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História

Sou dona de mim

História de: Sonia Regina dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Sônia Regina, por gosto do pai, seria Sueli. Acabou vencendo a vontade da mãe. Adorava andar de bicicleta e, de forma geral, brincadeiras de meninos. Subia em árvore e não sabia descer - o pai tinha que tirá-la. Nunca gostou de estudar. E o pior é que frequentava a escola onde sua mãe era merendeira. Conheceu o marido nos bailes da vida. Primeiro namoro sério. Tem um filho, sua jóia rara, que sempre reclamou de não ter um irmão. A doença da mãe - Alzheimer - e as complicações daí decorrentes, levaram-na a um processo depressivo. Durou três anos e doeu demais, principalmente porque as pessoas não acreditavam. Mas teve o apoio de gente desconhecida, de instituições, da própria fé, de psicólogos e, um dia, pôde enfim dizer: “estou curada!”. Voltou a fazer tudo que sempre fez e de que sempre gostou. Como o ‘rap’.

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História completa

Por vontade de meu pai, eu seria Sueli. Acabou ficando Sônia Regina por gosto de minha mãe. Sônia Regina dos Santos desde 03 de fevereiro de 1961. Paulistana, da Freguesia do Ó. Meu pai, já falecido, era vigia - dormia no emprego, só vinha para casa final de semana. Minha mãe era merendeira. Meu pai era um ‘gato’. E mulherengo. Minha mãe era bonita. E um pouco triste. Tenho só uma irmã. Mais nova.

 

Eu sempre fui assim do tipo molecona - minha avó dizia que eu era moleque! Brinquei até os dezessete anos, adorava bicicleta mas tinha outras preferências: carrinho de rolimã, peão, skate, empinar pipa e andar de perna de pau. Ou seja, tudo que era brincadeira de menino. Hoje já não sei mais andar de skate: comprei um para mim recentemente, fui andar no Minhocão… Só consegui andar sentada. Eu era menina, mocinha, veja só, queria ser modelo quando crescesse. E outra lembrança que guardo dessa época é que minha mãe tinha deixado de ser doméstica para ser merendeira e com o primeiro salário, na Páscoa, me deu uma bicicleta. Uma bonita Monark azul que eu tive até há pouco tempo. Até então, eu só andava em bicicleta dos outros. Agora, escola… Decididamente eu não gostava de estudar!


Sobre o trabalho dos meus pais, eu me recordo de estudar na mesma escola em que minha mãe trabalhava. Meu pai, eu já grandinha, queria porque queria comprar um SP2 que tinha lá no emprego dele, à venda. E, curiosamente, cismou que eu gostava de melancia: me acordava às dez da noite porque ele havia trazido uma. Quanto ao carro, até hoje não dirijo - tenho medo. E, espantosamente, a melancia eu aprendi a gostar. Ainda dessa época, eu coleciono outras lembranças: minha mãe não nos obrigava a fazer nada em casa - certamente por isso eu sou uma dona de casa sofrível; era raro sairmos os quatro juntos, em geral minha mãe é que nos levava a passear - Ibirapuera, Parque da Água Branca... E, imagina, uma sacola de feira com rapadura cortadinha! Por outro lado, havia a questão sofrida da moradia - principalmente eu adolescente. É que naquele tempo não havia propriamente uma casa, era um barraco. Então, a vergonha… Tentava esconder dos colegas, namoradinhos, onde eu morava. Mas, voltando à casa,  eu gostava de subir no pé de mangueira que havia. Só que depois não conseguia descer, meu pai ia lá me resgatar. Xingava muito, mas pelo menos não batia. E na escola? O constrangimento da minha mãe porque eu não queria estudar. E o apelido que permaneceu: ‘mortadela’. Por causa do meu lanche de mortadela, o cheiro… Ah, e um atropelamento na porta da escola, eu correndo atrás da menina por causa do pôster que ela havia surrupiado! Outras lembranças? Ficar moça e não ter qualquer esclarecimento; os namoricos; os bailinhos; a primeira paixão; o primeiro baile de verdade, que me encantou com luzes, globo girando…


Eu fugia pela janela, minha mãe pensava que eu estava dormindo. (...) e depois, quando eu comecei a ir para discoteca - porque era no tempo do Dancing Days - eu curti bastante.


Guardo também a lembrança de situações engraçadas, como por exemplo, o pedido de demissão porque achava que o local era mal assombrado - depois vim a descobrir que o barulho estranho que eu ouvia eram simplesmente pombos! Ou então, a bronca no cara que não parava de olhar para o meu lado: “O senhor perdeu alguma coisa?” “Eu perdi a visão há quase trinta anos!”. O oferecimento de lugar na condução para a suposta grávida e a constatação de que eu havia confundido banha com gravidez!


Aí veio o primeiro namoro sério, ficamos juntos - e estamos até hoje - resultando num filho maravilhoso, meu tesouro. Que quando era pequeno, no entanto, me fazia passar vergonha na reunião de pais com as redações em que declarava ser o único menino do mundo que não tinha irmão. Conheci meu marido em um baile. Meu pai não gostou dele: casaco de couro, cabelo black power… Mas ele sempre respeitou meu pai. Que, por sinal, morreu sem conhecer o neto. Já minha mãe, sempre o apoiou justamente por ele ser respeitoso. E ela e meu filho sempre foram grandes companheiros - ela cuidando dele para eu trabalhar, ele levando-a para todos os shoppings possíveis. Só que hoje ela está com Alzheimer. É muito triste e para mim, em especial, é muito difícil. Começa que eu não consigo trocar, nem dar banho… E as pessoas acham que eu não quero. Mas eu não consigo. Agora, também não significa que eu não cuide dela: passo o dia e as madrugadas tratando, dando remédio, alimentando, vigiando para não fugir, arrastando as coisas para ela não sair. Então, é duro, é doloroso. E foi aí que entrei num processo severo de depressão.


Tipo assim… Eu não estou preparada para ser mãe da minha mãe.


Eu fiquei três anos enterrada em um sofá, porque eu não conseguia ânimo para fazer o que quer que fosse. E ninguém entendia, todo mundo achando que era fingimento. Nisso, minha mãe, sob os cuidados da minha irmã, levou um tombo e trincou três costelas. Pelo menos três meses hospitalizada. Então eu, que já estava ruim, fiquei péssima. E as pessoas aí me julgaram mais ainda, porque eu tinha aquele bloqueio do trocar e do banho, e isso me impedia de revezar no hospital. Em seguida, um problema sério com minha sobrinha, gravidez, sair de casa, etc. e eu não sei nem direito como aconteceu, mas quando eu vi estava a família da minha irmã acampada lá em casa. E eu já não conseguia ir a um supermercado, fazer as tarefas de casa, cozinhar, nada… prostrada… o caos!


Aí, quando se chega nesse ponto, as pessoas começam a acreditar e a sugerir soluções. Meu cunhado me levou ao psicólogo. Dali eu fui para o psiquiatra. Tomei remédios fortes, melhorei um pouco. Foi aí que conheci, pela televisão, Luci e Alexandre Gameiro. Que me acolheram, conversaram bastante, orientaram corretamente, cuidaram, acarinharam. Eu sei que foi tudo isso e mais: agulhas, incensos, coisas naturais. E o mais importante: apontaram-me o caminho do MOA, entidade de japoneses que trabalham com imposição de mãos. Hoje sou uma outra pessoa, vou nos lugares onde sempre fui, sempre gostei de ir - os shows, o SESC, vou atrás de ingresso, etc. Enfim, acho que eu encontro energia para todo esse processo de cura nas pessoas que torcem por mim. Sinto que ainda estou desorganizada, mas sinto também que estou bem, graças a Deus. O fato é que depressão hoje eu não tenho - e não pretendo nem admito voltar a ter, custe o que custar, seja qual for o preço a pagar, até mesmo me afastar dos problemas que a causam. Nem mesmo uma pneumonia, não sei como contraída nesse período, nem a internação, ou a cirurgia, nada, nada, felizmente, serviu para provocar uma regressão naquele momento de melhora. E também me ajudou muito a fé. Porque eu fui a Aparecida e rezei: “Olha, essa não sou eu. Eu não me reconheço, eu não sou essa pessoa. Eu estou essa pessoa. Mãezinha, me ajude, me ajude!” E aí veio aquele momento em que eu, finalmente, pude dizer: “Estou curada!” Comecei então a fazer tudo, tudo o que eu fazia antes.


Se vocês conhecerem alguém com depressão, deem um abraço, ouçam essa pessoa, deem carinho, e não duvidem. (...) Eu só não pensei em me matar, mas assim… Acho que eu já estava morta.


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