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História

“Sou livre e desimpedida”

História de: Sandra Maria de Oliveira Jesus
Autor:
Publicado em: 17/03/2022

Sinopse

Infância e cuidados com os irmãos. Período escolar. Casamento forçado e gravidez na adolescência. Separação. Trabalho como costureira, frentista, instrutora de auto escola, taxista, motorista de ônibus e motorista de caminhão. Situações engraçadas e desafiadoras na entrada. Desafios e aprendizados. Pandemia. Sonhos.

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História completa

P/1 - Sandra, primeiro eu queria te agradecer demais pela disponibilidade, por estar aqui com a gente e dividir um pouco da sua história. E para começar, eu gostaria que você se apresentasse dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R - Eu me chamo Sandra Maria de Oliveira Jesus, nasci no mês de março, sou ariana, dia 31/03/1969. Vou fazer 53 anos. Natural de Itapeva, estado de São Paulo e profissão motorista.

 

P/1 - E quais os nomes dos seus pais?

 

R - Pedro de Jesus e Olívia de Oliveira Jesus.

 

P/1 - E com o que eles trabalhavam, ou trabalham?

 

R - A minha mãe sempre foi dona de casa, dona do lar. Eu sou uma dos treze irmãos, a mulher mais velha da família, são dez vivos, e eu sou a mais velha das mulheres, então ajudei a criar os irmãos, e meu pai sempre trabalhou em construção civil.

 

P/1 - E como você descreveria eles, o jeito deles, a relação de vocês?

R - Eu descrevo meus pais como um exemplo a segui-los, fui muito bem criada, na base rígida de antigamente, que se fizesse maldade apanhava mesmo. Eu descrevo como não tem pais melhores para mim, graças a Deus, criaram todos muito bem criados, todos, orgulho de assinar Jesus.

 

P/1 - E seus irmãos, como era a sua relação com eles?

 

R - Bem, mas naquele estilo… eu, como sou a mais velha, ajudei a criar os irmãos, eles têm um pouco de medo de mim como a irmã mais velha, mas todos se dão muito bem, a gente é muito unidos, tem um certo respeito, os caçulas tem um certo respeito comigo.

 

P/1 -  Sandra, você chegou a conhecer suas avós?

 

R - Sim, a minha bisa morreu com 109 anos, a minha avó morreu com noventa anos. O meu pai está com noventa anos.

 

P/1 - Que recordações você tem dos seus avós? Da sua bisa, da história deles?

 

R - Eu tenho muita saudade. A recordação que eu tenho é a comida, o sítio, o pinhão, a avó vinha ver a gente, ela trazia o pinhão. Hoje não se encontra mais panela de ferro, fogão a lenha, bem sítio.

 

P/1 - Que comida você lembra?

 

R - Virado de feijão com ovo que a minha avó fazia, gordurinhas de porco. Tirava um porco, matava, aquelas carne de porco de lata, hoje não tem mais isso.

 

P/1 - Você lembra de alguma história marcante com a sua avó, com o seu avô que você queira dividir, algum momento gostoso?

 

R - A minha avó… eu lembro que quando ela veio morar com a gente, ela estava bem de idade. Eu chegava do serviço e todo dia eu trazia um iogurte para ela, eu era mocinha ainda, eu trabalhava de caixa no mercado, e todo dia que eu chegava onze e meia, meia noite, eu tinha que ir lá dar um abraço nela, era sagrado. Se eu chegasse e não fosse lá vê-lá, ela não dormia.

 

P/1 - Sandra, você sabe a história do seu nascimento, como escolheram o seu nome?

 

R - Sei, eu me chamo Sandra Maria, porque a primeira menina da minha mãe era Sônia Maria e ela faleceu com três anos, a mais velha. Depois dela teve mais dois homens, e quando eu nasci, o meu pai foi lá e colocou Sandra Maria, em vista dela, que era Sônia Maria.

 

P/1 - E você, lembra da sua casa de infância, o bairro?

 

R - Tudo, tanto que esses tempos atrás eu voltei para Itapeva, eu fui lá na casa onde eu nasci e falei para o senhor: “No dia que eu me aposentar, eu vou comprar essa casa de volta”. Rua Gil Bernardino, 195.

 

P/1 - E como ela é? Que memórias você tem dessa casa de infância?

 

R - Hoje ela está mudada, virou um sobradinho, mas é uma casa de piso vermelho, aqueles pisos queimados de antigamente que a gente encerava na mão. Está bem mudada, mas eu tenho bastante lembrança dela.

 

P/1 - E quando era pequena, vocês dormiam todos juntos ou eram separados, como era?

 

R - Era uma criançada, um junto com outro, esquentando o outro, pouca coberta. As meninas separadas, os meninos em um quarto, e as meninas no outro.

 

P/1 - E brincadeiras de infância, você se lembra?

 

R - Carrinho de rolimã, brincar de Betty, esconde esconde, aquele bate Maria, eu tenho o meu até hoje, são duas bolinhas que você fica assim, bate uma na outra.

 

P/1 - Você brincava com os irmãos, ou tinha vizinhos também?

 

R - O tempo que dava a gente brincava com os irmãos, com os vizinhos. Eu brinquei muito pouco, eu fazia mais crochê, desde pequena eu aprendi a fazer crochê, fazia bastante sapatinho, a gente brincava muito pouco. Eu, como irmã mais velha, não dava muito tempo de brincar, era lavar fraldas dos irmãos, ajudava a cuidar da casa e o tempo que dava fazia crochê.

 

00:08:17

P/1 - Sandra, nessa época pequena, você pensava no que queria ser quando crescesse? Com o que você gostaria de trabalhar?

 

R - Não, eu gosto muito de Biologia, sempre fui bem em Biologia. A gente não tinha sonhos: “Vou ser médica, vou ser professora”, não. A gente não teve muita opção, não teve muita escolha, então a gente se agarrou nas primeiras oportunidades que tivemos.

 

P/1 - E quais foram essas oportunidades?

 

R - Aquilo que eu sempre falei, as oportunidades são conforme você vai crescendo. Eu, desde pequena fazia o crochê, eu fui fazendo curso, antigamente era tudo mais fácil, hoje é mais difícil até para você estudar, antigamente você tinha mais opções de trabalho, mas não era igual hoje, hoje está ali em um patamar, hoje um nível de masculino com feminino, a gente está na igualdade hoje.

 

P/1 - E como era a sua rotina de infância?

 

R - Cuidar dos irmãos, quando dava o horário de ir à escola, você ia, quando chegava de tarde… a gente não tinha água encanada, então a gente buscava água de mina, enchia os baldes, no outro dia da manhã lavava roupa dos irmãos, deixava a louça toda lavadinha, depois ia para escola, a rotina sempre foi essa.

 

P/1 - E que recordações você tem da escola?

 

R - Eu era muito bagunceira na escola, eu era terrível, e nunca repeti um ano.

 

P/1 - O que você aprontava?

 

R - Eu brigava igual homem, eu era terrível, só que a gente brigava na escola, chegava em casa e apanhava de novo por ter brigado na escola. Eu era terrível, a turma falava: “Ó o Sandrão”, me chamavam assim, aí por causa de me chamarem de Sandrão, eu brigava mais.

 

P/1 - Você lembra de alguma história marcante que você queira compartilhar?

R - Uma história marcante? Época de gincana que a dona Mari fazia, professora de Educação Física, a gente saia para pedir prenda, o pão maior, nós sempre fomos campeãs das gincanas. Tinha jogo de basquete, era uma classe contra classe, competindo, só que era tudo coisa saudável. O pão maior que a gente ia buscar na padaria real lá no centro, vinham dez pessoas com aquele pão, trazendo um bolo mais bonito, era competitivo os pontos ali, eu tenho muita saudade dessa época.

 

P/1 - Você ficou nesta escola até o Segundo Grau, ou você mudou?

 

R - Eu estudei nessa escola do terceiro ano até a oitava série. Fui fazer o colegial no centro da cidade, eu estudava à noite nessa época, eu fiz o colegial eu já tinha minha filha.

 

P/1 - Então conta pra gente um pouquinho como foi essa mudança de escola? Esse período de ficar um pouco maior?

R - Eu terminei a oitava série e logo casei, o pai fez eu casar porque eu era meio terrível mesmo. Eu logo engravidei, meu casamento não durou muito tempo, a minha menina tinha um ano e oito meses quando eu me separei. Eu entrei em uma empresa para trabalhar e eu fui estudar à noite, eu queria porque queria fazer o colegial. Eu trabalhava de dia, vinha no horário de almoço para casa correndo, dava banho na menina, levava ela no parquinho, deixava na escolinha, voltava, chegava de tarde e estudava, chegava todo dia à meia-noite. E consegui vencer, em três anos fiz o colegial e eu ainda vou fazer faculdade, se Deus quiser.

 

P/1 - Vi que era bem puxado nessa época.

 

R - Bem puxado. Eu tive todo o apoio da mãe também, que me ajudou muito cuidando da menina pra mim. Graças a Deus eu consegui vencer.

 

P/1 - E como foi seu casamento?

 

R - Um desastre, para você ter uma ideia, no dia do meu casamento eu gostava de uma outra pessoa, eu de noiva na minha festa, eu chorando e meu ex namorado lá na frente chorando, na festa, na escada lá, e todo mundo vendo. Foi um desastre o meu casamento, uma experiência que eu não quero nunca mais para mim.

 

P/1 - Você se lembra como você se sentiu nesse dia?

 

R - Muito, não tem como esquecer. O casamento estava marcado para às nove e meia, eram onze horas e eu nem tinha saído de casa, não queria casar.

 

P/1 - E não tinha como não ir?

 

R - Não tinha como não ir, me pegaram no laço, bem frustrante.

 

P/1 - E vocês foram morar juntos, como foi esse período?

 

R - É, a gente casou no sábado, na terça-feira eu fui internada com infecção de urina, fiquei trinta dias internada, foi bem complicado, eu já estava grávida, fiquei trinta dias internada para segurar a menina.

 

P/1 - Como foi descobrir que você estava grávida?

 

R - Eu não sabia, não sabia nem o que era uma gravidez. A mãe criou a gente no mundo fechado, a gente não tinha muita experiência. Eu criei minha filha aberta, conversando tudo, explicando tudo, mas eu fui criada tapada, fechada. Desde quando eu fiquei mocinha, não sabia nada, nada, nada, nada, a mãe tinha vergonha de contar, explicar a vida de uma mulher, como é a sequência da vida, os antigos eram assim.

 

P/1 - E como foi se tornar mãe ainda menina?

 

R - Brincar de boneca, coisa que na minha infância eu não brinquei, só que era brincar de uma boneca viva. A gente amadurece, aprende.

 

P/1 - E seu marido te ajudava. Era parceiro de alguma forma na criação?

 

R - Não, nada, nada.

 

P/1 - Como você conseguiu, como foi esse período? Como vocês terminaram, conta um pouquinho?

 

R - Eu trabalhava e cuidava da casa, a menina mamou até três anos, tinha o meu irmão que eu amamentava também. O meu irmão caçula é seis meses mais novo que a minha menina, então os dois mamavam em mim, eu trabalhava e o marido não ajudava em nada, o marido só vivia encostado em bar, eu tinha que cuidar da casa, trabalhar, cuidava da menina e cuidava do meu irmãozinho também. Chegou um certo limite que não dava mais para continuar aquele casamento, não dava, porque às vezes eu não tinha nem tempo de ver o que eu tinha dentro de casa, às vezes eu ia em um mercado que era perto, eu via a minha televisão no mercado, eu via meu liquidificador, tudo o que ele trocava, tirava de dentro de casa e levava, um valor de dívida que ele tinha no bar, e era o dia inteiro no bar, então eu decidi com dezessete anos que era mais fácil eu ficar com a menina, do que eu ficar com o marido arriscando arrumar mais um filho. Eu pedi a separação, fui viver sozinha e não voltei para casa dos meus pais, fiquei com a menina trabalhando, foi nessa época que decidi voltar a estudar, emagreci que eu era muito gorda, comecei a me cuidar, usar maquiagem, usar uma calça comprida, fui me cuidando, me cuidando e estou até hoje sozinha. Depois disso, logo ele faleceu, caiu na bebida, não aguentou o tranco. Na realidade, ele caiu na bebida, se envolveu com droga, perdeu a perna, foi amputada, deu trombose, ele já tinha problema e faleceu pesando trinta quilos.

 

P/1 - E como foi esse período de voltar para a escola, o que representou na sua vida ter vencido essa etapa?

 

R - Olha, gratificante, um sonho, uma esperança a mais o estudo, eu não sei explicar, mas é uma coisa muito gratificante, você se torna mais e mais importante do que você já é, você saber que debaixo de luta você conseguiu, você conquistou. Eu só não fiz faculdade ainda porque eu tinha que criar a menina, mas eu ainda vou fazer, eu quero fazer Psicologia, se Deus quiser, quero fazer uma Psicologia mais envolvida com trânsito, quero me envolver com trânsito.

 

P/1 - E sua filha ia junto ou não?

 

R - Na escola não, ela ficava com a mãe à noite.

 

P/1 - Sandra qual foi o seu primeiro trabalho?

 

R - Meu primeiro trabalho registrado foi como costureira de fábrica.

 

P/1 - Quantos anos você tinha?

 

R - Quinze anos.

 

P/1 - E sem ser registrada?

 

R - Sem ser registrada, antes eu fazia aquilo que eu falei, eu fazia muito crochê, eu fazia sapatinho, mantinha, casaquinho, eu não podia ver uma mulher grávida, eu corria atrás das mulheres tudo para vender meu crochê.

 

P/1 - E como foi essa experiência nessa fábrica?

 

R - Foi bom, aprendi bastante, mas eu vi que ali não era o que eu queria, ser costureira, ficar fechada, eu não consigo ficar fechada dentro de uma fábrica das sete às cinco, eu tenho que sair, andar, ver gente nova, conversar, então ali eu vi que não era pra mim, eu saí dali e fui trabalhar em posto de gasolina de frentista. Dê posto de gasolina, eu comecei a pegar o caminhão, manobrar, trocar óleo. Um dia o meu patrão falou: “Não quero ver você na rampa”. No outro dia eu estava lá trocando óleo, e eu fui pegando gosto para a coisa, saí do posto de gasolina, fiz um curso de instrutora de auto escola, comecei a dar aula, medo de dirigir, comecei a dar aula, só que eu não estava contente, não era ainda o que eu queria. Virei taxista, fui trabalhar no táxi, sofri dois assaltos, todo dia eu passava na empresa de ônibus, deixava um currículo, o guarda não aguentava mais me ver todo dia, até que eu consegui entrar. Virei motorista de ônibus, trabalhei doze anos com ônibus em Sorocaba, eu estava contente.

 

P/1 - Me conta um pouquinho melhor como foi… a sua idade quando você era frentista e depois virou instrutora?

 

R - Eu dei aula [por] pouco tempo em Sorocaba, eu dei aula, acho que foi uns dois, três anos só, eu tinha quase 25, 28 anos, a minha menina tinha quatorze anos. Hoje ela tem 35.

 

P/1 - E você não ficou muito tempo e foi para o táxi?

 

R - Isso, não fiquei muito tempo na auto escola porque o rendimento era muito pouco, o serviço era bom, mas o salário era pouco e eu precisava ganhar mais porque eu tinha menina, pagava aluguel tudo, daí eu fui para o táxi, mas eu trabalhava por conta no táxi, eu sofri dois assaltos no táxi e fiquei com medo. O primeiro assalto até que não foi tão pesado, mas o segundo sim, quando eu vi que Deus me tirou dali, eu falei: “Chegou a hora, não dá mais”, é um serviço muito perigoso. Você não sabe quem está carregando ali dentro.

 

P/1 - Como foram esses assaltos? Você quer dividir com a gente, se for difícil, não!

 

R - O primeiro foi uma grávida, acredite se você quiser, uma grávida com uma barriga falsa. Peguei ela na rodoviária, era um casal, eu pedi para ele sentar na frente e ela atrás, ele falou para mim que ela estava passando mal e que ele precisava sentar atrás, foi em uma terça-feira de carnaval, quando rodei uns dois, três quilômetros, ele já anunciou o assalto. Eu falei para ele: “Calma moço, a moça está grávida”, ela foi e arrancou a barrigona de borracha e jogou. “Ah meu Deus, eu não acredito nisso”. Falei: “Calma, abaixe isso daí, pode levar tudo”, eu bem calma. O segundo assalto foi depois de seis meses, certinho de diferença um do outro. Eu peguei uma senhora na rodoviária, uma senhora mesmo, bem senhora mesmo, de uns 65, setenta anos, bem idosa, e no meio do caminho, ela foi pegar o neto dela e era um assalto. Eu trabalhava com um prisma na época, e atrás tinha um cilindro de gás, eles me jogaram lá atrás abraçada no cilindro e foram embora, e eu consegui escapar dos dois assaltos. Daí eu vi que não era para mim aquilo lá. Eu estava arriscando a minha vida e eu tinha uma menina pequena em casa. Graças a Deus, Deus abriu as portas para mim, eu entrei na empresa de ônibus.

 

P/1 - Como foi esse momento para você começar a dirigir ônibus?

 

R - Eu não entrei direto como motorista. A empresa não recolhia direto, e como eu já pilotava caminhão em um posto de gasolina, puxava, tinha as manha, eu entrei no lavador, lavava o ônibus, fazia banheiro de rodoviária, trabalhava à noite. Teve um teste, eles viram como era muito ágil, eu fui no teste e passei. Geralmente você pega um micro ônibus para começar a trabalhar, fazer linha, eu fazia a linha da Toyota, e geralmente você fica dois anos no micro para depois e por ônibus grande, eu fiquei dois meses e dezoito dias só, fiz o teste para o carro grande, passei de primeira e fiquei doze anos no ônibus.

 

P/1 - E tem alguma história marcante dessa época?

 

R - Não, marcante no ônibus não tem, só tenho saudade do lenço, andava bonitona, maquiada, depois eu te mando foto para você ver como eu estava no ônibus, cabelinho curtinho, chanelzinho, todo sábado fazia unha, tinha que andar bem arrumada, andava de salto. Tenho saudades.

 

P/1 - Sandra, mas como era, no ônibus você transportava pedestres?

 

R - Isso, a gente fazia a fábrica, ônibus fretado, eu fiquei um tempo no fretado, fui para o circular, fiz rodoviário também.

 

P/1 - E nesse período, qual foi o mais marcante para você? O trabalho que você mais gostou de fazer?

 

R - Caminhão. Depois do ônibus eu fui trabalhar com concreto, eu sou a única mulher de Sorocaba que trabalhou com betoneira. Me ensinaram, eu entrei na de bloco para mexer com fundação, eu não tinha noção o que é bater concreto, o snap, eu aprendi e fui trabalhar com betoneira, era até bonito me ver entrar na obra, os cara pagavam o pau, só aventura. Fiquei dois anos.

 

P/1 - Como foram esses dois anos? Como era essa rotina?

 

R - Eu saía de manhã. O concreto não tem horário, às vezes era agendado para às sete horas da manhã e não tinha horário para chegar em casa, às vezes dava complemento, eram oito, nove horas e você estava em obra ainda, virava. Quando eu fazia o concreto no centro, você trabalhava a noite inteira, que o caminhão não podia rodar de dia. Teve uma vez que cheguei em uma sexta-feira às oito horas, e fui parar na terça-feira às dez horas da manhã. Viramos o final de semana, porque é uma coisa que não pode parar, e às vezes dá complemento.

 

P/1 - E depois desse trabalho, para onde você foi?

 

R - Eu fui para a carreta, trabalhei em uma carreta particular, trabalhei com meu irmão mais velho que é carreteiro, depois eu entrei na Luizinho.

 

P/1 - Quantos anos você tinha quando você começou a trabalhar com carreta?

 

R - Uns 28, trinta anos, faz tempo.

 

P/1 - E qual foi a sua maior motivação, como surgiu o seu interesse em trabalhar com caminhão?

 

R - Eu acho muito chique, eu sempre admirei as mulheres no volante, a independência, é muito chique uma mulher no volante, independente se ela é magra, gorda, nova, velha, independente de idade, é a independência, a conquista da mulher.

 

R - E quando você decidiu entrar nesse mercado, você teve apoio dos seus familiares, do seu irmão?

 

R - Não, só falavam que eu não ia aguentar, porque a vida na estrada é muito difícil, e realmente, a vida na estrada é muito difícil, hoje está mais fácil, mas antigamente o preconceito… hoje tem mais mulheres trabalhando, mas antigamente foi bem complicado, não tive apoio não, só falavam: “Você é louca, você não vai conseguir, é muito pesado”, e eu estou aqui, conseguindo.

 

P/1 - Qual foi essa primeira viagem, você se lembra?

 

R - Lembro que, com caminhão eu puxava tarugo do Rio para Três Lagoas, no Mato Grosso.

 

P/1 - Como foi?

 

R - Bem frustrante também. Caminhão quebrado, três dias parada na estrada, um caminhão. O patrão não estava nem aí, foi complicado.

 

P/1 - E como é que você se sentiu, como foi, para você, essa viagem?

 

R - Olha, eu quase desisti, mas aquilo, a fortaleza da gente, eu pensava muito na menina, eu queria ganhar mais, eu queria fazer profissão, eu queria ser reconhecida como motorista, mas eu quase desisti. Estava indo para Três Lagoas, caminhão quebrado, fiquei oito dias na beira de estrada, fazia cabaninha para banho, não tinha banheiro. Hoje você já acha um banheiro feminino na estrada, antigamente não tinha, você tinha que deixar uma pessoa cuidando da porta para você poder tomar um banho, ou tomar banho de balde.

 

P/1 - E depois dessa viagem cheia de desafios, como foi voltar para casa e ver que você tinha conseguido, qual era a sensação?

 

R - Sonho realizado. Eu consigo, eu vou, fui engatilhando uma viagem em cima da outra, fui pegando mais conhecimento, fui amadurecendo mais, outros conhecimento, amadurecimento, você liga para um que foi para tal lugar, seus próprios companheiros te ajudam.

 

P/1 - Sandra, nesse seu começo com seu irmão, como foi trabalhar com ele?

 

R - Trabalhar com meu irmão não deu certo, não pagava direito, não se mistura família com trabalho.

 

P/1 - E antes você fazia viagens e vocês se acompanhavam, é isso?

 

R - Sim.

 

P/1 - E depois você foi fazer sozinha?

 

R - Sozinha.

 

P/1 - Como foi trabalhar sozinha?

 

R - Ah, outra coisa, bem correto… completamente diferente os patamares ali. Aquilo, você consegue, você pode, você acredita em você mesma. Você vê o resultado da lista, entrega para a empresa aquele resultado, você conseguiu.

 

P/1 - O que você costumava transportar?

 

R - A gente puxava ferro, vergalhão, tarugo. A gente carregava no Rio, o tarugo, trazia a célula mitral em Três Lagoas. O próprio tarugo virava um vergalhão, carregava o vergalhão, e subia para Piracicaba. De Piracicaba eu descia para o Porto de Santos, carregava sal no ____ e descia para Duque de Caxias na Petrobras. E às vezes carregava adubo.

 

P/1 - E os lugares, como era viajar, conhecer novos lugares, novas pessoas, como é isso para você?

 

R - Muito gratificante, a cada dia você está em um lugar, são pessoas diferentes. Hoje mesmo, o meu serviço hoje faz muita entrega, então você faz muita amizade, você conhece lugares diferentes, você vê a necessidade que tem por aí, tem muita coisa que se acompanha pela televisão, mas você ver na prática, você ver ao vivo ali é outra coisa. Igual a primeira vez que eu desci para o Sul, eu tinha muito sonho de conhecer o lado Sul, nunca tinha ido, conhecia a trabalho, mas ver o mar é muito gratificante, muito gratificante. Eu estava lá na Bahia esses dias atrás, estava lá em Camaçari, a comida, o tempero é muito forte, a água é insalubre, eu passei mal de tomar água lá, fiquei dezessete dias para ir e voltar. Eu gostei, só que você acompanha pela televisão, você conhece pela televisão, mas quando você vê na prática, a necessidade assim… Igual a Brumadinho, a gente vai direto para Minas, Sete Lagoas, e desde a tragédia de Brumadinho eu acompanhava pela televisão, Mariana. Agora, quando eu passei naquele rio, no igarapé, que eu vi o que é Brumadinho, deu uma tristeza tão grande, você vê tudo devastado, aquelas crianças… é triste de ver, só quem passa é que vê.

 

P/1 - E você troca com as pessoas que moram na cidade, tem contato, dá tempo de conversar, conhecer um pouco?

 

R - Onde eu chego eu faço amizade.

 

00:43:48

P/1 - Sandra, tem alguém, nesses anos de viagem, que foi um encontro marcante que você teve?

 

R - Encontro marcante… deixa eu ver… Foi, em Juatuba. Conheci um motorista lá, muito triste a história dele, até hoje eu tenho amizade com ele. Ele foi contando a história de vida dele, a menina dele tinha sumido agora no mês de dezembro, a menina de treze anos, a filha dele criada, que ele não podia ter filho e ele adotou essa menina, e a menina fugiu com um cara de 22 anos, e ele chorava, até agora ainda tenho contato com ele, e essa menina sumiu lá de Minas e veio aparecer aqui em Rio Claro, a polícia achou ela aqui em Rio Claro, está com quinze dias. Ele ligou para mim contando que a filha dele tinha aparecido. Todo dia eu falava com ele: “Tenha fé que ela vai aparecer”. É triste você ver um filho perdido por aí, você não sabe onde está, se está bem, se está com medo, se está alimentando, treze anos, menina de tudo.

 

P/1 - Sandra, qual é a importância para você de ver, conhecer esses lugares e ver na prática, como você estava falando não só na TV, mas vendo a realidade das pessoas… isso te transforma de alguma forma, isso mexe com você?

 

R - Mexe bastante, em partes fortalece ainda mais a gente, graças a Deus, porque se você olhar para trás talvez tenham situações bem piores, você vê as necessidades por aí. Quando eu abro minha cozinha, parece que Deus multiplica meu feijão, meu arroz, todo mundo come comigo. Eu vejo pessoas com falta de oportunidade, ou a gente não sabe o que aconteceu, o porquê que estão na rua, o governo parece que está abandonando os brasileiros, olha o preço que está o feijão, o arroz, o gás, a luz.

 

P/1 - E dessas viagens todas, tem alguma situação engraçada, curiosa que você tenha enfrentado? Algum dia muito gostoso?

 

R - (Risos). Aí, curiosa, engraçada… Aí, engraçado. Teve uma situação, menina. Eu passei mal na estrada, devido a uns temperos fortes me deu revertério na barriga, e eu parei em dois postos e eles não deixaram eu parar o caminhão. Eu fui tentando até chegar em outro posto, e não deu tempo deu chegar até o banheiro, não deu tempo. E a minha carteira estava no bolso da calça, e chegou em um certo local que eu fui obrigada a jogar a calça fora, e eu joguei a carteira junto, e o cartão do caminhão de abastecer também, estava na minha carteira, e eu joguei. Enrolei ali, fui caçar um banho. Rodei 120 quilômetros para frente. Quando eu bati a mão no bolso: “Cadê minha carteira?” Voltei 120 quilômetros atrás da calça, do uniforme. cheguei lá, a calça [estava] no mesmo lugarzinho, bati a mão, falei: “Carteira no bolso, todo meu dinheiro, documento”, peguei a calça - olha a vergonha que eu fiz - peguei a calça, coloquei em uma sacolinha, tirei a carteira e joguei no lixo, falei: “Isso é para eu aprender, não jogar sujeira fora, tem que pôr na sacolinha e descartar no lugar certo”. (Risos).

 

P/1 - E você já enfrentou alguma situação desafiadora na estrada?

R - Já, bastante. É caminhão quebrado, ficar horas, meia noite sozinha no escuro aguardando socorro, caminhão sem freio e pedir a Deus para tirar você dali, faz parte da história da vida.

 

P/1 - E como é ser mulher, dirigir sozinha, enfrentar todos esses desafios, voltar para casa cheia de história?

 

R - Cada viagem é uma surpresa, cada viagem é uma emoção. Eu falo para o meu chefe: “Com emoção ou sem emoção?” Ele fala: “As suas são todas com emoção!” Cada viagem é uma história, cada viagem é uma emoção, cada viagem é um aprendizado, você aprende todos os dias. Teve uma vez que eu estava com a carreta em São Paulo e o GPS me jogou no Cambuci, em uma rua onde a carreta não virava, e eu carregada de açúcar, o povo todo buzinando, “tinha que ser mulher”. E eu não conseguia sair dali, o que eu fiz? Liguei na polícia, os homens foram me tirar de lá, eu errei a rua, o GPS me jogou aqui, antes que eu leve uma canetada, já liguei logo no 190. A polícia militar fechou uma rua, voltei dois quarteirões de ré para poder tirar. Esse dia eu levei tanto xingo, mas tanto xingo, imagina minha mãe, que a turma xinga.

 

P/1 - Sandra, você já enfrentou alguma dificuldade no trabalho por ser mulher, algum preconceito?

 

R - Já. Já fui confundida… Eu como motorista já fui confundida… na língua dos motoristas, mulher de ruas se chama pé de cabra. Às vezes a pessoa fala: “Quem é o motorista?” Eu falo: “Eu sou a motorista”. Eles falam assim: “Você? Não tem cara”.

 

P/1 - E como é isso para você?

 

R - Hoje eu não me importo mais, antigamente doía na gente, hoje não me importo, já me acostumei. Antigamente era bem mais difícil você trabalhar como motorista, do que hoje. Hoje os homens também te apoiam, eles te ajudam. Antigamente não. Hoje você encosta em um posto, vai soltar um ____, os próprios colegas vem te ajudar. Você: “Ô motô, dá uma força pra mim? Dá uma olhada lá atrás para mim, eu vou colocar esse caminhão na doca ali!” Parece que quando você chega com um caminhão, uma carreta, em um lugar que você pede ajuda para um, vem dez. Todo mundo quer te ajudar, te elogia, quer ficar rodeando você, trocar ideia. Está evoluído hoje.

 

P/1 - E o que você acha que aconteceu para essa mentalidade ter mudado de uns tempos para cá?

 

R - Eu acredito que o machismo diminuiu, a mulherada entrou no mercado de uma certa maneira… o que os homens não fazem, as mulheres fazem, eles viram que eles estão perdendo.

 

P/1 - E quais são as principais barreiras e obstáculos em uma área que culturalmente é considerada masculina?

 

R - Eu acho que a maior dificuldade, eu não sei para as outras mulheres, eu acho que varia muito, mas acho que as dificuldades para as mulheres ainda são os postos, banho, usar um banheiro. Os postos têm que ser adaptados para as mulheres.

 

P/1 - E como é para você dirigir sozinha nas estradas? Você se sente segura nas estradas? 

 

R - Sempre, me sinto bastante segura, a gente tem que procurar parar onde tem mais movimento, não parar em qualquer lugar. Eu me sinto bem segura.

 

P/1 - Sandra, na cabine o que você gosta de fazer? Nas viagens, você vai cantando, vai conversando, como é?

 

R - Eu canto o dia inteiro, às vezes passa um e deve pensar: “Essa mulher, eu acho que não bate bem da cabeça, não”. Se você me ver às dez horas da noite, me ver às seis horas da manhã, eu estou com menos sorriso, feliz.

 

P/1 - E na empresa onde você trabalha tem bastante mulher?

 

R - Estão contratando, agora tem umas seis ou sete, só que a mulherada ali é meio medrosa, não encara muito, não viaja muito igual eu. Eu sou a única que viajo lá, elas ficam mais em volta da família, eu já falo que o pardal que eu tinha eu já soltei a muito tempo, sou livre, desimpedida… vou embora.

 

P/1 - E você foi uma das primeiras a entrar nessa empresa?

 

R - Fui a primeira.

 

P/1 - E como foi para você ser pioneira?

 

R - A cobrança vem, inveja, eu prefiro trabalhar com homem do que com mulher, mas é com muita cobrança também. Eu fui a primeira mulher. Ele está lá, agora estamos contratando mais.

 

P/1 - E como você lida com essas cobranças?

 

R - Para mim é normal, eu acho que a gente que é empregado, a gente tem que dar o melhor da gente, é uma sequência igual dominó, todo mundo é cobrado. Eu pedi para entrar, eu pedi serviço, eu não pedi caminhão, e só caminhão móvel para mim, então já tem uma série de inveja de outras mulheres. Chegou um caminhão novo, é meu, não que eu pedi, mas o chefe me dá, então fica aquele atrito. Qualquer caminhão que chega lá é da Sandra, “Sandra vai buscar”. Quando fizeram um vídeo meu na carreta da LZN, tem um vídeo lá que está no site deles. Das mulheres, tudo ali é a Sandra, é a Sandra. Então elas têm um certo ciuminho desse vídeo que a empresa fez de mim, mostrando o empoderamento da mulherada, as mulheres se sentem assim, não que elas sejam menos do que eu, mas eu acredito que elas se sentem menosprezadas também. Eu falo para elas: “Cada uma tem o seu potencial, cada mulher tem o seu potencial, nós somos todas iguais ali”. Eu falo para elas: “Independente se é uma loira, tem morena, se é gordinha”, a mais gordinha sou eu, a mais velha sou eu, eu não me sinto a mais velha, a mais gorda do que elas, e elas têm esse tipo de equilíbrio ali, eu não sei explicar sobre. Eu não me sinto nem menos, nem mais, para mim são todas iguais. Eu falo para elas: “Vamos nos unir, é uma calçando a meia no pé da outra, vamos nos amparar, uma depende da outra”, mas não, elas sempre ficam com um pezinho atrás.

 

P/1 - Sandra, como é para você essa questão de dupla jornada de trabalho? Como foi criar sua filha, estar na estrada e ficar um tempo longe? Como você concilia tudo isso?

 

R - A necessidade, isso fala primeiro. A gente consegue conciliar. Eu praticamente não vi minha filha crescer, quando eu vi ela já estava namorando, e praticamente eu não curti minha filha, a vida inteira eu trabalhei, e quando você vê o tempo já passou. 

 

P/1 - E nesse meio tempo, quanto seu trabalho estava acontecendo… na sua vida pessoal, você conheceu outra pessoa, como foi?

 

R - Não, quando a minha menina era pequena eu não quis arrumar, porque ter uma filha dentro de casa, tem que colocar o respeito. O jeito que meu pai me criou, eu criei ela, eu sempre falava: “Depois que ela casar, eu vou arrumar alguém”, acabou que ela cresceu, virou mãe, casou e eu trabalhando. Agora já passou, eu não me vejo casada com um homem dentro de casa.

 

P/1 - E como foi se tornar avó?

 

R - Eu chorei muito, envelheci, chorei muito, não acreditava, você não aceita, os meus irmãos todos zuando, só caiu a ficha depois que eu vi a carinha dele quando nasceu. Hoje ele tem dezoito anos.

 

P/1 - Sandra, o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer?

 

R - Escutar música. Eu sou muito reservada, eu não sou de sair, tem um único lugar que eu gosto bastante, na minha folga no domingo eu vou no pesqueiro, ficar debaixo de uma árvore lá quietinha, não sou de me enturmar com várias pessoas, mas eu gosto muito de pesqueiro.

 

P/1 - E a pandemia, como foi esse momento para você, influenciou no trabalho, na vida pessoal ou não?

 

R - A pandemia influenciou bastante, os hábitos, o distanciamento, você não pode ver pai e mãe sem estar vacinado. A pandemia deu uma quebrada, bastante. Mas agora sobre o serviço a gente não sentiu muito, no meu serviço não sentimos muito, não deu uma caída. Mas o distanciamento social, a saudade das pessoas, os amigos que se foram ou não, que não tiveram tempo de se vacinar, que se foram, está difícil para acabar.

 

P/1 - Sandra, você falou que ficou muito tempo distante da sua filha, mas vocês são próximas hoje, como é? 

 

R - Somos, a gente se fala muito por telefone, porque o serviço dela é muito corrido e ela toma conta de três lojas aqui em Sorocaba, da Rede Movida. Tem a menina também, o tempo que ela tem eu estou na estrada, o tempo que eu tenho, porque eu estou aqui em casa, ela tá na correria dela, mas a gente se fala bastante.

 

P/1 - E esse seu esforço valeu, você se sente realizada?

 

R - Muito, muito realizada, só gratidão a Deus.

 

P/1 - E pensando em toda essa trajetória profissional e tanto tempo com caminhão, quais foram os maiores aprendizados que você consegue tirar desse trabalho?

 

R - Do caminhão eu acho que muita coisa, primeiramente é o conhecimento de estrada, a gente fica mais forte, para as necessidades que a gente encontra por aí. As barreiras, você se torna tão forte que ajuda a poder compartilhar um prato de comida com aquele que não tem. Cada dia é um aprendizado, você se torna… você fala: “Puxa vida, hoje eu não estou muito bem”, depois você olha para trás e vê aquela mãe com aquele monte de filhos sem ter o que comer, você fala: “Não, estou bem sim, graças a Deus minhas pernas estão normais, meus braços, tenho força, vamos trabalhar”, então você está bem, você se torna bem, você não reclama, eu não reclamo. É muita necessidade que você vê por aí.

 

P/1 - E como é para você ser mulher, dirigir caminhão, trabalhar nessa área? O que representa isso na sua vida? O que significa?

 

R - Eu acho que é vitória. É um mundo diferente, a mulherada está ali, antigamente as mulheres não podiam nem trabalhar, os maridos não deixavam, era só cuidando do filho e cuidando de casa. Hoje você vê, tem até mulher que pilota avião, você vê o tanto que evoluiu o mundo. Mulher pedreira, na área da construção civil. A mulherada deixou o marido para trás e vamos trabalhar, as mulheres, hoje, não dependem mais de pensão de marido, levantou a cabeça, as mulheres acordaram para o mundo, não ficam mais apanhando de marido dentro de casa.

 

P/1 - E quais são os seus maiores sonhos?

 

R - Meu maior sonho… eu quero fazer faculdade, e quero me aposentar, daqui seis anos eu vou me aposentar, mas eu vou continuar trabalhando. E depois que eu me  aposentar eu quero viajar, passear, curtir minha aposentadoria.

 

P/1 - Sandra, a gente está caminhando para o fim, mas queria te perguntar, você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar alguma história, algum período da sua vida que eu não tenha te perguntado?

 

R - Não.

 

P/1 - E você, gostaria de deixar alguma mensagem para essas mulheres que estão chegando, vão te assistir?

 

R - Eu queria dizer que o sonho se torna realidade se você acreditar em você mesma, no seu potencial. Para quem está começando agora: A estrada não é fácil, mas se você tem um sonho, lute, corra atrás dos seus objetivos que a vitória vem, acredite.

 

P/1 - Ai, que delícia. Como foi para você ter dividido um pouco dessa história com a gente? Ter passado essa tarde um pouquinho com a gente, ter se lembrado de tudo isso?

 

R - Muito legal, muito gratificante, queria agradecer essa oportunidade, a LZN também, agradecer eles por terem me indicado para você, gratidão mesmo. E o Wandinho está lá esperando, querendo saber da nossa conversa, eu falei que depois eu ligava para ele. Agradecer a oportunidade que essa empresa está dando pra gente, as portas estão abertas para as mulheres. E só agradecer, bastante a vocês, a empresa, e a oportunidade de falar um pouquinho de mim também.

 

P/1 - Eu também te agradeço muito, por contar tudo isso, por dividir um pouco da sua história. Eu sei que mexe muito, são muitas coisas que, às vezes, a gente não acessa há muito tempo, mas foi muito gostoso, muito obrigada.

 

R - Eu te falei naquele dia que a gente conversou, que eu sou uma sobrevivente de feminicídio. Gratidão a Deus primeiramente, e acredite que as coisas boas virão, basta ter fé.

 

P/1 - Você gostaria de comentar um pouco mais sobre isso ou não?

 

R - Não.

 

P/1 - Sem problemas.

 

R - É relembrar uma parte que a gente tem que procurar virar a página. Isso só me fortaleceu. Me tornei ainda mais forte!

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