu já voltei lá. É uma cidade pequena, mas é aquela coisa de interior mesmo. Criança não tinha muito que fazer, ir à escola... Mas a gente não deixava de trabalhar. Não era como hoje, que criança não pode trabalhar, nós não tínhamos isso. Todo mundo trabalhava. Ou ia para a fazenda de outras tias na região - tudo a cavalo, não tinha esse negócio de automóvel, não tinha nada. Era coisa de Minas, de mineiros mesmo, todo mundo era igual. Quando não ficava na nossa fazenda, a gente ia para as fazendas dos vizinhos, visitá-los.

 

P/2 - Como era a sua casa em Dores do Indaiá, em Minas Gerais?

 

R - Aí já era uma casa como todas hoje são - uma casa simples, de alvenaria, mas era tudo direitinho. A única diferença era o telhado, que era [de] sapê.

 

P/2 - A divisão da casa, como era lá em Dores?

 

R - A divisão da casa de Dores eu me lembro muito bem. Mas eu nunca me esqueci do forno de assar bolo que tinha dentro da cozinha. Não precisava, o forno era no quintal, pra fora, mas aqui dentro você pegava e colocava as coisas para assar.

 

P/2 - E você gostava de ajudar?

 

R - Ah, sempre!

 

P/2 - Eram umas quituteiras, já?

 

R - Já era, por incrível que pareça sou até hoje!

 

P/2 - Gosta de cozinhar?

 

R - Agora não, porque a gente sozinha não tem nem muito que fazer, mas sempre fui boa… Engraçado, tem uma coisa que eu… Por isso que eu digo: quem é nasce feito porque eu já gostava de ajudar minha mãe, minhas irmãs, todo mundo. Mas saía briga também, saía briga de irmãs. (risos) Meus irmãos homens, o mais velho, às vezes até judiavam de mim.

 

P/1 - Ficavam enciumados?

 

R - Não, não era enciumado, era temperamento mesmo, assim de… A gente tinha muita criação, de carneiro, de cabrito, de vaca, então a gente lidava com porcos, a gente lidava com tudo aquilo, coisas de Minas mesmo, e era muito gostoso.

 

P/1 - Quer dizer, são recordações boas.

 

R - Recordações boas! Quando as minhas primeiras irmãs casaram não existia dinheiro, era muito pouco dinheiro que existia. Era: “Você precisa? Vai lá na minha fazenda”. Tanto é que as minhas três irmãs… Duas irmãs se casaram [e] a gente foi lá pra outra fazenda fazer doce, semanas a gente ficava. Eu me lembro disso, pra fazer os doces pra festa. Era coisa simples, mas com muita fartura. Tudo muito gostoso. O doce de leite eu tenho saudade até hoje.

 

P/1 - Me diga uma coisa, Dircia. Pelo que você está nos contando, parece que a sua infância sempre foi bastante agradável. Quais os momentos mais marcantes da sua família? Quando a família se reunia, como era? Em que momentos vocês se reuniam, o que foi mais marcante na sua vida?

 

R - Naquela época não existia esse negócio de Natal, Dia dos Pais, Dia das Mães, esse negócio que hoje existe, mas eu lembro bem Sexta-Feira da Paixão. A gente fazia jejum - de verdade, não comia nada, hein? A gente ia pro campo e se pegava uma frutinha daquelas que podia comer já quebrava o jejum! Isso me marcou bastante, eu tenho uma boa lembrança disso! E também de enfeitar - hoje como se usa enfeitar com serra, a gente [usava] era flor natural do campo, enfeitava o nosso habitar em volta da casa. Era bem rigoroso, naquela época...

 

P/2 - Era uma comemoração diferente.

 

R - Era diferente. E hoje eles fazem com serra, com essas coisas.

 

P/2 - E era mesmo na semana Santa, na Sexta-feira da Paixão?

 

R - É, na Semana Santa!

 

P/2 - Vocês enfeitavam a casa porque passava procissão para comemoração?

 

R - Não, nada, era nosso mesmo. Cada família fazia na sua casa.

 

P/1 - E a rua? Também...

 

R - Não existia rua, isso na Cava. Na cidade tem rua, tem cartório, tem tudo que uma cidade tem.

 

P/2 - Na época da Semana Santa, Sexta-feira da Paixão, se enfeitavam as ruas, para os cortejos religiosos passarem?

 

R – Sim. Também uma coisa que marca muito - essa dizem, é falada até hoje, que foi muito forte em Minas - é a Folia de Reis. O mineiro é bem conservador, eu acho que existe ainda e era bastante… Tinha palhaço e a gente ficava morrendo de medo!

 

P/2 - E visitavam sua casa?

 

R - Visitava, todas as casas! São as coisas que mais me marcaram na infância.

 

P/2 - Eles faziam essas festas e eram recebidos pelos fazendeiros com muita alegria.

 

R – É, era assim: passavam nas casas e tinha determinados dias para voltar nas casas, para ser concluída com uma grande festa. E se matava boi, porco, era uma fartura muito grande.

 

P/2 - Quando acontecia isso, em que época do ano?

 

R - Seis de janeiro, Dia dos Reis. A folia [se] chama Dia dos Reis.

 

P/2 - Quer dizer que você e seus irmãos tinham medo da...

 

R - Não, eu não lembro. Eles, não me lembro não, eu tinha muito medo do palhaço, mesmo.

 

P/1 - Porque eles vinham fantasiados!

 

R - Fantasiados de palhaço mesmo.

 

P/2 - Escuta, Dircia: onde ficava sua casa, na cidade de Dores do Indaiá? Descreva um pouquinho para nós onde ela ficava. Numa praça próxima da igreja, próxima do cartório, era um bairro mais afastado?

 

R - Não, não era muito afastado. A gente ficava mais ou menos… Eu estou memorizando lá, pra ver se eu lembro. [Era] mais perto de uma igreja, que não é a igreja central. Era uma igreja, mas o bairro eu não me lembro.

 

P/2 - E que igreja era essa? Era católica?

 

R - Católica. Eu não conheci outra igreja na minha infância, só católica.

 

P/2 - E se lembra do santo padroeiro dessa igreja?

 

R - Não, não me lembro.

 

P/1 - Nem tem devoção por um em especial?

 

R - Não, não tenho.

 

P/2 - Mas a sua religião é católica?

 

R – Católica, eu creio em Jesus Cristo.

 

P/2 - A sua casa lá em Dores do Indaiá, você gostava da casa?

 

R - Ah, era! Era muito gostoso lá. Só que era aquela coisa: fogão a lenha, forno para assar bolo feito de barro, que vocês acho que já viram o modelinho que tem por aí. É cultura quase, uma coisa normal. Não me lembro dos quartos, sala, cozinha, mas uma área sempre teve, em todas as casas.

 

P/2 - E ali na área, você brincava?

 

R - Ah! A gente brincava porque não existia televisão, não tinha rádio, não existia nada disso naquela época. Carro era um ou outro que podia ter, mas era uma festa quando chegava na cidade! Porque não existia isso.

 

P/2 - Qual era, então, o meio de transporte daquela época?

 

R - O cavalo!

 

P/2 - E quem não andava a cavalo?

 

R - A pé!

 

P/2 - Tinha charrete também, carroça, essas coisas?

 

R - Se era de uma fazenda pra outra, não. Na cidade até podia ter charrete. Era montaria, mesmo. Quem não montava ia a pé!

 

P/1 - E você, fazia seus passeios ou as suas idas e vindas, em criança, a cavalo? Para ir para a escola, por exemplo?

 

R - Fazia, eu era muito brava! Eu montava a cavalo sem montaria, eu era bem esperta na época. Mas era muito gostoso! Coisa que não volta mais! Às vezes eu conto pra minha filha e ela fala: “Ah, mãe! Do jeito que a senhora conta não volta mais não!” Não volta porque era muito saudável, não tinha essas malícias que tem hoje, no mundo... Muito gostoso!

 

P/2 - Dircia, me diga uma coisa: qual era a atividade dos seus pais, o que eles faziam para viver?

 

R - Era lavoura mesmo, porcos, que engordavam pra mandar pros açougues da cidade, leite, porque não corria dinheiro, não corria! Alguma colheita, porque não se vendia nada a não ser isto. Fruta todo mundo tinha. O que eu me lembro do meu pai vender são essas duas coisas. Ah! A farinha de mandioca, que a própria casa fabricava; tinha os materiais de fazer, tudo próprio.

 

P/2 - Isso seria seu pai e sua mãe, ou só seu pai se dedicava a esse tipo de coisa?

 

R - Não! Todos nós trabalhávamos, levantávamos de madrugada!

 

P/2 - Além dos afazeres domésticos ainda ela ajudava?

 

R - Lá na casa todo mundo trabalhava.

 

P/2 - Quer dizer que o cotidiano da família era isso?

 

R - Era esse. Nos domingos, no fim de semana. Depois foi casando filha, sempre a gente ia na casa das minhas irmãs, que moravam longe, em outras fazendas, nunca perto. Mas era essa vida de mineiro mesmo!

 

P/2 - E dava tempo, mesmo com essas atividades, de brincar?

 

R - Dava! Não muito. Meu pai era meio brabo, mas a gente brincava nas árvores, subir árvore, descer árvore. Como eu disse pra vocês, eu brincava de cobra-cega, de roda. Roda era fantástico! Agora, na terceira idade, eu vou a eventos que [tem] brinquedo de roda. Só que da Europa, mas não deixa de ser nosso.

 

P/2 - Certo! E me diz uma coisa: dentro da sua casa, na sua família, quem é que tinha mais autoridade, o pai ou a mãe?

 

R - Meu pai!

 

P/2 - Ele era mais temido?

 

R - Bravo. Eu apanhei muitas vezes, não só eu como os outros. (risos)

 

P/2 - Ele era daqueles pais que botavam de castigo?

 

R - Não, castigo eu não lembro muito, mas apanhava bastante. (risos)

 

P/2 - Isso era quando vocês faziam alguma arte?

 

R - Eu nem sei se era arte, nem sei se no dia de hoje aquilo era arte! Não era uma coisa que agradava a ele. A gente apanhava mesmo. Mas com isso eu tenho saudade!

 

P/1 - Era uma linha-dura, mas que deixa saudades.

 

R - Linha dura, o meu pai. A minha mãe não era. Minha mãe tinha também receio do meu pai. Ela também, se brigava, entrava na dança! (risos) Eu nunca vi, mas teve parente que me contou que ele era bravo com a minha mãe também.

 

P/2 - Certo. Então descreva um pouquinho o seu pai e a sua mãe. Seu pai era...

 

R - Meu pai era… A mãe desses meus primos de Ermelino é irmã de meu pai, e o pai deles é primo de meu pai. Olha mineiro como é, é tudo assim uma família! Meu pai era um homem muito saudável, alto, muito trabalhador. Apesar de bravo, muito trabalhador, um homem correto e que fazia também que nós o seguíssemos. A minha mãe era uma mulher mais doce, mais submissa a ele. Como [era] na época mesmo.

 

P/2 - Certo! Então, entre o pai e a mãe, a senhora era mais próxima de quem?

 

R - Por incrível que pareça, era do meu pai. (risos) Porque ele é que me levava para as fazendas, ele me levava pra onde ia, e eu ficava mais com meu pai que com minha mãe. Eu sinto saudades!

 

P/2 - Como você descreveria seus irmãos e como era a relação deles com você?

 

R - Quando criança foi tudo maravilhoso, mas depois que cresce dá as suas encrencas! (risos). Não foi uma coisa horrorosa, não.

 

P/2 - Tinha alguma irmã ou irmão que você tinha mais afinidade?

 

R - Tem, até hoje! Minha irmã caçula, que se chama Orquisa, meu irmão Paulo, que já é falecido, são os dois que eu mais tinha intimidade. Com os outros é normal. O que mais tinha afinidade - tinha porque é falecido e a outra tenho porque ainda é viva.

 

P/2 - E quais as atividades incentivadas pela família? Você coloca muito essa questão de trabalho e me parece que seus pais incentivavam muito isso. E um outro tipo de atividade, por exemplo, ir à igreja?

 

R - A gente ia à igreja. Eu fiz a Primeira Comunhão, coroamos Nossa Senhora, com asinha de pena, coroinha de pena, vestida de rosa, aquela coisa mesmo... De anjinho! Eu coroei Nossa Senhora: era o altar, a escadinha e ia [com] a coroa. Todo dia duas coroavam [e] voltavam pra baixo. Foi lindo, só que a gente não [tem] registro, a não ser a memória.

 

P/2 - Você estava crescendo. Como foi essa entrada sua na escola? Seus pais lhe matricularam numa escola próxima da casa, como era?

 

R - Na fazenda era professora contratada pras fazendas. A gente aprendeu assim, [se] alfabetizou assim.

 

P/2 - E aí juntavam você, seus irmãos, mais os primos...

 

R - Não. Cada casa contratava o seu professor. Não digo nem que era um professor, era uma pessoa alfabetizada. Tanto é que meu nome é errado porque um juiz errou, no cartório errou, que é parente. Por que? Porque meu pai levava escrito e escrevia errado, então eu fui registrada errada. Não só eu, muita gente!

 

P/2 - Na verdade, como deveria ter sido registrado o seu nome no cartório e como está?

 

R - O meu nome seria, pelos meus pais, Dirce Fiusa, porque, de minha mãe, o sobrenome dos meus avós maternos é Queiroz, minha mãe não tem nada, então foi totalmente errado!

 

P/2 - E como ficou registrado?

 

R - Minha mãe ficou registrada Margarida Pinto do Carmo, Pinto ainda era do meu pai.

 

P/2 - E você?

 

R - Eu, Dircia Felismina de Jesus, que é o sobrenome de minha avó materna. Olha o erro!

 

P/1 - Mas naquela época eu acho que tinha muita divergência.

 

R - Tem muito! Tem pessoas que voltaram a corrigir, mas eu já tô velha, não vou corrigir, não.

 

P/2 - Isso lá em Cava, que os professores iam nas casas, que seus próprios pais os contratavam para alfabetizar as crianças. Mas depois, quando você estava em Dores do Indaiá, tinha escola constituída, como era?

 

R - Tinha, mas eu não fui em Dores, eu fui em Goiás! Com doze, treze anos eu fui pra Goiás; era muito criança. Os outros, então, menores do que eu, mais ainda!

 

P/2 - Com doze anos você foi para Goiás?

 

R - Doze anos!

 

P/2 - Que cidade de Goiás?

 

R - Ceres.

 

P/1 - Nesse período escolar você tem que te marcou, principalmente depois que mudou, que houve uma mudança radical, na maneira ensino, de convivência, de também, porque aí você já foi para uma cidade, numa situação de nível melhor. E desse tempo de escola, você tem alguma coisa, marcante?

 

R - Nessa minha mudança pra Goiás, meu pai era sempre aquele homem bravador que queria ajudar todo mundo. Ele levou várias famílias pra Goiás às custas dele, sendo que muitos não pagaram. Meu pai comprou um sítio perto de Ceres - não digo fazenda porque era pequeno em vista do que a gente sempre tinha e ali ele ficou. Teve uma coisa marcante: meu pai ficou doente e não pôde trabalhar mais. Meu pai teve uma congestão de comida e foi para o córrego tomar banho. Ele comeu a pamonha, aí ele ficou paralítico e não trabalhou mais. Foi uma vida bastante marcante para nós, que mudamos pra Ceres. Aí cada um foi se virar. Ele não trabalhou mais, ficou paralítico, acabaram as atividades, os mais velhos venderam esse sítio. Mudamos pra Ceres e aí cada filho - alguns já tinham casado - cada um foi pra... Sempre em sítio, sempre em fazenda, em colônia; tem essas colônias de Ceres, aquelas do governo, que dava uns alqueires de terra pra cada um e cada um ia trabalhar nas fazendas. Mas eu não fui pra lá, eu fui ficar na cidade trabalhando. Fui pro hospital, fui pra loja, fiquei na cidade.

 

P/1 - Foi aí que você começou seu trabalho?

 

R – É. E fui pra escola também, mas por iniciativa minha. Tudo que eu fiz foi iniciativa minha porque meus pais já não... Meu pai, doente, minha mãe...

 

P/1 - Era uma companheira?

 

R - Era uma companheira e além do mais, sem iniciativa de uma mulher pra mandar [em] seus filhos. Cada um fez aquilo que a cidade fazia fazer.

 

P/1 - Quer dizer, foi uma alteração bem grande?

 

R - Muito! Da morte do meu pai, sim, nem a morte, a doença seguida de morte.

 

P/1 - Escuta, Dircia, o que mais marcou na educação que seus pais te deram? O que influenciou mais a sua personalidade?

 

R - Eu acho que a honestidade, o caráter. Isso foi muito bom pra mim!

 

P/2 - Seu pai era uma pessoa muito íntegra?

 

R - Muito, bastante!

 

P/2 - Até que idade você estudou?

 

R - Ah! Uns dezesseis anos. Eu fui pulando. Não era uma coisa como se usa hoje, começa e termina, porque foi muito de mudança, de iniciativa da gente. Tanto é que eu podia ser farmacêutica hoje, mas por falta de ter orientação eu não fui, porque oportunidade eu tive!

 

P/2 - Você estava me dizendo, há uns minutos atrás, que com doze anos você foi para Ceres, uma cidade de Goiás, em virtude ainda desse problema com seu pai, vocês se mudaram. Aí você foi para uma escola formal. Como foi essa coisa de você chegar numa escola? Você não sabia, não conhecia uma escola...

 

R - Eu até conhecia de Minas. Eu conhecia, não de frequentar. Mas eu fui pra noite, uma escola à noite, uma escola normal.

 

P/2 - E como foi essa experiência pra você?

 

R - Você sabe, foi gostosa, mas não tendo uma orientação você se perde. Eu era muito criança, com doze, treze anos se é muito criança, mas eu não tive ninguém assim: “Faça isso! Faça aquilo!” Fiz por conta própria, então a gente se perde. Também precisava trabalhar porque não tinha pai mais pra me sustentar. Cada um foi trabalhar.

 

P/2 - Porque seu pai já estava paralítico.

 

P/1 - Quer dizer, houve uma mudança radical em tudo?

 

R - Houve, mas não teve sofrimento. Ninguém ficava lastimando, chorando, nem nada.

 

P/2 - Como foi o posicionamento da família diante desse problema?

 

R - Da morte do meu pai?

 

P/2 - Da doença e a morte.

 

R - Já tinha vários casados, cada um morava num lado, e não havia muito sofrimento, não. Aceitou numa boa, assumindo.

 

P/2 - A família permaneceu junta, coesa, diante dessa dificuldade?

 

R - Apesar de longe, mas sempre se visitava.

 

P/2 - Além desse problema, que foi um problema sério na sua vida e na vida de toda sua família, existiam outros problemas que dificultavam as coisas, o andamento da vida da família?

 

R - Não! Só financeiramente, cada um já sabia que era aquele tipo de vida financeira mesmo. E não tinha sofrimento por isso. Talvez em mim porque eu era criança, mas eu não via sofrimento na minha casa, não!

 

P/1 - Aceitaram a situação dentro de uma normalidade...

 

R - Porque era o normal de todo mundo, não tinha… Minoria que tinha diferença, mas todo mundo era no mesmo barco, mesma maneira de proceder.

 

P/2 - Nesse período, quais foram os melhores momentos?

 

R - Esse namorado que eu tive, que vim para São Paulo. (risos)

 

P/2 - Ah, é? Qual o nome dele?

 

E – Ah! Será que eu vou me lembrar? Valter... Valter, parece...

 

P/2 - Ele foi o primeiro namorado?

 

R - Não. Eu tive outro, mas o que eu mais gostei foi dele! (risos) Nós namoramos [por] cinco anos! Tinha que marcar?

 

P/1 - Pelo que eu vejo, foi uma grande paixão!

 

R - Foi uma grande paixão, muita paixão! De ter saudade do sol, da cidade. E ter o bom caráter de não procurá-lo.

 

P/1 - E não deu certo por que?

 

R - Eu é que pergunto. Por isso eu digo pra você: se em cinco anos ele não se decidiu, eu não morando na cidade, eu me retirei e nunca mais procurei. Você vê o caráter como era forte. Escrevia pras minhas amigas que ficavam perguntando por ele, e elas me davam notícia.

 

P/2 - Dona Dircia, me diz uma coisa… A gente percebe na sua fala muito contato familiar. A senhora depois se mudou, já estava mais mocinha, quando mudou pra Ceres. A senhora tinha amigos?

 

R - Nossa! Tenho uma amiga até hoje!

 

P/2 - É? E como é o nome dela?

 

R - Jane de Arruda Boeri, de Pindamonhangaba ela é! É amiga desde quinze, dezesseis anos, tenho [amizade] até hoje!

 

P/2 - E vocês, mantêm contato?

 

R - Até hoje. Os netos dela são os meus netos, eu vou mostrar as fotos aqui pra vocês! (risos) Tinha grandes amigas, de ir ao cinema, de ir aos bailes, apesar de que eu nunca dancei. É a personalidade mesmo da gente, porque meu pai foi muito bravo, então não deixava a gente dançar e eu permaneci naquela ordem dele, na orientação, mas a gente ia ao cinema, ia uma na casa da outra, muito gostoso!

 

P/1 - Você falou que gostaria de ter sido farmacêutica. Além disso, você ainda tinha algum outro sonho de realização?

 

P/2 - Quando você era mais menina, você almejava ter uma profissão? Ser uma professora, uma médica, o que você almejava?

 

R - Vocês vão rir de mim, mas eu adorava e pensava na minha vida, de ser paraquedista! (risos). PA-RA-QUE-DIS-TA!!! Eu pensava longe, hein? Não se quase falava naquilo, era do ar. Eu pensava no alto!

 

P/2 - Como você se imaginava?

 

R - Ah, era uma delícia, o que eu imaginava! Não sei se hoje eu teria coragem, mas na época eu tinha loucura pra ser paraquedista!

 

P/1 - Você sonhava e voava!

 

R - Voava!

 

P/1 – Mentalmente.

 

P/2 - E em alguns momentos você tinha... A gente tem alguns sonhos, alguns pensamentos quando é criança, adolescente. Quais os seus pensamentos e sentimentos dessa época? Você se lembra de coisas que lhe chamaram a atenção?

 

R – Sentimentos. Eu era assim, ao mesmo tempo um pouco rebelde, por montar no cavalo sem montaria. Eu era corajosa, mas eu tinha uma coisa assim: se você me desse uma laranja, eu não chupava a laranja, eu levava pra minha mãe, pra ela pegar um pedaço pra ela. Eu tinha esse sentimento, o que me marca é esse sentimento. De mágoa de irmão, de coisas eu não tenho. Mas depois eu vou falar de mágoa de irmão.

 

P/2 - E quais seriam as suas brincadeiras preferidas?

 

R - De criança era a roda, como eu já falei, mas depois eu fui pra Goiás e isso acabou. Eu ia ao cinema, ia à igreja, muitas festas de igreja, passeava na praça, que tinha o ‘vai-e-vem’...

 

P/2 - Era o footing.

 

R - Você chama footing, mas pra gente era vai-e-vem. Aconteceu isso em Anápolis. Esse meu namorado que eu gostei foi de Anápolis...

 

P/2 - E por falar em namorado, você se lembra mais ou menos que idade você tinha quando você arrumou o primeiro namorado?

 

R - Deixe-me pensar... Ele que se apaixonou por mim, não eu por ele. (risos) Esse foi perto de Ceres. Eu tinha uns quinze pra dezesseis, dezessete anos, por aí.

 

P/1 - E você era de um tipo, assim, namoradeira?

 

R - Não. Bem discreta, muito discreta, nunca fui namoradeira! (risos)

 

P/1 – Porque você é bonita, simpática.

 

R - Não, mas eu acho que é por isso que eles gostavam, ele gostava. Esse moço morreu de paixão por mim, tive até mudar de uma cidade por causa dele porque eu tinha uma irmã que morava… Essa cidade é assim: aqui é um rio, aqui é Ceres, aqui é Real. Eu tive de ir pra casa de minha irmã porque eu terminei com ele e ele vinha muito em casa, então eu mudei. Fiquei um tempo na minha irmã Ana, aí ele ia lá. Eu não queria nada, mas ele chorava por minha causa! (risos)

 

P/2 - E como era o nome dele?

 

R - José.

 

P/2 - Quanto tempo vocês namoraram?

 

R - Não foi muito tempo, não.

 

P/2 - Aí não deu pra se apaixonar?

 

R - Eu não, ele sim! (risos) Eu apaixonei por outro, mas é muito gostoso, nossa! Que delícia!

 

P/2 - Como você também diz que seu pai era uma pessoa bastante autoritária, como é que foi essa coisa de primeiro namorado? Você levou em casa?

 

R – Já não tinha mais pai e mãe, já não tinha mais.

 

P/2 – Já tinha falecido. Ele era amigo da família, ia a hora que quisesse, inclusive era amigo das irmãs, dos pais, ia a hora que quisesse, o dia que quisesse… E quantos anos você tinha quando seu pai faleceu?

 

R - Meu pai? Foi logo que eu cheguei em Goiás, no máximo [com] quatorze anos, por aí.

 

P/2 - Bem novinha...

 

R - Muito, muito criança!

 

P/2 - Vieram outros namorados, e veio esse que foi a sua paixão.

 

R - Isso em Anápolis, viu, a minha paixão...

 

P/2 - E qual era o nome dele, mesmo?

 

R - Waldir...

 

P/2 - Waldir? É Walter ou Waldir, porque lá atrás você...

 

R - Walter... Eu não me lembro mais. Sei que era com dáblio, é um deles aí... Mas você sabe, naquela época era tudo muito severo. Você não tinha essa liberdade que tem hoje, mesmo porque a gente teve uma vida rigorosa, também...

 

P/1 - Uma educação diferente...

 

R - Diferente, completamente diferente. A gente era aquele namorado que, se pegasse na mão, saía foguinho pelos olhos! (risos) Os hormônios!

Eu me lembro de uma passagem muito bonita que as minhas amigas me fizeram... Foi uma peça, “Pulga na Camisola”, do Rio de Janeiro, foi no cinema. Elas falaram: “Eu vou fazer a Dircia encontrar com esse namorado!” Mas eu era muito tímida, e elas falaram assim... Eu comprei o ingresso e elas ficaram de comprar o ingresso, mas na hora elas falaram “não podemos ir” e combinaram com ele de entrar junto e sentar. Meu Deus, que emoção! (risos) Vocês sabem disso que são jovens, mas olha... Saía foguinho dos olhos dele, muito jovem. São passagens boas que a gente lembra, muito boas!

 

P/2 - Sim! Foi com esse que você casou?

 

R - Não! Esse é a paixão que eu vinha pra São Paulo. (risos)

 

P/2 - E quantos anos você tinha, Dona Dircia?

 

R - Acho que eu já tinha uns 21, por aí. 20, 21, por aí...

 

P/2 - E essa mudança foi meio traumática, não foi? Porque você deixou um amor lá em Goiás...

 

E – Foi, e as amizades, tudo! Não tinha família, não conhecia nada. Isso que eu te falei, que eu tinha saudade do sol! E sabe aonde que eu ia chorar? Ia chorar na igreja, naquela igreja ali perto do Colégio Arquidiocesano, da Saúde;  eu morava por ali. Eu ia lá e conversava com Deus, na minha saudade. (risos) Foi bem sofrido, e de muita personalidade, senão eu tinha voltado.

 

P/2 - Dircia, então você veio com 21 anos, bastante jovem, pra São Paulo. Você não tinha parentes aqui?

 

R - Nada! Só vim com uma senhora conhecida e fiquei morando na casa dela. Passei pelo Hospital do Câncer, trabalhei lá. E depois de muito tempo fui encontrar essa [amiga] que estava em Pindamonhangaba e já estava em São Paulo.

 

P/2 - Qual o nome dessa senhora que você foi morar junto com ela?

 

R - Ai, meu Deus! Deixa-me pensar! Ele era do banco, um casal de gerentes de banco. Ele é muito fácil, se chamava Gentil. Agora ela... Lazinha, Dona Lazinha.

 

P/2 - Eles eram de sua cidade e vieram...

 

R - Não, de Anápolis.

 

P/2 - A sua família conhecia essas pessoas?

 

R - Não! Minha família nem conheceu!

 

P/2 - E como foi essa coisa de falar pra sua mãe e aos seus irmãos...

 

R - Não falei! (risos)

 

P/2 - E eles, como ficaram, diante de uma situação dessas?

 

R - Eu precisava trabalhar e eles entenderam. Depois que eu cheguei em Goiás, eu praticamente não morei com a minha família. Eu fui só trabalhar.

 

P/2 - Trabalhava no quê?

 

R - Primeiro emprego no hospital, morava no hospital. Todas que trabalhavam no hospital e que não moravam na cidade moravam no hospital.

 

P/1 - Eram residentes?

 

R - Eram residentes.

 

P/2 - E depois a sua vida, conte um pouquinho pra gente como foi essa sua chegada aqui em São Paulo. Chegar numa cidade grande e procurar emprego, como foi isso?

 

R – Foram eles mesmos que arrumaram pra mim o emprego porque eu já vim com eles, aí eles me arrumaram no Hospital do Câncer; passei pelo hospital, mas fiquei pouco tempo. Depois eu encontrei essa minha amiga, que eu tenho até hoje.

 

P/2 - Qual o nome dela?

 

R – Jane. Viemos pro bairro das Perdizes, os pais dela moravam lá, já são falecidos. Fiquei morando lá e fui trabalhar no consultório médico.

 

P/2 - Me diz uma coisa: no Hospital do Câncer, o que você fazia?

 

R - Eu era Auxiliar de Trabalho, de servir lanche, comida para os doentes.

 

P/1 - Foi nessa época, com todas essas mudanças, todos esses tropeços, que você começou a conhecer seu futuro marido, ou ainda não, ainda demorou?

 

R - Foi muito depois [que] eu o conheci. Eu namorei acho que bem pouquinho. Eu [o] conheci em 1970, 1969, quando estava morando na casa da mãe dessa minha amiga e ele tinha chegado de Mato Grosso. Fui à casa de uma prima dessa minha amiga e ele estava. Aí eu cheguei e falei: “Bom, você tem visita, eu vou embora”. Contado pelo marido dessa prima da minha amiga que se chama Matilde... Ela falou assim: “Olha, o meu amigo gostou muito de você!” (risos)

Ah, é? Bastava falar isso e eu já não queria namorar. Eu já tinha saído de uma paixão, não queria pegar outra, mas foi insistência dele. Eu trabalhava já no salão nessa época, na Mooca, e ele ia me esperar na cidade. Aí, muito devagarinho, acabei namorando ele. Namorei acho que onze meses, foi muito pouco e já casei!

 

P/2 - E qual é o nome dele?

 

R - Floriano Gonzales.

 

P/2 - Voltando um pouquinho lá, quando você se mudou pra Perdizes, você foi morar na casa de quem?

 

R - Da mãe dessa Jane. Eles já moravam em São Paulo, tinham vindo antes de mim, mas eu não encontrava com eles. Ela me arrumou emprego no consultório médico [em] que ela trabalhava também.

 

P/2 – Você foi fazer o quê, no consultório?

 

R - Atendente! Os clientes, os propagandistas, eu atendia.

 

P/2 - Quer dizer, depois de ter encontrado o Floriano, depois de onze meses aconteceu o casamento.

 

R - Casei!

 

P/2 - E como foi isso, a sua família estava toda lá?

 

R - Não veio ninguém, não teve ninguém! Minha família, aliás, foi a família Jane, foi a minha família em São Paulo. Nem dele, nem minha, também tem disso. Porque uma em Minas, a outra em Mato Grosso, ninguém apareceu!

Foi um casamento assim bem tan-tan, casou. Não por necessidade, por malandragem, porque sem meus pais… Eu nem tanto gostei dele, com toda honestidade. Eu tinha pena dele, ele parecia humilde...(risos) Mas não é não, viu?

 

P/2 - E depois desse período?

 

R - Depois desse período eu fui trabalhar em salão e ele em escritório.

 

P/2 - E o que ele fazia no escritório?

 

R - A parte de Contabilidade.

 

P/2 - E no salão, você fazia o quê?

 

R - Eu fazia esteticista e ajudava em cabelo, essas coisas.

 

P/1 - Desse casamento você teve uma filha.

 

R - Uma filha!

 

P/1 - Uma filha, mas antes quanto tempo vocês viveram?

 

R - Eu fiquei de 61 a 80... Acho que vinte e poucos.

 

P/1 - Dezenove anos...E tem essa filha?

 

R - Essa filha ficou comigo na minha separação.

Aí eu vou contar tristeza, mas não, também não é uma coisa de matar, morrer por causa de filho, eu não sou assim! Por isso eu peço a Deus: “Me dá sabedoria pra que eu entenda todas as minhas mudanças de vida!” E Ele tem-me dado. Desse casamento eu passei dez anos sem ter filho, mas sempre fazendo tratamento pra ver se tinha filho. Eu nem sei se tinha muita falta de filho, mas ele cobrava! “Poxa, eu nem pai posso ser”, mas fui fazer tratamento. Era só eu, ele nunca passou por um tratamento, porque podia ser dele. Um dia cheguei no médico - não me lembro o nome dele agora, mas era um médico bastante conhecido na época - e fui fazer esse tratamento com ele. Engravidei e tive essa filha que [se] chama Sandra. Na minha separação, ela tinha oito pra nove anos, e eu mantive e ele deu toda a assistência que ela precisou.

Criei sozinha. Quando foi depois, de maior idade, não queria me obedecer. (risos) Tive que falar com ele porque ele é que mantinha, ele queria saber do comportamento dela, que estava tendo. Por causa de namoradinho… O primeiro namorado dela é que deve ter marcado bastante, porque não terminou muito bem. Eu falei com o pai: “Já que ela não me obedece e você não está em casa, você precisa saber não só as coisas, tem que saber o que está acontecendo. Se ela não sair de casa, saio eu!” Aí ela mudou e foi morar com o pai. Morou até o dia do casamento, que já fez um ano, em doze de junho. Como a minha casa é grande, eu ofereci a casa pra ela morar. Eu falei: “Você reforma. Aqui já tinha um quarto e banheiro, que era de minha empregada, uma edícula no fundo, vocês reformam que eu dou a casa pra vocês morar”. Não [me] fez muito bem a minha edícula e eu passei pra lá. [Me] Desfiz de tudo que eu tinha, não de movéis, dessas coisas, porque eles usavam.

Minha edícula não ficou boa pra eu morar porque tinha um problema do vizinho que passava umidade pra minha casa e estava me fazendo mal. Então eu falei uma vez, duas, três, mas ninguém fez nada! Sendo que nem me cumprimentava, agora vem a minha decepção, a minha filha! Mas não me derrubou!

Decepção, sim, porque eu não esperava isso dela! Eu a criei com muito carinho, com muita atenção, tanto é que podia até ter tido conflito contra o pai, mas a preferência dela era ficar comigo na minha separação. E tudo que pude fazer eu fiz pra ela, com todo carinho. De preocupação que [ele] sumisse com ela, enquanto ela não ficou bem consciente, com idade que sabia o que queria, eu não a deixei viajar com ele. Tinha os fins de semana porque ficou na minha guarda, sempre vigiando.

Criei com muito carinho, mas tive uma grande decepção agora, depois que ela casou, dessa ida para minha casa. Em meu quarto mofou tudo, minha roupa, tudo mofado e eles conscientes disso. Entrei na justiça para conseguir o que eles não precisariam ter feito. Não me davam um real sequer. E no dia da audiência foi ele… Eu entrei na justiça contra meu genro, [se] chama Júlio o meu genro. Aí na Justiça ele falou que não podia decidir porque ele era casado... Não... Porque eu tinha que ausentar desse quarto por dez dias pra eles consertarem, porque a parede ficou toda mofada, sendo que eles sabiam. Eu não queria [me] ausentar da minha casa; eu tenho casa e tem quarto vazio, é uma casa grande!

Ela não permitiu que eu ficasse na casa. Fiquei dez dias nos meus vizinhos! Então para mim ela morreu! Não existe, eu não tenho filha! Essa é a minha decepção porque eu não esperava que ela fosse fazer isso comigo! Então nós não falamos mais.

Ela mudou [na] Sexta-feira da Paixão. Deixou a casa com o cachorro dentro, não me entregou a chave e eu fiquei. Esperei até o Dia das Mães, porque está na Justiça, mas porque eles deram muitas cópias de muita gente que entrou lá. Não conheço a família do genro, conheço porque eu vi, mas eu não sei o caráter. Pra me fazer isso não é bom caráter, qualquer pessoa vai entender isso, porque senão não faria!

Troquei o cadeado do primeiro portão de baixo, aí eles não entraram mais, mas já havia tirado o cachorro. Precisei ir ao juiz pra que me autorizasse a trocar a chave, pra eu entrar na casa. Encontrei [coisa] quebrada, tiraram cortina, coisas que eu tinha. Está na Justiça! Essa foi a minha grande decepção, nem o meu casamento foi decepção como essa!

 

P/1 - Você foi uma mulher que lutou, batalhou, desejou uma filha, teve, eu acho que tudo tem um momento de alegria. Você já teve decepção. Quem sabe se você ainda vai reconquistá-la.

 

R - É! O tempo se encarrega das coisas, mas foi a minha grande decepção da minha vida.

 

P/2 - D. Dircia, a senhora tem netos?

 

R - Não, porque tem um ano de casada, agora em junho passado.

 

P/2 - A senhora cortou as relações com a sua filha?

 

R - Não sei nem onde mora porque chegou muita correspondência pra eles. O que eu fiz? Tive orientação do juiz que eu colocasse no correio para o endereço do trabalho dela. É um hospital no Pari, de cor não sei o nome da rua. (risos)

 

P/2 - E o que faz a sua filha?

 

R - [É] Nutricionista.

 

P/2 - Nutricionista de hospital?

 

R - De hospital.

 

P/2 - E agora, depois dessa demanda judicial, a senhora reouve a sua casa e está morando nela?

 

R - Estou morando na minha casa.

 

P/2 - A senhora reformou a casa, como a senhora fez?

 

R - Não, pelo contrário. Eles fizeram a reforma, mas destruíram a minha casa, da maneira deles. Fizeram coisas que não havia necessidade de fazer porque a minha casa era ótima! Mas eu acho que ela não quis morar com aquela cara que ela nasceu e se criou, então tentou fazer umas modificações. E essas modificações, pra mim, tiveram destruição! Destruiu, mesmo! Meu lavabo não funciona, meu vitrô está quebrado - moro há trinta anos nessa casa, nunca quebrou. Eles tiraram a água da torneira da cozinha, um monte de coisa que eles deixaram destruído! Descascaram todas as portas, que eram lindíssimas!

 

P/2 - Vamos voltar um pouquinho. A senhora disse que depois que se casou continuou morando no bairro de Perdizes, ou mudou?

 

R - Morei um pouco, quando ela nasceu eu mudei pro Sumaré. Quando ela tinha um aninho. Mantenho até hoje, a mesma casa.

 

P/2 - E essa separação da senhora? Naquela época não era muito frequente as pessoas se separarem. Como foi isso na sua vida com relação à família, com relação aos amigos, em relação à senhora mesma, a questão da separação?

 

R - A minha separação foi uma surpresa, uma rasteira. (risos) Eu não esperava de jeito nenhum porque eu nunca fiz nada errado, eu não esperava uma separação! Eu não casei para isso! E essa separação… Aí já vai entrar a decepção de irmã porque eu ajudei vários filhos dessa minha irmã e depois ela acolheu esse meu ex-marido na casa dela, sendo que teve uma aventura com uma própria sobrinha!

Isso que eu lhe disse que naquela época... Em criança, tudo bem, mas depois de adulta! (risos) Minha irmã acolheu esse meu ex-marido, sendo comprada. Ela também foi inocente como eu. Ele andava com a minha sobrinha com romance, mas depois os filhos dela, que tem muito caráter, que eu me dou com eles - hoje eu me dou com todo mundo, voltei tudo porque isso não leva a nada...

 

P/2 - Superou.

 

R - Superei. Eu é que fui à procura também, mas os filhos não permitiram, os filhos homens, porque parece que ia sair casamento! Tudo assim muito por cima, que eu sei.

 

P/2 - Certo! A senhora acredita que essa separação foi levada em virtude desse romance que ele mantinha com a sua sobrinha?

 

R - Não, depois.

 

P/2 - Depois da separação foi que ele manteve romance com a sua sobrinha?

 

R - É, eu não vi, me disseram. A minha decepção com a minha irmã nem foi da minha separação. Ajudei quase todos os filhos dela! Hoje, um é... Ainda mora aqui,  me dou muito bem com ele. Ele é contador, se formou, mas vieram estudar na minha casa, essa própria que andou depois com meu ex-marido! [Ela] mora em Candador. Se ela tem hoje alguma coisa, sabe alguma coisa, aprendeu na minha casa. Foi para o colégio… Porque eu não tinha filho, então eu ajudei os sobrinhos!

 

P/2 - E nessa época, a senhora ainda trabalhava?

 

R - Não, eu já não trabalhava mais.

 

P/2 - Como a senhora passou a viver? A senhora diz que foi pai e mãe de sua filha.  A fonte de renda, como a senhora se mantinha?

 

R - Não! Eu vivo da pensão alimentícia dele; é pouquinha, mas eu vivo dela. Depois, com 55 anos, que tem a ver com aquela lei que, se eu pagasse cinco anos ia ser aposentada com salário mínimo… Conversando com a minha filha - porque ela trabalhava com várias firmas - uma dessas firmas me registrou fictícia, mas paguei tudo direitinho, nada de malandragem. Hoje sou aposentada por idade, apesar de ter trabalhado a vida inteira. (risos) É falta de orientação, que a gente não tinha!

 

P/2 - Hoje em dia a senhora, na condição de aposentada, mora sozinha. O que a senhora faz, como ocupa o seu tempo?

 

R - Ah, minha filha! [É] a melhor época da minha vida, a melhor época.

 

P/2 - Conte um pouquinho pra nós como é a sua vida.

 

R - Eu vou, saio à noite, coisa que nunca fiz na minha vida, hein? (risos) Eu chego à meia-noite, com as amigas que eu tenho. Eu vou ao teatro, vou a palestra, vou a coquetel, como acabei de contar pra vocês de quinta-feira. É maravilhoso! Pena que eu tô ficando velha! (risos) Pra aproveitar mais.

 

P/2 - Então a senhora tem um grupo de amigos, faz programas?

 

R - Tenho! Tenho de igreja, tem de tudo! Faço cursos de cultura, de aprender as Artes no Itaú Cultural, frequento a Hebraica, que agora vai ter uma série de palestras. Eu vou em tudo, desde que não seja pago!

 

P/1 - Na verdade, depois de tudo isso que passou, a senhora está vivendo uma vida sua, exclusiva!

 

R - Maravilhosa! Minha! Não quero melhor, senão atrapalha! (risos)

 

P/2 - De tudo isso que a senhora fez, o que acha mais importante?

 

R - O mais importante [é] meu lado espiritual, porque tendo isso eu mantenho tudo que sou. É Deus, a minha fé em Deus, que eu não quero perder!

 

P/2 - Sei. E a senhora tem alguma preocupação, ou preocupações, tem alguma coisa que aflige a senhora atualmente?

 

R - Não.

 

P/2 - E as horas de lazer? A senhora se dedica a algum trabalho, fazendo alguma atividade pra alguém?

 

R - Eu falei pra vocês daquele grupo dos enxovais que eu faço nas quartas-feiras.

 

P/2 - Esse grupo se chama...

 

R - Humildade. É de Nossa Senhora de Fátima.

 

P/2 - Ele pertence à igreja Nossa Senhora de Fátima?

 

R - Nossa Senhora de Fátima. É da casa dessa senhora chamada Valvir.

 

P/2 - As mulheres e a senhora se reúnem lá?

 

R - Nos reunimos lá e fazemos os enxovais. Quem sabe fazer tricô faz tricô; quem sabe fazer costura de mão faz a de mão; quem sabe de máquina - geralmente são as donas que conhecem as máquinas...  E é muito gostoso! É gente da melhor qualidade, da minha comunidade também. Agora é que estou meio afastada da minha comunidade, só no grupo de oração e missa, que é hoje às 18:30.

 

P/2 - Seria nessa mesma igreja ou é outra?

 

R - Não, a minha comunidade se chama Nossa Senhora das Graças e pertence… Pertencia, agora foi mudado, a Nossa Senhora do Rosário, lá do Hospital São Camilo, os padres são os camilianos.

 

P/2 - E essa atividade que a senhora tem de confeccionar essas roupinhas pra bebê, qual a finalidade disso?

 

R - Finalidade é de ajudar o próximo, que me faz bem!

 

P/2 - Tem alguma instituição?

 

R - Não. Quem precisa, vai lá e pega. Você sabe de alguém que precisa de enxovalzinho, vai lá e pega o enxovalzinho.

 

P/2 - Então, dona Dircia, entre todos esses assuntos que a gente conversou, a senhora gosta de conversar sobre política, tem algum envolvimento com partidos políticos?

 

R - Adoro! (risos) Não tenho participação, mas adoro falar em política. Não entendo nada, mas eu gosto. Já fui num da Marta [Suplicy], segunda-feira, porque todos vão passar pela OAB, todos os candidatos. O próximo é o Alckmin, depois, o Maluf, depois... Esqueci o outro nome, depois a Erundina! Todos! Eu vou lá assisti-los falar!

 

P/2 - Vai assistir pra depois escolher certinho.

 

R - É, mas eu não voto! Eu não voto porque não acho nenhum é digno do meu voto! (risos)

 

P/2 - A senhora ainda se lembra da primeira vez que votou?

 

R - A primeira vez que eu votei... Aqui em São Paulo. O candidato, se não me engano, foi o Juscelino.

 

P/2 - Ah, então era pra Presidente da República?

 

R - O último que eu votei foi [para] presidente da República. Foi o Juscelino, porque nunca mais votei. Não voto, mas justifico no correio.

 

P/2 - De todas essas atividades, a senhora gosta de esportes?

 

R - Natação.

 

P/2 - Natação?

 

R - Natação, faço!

 

P/2 - A senhora já competiu, não?

 

R - Competi, mas não ganhei nada. Ganhei um diplominha, medalha falsa, mas tudo bem. Grande competição, não entre o nosso grupo.

 

P/1 – Mas já é um sucesso.

 

P/2 - E qual é o clube ou local onde a senhora faz natação?

 

P/2 - Eu aprendi. Quando tive o problema da minha gravidez, o médico indicou a natação e eu fui no DEFE [atual Conjunto Desportivo Baby Barioni], na Rua Germaine Burchard. Depois do DEFE, nós éramos sócios do Palmeiras, mas depois da minha separação ele não me tirou isso, eu tenho direito de frequentar o Palmeiras. Comecei a fazer ginástica, a fazer um monte de coisas, minha filha fazia ginástica olímpica, mas eu achei sem graça o Palmeiras. Não vou no Palmeiras, apesar de ter direito. Vou aos SESC da vida, atualmente vou na Vila Mariana porque lá é gostoso, a piscina é muito boa. O DEFE é sorteio - no ano passado eu não consegui e este ano não tentei. Lá no DEFE da Vila Mariana, digo SESC, sabendo nadar você pode ir a qualquer hora.

 

P/2 - Necessariamente não tem instrutor?

 

R - Não. Quem sabe nadar. Quem não sabe tem instrutor e tem horário.

 

P/2 - Qual seria o seu hobby preferido?

 

R - Meu hobby é natação!

 

P/2 - A senhora se sente bem nadando?

 

R - Eu me sinto muito bem. No ano passado me senti mal porque não fiz.

 

P/2 – Além de ser uma coisa que a senhora gosta existe também alguma recomendação médica?

 

R - Não, nunca tive recomendação médica, é minha mesmo.

Gosto demais de planta! Adoro flores! Pra você ver, eu que fiz as minhas plantas. Ainda bem que dei pra uma que levou pro sítio dela, nessa mudança de minha filha, porque ela não gosta. Eu dei tudo, mas eu adoro planta!

 

P/2 - Quer dizer que a Senhora cultiva vasos, plantas?

 

E – Não. Porque eu me desfiz de tudo, mas eu vou renovando, to começando! (risos)

 

P/1 - Certo, certo! Essa vida da senhora foi longa, tão cheia de altos e baixos, mas tem momentos felizes também.

 

R - Tem!

 

P/1 - Recordações maravilhosas. O que a senhora deseja, seu maior desejo… O que espera da vida?

 

R - Espero que Deus me dê muita saúde. Ele me dando saúde, o resto eu vou...

 

P/2 - Você chega lá!

 

R - Eu chego! Só quero que Deus me dê muita saúde e peço muito pra Deus que não deixe as pessoas fazerem mal para os seus pais. Meu ex-marido, sem estar na partilha, ele me pagava o plano de saúde até maio, por aí, por conta dele mesmo. Por maldade dessa minha filha, Sandra Gonzales, ele cortou! E eu não posso reclamar porque não está na Justiça. Posso cobrar dela por justiça, eu tenho esse direito, mas não quis, eu quero viver com o meu dinheirinho, honestamente, deitar e dormir tranquila, sem...

 

P/1 - Sem depender dela!

 

R - Não!

 

P/2 - Como a senhora está fazendo sem convênio médico?

 

R - Eu estou, continuei a pagar!

 

P/2 - E pararam de pagar pra senhora.

 

R - Eu continuei, fui ao PROCON. O PROCON viu direitinho e eu assumi pagar porque é uma coisa que precisamos na nossa idade. A gente precisa de um plano médico porque não temos praticamente médico nenhum, assistência nenhuma.

 

P/2 - D. Dircia, e os seus sonhos? O que a senhora almeja pra sua vida, o que tem desejo de fazer? O que a senhora sonha em realizar?

 

R - O meu sonho a realizar - eu ainda vou fazer, viu? Ir ao Chile. (risos)

 

P/2 - Chile? Tem que sonhar e concretizar!

 

R - Mas eu vou concretizar! É porque tudo tem a hora. Nesse casamento de minha filha, pra dar a garagem pra ela eu vendi meu carro. [Era um] Carrinho velho, mas dava pra ir ao Chile. Houve todas essas mudanças, acabei gastando o dinheiro e não dá. Mas eu vou!

 

P/2 - Por que essa preferência pelo Chile?

 

R - Não sei explicar. Eu tenho sobrinha casada com chileno e tenho amigas também casadas com chilenos, mas eu não sei, não sei explicar. Eu gosto do Chile.

 

P/2 - É uma ligação inexplicável.

 

R - É! Eu não saberia dizer.

 

P/2 - Faço votos que a senhora realize esse sonho!

 

R - Eu vou, se Deus quiser! Por isso que eu peço saúde pra Deus! (risos)

 

P/2 - Qual seria sua melhor qualidade, analisando a sua personalidade, a sua qualidade maior?

 

R - O meu caráter! Eu tenho um bom caráter, eu tenho palavra. Tenho muitos defeitos, claro que todos nós temos, mas o meu caráter é muito marcante!

 

P/1 - Eu acho isso tão importante.

 

R - Eu acho também.

 

P/2 - D. Dircia, a senhora tem facilidade nos relacionamentos.

 

R - Muita, muita!

 

P/2 - Tem muitos amigos?

 

R - Hoje, amigos, a gente pode falar que tem poucos, mas conhecido eu tenho bastante. (risos) Tem, sim! Amigo é como essa, que me ajudou em todas as horas, Jane, que mora em Pinda. Eu não me considero como amiga, me considero como um parente porque os filhos dela me chamam de tia, os netos me chamam de vó. Eu falo que sou vó torta. (risos) Tenho muita facilidade de relacionamento, mas não gosto de mau caráter, aí eu me afasto!

 

P/1 - E aí, completa a decepção!

 

P/2 - E como descreveria sua vida hoje?

 

R - Minha vida hoje? É uma vida muito gostosa, mesmo! Com toda honestidade, sem mágoa com tudo isso que aconteceu, nada! Como a minha amiga de Pinda, a Jane, fala: “Se você não teve uma depressão você não tem mais, porque você já passou por muitas coisas e não teve!” E não tenho mesmo, eu passei por cima, apaguei!

 

P/2 - Pela forma que a senhora coloca, essa senhora Jane foi bastante importante na sua vida...

 

R - Nossa! Ela, a filha, o neto, tudo! Não sou muito do marido porque é muito cri-cri, viu?

 

P/2 - E a senhora visita essa sua amiga?

 

R - Sempre vou. Eles vêm à minha casa, se hospedam em minha casa. Este ano mesmo acho que já fui umas três vezes!

 

P/2 - Nós fizemos esse convite através da Dona Tereza, que é agente de história, entrevistadora do museu. O que a senhora achou desse convite e o que achou de dar seu depoimento aqui pra nós?

 

R - Eu achei maravilhoso! Eu gostei, falei pra Tereza, mesmo, tanto é que ela me deu esse folhetinho que está aqui por baixo e eu já liguei pra vocês. (risos) O último dia dela aqui teve uma entrevista no período da manhã, a última vez. A gente se encontrou porque ela também faz o Itaú [Cultural], de lá ela vem pra cá. E ela me deu [o telefone]. Falei: “Eu vou ligar!” Liguei e deu certo.

 

P/2 - E a senhora está feliz com a entrevista?

 

R - Estou, muito feliz!

 

P/2 - É um relato do fundo, de amor.

 

R - É, gostoso!

 

P/1 - Porque recordações lindas, momentos diferentes, e com um final feliz. A senhora é uma pessoa que está aqui contando tudo isso, disposta tudo isso, com um final feliz.

 

R - Praticamente sem mágoa. Eu tive decepção com a filha, mas mágoa, não! Quero que ela tenha uma vida feliz com o marido dela, com os filhos dela, porém eu falei muita verdade que ela precisava ouvir, falei! Porque chegava na casa e nem boa noite me dava, sendo que eu não precisava financeiramente dela, ela estava precisando de mim! Deixar acontecer o que aconteceu e não foi traição, porque eu avisei: “Não gosto de traição!” Mas já passou, já apaguei e eles têm a vida feliz deles.

 

P/2 - D. Dircia, já estamos nos encaminhando para o final da entrevista. Gostaríamos de saber da senhora: alguma coisa que não foi falada, que não foi perguntada, que a senhora não nos relatou… A gente dá oportunidade pra senhora  colocar. O que a senhora ainda gostaria de falar?

 

R - Não, eu acho que foi ótimo, falei tudo que eu gostaria de falar e eu achei ótima a entrevista. Falei com muito prazer as coisas, foi um grande prazer conhecê-las e estar aqui com vocês fazendo essa entrevista da minha vida. Foi um grande prazer!

 

P/1 - Foi recíproco.

 

P/2 - Então nós só temos a agradecer sua presença aqui, a senhora praticamente perdeu uma manhã aqui conosco!

 

R - Não, eu ganhei. (risos)

 

P/2 - A gente está muito feliz e tem certeza que a história da sua vida vai enriquecer ainda mais o acervo do Museu da Pessoa, então a gente agradece!

 

R - Por isso mesmo que eu estou feliz, dessa entrevista com vocês!

 

P/2 - A finalidade do museu é justamente resgatar essas histórias, principalmente a história do início de vida, daquelas coisas que hoje não existem mais. Até pra nós, entrevistadores, é delicioso ouvir.

 

R - Porque, como eu falei, essas coisas que eu vi em criança nunca mais vi! Aqueles doces de leite, nunca mais!  (risos)

 

P/2 - Você até hoje ainda sente o gostinho.

 

R - Nem fala, viu! (risos)

 

P/2 - Então, muito obrigada!

 

R - Obrigada a vocês, viu?


 

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