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História

Sozinho para a vida

História de: Humberto Caneloi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2019

Sinopse

Em seu relato, Humberto Caneloi relembra momentos de sua vida, conta sobre sua infância enfrentando dificuldades financeiras, relembra como conseguiu seu diploma do primário por um telecurso, cita seu interesse por meditação e esoterismo e como ele concilia seus interesses com a sua religião católica. Por fim, fala sobre uma mágoa que tem do seu irmão por um problema que eles tiveram ao trabalhar juntos.

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História completa

P/1 – Senhor Humberto, vou pedir para o senhor dizer seu nome completo, onde o senhor nasceu, o nome dos seus pais, de onde vieram seus pais.

 

R – Eu escrevi aquela ficha que você deu, eu dei para você a ficha. Tem que dizer assim não precisa ler a ficha, né?

 

P/1 – Pode segurar o microfone.

 

R – É Humberto Caneloi, meu pai era filho de italiano, mas é falecido, minha mãe veio de Nápoles, veio para cá em 1920.

 

P/1 – Por que eles vieram aqui para o Brasil?

 

R – Só a minha mãe que veio, o pai dela trouxe, né? Se vocês quiserem eu tiro os óculos, isso aqui é um óculos inventado por um mexicano...

 

P/1 – (risos) Sim, são óculos inventado por mexicano. Bom, então o senhor nasceu aqui em São Paulo?

 

R – Foi.

 

P/1 - Que bairro o senhor nasceu?

 

R – Nasci na Rua Hipódromo.

 

P/1 – Que fica?

 

R – Fica no Brás, que é ali perto, antigamente, em São Paulo, existia o Hipódromo, morava por lá em 1900 e, talvez 1920, até o Doutor Caruso lá, né? Diz que foi lá na Rua Hipódromo... Agora Hipódromo é Cidade Jardim, não é? Mas já teve no Brás também.

 

P/1 – O senhor mora lá ainda?

 

R – Depois mudei para Vila Maria, agora mudei para o Brás. Agora você não aparece mais?

 

P/1 – Não, nem estava aparecendo.

 

R – Ah, você não apareceu?

 

P/1 – Apareci um pouquinho. E os seus pais são vivos ainda?

 

R – Não, meu pai faleceu. Meu pai faleceu.

 

P/1 – A sua mãe é viva?

 

R – É.

 

P/1 – E como foi? Eles casaram aqui em São Paulo?

 

R – Casaram.

 

P/1 – Foram morar no Brás?

 

R – Aí eles foram para Rua Pires da Mooca, já passaram pelo Cambuci, depois no Brás, depois Vila Maria onde nasceram todos os meus irmãos.

 

P/1 – E o senhor estudou?

 

R – Eu sou autodidata, né? Eu gosto muito de ler, diploma secundário eu não chego a ter, fiz três anos de comércio, né? Mas escola, que tem diploma secundário, isso aí eu não tenho. Tenho só o diploma primário. Eu tirei a primeira vez em 1943, depois teve um curso pela televisão, que a gente comprava umas apostilas, e tirei novamente o diploma primário. Assim, sozinho, né?

 

P/1 – O senhor falou que é autodidata, como autodidata?

 

R – Não, que eu gosto de ler, os assuntos que eu converso não aprendi na escola, aprendi por mim mesmo, curioso, assim, né?

 

P/1 – E o que mais lhe interessa? Que tipo de assunto?

 

R – Então, eu estava falando para você, antes de começar a entrevista, que eu fiz meditação transcendental, né? Eu fiz macrobiótica, mas na macrobiótica, você não pode... Quando come aquele arroz integral, você não pode tomar remédio, uma vez eu passei um nervoso, me subiu a pressão, aí tomei um remédio, fez um mal desgramado, não pode... Aí a gente precisa viver o dia a dia, não deu, aí eu larguei, né? Mas assim, esoterismo, religião, essas coisas eu gosto.

 

P/1 – O senhor sempre se interessou por isso?

 

R – A meditação transcendental está muito... Os Beatles foram instruídos pelo Maharishi, né? Ele tem uma vibe igual a mim. Você já ouviu falar sobre Maharishi? Que os Beatles...

 

P/1 – Não.

 

R – Então, também o Maharaji, que é um outro guru que é baixinho, gordinho, hoje mesmo tem no Largo do Arouche uma meditação, uma palestra sobre ele, né?

 

P/1 – E desde quando o senhor se interessa por isso?

 

R – Eu acho que... Eu acho que desde garoto, assim.

 

P/1 – Quantos anos o senhor tinha quando começou?

 

R – Quando eu comecei? Então, sempre gostei muito de ler, então todos os assuntos que eu lia... Ah! Desde garoto, não sei precisar a idade.

 

P/1 – Qual foi o primeiro do senhor na leitura?

 

R – Eu ia muito na Biblioteca Municipal, ali na Rua... Na Mario de Andrade, na Consolação, então eu lia... Mas não sou fanático também, esse negócio de assim, de esoterismo, que tem esse negócio de sair fora do corpo, essas coisas, eu não sou. Eu sou mais católico, mais...

 

P/1 – Ah, o senhor é católico?

 

R – É, sou católico, não fico com muita fantasia não.

 

P/1 – A sua família é católica?

 

R – Sim, católicos.

 

P/1 – O que o senhor lembra da sua família que o senhor acha que faz parte da religião católica?

 

R – Bom, faz parte da religião católica ser batizado, antigamente confessava, né? Agora já quase não faz... Ia à missa todos os domingos, missa do sétimo dia, tem os mandamentos, né? Tinha que seguir os mandamentos.

 

P/1 – O senhor seguia os mandamentos?

 

R – (risos) Procura-se... Agora na missa eu vou sempre, né? Agora não roubar, não fazer nada disso pra não prejudicar nada, né?

 

P/1 – O senhor casou?

 

R – Não, sou solteiro.

 

P/1 – Solteiro? O senhor sempre viveu em São Paulo ou morou em algum outro lugar?

 

R – Não, sempre em São Paulo.

 

P/1 – E o seu primeiro emprego, qual foi?

 

R – Deixa-me ver... Eu acho que foi em uma gráfica, assim, mas de verdade eu já catei até papel na rua.

 

P/1 – Ah, é? O senhor catou papel na rua?

 

R – Já, já, tudo vai das circunstâncias, né? Mas foi em uma gráfica, depois na Light, sabe o prédio da Light no Viaduto do Chá? Também lá.

 

P/1 – E qual foi o momento da vida do senhor, que o senhor achou mais difícil? Que o senhor teve dúvidas se iria conseguir? Qual foi o momento mais difícil da vida?

 

R – Dúvidas a respeito do que?

 

P/1 – O momento que o senhor acha que foi o momento mais difícil da sua vida.

 

R – Aí é difícil viu? Eu tive muitos traumas, abalos do sistema nervoso já tive muitos.

 

P/1 – Mas o senhor acha que eles eram provocados pelo o quê?

 

R – Questão de parente, família. Sempre tinha aquela lucidez, mas ficava abalado, né? Pobreza, essas coisas, onde nós morávamos, às vezes, saia encrenca com a dona da casa, a gente criança assistindo isso, um dia meu pai naquela pobreza ficou meio assim desarvorado, né? A gente fica, né?

 

P/1 – E o seu pai era pobre?

 

R – Pobre. Era sapateiro, as vezes, não tinha dinheiro nem pra gente fazer compras, por isso que ele do Brás passou para Vila Maria, por causa disso.

 

P/1 – E o que o senhor lembra da sua infância? Fala um dia da sua infância?

 

R – Eu chegava do grupo escolar, ajudava arrumar a casa e depois ia jogar bola, ia nadar, né? A infância teve muitos aspectos felizes, na Vila Maria, sabe onde é a Sociedade Paulista de Trote?

 

P/1 – Sei.

 

R – Sabe? Ali na Vila Maria? Ali era uma lagoa, a gente nadava lá, essas coisas.

 

P/1 – Hoje o senhor faz o quê?

 

R – Hoje eu sou office-boy, ganho um salário mínimo, 39 mil, descontando INPS, essas coisas.

 

P/1 – O senhor morava onde?

 

R – Na Rua Maria Marcolina no Brás, mas é que onde eu moro é de um irmão meu, sabe? Se fosse eu pagar, não conseguiria, né? Tenho um irmão que está bem de vida, né?

 

P/1 – Ah, o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho, tenho. Tem loja.

 

P/1 – O que seu irmão faz?

 

R – Ele é dono de loja.

 

P/1 – Ele é dono de loja. E o senhor trabalha?

 

R – Eu trabalho de office-boy, nessa firma eu estou desde 74, eu não sei se a firma vai fechar porque um ex empregado autônomo está movendo um processo contra o meu patrão, diz que tem que pagar 14 milhões, ou 26, tem duas quantias lá, se ele não dar um jeito vai penhorar, né? Os juros, aquela coisa toda, sabe? Então, eu posso até perder o emprego e ficar... Não fui aposentado, nem nada.

 

P/1 – O que o senhor vai fazer? Quais são seus planos para o futuro?

 

R – Não tenho plano nenhum. Eu tenho irmão que é bilionário, ele tem uma loja sabe aonde? Na esquina da Direita, com a Praça da Sé, aquela Nelson das Bolsas, já viu lá? É dele aquela loja (risos).

 

P/1 – O que o senhor faz hoje? Em um sábado, hoje o senhor vem aqui...

 

R – Não, ele tem um negócio lá em Lindóia, é que a gente vai pegar problemas familiares, eu não sei se interessa para vocês, né?

 

P/1 – A gente quer saber da vida do senhor, né?

 

R – É? A gente não perde nada em esconder também, né? A gente esconde tanto e não adianta nada, né? Ele tem em Águas de Lindóia, tem uma danceteria lá, né? Eu ia lá pra lavar copo, ganhava 7 mil por noite, um dia um camarada da empresa dele disse: “Estou precisando de um violão”, ele disse que se eu quisesse trazer, aí eu trouxe lá, disse que ia trocar por um trombone, mas o trombone não... Eu fui soprar não consigo, eu fui devolver, aí meu irmão viu assim: “Onde você vai levando isso daí?”, eu falei: “Quero conversar com o cara, que não quero mais o trombone”, ele falou: “Você está estragando meus empregados, você não pode fazer isso”, e tal e já não quer mais que eu vá para lá. Eu ganhava sempre um dinheirinho de sábado e domingo, “Essa barba fica feia, você vai lá, está me envergonhando”.

 

P/1 – Essa barba fica feia? Ele acha? O que o senhor acha?

 

R – (risos) Não sei, às vezes, a gente está meio revoltado e deixa crescer (silêncio). Essa entrevista não tem nada a ver com o Museu da Imagem e do Som, né?

 

P/1 – Tem a ver sim. O que o senhor faz no final de semana? O senhor antes trabalhava, né?

 

R – Mas hoje que eu não fui, por causa disso, ele disse que se eu vou vender o violão para o cara, vai estragar o empregado dele, então ele achou que eu não... Eu quase não converso com cara, só apenas vender o violão, você me dá uns 20 mil, alguma coisa, vim com uma caixa pesada, sabe? Já me ajudava, né? Mas ele não... Eu, justamente, aproveitei, eu ouvi essa propaganda, eu vim aqui por causa disso daí, porque se não, talvez eu estava indo para Águas de Lindóia.

 

P/1 – Estava?

 

R – Indo para Águas de Lindóia.

 

P/1 - Ah, sei. Agora, senhor Humberto, eu vou pedir para o senhor dizer alguma coisa que o senhor gostaria de deixar gravado para o Museu da Pessoa, fala o que o senhor quiser...

 

R – Eu queria pedir desculpa para quem assistir, dessa negatividade toda que eu transmiti, né? Mas acho que tem... Nem sei o que dizer. O que você acha que eu poderia dizer para o Museu de Arte?

 

P/1 – O que o senhor acha da sua vida?

 

R – Eu acho que São Paulo é um grande centro cultural, que a gente vendo essas palestras, essas coisas, a gente tem a oportunidade de ver coisas boas que existe gente boa no mundo que deixa a gente ver esses livros, essas coisas, ver os artigos, eu acho bonito isso daí.

 

P/1 – O senhor acha bonito?

 

R – São Paulo tem... Você se interessa por macrobiótica tem, você se interessa por meditação transcendental tem, esoterismo tem, catolicismo tem, qualquer coisa que, né? São Paulo no Brasil, talvez São Paulo e Rio...

 

P/1 – O senhor acredita em Deus?

 

R – Claro, eu vou na missa todo domingo, quase diariamente. Acredito por exemplo, que o padre quando benze a hóstia lá, ele tá transformando aquilo no corpo de Cristo, isso é só o católico que acredita, as outras religiões ali não é nada que está acontecendo, agora quem tem fé, acredita, quem não é católico acha que não está acontecendo nada, quer dizer, por aí já vê que eu acredito na sobrevivência da alma, em Cristo, em Deus, no nosso Pai e no Espirito Santo.

 

P/1 – E como você faz a ligação da religião católica com esse interesse em esoterismo?

 

R – Esoterismo, por exemplo, acredita na reencarnação, né? O católico acredita que só morre uma vez, né? Esse negócio de mil vidas, isso é pela cabeça de cada um, eu fui condicionado dessa maneira. Então, para mim, eu posso ler tudo quanto é... Aquela madame que viveu na ilha, essas coisas, eu já li tudo isso daí, eu posso ler por, chama de (letrantismo?), né? Mas não encaixei com... Essas outras meditações posso fazer, mas reencarnação, é que nem o judeu tem a fé firme dele, o mulçumano, o católico também. Católico são meio covardes, quase ninguém fala nada, tem medo de dizer, então os outros tem as religiões deles, o católico tem medo de dizer no bar que é católico.

 

P/1 – Então, faça a sua despedida.

 

R – Eu queria agradecer a mocinha, como é seu nome?

 

P/1 – Claudia.

 

R – A Dona Claudia, e pessoal que tão gentilmente se interessaram por mim, acharam um cara meio curioso e tal, com a barbicha, tudo. Entrevistaram e eu aceitei, só que eu não falei nada de interessante, eu só falei da vida particular quase, não tem nada a ver.

 

P/1 – Tá bom, muito obrigada!

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