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História

Superando as dificuldades

História de: Maria de Lourdes de Almeida Barbosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2021

Sinopse

Maria de Lourdes nos conta sobre sua infância em uma fazenda e depois em Santo Ângelo, para onde veio estudar. Conta também sobre as dificuldades na criação dos filhos, depois que se separou e retornou de São Luís Gonzaga para Santo Ângelo para morar com sua mãe.      

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História completa

 

P/1 - Boa tarde, dona Lourdes. Tudo bem?

 

R - Tudo.

 

P/1 - A gente vai começar agora a sua entrevista. Eu gostaria que a senhora me confIrmãsse seu nome completo, a sua data de nascimento e a cidade onde a senhora nasceu. 

 

R - Maria de Lourdes de Almeida Barbosa. Nasci em Santo Ângelo, no dia sete de abril de 1938.

 

P/1 - Qual o nome dos pais da senhora?

 

R - Gasparina Antunes de Almeida e Jesuíno Nunes da Silva. 

 

P/1 - O que os pais da senhora faziam? 

 

R - A minha mãe trabalhava pra fora, numa fazenda. Depois, quando… Ela era separada do marido, aí ela veio pra cá pra me botar no Colégio das Irmãs. 

Nós morávamos na Venâncio Aires, moramos 55 anos na Rua Venâncio Aires. [Eu] estudava no Colégio das Irmãs e a mãe trabalhava [como] doméstica. Trabalhou no fumo [por] um ano e meio pra sustentar a mim e ao meu irmão, que era solteiro - depois ele veio a falecer.

Eu tinha oito anos quando viemos pra cá. Comecei a estudar e nós fazíamos redação na ferrovia, aqui na estação de trem, com as Irmãs, com as professoras. 

Conheci muito a ferrovia aqui. Tinha o fumo, tinha o frigorífico, tinha a biblioteca aqui na Venâncio Aires. A gente vinha fazer pesquisa na biblioteca. 

A minha mãe trabalhava como doméstica, trabalhou na Laranjinha… Era o serviço dela depois que saiu do fumo.              

Os meus primos trabalhavam na estação de trem. O trem carregava soja, o trigo, a cama… Não tinha caminhão pra fazer transporte, pra carregamento, então eles carregavam as cadeiras e camas pra Ijuí, Cruz Alta, Porto Alegre… 

E tinha os telegrafistas. Tinha o Meneguetti, que era casado com a prima-irmã, trabalhava na ferroviária. Meu primo, esse que é casado com a minha prima, trabalhou muitos anos na ferrovia; se aposentou, os filhos dele se criaram na estrada de trem, aqui mesmo em Santo Ângelo.

A minha mãe era uma pessoa muito humilde, trabalhadeira. Lutou pra dar educação pra nós. Fechou essa [empresa de] fumo, foi pra Santa Cruz, e depois minha mãe trabalhou na Laranjinha dos Fontobra, que era ali perto, na Venâncio Aires. Tinha o depósito deles ali. A mãe trabalhou um ano ali. 

 

P/1 - O que era a Laranjinha, senhora Lourdes? Era uma fábrica?

 

R -  Era uma fábrica de bebida, de Laranjinha. Eram carregadas nas gaiotas, porque não tinha essas coisas de agora, carro pra carregar as bebidas. Era nas gaiotinhas de cavalo, eram três gaiotinhas que faziam a distribuição de bebidas pros mercados.

Eu me criei aqui na Venâncio Aires e saí dali pra me casar. Eu me casei com dezessete anos, daí fui embora pra São Luís.

A minha infância era uma coisa muito boa, mas depois que eu me casei vieram as consequências, né? Não deu certo, nos separamos. Cada um pro seu lado. Aí vim morar na casa da mãe de novo. A mãe me acolheu e ficamos ali, morando. Criei meus filhos todos ali.

 

P/1 -  A gente vai aos pouquinhos. Eu vou voltar pra sua infância e aí a gente vai chegando aos poucos no seu casamento e a sua volta pra morar com a sua mãe. 

A senhora disse que sua mãe trabalhou no fumo, depois trabalhou na Laranjinha. A sua mãe, então, se separou do seu pai.

 

R - Eram separados. Eu não conheci meu pai, nem meu irmão. Ele tinha dezoito anos quando foi pro quartel. Queria tanto conhecer o pai, mas ele nunca apareceu pra nós [quando éramos crianças]. 

Conheci ele depois, quando tinha quinze anos. Eu disse que não tinha lembrança dele, que se ele fosse pai ele teria nos criado desde pequenininhos. Hoje em dia a gente… É assim, não é fácil a vida. 

A mãe foi uma pessoa muito trabalhadeira e vencedora no trabalho. Ela dizia que nunca tinha faltado em serviço nenhum, sempre foi responsável. Ela trabalhou nessa fazenda [por] 25 anos, na fazenda dos Medeira. 

Eu fui criada [com] eles, os Medeira; tinha oito meses quando fui pra fazenda. A minha infância foi lá na fazenda. Esse homem que me deu o colégio no Colégio das Irmãs. Eu saí da fazenda com dez anos, pra estudar no Colégio das Irmãs. 

A educação que eles me deram foi de respeitar as pessoas e… Estudar um pouco. 

Era pra eu ‘tirar’ o ginásio, faculdade, outras coisas pra aprender mais, mas a cabeça não ajudou [e] o corpo padeceu. É isso aí. (risos)

 

P/1 - Essa fazenda ficava em Santo Ângelo mesmo ou em outra cidade? 

 

R - Não, era lá no Quarto Distrito, pros lados de Entre-Ijuís. 

O velho já faleceu, ele era solteirão. Ele nos criou como se a mãe fosse uma empregada [pra] administrar a fazenda. A mãe mandava e desmandava na fazenda. Ela trabalhou muito, era uma pessoa de confiança, de respeito. Ela queria criar os filhos junto com ela. 

O pessoal hoje não… Eu não sei como foi a vida… Como é que eu digo? Ela lutou pra dar respeito pra nós, pra seguirmos o caminho que ela trabalhou: saber respeitar as pessoas e trabalhar. Ela ensinou [isso] pra nós. 

Depois, eu me casei com meu marido. Não deu certo. Ele bebia muito. 

Criei quatro filhos, trabalhava nas casas pra sustentar os filhos. Nunca tinha a carteira assinada, nem a mãe. [Só quando] a mãe trabalhou no fumo é que assinaram a carteira dela, pra tirar os direitos. Mesmo assim, [ela] não teve direito nenhum. 

Meu irmão mais velho foi servir no quartel. Era o único irmão que eu tinha. Deu pneumonia nele [e] se passaram vinte anos pra ela recorrer à pensão dele. Disseram que ela não tinha direito porque ele era o filho único, daí lutaram, lutaram até arrumar a pensão pra ela. Ela ficou recebendo, mas logo faleceu. Não deu pra aproveitar.            

 

P/1 - Voltando um pouco pra sua infância, a senhora tinha outros irmãos, além desse mais velho? 

 

R -  Tenho cinco irmãos mortos. Conheci só esse, que faleceu. Ele morava conosco. Os outros eu não conheci. 

A minha infância era muito boa, muito proveitosa. Eu só não saía pra ir aos bailes, essas coisas [porque] a mãe não deixava. A mãe era sempre resguardada, dentro de casa, gostava da filha sempre junto com ela. 

Baile eu não conheci, nunca fui; festa também não. Às vezes ela me levava nas festas da igreja que saíam da catedral, ia no Colégio das Irmãs, [onde] tinha festival, essas coisas. Isso eu aproveitei, mas baile não. Era da escola pra casa, tinha meus afazeres; ela dava pra eu fazer em casa, pra eu não sair com as outras gurias. 

 

P/1 - Quando a senhora ainda estava na fazenda, como era a sua infância? Quais as brincadeiras, do que a senhora brincava? A senhora tinha amigos pra brincar?

 

R - Não. Eu só trabalhava, ajudava a mãe. Dava comida pros porcos, pras galinhas, cuidava das ovelhas. Às vezes tinha uma ovelhinha doente, com a perna quebrada; eu cuidava, dava remédio. Era o meu serviço. 

Pra fora a gente não tinha aquelas coisas como agora tem, [de] amigas, [de] sair pra casa da outra, do fulano. Era só dentro de casa. Minha infância era essa. 

Eu gostava, era uma coisa boa pra família, [pra] quem tem filho. Agora tá uma anarquia, porque não se respeita mais; Pra criar uma filha mulher tem que estar ali, sempre junto. Se não tá junto, tem coisas erradas. Tem que saber onde vai, onde não vai, e assim o rapaz… Pra saber respeitar, né? Hoje em dia tá dum jeito que não dá pra criar mulher e nem filho homem. 

Meu irmão também era chefe da fazenda. Ele cuidava dos campos, não sei quantos campos tinha pra dar sal pro gado, pra tratar, pra domar os cavalos. Tudo era com ele. O velho não fazia nada, era tudo ele e a mãe que faziam.

 

P/1 - Qual era o nome desse seu irmão? 

 

R - Era Manuel Nunes da Silva. 

 

P/1 - A senhor saiu da fazenda pra estudar com dez anos? 

 

R - Não, eu vim de lá com nove anos pra estudar. Estudei no Colégio das Irmãs, o único lugar [em] que eu aprendi foi ali. Eu estudei o primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto [ano].

 

P/1 - Em Santo Ângelo?

 

R - Em Santo Ângelo, no Colégio Verzeri.

 

P/1 -  Eu gostaria que a senhora contasse um pouquinho sobre essa época em que a senhora estudava. Como era a escola, quais as lembranças que a senhora tem da escola. 

 

R - Era uma educação muito boa, porque as irmãs ensinavam muita coisa boa pra nós. Elas nos ensinavam a bordar, fazer tricô. Cada uma tinha seus afazeres na aula. Tinha Educação Física, tinha a capelinha, nós íamos orar, conversar umas com as outras. Era uma coisa boa, que permitia a gente viver ali. 

Depois, a mãe me internou no colégio pra ela ir pra fora, [porque] não queria deixar [a gente] na casa dos outros. Fiquei seis meses no internato. Era uma coisa muito boa, ensinavam coisas boas pras meninas. A educação delas era excelente.                       

Fazíamos piqueniques fora com elas, piqueniques em Catuípe, [indo] de trem. Íamos passear em Ijuí de trem com elas. Mas tudo com as irmãs, nada sem. Tinha que ter a autorização da mãe e do pai pra poder ir com elas, senão elas não levavam. 

 

P/1 - Esses seis meses que a senhora passou no internato, foi na mesma escola? 

R - Foi sim. 

Cada uma tinha seus afazeres: passar um pano no chão, tirar o pó do escritório, limpar onde a gente estudava, passar um pano nas classes… Tudo era assim. 

 

P/1 - Quando a senhora, sua mãe e seu irmão se mudaram pra Santo Ângelo, vocês foram morar perto da linha do trem?

 

R - É bem pertinho daqui, na Venâncio Aires. Tem… Três quadras daqui, de onde nós estamos. 

[Era] perto do Correio, onde é o telégrafo, onde o Meneguetti trabalhava. O Meneguetti era meu primo, casado com a minha prima. Tinha as cartas que vinham pelo trem; ele trazia as cartas de Porto Alegre e entregava no  Correio, porque não tinha aqueles carros que carregavam as cartas. Agora tem, é tudo moderno. Pra trazer as cartas, tinha os malotes. 

Tinha o meu primo e tinha o seu Tido Ferraz, que era telegrafista da ferrovia. Era um rapaz que era meu amigo, depois foi meu vizinho. Depois fechou o museu [a estação], que foi daqui pra outro lado [da cidade], aí ele foi pro Correio [como] telegrafista. 

 

P/1 - Eu queria que a senhora contasse sobre essa casa onde a senhora foi morar quando chegou em Santo Ângelo com a sua família. A senhora se lembra de como era essa casa?

 

R - Era uma casa de madeira, de parede dupla. Uma casa muito boa, bem novinha. Meu irmão ficou ainda lá fora, ainda não estava na época dele servir [o Exército]. 

Ali eram poucos vizinhos: seu Caipe, o barbeiro na Venâncio Aires, tinha os Fazzolo, tinha o seu Copetti, que fazia o ________ de carro… Fazia de tudo, era uma oficina de carro e carroça. Vinham os colonos de fora, com as gaiotas. Às vezes estragavam a roda e ele arrumava.           

Ali era um campo, eram poucas casas ali. Tinha a casa do coronel do quartel, que era na esquina. Até agora está ali, a casa. E tinha a casa do Coronel Ferreira, mais pra baixo. Depois tinha os Tonetto, que tinham a madeireira; essas madeiras [com] que faziam casas, lenna. Os Tonetto moraram muitos anos ali, a ferrovia chegava bem pertinho da casa deles. Tinha o Miramar, que era um bolichinho ali na esquina… 

Não tinha muitas casas, agora tá cheio de casas. Tem sobrado, tem apartamento, tem tudo ali, mas de primeiro não tinha nada.  

Tinha os Ferraz na esquina, tinha os Fazzolo, que eram nossos vizinhos, os Copetti, que eram nossos vizinhos. Uns até eram meus compadres, foram padrinhos dos meus filhos - a dona Luísa e o seu Franceli Copetti. 

 

P/1 - Nessa época, a senhora já tinha vizinhos amigos, crianças pra brincar? 

 

R - Tinha, mas cada um na sua casa. Eles não deixavam os filhos brincar. Cada um tinha que ter sua casa separada, não podiam se juntar. Lá de vez em quando eles deixavam a gente conversar. 

Tinha a dona Glorinha, que era solteira, uma mocinha; tinha o Irani Caipe, o Ivoni Caipe. O seu Dirceu Caipe, que agora é um tenente reformado. Eles foram embora, todos foram embora. Os vizinhos [com] quem a gente se dava foram todos embora. Os Fazzolo, uns morreram, outros foram embora; os filhos perdem os pais e vão embora pra Porto Alegre, outros pra São Paulo, pro Rio de Janeiro… Vão indo. 

 

P/1 - Eu gostaria que a senhora me contasse alguma lembrança, alguma história da sua infância. Uma história que marcou a senhora. 

 

R - Na minha infância o que marcou foi a fazenda, que eu deixei. Eu gostava de estar lá. Até hoje eu me lembro da mãe vir embora e nós ficarmos lá. Aproveitei muito e não soube aproveitar… Porque o homem que me criou, que era um senhor de idade, eu considerava como meu pai. Ele me criou desde pequena. Eu tenho saudade daquilo ali.

 

P/1 - O que a senhora gostava mais de fazer na fazenda?   

 

R - Eu gostava de estar lá, de fazer as lidas. Lidar com as ovelhas, dar comida pras galinhas. De caminhar por lá, porque era grande, era bonito o lugar. Um lugar lindo, que não dá pra explicar. 

O homem era podre de rico, o velho. Essa casa em que nós morávamos [em Santo Ângelo] foi ele que deu pra nós morarmos. Mas depois veio a sequência de namoro, casamento, aí não deu certo. (risos) 

 

P/1 - E da escola, alguma lembrança que marcou a senhora? 

 

R - Da escola eu lembro de uma amiga minha. Era [do] mesmo sobrenome [que o] meu. A gente se dava como irmãs. Ela tinha quinze anos e eu também era mocinha. Uma repartia a merenda com a outra, era mais que uma irmã. Aquilo me marcou muito porque eu queria muito bem a ela. 

Ela faleceu, deu sarampo e matou ela. É a lembrança que eu tenho. 

Eu tinha uma paixão pelo colégio, paixão pelas irmãs porque a educação do colégio das irmãs… Não sei, era uma educação muito boa pras crianças. Ensinaram muita coisa boa. 

 

P/1 - Na época que a senhora ainda não era interna, a senhora ia de que jeito pra escola? Era a pé? 

 

R - Eu ia a pé. Naquela época, a mãe trabalhava no fumo. Ela pegava às cinco da manhã e às seis… Às oito eu ia pro colégio. Eu fazia meu café, fechava a casa e ia pro colégio. 

Ao meio-dia eu fazia o almoço, chegava às onze e meia [em casa]. Minha obrigação era fazer o almoço pra ela, chegar ao meio-dia com o almoço pronto. 

A uma hora eu tinha que voltar porque eu tinha [Educação] Física no colégio. Às vezes tinha que pesquisar, fazer um trabalho com as irmãs, então eu marcava a hora e dizia pra mãe: “A tal hora eu preciso estar no colégio.” 

Era assim, eu ia a pé e voltava a pé. 

 

P/1 - E era longe? 

 

R - Não, não era tão longe. Acho que tem umas sete quadras daqui. 

 

P/1 - A sua mãe trabalhava na fábrica de fumo?

 

R - Trabalhou um ano e meio, eu acho. 

 

P/1 - Era na Souza Cruz, ali perto da estação?

 

R - Sim. E tinha o frigorífico [ali], que era o Alibem, não me lembro o nome…

 

[voz externa] - Santo Ângelo.

 

R - Santo Ângelo, o nome do frigorífico.

 

P/1 - Depois que a senhora saiu do colégio, o que a senhora foi fazer? Foi trabalhar?

 

R - Eu trabalhei na banca do seu Romeu. Ali na praça tinha uma banca de jornal. Eu atendi os guris que vinham… Esse Jornal do Correio, que vem não sei de onde, São Paulo, Porto Alegre… Trabalhei seis meses ali na banca, pra me arrumar pra casar. Eu já era noiva de um rapaz, desse rapaz que eu enviuvei. 

Seu Romeu era uma pessoa muito boa, ele me pagava bem direitinho. Eu trabalhava das oito ao meio-dia, depois de uma e meia até as seis horas, aí eu ia pra casa. Fechava a banca. 

Eles entregavam o jornal em casa. Os meninos vinham ali, todos em fila; cada um tinha que ter a quantidade de jornais pra entregar em cada casa. Tinha o nome das pessoas no jornal. 

Foi só ali que eu trabalhei. Depois que eu me casei, meu marido trabalhava na CE [Companhia Elétrica]; trabalhou muitos anos, parece que seis anos. 

Nós fomos embora pra São Luís [Gonzaga]. Fiquei seis anos lá, não deu certo, aí vim embora pra cá.                          

                      

P/1 - Voltando um pouquinho, nessa época em que a senhora começou a trabalhar, eu gostaria que a senhora falasse sobre a presença da linha de trem na vida de vocês - tanto da sua quanto da sua mãe, do seu irmão. Vocês costumavam usar o trem?

 

R -  A gente passeava. A gente passeava na casa da dona Guilherma Dutra, casada com o Nato Dutra, que trabalhava no trem. Eles moravam no cordão dos trens, era longe, então a gente ia na casa deles passear. Às vezes, a gente brincava nos dormentos, entrava no trem pra brincar. 

Era assim. Não sei por que foram tirar tanta coisa boa pras pessoas se divertirem. O trem era uma coisa que não prejudicava ninguém. Pra que tirar dali e mudar pra outro lado? 

Era uma passagem barata pras pessoas humildes. Vai pagar uma passagem de ônibus, é ____ de cara até Porto Alegre; pra pagar uma passagem pra Santa Maria é outro preço. E o trem não, era uma passagem simples, menos do que o ônibus.

O trem era uma coisa muito útil pra Santo Ângelo. Muitas pessoas tinham o seu trabalho, tinha coisas boas ali. Não tem explicação. 

 

P/1 - A sua família tinha o costume de pegar o trem pra outra cidade? 

 

R - Nós íamos pra Porto Alegre, onde morava meu tio que trabalhou no frigorífico e foi pra lá com a família. Às vezes, [a gente] ia pra Ijuí fazer visita pros parentes. Tinha uns parentes da mãe lá.

 

P/1 - A senhora então gostava de pegar o trem. 

 

R - Eu gostava. 

 

P/1 - Como a senhora se sentia viajando? Conte alguma lembrança que a senhora tem do trem.

 

R - Eu me sentia alegre. A gente via a cidade devagarzinho, as cidades… O ônibus é correndo e o trem não, ele vai devagarzinho. A gente chamava de maria-fumaça. “Olha a maria-fumaça!”

Esse meu primo que eu mostrei o retrato pras gurias ali, ele trabalhou… Ele se aposentou, trabalhou muitos anos… Era foguista. Eu ia lá e dizia: “Eu quero ver como é que tu bota, faz esse fogo na máquina.” Ele dizia: “Então entra aí, guria.” Ele botava aquelas madeiras dentro do forno, enchia de lenha; era um calor sem tamanho, aquilo fervia. E você ia. 

 

P/1 - A senhora tinha pessoas da sua família que trabalhavam na estação de trem, na linha. 

 

R - Sim. Esse meu primo trabalhou, se aposentou. O Meneguetti, que carregava o malote das cartas, também se aposentou. E tem os outros que moravam em Porto Alegre, trabalhavam lá no trem também e se aposentaram. Mas estão todos mortos já, falecidos.

 

P/1 - Avançando um pouco mais na história da senhora, antes de se casar a senhora gostava de ir à estação pra ver os trens chegando? Era uma coisa que vocês costumavam fazer na cidade? 

 

R - Às vezes eu vinha do colégio e passava ali na estação. Eu vinha do colégio com as gurias e entrava no trem só pra… Eles faziam as manobras, trocavam de um trem pra outro; a gente entrava e ia até um pedaço, depois voltava. Era uma coisa boa, sadia. 

Tinha bastante gente que viajava, pessoas de sociedade que iam pegar o trem, que era mais barato. Enchiam a ferrovia.              

 

P/1 - A estação era cheia, então.

 

R - Era cheia. 

 

P/1 - Que memória a senhora tinha da estação? Era cheia, era colorida…

 

R - Era cheia mesmo, não dava nem pra passar na frente. [Tinha] bastante gente comprando passagem pra Ijuí, pra Cruz Alta, Porto Alegre, pra São Paulo, às vezes. Em Cruz Alta faziam outra baldeação, pra pegar outro trem e ir pra Porto Alegre. Em Porto Alegre era outra baldeação, para ir pra outros lugares. 

Esses [trens] que carregavam dormento, camas, cadeiras daqui iam até Ijuí e depois pra outros lados, pra Passo Fundo… Às vezes eu ficava olhando e dizia: “Bah, tanta gente trabalhando. Que coisa boa.”

 

P/1 - A senhora se lembra de algo que chamou atenção, de alguma história que viu acontecer quando estava na estação e se lembra até hoje?     

 

R - (risos) A única coisa que chamou atenção é que eu gostava de um rapaz que trabalhava na estação quando era mocinha. Eu passava ali só pra enxergar ele, não dava tempo de conversar com ele. (risos) 

 

P/1 - A senhora ia à estação só pra dar uma olhadinha? 

 

R - É, só pra dar uma olhada, de passagem. 

Ele era de Cruz Alta, o rapaz. Era um rapaz muito sério, muito trabalhador; ele trabalhava no trem. Não dava pra eu conversar porque a mãe não deixava, então quando chegava a hora eu vinha embora pra casa. Só olhava ele, saía e ia embora. (risos) 

 

P/1 -  Com quantos anos a senhora se casou e como conheceu seu esposo? 

 

R - Eu me casei com dezessete anos. Eu conheci ele numa tenda de Laranjinha. Aqui na Venâncio Aires tinha uma tenda, que uma vizinha… O marido dela trabalhava na Laranjinha e tinha as gaiotinhas com cavalo, então eles colocaram uma tenda pra vender as Laranjinhas pros Fontobra. Ela convidava pra eu ficar com ela lá, com o marido dela, que tinha a tenda. Eu conheci ele lá, era amigo dela.

 

P/1 - Qual era o nome dele? 

 

R - Gentil Barbosa. O pai dele carregava cama pra ferrovia, seu Geraldo. Carregava cadeira para a ferrovia, de gaiota. Naquela época, era só [assim] que eles carregavam, não tinha carro pra carregar móveis. Eram aquelas camas antigas, não eram essas modernas de agora. Carregavam no trem.     

 

P/1 -  Com o que ele trabalhava?

 

R - Ele trabalhava com… Num mercado ali na Marechal Floriano, mas eu não me lembro do nome do mercado. Ele trabalhou [por] muito tempo no carregamento de alimentos pra casa das pessoas. Quando as pessoas iam fazer ranchos, ele entregava o rancho.

 

P/1 - Depois que a senhora se casou, vocês mudaram de cidade por qual motivo? Foi por causa do trabalho dele?

 

R - Não. Ele trabalhou nos aviões, trabalhou no posto depois, logo que nos casamos. Depois ele fez um curso na CE e foi promovido pra [trabalhar em] São Luís. Ele trabalhou seis anos lá, mas não deu certo. Ele não tinha muito compromisso com o trabalho dele.

Eu já tinha uma gurizinha com quatro anos, depois veio um gurizinho e mais dois, que são filhos dele. 

 

P/1 - E como foi o casamento de vocês? Foi ainda em Santo Ângelo?       

 

R - Foi aqui. Casamos aqui. 

 

P/1 - E como foi? Foi na igreja principal da cidade? Teve festa?

 

R - Só pelo civil. Teve uma festa em casa, uma janta só. Foi só isso.

 

P/1 - Estava a sua família, sua mãe?

 

R - Tava a mãe, meus primos, meu sogro, minha sogra, minhas cunhadas. Todos lá.

Meus padrinhos de casamento, que eram o seu Valdimiro Roberto - agora é falecido - e a dona Joana. E tinha um outro que trabalhava no fumo, que era padrinho do casamento civil também; era a dona Lurdes e… Não sei qual era o nome do marido dela. Ele tabalhava no fumo, esse senhor, aí a mãe convidou ele pra ser meu padrinho de casamento. 

 

P/1 - A senhora comentou que teve quatro filhos. Qual o nome dos seus filhos? 

 

R - Celso, que é o marido da Vânia, a minha nora, que está aqui; o Rui, esse é solteirão, mora comigo; a Sandra e a Taninha, que mora em Santa Maria. Ela trabalhava na Colombo, é aposentada agora. O esposo dela é aposentado também, trabalhava na Colombo. 

E tem minhas netas. Uma é professora da faculdade e a outra viaja, faz… Viaja por uma loja, ela viaja muito. É casada também, com o Marcelo. Ela tem duas filhas, uma na faculdade e outra pequenininha… São as netas da minha filha, são minhas bisnetas.           

 

P/1 - Conte um pouco então como foi o retorno com seus filhos pra Santo Ângelo. A senhora foi morar com a sua mãe?

 

R - Sim. Eu trabalhava nas casas, nunca me assinaram carteira. Trabalhei quatro anos na casa do seu Severo, da dona Vera; nunca assinaram carteira pra mim. Ganhava trinta reais naquela época, pra sustentar quatro filhos. 

Trabalhei na casa da dona Helena Copetti três anos, nunca assinaram carteira. Fazia limpeza nas casas, ninguém assinou minha carteira também. Comprei a carteira, ninguém assinava porque não podia, não sei o quê, mas eu sempre trabalhei. 

Trabalhei… Agora me esqueci. 

 

P/1 - Não tem problema. A mãe da senhora ainda trabalhava nessa época? 

 

R - Nós lavávamos roupa, eu e a mãe, pros padres. Depois que saiu dessa fábrica da Laranjinha, a mãe lavava muita roupa pra fora, pra me ajudar a sustentar as crianças. Ela também não tinha carteira assinada, assinaram um ano e pouco. O homem lá de fora [da fazenda] também não quis mais nos ajudar, então ficamos [no] zero. 

Eu trabalhava nas casas. De onde eu morava eu saía às seis e meia e atravessava toda a cidade pra ganhar trinta reais - trinta cruzeiros, naquela época - e pagar luz e  água. E a comida? Ficavam sem. Às vezes, a mulher não queria pagar o valor. 

Trabalhei quatro anos nessa casa; [quando] chegava em casa, tinha que me virar -  lavar roupa, passar. A mãe lavava roupa pros militares, eu também ajudava ela, engomava as roupas deles. Agora não são engomadas as roupas dos milicos, são simples, mas de primeiro era tudo engomadinho, tudo bem passadinho. 

Minha vida depois de casada foi um mar de rosas. (risos) 

P/1 - Voltando um pouquinho pra essa época que a senhora ficou fora de Santo Ângelo, a senhora foi morar em qual cidade? Foi em Ijuí?

 

R - Não, São Luís [Gonzaga].

 

P/1 - E como era a cidade? Era muito diferente de Santo Ângelo? 

 

R - Eram pessoas muito humildes, de muito bom coração. Uma cidade maravilhosa. Eu não tenho queixa. Se as pessoas moraram lá e acham que a cidade é ruim, pra mim não foi. Os meus vizinhos todos me ajudavam _______, conversavam. 

Meu marido trabalhava na CE e passava três, quatro meses sem vir pra casa. Ele trabalhava na luz [energia elétrica]. E eu ficava sozinha, só eu e a guria em casa. Meus vizinhos eram uma maravilha, todo mundo me ajudava _______. Se eu precisava de uma pessoa pra pousar comigo, prontamente me davam a guria ou um guri pra pousar comigo, pra eu não pousar sozinha. 

Lá em São Luís era assim, as pessoas [eram] humildes. Encontrei muitas pessoas boas. E aqui onde a gente morava também, em Santo Ângelo, os vizinhos eram muito ‘servideiros’ pra ajudar a gente. 

 

P/1 - Em São Luís também tinha estação de trem?

 

R - Tinha. Onde nós alugávamos a casa tinha uma moça… O pai dela, que era dono da casa, era ferroviário. Nós alugávamos a casa da guria, ela não saía lá de casa. O trem passava bem na frente da nossa casa, mas eu não conheci a estação de lá.

 

P/1 - A senhora não foi de trem para morar lá? 

 

R - Não. Só olhava quando ele passava, pra ir não sei pra onde. 

Eu nunca perguntei pro pai da guria onde ficava a estação de trem. Tinha as coisas pra fazer, as crianças pra atender e ela sempre estava lá, conversando… Conversava uma coisa, conversava outra… Nunca perguntei isso pra ela. 

Era um lugar muito bom. Lá era a cavalaria do quartel, era militar só a cavalo. 

 

P/1 - Quando a senhora retornou com seus filhos, a senhora também não retornou de trem? Como a senhora retornou pra cidade?

 

R - Eu voltei com o caminhão da CE. Meu esposo trabalhava na CE. Ele ficou pra lá e eu vim embora, porque eu tinha as crianças pequenas e ele abandonou o serviço, não queria mais trabalhar. Como é que eu ia sustentar as crianças, com o quê? Casa eu não tinha como pagar, então eu vim embora pra casa da minha mãe. 

 

P/1 - E como foram acontecendo as coisas? Seus filhos foram pra escola, já estavam em idade de estudar?

 

R - Eu botei a Sandra e o Rui, que era o mais velho, no Colégio Onofre Pires. O aventalzinho [que eles usavam] era branco. Depois veio a Taninha, a Tânia, que mora em Santa Maria, também no Onofre Pires. E o Celso eu também botei lá. 

 

P/1 - Então seus filhos foram todos pra mesma escola. 

 

R - É. 

 

P/1 - A senhora continuou morando com a sua mãe? Sua mãe chegou a se aposentar? 

 

R - Não, ela não se aposentou. Começou a receber a pensão do meu irmão, mas ela não conseguiu… A pensão do meu irmão veio em 1974 e ela faleceu em 1974.

Eu fiquei recebendo essa pensão, mas fiquei recebendo menos. Era uma quantia x pra ela; como eu era filha única e ele não tinha mulher, filho nenhum pra dar aquela pensão, ficou pra mim, pro resto da minha vida. 

 

P/1 - Ele adoeceu no Exército mesmo?

 

R - É. Faleceu no Exército. 

 

P/1 - Entendi. Estava servindo ainda, ficou doente lá e faleceu. 

 

R - Sim. Deu pneumonia. Ele era um rapaz muito gordo, não se cuidava, e tinha aqueles _____ no quartel… Agora é um tapinha, uma coisa boa, não é como… Eles iam pra fora, se molhavam, passavam frio, lidavam no campo mais de mês, lutando. Agora não, agora é uma coisa mais fácil [ser] militar. 

Ali ele ficou doente e foi indo, foi indo e não se curou. Veio a falecer daquilo. Ele faleceu com vinte anos. 

Eu tinha treze anos quando ele faleceu. Ele morreu em 1951. 

 

P/1 - E sua mãe só foi conseguir a pensão em 74. 

 

R - É. Passaram vinte anos da morte dele. 

Em 74, uma senhora que era nossa vizinha mandou a gente procurar esse advogado, o Valdomiro Roberto, que era do quartel. Aí ele arrumou [a pensão] pra mãe, mas ela aproveitou… Acho que um mês, só. Deu derrame nela. 

 

P/1 - Depois que a sua mãe faleceu, a senhora continuou morando na mesma casa, com seus filhos? 

 

R - Morei ali, depois o homem queria me tirar - esse que me criou, o fazendeiro velho - porque eu era separada do meu marido. Ele queria a casa, era pra eu sair. Eu disse: “Não, eu não saio da casa. O senhor tem que me dar outra, então.” 

 

(PAUSA) 

 

P/1 - [A nova casa] ficava mais perto, mais longe? 

 

R - Ficava mais longe onde moramos, lá na vila Pippi, Vila Rosa.

 

P/1 -  A senhora teve alguma ajuda com seus filhos naquele momento, já que não tinha mais a sua mãe? Como foi isso pra vocês? 

 

R - Eu trabalhava nas casas, não tive ajuda de ninguém. Não tenho vergonha de dizer. Eu trabalhava nas casas, lutei pra criar meus filhos. Criei com amor e carinho.

Muitas mães têm filho e não sabem trabalhar. Tem mulheres que ficam esperando o marido dar, mas tem que se virar. A mulher tem que se ajudar. Se ela não se ajuda, o corpo padece. 

Eu trabalhei muito pra criar meus filhos. Nunca faltou o pão em cima da mesa. Quando eu trabalhava nas casas, eu ainda ajudava os outros que não tinham [o pão] na mesa. 

As mulheres hoje são muito acomodadas, não pensam no dia de amanhã. Elas têm que pensar no que vão fazer. Hoje em dia, elas casam… Por exemplo: não deu certo com meu marido; o que eu vou esperar de um homem que não quer nada com nada? Eu vou me virar, vou trabalhar, lutar pros meu filhos terem uma coisa boa, um ensino bom. 

“Ai, não posso trabalhar porque ele me deixou.” Não, não tem nada disso. Tem que levantar a cabeça e fazer, andar o caminho. 

Eu não passeava. Eu só trabalhava, ficava em casa com os meus afazeres. Às vezes eu ia tomar um mate na vizinha - lá de vez em quando, não era sempre. Na casa das minhas primas era difícil eu ir, porque eles moravam na Vila Pippe, eu morava aqui na Venâncio Soares; às vezes elas vinham pra conversar comigo, a gente tomava mate e conversava. Cada uma ia pra sua casa e eu ficava em casa, cuidando deles. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Retomando a nossa conversa, a gente estava falando sobre a época em que a sua mãe tinha falecido e a senhora ficou com seus filhos e mudou de casa. Eu tinha questionado se a senhora tinha tempo pra passear com seus filhos e a senhora disse que era difícil. 

Como era a relação da senhora com seus filhos? Seus filhos já estavam estudando. Eles tinham que idade nessa época? 

 

R - A Taninha estudou até o quarto ano, daí ficou em casa, não quis mais estudar. 

O Rui estudou até a segunda série. O Rui é o mais inteligente, ele gosta de estudar. Ele pega os livros, qualquer coisa ele estuda. É o que mora comigo.

O Celso também estudou, mas não o suficiente porque minhas condições não davam pra pagar um colégio bom pra ele. Eu queria que eles aprendessem, tirassem uma faculdade, um cursinho, mas Deus sabe de todas as coisas. Deus dá a inteligência conforme a natureza da pessoa, porque o Celso tem uma inteligência boa. Só aprendeu pouco.

A Sandra, que é a mais velha da família, também aprendeu pouco. Logo veio o tal namoro, essas coisas. Nunca casou, teve filhos… Namorou os homens e nunca teve sorte na vida. Sempre teve uma vida… Uma coisa assim que deu nela, não sei, mas depois que teve os filhos ela sempre se comportou em casa, foi uma excelente mãe pros filhos. Deu carinho, criou os filhos dela junto comigo. Criei os meus e os dela, a bem dizer. 

O Celso, o mais novo, que é marido da Vânia, me ajudou muito na vida. Tinha as crianças pequenas, os filhos da Sandra. Ele trabalhou muito no curtume, que era uma fábrica com bastante funcionários, tinha bastante serviço. Depois fechou, aí ele ficou em casa comigo. 

Ele que fazia as compras da casa, aí deu uma aliviada porque o meu salário era só trinta cruzeiros naquela época. Às vezes eu trabalhava numa casa das oito da manhã até as dez da noite pra ganhar cem cruzeiros; o que eu fazia com cem [cruzeiros]? Deixava as crianças todas por conta, porque os mais velhos cuidavam dos mais novos e tinha meus netos também pra cuidar.

Não era fácil a vida. Depois que eu me casei a minha vida foi difícil, sofrida. Não dá pra dizer que foi um mar de rosas. Minha vida foi muito sacrificada.

Agora agradeço a Deus, a minha vida melhorou, decerto porque eu merecia ou Deus [disse:] “Tu vai merecer coisas boas.” 

O Celso foi muito humilde, carinhoso pra mãe, e os outros também foram. O Rui, principalmente agora, ajuda muito em casa; a Sandra também me ajuda. A Taninha, lá de Santa Maria, de vez em quando vem e me ajuda. São filhos abençoados, todo mundo sabe que eu fui uma boa mãe. Acho eu que fui, eles dizem que fui. 

Com os meus netos, agora, é a mesma coisa. São os filhos da Sandra. Tem o Tiago, o Josemar, a Vanessa; todo dia estão lá pra almoçar. Eu faço o almoço, ao meio-dia estão todos lá pra almoçar. Eu faço comida pra todos, não nego um prato de comida pra nenhum [deles], tudo é igual. É assim a minha vida. 

 

P/1 - E me conte como foi isso, qual o primeiro que se casou saiu de casa.

 

R - Foi a Sandra, a mais velha. Foi pro Rio de Janeiro com o namorado. Eu digo namorado, mas naquela época já era marido. Não deu certo lá, ela veio embora e ele foi pra outro lado. Ela ficou morando comigo, mas namorou outro cara, que já deixou ela com outro filho. Depois ficou com outro, fez outro filho; depois veio [um filho do] mesmo pai do primeiro filho, então ficaram irmãos por parte do mesmo pai. Os [outros] dois não, não são filhos do mesmo pai. 

Ela agora está comportada, trabalhou nas casas. Trabalhou na casa do seu… Camaru, que é trabalhava no Banco do Brasil, queria muito bem a ela. 

Ela trabalhou muito, é caprichosa, interessada em trabalhar. Foi pra Porto Alegre, trabalhou… Eu sempre ficava com as crianças dela, pra ela poder trabalhar. Eu que cuidava dos filhos dela.    

Em Porto Alegre ela trabalhou numa loja [por] dois anos, depois ficou com saudade dos filhos e veio embora. A vida da gente é uma rosa. (risos)

 

P/1 - As coisas começaram a melhorar aos poucos pra senhora? O que melhorou, o que foi acontecendo? 

 

R - Melhorou porque eu recebi essa pensão, que era do meu irmão. Não é muito, mas dá pra sobreviver. 

Depois morreu meu marido, lá em Mato Grosso. Nós éramos separados, [mas] eu era casada com ele. Minha cunhada, que morava na Vila Pippe, disse: “Tu vai receber a pensão do teu marido, bobalhona.” [Eu respondi:] “Eu não quero pensão de marido nenhum.” Ela disse: “Não, tu vai receber porque merece. Sofreu tanto na vida com ele! Ele nunca te deu nada, te abandonou com os filhos. Vou arrumar essa pensão pra ti.”  Aí estou recebendo essa pensão dele. Também é pouco, mas dá pra… Do jeito que eu tava ganhando naquela época, tá dando pra sobreviver, pra viver tranquilo. É só saber viver. 

 

P/1 - Os filhos da senhora já estavam ajudando também, não é? Já estavam adultos. 

 

R - Sim. Agora estão todos criados, cada um tem sua casa. Os filhos da minha filha, cada um tem sua casa. As minhas netas, [que] são casadas com os meus netos... Uma trabalha no Pippe, a que é casada com o Tiago; a outra trabalha no frigorífico, a mulher do Josemar. A Vanessa trabalha numa loja, a filha da Sandra. Todos estão encaminhados, no caminho certo. Quando eu preciso de alguma coisa, me ajudam, levam alguma coisa. Sempre assim. 

Agora estamos só eu, o Rui e a Sandra em casa. As netinhas vão em casa, as minhas bisnetas. Amo as minhas bisnetas, já tenho bastante bisnetas. (risos)

 

P/1 - Eu queria perguntar à senhora sobre uma alegria que a senhora teve, uma coisa que a senhora tenha ficado muito feliz por ter acontecido na sua vida.

 

R - Minha maior alegria é ter paz dentro de casa. Eu não tinha paz quando tinha meu esposo. Eu tinha meus afazeres, limpava as coisas, nunca parava… [Quando ele] chegava em casa [era] sempre incômodo. Ele era alcoólatra, bêbado, não tinha responsabilidade com o trabalho. 

A gente podia estar muito melhor do que agora, os filhos… Ele podia ter trabalhado na CE e ter casa pra morar. Tinha terreno, podia construir uma casa boa pros filhos, pras filhas, mas não teve responsabilidade no trabalho, caiu fora. 

Os homens lá do escritório da CE disseram pra eu ir embora e deixar ele. Eles me deram conselho, os chefes dele, porque ele não tinha responsabilidade. 

Ele era muito bom quando não estava no álcool, mas quando bebia não tinha quem aguentasse. Tá louco, não tinha… Nunca adquiriu nada pra dentro de casa. 

Deus abriu meus olhos e me abençoou. Tenho tudo, graças a Deus tenho conforto na minha casa. Durmo na hora que quero, como na hora que quero, saio na hora que quero… Sou senhora do meu nariz. (risos)               

 

P/1 - Que bom! 

A gente vai encaminhando agora para o final da entrevista. Eu queria perguntar como é o dia a dia da senhora atualmente. O que a senhora faz num dia normal da sua vida?

 

R - Eu me levanto às quatro horas da manhã. Vou tomar meu chimarrão, espero meu filho chegar do serviço - ele é guarda. Depois que clareia o dia, eu vou varrer o pátio, o corredor, botar as roupas na máquina, limpo a casa… Tudo isso, esses são os meus afazeres. 

 

P/1 - Tem o almoço pra família, os netos…

R - Encaminho a comida, ponho o almoço na mesa. [Quando] chega qualquer pessoa, o almoço já tá pronto. “Quer almoçar? Já tá pronto.” É só querer sentar na mesa e almoçar. (risos)

 

P/1 - Em relação a diversão, lazer… A senhora vai à igreja, tem amigas vizinhas pra conversar? 

 

R - Não. [Com] meus vizinhos é ‘bom dia’, ‘boa tarde’. Cada um na sua casa. Na igreja sim, eu vou porque eu gosto. O único [lugar] que eu vou é na igreja, na casa dos meus filhos é difícil de eu ir. 

Faz uns três anos que eu não vou em Santa Maria ver minha filha. Agora tem essa coisa de pandemia que está dando nas pessoas, então não posso nem sair de casa. Tem que ficar em casa. E ela também não pode vir pra cá por causa disso. Ela tem o rapaz que trabalha na faculdade, o filho dela. Tem 25 anos, é meu neto. 

Eu fico em casa, fico sentada. Vou sestar ao meio-dia, às vezes não vou. Às vezes chega visita, um conhecido querendo conversar com o Rui. Faço um mate de tarde, um chimarrão com a Sandra. Fico ali em casa, não saio pra parte alguma. 

Não gosto de sair, não sou muito de festa. Às vezes fazem festa na casa dos meus netos, me convidam e eu fico ‘vou, não vou’. No fim, não vou. Eu sou do tempo antigo; fui criada assim com a mãe, criada sem festa porque a mãe não gostava. Eu também não sou muito…

Eles sim, os netos fazem churrasco na casa deles, me convidam, convidam todo mundo. Tem que ir, se não for ficam de mal comigo. (risos) 

 

P/1 -  Então agora, por causa da pandemia, tá todo mundo em casa.

 

R - Todo mundo em casa. 

 

P/1 - Quais são as coisas mais importantes pra senhora hoje em dia? 

 

R - Importante? [pausa] 

Tá difícil, as coisas estão muito caras nos mercados. A gente vai com dinheiro, não traz nada. Não tem muito serviço. Às vezes eu fico pensando: “Como é que as pessoas vão viver se não têm aquilo pra se sustentar?” Não tem emprego. Onde é que tá o emprego? 

Por que muitas pessoas roubam as casas? Porque as pessoas têm as coisas dentro de casa, mas não são capazes de dar assistência praquela pessoa. Têm tanta coisa empilhada nas prateleiras, mas não são capazes de dar um rancho, uma coisa… Não digo pra todo mundo, mas conforme a pessoa. Ajudar aquela pessoa que tá necessitada. 

Esse fumo, na Souza Cruz aqui, o fumo em que a mãe trabalhava. Quantas pessoas saíram dali? Pra onde foram? Saíram sem serviço, foram lá pra Santa Cruz. Aqui precisava ter um serviço assim, pras pessoas abrirem um mercado maior… 

Fechou o curtume. Ali tinha quantos funcionários? Faziam sapatos, faziam roupa de couro. Traziam o couro da fazenda, dos bois; o velho cansou de trazer o couro de caminhão pra vender ali. Quantas pessoas saíram dali, do curtume? 

Tinha os calçados prontos, as tamancas que eu usava… Não sei se é do seu tempo, aquelas tamancas. Faziam vestido, colete de couro, aqueles coletes bonitos; sapatos bons, que dava pra usar. Os colégios das freiras, quantos ganharam ali? As meninas queriam sapatos daqueles, compravam no curtume. Agora fechou tudo, trancaram tudo. 

Os filhos dos donos do curtume, do frigorífico ou do fumo não sabem administrar. Deixam por conta e ali vão perdendo tudo. Botam os funcionários, mas não sabem administrar. Como é que vão trabalhar? Por isso que tá essa miséria. E esse governo fazendo coisas erradas, tirando o dinheiro dos miseráveis, das pessoas que precisam. 

Agora não tem mais colégio, não tem mais educação como antigamente. Ensinavam as crianças. É uma democracia sem ética. Um dia abre, chega no fim do ano, não tem colégio; vão fazer prova, não tem colégio. 

Como é que as pessoas vão trabalhar, vão aprender? Tem que roubar, fazer coisas erradas. Quantos rapazes drogados… Rapazes bonitos, novos, de sociedade, pessoas honestas se entregando a essa porcaria que não… 

Eu digo, tem tanta coisa boa pra fazer. Abrir uma fábrica pro jovem trabalhar, mas não tem. Na ferrovia, quantas pessoas trabalhavam honestamente? Como esse meus parentes, meus primos; pessoas humildes, que se criaram no meio do barro, mas deram educação pros filhos. Tem professora, trabalhavam na CRT (?). Os pais eram humildes, mas sabiam criar os filhos. 

Hoje em dia, [tudo] tá virado numa coisa… Eu não entendo mais nada. Eu fico pensando, como é que pode? Tanta coisa boa pra fazer. 

 

P/1 - A senhora tinha comentado sobre a fábrica de fumo, que fechou também. A senhora sabe o que a sua mãe fazia na fábrica de fumo? 

 

R - O fumo chegava num saco grande. Ela desmanchava o fumo com as mãos, com as unhas, e depois enrolava numa madeira comprida. Era o trabalho da mãe. 

 

P/1 - A senhora chegou algum dia a ir à fábrica com a sua mãe? 

 

R - Ia. Não era sempre, mas de vez em quando. Eu entrava, eles… Às vezes eles nem deixavam entrar, eu ficava só na porta. Eu ficava no escritório, porque não dava pra entrar. 

Era aquele cheiro, muito forte, sabe? Faziam o fumo e depois botavam lá nas formas. Eram umas madeiras compridas assim [abre os braços], um pegava na ponta e outro na outra. 

 

P/1 - A senhora tem algum sonho, algo que a senhora ainda gostaria que acontecesse? 

 

R - Olha, meu sonho… (risos)  Meu sonho é tirar na loteria. (risos) Toda a vida, é o meu sonho.                              

 

P/1 - Quem não sonha com isso, né?

 

R - É, era esse meu sonho. (risos)

 

P/1 - Se a senhora ganhasse, o que iria fazer com o dinheiro? 

 

R - Eu iria repartir com meus filhos, ia comprar uma casinha pra cada um deles, pros que mais precisam. Eu tenho jogado na ______. Meu sonho é ajudar meus filhos. Eu peço a Deus. 

Eu vou dizer pro senhor, eu vou tirar, hein? O senhor vai ser testemunha. (risos)  

 

P/1 -  Vamos torcer! Que Deus ajude. 

A gente vai encerrar agora a entrevista. Eu queria perguntar o que a senhora achou de compartilhar, contar a sua história pra gente. 

 

R - Eu achei legal, foi uma coisa boa dar o meu testemunho. Gostei muito de conversar com o senhor, uma pessoa muito legal. Que Deus abençoe o senhor, ilumine seus caminhos. 

 

P/1 - Obrigado!

 

R - Que o senhor vença o que deseja na sua vida. E pros funcionários [da gravação do vídeo] aqui também, que Deus abençoe.

 

P/1 - Eu que agradeço pela entrevista da senhora, por se dispor a ir até o museu [do cinema] dar esse depoimento. Agradeço em nome do Museu da Pessoa e da Rumo, que está patrocinando esse projeto de memória. A gente conversa com as pessoas pra se lembrar de como era a cidade, como era a linha do trem. 

Agradeço muito. Boa tarde!

 

R - Boa tarde. 

   


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