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História

Sou mais eu

História de: Maria das Graças Nogueira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/01/2021

Sinopse

Infância simples no Ceará. Casamento e mudança para São Paulo. Maternidade. Abertura de uma empresa de documentação imobiliária. Preconceito por ser mulher e nordestina.

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História completa

Eu sempre tive muita curiosidade de aprender, e gostava muito. Eu queria ser uma das primeiras assim, tirar as melhores notas. Na infância eu não lembro muito bem, mas na adolescência, a gente tinha um orientador na classe e a escola tinha vídeo aula. Então a gente prestava nas aulas, e depois, qualquer dúvida, tirávamos com o orientador que tinha na classe. Eu gostava muito de estudar

 Depois, não consegui continuar estudando, porque vieram os filhos e eu não pude continuar. Só agora, com quase 50 anos, que eu saí do trabalho, porque não conseguia conciliar, porque eu entrava nove da manhã no consultório, e como era só eu, às vezes eu saía oito horas da noite. Eu não tinha como estudar. Não sei se com a idade, me bateu aquele desespero, aquela vontade de estudar. Pedi demissão, prestei o vestibulinho, passei e fui fazer o curso de auxiliar administrativo. Fiz, depois fiquei procurando outros cursos para fazer, e estou aqui (risos). Fiz o curso do Mil Mulheres, fiz alguns cursos online. Tento estudar sozinha, faço inglês pelo aplicativo Duolingo, vejo alguns vídeos pelo Youtube.

Ah, por ser mulher, acho que encontramos dificuldade sempre em tudo, não só no trabalho. Não só o fato de eu ser mulher quando eu ia no cartório ou quando ia no registro, mas pelo fato de ser também nordestina. Eu sofri preconceito duas vezes, pelo fato de ser nordestina e por ser mulher.

Você chegava no fórum para dar entrada em uma certidão [para a empresa que eu tinha com meu marido], chegava no balcão, ficava ali, as pessoas me olhavam… Aquilo era horrível. As pessoas me olhavam e fingiam que eu não estava ali. Chegava uma advogada, ou alguém com uma aparência boa, e rapidinho vinham atender. Aquilo me… Mas me fortaleceu, porque eu sempre fui muito assim. Na hora, aquilo me chocava e me deixava triste, mas eu nunca deixei que isso me colocasse para baixo. Eu olhava, ficava triste, mas depois ficava: "Não, por que? Problema dele, o coitado é ele que age dessa forma, eu estou bem". Me colocava firme lá, aí que eu me impunha mesmo, para que ele me desse atenção. Mas ser mulher sempre foi, e é sempre muito difícil. Como eu disse, sou mulher e nordestina, então nós sofremos um preconceito muito grande, mas eu nunca permiti… Isso me magoa, não vou falar que não, me deixa triste, mas eu nunca permiti que isso me mudasse. Por que? Não precisa. Sou mais eu (risos).

Aqui em São Paulo, sempre sofri preconceito. Eu sofri na escola quando cheguei aqui. Eu tinha uma professora de História que fez uma coisa muito feia, acho que prefiro nem comentar aqui, e era pelo fato de eu ser nordestina. Alguns colegas me chamavam de "baiana louca". Eu falava: "Eu não sou baiana, sou cearense. Eu sou do Nordeste, mas não sou baiana, você está confundindo, precisa estudar um pouco mais de geografia. Bahia está lá e Ceará está mais aqui". Mas eu sempre sofri muito preconceito, sempre. Sofri preconceito no emprego. Eu lembro de uma história engraçada, que eu estava no consultório, e tinha uma moça que estava grávida, e falava insistentemente que queria falar com o médico, só que o médico estava em consulta e não podia atender.

A orientação que a gente tinha era de anotar o recado, e, se fosse alguma coisa urgente, telefonava na hora da consulta e avisava, mas ela queria porque queria, e o médico achou que o caso dela não tinha uma urgência para ele parar de atender e falar com ela.

Então ela veio para o consultório, chegou no meio de todos os pacientes que estavam lá, e falou: "Você é uma simples nordestina que está aí fazendo o seu trabalho", e me ignorou. Foi triste, mas eu me mantive e falei: "Olha, me desculpa, mas eu só estou seguindo uma orientação. Eu passei o seu recado, o médico não pôde atender porque estava ocupado, mas ele iria ligar para você depois", mas foi muito humilhante da parte dela. Tanto que outros pacientes que estavam ali ficaram horrorizados com o que ela fez. Aquilo foi uma tristeza, eu fui para o banheiro e chorei, mas lavei o rosto, passei batom e voltei. Então preconceito a gente sofre. Quando você chega em algum lugar, a pessoa te olhar dos pés à cabeça, porque eu sou nordestina, porque pelos meus traços eles percebem... Agora, muito menos, acho que está havendo uma mudança. Lentamente está havendo uma mudança. Acho que essa nova geração que está vindo, já é uma geração mais consciente e menos preconceituosa. Eu percebo que está havendo uma mudança, ainda muito pequena, mas tem.

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